domingo, janeiro 23, 2005

Alexandre


Ontem, sábado, fui ao cinema ver Alexandre, de Oliver Stone. Suponho que devamos agradecer a Ridley Scott e a seu excelente Gladiador pelo fato de os filmes épicos (um gênero que, poucos anos atrás, qualquer um teria dito que estava morto) terem voltado com força total, o que eu, pessoalmente, considero um acontecimento muito feliz, embora, claro, a qualidade dessas produções varie, de modo que tivemos desde os ótimos Gladiador e Rei Arthur até aberrações como Tróia... Mas vamos ao que interessa.

A primeira coisa que ficou evidente após os primeiros 30 ou 40 minutos assistindo a Alexandre foi que ele dificilmente irá se tornar um campeão de bilheteria, pois não tem os ingredientes que tornam um filme palatável para o grande público - durante a exibição, várias pessoas se levantaram e foram embora. Trata-se de um filme bastante pesado, intenso (o espectador comum dirá simplesmente que é chato), e, para completar, a impressão que tive foi de que quem já não conhecesse previamente ao menos as linhas gerais da trajetória do rei da Macedônia dificilmente entenderia muito bem o que a tela estava mostrando. É óbvio que houve pesquisa séria, e, historicamente, o filme é bastante acurado, o que foi um alívio constatar, pois assim, mesmo que o filme não acrescente muito, pelo menos não fará ninguém sair do cinema com noções absurdas. Sabe-se que Alexandre tinha como seu principal herói Aquiles, de quem se acreditava descendente, e confesso que eu estava com fortes receios de que o Alexandre de Colin Farrell se mostrasse digno do Aquiles de Brad Pitt, mas, graças aos "deuses", não foi o que se viu - não graças ao desempenho de Farrell, que não se mostra à altura do papel, mas, de todo jeito, se Alexandre não é um filme brilhante, também não decepciona.

Uma coisa que se deve elogiar é o fato de o filme ter captado com eficiência alguns detalhes sutis mas importantes a respeito do personagem, particularmente seu relacionamento complicado com seus pais e a educação esmerada que recebeu. Pessoalmente, eu gostaria de ter visto o momento em que, ao receber a notícia de mais uma vitória militar de seu pai, o rei Felipe, Alexandre, ainda menino, ter-se-ia voltado para seus companheiros e lamentado: "Meu pai vai conquistar tudo, meninos, e não deixará para nós nenhum feito grandioso!" O que geralmente chama a atenção das pessoas nesse caso é a ambição demonstrada pelo jovem príncipe; a mim, o que mais impressiona é o fato de ele não ter dito "para mim", e sim "para nós", mostrando seu desejo de que seus companheiros de brinquedos de então viessem a ser, no futuro, seus seguidores nos grandes feitos que esperava realizar, pois estava perfeitamente ciente de que, sozinho, nada conseguiria fazer. É essa a maneira de pensar de um verdadeiro líder.

Comentei que o filme mostra a educação cuidadosa dada ao jovem Alexandre, mas aí existe um senão: em certo momento, seu mestre, Aristóteles (interpretado por um envelhecido Christopher Plummer) declara que "apesar de pertencerem a uma raça inferior, os persas governam quatro quintos do mundo conhecido". "Raça inferior"?! Depois dessa, fiquei antevendo a hora em que o velho sábio de Estagira iria bater os calcanhares e gritar "heil Hitler!" Não vou tentar exibir conhecimentos que não tenho, pois ainda não li as obras de Aristóteles e não sei se uma afirmação dessas encontraria respaldo nelas, mas, à luz de tudo o que sei sobre o pensamento greco-romano, ela é muito estranha. Para os romanos, pelo menos, racismo era um conceito alienígena - e, como eles herdaram boa parte de suas crenças e convicções dos gregos... Não quero dizer com isso que o modo de pensar deles pudesse ser considerado politicamente correto nos dias de hoje; embora não classificassem os seres humanos em superiores e inferiores pela raça, os romanos praticavam o culturalismo, que, para olhos modernos, é quase tão condenável quanto o racismo: a superioridade, para eles, não estava na cor da pele ou dos olhos, mas na educação que a pessoa recebesse. Um homem podia ser negro retinto e ter nascido numa palhoça em qualquer savana empoeirada da África: desde que tivesse uma boa educação clássica e aprendesse a portar-se como um verdadeiro "cidadão", nenhum romano esclarecido se recusaria a tratá-lo como um igual. É verdade, porém, que isso pode dever-se ao fato de os romanos terem tido muito mais contato com povos e culturas exóticas que os gregos, sendo levados pela necessidade a se tornarem mais tolerantes. Agradeço se alguém que me ler puder enviar informações a respeito.

Voltando a falar do filme, achei o elenco bem irregular. Anthony Hopkins, no papel de Ptolomeu, está como sempre impecável, mas aparece pouco. Colin Farrell, como Alexandre, parece perdido e desnorteado durante a maior parte do tempo. Angelina Jolie está belíssima e, por que não dizê-lo, venenosa interpretando a ardente e manipuladora rainha Olímpia, mãe de Alexandre, enquanto Val Kilmer encarnou perfeitamente o pai, Felipe, que, apesar de ter sido um bom rei, hábil general e um dos homens mais astutos de sua época, nunca deixou de ser um tipo grosseiro - um "bárbaro", como não se cansava de dizer o célebre orador ateniense Demóstenes, seu inimigo jurado. E Jared Leto, como Heféstion, é pouco mais que uma figura decorativa, apesar da óbvia pretensão do diretor de criar polêmica em torno da discutida relação entre Alexandre e esse seu companheiro de infância - seriam eles amigos fraternos ou "algo mais"? Oliver Stone aposta no "algo mais", o que é, no mínimo, uma iniciativa corajosa.

O filme também mostra o que, segundo os historiadores antigos, causou a perdição de Alexandre: as concessões cada vez maiores que começou a fazer aos costumes orientais com que foi tendo contato ao longo de suas conquistas - concessões essas que dizem respeito tanto a sua vida pessoal quanto ao modo de agir como monarca e comandante militar. Inicialmente um homem comedido em tudo, acostumado desde a infância ao desconforto, a despeito de seu berço real, acabou adotando um modo de vida dissoluto, varando noites e mais noites em orgias e bebendo quantidades enormes de vinho, o que acabaria minando sua saúde e causando sua morte antes de completar 33 anos. Já no relacionamento com seus seguidores, o discurso do general Clito pouco antes de ser assassinado pelo rei num acesso de cólera (essa cena é histórica) traduz perfeitamente o descontentamento que foi crescendo entre os guerreiros de Alexandre: "Lembro-me do tempo em que conversávamos olho no olho, como homens; agora temos que implorar a funcionários estrangeiros para ter uma palavra com nosso próprio rei!" De fato, Alexandre, que começara sendo tão amado por seus soldados exatamente porque eles sentiam que ele era, antes de mais nada, um deles, passou a distanciar-se cada vez mais de seus homens, exigindo, inclusive, que todos o saudassem com o tradicional ato da prosternação. Para os persas e outros asiáticos, isso era uma simples regra de etiqueta, perfeitamente natural quando em presença da realeza; já para macedônios e gregos, acostumados a tratar em pé de igualdade com seus líderes, ajoelhar-se diante de um homem, rei ou não, era visto como uma grave indignidade.

Apesar dos defeitos que tem, e dos quais o maior é o próprio Colin Farrell, o filme de Stone, visualmente, beira a perfeição - a cena em que Alexandre enfrenta um elefante de guerra nas florestas da Índia vai ficar impressa em minha mente até o fim dos meus dias, e o predomínio dos tons vermelhos nas tomadas seguintes parece dizer que, depois de tão terrível batalha, tudo parecia, aos olhos de Alexandre, estar envolto numa névoa de sangue. Também merece ser destacada a parte que mostra o esforço desesperado de Alexandre e seus comandantes para evitar que os soldados entrassem em pânico diante de uma carga de elefantes - monstros gigantescos e aterradores, dos quais, no máximo, tinham ouvido falar. Porém, de acordo com os historiadores, não foi essa a primeira vez que o exército de Alexandre enfrentou elefantes, pois o exército persa que já tinham enfrentado e vencido por mais de uma vez também os utilizava.

Detalhe curioso: junto ao leito de morte de Heféstion, tentando animar o amigo moribundo, Alexandre fala das conquistas que projeta para o futuro: depois de conquistar a Ásia, ele almeja a Europa (e quem pode dizer que não o teria conseguido, caso tivesse vivido mais vinte ou trinta anos?). Refere-se à Sicília e aos romanos, a quem considera bons lutadores, mas que tem certeza de poder conquistar. Quem diria então que, um século e meio depois, seriam os descendentes dos mesmo romanos a quem Alexandre sonhava subjugar - e que, na época dele, não passavam de uma tribo bárbara -, seriam eles a conquistar uma Macedônia fragmentada e enfraquecida, cujo último rei, Perseu, não pôde resistir a eles?

Houve dois pontos, aliás, que, muito caros a Alexandre, seriam mais tarde retomados pelos romanos. O primeiro foi o sonho de um Império universal, que unisse toda a humanidade (do mundo conhecido, claro está) sob um único governo, o que asseguraria uma paz sólida e duradoura. O outro foi a importância da disciplina militar: tanto Alexandre quanto os generais de Roma mostraram, de forma inequívoca, que um exército não tão grande, mas disciplinado e guiado por um bom plano de batalha, poderia ser capaz de derrotar inimigos três, quatro vezes mais numerosos, mas que lutavam sem qualquer plano ou método.

Para terminar meu comentário sobre o filme especificamente, posso dizer que ele pode ser uma experiência interessante para quem já leu sobre Alexandre e conhece sua história - mas quem não a conhece, não é através desse filme que irá conhecer. Durante esta semana, tentarei escrever sobre o Alexandre da História e da literatura, tal como me foi apresentado por um punhado de livros que li sobre ele.