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quarta-feira, junho 20, 2018

O Satanista

Mandar logo de cara uma longa digressão não é a maneira mais aconselhável de se começar um texto, e sei que já fiz isso diversas vezes aqui no blog; ultimamente tenho procurado evitar, mas desta vez vai ser impossível. Sendo assim, prometo tentar não alongá-la demais!

Bem… Como a maioria dos fãs de heavy metal e de rock em geral, tive, na juventude, a minha fase de querer saber o máximo que fosse possível sobre as bandas de que gostava; na época, antes da popularização da internet, fazíamos isso basicamente por meio de revistas. Fase essa que, no meu caso, passou – não a de gostar de metal, pois ainda gosto e não me parece que isso vá mudar, seja lá com que idade eu estiver; apenas não consigo mais me importar tanto com histórias, curiosidades e detalhes de todo tipo sobre as bandas. Hoje me contento em curtir a música e não ligo muito para o resto. Para dar uma ideia, há bandas que já conheço há anos e adoro, mas só sei o nome de um ou dois membros; nos velhos tempos isso seria impensável, eu teria o nome de cada integrante e seu respectivo instrumento na ponta da língua, feito escalação de time de futebol.

Como sabe quem entende um pouco do assunto, houve três bandas, todas elas surgidas no Reino Unido no final dos anos 60, que são consideradas o tripé sobre o qual toda a história do heavy metal foi construída: Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Tecnicamente falando, o Sabbath ficava bem atrás dos outros dois grupos (que contavam com músicos experientes, alguns deles com formação clássica); não obstante, há muita gente que o considera o mais influente dos três, além de ter sido a primeira banda de heavy metal propriamente dita da História – o Led e o Purple estavam mais próximos do que chamamos hoje de hard rock, com fortes traços do blues no caso do primeiro, e da música clássica no segundo.

(Quero esclarecer que, ao dizer que o Black Sabbath era, do ponto de vista técnico, a menos notável daquelas três grandes bandas, não estou de forma alguma tirando seus méritos: gosto pra caramba do Sabbath e inclusive considero Tony Iommi um dos guitarristas mais criativos da história do som pesado. Porém, basta ouvir e comparar os dois ou três primeiros discos de cada uma para perceber que, das três bandas, o Sabbath era a que fazia o som mais simples, já que seus músicos não tinham, pelo menos no início, tanto conhecimento técnico – leia-se anos de conservatório – quanto os do Led e do Purple. Foram-se aprimorando com o tempo, o que pode ser sentido nos álbuns seguintes.)


Já havia gente fazendo som pesado na época, mas o Sabbath, e especialmente seu vocalista, John "Ozzy" Osbourne, foi o grande responsável por definir a estética, os códigos, a vibe daquilo que seria mais tarde chamado de heavy metal. O fascínio do cantor por ocultismo logo se refletiu nas letras das músicas – o maior exemplo disso é sem dúvida a primeira faixa do primeiro álbum, de 1970; tanto a faixa quanto o álbum tinham o mesmo nome da banda. Como Ozzy contaria em entrevistas muitos anos depois, sua identificação com essa temática chegou a colocá-lo em situações estranhas, como quando era procurado por pessoas querendo convidá-lo a tomar parte em todo tipo de ritual macabro, sendo que, na verdade, ele próprio nunca teve qualquer envolvimento com o ocultismo: era só um curioso, um fã declarado de filmes de terror.

E, de acordo com uma matéria que li certa vez numa revista sobre rock, houve outro grande responsável, além da produtora cinematográfica Hammer, por formar o imaginário de Ozzy no tocante aos temas soturnos e sobrenaturais: o escritor inglês Dennis Yeats Wheatley (1897-1977), autor tão prolífico quanto popular, que, dos anos 30 aos 60, publicou dezenas de romances, embora relativamente poucos fossem de terror – a maior parte eram narrativas de aventura e suspense, muitas delas com ambientação histórica, destacando-se a série sobre Roger Brook, uma espécie de James Bond dos séculos XVIII e XIX (ou talvez fosse melhor dizer que Bond é um Roger Brook do século XX, já que seu criador, Ian Fleming, era fã de Wheatley e confessava-se influenciado por ele). Até onde pude apurar, de toda a extensa bibliografia de Wheatley, só dois livros ganharam edições brasileiras: A Máscara do Mal, que é uma das aventuras de Brook, e este O Satanista, publicado originalmente em 1960.

A narrativa orbita em torno do coronel William Verney, que tem o apelido de C. B., iniciais de "Conky Bill" ('Bill Narigudo') devido a seu traço fisionômico mais marcante. Eu não iria ao ponto de chamá-lo de protagonista, mas ele funciona como uma espécie de eixo, conectando as diferentes subtramas. Verney trabalha na Inteligência britânica, e, no início da história, acaba de receber a informação de que um de seus agentes, o jovem Ted Morden, foi encontrado morto. Morden estava investigando os sindicatos trabalhistas da região de Londres, a fim de tentar descobrir até que ponto eles estavam infiltrados, talvez até controlados, por agentes do comunismo internacional (lembrem-se, era a virada dos anos 50 para os 60, com a Guerra Fria entrando em seu período mais tenso), e seria lógico supor que foi assassinado por esses agentes após ter sido descoberto, mas as condições em que o corpo foi encontrado levam C. B., que já viu coisas parecidas antes, a crer que haja mais: as marcas no corpo do rapaz sugerem que ele tenha sido sacrificado em algum ritual diabólico. A linha de investigação de Morden é assumida por outro agente, Barney Sullivan, um irlandês de origens aristocráticas, a quem seu chefe praticamente implora que tome precauções redobradas. Ao mesmo tempo, Mary Morden, a viúva de Ted, decide tentar por conta própria descobrir o assassino ou assassinos de seu marido e levá-los à justiça. O coronel Verney, embora não possa aceitar a participação de Mary nas investigações, nem prestar-lhe qualquer ajuda oficial em nome de seu departamento, oferece-lhe alguns conselhos e dicas, em especial confidenciando-lhe suas suspeitas de que a morte de Ted pode ter sido ritualística. Mary, uma jovem estonteante de apenas 23 anos, mas já com um passado complicado, está disposta a valer-se de tudo ao seu alcance, inclusive de seus encantos físicos, para vingar o marido. Verney decide não contar a Sullivan sobre os esforços de Mary e vice-versa: deixa-os agir independentemente um do outro, para melhorar as chances de que, no caso de um dos dois ser apanhado, o outro escape. O coronel não sabe, nem pode saber, que os dois jovens se conhecem há anos, embora não se vejam há muito tempo.

Não sei qual a profundidade dos conhecimentos de Dennis Wheatley sobre o satanismo – tanto seus credos e fórmulas quanto seu modus operandi –, nem de que forma ele teria obtido tais conhecimentos, mas a descrição que ele nos oferece de como funciona o recrutamento é bastante plausível: membros de irmandades satânicas frequentam encontros genéricos onde se reúne gente de todos os tipos, tendo em comum apenas algum grau de interesse por temas místicos e esotéricos. A grande maioria, claro, é de meros curiosos, que sentem falta de alguma coisa que vá além da vulgar realidade material, mas não possuem a necessária firmeza de propósitos para adotar uma religião; querem um sabor de "transcendência" em suas vidas, contanto que isso não exija mudança de hábitos ou atitudes. Enfim, basicamente indivíduos comuns e inócuos, do tipo que se acha altamente místico porque leu dois livros comprados na lojinha esotérica do shopping e acendeu uns incensos – mas, em meio ao grupo, pode sempre haver um ou outro com ambições mais sérias e, possivelmente, sinistras. Nesses encontros, o satanista infiltrado vai conhecendo e sondando os outros frequentadores para ter uma ideia de quais deles estariam abertos a um convite para ingressar em seus círculos – e, mais importante que isso, quais deles seriam aquisições interessantes para esses círculos. É num desses encontros esotéricos light, promovido por uma senhora de Londres, que Barney e Mary se reencontram. Ela o reconhece imediatamente, mas ele não a reconhece porque, a conselho do coronel Verney, ela usa um disfarce: sendo naturalmente loira, adotou um visual moreno, além de alterar mais alguns detalhes de sua aparência e usar um nome falso. Ambos estão ali por causa de suas investigações, e não de algum interesse no oculto, mas, é claro, nenhum deles revela ao outro suas motivações. Mary, por causa de sua bela aparência, torna-se logo alvo das atenções do Sr. Ratnadatta, um indiano filiado a um culto satânico (é uma noção amplamente aceita que grupos satanistas sempre procuram recrutar mulheres atraentes, já que o sexo desempenha papel importante em seus ritos), que a leva a reuniões secretas nas quais a jovem descobre que aquilo tudo não é puro delírio nem fantasia: o sobrenatural é real, e os poderes do mal também.

O Satanista apresenta-se como "uma história de magia negra" (isso está escrito na capa, pelo menos nesta edição da Record), mas também é outras coisas, e, na verdade, o ocultismo e temas relacionados a ele não ocupam tanto espaço assim. Há um forte componente de espionagem, e essa parte gira em torno de dois personagens, os gêmeos Otto e Lothar Khune, nascidos nos Estados Unidos, mas filhos de pais alemães. Quando o Partido Nacional-Socialista chegou ao poder na Alemanha na década de 1930, Lothar emigrou para o país de seus pais e pôs-se a serviço do Terceiro Reich; mais tarde, com a derrota dos nazistas na guerra, bandeou-se para o lado dos comunistas soviéticos. Otto, enquanto isso, foi viver na Inglaterra, tornando-se um leal súdito britânico naturalizado. Ambos são cientistas, ligados a pesquisas no campo dos foguetes e mísseis, e, como gêmeos, possuem uma espécie de vínculo mental e emocional – só que, neles, isso é muito mais forte que o usual entre outros gêmeos, chegando ao ponto de um conseguir, às vezes, influenciar os pensamentos do outro ou ver por meio de seus olhos; se um sofre um ferimento, o outro também sente a dor. Enfim, é o mesmo tipo de ligação que existia entre os gêmeos Lucien e Louis de Franchi no livro Os Irmãos Corsos, de Alexandre Dumas, o que faz todo o sentido, já que Wheatley começa o livro com uma efusiva homenagem ao escritor francês, dando a entender ser ele um de seus autores favoritos e uma de suas principais influências. Não é preciso dizer que, como ambos lidam com informações altamente secretas e trabalham para lados opostos, isso gera situações complicadas. Otto, Lothar e todos os eventos que os envolvem parecem, de início, não ter relação alguma com o núcleo satânico londrino ou com o que se passa com Mary e Barney, mas o vínculo aparece quando o coronel Verney descobre que Lothar está na Inglaterra e que sua base de operações é a mesmíssima casa onde se realizam os encontros semanais dos satanistas.

O enredo geral de O Satanista é inegavelmente interessante, mas é difícil não fazer um leve "tsc, tsc" ao constatarmos que o autor não se furtou a um certo contorcionismo para enfiar em seu livro os temas que estavam mais em evidência na época – todo mundo andava preocupado com mísseis, com espionagem internacional e com a possibilidade de um confronto nuclear de proporções globais, de modo que Wheatley aparentemente achou uma boa ideia misturar esses assuntos com a magia negra que deveria ser o carro-chefe da história. A meu ver, essa alquimia ficou bastante forçada. Os personagens são bem estereotipados, provavelmente um reflexo do fato de que o autor estava acostumado a escrever segundo um método, de forma quase industrial, para conseguir produzir um ou dois bestsellers por ano, e, na minha opinião, o excesso de detalhamento sobre como funcionam por dentro a polícia, o serviço secreto e a diplomacia na Grã-Bretanha só contribui para deixar a narrativa mais árida e cansativa. Perto do final, Verney, Sullivan e seus companheiros descobrem que um figurão satanista megalômano roubou um artefato nuclear e o levou para um esconderijo nos Alpes suíços, de onde pretende lançá-lo a fim de precipitar a Terceira Guerra Mundial; essa parte do livro foi claramente planejada para ser uma tensa corrida contra o tempo a fim de impedir a catástrofe, mas só consegue ser burocrática e tediosa ao narrar os encontros de C. B. e Barney com diversos homens importantes de cuja ajuda eles necessitam para deter o doido, seus deslocamentos de um lugar para outro… De quebra, as descrições de diversas belas paisagens suíças deixam em evidência que Wheatley conhecia e adorava o país (e quem não adoraria?), mas as dissertações turísticas, ainda que interessantes, soam deslocadas ao virem misturadas com essa situação que era para ser desesperadora. O autor também não negligenciou uma outra arma para atrair público que já funcionava no começo dos anos 60 tal como hoje, o sexo, mas valeu-se desse recurso da maneira que os usos da época permitiam (a "revolução sexual" só viria alguns anos depois): o ato é bastante mencionado, mas nunca descrito em qualquer detalhe.

Quanto à qualidade editorial, essa me surpreendeu negativamente por oferecer um português sofrível, o que eu não esperava em se tratando de uma edição da Record, editora que sempre tive em bom conceito. Os problemas no uso do idioma são diversos, mas o mais recorrente é a crase, que é muito mais usada do que deveria, e poucas vezes da maneira correta. Estou acostumado a reclamar do fato de haver gente por aí trabalhando com tradução e/ou revisão de livros que, pelo nível de conhecimento que demonstra, não deveria nem passar perto de uma editora, e, pelo visto, esse problema não é de hoje (não há informação da data da edição, mas, em todo caso, é antiga).

Vocês já devem ter percebido, considerando o jeito como este post começou, mas lá vai: cheguei a este livro e a este autor devido a suas conexões com o Black Sabbath, que me deixaram curioso, e confesso que minhas expectativas eram bem exageradas. O Satanista nem chega perto de entregar tudo o que eu esperava em termos de suspense ou terror. Até achei que podia ser culpa da minha cabeça de leitor cujos gostos se formaram entre o final do século XX e o início do XXI, acostumado, por exemplo, com um Stephen King, que costuma pegar muito mais pesado nos componentes tenebrosos e/ou sobrenaturais, mas aí lembrei de sujeitos como H. P. Lovecraft, contemporâneo de Wheatley, e Arthur Machen, que é um pouco anterior, e concluí que não é questão de época; eu apenas não me identifiquei com o estilo de Wheatley, nem com seu jeito de desenvolver os temas – pelo menos neste livro. A leitura aconteceu por curiosidade, e é como uma curiosidade que ficará registrada; nada aqui me empolgou pra valer.

quinta-feira, maio 11, 2017

Além

Não é muito simples definir o que diabos (opa…) venha a ser o movimento literário conhecido como "decadentismo", que tem no escritor francês Joris-Karl Huysmans (1848-1907) um de seus expoentes maiores. Seguindo o princípio do pêndulo que parece reger os grandes ciclos culturais ao longo da História, esse movimento surgiu como uma reação ao parnasianismo, que, por sua vez, reagia ao romantismo, que reagia ao racionalismo iluminista, e assim por diante. Naturalmente, literatura é arte, e, como tal, pode ter tendências, mas não está sujeita a regras absolutas, de modo que os diferentes movimentos muitas vezes se mesclam e se interpenetram de variadas maneiras; porém, ainda assim há um padrão identificável: uma corrente artística/literária que valoriza a objetividade, a racionalidade, e tenta retratar de forma realista o mundo "concreto" é seguida por outra que prefere a subjetividade, o sonho, a fantasia e os sentimentos – e vice-versa. Parece que, quando uma dessas correntes leva suas características aos extremos, ou, talvez, quando sua fórmula começa a se desgastar, isso desencadeia uma reação no sentido oposto. Também é preciso ter em consideração que cada um desses movimentos artísticos originou-se numa época diferente e foi feito por pessoas diferentes, num ambiente cultural único, e, por isso, nenhum deles jamais é igual a seus congêneres anteriores, possuindo traços que são somente seus. Exemplo disso é o fato de que, enquanto o romantismo tinha como características o idealismo e objetivos grandiosos (que por vezes sofreram trágicos desvios, vide o nacionalismo extremado de fins do século XIX, início do XX, que acabou gerando o nazifascismo), os decadentistas atacavam o que consideravam uma "cultura burguesa" e pouco estavam se preocupando com política, preferindo devotar suas energias a tudo o que pudesse chocar as "pessoas de bem" da época, em especial o sexo (incluindo modalidades não convencionais) e drogas. Ainda na mesma linha de comparações, o romantismo demonstrava, geralmente, preocupações de natureza espiritual, fosse por meio de uma reaproximação com a religião cristã (encarada com ceticismo pelos iluministas, que, aliás, deram início à campanha de difamação contra a Igreja Católica que continua até hoje) ou da redescoberta de deuses e cultos pagãos, fossem de origem grega, germânica ou outras; já para os decadentes, bacana mesmo era o ateísmo, e em especial o cinismo que ele costuma gerar como subproduto – e aqui, é impossível não lembrar do asqueroso Lorde Henry, de O Retrato de Dorian Gray. Oscar Wilde, por sinal, é considerado um representante do decadentismo na Grã-Bretanha, onde essa estética aportou graças à influência da literatura francesa. O "livro de capa amarela" que Lorde Henry envia de presente a Dorian, e que revela ao jovem protagonista uma gama de pecados e estranhezas que ele não conhecia, era, muito provavelmente, À Rebours ('Às Avessas'), romance de Huysmans publicado em 1884 e considerado um dos textos essenciais do movimento decadentista. Para finalizar este parágrafo dedicado às comparações, é oportuno observar que os decadentes tinham um certo gosto por uma imagética grotesca e chocante, lembrando, nesse ponto, os góticos, que poderiam ser definidos, grosso modo, como o segmento mais radical do romantismo e foram os grandes responsáveis pelo boom da literatura de terror na primeira metade do século XIX, bem como por plasmar certas características que fazem parte do gênero ainda hoje. Curiosamente, a denominação de "literatura decadente", ou apenas "decadentismo", foi dada por seus detratores, mas acabou adotada pelos próprios integrantes e pelos fãs do movimento.

Não é minha intenção passar-me por conhecedor de Huysmans ou do decadentismo; Além é o primeiro livro dele que leio, e ainda não sei se eventualmente terei coragem de encarar Às Avessas, que, pelos comentários que encontrei, deve ser ou chocante demais, ou um tédio – talvez as duas coisas, por mais improvável que isso pareça. A informação biográfica que se segue foi obtida da apresentação de Aníbal Fernandes (também o tradutor) que integra esta edição da Assírio & Alvim, de Portugal, e de um punhado de sites da internet. A introdução de Carlos Orsi para O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers, também contribuiu com alguma coisa.

A vida do próprio Huysmans parece de alguma forma resumir a trajetória do decadentismo, ou, ao menos, a de muitos de seus representantes. O autor nasceu e viveu praticamente toda a vida em Paris; esse sobrenome tão pouco francófono era herança do pai holandês, que faleceu quando o pequeno Georges-Marie-Charles (este seu nome de batismo) ainda era jovem demais para poder lembrar-se de muita coisa a respeito dele. Já um pouco mais crescido, o menino tinha o costume de ir visitar seu túmulo no cemitério de Montparnasse, talvez idealizando a vida que, pensava ele, teria ao lado do pai caso este ainda vivesse, já que não se dava muito bem com a mãe e com o padrasto. Adulto, entrou para o serviço público por pura necessidade, já que não vislumbrava possibilidade de sustentar-se fazendo o que amava, que era escrever (meu Deus, como eu entendo isso…), e por 32 anos labutou nos escritórios do Ministério do Interior, dedicando-se à literatura nas horas livres que lhe restavam. Nunca se casou, mas por muitos anos viveu maritalmente com Anna Meunier, senhora que ganhava a vida fazendo vestidos sob medida para as damas da alta sociedade parisiense (Huysmans, diga-se de passagem, assinou muitos artigos publicados em jornais e revistas como "A. Meunier", porque preferia que seus colegas e chefes no Ministério não soubessem dessa sua atividade paralela). Publicou seu primeiro livro em 1874, às suas próprias custas, depois de ser recusado por diversos editores. Era uma coletânea de poemas, e nela o escritor usou pela primeira vez o nome com o qual passaria à posteridade: "Joris-Karl" mais ou menos "holandesava" Georges e Charles, além de soar bem combinado ao sobrenome paterno que lhe era tão caro.

Educado como católico, Huysmans afastou-se da Igreja na adolescência, e durante grande parte da vida parece ter-se considerado um ateu – embora o conhecimento verdadeiramente enciclopédico que demonstrava possuir a respeito do satanismo talvez não fosse oriundo apenas de leituras. A maior parte de seus biógrafos acredita que Huysmans nunca tenha sido de fato um satanista, mas certamente conheceu pessoas que o eram, e é quase igualmente certo que, movido por sua curiosidade a respeito do oculto, tenha comparecido como espectador a missas negras, que, como se sabe, eram celebradas com regularidade na Paris do século XIX, tal como antes e, sem dúvida, depois. Esqueçam esse satanismo com cara de autoajuda que está na moda hoje em dia: tratava-se do que estudiosos de religiões chamam de "satanismo teísta", quer dizer, esses indivíduos acreditavam em Satã e nos demônios como entidades reais, em vez de meramente os adotarem como símbolos de rebeldia, ou coisa que o valha – portanto, também acreditavam em Deus, donde o "teísta" no nome. E, já que as forças infernais realmente existiam, era um caminho curto para concluir que elas poderiam ser invocadas e, mediante os rituais e oferendas adequados, convencidas a prestar certos favores aos mortais, que podiam ir desde assegurar sucesso nos negócios ou ajudar a conquistar o coração da pessoa desejada, até causar a morte de um rival ou de outra maneira tirá-lo do páreo. Esse tema sinistro serve de eixo a Além, cuja primeira edição é de 1891, e que não sei por que ganhou esse título na tradução, já que originalmente chamava-se Là-Bas ('Lá Embaixo'), um título bem mais adequado, como se vê.

O protagonista do livro, Durtal, é um alter ego de Huysmans, que parece ter feito pouco ou nenhum esforço para disfarçar o fato. Um intelectual desgostoso com a época em que vive, ele escolheu isolar-se, e tem dedicado seus dias a trabalhar numa biografia de Gilles de Rais – uma obra tenebrosa sobre um homem de reputação tenebrosa. A única pessoa que Durtal vê regularmente é Des Hermies, médico de profissão e amante da literatura, com quem mantém longas e acaloradas discussões. Por intermédio do amigo, Durtal vem a conhecer Louis Carhaix, o sineiro da igreja de Saint-Sulpice, homem de considerável cultura e apaixonado por seu ofício. Sim, ser sineiro era verdadeiramente um ofício, e uma profissão que exigia dedicação: os sinos precisavam dobrar com pontualidade britânica (mesmo na França) várias vezes ao dia, começando na madrugada ainda escura e indo até a noite – vários sinos de diferentes tamanhos, e fazê-los soar (e soar da maneira correta) não é simples como pode parecer. Além disso, o trabalho do sineiro não consiste só em badalar os sinos: eles também precisam ser limpos e, numa cidade sujeita a extremos de temperatura como é o caso de Paris, untados com óleo para não racharem. Tudo isso para não mencionar as funções adicionais de zelador da igreja, já que Carhaix e sua esposa vivem num pequeno conjunto de cômodos junto às torres. A amizade se consolida, e Durtal, sempre em companhia de Des Hermies, torna-se razoavelmente assíduo em suas visitas ao casal, cuja sala de jantar nos altos da igreja passa a se revezar com seu próprio apartamento como cenário de longas e interessantes conversas.

Là-Bas, aliás, tem essa característica: em muitos momentos, a história parece ser principalmente um pretexto para debates (usando os personagens para dar voz aos diferentes argumentos e pontos de vista) e trechos expositivos. Em geral, mas nem sempre, os debates são sobre literatura, e as partes expositivas, sobre atividades satânicas. Para os fins de seu livro, Durtal tem pesquisado esse assunto, já que uma das muitas acusações que pesaram contra Gilles de Rais (e das quais ele se confessou culpado sem necessidade de tortura) foi a de praticar magia negra e satanismo. Parece, entretanto, que as pesquisas foram bastante além do que seria necessário para a obra, revelando um interesse do escritor pela coisa em si mesma (e aqui, "escritor" pode referir-se a Durtal, a Huysmans, ou a ambos). Os casos sobre os quais Durtal discorre de forma professoral cobrem um arco de tempo que vai desde a Idade Média até a época em que se ambienta o livro, em fins do século XIX, destacando episódios famosos como o do padre renegado Urbain Grandier, queimado na fogueira em 1634, ou o da marquesa de Montespan, amante do rei Luís XIV, que teria recorrido à magia satânica para afastar rivais e tentar renovar o interesse do rei nela, no que ficou conhecido como "o Caso dos Venenos", durante a década de 1670. Também nesse segundo exemplo, como em muitos, houve a participação de um sacerdote, o abade Étienne Guibourg, que teria sacrificado pelo menos uma criança numa missa negra, para tentar obter dos demônios o que a marquesa desejava.

É pertinente notar que o fato de a presença de padres renegados ser quase uma constante em casos desse tipo não ocorre sem bons (ou maus) motivos. Muitos teóricos da magia classificavam a missa católica como um ato de magia branca, capaz de canalizar o poder das hierarquias angélicas para um determinado objetivo: abençoar a comunidade, interceder por uma alma etc. É claro que, à luz da teologia, considerar essas coisas como magia, seja de que tipo for, é um completo disparate, mas muita gente não via dessa forma. Daí decorre que, se a missa, e, por consequência, seu oficiante, tinham poderes mágicos próprios, nada impedia que esses poderes fossem subvertidos e empregados em rituais distorcidos para se obter qualquer fim desejado, até mesmo os menos piedosos. Todo círculo satânico queria um padre em suas fileiras. Acrescente-se a isso que como, naquela época, o sacerdócio era uma posição que dava prestígio e garantia conexões úteis, muitas famílias nobres, ou de posses, ou ligadas à política, ou tudo isso, davam um jeito de encaminhar um de seus filhos para a carreira eclesiástica, o que resultava em haver muitos padres sem um pingo de vocação e com escassas qualidades morais, que podiam facilmente ser cooptados a participar de um desses grupos satânicos e oficiar suas missas negras, já que, pelo menos naquela época, elas eram geralmente celebradas com uma finalidade específica e costumavam ser encomendadas por alguém importante, que pagava alto – ou seja, era um negócio interessante para todos os envolvidos. Contar com a ajuda de um padre também facilitava enormemente o acesso a hóstias consagradas, pois, de outra forma, esse era um processo muito trabalhoso: era preciso que os fiéis satânicos fossem às missas normais, recebendo a comunhão e mantendo-a escondida na boca até o final do ofício, para depois levá-la para ser usada em suas próprias cerimônias, nas quais o pão sagrado era submetido a profanações que prefiro não detalhar. Já Huysmans não sofre do mesmo escrúpulo: se o leitor, como eu mesmo, for um católico devoto (e mesmo se não o for, mas prezar o respeito à fé alheia), terá de estar preparado para chocar-se. Além das preleções a respeito das práticas satânicas, vez por outra somos levados a acompanhar Durtal em suas pesquisas sobre Gilles de Rais, o que também é bastante perturbador.

No meio de tudo isso, no começo é difícil entender por que Huysmans teria decidido enxertar na história um caso de amor ilícito, se é que dá para chamar assim – e a dúvida não é quanto ao "ilícito", e sim quanto ao "amor". À primeira vista, parece ser porque, na França da época, uma relação adulterina era ingrediente indispensável em todo romance que quisesse ter chance de vender, mais ou menos como, hoje em dia, uma subtrama amorosa (não necessariamente adulterina, é verdade) é obrigatória nos filmes de Hollywood. Porém, à medida em que continuamos lendo, a impressão vai mudando: passa a parecer que o autor pensou algo como "ah, já que preciso mesmo incluir um adultério, vou fazê-lo à minha maneira". Durtal começa a receber cartas de uma admiradora que escreve sob pseudônimo e que desenvolveu uma paixão platônica por ele a partir de seus livros; ela não se identifica, mas vai deixando escapar detalhes como os fatos de ser casada e de ser alguém que o escritor conhece (e conhece seu marido também), e cuja casa chegou a frequentar antes de adotar seu atual modo de vida recluso. Há um punhado de senhoras que poderiam encaixar-se nesses quesitos, e Durtal se vê torcendo ardorosamente para que a misteriosa autora das cartas seja uma das bonitas, e experimentando aquela ansiedade ao mesmo tempo aflitiva e deliciosa que costuma acompanhar situações semelhantes. Como se fosse um adolescente, por assim dizer – ele, homem de meia idade, que vez por outra frequenta bordéis para sossegar as exigências do corpo, mas que já dava como certo que o futuro não lhe reservasse qualquer novo envolvimento sentimental, fosse com quem fosse. Porém, verdade seja dita, o sujeito não é lá muito romântico: parece interessado, sobretudo, no tipo de experiência sexual que (acredita ele) apenas uma mulher apaixonada pode proporcionar, impossível de ser igualada pelas profissionais. Mesmo com expectativas tão mundanas, o caso acaba sendo essencialmente uma decepção. Durtal tem amplas oportunidades para se exasperar com a proverbial volubilidade feminina, e a dama, ciente disso, chega a citar para ele uma frase de um de seus próprios livros, que diz que "só são boas as mulheres que não tivemos". O escritor acaba dando razão a si próprio nesse ponto. Entretanto, os capítulos seguintes do livro revelam que o affair tinha uma razão de ser dentro da história, pois acarreta uma importante mudança de direção nela.

Disse acima que a introdução da edição de O Rei de Amarelo pela Intrínseca, escrita por Carlos Orsi, contribuiu com informações sobre a biografia de Huysmans e sobre o movimento decadentista; pois bem, é Orsi quem cita (sem nomeá-lo) certo crítico que teria escrito que, para o artista decadente, ao cabo de uma carreira gasta a retratar vícios, pecados, podridão e loucura, só dois caminhos eram possíveis: "o cano de uma arma ou o pé da cruz". Huysmans, felizmente, escolheu a conversão ao invés do suicídio. Durtal volta a ser o protagonista em dois outros livros, cujos títulos, assim como o de Là-Bas, são sugestivos, quase autoexplicativos: En Route ('A Caminho', de 1895) e La Cathédrale ('A Catedral', de 1898), que descrevem a trajetória do personagem rumo à conversão, trajetória essa paralela à do próprio autor. É interessante notar que, embora em Là-Bas ele ainda pareça, em linhas gerais, um cético, Durtal, em diversos momentos, demonstra um respeito instintivo, pode-se dizer, pela Igreja, além de achar difícil descrer totalmente de seus ensinamentos: em certo trecho, é dito que ele "não tem certezas absolutas" a respeito do dogma da transubstanciação; ora, quando alguém não tem certeza absoluta sobre algo, é porque existe um espaço para a dúvida. Um ateu de verdade teria simplesmente dito que a crença na transubstanciação não passava de uma sandice, e consideraria o assunto encerrado. A atitude de Durtal espelha, provavelmente, a do próprio Huysmans, que, em seus últimos anos de vida, voltou à comunhão da Igreja que havia abandonado quando rapaz, o que se refletiu em suas obras desse período e o levaria a ser citado com frequência como um nome de destaque entre a intelectualidade católica de seu tempo.

Huysmans celebrizou-se, entre outros motivos, pelo "uso idiossincrático" do vocabulário francês, o que eu entendo como uma tendência a utilizar certas palavras com um sentido um tanto diferente daquele que os dicionários lhes atribuem, permitindo ao leitor captar o novo significado, desde que invista nisso um pouco de esforço. Traduzir um texto assim deve ter sido desafiador para Aníbal Fernandes, e, na qualidade de leitor, digo que Além exigiu de mim muita atenção e apelou à minha capacidade de fazer conexões e de inferir o sentido a partir do contexto. Certamente não é para leitores iniciantes. Feitas essas advertências, o livro deverá interessar não somente aos cultores da literatura decadentista, mas aos apreciadores do romance francês do século XIX de forma geral, e, por conta da temática macabra que ocupa parte de suas páginas, é provável que também chame a atenção de alguns fãs de terror.