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quarta-feira, janeiro 18, 2017

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Depois de Morte Súbita e dos romances policiais escritos sob o pseudônimo de Robert Galbraith, eis J. K. Rowling de volta ao universo de Harry Potter, nove anos depois de Harry Potter e as Relíquias da Morte, conclusão oficial da saga. Os azedos de plantão, é claro, já deram seu veredito: "ela só está a fim de ganhar mais dinheiro!" Rowling simplesmente não precisa disso: ela já tem o suficiente para assegurar uma vida mansa a todos os seus descendentes até a vigésima ou trigésima geração, com folga. Portanto, ela não está nisso pelo dinheiro – pelo menos, não mais. Se continua escrevendo, é porque gosta, e seus fãs certamente não vão reclamar.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é algo um tanto diferente. A história, escrita por Rowling em cooperação com John Tiffany e Jack Thorne, foi concebida como roteiro para uma peça de teatro, a ser dirigida por Tiffany, e que estreou (com ingressos esgotados e todo o alarde que seria de se esperar) no Palace Theatre, em Londres, em 30 de julho de 2016. O livro foi lançado no Brasil em 31 de outubro – nada mais adequado: em pleno Dia das Bruxas. Confesso que fiquei meio decepcionado ao folheá-lo pela primeira vez, pois, embora soubesse que a história teve origem no teatro, imaginava que a autora tivesse reescrito o roteiro sob a forma de romance para a publicação, mas não: o que temos no livro é o próprio roteiro. Ler desse jeito causa estranheza a quem está acostumado a acompanhar as peripécias do jovem bruxo, mas não será isso que irá impedir os potterheads (fãs apaixonados da saga) espalhados pelo planeta de devorar essa nova aventura.

A história contada na peça inicia-se 19 anos depois dos eventos narrados em Harry Potter e as Relíquias da Morte – portanto, em 2016 mesmo – e se estende alguns anos para o futuro. Harry está agora com 37 anos de idade, trabalha no Ministério da Magia (para ser exato, é chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia), está casado com Gina Weasley e tem três filhos: Tiago, Alvo e Lílian (a tradutora Anna Vicentini teve que seguir o controverso sistema de nomenclatura adotado por Lia Wyler, que traduziu os sete volumes anteriores e tinha por hábito traduzir nomes próprios e até mesmo – sei lá com qual critério – rebatizar certos personagens). Tiago, o mais velho, e a caçula, Lílian, foram batizados em homenagem ao pai e à mãe de Harry, e parecem ser filhos perfeitos. A ovelha negra da família é o do meio, Alvo Severo Potter. Seu primeiro nome homenageia o lendário diretor da não menos lendária Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore; o segundo, Severo Snape, o professor que Harry odiou durante sete anos, só para descobrir ao final que, na verdade, o homem era um herói. A peça começa quando Alvo está indo para Hogwarts pela primeira vez, junto com sua prima Rosa – filha de Rony Weasley, irmão de Gina e melhor amigo de Harry desde sempre, e de Hermione Granger, outra grande amiga e aluna mais brilhante de Hogwarts em sua época. Rosa é de opinião que, na viagem de um dia inteiro de trem até a escola, ela e Alvo, a exemplo do que aconteceu com seus pais, poderão ter a chance de fazer as amizades que irão influenciar seus destinos pela vida afora, e mais, também acredita que, por serem quem são, todos vão querer ser amigos dos dois, de modo que poderão escolher à vontade. Para a decepção da garota, o único amigo que seu primo faz é Escórpio Malfoy… Por ironia, filho de Draco Malfoy, arqui-inimigo de Harry durante toda a vida escolar de ambos.

(Toda vez que eu lia o nome Escórpio, era impossível não pensar na arma de cerco romana.)

As surpresas não param por aí. Na cerimônia de seleção, na qual o Chapéu Seletor decide para qual das quatro casas de Hogwarts cada novo aluno será mandado, Alvo acaba sendo designado para a Sonserina, que foi desde sempre a casa dos Malfoy, além de ter sido a de Tom Riddle, antes de ele se tornar o temido Lorde Voldemort. Embora isso vá lhe permitir ter a companhia de seu novo amigo quase em tempo integral, não deixa de ser um choque, pois, até onde se tem lembrança, todos os ancestrais e parentes de Alvo, pelos dois lados da família, sempre foram da Grifinória.

Seja como for, Alvo e Escórpio logo percebem que é uma sorte terem um ao outro: nenhum dos dois tem praticamente qualquer outro amigo. Alvo não demonstra talento para nada em particular, nem mesmo para o voo de vassoura, o que acaba com as esperanças que muita gente alimentava, de que ele viesse a honrar os feitos de seu pai e seu avô no campo de quadribol; Escórpio é inteligente e estudioso, mas tímido. De modo que os dois rapidamente assumem seu papel como aquele tipo de estudante que pode ser encontrado em qualquer escola, mágica ou não, esgueirando-se pelos corredores, procurando evitar ser visto, já que é presa fácil para bullies. Alvo se sente de forma oposta ao que acontecia com o pai em sua idade: enquanto Harry detestava as férias (porque tinha que passá-las com seus insuportáveis tios trouxas) e contava os dias para voltar a Hogwarts, Alvo detesta a escola, se bem que em casa não pareça se sentir muito melhor. Embora Harry se esforce por ser um bom pai, o garoto não gosta nem um pouco do fato de ser filho do famoso Harry Potter, e menos ainda de todas as expectativas que isso naturalmente cria nas pessoas – expectativas essas que, em sua própria opinião, ele sempre irá frustrar.

Todavia, por pior que Alvo ache sua vida, a de Escórpio é ainda pior. Muita gente ainda associa os Malfoy a Voldemort, de quem o avô de Escórpio, Lúcio Malfoy, foi um fiel servidor – e correm boatos persistentes de que Astória, esposa de Draco e mãe de Escórpio, foi enviada para o passado a fim de engravidar do próprio Voldemort, presumivelmente quando ele ainda era Tom Riddle, e humano o suficiente para gerar filhos. Ou seja, se esses boatos tiverem fundamento, significa que o verdadeiro pai de Escórpio é… Você-Sabe-Quem. Porém, verdade seja dita, o garoto não parece lembrar em nada o grande bruxo das trevas: segundo Alvo, Escórpio é bom, o que nenhum filho de Voldemort poderia ser; já segundo Draco, ele é por natureza um seguidor, e não um líder, o que tampouco combina com uma possível ascendência "voldemortiana". E há mais: se Astória tivesse viajado ao passado, só poderia ter sido por meio de um viratempo, um dispositivo mágico capaz de realizar esse feito – e todos os viratempos de cuja existência se tinha conhecimento estavam guardados no Ministério, onde foram destruídos durante uma batalha entre Comensais da Morte (os servos de Voldemort) e os membros da Ordem da Fênix, comandada por Dumbledore; esse episódio está narrado num dos últimos livros da saga, não lembro ao certo qual. Portanto, e por vários motivos, os boatos parecem um completo disparate, o que não impede que continuem a ser um doloroso espinho na carne de Escórpio.

Os primeiros três anos de Alvo Potter em Hogwarts passam em rápidos flashes. O importante para os fins da peça é o que acontece em seu quarto ano, quando ele e seu amigo Escórpio estão com 14 – não por acaso, a mesma idade que Harry tinha ao tomar parte no Torneio Tribruxo, como sabe quem leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto volume da série. O torneio, realizado durante o ano letivo de 1994-95, terminou de forma terrível e trágica, com o retorno de Voldemort e a morte do outro campeão de Hogwarts, Cedric Diggory (a Sra. Lia Wyler que me desculpe, mas eu me nego a chamar o coitado de "Cedrico"!). Durante todo o torneio, os dois garotos haviam vivido uma relação de rivalidade e admiração mútua ao mesmo tempo, e, ao concluírem a última tarefa da competição, que daria a vitória a quem o fizesse, nenhum dos dois achou justo que o outro fosse derrotado: decidiram vencer juntos, e, para isso, pegaram ao mesmo tempo a taça da vitória – que, sem que eles imaginassem, estava enfeitiçada para levar instantaneamente quem a tocasse até a presença de Voldemort. O bruxo das trevas só estava interessado em Harry, de modo que, ao ver que havia outro rapaz com ele, displicentemente ordenou a um de seus servos que o matasse. Cedric, portanto, teve uma morte tola e desnecessária, coisa pela qual Harry jamais se perdoou – como se tivesse culpa.


Alvo, naturalmente, conhece essa história. Acontece então que, pouco antes de ele partir para seu quarto ano em Hogwarts, Harry e seus homens dão uma batida na qual estouram um covil de bruxos das trevas, e apreendem, entre outras coisas, um viratempo clandestino. O ocorrido chega aos ouvidos do jovem Alvo, enquanto o perigoso objeto fica sob custódia no Ministério – e, por falar nisso, a atual Ministra da Magia é ninguém menos que Hermione Granger (agora Granger-Weasley). Por uma daquelas coincidências fatais, Alvo também ouve uma conversa entre seu pai e Amos Diggory, o pai de Cedric, hoje um ancião solitário e inválido que vive num lar para bruxos idosos. Sabendo que Harry agora tem acesso a um viratempo, Amos implora que ele o use e volte no tempo para impedir a morte de seu filho, mas Harry, com dor no coração, tem que se recusar: de acordo com os mais conceituados teóricos da magia, o máximo que uma pessoa pode voltar no passado sem perigo de causar perturbações graves no fluxo do tempo é de cinco horas – quem pode prever as possíveis consequências de uma intervenção num fato ocorrido há 22 anos? Alvo, por outro lado, compadecido do velho, fascinado pela possibilidade de corrigir o que considera um dos erros de seu pai e sem um pingo de juízo na cabeça, decide empreender a arriscada missão. Para isso, conta com a ajuda de seu inseparável Escórpio e de uma jovem que diz chamar-se Delfine ("Delfi") e ser sobrinha de Amos Diggory, prima de Cedric. Os dois garotos fogem do Expresso de Hogwarts em plena viagem – o que, até onde se sabe, ninguém antes deles jamais conseguiu fazer, embora tenha sido tentado por transgressores legendários como Sirius Black e os gêmeos Fred e Jorge Weasley –, reúnem-se a Delfi, e os três invadem o Ministério em busca do fatídico viratempo… E, embora essas já pareçam ser façanhas notáveis, isso é apenas o começo. No decorrer da história, fica provado algo que quem, por enquanto, só leu Harry Potter talvez ainda não tenha percebido, mas que todo leitor de ficção científica sabe: que mexer no passado é extremamente perigoso, não importa se por meios tecnológicos ou mágicos. Por mais tentadora que pareça a ideia de ser testemunha ocular de grandes acontecimentos históricos ou de fazer um safári em meio a dinossauros ou mamutes, acho que, no fim das contas, é uma boa coisa que a viagem no tempo seja, por tudo o que se sabe, impossível segundo as leis da física… Embora seja verdade que já se disse o mesmo a respeito de ultrapassar a barreira do som, coisa que, hoje em dia, até meras aeronaves comerciais fazem tranquilamente.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, sem dúvida, mantém o espírito da saga; se reescrito, talvez não rendesse um romance, mas daria um conto de boa extensão e, certamente, irresistível para qualquer um dos milhões de "órfãos" que tiveram pelo menos alguns dias de depressão quando terminaram de ler o que acreditavam ser o último livro das aventuras de Harry. Além de nostálgico (inevitável…), é também empolgante rever, agora na idade adulta, aqueles personagens cuja infância e adolescência acompanhamos tão de perto. Muita coisa continua igual e muita coisa mudou. O próprio Draco Malfoy tornou-se menos arrogante, imagino que tanto por ter amadurecido quanto por causa das coisas que passou ao tentar seguir os passos do pai como um Comensal da Morte, e, levado pela necessidade de proteger o filho, aceita o que duas décadas antes teria, sem dúvida, considerado impossível: colocar-se ao lado de Harry como aliado. Talvez, até, como amigo, possibilidade que fica em aberto numa cena da peça. Senti muita falta do gentil e atrapalhado meio-gigante Rúbeo Hagrid, que só aparece em cenas que retratam o passado; não temos nenhuma notícia dele, por onde anda ou o que está fazendo na época em que se passa a ação principal. No mais, assistir a essa peça deve ser uma experiência e tanto. Há coisas que o roteiro descreve e que só podemos ficar imaginando como, em nome de Merlim, podem ser apresentadas num palco: os efeitos especiais devem ser de deixar no chinelo muita coisa que se vê no cinema (não nos filmes de HP, é claro). Quem sabe não tenhamos uma surpresa e seja anunciada uma montagem brasileira? O surgimento de um filme é inevitável, mas ainda deve demorar, e eu realmente torço para que seja um filme – não uma totalmente desnecessária "trilogia", ou coisa que o valha. É esperar pra ver.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Morte Súbita

Morte Súbita é o primeiro livro publicado por Joanne Kathleen Rowling após a conclusão da saga de Harry Potter, o megassucesso que a catapultou de uma ilustre desconhecida a escritora mais famosa do mundo e mulher mais rica do Reino Unido, superando, e por uma boa margem, a própria rainha Elizabeth II. E parece que, tendo feito nome e fortuna com a fantasia, ela sentiu a necessidade de enfrentar novos desafios, e decidiu então enfrascarse en la realidad, como diria a Mafalda: os personagens e situações dos quais Morte Súbita é feito não serão estranhos a ninguém, em quase nenhum lugar do mundo. Nas personalidades descritas com agudeza e, não raro, com crueldade (não uma crueldade deliberada; acontece que não existe uma maneira gentil de mostrar certas coisas), o leitor fatalmente reconhecerá traços de pessoas reais que conhece ou conheceu – e, se tiver a coragem da autocrítica, é provável que também reconheça, envergonhado, algum traço de si próprio.

O cenário da história (e, eu me atreveria a dizer, seu verdadeiro protagonista, mais que qualquer personagem específico) é o fictício vilarejo de Pagford, distrito do também fictício município inglês de Yarvil. Trata-se de uma comunidade do tipo que seus membros gostam de definir como "pacata e ordeira", com aquele ar interiorano que turistas e moradores mais velhos acham encantador – e os mais jovens, deprimente – e a típica beleza bucólica do interior da Inglaterra. Seu único marco notável são as majestosas ruínas de uma abadia do século XII, no topo de uma das colinas que cercam o vilarejo… E a total indiferença dos moradores em relação a essas ruínas, embora seja provavelmente o retrato da realidade, não deixou de me fazer sentir levemente ultrajado. De minha parte, estou certo de que jamais me acostumaria com o fato de morar perto de algo assim: poderia estar com mais de cem anos de idade e ter visto essas ruínas todos os dias da minha vida, ainda assim seria capaz de me sentar diante delas e contemplá-las durante horas, com aquela sensação indescritível de estar olhando para a própria História. Mas talvez isso seja apenas a visão de alguém que, além de ter essa esquisitice de ser apaixonado por História, vive num país que nem sequer teve Idade Média. Bem, chega de digressões.

A morte súbita que dá título ao livro é a de um homem com o curioso nome de Barry Fairbrother, uma figura destacada na sociedade de Pagford – um de seus "pilares", diriam alguns. Jovem ainda, a meio da casa dos 40, Fairbrother repentinamente cai morto, vítima de um aneurisma, na frente do restaurante do clube de golfe local, onde ia jantar com a esposa, celebrando seu aniversário de casamento. Essa talvez seja a principal peculiaridade do livro: o homem morre no primeiro capítulo, mas influencia os eventos da história até o final. Fairbrother, entre outras coisas, era um dos membros mais ativos do conselho distrital de Pagford, e não demora nada para que comecem a surgir candidatos para a vaga aberta com sua morte (note-se que o título original do livro não é Sudden Death, e sim The Casual Vacancy – quer dizer, 'Vacância Casual').

Mesmo num lugar tão pequeno, há sempre disputas políticas, e o principal pomo da discórdia em Pagford é o bairro conhecido como Fields. Décadas atrás, a prefeitura de Yarvil comprou parte da vasta propriedade de uma família rica e tradicional de Pagford, e criou ali o loteamento que daria origem ao tal bairro, que teve desde o início uma fama ruim entre os pagfordianos, fama essa que o tempo só piorou. Na opinião dos moradores mais tradicionais e respeitados de Pagford, Fields não passa de um antro de drogados e de gente que vive às custas do auxílio do governo, de ruas sujas, casas pichadas, quintais cheios de lixo e outros sinais de miséria que não combinam com a placidez burguesa do resto do vilarejo. Muitos gostariam que Fields desaparecesse, mas, ante a impossibilidade de solução tão radical, procuram, por todos os meios, conseguir que o bairro fique sob a tutela de Yarvil e não seja mais problema de Pagford. Porém, Fields também tem seus defensores, dos quais um dos mais dedicados e influentes era justamente o recém-falecido Barry Fairbrother, que nasceu lá. Agora, o destino de Fields, ou, pelo menos, a política que Pagford adotará em relação a ele durante os anos seguintes, poderá depender de quem venha a ocupar a cadeira de Fairbrother no conselho. E ambas as facções tratam logo de escolher seus candidatos. Do lado pró-Fields, surge Colin "Pombinho" Wall, vice-diretor de Winterdown, a escola local, e um dos amigos mais próximos do falecido; do lado anti-Fields, é indicado o advogado Miles Mollison, filho de Howard Mollison, também membro do conselho e, durante anos, adversário encarniçado de Fairbrother nesse assunto.

A eleição do novo conselheiro distrital é o eixo em torno do qual orbita a narrativa, mas uma série de outras tramas se entrelaçam, direta ou indiretamente, nessa. Há muitos personagens, o que faz o leitor se perder algumas vezes, mas logo nos familiarizamos com eles e fica mais fácil acompanhar, principalmente depois que aprendemos quem está relacionado a quem e de que forma; há várias famílias em cena, e cada membro delas tem seus próprios problemas, motivações e pensamentos. À primeira vista, parece que a autora está sendo implacável com seus personagens, e, por tabela, com as pessoas que os inspiraram (pois é óbvio que foi assim que o processo criativo funcionou), mas, conforme vamos lendo, percebemos que não é bem assim: é o que eu dizia sobre a crueldade não deliberada, lá no início do texto. Rowling simplesmente mostra as coisas tal como elas são e as chama pelo nome que têm, sem racionalizar (embora muitos personagens façam isso o tempo todo) ou lançar mão de eufemismos. Se isso faz seus personagens parecerem, em sua maioria, patéticos e mesquinhos, bem… Talvez seja porque a maioria das pessoas de carne e osso é assim, mas não sejamos tão azedos: muitas delas também têm um lado bom. Não todas. Há personagens com os quais somos levados a simpatizar (ou, ao menos, a nos compadecer deles), como Colin Wall, um homem cujo passado esconde um segredo terrível, e que parece estar procurando fazer a coisa certa como uma forma de se redimir, mas é prejudicado por uma insegurança de dar pena (como alguém assim pode ter chegado a vice-diretor de escola, é coisa que não consigo imaginar); outros são absolutamente repulsivos, como Samantha, a desmiolada e fútil mulher de Miles Mollison, que parece pensar que pode retardar a chegada da meia-idade comportando-se como uma adolescente birrenta, e adora fazer pequenas maldades, geralmente colocando de propósito outras pessoas em situações embaraçosas. A autora entra na mente de todos os personagens e expõe ao leitor, de forma crua, todos os seus orgulhos tolos, mágoas ridículas e motivações tacanhas. Acho particularmente doloroso, em especial por ser (também) um retrato da realidade, ver que a grande maioria dos jovens não guarda sequer o mais longínquo traço de respeito por seus pais ou professores – ainda que alguns pais que aparecem no livro não façam mesmo por merecer. Isso não me deixa nada otimista quanto ao futuro da sociedade em geral.

Barry Fairbrother, aparentemente, era a melhor pessoa de Pagford, caracterizado pelo bom humor, pelo altruísmo e por uma reserva inesgotável de autoconfiança (é verdade que, quando uma pessoa acaba de morrer, todo mundo parece sentir um impulso de falar bem dela). Além de lutar para que Fields continuasse pertencendo ao distrito, ele tinha especial interesse em manter funcionando a clínica Bellchapel, que trata dependentes químicos – dos quais Fields, inegavelmente, está cheio – e cujo fechamento também está na pauta de Howard Mollison e seus aliados. Entre suas muitas atividades destinadas a beneficiar o próximo, Fairbrother também era técnico de uma equipe feminina de remo, formada por alunas de Winterdown, garotas que ficaram meio órfãs com sua morte. Uma delas em particular, Krystal Weedon, sente-se mais que meio órfã, já que Fairbrother parecia ser o que ela conhecia de mais parecido com uma figura paterna. Krystal mora em Fields com um irmão pequeno e a mãe, Terri, uma viciada barra-pesada que já passou diversas vezes pela clínica e sempre recaiu – e enfrenta todas as agruras dessa situação. No decorrer da história, Krystal se envolve (leia-se "começa a transar de forma inconsequente") com um garoto conhecido como "Bola" Wall – um apelido irônico, já que ele é bem magro –, considerado por muitos como o cara mais "descolado" da escola. Bola é filho do vice-diretor Colin Wall e da orientadora educacional Tessa, e um dos piores elementos a frequentarem Winterdown atualmente. Não que se rebaixe a ser um arruaceiro comum: suas maldades são engenhosas e sempre terminam com ele saindo incólume. Especial prazer Bola sente em atormentar Sukhvinder Jawanda, outra das remadoras da equipe de Fairbrother e filha de um casal de médicos paquistaneses que residem em Pagford, sendo que a mãe também integra o conselho distrital. Sukhvinder talvez seja a personagem mais digna de compaixão no livro: embora sua família seja próspera e benquista no vilarejo, a garota sofre tanto com as cobranças implacáveis da mãe no tocante aos estudos (ela tem dislexia, mas a mãe a considera simplesmente preguiçosa) quanto com a perseguição de certos colegas por causa de sua aparência pouco atraente. Bola, o pior de todos, mostra-se incansável e surpreendentemente criativo quando se trata de humilhar Sukhvinder, e, é claro, isso faz com que seu fã-clube o admire cada vez mais.

Desse fã-clube faz parte Andrew Price, que, além disso, é o melhor amigo de Bola. Andrew não parece achar tanta graça no que Bola faz com Sukhvinder, mas não move um dedo para defendê-la, já que isso significaria ser "do contra" e arriscar-se a perder a aceitação do grupo – o pior pesadelo de um adolescente. De alguma forma, ele entende o que a garota passa, pois não é tão diferente do que ele próprio, sua mãe e o irmão mais novo vivem em casa: o pai de Andrew, Simon Price, gerente de uma gráfica, é um completo idiota, que mantém a mulher e os filhos sob um estado de terror perene, com constantes humilhações e ameaças. Quando Simon mete na cabeça que também vai lançar uma candidatura à vaga no conselho, Andrew considera isso a gota d'água e decide sabotar os planos do pai. Como fará isso? Só adianto que tem a ver com as maravilhas da internet, um universo ainda misterioso para os mais velhos, mas pelo qual os adolescentes transitam tão à vontade quanto peixes na água. E que a sabotagem de Andrew vai iniciar uma reação em cadeia, que dará muito mais pano para as mangas do que ele alguma vez imaginou.

Em outro departamento de sua vida, Andrew está completamente fascinado (até aquele ponto em que um rapaz fica um tanto abobado) por uma nova e linda colega, Gaia Bawden, que acaba de se mudar de Londres com a mãe e, vejam só, por mais improvável que isso pareça, faz amizade não com as garotas bonitas e populares, mas justamente com a tímida e feiosa Sukhvinder Jawanda. A mãe de Gaia, Kay Bawden, calha de ser a assistente social encarregada do acompanhamento da família Weedon… Coisas de cidade pequena. O que levou Kay a mudar-se de Londres para Pagford foi seu affair com Gavin Hughes, um jovem advogado que trabalha com Miles Mollison, era amigo de Barry Fairbrother, e, desde a morte dele, parece estar desenvolvendo um novo tipo de interesse por sua viúva, Mary, a quem ajuda com as providências legais para o recebimento do seguro de vida do marido…

Eu poderia ir muito mais longe pulando de personagem em personagem, mas não acho necessário; isso já é uma amostra suficiente do tremendo emaranhado de relações e interações que faz parte de Morte Súbita. Um emaranhado capaz de desnortear completamente um narrador menos hábil, o que transformaria a trama numa bagunça, mas J. K. Rowling não deixa em momento algum que as rédeas lhe escapem das mãos. Sua técnica narrativa, que era apenas mediana nos primeiros volumes de Harry Potter, e já havia evoluído muito nos últimos, parece estar em contínuo aperfeiçoamento, garantindo que o leitor fique preso página após página, mesmo que o tema seja banal se comparado àquilo que estávamos acostumados a receber dela. Embora todos nós saibamos (e ela própria, sem dúvida, melhor que ninguém) que o estigma de "autora de Harry Potter" irá acompanhá-la até o túmulo e muito além, Rowling parece determinada a explorar outras searas e a procurar não ficar marcada como autora de um sucesso só, de modo que ficamos, desde já, curiosos pelo que mais pode estar vindo por aí.

sexta-feira, março 30, 2012

Jogos Vorazes

Mais uma vez, muita gente vai torcer o nariz para uma coisa legal só porque ela está bombando na mídia – fala-se de Jogos Vorazes como uma "nova grande franquia", no rastro de Harry Potter ou Crepúsculo, o que significa que a indústria cultural está contando com ele para faturar os tubos, não só com livros e filmes, mas com todo tipo de memorabilia imaginável e com uma fornada de imitações mais ou menos óbvias, e isso será suficiente para que muitos nem sequer levem a sério a possibilidade de lê-lo. Como continuo acreditando que nenhum "dogma" deve ser colocado acima do julgamento individual, pus os preconceitos de lado e li.

E, vejam só, o que concluí foi que, se Jogos Vorazes vier mesmo a se tornar uma febre como aqueles outros, será preciso reconhecer que a autora Suzanne Collins visou – e acertou – um alvo bastante diferente do de suas antecessoras. Harry Potter, embora, em seus volumes finais, tenha-se permitido lidar com climas pesados e tratar de questões bastante sérias, começou de uma maneira leve, quase infantil mesmo – como escrevi em outro post, J. K. Rowling apostou em que uma geração de leitores amadureceria junto com o herói. Crepúsculo, por sua vez, é uma releitura romantizada dos vampiros do folclore e da literatura gótica. Nada disso se aplica a Jogos Vorazes. Há romance, sim, mas ele não é a mola propulsora da história. Trata-se de um universo bem mais sombrio e de um enredo bem mais cru e brutal que o de qualquer "grande franquia" que tenhamos visto recentemente. Uma aposta num público diferente?

Estamos alguns séculos no futuro. No local onde antes existiam os Estados Unidos da América, há agora um país chamado Panem, governado pelo Capitólio (no original, "the Capitol", que na tradução virou "a Capital"... Tradutores sem cultura me tiram do sério) e formado por doze distritos designados simplesmente por números. Os cidadãos do Capitólio vivem uma vida despreocupada e de abundância material, enquanto os habitantes dos distritos trabalham duramente para garantir a sobrevivência – uma sobrevivência bem mais magra e penosa em alguns deles do que em outros: aparentemente, os distritos são numerados de acordo com uma ordem, dos mais ricos para os mais pobres. Cada distrito exerce uma atividade principal: agricultura, pesca, mineração e assim por diante. Sabe-se que, décadas antes do início da história, houve uma guerra na qual os distritos, que então eram em número de 13, tentaram libertar-se do domínio do Capitólio. Doze deles foram subjugados, e o último, destruído por completo. A partir daí, o Capitólio promove anualmente os Jogos Vorazes – um evento para o qual cada distrito é obrigado a enviar um casal de jovens, de 12 a 18 anos, que serão colocados em uma imensa arena a céu aberto, onde lutarão entre si até que apenas um reste vivo. Esse retorna rico e famoso ao seu distrito, para servir (conforme a propaganda oficial) como uma "lembrança da benevolência e generosidade" do Capitólio. Detalhe: a competição, ou antes, a carnificina, é transmitida ao vivo, em rede nacional, pela televisão. Esses jovens recebem o nome de "tributos". Enquanto, na maioria dos distritos, é necessário um sorteio geral entre toda a população capaz dentro da faixa etária visada, nos distritos mais ricos, notoriamente no 1 e 2, existem os assim chamados "carreiristas", que são treinados intensivamente durante anos e, ao completarem 18, oferecem-se como voluntários. Desnecessário dizer que são quase sempre esses que vencem.

A heroína narradora é Katniss Everdeen, uma garota de 16 anos que vive no Distrito 12, onde a atividade econômica predominante é a extração de carvão. O pai de Katniss morreu cinco anos antes, numa explosão na mina onde trabalhava; a mãe caiu numa espécie de estupor causado pela depressão, ficando durante meses sem falar ou fazer coisa alguma, o que forçou Katniss, então com onze anos de idade, a, nas suas próprias palavras, assumir a liderança da família, tendo que, de algum modo, garantir sua própria sobrevivência, a da mãe e a da irmã, Prim, de sete anos. Felizmente, o Sr. Everdeen não era apenas um mineiro, mas também um homem que sabia como mover-se numa floresta, caçar e coletar plantas comestíveis ou medicinais, e, antes de morrer, teve tempo de ensinar um pouco disso à filha mais velha. Daí em diante, Katniss passa a maior parte do tempo perambulando pela região selvagem que fica além da cerca de seu distrito, seu arco garantindo carne para a mesa de sua família e para ser trocada pelas outras coisas de que precisam. Ter sido obrigada a arcar com tanta responsabilidade cedo demais fez de Katniss uma jovem aparentemente fria e dura, acostumada a reprimir as emoções. Só Prim e, em bem menor grau, o amigo e companheiro de caçada, Gale, conseguem, uma ou outra vez, fazer com que sorria ou demonstre algum débil traço de capacidade de interação afetiva.

É nesse pé que as coisas estão quando chega o dia da "Colheita" – o sorteio dos participantes – destinada à septuagésima quarta edição dos Jogos. Pela primeira vez, não só o nome de Katniss estará na urna, mas também o de Prim, que completou 12 anos desde a edição anterior. Como crianças dessa idade não têm, na prática, a menor chance contra competidores mais velhos, muito mais fortes e hábeis, a organização dos Jogos criou uma maneira de reduzir as chances de que sejam sorteadas: as inscrições são cumulativas, quer dizer, os de 12 anos têm seus nomes inscritos apenas uma vez, os de 13, duas, os de 14, três, e assim por diante até os 18. Além disso, há um sistema de distribuição de tésseras (um sinônimo arcaico para senhas) que dão direito a pequenas rações de grãos, mas, em troca de cada uma, o jovem ou a jovem tem seu nome inscrito uma vez a mais. Embora ela própria já tenha pego muitas tésseras para afastar de casa o fantasma da fome enquanto ainda não sabia caçar muito bem, Katniss jamais permitiria que Prim fizesse o mesmo. Porém, mesmo todas as probabilidades estando contra, Prim é sorteada logo em sua primeira vez, e Katniss, sabendo que a irmã estaria indo para uma morte certa, apresenta-se como voluntária no lugar dela.

(Parêntese: lendo a narrativa a respeito da Colheita, é impossível não lembrar de outro sorteio muito parecido, o que era realizado entre os jovens de Atenas para selecionar os que seriam levados a Creta para serem devorados pelo Minotauro. Collins ganhou alguns pontos comigo com essa citação clássica indireta.)

O outro tributo do ano é Peeta (uma variação futurista de Peter?) Mellark, filho do padeiro da cidade. Como Katniss observa, a boa alimentação e o trabalho constante sovando massa e carregando pesados sacos de farinha fizeram dele um rapaz forte e bem constituído, aparentemente capaz de ter alguma chance nos Jogos. O que ela não esperava era que, além disso, Peeta também se mostrasse um ator nato, capaz de tornar impossível saber quando está ou não mostrando seus verdadeiros sentimentos, seja ao dizer-se apaixonado por ela ou ao blefar na arena. Enfim, esse sujeito se daria bem nos revoltantes reality shows do século XXI. E, de qualquer forma, com ou sem paixão, há um fato implacável pairando sobre suas cabeças: só um pode sair vivo da arena. Na improvável hipótese de os outros 22 tributos morrerem e só os dois restarem, um será obrigado a matar o outro.

Mencionar os reality shows leva-me a outro ponto: eles são sem dúvida um dos muitos elementos aos quais Collins está fazendo referência em sua obra. Uma referência, por sinal, nada lisonjeira – e, vamos ser francos, eles não merecem outra coisa. Antes de os Jogos terem início, os tributos recebem um "polimento" nas mãos de estilistas, são entrevistados na TV, apresentados ao público e tudo o mais, e precisam angariar simpatias, pois isso pode significar a diferença entre a vida e a morte na arena: os Jogos Vorazes dependem de patrocinadores, que, mediante o pagamento de quantias obscenas, podem mandar algum tipo de ajuda para seus tributos favoritos, sob a forma de alimento, remédios ou outros itens vitais durante a competição. Naturalmente, os tributos mais populares têm mais chances de receber esses donativos. E, para ganhar popularidade, o que acontece, tanto nos Jogos Vorazes quanto nos Big Brothers da vida, é que as pessoas fingem ser o que não são. Embora a palavra realidade faça parte do próprio nome desse tipo de programa, tudo parece ser uma grande armação. Nos realities reais (dãã...), os participantes são, via de regra, pessoas tão rasas, vulgares e sem qualquer traço distintivo marcante, que a produção e os apresentadores procuram grudar um rótulo berrante em cada um para que o público consiga, pelo menos, distinguir um do outro: este é o palhaço, aquele é o atleta, aquele outro é o maquiavélico, e assim por diante. Romances de ocasião também ajudam. Da mesma forma, Peeta e seu mentor, Haymitch (mentor é uma pessoa que já venceu os Jogos uma vez e agora auxilia e orienta os atuais tributos) arquitetam cuidadosamente, juntos, o romance dele com Katniss, a fim de vender a imagem dos dois como os "amantes desafortunados do Distrito 12", o que faz com que sobressaiam e atraiam a atenção do público sedento de emoção – só que Peeta, o cara enigmático, mantém tanto Katniss quanto o leitor em suspense sobre se isso tudo é teatro ou se ele realmente gosta dela. Também é fato que, tanto nos realities quanto nos Jogos Vorazes, forjam-se alianças que são necessariamente temporárias, pois, caso um grupo de aliados derrote seus adversários, não restará outra alternativa a não ser apunhalarem-se uns aos outros logo depois. A única diferença é que, na arena de Panem, o apunhalamento é literal.

Registre-se também que, como não podia deixar de ser em se tratando de uma história sobre pessoas que lutam até a morte para a diversão de outras, há citações bastante claras aos combates de gladiadores da Roma antiga, o que aparece até mesmo no fato de muitos dos habitantes do Capitólio terem nomes romanos: Caesar, Claudius, Portia, Cinna... Capitólio, aliás, embora o tradutor Alexandre D'Elia, pelo visto, não saiba disso, era o nome de uma das sete colinas de Roma, onde ficava o templo de Júpiter Capitolino, protetor da cidade. Séculos mais tarde, o nome foi dado ao prédio do centro legislativo dos Estados Unidos, em Washington. A qual dos Capitólios estaria Collins fazendo alusão? Acho que a ambos. O próprio nome do país onde tudo acontece também não foi escolhido gratuitamente. Panem é pão em latim, e faz parte de uma das mais célebres expressões proverbiais da História: Panem et circenses, ou seja, 'pão e atrações de circo', significando que, enquanto o povo tiver a barriga cheia e alguma distração que não demande muito cérebro, ele não causará problemas aos poderosos, façam estes o que fizerem. Tudo a ver com Jogos Vorazes e, infelizmente, também com a nossa realidade.

Certo, não há nada de radicalmente inovador na obra de Suzanne Collins: quadros sombrios de civilizações distópicas no futuro existem em quantidade na literatura e no cinema de ficção científica (1984, Blade Runner, O Exterminador do Futuro, e isso mal serve de início se quisermos fazer uma lista), e a ideia de um programa de TV ao vivo com pessoas lutando e matando-se já aparecia num filme de 1987, The Running Man, exibido no Brasil como O Sobrevivente, com Arnold Schwarzenegger, que, por sua vez, era livremente inspirado (e bota livremente nisso...) num romance de Stephen King publicado em 1982, mas não dá para tirar o mérito da autora se ela soube recombinar esses elementos e criar algo tão capaz de prender a atenção quanto Jogos Vorazes, que, de quebra, ainda vale por uma intencional e louvável cuspida na cara de certos setores da indústria do entretenimento em nossos dias. As sequências, Em Chamas e A Esperança, estão desde já na minha lista de leitura.

terça-feira, outubro 18, 2011

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Tudo bem, Harry Potter é literatura mainstream – mas por que isso é necessariamente um demérito? Certo, seria hipócrita negar que, para o viciado em literatura, existe um tipo de satisfação egoísta em conhecer livros magníficos dos quais pouca gente ouviu falar, mas a radicalização desse prazer leva o tal viciado, por vezes, a torcer automaticamente o nariz para obras que estão na boca do povo, que fazem furor, vendem exemplares às toneladas e viram fenômenos de mídia. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, eu diria: achar que algo deve ser bom só porque todo mundo está comentando é um comportamento burro – mas não é menos burro achar que algo tem que ser ruim pelo mesmo motivo.

E Harry Potter, fenômeno de mídia ou não, é uma das mais interessantes séries de fantasia surgidas entre o final do século passado e o início deste. Quem não conhece realmente a saga, apenas ouviu falar, viu imagens aqui e ali e talvez tenha assistido – sem prestar atenção – a um segmento de um dos filmes quando passou na TV, acha que trata-se de "literatura infantil", e dá o assunto por encerrado. Grande erro. Muitas crianças podem achar legal usar uns óculos sem lente, pintar uma cicatriz na testa com caneta hidrocor e gritar "Vingardium Leviosa!" agitando um espanador de pó, mas eu não conheço ninguém com menos de 16, 17 anos (e bem pouca gente acima dessa idade) que tenha encarado do início ao fim as mais de 3000 páginas que compõem os sete volumes da série escrita pela inglesa Joanne Kathleen Rowling. Sem contar que esses livros podem facilmente prender a atenção de qualquer leitor que disponha da necessária dose de imaginação, independentemente da idade. Pois trata-se de uma história de magia e heroísmo calcada em valores atemporais, que nunca deixarão de tocar e comover qualquer ser humano saudável: amor, amizade, lealdade e coragem.

A autora parece ter planejado que uma geração de leitores fosse crescendo junto com o herói: dos enredos simples e textos relativamente breves do início, a série foi aumentando em número de páginas e em grau de complexidade a cada novo volume: o quinto, Harry Potter e a Ordem da Fênix, tem mais de 700 páginas, mas, daí em diante, houve uma ligeira redução. Ao mesmo tempo, a própria Rowling também experimentou uma evolução: os últimos volumes são barbaramente melhor escritos que os primeiros. Como há muita informação sobre a série espalhada pela internet, acho desnecessário resumir o enredo geral: quem já conhece HP não precisará disso, e quem ainda não o conhece, não é por meio deste humilde post que ficará conhecendo. Tudo o que farei será comentar o livro que acabo de ler, o sexto volume, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, introduzindo apenas as informações necessárias à compreensão do que irei dizer... O que, receio, dará praticamente no mesmo!

Para começar, o título é discutível: por que Harry Potter and the Half-blood Prince virou Harry Potter e o Enigma do Príncipe em vez de Harry Potter e o Príncipe Mestiço, como seria o correto? Como já disse antes neste blog, não devemos ser apressados ao culpar o tradutor em casos assim (embora eu realmente discorde em muitos pontos da tradução de Lia Wyler): muitas vezes a decisão final sobre o título parte do setor de publicidade da editora, quando alguém lá é de opinião que a tradução literal do título original não soaria bem ou não seria suficientemente chamativa. Desconfio que, no presente caso, a proeza tenha sido de alguém que não sabia muito sobre a série e achou que a palavra "mestiço" não seria bem compreendida pelas "crianças". Se é que não foi resultado da neurose politicamente correta, uma tentativa de evitar qualquer alusão que pudesse, mesmo remotamente, ser considerada "racista".

Uma pena, pois racismo, ainda que sob uma roupagem de fantasia, é um dos temas mais discutidos na série. No mundo da magia por onde transitam Harry, seus amigos e inimigos, não parece haver discriminação pela cor da pele ou dos olhos, mas existem bruxos que se consideram superiores aos outros por terem o que chamam de "sangue puro" – o que consiste em ter exclusivamente ancestrais bruxos em suas árvores genealógicas. Naturalmente, há diversidade de opiniões: existem bruxos de sangue puro que não dão a mínima para isso e consideram mestiços e trouxas (os não-bruxos) como seus iguais – e há também bruxos mestiços que tentam fazer parecer que são puros-sangues para ganhar status em certos meios. O potencial de intolerância gerado nesse cenário já levou, como seria previsível, a muitos conflitos através dos séculos, e no último deles o mundo mágico assistiu à ascensão do mais temido bruxo das trevas de todos os tempos, que se autointitulava Lorde Voldemort – e tal era o pavor que ele inspirava, que a maioria dos bruxos tem medo até de pronunciar seu nome, preferindo referir-se a ele como "Você-Sabe-Quem" ou "Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado". Esse bruxo matou os pais de Harry quando ele ainda era um bebê – mas, por razões que ninguém compreende muito bem, não conseguiu matar o próprio Harry, e teve seus poderes e corpo destruídos quando o terrível feitiço que lançara contra o menino ricocheteou e o atingiu. Harry foi criado pelos tios trouxas, sofrendo negligência e todo tipo de implicância, até os onze anos de idade, quando teve a revelação de quem era e foi levado para a prestigiosa Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde iniciou a educação necessária para viver no mundo a que realmente pertencia. E, muito para sua surpresa, descobriu que era famoso: no mundo dos bruxos, a maioria das pessoas o considera um herói por ter (aparentemente) destruído Voldemort. Uma crença que, infelizmente, demonstrou-se errada: Voldemort estava enfraquecido e privado de um corpo, mas continuava vivo. Só agora, cinco anos e muitas aventuras depois, Harry está prestes a descobrir como isso foi possível.

Aos 16 anos, começando a cursar o sexto ano em Hogwarts, Harry está na altura da vida em que a maioria dos jovens bruxos está pensando a respeito do que fazer ao terminar a escola. Ele, porém, tem muito mais do que isso a preocupá-lo: Voldemort recuperou o corpo e a plenitude de seu poder, conseguiu reunir muitos de seus antigos seguidores, bem como recrutar novos, e o mundo mágico está em guerra. É óbvio para todos que o Lorde das Trevas fará de Harry um de seus alvos principais; o rapaz só pode continuar a levar uma vida quase (quase!) normal por estar em Hogwarts, cujo diretor é Alvo Dumbledore – tido por muitos como o maior bruxo dos tempos modernos e como a única pessoa que Voldemort teme no mundo.

A narrativa deste episódio começa durante as férias de verão: como costuma acontecer nessa época do ano, Harry está atolado na casa dos tios, contando os dias para a volta a Hogwarts, quando, para sua surpresa, o próprio Dumbledore vai pessoalmente buscá-lo, a fim de escoltá-lo até a Toca – a casa dos Weasley, a família de seu melhor amigo, Rony – para passar lá o restante das férias. Pelo caminho, os dois visitam um antigo professor, Horácio Slughorn, e o convencem a interromper sua aposentadoria e voltar a ensinar em Hogwarts. Tudo indica que Slughorn irá assumir a disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas, um cargo que parece estar sob algum tipo de mau-olhado, pois, desde o início da vida escolar de Harry, ninguém conseguiu permanecer nele por mais de um ano – mas, ao iniciar-se o período letivo, Harry e seus colegas têm uma surpresa: Slughorn assume a disciplina de Poções, que costumava ser ensinada por Severo Snape, um antigo desafeto do pai de Harry na época em que ambos estudaram em Hogwarts, e que tem perseguido o filho de seu rival de todas as maneiras possíveis, desde que este chegou à escola. E Snape, por sua vez, é quem passa a ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas.

Por acaso, Harry se vê de posse de um velho livro de Poções cheio de anotações manuscritas feitas por um antigo estudante de Hogwarts que se identificava apenas como o "Príncipe Mestiço" – e essas anotações acabam se mostrando mais úteis que o conteúdo do livro propriamente dito. Além de dicas que rapidamente fazem de Harry um prodígio no preparo de poções (atividade na qual ele nunca se havia mostrado particularmente talentoso), as anotações do Príncipe incluem feitiços aparentemente inventados por ele próprio e cuja utilidade não é conhecida – coisa que pode ser bem perigosa, na opinião de Hermione Granger, a outra melhor amiga de Harry e melhor aluna de sua série. 

Paralelamente às aulas normais, Harry, de tempos em tempos, é chamado ao escritório de Dumbledore, que, por meio de lembranças colhidas de diversas pessoas, vai revelando a ele (e ao leitor) uma série de informações até então ocultas sobre o passado de Voldemort. O modo como essas lembranças são partilhadas foi uma criação particularmente brilhante de Rowling: por meio de um artefato conhecido como "Penseira", Harry e Dumbledore mergulham nas lembranças de outras pessoas e as vivenciam como se estivessem na época e no local dos acontecimentos. O diretor é da opinião de que Harry deve saber o máximo possível sobre o inimigo, a fim de preparar-se para o confronto inevitável: uma profecia feita logo após Harry nascer revelou que, no final, ele terá que matar Voldemort ou ser morto por ele.

Parte do encanto (ops!) da história está no fato de que, ao mesmo tempo em que se vê implicado em acontecimentos grandiosos e terríveis e convive com o fato de que o destino do mundo bruxo pode vir a estar em suas mãos a qualquer momento, Harry também precisa lidar com os mesmos desafios de um adolescente comum: trabalhos da escola, o time de quadribol (o esporte mais popular entre os bruxos) em que joga, e a paixão que descobre estar sentindo por Gina Weasley, a irmã mais nova de Rony. E, antes que seu sexto ano termine, ele terá mais uma vez que enfrentar provas muito mais penosas que as da escola, nas quais estará em jogo muito mais do que sua vida, e que exigirão toda a sua coragem, habilidade em magia, e a ajuda de seus fiéis amigos. Mais dramático que isso: sem ter ainda se recuperado totalmente da morte de seu padrinho, Sirius Black, que tombou no ano anterior combatendo as forças das Trevas, Harry perderá outra das pessoas mais importantes de sua vida.

Ler Harry Potter é uma daquelas experiências que me fazem sentir uma grande pena do fato de que tão poucas pessoas possuam cultura suficiente para perceber todas as alusões, alegorias e brincadeiras que vou encontrando. Muita gente aponta para a influência que J. K. Rowling recebeu de J. R. R. Tolkien, o imortal autor de O Senhor dos Anéis – mas, até aí, qual escritor moderno de fantasia não deve alguma coisa a Tolkien? É bastante óbvio, por exemplo, que Dumbledore nada mais é que a versão rowlinguiana de Gandalf – mas quantos leitores se deram conta de que este último, que no início do SdA é conhecido como Gandalf, o Cinzento, a certa altura passa a ser Gandalf, o Branco, e que o primeiro nome de Dumbledore é Alvo, ou seja, "branco"?



Saindo do assunto da influência de Tolkien, mas ainda falando de pistas escondidas nos nomes, há muito mais para descobrir: Sirius Black é um "animago", um bruxo com o poder de transformar-se em determinado animal – no caso dele, um enorme cão preto. Ora: Black, como todo mundo sabe, quer dizer preto; Sirius é uma estrela da constelação do Cão Maior. Portanto, "Sirius Black" é apenas uma maneira disfarçada de dizer "cachorro grande e preto". Remo J. Lupin é um bruxo que sofre a maldição da licantropia – e, enquanto "Lupin", em português 'lupino', quer dizer "próprio ou semelhante a lobo", Remo era o irmão gêmeo de Rômulo, o fundador de Roma, que, juntamente com ele, teria sido amamentado por uma... loba. O zelador de Hogwarts, que anda pela escola vigiando tudo o que os estudantes fazem, chama-se Argo Filch – Argo, como o gigante de cem olhos da mitologia grega. A professora de Adivinhação chama-se Sibila Trelawney e é descendente de uma famosa vidente chamada Cassandra Trelawney; Sibila era o nome dado às profetisas da Roma antiga, e Cassandra era a filha do rei de Troia, igualmente uma profetisa. O grupo musical mais popular entre os adolescentes bruxos é chamado na tradução de As Esquisitonas, mas no original o nome era The Weird Sisters – literalmente, 'as Irmãs Estranhas', uma referência ao trio de feiticeiras que aparecem na peça Macbeth, de Shakespeare... Esta lista poderia continuar por páginas e páginas.


Porém, o sentido oculto mais interessante que encontrei na série foi o paralelo – inegável quando se analisa todas as pistas – entre Lorde Voldemort e Hitler. Vamos somar dois mais dois: Voldemort é idolatrado pelos bruxos que se orgulham de seu sangue puro e consideram mestiços e trouxas ralé – embora seja, ele próprio, um mestiço, filho de mãe bruxa e pai trouxa. Já Hitler arquitetou e liderou a maior e mais terrível campanha de extermínio já movida contra um grupo étnico na história da humanidade – e, muito provavelmente, era neto de um judeu. Voldemort cerca-se de um grupo de seguidores terríveis, os Comensais da Morte, muitos dos quais também são mestiços que se declaram leais até a morte à causa da pureza do sangue bruxo; da mesma forma, seria preciso ser muito ingênuo para acreditar que todos os membros do Partido Nazista ou das SS fossem "arianos puros"... Trata-se, sem meias palavras, de uma alegoria extremamente inteligente para evidenciar a incoerência intrínseca de todas as ideologias baseadas em preconceitos; e ainda mais inteligente se torna por exigir uma certa dose de conhecimento e capacidade de raciocínio para ser detectada. Quem acha que Harry Potter é só literatura consumível ou coisa para criança poderia se surpreender muito se deixasse o preconceito de lado e experimentasse lê-lo.