terça-feira, dezembro 30, 2008

Hellboy - o Exército Dourado

Nunca li as histórias em quadrinhos de Hellboy, mas vi o primeiro filme do personagem, lançado em 2004, e o fato é que gostei, de modo que, ao ter notícia de que estava saindo do forno o segundo episódio, registrei logo na minha agenda a intenção de vê-lo. Ainda mais curioso fiquei ao saber que quem assinava a direção era o mexicano Guillermo del Toro, responsável por A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006), duas extraordinárias produções espanholas que apostam no bizarro e na fantasia inseridos em cenários realistas - não chegaria a classificá-los de "cinema alternativo", mas é uma surpresa que o diretor de ambos seja versátil ao ponto de também assumir a frente de produções hollywoodianas de aventura. Soube também que Del Toro já havia dirigido o primeiro Hellboy, fato esse no qual não me liguei quando o vi.


Nesse segundo filme, o excelente Ron Perlman (o monge corcunda de O Nome da Rosa e um dos guerreiros pré-históricos de A Guerra do Fogo) volta ao papel do herói Hellboy, ou "Anung un Rama", seu nome verdadeiro. Sua origem, mostrada no primeiro filme, é como segue: nos dias da Segunda Guerra Mundial, um grupo de ocultistas a serviço da Alemanha nazista (Hitler realmente tinha um enorme interesse por ocultismo, ao ponto de ter assessores exclusivamente dedicados a pesquisar esse campo) realiza um ritual que abre uma brecha entre a Terra e o inferno, esperando conseguir um poder que garanta sua vitória na guerra. Uma missão dos Aliados chega a tempo de impedir que o processo se complete, mas "algo" escapa de lá para cá: um "demônio-bebê" de pele vermelha, chifres, cauda longa, e cuja mão direita, gigantesca, é feita de pedra. A bizarra criaturinha ganha dos soldados o apelido de Hellboy (o "Garoto do Inferno"), é adotada por um dos integrantes da missão, o cientista Trevor Broom, e educada como uma criança humana.

Sendo um demônio, Hellboy naturalmente não envelhece no mesmo ritmo que um ser humano, de modo que atinge o apogeu de sua força cerca de 60 anos depois de vir parar na Terra - ou seja, mais ou menos nos dias de hoje. Por esse tempo, virou um gigante de bem mais de dois metros de altura (a enorme mão de pedra finalmente tornou-se proporcional ao resto), força e resistência prodigiosas, apetite insaciável e coração de ouro: adora crianças, animais, e seu senso moral é o de um escoteiro. Integra o "grupo de choque" do Departamento de Defesa e Pesquisa Paranormal, que se dedica a combater ameaças sobrenaturais, sob a coordenação de seu pai adotivo, o Prof. Broom, e tendo como companheiros a namorada, a pirocinética Liz Sherman (Selma Blair - ver os dois lado a lado lembra irresistivelmente o conto de fadas A Bela e a Fera) e o melhor amigo, o homem-peixe Abraham "Abe" Sapien (Doug Jones).

O segundo filme começa com um flash de uma história lida pelo Prof. Broom para Hellboy quando este ainda era criança - a história de uma guerra entre os seres humanos e as criaturas mágicas, lideradas pelo rei elfo Balor, e que teria tido lugar muitos séculos atrás. Por encomenda do rei, um mestre-ferreiro goblin construiu um exército de golems (algo como robôs animados por magia ao invés de eletrônica), 70 vezes 70 guerreiros dourados gigantescos e indestrutíveis, impossíveis de serem detidos. Sob as ordens de Balor, o Exército Dourado causou tamanha carnificina entre os humanos, que a guerra parou: os homens estavam demasiado aterrorizados, e o rei elfo, por demais arrependido. Celebraram então um acordo, pelo qual os homens ficariam com as cidades, e os elfos e demais seres mágicos, com as florestas. Balor fez uma coroa mágica e a dividiu em três partes, guardando duas e dando uma aos humanos como penhor da trégua: só com a coroa completa seria possível comandar o Exército Dourado, que, até ser novamente chamado, ficaria dormindo sob a terra. Contudo, o filho do rei, o príncipe Nuada Lança-de-Prata, não aceitou isso, porque não confiava nos humanos, e partiu para o exílio, jurando voltar no dia em que seu povo mais precisasse.

E aparentemente, Nuada (Luke Goss) é de opinião que esse dia chegou, pois agora, em nossa época, ele está de volta e disposto a fazer o que for preciso para reunir as três partes da coroa, e a última coisa com que se importa é quantos humanos terá de matar para isso - pois afinal, se conseguir seu objetivo, será mesmo para varrer de uma vez por todas nossa espécie da face do planeta. O pior é que não podemos deixar de dar certa dose de razão ao príncipe elfo: "Os humanos esqueceram os deuses, destruíram a terra, e para quê? Estacionamentos, centros comerciais! A ambição criou um vazio no coração deles que nunca será preenchido. Eles nunca terão o bastante! (...) Eu voltei do exílio para começar uma guerra, e reclamar a nossa terra, nosso direito!" Nuada, sob um certo ponto de vista, tem motivações justas, que lhe conferem algum grau de complexidade e o fazem, de longe, o personagem mais interessante do filme: não há nada pior que um vilão que só está ali porque toda história precisa de um vilão, mesmo que seja um que de vez em quando dá uma olhadinha para a câmera e diz: "Hehehe... Como eu sou mau!" Graças a Nuada, Hellboy II está livre de pagar esse mico.



E, claro, para fazer o que pretende, o príncipe terá que enfrentar o pessoal do Departamento, sendo que, desta vez, Hellboy, Liz e Abe contam com o reforço do Dr. Johann Krauss, um homem cujo corpo foi totalmente destruído, restando um ser feito exclusivamente de ectoplasma, o material hipotético de que seriam feitos os fantasmas. Não há surpresas da parte do grupo de heróis, a menos que se considere o que acontece com Abe, o homem-peixe de fala calma e gestos comedidos, cultíssimo, apreciador de literatura e música clássica, que sempre foi o cérebro da equipe, enquanto seu amigo Hellboy responde pelos músculos. Apaixonado pela princesa Nuala (Anna Walton), irmã do vilão, Abe se vê as voltas com sentimentos desconhecidos, que o levam a agir de maneiras que teria considerado inimagináveis em qualquer outra situação. Por conta disso, algumas cenas são bem engraçadas, e outras, dramáticas, embora de uma maneira manjadíssima.

No mais, é interessante assistir a este filme tendo em mente quem é o diretor, quando já se conhece e admira o trabalho de Del Toro. Ele também assina o roteiro, em parceria com Mike Mignola, veterano argumentista de quadrinhos e criador de Hellboy. O enredo, envolvendo a interação entre a humanidade e um mundo oculto habitado por criaturas fantásticas, faz lembrar O Labirinto do Fauno, assim como o visual das cenas em que esse mundo é mostrado - dando-se um desconto para o fato de que, aqui, Del Toro conta com a tecnologia mirabolante a serviço da indústria norte-americana do cinema, enquanto no outro filme teve de se virar com um aparato bem mais modesto, e eu não chegaria a considerar esse up tecnológico uma vantagem: quando se quer mostrar criaturas fabulosas na tela, um excessivo realismo turbinado por programas de computador de última geração é antes prejudicial que benéfico. Afinal, uma criatura fantástica deveria ter um visual ligeiramente irreal. Por conta disso, o Fauno de O Labirinto... continua a me agradar muito mais que qualquer dos seres esdrúxulos que Hellboy, Abe e o Dr. Krauss encontram no Mercado Troll, numa das cenas mais extravagantes do filme.

Por mais que pareça (e, no fundo, seja) um mero filme-pipoca, sem outras ambições além de dar lucro nas bilheterias e oferecer ao espectador duas horas de diversão adrenal, Hellboy toca num ponto interessante, ao negar de forma absoluta a crença no determinismo - que, para quem não sabe, é a noção, muito difundida entre as elites intelectuais dos séculos XVIII e XIX, de que cada pessoa é exatamente aquilo que nasceu para ser, e, não importa o que aconteça, nunca será nada diferente disso. Um exemplo clássico é o romance Oliver Twist, de Charles Dickens, onde o garoto Oliver continua bom, educado e honesto, apesar de ter crescido num orfanato, exposto a tratamento desumano, e depois vivido vários meses entre ladrões e todo tipo de pilantras: a crença de Dickens era a mais aceita na época, a de que ser uma pessoa decente (ou um bandido nato) está nos genes, ou no "sangue", como se dizia então. Ou seja, o homem não seria um produto do meio, mas tão somente da genética, o que tornaria a educação, em princípio, algo bem pouco importante. Hellboy ilustra a crença contrária: a de que até mesmo um demônio, um criatura do puro mal, gerada com o único objetivo de disseminar o caos e a perversidade, pode tornar-se bom, se for educado para o bem.

Observação de última hora: acaba de chegar às locadoras o filme O Orfanato, produção espanhola dirigida por J.A. Bayona e onde Del Toro participa como produtor executivo, além de (e talvez isso seja o mais importante) emprestar seu nome para a divulgação, pois a primeira coisa que aparece nos créditos iniciais é Guillermo del Toro presenta..., o que certamente atrairá um punhado de espectadores já familiarizados com seu nome e admiradores de suas brilhantes bizarrices. Sinal de que o cara não abandonou de vez suas raízes e ainda podemos esperar mais novidades suas no campo do cinema fantástico não-Hollywood. Gostei de saber disso.

3 comentários:

Anônimo disse...

Caríssimo amigo,
Assisti ao filme neste final de semana e apreciei bastante o modo como foi conduzido. É uma versão mais romântica do primeiro, eu diria.
Tua resenha aborda pontos bastante interessantes. Continue escrevendo.
P.S.- Saudades da nossa troca de missivas. O que houve contigo?! Andas muito atarefado?! Tenho muito a falar-te.
Forte abraço,
Bianca.

covildoorc disse...

Não é à toa que os fãs de Tolkien receberam de braços abertos a notícia de que Del Toro será o diretor de O Hobbit (adaptação do livro homônimo de Tolkien).

Antes de mais nada, gostaria apenas de corrigir algo que não gostei em seu texto: Del Toro não faz "bizarrices". Faz Fantasia! Todas as suas criações (me refiro aos personagens, não às histórias) fazem referência a personagens míticos da literatura e mitologia universais.
George Lucas, sim, faz bizarrice.
Sacou a diferença? Um tem base, outro não!

Mas enfim, outra coisa importante (e que você muito bem lembrou) é a maneira como Del Toro coloca sua fantasia na telona. Diferente da maioria dos diretores, que optam por digitalizar todos os efeitos visuais do filme, Del Toro ainda usa a velha tecnica de maquetes e coisas do gênero. Isso dá muito mais realidade às imagens.
Foi a mesma técnica usada por Peter Jackson em O Senhor dos Anéis e que fez do personagem Gollum algo tão real!!!

Labirinto do Fauno já entrou para a lista dos mais clássicos filmes de fantasia da história. Será difícil alguém criar algo no mesmo estilo.

Outra coisa importante é que ele tem coragem. Labirinto do fauno usa de caracteres infantis, mas é totalmente voltado para o público adulto. Isso gera preconceito, mas o filme conseguiu vencer todos!

Hellboy também foge do gênero dos filmes baseados em HQs. Nem se compara com a trilogia do Homem Aranha e muito menos com esse novo Batman (aliás, que Batmans horríveis. Onde está Tim Burton a essa hora???)

Escrevi demais, né? Chega! hehe

Enfim... ótima resenha!!!

Mulher Atômica disse...

Eu gostei mais do primeiro, porque eu gosto de vilões clichezentos. E também porque achei o primeiro mais pitoresco, menos preocupado em agradar.
Como sou uma pessoa fã de fantasia tradicional e de fácil digestão, fiquei muito incomodada com o fato de que concordo totalmente com o ponto de vista, método e planos do "vilão"; sei que só ficava torcendo pelo Hellboy ("herói"?? rs) porque ele é muito maneiro.

Reconheço que foi brilhante do Del Toro fazer isso com o público médio americano, mas como tenho certeza de que nenhum deles sacou a parada, me pareceu desperdício.
Deu pra me entender?? rs
Em tempo: a cena da destruição do elemental é a mais linda, a mais triste e a mais tudo do filme.