terça-feira, fevereiro 16, 2010

Percy Jackson e o Ladrão de Raios

É, parece que deixei o blog abandonado por um tempo bem considerável - espero que o começo de ano atribulado que tive (detalhes no Inner Wilderness...) sirva de desculpa. A dimensão exata de todos esses meses sem mexer aqui aparece no fato de que, da última vez que postei um texto, falava sobre O Ladrão de Raios, primeiro volume da série Percy Jackson e os Olimpianos, sendo que agora volto para falar sobre o filme baseado nele. De lá para cá, já li o segundo e o terceiro volumes (O Mar de Monstros e A Maldição do Titã), que não fazem feio ao lado do primeiro: trata-se de uma série empolgante. Fui ver o filme com reservas, como costuma fazer quem já passou inúmeras vezes pela experiência de ler um livro, adorá-lo, e decepcionar-se redondamente ao ver a história transposta para a tela. Felizmente, não foi o que aconteceu desta vez!

Claro que muitas coisas legais do livro foram deixadas de fora para tornar a história mais ágil na tela, mas isso é inevitável - não podemos esquecer que literatura e cinema são linguagens diferentes. Senti falta, especialmente, das aparições dos deuses Dioniso (o mal-humorado diretor do Acampamento Meio-Sangue) e Ares, cuja intervenção durante a primeira aventura de Percy e seus amigos deu origem a vários dos momentos mais emocionantes do livro, isso sem falar da filha de Ares, a encrenqueira e briguenta Clarisse... Porém, gostei da atuação do trio central, formado por jovens atores que eu não me lembro de ter visto antes: Logan Lerman (Percy), Brandon Jackson (Grover) e Alexandra (olha só!!) Daddario (Annabeth - OK, Daddario é linda, mas o livro não diz especificamente que Annabeth é
loira?!). Aliás, esqueci de comentar algo ao falar do livro: Annabeth é tida como filha de Atena, que, de acordo com a mitologia, era uma deusa eternamente virgem; será que ela reconsiderou essa decisão ao longo dos últimos 2500 anos? No mais, parece que os responsáveis pela adaptação optaram por dar um upgrade na idade dos três: de acordo com o livro, Percy teria 12 anos nessa primeira história, Annabeth talvez uns 13, e Grover, se não me engano, 29 - para um sátiro, pré-adolescente também! No filme eles parecem alunos do ensino médio, chegando inclusive a dirigir (nos EUA, pode-se tirar carteira de motorista aos 16 anos). Nos últimos minutos do filme, até chega a parecer que Lerman e Daddario vão finalizar com um beijo "cinematográfico", mas felizmente o ato (que teria estragado completamente a relação ambígua que Percy e Annabeth têm nos livros) não se concretiza, o que deixa a esperança de que a história dos dois seja levada com a sutileza devida nos próximos filmes.

Sendo o filme estrelado por atores iniciantes, é surpreendente a verdadeira constelação de nomes consagrados que aparecem em papéis menores: Kevin McKidd, da magnífica série
Roma, é Poseidon, deus dos mares e pai de Percy, enquanto Zeus é interpretado por Sean Bean, que foi Boromir em O Senhor dos Anéis e Ulisses (Odisseu, se preferirem) no desastroso Troia. Já o Sr. Brunner, o professor cadeirante que depois revela ser na verdade o sábio centauro Quíron, é ninguém menos que Pierce "Bond, James Bond" Brosnan. Até Uma Thurman faz uma aparição como Medusa (!). Tem ainda a não tão consagrada Rosario Dawson, de Alexandre, no papel de Perséfone, esposa do senhor do mundo dos mortos, Hades.

Infelizmente, o filme perpetua um dos equívocos mais persistentes no que se refere à visão que o mundo moderno tem da mitologia grega: a teimosa tendência de identificar esse mundo dos mortos governado por Hades (às vezes, o próprio lugar também é chamado pelo nome do deus: "o Hades") com o inferno tal como concebido pelas três religiões monoteístas. Quando Percy, Grover e Annabeth entram nos domínios de Hades, o que encontram é um mundo cheio de fogo e, mesmo assim, sombrio, habitado por almas desesperançadas... Na verdade, na concepção dos antigos gregos, o Hades, em si mesmo, não era um lugar de castigo - nem tampouco de recompensa: havia, de fato, os Campos Elíseos, onde os mortais de quem os deuses gostavam (é importante frisar isso: os
de quem os deuses gostavam, o que é muito diferente de os bons) gozavam de uma eternidade despreocupada e feliz, e também o Tártaro, onde as almas de grandes criminosos expiavam seus malfeitos, mas essas eram exceções: a vasta maioria dos mortos ia para o Hades simplesmente porque precisava passar a eternidade em algum lugar, mas não recebia prêmio ou castigo de qualquer tipo. E Hades, o deus, aparece no filme como um tirano cruel que chega a se transformar num demônio enorme e flamejante com asas de morcego... Na verdade, a mitologia (e os livros de Rick Riordan) apresentam-no como um soberano severo, sim, mas não maligno, e definitivamente sem nada a ver com o diabo das religiões monoteístas. Porém, a ideia parece estar muito enraizada, e os realizadores do filme a acataram para facilitar a compreensão (mesmo que seja uma compreensão errada) para o público que, em sua maioria, não conhece a mitologia.

Temos que encarar a realidade de que, por mais sucesso que o filme faça (e tem tudo para fazê-lo), a maior parte do público vai vê-lo, divertir-se durante 105 minutos, comer bastante pipoca, comentar com os amigos na saída do cinema, e esquecê-lo; mas mesmo que, de cada cem espectadores, apenas um ou dois fiquem curiosos, vão procurar o livro e o leiam, isso já terá sido um grande serviço prestado por Rick Riordan e pelo diretor Chris Columbus à cultura da humanidade. Porque aí poderá estar nascendo em algumas jovens cabeças do século XXI um interesse renovado pela mitologia e pela cultura clássica em geral, que, quem sabe, ajude a impedir que essa pedra angular da cultura ocidental acabe esquecida, soterrada pelas toneladas de lixo que a indústria cultural (?) de nosso tempo produz e distribui diariamente, e que milhões de pessoas consomem por não terem tido a oportunidade de saber que existem coisas muito melhores.

Para concluir, uma enquete que me veio à cabeça quando fui ver o filme: qual a pior coisa sobre ir ao cinema quando você precisa encarar uma sala de shopping (na eventualidade de você querer ver um filme que dificilmente vai passar nas salas da Casa de Cultura)? 1) Pessoas (geralmente é um casal) que deixam para decidir no guichê da bilheteria qual filme vão ver, aparentemente sem se dar conta de que há uma longa fila atrás delas e de que faltam três minutos para a sessão começar; 2) Pessoas que esquecem de desligar o celular; 3) Pessoas que esquecem de desligar o celular e o
atendem quando o maldito aparelho encasqueta de tocar durante o filme; 4) Sala com corredor de entrada em linha reta: como os funcionários do cinema sempre esquecem a porta aberta, a luz do lado de fora incide direto na tela até alguém se dar conta do problema, o que pode acontecer só depois de um terço do filme já ter rodado. Votem...

2 comentários:

Mulher Atômica disse...

Me revolto com o tratamento ao Hades me revolto me revolto me revolto [2].
Eu adorei o livro, mas nem tive tempo ainda de ver o filme. Gostei da sua resenha.
E o mais irritante no cinema pra mim é quando senta perto de mim algum engraçadinho cético que fica 'mas isso é impossível de fazer', 'que filme mais impossível' e 'ah tá que ele conseguiu fazer isso'. Motivo número um pelo qual prefiro mil vezes assistir filmes em casa.
Parabéns pelo blog!

Rafael Corrêa disse...

Eu, sinceramente não gostei do filme, porque, diferente dos filmes do Harry Potter (que eu pessoalmente adoro), este filme muda a história contada no livro, e muito por sinal, mas tirando este fato, o filme é bom, efeitos especiais, atuação, e tudo mais.

Ah é,já ia esquecendo,tu esqueceu de mencionar os adolescentes gritando no fundo no meio do filme... isso é realmente irritante.

Abraço
Rafa