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segunda-feira, setembro 03, 2012

O Cavaleiro da Morte

O mundo começou no caos e vai terminar no caos. Os deuses o trouxeram à existência e vão acabar com ele quando lutarem entre si, mas no tempo entre o caos do nascimento do mundo e o caos da morte do mundo existe ordem, e a ordem é feita de juramentos, e os juramentos nos unem como as fivelas de um arreio.

*          *          *

O primeiro volume das Crônicas Saxônicas, intitulado O Último Reino, terminava com a Batalha de Cynuit, na qual Uhtred de Bebbanburg, de apenas 20 anos, liderou uma pequena força saxã contra um exército de dinamarqueses, e não só obteve uma vitória improvável, como ainda matou em combate singular o terrível Ubba Lothbrokson, o último ainda vivo dos três notáveis chefes vikings filhos do lendário Ragnar Lothbrok. Isso poderia ser seu passaporte para uma alta posição na corte do rei Alfredo, já que essa vitória pode ter salvo, ao menos por algum tempo, o reino de Wessex, o último na Inglaterra que ainda resiste aos invasores nórdicos (na época, a Inglaterra estava dividida em quatro pequenos reinos; os outros três eram Ânglia Oriental, Mércia e Nortúmbria, este último a terra natal de Uhtred). Acontece que, como o velho Uhtred que está contando a história reconhece, quando jovem ele era tolo, orgulhoso e teimoso – como quase todos os jovens, só que num grau pior que o da maioria. Este segundo volume começa quando o rapaz contraria os conselhos de seus companheiros mais velhos e, em vez de ir imediatamente até Alfredo e colocar aos pés do rei o estandarte de Ubba, vai primeiro ver sua esposa e filho. Quando, no dia seguinte, ele finalmente chega ao acampamento de Alfredo, é para descobrir que seu desafeto Odda, o Jovem, filho de Odda, o Velho, chegou primeiro e contou uma história diferente.

Uhtred tem algum respeito por Odda, o Velho, que lutou ao seu lado em Cynuit e está agora moribundo devido aos ferimentos sofridos, mas Odda, o Jovem, que ele considera um covarde, mal participou da batalha. Compreensivelmente enfurecido, Uhtred invade a igreja improvisada do acampamento, onde o devoto Alfredo está orando, para reclamar o crédito por sua façanha, e, esquentado como sempre, acaba desembainhando sua espada na presença do rei – o que, conforme uma lei recentemente promulgada em Wessex, pode ser punido com a morte. Alfredo, imbuído de espírito cristão, o perdoa, só que Uhtred, com o mesmo ato, tornou-se culpado também de outro delito, que foi o de perturbar o andamento do serviço religioso, e esse quem tem que perdoar é Deus. Assim, Uhtred acaba obrigado a vestir um manto de penitente e arrastar-se de joelhos pelo chão enlameado do acampamento até o altar – o que para ele, criado entre os dinamarqueses, é uma humilhação grave. Ele nunca gostou muito do rei, a quem considera um carola manipulado por padres (embora seja impossível negar sua sagacidade), e, depois desse incidente, a antipatia ganha contornos de ódio. Isso faz com que volte a pensar em juntar-se aos dinamarqueses, mesmo tendo passado os últimos dois anos lutando contra eles. Poderíamos falar em lealdades conflitantes, mas a verdade é que Uhtred nunca foi realmente leal a lado nenhum – somente a homens específicos, e, até esse momento de sua vida, esses homens, além de poucos, eram quase todos dinamarqueses.

Como dito, Uhtred é nortúmbrio (ou nortumbriano? Hum…), mas, antes de mais nada, é saxão; e, como sua terra natal é agora uma província dos dinamarqueses, governada por um rei-fantoche, é apenas lógico que, como um saxão livre, ele se submeta ao único rei saxônico de verdade que resta na Inglaterra – e esse é Alfredo de Wessex. Além disso, a esposa de Uhtred é de Wessex, e o casamento fez dele senhor de terras herdadas da família dela. Dessa forma, por menos que goste, ele é súdito de Alfredo, e se vê forçado a acomodar-se em suas terras, tentando, sem muita habilidade, fazê-las prosperar, e lutando contra um enorme tédio.

Durante certo tempo, Uhtred foi comandante da pequena frota de Alfredo; seu antigo navio, o Heahengel ('Arcanjo' em anglo-saxão), está se deteriorando numa praia próxima de sua casa, e olhar para a embarcação abandonada aumenta a depressão do guerreiro… Até que seu antigo imediato, Leofric, aparece em outro navio, trazendo a bordo um time de carpinteiros navais e a ordem de consertar o Heahengel e pô-lo novamente a flutuar. A operação deverá demorar cerca de um mês… E, enquanto os carpinteiros trabalham, Uhtred, Leofric e sua tripulação partem em busca de aventuras, sob o pretexto de "patrulhar a costa". Não por coincidência, a primeira parte do livro intitula-se simplesmente Viking, palavra que, hoje em dia, é muitas vezes usada como sinônimo de "nórdico", como designação de todo um povo, mas que, na origem, era aplicada aos homens que tomavam parte em expedições piratas – que é exatamente o que Uhtred e seus companheiros fazem. A bordo do Fyrdraca ('Dragão Flamejante'), como apelidaram seu navio, eles percorrem a costa de Cornwalum (região do sudoeste da Inglaterra, hoje chamada Cornwall em inglês, Cornualha em português), saqueando indistintamente navios dinamarqueses ou ingleses e procurando por outras maneiras de obter algum ouro e prata.

Uma dessas oportunidades se apresenta quando um certo "rei" Peredur lhes propõe que o sirvam como mercenários, o que ele espera que lhe garanta a vitória contra um "rei" vizinho (como Uhtred explica, naquela região qualquer chefe de vilarejo que pudesse juntar 50 homens armados se intitulava rei). Como o Fyrdraca recebeu como disfarce uma cabeça de dragão, como aquelas usadas nas proas dos navios dinamarqueses, Peredur toma Uhtred e seus homens por vikings de verdade. Quando Uhtred descobre que o rival de Peredur também contratou mercenários nórdicos, percebe que a coisa não será a moleza que ele estava esperando. O líder dos mercenários do lado inimigo é um homem conhecido como Svein do Cavalo Branco, cuja fama já chegara aos ouvidos de Uhtred. Os dois sabem que, se lutarem, independentemente do resultado, ambos perderão muitos homens; assim, acabam entrando num acordo: os dois bandos se unem, arrasam a vila de Peredur e dividem a pilhagem (a essa altura, não é surpresa para ninguém que Uhtred não tenha qualquer problema em trocar de lado sempre que acha conveniente).

O item mais valioso que ele obtém ao saquear a vila é Iseult, uma das esposas do agora falecido Peredur, uma jovem de surpreendente beleza que, dizem, nasceu durante um eclipse, o que faz dela uma "rainha das sombras", conforme uma tradição pagã que sobrevive entre aquele povo ainda em processo de cristianização. Segundo a crença geral, uma rainha das sombras possui poderes proféticos enquanto permanecer virgem, razão essa pela qual Peredur nunca a tocou. Quanto a Uhtred, não dá para dizer que ele não seja supersticioso (longe disso), mas parece que, em sua escala de prioridades, os impulsos masculinos têm precedência sobre as crendices: Iseult torna-se sua amante e ele a leva consigo ao voltar para casa, uma vez terminado aquele mês de aventuras.

Quando, no inverno seguinte, Uhtred é chamado a Cippanhamm (a atual Chippenham, que servia de capital) para falar com Alfredo, ele é acusado de dois crimes. O primeiro é o de ter levado os homens e um dos navios do rei à guerra sem ter recebido ordens para isso – e desse ele sabe que é culpado, embora, é claro, negue. A segunda acusação é a de ter-se juntado aos dinamarqueses para atacar Cynuit, onde estava sendo construída uma igreja para celebrar a vitória saxônica obtida no local – obtida por ele, Uhtred. A igreja em construção foi queimada, e dezenas de monges e aldeões, mortos. Desse ataque ele não participou, mas não há escapatória: ou ele será inocentado dos dois crimes, ou considerado culpado de ambos, e, no segundo caso, morre. Diante disso, Uhtred pede e obtém o direito a um julgamento por combate – uma tradição entre os saxões e outros povos germânicos, que acreditavam que Deus, ou os deuses, dariam a vitória a quem estivesse dizendo a verdade. Uhtred, naturalmente, será o seu próprio campeão; para enfrentá-lo, Odda, o Jovem, sempre ansioso por vê-lo morto, oferece como campeão o mais temido de seus homens, um guerreiro gigantesco, de estupenda força e levemente retardado chamado Steapa Snotor. A narração do duelo deixa-nos a todos com a respiração suspensa, mas ele é interrompido: exatamente quando Uhtred e Steapa estão lutando, os dinamarqueses atacam Cippanhamm.

Uhtred, que cresceu entre os dinamarqueses, fala a língua deles e sempre gostou de seu modo de vida, fica fortemente tentado a se aproveitar do caos para mais uma vez mudar de lado e ajudar a arrasar e pilhar a cidade, mas, talvez pensando na esposa e no filho, não o faz; em vez disso, escapa de Cippanhamm, acompanhado apenas por Leofric, Iseult e mais uma mulher, e sem ter a menor ideia se o rei Alfredo escapou também ou se foi capturado ou morto pelos pagãos. Mas a resposta é favorável: depois de penarem muito viajando a pé em pleno inverno, e de várias peripécias, Uhtred e seu grupo reencontram Alfredo nos pântanos de Sumorsӕte (Somerset), uma região vasta e traiçoeira, pouquíssimo povoada, cujos raros e espalhados habitantes, em muitos casos, nunca ouviram falar nem sequer do rei Alfredo, quanto mais dos dinamarqueses. É uma região de pântanos salobros, pântanos de maré, que durante a maior parte do tempo são rasos demais até mesmo para os navios vikings, de modo que ali o rei e seu punhado de seguidores restantes estão em relativa segurança. É a partir dessa base de operações que Alfredo planeja e começa a executar a gradual retomada de seu reino – com a ajuda de Uhtred, que o serve de má vontade, mas demonstrando capacidade, e tendo a vantagem de conhecer os dinamarqueses e seu modo de pensar: entre outras coisas, ele sabe que os invasores provavelmente conseguiriam tomar o pântano, mesmo com as dificuldades de navegação, caso agissem todos juntos, mas é difícil que isso aconteça, por causa de uma rivalidade entre Guthrum, que ficou sendo o principal chefe dinamarquês após a morte de Ubba e seus irmãos, e Svein, o mesmo que Uhtred conheceu em Cornwalum, e que reluta em submeter-se ao comando de Guthrum. É graças a essa rixa que Alfredo tem uma chance, e ele não pretende desperdiçá-la.

Como todo bom autor de ficção histórica, Bernard Cornwell demonstra habilidade na arte de entrelaçar personagens e eventos reais e fictícios, formando um todo plausível. É fato, por exemplo, que, no século IX, a Inglaterra esteve muito perto de deixar de existir devido às invasões nórdicas, e que Alfredo foi o líder que tornou possível a sua salvação: se não fosse por ele, é provável que, onde está hoje o Reino Unido, houvesse, ao invés, um ou mais países escandinavos. Entretanto, é claro que ele não fez isso sozinho, e Uhtred, mesmo tendo sido inventado, representa um dos tipos de homem com quem Alfredo precisou contar. Já que está lidando com eventos históricos (ainda que misturados com ficção), Cornwell opta por deixar de lado as idealizações: seu Uhtred, embora corajoso e bom guerreiro, dificilmente poderia ser chamado de herói, por causa de sua moralidade discutível – cujo principal exemplo é a já comentada facilidade com que ele troca de lado, não só na guerra entre saxões e dinamarqueses, mas em qualquer conflito no qual se veja envolvido. Como deve lembrar quem leu meu post sobre o primeiro volume das Crônicas Saxônicas (melhor ainda, quem leu o próprio livro), Uhtred já era um garoto crescido, com seus dez ou onze anos, quando foi capturado pelos dinamarqueses e adotado pelo chefe Ragnar (nada a ver com o legendário pai de Ubba; na verdade esse nome devia ser comum). O autor não fez a coisa dessa forma sem bons motivos: Uhtred já tinha idade suficiente para lembrar-se com clareza da vida que teve com seu próprio povo, ele já se entendia como um saxão, o que é bem diferente do que aconteceria se tivesse sido capturado ainda bebê, pois, nesse caso, na certa se consideraria simplesmente um dinamarquês – mesmo que os pais adotivos lhe contassem sobre suas origens – e agiria como tal. Com a história de vida que teve, entretanto, ele se sente ao mesmo tempo saxão e dinamarquês, o que, na prática, é a mesma coisa que não ser nenhum dos dois. Ao ler, não temos a impressão de que Uhtred seja atormentado por grandes conflitos internos, mas isso pode ser porque é ele mesmo, na velhice, quem está contando a história, e, como homem rude e prático que sempre foi, talvez ache bobagem demorar-se falando de seus próprios estados de espírito.

Duas curiosidades históricas para concluir. Primeira: durante sua expedição a Cornwalum, Uhtred conhece um monge do País de Gales, de nome Asser, que, segundo ele, viria, mais tarde, a importuná-lo muito. O protagonista, que já tem pouca simpatia por cristãos em geral, e reserva uma especial má vontade para com padres e monges, parece gostar ainda menos desse monge em particular que da maioria dos outros (parece que, no texto original, ele se aproveitava do nome do cara para fazer um trocadilho nível quinta série com ass, que significa asno). Trata-se de personagem histórico, e não qualquer um: Asser viria a ser bispo de Sherborne e foi um importante cronista, sendo que a maior parte do que sabemos sobre a vida e o reinado de Alfredo vem de seus escritos. Segunda: assim como o primeiro volume, este também termina com uma batalha, mas uma de proporções e importância muito maiores, a Batalha de Ethandun, travada no ano 878 (Ethandun era o antigo nome da atual Edington, no condado de Wiltshire). Não vou contar seu desfecho: quem conhece a história da Inglaterra já sabe, e quem ainda não conhece, na certa vai preferir ler o livro, o que, sem a menor dúvida, vale a pena fazer.

segunda-feira, julho 18, 2011

O Último Reino

Gênero popular no exterior há muito tempo, a ficção histórica só começou a receber investimento digno de nota das editoras nacionais há alguns anos. Por menos que o hábito de ler seja difundido no Brasil, ao olho do "consumidor" tudo indica que o setor editorial viveu uma evolução: os editores parecem ter parado de publicar só o que eles "achavam" que venderia, e procurado saber o que o público queria ler. O preconceito (que eu já ouvi ser expresso até mesmo por pessoas de quem, considerando a cultura que obviamente possuíam, eu não esperaria isso) de que o brasileiro só quereria narrativas que tivessem a ver com seu próprio cotidiano, e não teria o menor interesse por histórias sobre a Antiguidade ou a Idade Média – períodos históricos que nosso país não viveu – parece estar, felizmente, acabando.

E nessa "fase de transição", nada melhor que apostar no mais seguro: publicar primeiro as obras dos monstros sagrados do gênero, os que já tiveram seu desempenho testado e aprovado nas livrarias gringas. Um destes é o britânico Bernard Cornwell, autor de uma celebrada trilogia sobre o rei Artur e também desta "pentalogia" (essa palavra existe?) intitulada As Crônicas Saxônicas, da qual O Último Reino é o primeiro volume, sobre mais uma invasão nas Ilhas Britânicas: desta vez, a dos vikings.

Talvez meus leitores já saibam isso, mas a história dessas ilhas foi feita de invasões. Não há registro de quando seus primeiros habitantes chegaram lá (na verdade, nem sequer é conhecida a identidade exata desses primeiros habitantes), mas depois, onda sobre onda, vieram pictos, celtas, romanos, saxões, vikings e normandos. Cada povo subjugou (ou tentou subjugar) seus antecessores e controlou as ilhas à sua própria maneira enquanto pôde. Em seu tempo, o rei Artur, ou quem quer que tenha sido a figura histórica que deu origem à sua lenda, tentou defender a Bretanha de modo a preservar o modo de vida que então existia nela, oriundo da miscigenação das culturas celta e romana. Os invasores que ele teve que enfrentar eram diversas tribos germânicas que costumavam ser designadas, de forma genérica, pelo nome da mais poderosa e numerosa delas: os saxões, originários da região nordeste da atual Alemanha.

Esses bárbaros já cobiçavam as terras da Bretanha há muito tempo, mas, enquanto ela foi uma província do Império Romano, de um modo geral o poderio militar deste último a manteve a salvo. Quando, em 410, Roma oficialmente retirou-se da Bretanha, a oportunidade há tanto aguardada pelos saxões parecia finalmente ter chegado. O interessante é que, apesar disso, uma invasão em grande escala só foi acontecer cerca de um século depois!... O porquê desse fato não é claro, já que uma das consequências da saída dos romanos foi a interrupção de qualquer registro histórico confiável, mas é inevitável concluir que, para terem conseguido defender-se sozinhos por todo esse tempo, os bretões devem ter tido uma liderança forte, capaz de pacificar os conflitos internos e unir o país contra o inimigo comum. É aí que entra Artur, tenha ele sido um homem ou vários, que a lenda aglutinou numa única figura.

Seja como for, quem quer que Artur tenha sido, o que quer que ele tenha feito, o dia dos saxões tardou, mas chegou. Entre os séculos VI e VII, eles ocuparam toda a atual Inglaterra; como os romanos antes deles, os saxões pouparam a maior parte da Escócia e da Irlanda, por serem de acesso difícil e aparentemente não oferecerem recursos naturais ou terras férteis em quantidade suficiente para recompensar o esforço da conquista – motivo pelo qual, ainda hoje, grande parte das populações desses países continua a falar línguas de origem celta e a cultivar tradições culturais desse povo.

Ao chegarem à Bretanha, os saxões já encontraram grande parte da ilha cristianizada devido à influência romana – um fato que rapidamente trataram de "corrigir" a fio de espada. Em poucas décadas, o paganismo germânico predominava de modo absoluto na ilha, ainda que por pouco tempo: o esforço conjunto de monges irlandeses e de novos missionários enviados de Roma foi gradualmente fazendo com que os saxões fossem abraçando o cristianismo. De modo que é num país basicamente cristão, na segunda metade do século IX, que vive o herói de O Último Reino: Uhtred, filho de Uhtred, um ealdorman (chefe) saxão.


E é esse país que hordas de vikings invasores, a maioria oriundos da Dinamarca, estão atacando. Por muito tempo a costa inglesa, assim como a de boa parte da Europa, já havia sofrido com as incursões piratas desse povo do norte, que combinava um gosto selvagem pela luta e pela carnificina com uma paixão pelo desbravamento – e, durante os últimos tempos, uma necessidade premente de expansão, já que a pouca terra fértil disponível em seus países gelados e montanhosos já não era capaz de sustentar sua população em crescimento. A diferença é que desta vez os homens do norte não iriam contentar-se em encher seus navios com o produto da pilhagem e ir embora: vinham para ficar, para tomar a terra e transformá-la em colônia sua. Era o ciclo se repetindo mais uma vez: os saxões, outrora invasores temidos, eram agora os habitantes estabelecidos na Inglaterra (nome esse, aliás, que o país havia ganho recentemente: vem dos anglos, outra tribo germânica que a invadira ao lado dos saxões) e precisavam defender-se contra novos invasores, tão brutais e sanguinários quanto eles próprios já tinham tido a fama de serem. E, embora os saxões, ao tempo em que invadiram a Bretanha romana, tivessem também outra fama, a de hábeis marinheiros (tradição que se perdeu com o tempo), os vikings os superavam de longe nessa parte: o mar era praticamente a vida deles. Seu tipo característico de navio, o drakkar ('dragão') era uma pequena maravilha de engenharia náutica: menor que os navios de outros povos da época, extremamente ágil e manobrável, capaz de navegar para a frente ou para trás, tinha no fundo achatado seu principal segredo, pois graças a ele gozava de extrema estabilidade (leia-se: era quase impossível virar um drakkar) e podia navegar até mesmo em águas muito rasas, o que permitia aos vikings subir rios com facilidade e desembarcar direto do navio para terra firme, sem necessidade de botes.

Quando a cidade inglesa de Eoferwic (que os romanos haviam antes chamado de Eboracum, e hoje tem o nome de York) é sitiada e invadida pelos dinamarqueses, Uhtred, o pai, tomba durante a batalha, e Uhtred, o filho, então com cerca de dez anos de idade, cai prisioneiro dos invasores. Um dos chefes vikings, Ragnar, simpatiza com ele e toma-o sob seus cuidados. Uhtred, que nunca recebeu muita atenção de seu pai verdadeiro, e não é, por natureza, muito propenso a qualquer tipo de lealdade, rapidamente toma gosto pelo modo de vida viking, afeiçoa-se ao pai adotivo e aos novos amigos que faz. E, acompanhando os nórdicos, é testemunha ocular da queda de três dos quatro reinos ingleses diante deles: Nortúmbria, Mércia e Ânglia do Leste, todas se rendem, entregando seus campos para serem tomados, as cidades para serem pilhadas, e o povo para ser trucidado ou escravizado. Até que só resta um reino que ainda resiste à sanha dinamarquesa: Wessex, governado primeiro pelo rei Æthelred e depois por seu irmão mais novo, Ælfred – que passaria à História como Alfredo, o Grande.

A região de Wessex, embora não mais seja um reino, ainda hoje conserva o mesmo nome, uma contração de West Saxons – os Saxões do Oeste. Parecia muito improvável que Alfredo algum dia chegasse ao trono, já que era o mais novo de seis irmãos, mas isso acaba acontecendo, e não pouca gente considera o fato um desígnio de Deus – o Deus cristão, que Alfredo cultua e que os dinamarqueses desprezam porque Seus mandamentos estimulam a piedade e a compaixão, que, para eles, são sinônimo de fraqueza. O primeiro contato que Uhtred tem com Alfredo não o impressiona muito: o então jovem príncipe parece ser um pateta que vive cedendo às tentações da carne para logo em seguida choramingar arrependido do pecado. Entretanto, o desígnio de Deus, se foi um desígnio, mostra-se acertado, pois, ao longo dos anos seguintes à sua coroação, Alfredo prova ser um líder sagaz, provavelmente o único dentre os reis possíveis que realmente tinha condições de frustrar o plano dos vikings de transformar a Inglaterra numa grande Dinamarca. Por esse tempo, Uhtred, já um jovem guerreiro, perdeu o pai adotivo dinamarquês, assassinado por um rival também dinamarquês, e acalenta o plano de vingá-lo e de recuperar o antigo domínio de seu pai verdadeiro, na Nortúmbria, agora nas mãos de um tio usurpador. Como um passo nessa direção, acaba pondo-se a serviço de Alfredo na luta contra os dinamarqueses (realmente, lealdade não é o forte desse sujeito), o que, embora ele não saiba, é apenas o começo de uma longa saga na qual não faltarão intriga, aventura e batalhas sangrentas.

Bernard Cornwell escreve magnificamente! Não deve nada a um Conn Iggulden, a um Steven Pressfield ou mesmo a uma Mary Renault, figuras coroadas da ficção histórica de língua inglesa. As Crônicas Saxônicas caíram do céu para quem tem curiosidade sobre a formação da Inglaterra moderna, mas ficava intimidado com o volume da informação, com a dificuldade de separar o essencial do secundário nos textos de História tradicionais, e com o conhecimento prévio que eles muitas vezes pressupõem – para não falar na necessidade de saber inglês. Apresentar fatos históricos usando-os como pano de fundo para a trajetória de um ou mais personagens fictícios é uma fórmula antiga, mas sempre foi e continua sendo eficiente, desde que o autor tenha duas habilidades em grau alto: a de um bom forjador de narrativas e a de um pesquisador, além do condão de fundir as duas coisas de forma convincente. E Cornwell passa no teste em todos os quesitos. Não acho que eu vá escrever um post sobre cada volume das Crônicas como fiz com O Imperador de Iggulden, mas que elas mereceriam isso, não há dúvida. Também há pouca dúvida de que terei coisas a dizer sobre outras obras do autor num futuro não muito distante. Por ora, adianto que As Crônicas Saxônicas pode ser amplamente recomendado a todos os leitores que se interessam pela cultura viking, pela história da Inglaterra e pelo mundo medieval de forma geral.

quarta-feira, junho 01, 2011

Thor


Para quem já foi durante muito tempo (ou o que para um adolescente pareceu ser muito tempo) um entusiasta de quadrinhos, mas já não os lê, a não ser ocasionalmente, há uns bons anos, não será tarefa das mais fáceis comentar este novo filme, mas já observei que os textos mais difíceis de começar costumam ser os que, depois que deslancham, acabam tendo os resultados mais interessantes. Então peço paciência a meus leitores se este post demorar um pouco a "decolar". ☺

Quando Stan Lee, fundador e, na época, principal argumentista da Marvel Comics Group, escreveu a primeira história tendo como protagonista o deus nórdico Thor (publicada na revista Journey Into Mystery n.º 83, de agosto de 1962), estava fazendo algo de inaudito para a época: buscar inspiração no passado da humanidade, em suas religiões antigas e lendas ancestrais, para contar histórias com uma roupagem moderna, que atraísse os jovens. Para aproximar mais o personagem de seus leitores e também poder fazê-lo interagir com os demais astros dos quadrinhos de seu selo, como o Hulk, Homem de Ferro, Capitão América e outros, Lee teria que trazer Thor para o século XX. Conseguiu isso criando para ele um alter ego, o Dr. Donald Blake, um cirurgião (americano, é óbvio) manco, que, durante uma viagem à Noruega, encontraria numa caverna um velho bastão de madeira e, ao batê-lo acidentalmente nas pedras, ver-se-ia transformado no poderoso Deus do Trovão, tendo o bastão virado o mítico martelo Mjolnir (o j pronuncia-se como i semivogal). Daí em diante, Blake levaria a vida dupla típica de quase todos os super-heróis, exercendo a medicina como rotina e ocasionalmente encarnando o deus para salvar o mundo daquelas boas e velhas ameaças cósmicas que todo argumentista do gênero é craque em tirar da manga.

As histórias de Thor seguiram nesse esquema durante anos, com os altos e baixos normais. Como não sou um especialista e, além disso, essas histórias foram publicadas muito antes do meu tempo, não sei dizer ao certo se foi ainda o próprio Lee ou um dos vários argumentistas por cujas mãos o herói passou quem teve a ideia de dar uma reviravolta em sua origem. Até então, Donald Blake acreditava ser apenas um mortal a quem os desígnios de alguma sabedoria superior teriam achado por bem conceder os poderes de um deus para que os usasse em defesa de causas justas. Aos poucos, eventos misteriosos que iam ocorrendo em sua vida, e imagens que surgiam inexplicavelmente em sua memória, acabaram por levá-lo a compreender a verdade: ele era o próprio deus Thor.

A explicação encontrada para isso foi bastante engenhosa e com um sabor realm
ente mitológico: calçado em sua condição de primogênito do deus supremo, Odin, e em sua reputação de grande guerreiro entre os habitantes de Asgard (o reino dos deuses), Thor ter-se-ia tornado um deus egoísta e arrogante. Para ensinar-lhe uma lição, Odin teria retirado seus poderes, apagado sua memória, e o colocado para viver na Terra sob uma identidade forjada, a do então estudante de medicina Blake. Como um jovem sem muitos recursos, e que sofria com as sequelas de uma paralisia, Thor aprenderia o valor da humildade e do trabalho duro, até estar pronto para receber de volta sua herança divina.

Foi já nos anos 80 que um sujeito chamado Walter Simonson assumiu a revista mensal de Thor nos Estados Unidos. Escritor e também desenhista, realizou uma reformulação geral no personagem e em seu ambiente, buscando reduzir ao mínimo possível as ligações com o universo super-heroístico da Marvel para investir pesado numa maior aproximação com a mitologia nórdica, que, afinal de contas, foi de onde o personagem veio. E é nítido que foi principalmente dessa fase que veio a inspiração para o primeiro filme da nova safra cinematográfica da Marvel a tratar do Deus do Trovão.

E vamos concordar, não se trata de um filme qualquer ― nenhum filme dirigido por Kenneth Branagh, responsável por nada menos que Henrique V, é um filme qualquer. Menos ainda se tiver Anthony Hopkins no papel de Odin e Natalie Portman ― rara combinação de beleza estonteante e talento admirável, capaz de se sair bem seja num filme ET (extra trash) como Marte Ataca (1996) ou num tenso thriller psicológico como o recente Cisne Negro ― como a "mocinha", no caso a cientista Jane Foster, com quem Thor, exilado na Terra, irá se envolver. O filme tem ainda Stellan Skarsgård (Rei Arthur, O Exorcista: o Início) como Dr. Erik Selvig, mentor de Jane; Tom Hiddleston como Loki; Jaimie Alexander como a deusa Sif (na mitologia, esposa de Thor, no filme aparentemente apenas uma "amiga", que nem chega a interferir na relação dele com Jane) e, curiosamente, Ray Stevenson (também de Rei Arthur e da série Roma), praticamente irreconhecível sob uma montanha de barba e cabelo, como o gordo e bonachão Volstagg, personagem criado para os quadrinhos.




O filme começa com uma cena em que Jane, Selvig e sua bolsista estão tentando observar e registrar um estranho fenômeno nos céus do deserto do Novo México, quando seu veículo de pesquisa atropela um homem que parece ter surgido do nada em meio à tempestade. Depois de o espectador ter apenas tido tempo de ver que o homem é Chris Hemsworth, que interpreta Thor, a narrativa recua para a Idade Média, nas terras do norte, e passa a ocupar-se de uma guerra entre os deuses de Asgard e os Jotun, ou gigantes de gelo ― é interessante notar que na mitologia nórdica, como na grega, os gigantes personificam forças da natureza, e que os deuses nórdicos, também como seus equivalentes gregos, têm com esses gigantes uma relação ambivalente: ao mesmo tempo em que são ligadas por estreitos laços de parentesco, as duas raças são inimigas mortais. Com os deuses saindo vitoriosos, Odin toma dos gigantes uma caixa misteriosa que dá origem aos poderes deles, e estabelece uma trégua ― que Thor, muitos anos depois, irá quebrar em busca de glória pessoal, levando Asgard à beira de uma nova guerra. No filme, é esse ato que leva o rei dos deuses a banir o filho para a Terra, tendo anulado a maior parte de seu poder, mas Thor não perde a memória, nem chega propriamente a ter um alter ego humano ― apenas usa falsamente e por um curto período de tempo o nome de Donald Blake, que, segundo Jane, é um "ex" seu. Em Asgard, Odin adormece (de acordo com a mitologia, ele precisava de longos períodos de sono para manter seus poderes) e, sem que ninguém saiba quando despertará, seu ardiloso filho adotivo, Loki, aproveita-se da ausência de Thor para fazer-se rei, o que precipitará o conflito que serve de combustível ao roteiro.


O filme toma diversas liberdades em relação à mitologia ― basicamente, as mesmas que os quadrinhos já tomavam, e mais algumas. Nas lendas nórdicas, por exemplo, Loki não era filho de Odin, nem mesmo por adoção, e, embora por nascimento pertencesse à raça dos gigantes, era admitido ao convívio dos deuses e geralmente considerado um deles. Tinha uma personalidade complicada, algumas vezes comportando-se como um fiel amigo dos deuses, outras como um trapaceiro compulsivo. Nos quadrinhos, essa complexidade havia sido abolida ― Loki era retratado sempre como mau-caráter ―, enquanto, no filme, ele é um personagem mais dramático, que sofre ao descobrir sua verdadeira origem, o que pode, em parte, justificar seus atos e ganhar para ele um pouco da simpatia do espectador. Loki era o deus do fogo e gerou muitos filhos, tanto humanos quanto feras, entre eles Sleipnir, o garanhão de oito patas que servia de montaria a Odin, bem como o monstruoso lobo Fenris, ou Fenrir, e a Serpente de Midgard. Midgard, aliás, era como os nórdicos chamavam o mundo onde vivemos nós, humanos. Esse nome, que significa literalmente terra média (alguém se lembra onde já vimos isso?), deve-se ao fato de que esse mundo fica no meio, abaixo do céu, onde vivem os deuses, e acima do mundo subterrâneo, habitado por trolls e outras criaturas do escuro.

O próprio Thor era uma figura à parte. Diferente do que o filme sugere, a deusa Friga, embora fosse esposa de Odin, não era a mãe de Thor, que nasceu da relação dele com uma giganta de nome Jord (que significa Terra), provavelmente antes de seu casamento com Friga. Embora Odin fosse o deus supremo, Thor era, de longe, muito mais popular e cultuado, principalmente entre os homens: era um deus-herói, guerreiro, aventureiro, exatamente a divindade adequada aos seguidores da filosofia viking de vida, que tinham no sangue a febre do desbravamento e acreditavam que a única morte digna de um homem era no campo de batalha. Em homenagem a Thor, quase todos os vikings usavam no pescoço um pingente em forma de martelo.

Por falar em morte, alguns podem ter estranhado a cena em que, prestes a partir para Jotunheim, o reino dos gigantes de gelo, Thor diz a Heimdall, o guardião dos portões de Asgard, que não tem planos de morrer naquele dia, e Heimdall replica que ninguém tem. Pode-se pensar: "Fácil para eles dizerem isso: são deuses, imortais!" Beeeem... Mais ou menos. O fato é que os deuses nórdicos não eram imortais no sentido pleno do termo. Para evitar a velhice e as doenças, precisavam comer regularmente as maçãs mágicas cultivadas pela deusa Iduna, e podiam, sim, morrer em combate da mesma forma que os homens ― embora, claro, para isso fosse preciso um adversário realmente poderoso.

Falar em Heimdall me fez lembrar de um detalhe discutível (para dizer o mínimo) do filme: esse deus é interpretado pelo ator Idris Elba ― que é negro ―, enquanto Hogun, outro personagem oriundo dos quadrinhos, é representado pelo japonês Tadanobu Asano. Pergunto: qual a lógica de colocar negros e orientais no reino dos deuses nórdicos? Não seria isso um exemplo típico da obsessão do politicamente correto prevalecendo sobre o bom senso?

Em resumo: Thor vale a pena ser visto. Tem um enredo cativante, que consegue a difícil proeza de ser interessante tanto para o inveterado leitor de quadrinhos quanto para o espectador de ocasião que pouco ou nada sabe sobre o universo da Marvel, tem ótimas atuações (com o inevitável destaque para o "imortal" Anthony Hopkins e para a boa surpresa Tom Hiddleston), tem um visual de encher os olhos, e tem o grande mérito de contribuir para despertar nas novas gerações o interesse pelo mundo fascinante e cheio de significados da mitologia.

domingo, novembro 25, 2007

As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica

Preenchendo uma velha lacuna no mercado editorial brasileiro, os autores gaúchos A. S. Franchini e Carmen Seganfredo chamaram a si a tarefa de recontar numa linguagem acessível as antigas histórias, lendas e fábulas que a humanidade acumulou ao longo de milênios de experiências e sonhos. O primeiro volume a me chegar às mãos, oriundo dessa parceria, foi este As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica. Já existem vários outros, enfocando as mitologias grega, egípcia, a Bíblia, ou sagas e ciclos específicos, como O Anel dos Nibelungos ou o recente Beowulf. Trata-se de uma sacada publicitária inteligente o fato de a capa deste livro trazer a frase "A mitologia na qual J. R. R. Tolkien se baseou para escrever O Senhor dos Anéis", pois, desde o boom de popularidade que a obra de Tolkien experimentou no Brasil após o lançamento da trilogia cinematográfica alguns anos atrás, isso tem quase o mesmo efeito que teriam, na capa de uma nova edição de algum romance brasileiro, os dizeres "Obra que deu origem à minissérie da TV Globo"... Mas vamos falar do livro.

Para quem já é familiarizado com a mitologia greco-romana, um primeiro contato com a nórdica pode causar um certo estranhamento, pois esta reflete os valores e crenças de um povo cuja mentalidade distava anos-luz da dos habitantes da bacia do Mediterrâneo ― embora curiosas semelhanças, por vezes evidentes demais para serem casuais, também existam. Franchini e Seganfredo tiveram o cuidado de traçar paralelos, sempre que necessário, entre a mitologia nórdica propriamente dita ― aquela originária dos países escandinavos ― e a germânica, das regiões que hoje correspondem à Alemanha e Holanda. Os deuses e os heróis são basicamente os mesmos, com nomes ligeiramente diferentes, e o mesmo se dá com muitas das narrativas, que diferem em pequenos ou grandes detalhes. Por exemplo, na primeira parte do livro está narrada a versão nórdica das aventuras de Sigurd ― o mesmo herói que os alemães chamam de Siegfried e que protagoniza o ciclo d'O Anel dos Nibelungos, que pode ser lido na segunda parte, permitindo que se comparem as duas versões, o que dá lugar a observações curiosíssimas. Tanto em sua versão nórdica quanto na germânica, essa narrativa orbita em torno de um anel amaldiçoado e dotado de estranhos poderes, um objeto capaz de transtornar a mente das criaturas a tal ponto que o desejo de possuí-lo supera qualquer escrúpulo moral ou da razão. Esse é o principal ponto de contato entre a obra de Tolkien e a mitologia nórdica, mas não o único: a espada que é quebrada e depois reforjada faz parte do mesmo mito, assim como o dragão que guarda um tesouro com o maior ciúme e ferocidade, embora este seja para ele completamente inútil. Além disso, as passagens em que o deus supremo Odin aparece sob disfarce humano ― na figura de um velho misterioso portando um cajado e uma espada ― lembram de forma irresistível a figura tolkieniana do mago imortal Gandalf. Coincidência? De jeito nenhum!

Deixando Tolkien um pouco de lado (mas não muito, já que tudo está interligado), também não dá para crer que seja coincidência a maneira como Sigmund, pai de Sigurd/Siegfried, vem a possuir a espada mágica Notung, que será mais tarde empunhada pelo filho: Sigmund a remove do tronco de uma imensa árvore onde fora cravada e de onde centenas de guerreiros já haviam tentado retirá-la, inutilmente, já que só um predestinado poderia possuí-la. Não lembra nada?? Pode ser impossível dizer se a lenda nórdica inspirou a britânica, se foi o contrário, ou se ambas simplesmente tiveram origem em algum arquétipo ou símbolo que está no inconsciente coletivo de todos os povos, mas que esse tema merece profundos estudos, disso não há dúvida. Talvez não se chegue a uma resposta final, mas, ao longo do caminho, esses estudos podem revelar coisas essenciais para nosso autoconhecimento e para a compreensão do mito do herói, que, direta ou indiretamente, inspirou todos os seres humanos que já realizaram algo de notável, em qualquer época.

O livro tem alguns pequenos problemas de língua portuguesa, o que é bem estranho, se considerarmos que a orelha informa que Carmen Seganfredo é "bacharelada em Letras e tradutora", mas isso é uma falha menor e perdoável, se comparada à excelente ideia em que se baseia a obra da dupla de escritores e a pesquisa cuidadosa que obviamente existe por trás de cada capítulo. Jung dizia que "os mitos são sonhos públicos, e os sonhos são mitos privados". Tal como os sonhos (tanto os que temos ao dormir quanto os que criamos de olhos abertos) são peças-chave para a compreensão da mente do indivíduo, conhecer os mitos é essencial para quem nunca se cansa de tentar (só tentar!) compreender esse oceano de contradições, esse universo de grandezas e misérias que é a condição humana.

quinta-feira, outubro 04, 2007

O 13.º Guerreiro


De um livro pouco conhecido de Michael Crichton (autor do blockbuster Jurassic Park, além de outros livros/filmes de sucesso mais discreto, como Congo e Linha do Tempo) originou-se este ótimo filme de aventuras dirigido por John McTiernan e estrelado por Antonio Banderas. Além de adrenalina, o DVD também oferece ao espectador mais atento a questões culturais uma série de detalhes interessantes de se observar. Por sinal, as proporções relativas do sucesso alcançado pelas obras de Crichton adaptadas para a tela reflete a grande e inevitável injustiça da indústria cinematográfica: O 13.º Guerreiro é incomparavelmente mais interessante que todas as correrias de T. Rex e Velociraptors pelo parque.

O título original do livro era Eaters of the Dead - ('Os devoradores de mortos'). Não tive o prazer de lê-lo ainda, mas uma pesquisa a respeito me informou que Crichton utilizou o velho truque de apresentar a história como sendo a transcrição de um "antigo manuscrito", nesse caso de autoria do árabe Ahmad Ibn Fadlan, datado do ano 922. Exilado do "mundo civilizado" (o que, nessa época, significava principalmente os países árabes, que superavam em muito a Europa cristã em matéria de ciência e desenvolvimento cultural), Ahmad é enviado para o norte, para atuar como embaixador num país distante. Mas não chega ao destino: às margens do Volga, encontra um bando de vikings e acaba tendo que acompanhá-los numa arriscada viagem para socorrer um reino ameaçado por um mal antigo e misterioso. Um oráculo determina que a expedição deve ser composta por homens em número idêntico ao dos meses no calendário dos nórdicos - treze - e que o último não deve ser viking. Sobra para Ahmad.

Embora eu seja um apaixonado pela cultura, história e mitologia dos povos nórdicos, não posso me dizer um grande conhecedor. Entretanto, até onde pude ver, o visual do filme é bem cuidado: arquitetura, figurinos, armas e, o mais importante, nada de elmos com chifres, coisa que pertence a uma visão caricata dos vikings. Não que tais capacetes não existissem, mas eram raros e usados somente em cerimônias religiosas ou ocasiões de gala - por exemplo, era bem visto para um chefe comparecer a uma festa importante usando sua melhor roupa e um capacete com chifres. Já em batalha, tal objeto seria apenas um peso desnecessário e um alvo fácil para os golpes do inimigo.

Nota-se que a história do filme é parcialmente inspirada no poema épico Beowulf, um dos mais antigos representantes da literatura inglesa - escrito ainda em anglo-saxão, língua ancestral do inglês moderno, e datado entre os anos 700 e 1000. E, sim, foi escrito na Inglaterra, apesar da temática nórdica, e provavelmente antes das invasões dinamarquesas do século X. É claro que no poema não havia nenhum árabe envolvido, e no filme o nome do herói mudou ligeiramente: Beowulf virou Buliwyf. Além disso, não é ele o protagonista, e sim Ahmad.

O mal que os treze guerreiros são convocados a enfrentar é uma horda de criaturas aparentemente semi-humanas, semi-animais, que se escondem em cavernas e atacam em noites brumosas, matando todos que encontram com incrível brutalidade. Seu número parece ilimitado, de modo que apenas lutar com eles e matá-los é inútil: a parte mais difícil da missão consiste em encontrar um meio de detê-los.


Há diversas sugestões de que o wendol - coletivo que designa os monstros - é na verdade uma raça de origem muito primitiva: num dos lugares por onde semearam a morte, eles perdem um ídolo, uma pequena estátua feminina com seios e nádegas enormes, ou seja, uma deusa representando a fertilidade, tal como era figurada pelo homem de Cro-Magnon há mais de 30 mil anos. São aparentemente governados por uma "rainha-mãe" e pelo companheiro dela, que lidera o wendol nos ataques e usa chifres como insígnia. Tudo elementos de uma simbologia de origem pré-histórica: a Grande Mãe e o Deus Chifrudo...

Mas o mais interessante é o choque de culturas, que o livro deve desenvolver muito mais, já que no filme só há tempo para rápidas pinceladas. Ahmad é um homem culto, sofisticado, que a princípio se choca na presença daqueles "bárbaros", mas aos poucos aprende a reconhecer suas qualidades e a criar laços de amizade com eles. Fica atordoado com a alegria constante e ruidosa dos nórdicos, que brincam e gargalham quase o tempo todo, seja a bordo de um navio a ponto de ir a pique numa tempestade, ou pouco antes de uma batalha em tremenda desvantagem numérica contra um inimigo apavorante. Tanto ele quanto o espectador compreendem um pouco melhor essa atitude quando um dos guerreiros diz a Ahmad mais ou menos isto: "Nosso destino já estava escrito antes de nascermos, e assim também o momento de nossa morte. Esconda-se num buraco se quiser, mas isso não o fará viver nem um minuto a mais. O homem nada ganha com o medo". Essa filosofia fatalista explica a coragem por vezes beirando a insensatez que sempre caracterizou os guerreiros nórdicos, e é idêntica à que norteava os heróis gregos nos poemas homéricos: o homem não escolhe o momento de sua morte, mas pode escolher o modo como irá encará-la.

Enfim, seja com um olhar cultural ou apenas por diversão, recomendo plenamente que O 13.º Guerreiro seja visto. Vale bem mais a pena do que muitos outros filmes sobre os quais se fez bem mais barulho!