Mostrando postagens com marcador fantasia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fantasia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, janeiro 13, 2022

The Videssos Cycle, vol. I: The Misplaced Legion

Já não sou propriamente jovem, pois nasci na década de 70, e, sendo assim, tenho idade suficiente para me lembrar bem de como era frustrante ser um leitor voraz e apaixonado por fantasia e aventuras épicas no Brasil durante os anos 80 e início dos 90 (já comentei isso antes). Não havia interesse por parte dos editores nacionais em publicar esse tipo de material, e nem mesmo saber inglês resolvia o problema (não que eu já soubesse na época), pois não tínhamos a internet para fuçar em busca de raridades; então, quando líamos em algum lugar uma referência e a breve descrição de alguma obra fascinante e jamais publicada no país, geralmente só podíamos ficar imaginando e chupando o dedo. Algumas existiam em edições portuguesas, mas consegui-las era trabalhoso e caro – como ainda é, só que esses empecilhos, que hoje em dia não me detêm quando se trata de adquirir algo que realmente me interesse, eram intransponíveis para um mero estudante que dependia de mesada. As coisas começaram gradualmente a melhorar a partir de meados dos anos 90, quando saiu uma nova edição de O Senhor dos Anéis, que há muito estava fora de catálogo, e suas boas vendagens fizeram as editoras abrirem os olhos para o fato de que havia, sim, público para a literatura de fantasia no Brasil. De lá para cá, a coisa deslanchou, chegando ao ponto de eu me perguntar se a oferta de títulos desse tipo não se tornou um tanto excessiva… É claro que cada leitor é livre para escolher o que comprar e o que ler, porém a grande quantidade traz no meio muita coisa de baixa qualidade.

Agora que comprei um Kindle, os últimos limites caíram: dá para adquirir praticamente qualquer coisa, publicada em qualquer lugar, sem esbarrar em problemas como edições esgotadas ou a dificuldade logística de importar um livro físico que teria que vir do outro lado do mundo. Se o que você quer estiver no catálogo de e-books da Amazon (e, pelo menos até o momento, tudo em que consegui pensar estava lá), basta selecionar, digitar o número do seu cartão de crédito, e voilà: tão logo o pagamento seja confirmado, o livro estará disponível para ser lido por meio dessa maquineta milagrosa, ou no seu computador, se lhe for mais conveniente. Isso não significa que, de agora em diante, eu só pretenda comprar livros desse jeito: sou em essência um tradicionalista, e sempre continuarei apreciando o contato físico com o livro, o cheiro do papel e da tinta, o som das páginas virando, o prazer de organizar uma estante e depois olhar para ela com aquela satisfação que só os leitores apaixonados conhecem. Além disso, não quero que as livrarias tradicionais deixem de existir, então continuarei contribuindo com a minha parte para mantê-las abertas. Ainda assim, o Kindle é muito bem-vindo, por tornar acessíveis muitas obras que seria praticamente impossível conseguir de outra forma.

E uma das primeiras coisas que me lembrei de adquirir por esse novo meio foi o Ciclo de Videssos, do norte-americano Harry Turtledove (1949-). Fiquei sabendo da existência dessa saga graças ao GURPS Império Romano, um suplemento para o RPG GURPS (sigla de Generic Universal Roleplaying System), publicado no Brasil pela editora Devir, pelo menos, desde os anos 90. Muitos RPGistas não gostam do GURPS por causa de suas regras muito complexas e detalhistas, que, do ponto de vista deles, comprometem a agilidade e a fluidez do jogo, mas ele tem o grande mérito de permitir a criação de aventuras com praticamente qualquer ambientação imaginável, de fantasia medieval até faroeste e de horror gótico até espionagem moderna, sem que seja necessário aprender um novo conjunto de regras para cada cenário desses: basta aplicar as regras contidas no "módulo básico", combinadas às informações trazidas em qualquer um dos suplementos disponíveis. Nos Estados Unidos existem literalmente dezenas desses suplementos; no Brasil, a Devir publicou um punhado deles. Tive pouca experiência com RPG e nenhuma com o GURPS especificamente, mas comprei esse suplemento por estar recheado de informações sobre a Roma antiga que eram e são interessantes independentemente de seu eventual uso no jogo. Perto do final do livro, o autor C. J. Carella fornece uma série de sugestões para que os game masters que o estiverem lendo criem suas próprias aventuras, além de indicar várias obras de ficção que podem servir de inspiração. Uma delas era justamente o Ciclo de Videssos, que, como informava Carella, narra as peripécias de uma legião romana que, por efeitos de um acidente de magia, é transportada para um mundo paralelo onde a referida magia é comum – ou seja, um crossover tentador entre ficção histórica e fantasia. São ao todo quatro livros, que, na Amazon, estão disponíveis em dois volumes (pode-se falar em "volumes" quando se trata de livros virtuais?), o primeiro contendo The Misplaced Legion e An Emperor for the Legion, e o segundo, The Legion of Videssos e Swords of the Legion. Acabo de ler o primeiro livro, e ele é ainda mais empolgante do que eu imaginava!

Estamos na Gália, provavelmente um pouco antes do ano 50 a.C., durante a campanha romana, liderada por Júlio César, que terminaria com a conquista desse país e sua transformação em província de Roma. Sob o comando do tribuno Marco Emílio Escauro, um destacamento composto por três coortes é enviado numa missão de reconhecimento até o território da tribo Lexovii, na região do delta do Sena. Escauro é jovem, mas não parece tão cru quanto o tribuno Lúcio Túbero, da Trilogia das Águias, além de ser muito mais cordato e inteligente. Parece já estar em serviço há alguns anos e deve andar pelos seus vinte e poucos ou perto dos trinta; seu segundo em comando, o centurião Caio Filipo, gosta mais dele que de qualquer outro jovem oficial com quem tenha servido em sua longa carreira.

Escauro está um tanto apreensivo com sua missão: já tem experiência para saber que o número de homens que ele comanda (três coortes seriam algo entre 1500 e 1800 legionários) é plenamente suficiente para chamar a atenção dos gauleses, mas pode ser pouco para enfrentá-los no caso de um ataque. E o ataque vem: um caótico e inflamado exército gaulês com aproximadamente o dobro do número de homens do destacamento romano os cerca numa clareira em meio às densas florestas daquela região, e uma desesperada batalha tem início. Os gauleses, como se sabe, estavam longe de ter a mesma disciplina e habilidades táticas dos romanos (nenhum povo da época tinha), mas, ainda assim, eram oponentes temíveis. Já à noite, depois de horas de luta com muitas baixas de ambos os lados, o chefe gaulês se adianta e desafia o líder dos romanos para um combate singular. Marco não se considera nenhum herói, na verdade admite que está no exército basicamente para acumular um currículo que o ajude no futuro a alcançar suas ambições políticas (como, aliás, era o caso da maioria dos tribunos militares), mas também não é um covarde, e não recua diante do desafio.

Um detalhe que até aí parecia apenas pitoresco vai assumir agora uma importância imprevista. Marco Escauro vem de uma família originária de Mediolanum (a atual Milão), bem no norte da Itália, e parece que, em algum momento, seus ancestrais misturaram seu sangue ao de seus vizinhos gauleses, pois ele é alto e loiro, bem diferente do romano típico, de estatura mediana e cabelos escuros. E, devido a sua altura incomum, escolheu uma arma também incomum para um oficial romano: uma espada longa gaulesa, tirada de um druida que ele matou em combate algum tempo antes; essa arma é mais adequada ao comprimento de seu braço que um gládio, a espada curta que era padrão nas legiões. A espada tem uma série de sinais gravados em sua lâmina, que, considerando quem era seu proprietário anterior, sem dúvida possuem algum significado mágico para os celtas, mas isso não importa para Escauro… Até ele verificar que o chefe gaulês contra quem vai lutar também empunha uma espada com símbolos semelhantes.

Quando as duas espadas se encontram, algo inconcebível acontece. O choque das lâminas encantadas faz com que Escauro e todos os seus homens – e, junto com eles, o chefe gaulês, que se chama Viridovix – sejam subitamente arrebatados por uma gigantesca cúpula luminosa e transportados de forma instantânea através do tempo, espaço ou seja o que for, até um mundo diferente, onde logo descobrem estar nos domínios do Império de Videssos. O mundo em si parece ser uma versão alternativa da Terra; as estrelas vistas no céu e a configuração dos continentes são totalmente diferentes, mas os habitantes são seres humanos perfeitamente comuns (embora com línguas e culturas diferentes), e a vida animal e vegetal também é familiar.

Não demora a ficar evidente que não há a menor chance de voltarem para casa, e, diante disso, o pequeno exército romano (composto, naturalmente, por homens de várias nações) precisa encontrar um meio de vida naquele mundo. Conforme vão se inteirando de mais coisas, descobrem que Videssos enfrenta ameaças intermitentes de invasão, e por isso sempre tem necessidade de bons mercenários; os romanos, então, "vendem suas espadas", como se dizia na época, a Sua Majestade, Mavrikios Gavras, imperador dos videssianos. Não se trata apenas de uma forma de ganharem seu sustento material: o serviço mercenário é também a única possibilidade de que os videssianos lhes permitam continuar todos juntos como uma unidade militar, pois, de outra forma, nenhum governante com algum juízo permitiria a permanência de uma força armada estrangeira dentro de seu território. E, naquela situação, a união e o companheirismo são ainda mais importantes para Escauro e seus homens do que normalmente já são para qualquer exército romano, já que, para cada um deles, os outros são agora o único elo com seu próprio mundo.

A primeira coisa que se nota em The Misplaced Legion é que o autor possui um conhecimento profundo de História, o que se revela, primeiramente, em suas descrições do exército romano e de elementos culturais e sociais da época, que se refletem na visão de mundo e no modo de vida dos legionários; em segundo lugar, não é difícil ver que, para a criação do mundo fictício de Videssos, Turtledove usou como modelo direto o Império Bizantino – também conhecido como Império Romano do Oriente, que tinha sua capital em Constantinopla (que antes se chamava Bizâncio e hoje é Istambul) e continuou a existir por quase mil anos depois que o Império Romano do Ocidente caiu. De fato, o Império Bizantino manteve vivas muitas tradições romanas ao longo da Idade Média, mesmo tendo como língua oficial o grego, e não o latim. O autor não procurou esconder essa inspiração: a descrição da cidade de Videssos, capital do império de mesmo nome, é claramente a de Constantinopla, com o formato aproximado de um triângulo, tendo dois lados voltados para o mar e o terceiro protegido por poderosas muralhas; fica até mesmo à margem de um estreito que a população local chama de "Travessia do Gado", o que é a tradução literal do nome Bósforo. Uma breve análise do mapa do mundo mostra que ele foi inspirado, em linhas gerais, na Eurásia e norte da África, só que de maneira espelhada: os reinos civilizados ficam no leste, e o continente vasto e pouco explorado, no oeste.

A descrição de outros povos desse mundo também remete ao Império Bizantino e sua época: a guarda imperial, por exemplo, é formada principalmente por bárbaros altos e loiros vindos do norte, os halogai (plural de haloga), numa clara alusão à Guarda Varangiana da Constantinopla histórica. "Varangianos" era como os bizantinos se referiam aos nórdicos de maneira geral, e durante muito tempo a maior ambição de todo aventureiro viking que deixava a Escandinávia em busca de glória e fortuna era juntar-se a essa guarda. "Haloga", por sinal, era o nome de uma antiga tribo da Noruega, e a região onde ela vivia é conhecida até hoje como Halogaland, ou, em português, Halogalândia. Há também povos nômades das planícies, cujos homens são famosos como exímios arqueiros e cavaleiros – a versão videssiana de hunos, tártaros etc. A ilha do Ducado de Namdalen, cuja população foi formada pela miscigenação de videssianos com invasores halogai, poderia corresponder, de forma um pouco mais livre, à Grã-Bretanha (que, é claro, pertenceu ao Império Romano do Ocidente, nunca tendo feito parte do Império Bizantino; por isso digo que essa seria uma adaptação mais livre).

De tudo isso, concluo que provavelmente a primeira ideia de Harry Turtledove foi que os romanos dos dias de César fossem transportados através do tempo até a Idade Média e vivessem suas aventuras no Império Bizantino histórico, mas, conforme amadurecia o livro, o autor deve ter pensado que incluir elementos mágicos e fantásticos deixaria a história ainda mais interessante, e que, se era para transformar o Império Bizantino numa terra de magia e monstros, era melhor afastar-se um pouco mais da historicidade e abraçar de vez a vocação de fantasia da saga, mantendo, ao mesmo tempo, as características interessantes da Constantinopla real. Um coquetel ousado, eu diria, mas que, pessoalmente, me agradou muito.

Num ponto Turtledove (certamente tendo seus motivos para tanto) distanciou deliberadamente Videssos do Império Bizantino: a religião. No nosso mundo, o Império Romano do Oriente era cristão, sendo que até o século XI submetia-se à autoridade do papa; nessa época ocorreu o cisma que resultou na separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, que predominou no oriente a partir de então. A religião majoritária em Videssos, à primeira vista, pode parecer semelhante ao cristianismo: o deus que eles adoram é Phos, identificado com o bem e com a luz, e por isso simbolizado pelo sol; seu adversário é Skotos, o senhor das trevas e mestre do mal, e acredita-se que os homens e mulheres que, neste mundo, servirem a Phos praticando o bem, serão recompensados com vida e felicidade eternas após a morte, enquanto os que se renderem às tentações de Skotos serão atormentados para sempre numa espécie de inferno gelado. A semelhança, porém, é apenas superficial, já que a fé videssiana parece atribuir a ambas as entidades o mesmo peso no universo, talvez o mesmo grau de poder; para os cristãos, Satã se opõe a Deus, mas de maneira nenhuma tem o mesmo poder que Ele. As crenças dos videssianos se assemelham muito, isso sim, ao zoroastrismo persa. Seja como for, alguns dos sacerdotes dessa religião possuem assombrosos poderes de cura, sendo capazes de fazer com que homens com ferimentos mortais se recuperem mediante uma simples imposição das mãos – uma habilidade que Górgidas, o médico grego que acompanha a tropa romana, encara com um misto de incredulidade, admiração e despeito.

Num banquete na corte, ao qual ele e seus principais oficiais são convidados, Escauro acidentalmente derrama vinho no manto de um embaixador estrangeiro, um certo Avshar, enviado de Yezd, um reino no ocidente dominado por adoradores de Skotos. A presença de Avshar como diplomata possibilita uma precária paz entre Yezd e Videssos, mas, ao mesmo tempo, constitui um insulto, como o próprio imperador observa, já que a inimizade de facto entre os dois reinos é conhecida por todos. Avshar, truculento, não só se recusa a aceitar as desculpas de Escauro pelo acidente banal com o vinho, como ainda o insulta e esmurra. Exige um duelo, que o romano vence, embora com extrema dificuldade e, em grande parte, graças à magia presente em sua espada, já que Avshar, além de um combatente formidável, é também feiticeiro. O tribuno poupa a vida do embaixador – decisão da qual se arrependerá mais tarde. Quando, dias depois, Escauro sofre uma tentativa de assassinato, e provas inequívocas indicam que Avshar foi o mandante, o imperador declara que, com esse ato, o bruxo de Yezd perdeu o direito à proteção assegurada aos diplomatas, e ordena sua prisão. Escauro e outros vão no encalço do vilão, só para descobrir que ele escapou, deixando atrás de si armadilhas mágicas que custam as  vidas de vários homens. Mavrikios, então, declara guerra a Yezd (algo que ele sabia que teria que fazer, mais dia menos dia) e dá início à tarefa de reunir um grande exército, incluindo tanto tropas videssianas nativas quanto mercenários vindos de quase todos os cantos do mundo conhecido… E, no caso dos romanos, de mais longe ainda. Por falar neles, Escauro e seus homens são, sem comparação, a melhor infantaria de que o imperador dispõe, e por isso terão um papel-chave nessa campanha.

Assim como fiz com A Legião do Tempo, escolhi The Misplaced Legion para praticar o meu hobby/exercício de traduzir, e foi uma experiência empolgante. O texto está coalhado de referências clássicas – História, mitologia, filosofia –, e mesmo eu, que, modéstia à parte, tenho um razoável conhecimento ao menos nos dois primeiros campos, aprendi um bocado. Embatuquei um pouco na hora de dar o título: traduzir literalmente o título original resultaria em algo como A Legião Deslocada, ou, pior ainda, A Legião Extraviada – ou seja, sem chance! Passei um tempo indeciso, mas acabei ficando com A Legião Perdida; é verdade que já existe um filme com o mesmo nome, que, por sinal, é baseado no livro A Águia da Nona, de Rosemary Sutcliff, que já comentei aqui no blog – mas esse não é o primeiro e com toda a certeza não será o último caso em que duas obras sem qualquer relação direta entre si levam o mesmo título.

Além de nos oferecer uma história emocionante sobre guerra, lealdade, poder e intrigas, The Misplaced Legion apresenta uma galeria de personagens aos quais é impossível não se afeiçoar, chegando a me lembrar (atenção, isto é só um pensamento subjetivo!) Jornada nas Estrelas nesse quesito. Se Escauro for o capitão Kirk, então Górgidas (claro!) é o Dr. McCoy. Só é difícil ver algum traço de semelhança entre o lógico e racional Sr. Spock e o alegre e sangue-quente Viridovix, que, sim, acaba se tornando um amigo próximo de Marco. O gaulês adora farra e vinho, anda sempre atrás de rabos-de-saia, e ama a loucura da batalha, o que faz dele o oposto de Escauro, que é um adepto da filosofia estoica, que recomenda comedimento em tudo (bebida e sexo especialmente), e além disso, como ele mesmo reflete em certo trecho, tem em relação à guerra a mesma atitude que a maioria dos romanos: "Lutar era algo para ser feito quando necessário, e concluído o mais depressa possível." E, mesmo com tantas diferenças, os dois tornam-se amigos, o que reflete algo que já se verificava durante a batalha do começo do livro, antes de irem parar em Videssos: eles eram inimigos por força das circunstâncias, mas nunca tiveram pessoalmente nada um contra o outro, e respeitavam-se mutuamente como oponentes valorosos. Transportados para um mundo estranho, a inimizade perdeu todo o sentido. Essa amizade entre ex-inimigos é interessante e plausível; acho apenas que esse tema deveria ter sido melhor desenvolvido, o autor poderia ter-lhe dedicado mais espaço e aprofundado mais. E, como estou falando dos personagens, seria uma imperdoável injustiça não dedicar algumas linhas a Caio Filipo, que lembra inevitavelmente aquele sargento veterano de tantos filmes de guerra (especialmente os um pouco mais antigos) que todos já vimos: ríspido, durão, mas no fundo com um coração de ouro, ele dedica uma lealdade a toda prova a seu tribuno, que, como dito antes, mostra-se digno disso, diferente de outros oficiais que o velho centurião já conheceu. Mais importante que tudo isso, Caio Filipo é o personagem que melhor representa o apego à disciplina que era o próprio coração pulsante do exército romano: seus soldados sabem que pouco importa que o mundo esteja ruindo em volta, o treinamento diário acontecerá do mesmo jeito, e nenhum desleixo com o equipamento será tolerado. Sem esquecer, ainda, que as frequentes trocas de farpas verbais entre ele e Viridovix são uma diversão à parte.

A descrição da sociedade de Videssos, bem como da adaptação dos romanos a ela, acrescenta mais uma camada de interesse à trama. Há um diálogo entre Escauro e Górgidas em que o médico, mais velho e realista, faz ver ao tribuno que, com o tempo, seus homens se esquecerão de Roma – não no sentido de não se lembrarem de suas origens, mas no de gradualmente, sem perceber, irem adotando os usos, costumes e modos de pensar de sua nova pátria. Essa ideia, a princípio, choca Marco, mas, conforme passa o tempo, e quanto mais ele reflete a respeito, percebe que é verdade. Umas poucas centenas de homens jogados em meio a um povo estranho, com uma língua e uma cultura diferentes, fatalmente acabarão sendo absorvidos; deixarão sua marca, certamente, mas muito tênue e pequena num império vasto e multicultural como o de Videssos. E, como o grupo de romanos que foi transportado para esse novo mundo trata-se de uma unidade militar, são todos homens, que, não demora muito, começam a tomar companheiras locais, tal como faziam os legionários que serviam nas províncias do próprio Império Romano. Seus filhos ainda serão meio-romanos, mas cada uma das gerações seguintes terá menos de romana, até chegar um momento em que a marca de Roma já mal seja perceptível. É assim que as coisas acontecem quando povos se misturam. O próprio Escauro se apaixona por Helvis, uma bela namdalenense, e a toma como companheira. E, a respeito da vida pessoal e familiar dos legionários, acredito que, tal como no caso da amizade entre ex-inimigos, também nesse ponto faltou aprofundamento – afinal, é provável que muitos dos soldados de Escauro tivessem mulheres e talvez famílias no mundo que deixaram para trás, e devem ter sofrido com sua perda antes de aceitarem o fato e tentarem reconstruir suas vidas em Videssos. Praticamente nenhuma palavra é dedicada a isso.

Harry Turtledove, como vim a saber, possui uma extensa obra que parece oscilar entre a ficção histórica, a fantasia e a ficção científica, e este meu primeiro contato direto com uma história sua deixou a impressão mais favorável possível, apesar das pequenas omissões (bem, nem tão pequenas assim) citadas acima. É realmente uma pena ser tão improvável que seu trabalho algum dia chegue às livrarias brasileiras, mas, como observei no início, agora está disponível aos que fizerem uso das novas tecnologias e dominarem a língua inglesa. E, embora eu ainda não conheça nenhum de seus outros livros, ao menos o Ciclo de Videssos, em minha opinião, pode ser plenamente recomendado.

sexta-feira, maio 22, 2020

As Crônicas de Nárnia

É claro que eu sempre soube que em algum momento leria as Crônicas de Nárnia; já tenho o livro há alguns anos, mas o dia de realmente pegá-lo para ler vinha sendo protelado devido ao apelo irresistível de outros livros, que sem a menor cerimônia furavam a fila. Foi minha namorada, Cintia, quem providenciou o empurrão de que eu precisava ao reclamar, e não pela primeira nem segunda vez, que não aguentava não ter com quem comentar algo de muito surpreendente, empolgante ou curioso que acontece ou é revelado no último livro da saga, adequadamente intitulado A Última Batalha. Quando o protesto foi substituído pela ameaça de "spoilear" a coisa para poder comentar de um jeito ou de outro, me rendi. Bem-vindos aos domínios do poderoso Aslam!

Na verdade eu já tinha lido os dois primeiros livros, O Sobrinho do Mago e O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, na primeira edição da Martins Fontes, que era em pequenos volumes separados; tenho até mesmo um velho exemplar de O Príncipe e a Ilha Mágica, que vem a ser o mesmíssimo Príncipe Caspian (1951), segundo livro a ser publicado (quarto pela ordem cronológica), em sua primeira edição brasileira, lançada pela obscura editora ABU lá nos anos 80. Porém, depois de tanto tempo, o melhor era começar de novo e ler de uma tacada o volume único, também da Martins Fontes, como se fosse tudo um livro só. E foi o que fiz.

Se Clive Staples Lewis (1898-1963) não tivesse se dedicado à literatura fantástica, é provável que, hoje em dia, só fosse conhecido no restrito círculo dos estudos profundos de teoria literária e história da literatura, e possivelmente, também, pelos interessados em apologética cristã. Pois ele se dedicou a tudo isso, e sobressaiu em todas essas áreas. Irlandês de nascimento, Lewis ensinou nas universidades britânicas de Cambridge e Oxford; nesta última, foi colega de J. R. R. Tolkien, com quem firmou uma profunda amizade, reforçada pelos interesses comuns em língua e literatura, especialmente literatura medieval. Apesar da amizade, os dois divergiam em alguns pontos fundamentais, como no fato de Tolkien ser um católico fervoroso, enquanto Lewis era ateu. Depois de anos de discussões filosóficas, em 1931, ao final de uma conversa legendária que varou a madrugada, Tolkien por fim logrou êxito em converter Lewis ao cristianismo, ainda que tenha ficado um tanto decepcionado porque o amigo optou por voltar à Igreja Anglicana, na qual fora educado e da qual se afastara na adolescência, ao invés de abraçar a fé católica, como ele esperava. Os dois e mais alguns amigos literatos fundaram um grupo, uma espécie de pequeno clube informal denominado The Inklings; a tradução é difícil, o mais próximo que consigo chegar é "os da tinta", assim como Earthling significa "da Terra", com o sentido de terráqueo. Esse grupo se reunia num pub nas noites de quinta-feira para conversar sobre literatura; nessas ocasiões trocavam manuscritos ou os liam uns para os outros. Foi assim que Lewis tornou-se uma das primeiras pessoas a ler O Hobbit, e incentivou fortemente Tolkien a publicá-lo, tal como também o incentivaria durante o demorado processo criativo de O Senhor dos Anéis. Tudo indica que a influência de Tolkien tenha sido um dos fatores que levaram Lewis a, por sua vez, dedicar-se a escrever fantasia, embora também seja verdade que ele sempre teve um fascínio por folclore e mitologia, as fontes originais desse tipo de literatura.

As Crônicas de Nárnia só tiveram seu primeiro livro publicado em 1950, sendo que as reuniões dos Inklings deixaram de realizar-se no ano anterior, mas é provável que Tolkien e os outros tenham tido acesso a versões iniciais; sabe-se que o Professor nunca gostou muito delas, por serem essencialmente alegóricas, coisa que ele não apreciava, já que considerava a alegoria como uma forma de coerção intelectual – o autor estaria como que obrigando o leitor a interpretar a história da mesma maneira que ele. Em todo caso, Tolkien reconhecia às Crônicas o mérito de fábulas morais que poderiam contribuir para transmitir às novas gerações a moralidade cristã e os valores humanos fundamentais.


Quando me referi a O Sobrinho do Mago como sendo o primeiro livro das Crônicas, considerei a ordem cronológica da leitura, que é como os sete livros são apresentados nesta edição em volume único; pela ordem de publicação, ele seria o penúltimo, pois sua primeira edição é de 1955, depois de cinco outros livros e antes apenas de A Última Batalha. Entretanto, é em O Sobrinho do Mago que vamos encontrar a narrativa da criação do mundo que abriga o reino de Nárnia e dos primeiros contatos entre esse mundo e o nosso. O narrador afirma que os acontecimentos ali descritos tiveram lugar quando "Sherlock Holmes ainda vivia em Londres", o que significa algo entre o fim do século XIX e os primeiros anos do XX. O sobrinho do mago em questão é o garoto Digory Kirke, que acaba de mudar-se do interior da Inglaterra para Londres, em companhia da mãe doente, para morar com os tios André e Letícia, dois irmãos solteirões. O tio André é que é o mago… Ou, ao menos, acha que é: ele tem uma noção extremamente exagerada a respeito de seus próprios conhecimentos e poderes. Não sou muito de ficar procurando pelo em ovo, tenho uma tendência de me impacientar quando vejo alguém analisar uma obra e começar a atribuir-lhe "sentidos ocultos" e "mensagens nas entrelinhas" que provavelmente fariam o autor dar boas risadas se lhe perguntassem a respeito, mas, desta vez, não pude evitar que esse personagem me fizesse pensar em certo tipo de cientista, que se empolga tanto com os progressos alcançados, que por vezes não se dá conta de estar lidando com coisas que podem ser perigosas. Tio André herdou de sua falecida madrinha (segundo ele, uma descendente de fadas) um punhado de pó que teria vindo de outro mundo, ou outra dimensão, como diríamos hoje, e, trabalhando com esse material, consegue descobrir um meio de viajar magicamente para esse lugar, mas, em vez de ir pessoalmente, recruta Digory e sua amiga Polly como exploradores. Dessa forma as duas crianças chegam ao mundo de origem do tal pó, que, como descobrem, não é exatamente um mundo, mas uma espécie de encruzilhada entre as dimensões; tem a aparência de um bosque onde existem inúmeros pequenos lagos, cada um deles, na verdade, um portal para um mundo diferente. Passando por um deles, Digory e Polly vão sair num imenso palácio, uma edificação majestosa, mas quase em ruínas, como se já estivesse abandonado há séculos. Lá, inadvertidamente, acabam despertando a temível rainha-bruxa Jadis de uma espécie de sono mágico no qual ela se encontrava aprisionada sabe-se lá há quanto tempo. A feiticeira vem parar no nosso mundo, e, vendo o estrago que ela poderá causar caso sua estada se prolongue, Digory e Polly encontram um jeito de levá-la novamente ao Bosque Entre os Mundos, e, de lá, para qualquer mundo aleatório – e o mundo em questão acaba sendo aquele, ainda recém-criado, que abrigará Nárnia e outros reinos. Lá, Jadis estará entre os principais vilões da saga que irá se desenrolar.

Merece destaque a narração a respeito do nascimento da vida em Nárnia, que ainda é um lugar escuro e informe quando os personagens chegam lá; eles testemunham o primeiro nascer do sol e a criação da vida vegetal e animal, incluindo os seres míticos. Lewis é extremamente bem-sucedido ao narrar esses eventos com uma combinação de delicadeza e grandiosidade, tudo isso corporificado em Aslam, o Leão, cuja canção vai dando forma ao novo mundo (ou seja, aqui, como no Ainulindalë de Tolkien, o mundo nasce por meio da música!). Ao contrário de Tolkien, Lewis não via problema em recorrer a alegorias, e Aslam é sem dúvida a maior delas: o Leão é Jesus Cristo em pessoa sob uma aparência fantástica. Isso já fica suficientemente claro nesta primeira história, mas vai sendo reforçado por meio de suas palavras e atos ao longo das próximas.

A segunda história neste volume único foi a primeira a ser publicada; trata-se de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa (1950), cuja narrativa apresenta os quatro irmãos Pevensie: Peter, Susan, Edmund e Lucy, que na tradução são chamados de Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia (não sei ao certo o que penso a respeito de traduzir nomes próprios; às vezes isso parece necessário e adequado, às vezes não, e aqui é um dos casos em que não parece, mas OK). Os quatro são mandados pela mãe para longe de Londres, que sofria com os bombardeios alemães durante a Segunda Guerra Mundial, e hospedam-se na casa de campo de um amigo da família, o professor Kirke – que é ninguém menos que o garoto Digory, agora já um homem idoso, que teve uma carreira notável como intelectual e aventureiro. Tenho a "sensação" de que o professor pode ter sido inspirado em Tolkien – quero dizer, na pessoa de Tolkien, não em sua obra. Posso estar presumindo demais, mas há pelo menos um indício a favor dessa teoria: a mãe de Digory chama-se Mabel, o mesmo nome da mãe de Tolkien. Isso, porém, não é importante aqui.


A casa do professor Kirke é uma daquelas mansões rurais do interior da Inglaterra: muito antiga, e tão grande que o próprio professor declara que não a conhece muito bem. É nela, num dos muitos quartos desocupados, que Lúcia, a caçula dos quatro irmãos, acidentalmente descobre um guarda-roupa cujas portas dão acesso a uma passagem entre mundos. A origem desse guarda-roupa é contada no final de O Sobrinho do Mago: ele foi construído com a madeira de uma árvore cuja semente veio de Nárnia, e é lá que Lúcia vai sair. O tempo transcorre de maneiras diferentes em cada lugar, e parece que nem sempre do mesmo jeito: às vezes parece correr mais lento em Nárnia que na Inglaterra, e outras vezes sucede o contrário. Faz apenas algumas décadas que Digory Kirke esteve em Nárnia, mas, quando a pequena Lúcia põe os pés lá, séculos se passaram. O país está dominado pela temida Feiticeira Branca, que não é outra senão Jadis, outrora a imperatriz de um mundo já desaparecido, que ficou aprisionada em Nárnia em O Sobrinho do Mago, e lá tratou de consolidar seu poder. Agora se diz rainha de Nárnia, mas, embora parte dos narnianos (que são seres míticos ou animais falantes) tenha-se colocado a seu serviço, a grande maioria não a reconhece como tal e espera pelo cumprimento de uma profecia que promete o fim da tirania da feiticeira e a liberdade para toda a terra e seus habitantes. A profecia tem duas partes: uma fala sobre o retorno de Aslam, que não é visto em Nárnia há séculos; a outra diz que, quando os quatro tronos no castelo de Cair Paravel forem ocupados por "filhos de Adão e filhas de Eva", quer dizer, seres humanos, o poder de Jadis terá fim, e o inverno permanente que sua magia lançou sobre Nárnia finalmente acabará. A feiticeira, é claro, mantém observadores e presta a máxima atenção a quaisquer informes sobre a possível presença de humanos em Nárnia; quando Edmundo também faz a travessia pelo guarda-roupa, ela o encontra vagando sozinho pelos bosques gelados e facilmente obtém dele toda a informação de que precisa, engambelando-o com promessas de adotá-lo e fazer dele um príncipe, se trouxer até ela seu irmão e irmãs. Por serem justamente quatro, dois meninos e duas meninas, Jadis vê neles o potencial para cumprir a profecia, o que ela quer impedir a todo custo. Isso já é suficiente para dar uma ideia do enredo, e não vou continuar para não dar spoilers, mas não dá para deixar de comentar como Aslam se oferece como vítima em sacrifício em troca da vida de Edmundo, que deveria morrer por ter traído os irmãos, e, mesmo com todo o seu poder, deixa-se matar sem opor resistência, para depois ressuscitar mais poderoso e glorioso que antes – coisa com a qual Jadis não contava, porque, como Aslam explica, ela pode conhecer a Magia Profunda, mas ignora que existe outra magia ainda mais profunda, que vem de antes da aurora dos tempos.

Para completar, quando Edmundo retorna ao convívio dos irmãos, o Leão diz a estes que não devem recriminá-lo e que "o que passou, passou". Subentende-se que Edmundo já foi suficientemente castigado pela própria consciência, arrependeu-se e recebeu o perdão – isso é cristianismo puro. Deve-se notar que, ao ser resgatado das garras de Jadis e trazido até o acampamento onde estão Aslam, seu exército e também Pedro, Susana e Lúcia, Edmundo não é imediatamente conduzido para se juntar aos irmãos; antes disso, ele e Aslam têm uma conversa a sós, na qual, como o narrador sublinha bem, somente os dois sabem o que foi dito, e mais ninguém – uma clara alusão ao sacramento da confissão, muito prezado pelos católicos, mas alvo de controvérsia entre os anglicanos. Parece que, nesse ponto, Lewis se inclinava ao catolicismo.


A história seguinte é O Cavalo e seu Menino (1954), que tem lugar durante o reinado de Pedro como Grande Rei em Nárnia (com os irmãos como corregentes), mas começa em outro reino, Calormânia, onde o garoto Shasta vive com um pescador que o adotou e sonha em conhecer as terras do norte – quer dizer, Nárnia –, sobre as quais seu pai adotivo e os vizinhos evitam até mesmo falar. A sorte de Shasta tem uma reviravolta quando um tarcaã (parece ser um título nobiliárquico calormano; gostaria de saber como era isso no original…) se hospeda na cabana de seu pai e propõe comprá-lo como escravo, negociação essa que o pescador está disposto a aceitar, sendo o valor da transação a única dúvida. Shasta descobre que o cavalo do tarcaã nasceu em Nárnia e, como muitos animais lá, é capaz de falar e tão inteligente quanto um ser humano, detalhes esses que o animal sempre escondeu cuidadosamente de seu amo, mas revela a verdade ao garoto, e os dois decidem fugir juntos rumo ao norte. Por não conseguir pronunciar o nome com o qual o cavalo se apresenta, Shasta passa a chamá-lo de Bri. Durante sua viagem, os dois eventualmente se encontram com Aravis, a filha de um tarcaã que está fugindo da casa do pai para evitar um casamento arranjado, e a montaria de Aravis é Huin (onomatopeia de um relincho!), uma égua também de origem narniana e falante, como Bri. Como todos têm o mesmo destino, seguem viagem juntos; será inevitável passarem por Tashbaan, a capital da Calormânia, onde Shasta vem a conhecer Edmundo e Susana, dois dos quatro reis de Nárnia. Eles estão ali para as tratativas de um possível casamento entre Susana e o príncipe Rabadash, filho do Tisroc (título dado ao monarca calormano), mas a jovem acaba decidindo que não quer se casar com ele, e a delegação narniana parte de surpresa, para evitar que ela e o irmão acabem sendo feitos reféns. O príncipe, inconformado, convence o pai a invadir Nárnia, e, de formas que vocês saberão quando lerem o livro, esse plano chega ao conhecimento de Shasta, Aravis e seus amigos equinos, que precisam então avisar os reis de Nárnia e ajudá-los a impedir essa invasão. Não sei se alguma coisa do tipo foi levantada enquanto C. S. Lewis era vivo, mas hoje em dia, na "era da lacração", O Cavalo e Seu Menino é alvo de críticas, acusado até mesmo de racismo, porque a Calormânia e seus habitantes, nitidamente inspirados nos povos árabes, ficam com o papel de "império do mal", que tenta atacar a livre e pacífica Nárnia, que faria as vezes da Europa. Como sabemos, o discurso que garante os aplausos nestes nossos tristes dias consiste em pintar a longa e geralmente turbulenta relação entre o Oriente Médio e a civilização ocidental como se tivesse sido feita exclusivamente de ataques covardes e gratuitos desta última contra o primeiro; afinal, esses povos brancos e, pior ainda, cristãos, têm que ser apontados sempre como os vilões da História, não é mesmo? Eu não me surpreenderia se aparecesse gente propondo uma "reescrita" das obras de Lewis, como já quiseram fazer com as de Mark Twain… Antes de passar ao próximo livro, duas notas de pé de página. Primeira: no capítulo 14, uma conversa entre Aslam, Bri, Huin e Aravis toca num ponto importante da fé e da teologia cristãs; esse trecho deve ser lido mantendo em mente que o Leão simboliza Cristo. Seria empolgante esmiuçar a coisa, mas não posso permitir que este texto atinja dimensões demasiado absurdas, e, além disso, tem que sobrar algo para o leitor descobrir quando for ler o livro!… Segunda: a maneira de falar dos personagens calormanos de alta estirpe poderá cansar alguns leitores pelo excesso de floreios retóricos e poéticos, mas, correndo o risco de parecer pedante, devo dizer que me diverti muito com essas passagens. Lewis era certamente um mestre das palavras, e creio que isso tenha sido uma alfinetada proposital no estilo desnecessariamente rebuscado adotado por certos escritores e/ou oradores (assumo minha parcela de culpa).

Em Príncipe Caspian (1951), os irmãos Pevensie estão completando um ano desde seu retorno ao "mundo real" depois das aventuras vividas em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, e estão no meio de sua viagem de volta à escola, ao fim das férias, quando são novamente chamados a Nárnia, onde chegam de um jeito diferente da primeira vez – pois, segundo o ensinamento de Aslam, "nada acontece duas vezes da mesma maneira". Ao chegarem lá, descobrem que 13 séculos se passaram desde os tempos de seu reinado, e que Nárnia foi invadida pelos homens de Telmar, que a conquistaram de forma violenta e quase exterminaram os narnianos originais. Há alguns anos, o rei Caspian IX morreu, deixando um filho de mesmo nome, ainda pequeno, que, desde então, está sob a tutela de seu tio Miraz; este deveria atuar como regente até que o jovem Caspian chegasse à maioridade, mas acaba por fazer-se ele próprio rei. Caspian leva a vida normal de um príncipe herdeiro, mas tem uma particularidade: é fascinado pelas histórias da antiga Nárnia, que lhe são contadas primeiro por uma velha ama e mais tarde pelo Dr. Cornelius, seu preceptor – mas esse interesse não é bem visto pelo tio. Tudo a respeito dos narnianos é considerado mero conto de fadas nessa época, como se nunca tivesse existido de fato, e tanto Miraz quanto as demais figuras importantes da sociedade telmarina prefeririam que tudo isso fosse completamente esquecido.

Quando a esposa de Miraz tem um filho, o usurpador decide dar um fim em Caspian, que é salvo por Cornelius e parte em busca dos descendentes que restaram dos antigos narnianos, pedindo sua ajuda para conquistar o trono que por direito lhe pertence e prometendo que, se ele se tornar rei, iniciará uma nova era de paz entre telmarinos e narnianos, e reinará com justiça sobre ambos os povos. Pedro, Edmundo, Lúcia e Susana são figuras legendárias nesses tempos; como o próprio narrador compara, o retorno deles é para Nárnia o que seria para a Inglaterra a volta do rei Artur, como profetizado na lenda, e, ao que se espera, a presença deles fortalecerá a fé dos seguidores de Caspian durante a guerra que se prepara para estourar. Novamente, a narrativa de fantasia e aventura funciona por aquilo que é, e funcionaria mesmo que não houvesse qualquer mensagem em particular a ser passada – mas a mensagem existe, e desta vez o momento-chave está no capítulo 10, no qual um diálogo entre Lúcia e Aslam aborda a necessidade de acreditar mesmo que ninguém mais acredite, e de ter a coragem de seguir o caminho certo ainda que para isso seja preciso abandonar a segurança de um grupo e ir sozinho – coisas que sempre foram necessárias ao cristão, desde os primórdios, e hoje, talvez, mais do que nunca. Provavelmente vocês viram o filme, eu também vi e gostei, mas não se contentem com ele: leiam o livro. Há detalhes importantes que foram deixados de fora, importantes especialmente para quem está procurando interpretar o simbolismo cristão na obra de Lewis. Por outro lado, o roteiro do filme fez alguns acréscimos interessantes à história, coisas que não estão no livro, mas que são muito plausíveis e, poderíamos dizer, até mesmo adequadas, como a rivalidade que surge entre Pedro e Caspian, o antigo e o atual rei. E a parte sobre as árvores da floresta marchando para a batalha, essa eu poderia jurar que foi inspirada numa conversa entre Lewis e Tolkien!…


Em A Viagem do Peregrino da Alvorada, mais um ano se passou no "mundo real", a guerra já acabou (eu sei, no filme não) e Edmundo e Lúcia, os dois Pevensie mais jovens, estão hospedados, muito a contragosto, com seus tios Arnold e Alberta, que têm um filho chamado Eustáquio, o protótipo daquele primo insuportável que todo mundo tem ou já teve – a menos que você seja o primo insuportável. Não é por acaso que, dos quatro protagonistas anteriores, apenas Lúcia e Edmundo estão em cena: Aslam havia predito (ou decidido, como parece mais provável) que só os dois retornariam a Nárnia depois dos eventos do livro anterior, pois Pedro e Susana já haviam aprendido tudo o que podiam lá. E quando os dois fazem pela terceira vez a passagem entre os mundos, Eustáquio acaba indo junto. O trio se vê no meio do mar e é recolhido pela tripulação do Peregrino da Alvorada, um navio da novíssima armada de Nárnia, que o agora rei Caspian fez construir após ter conseguido, ao menos em parte, domar o pavor instintivo que seus patrícios telmarinos tinham do mar. E o rei em pessoa está a bordo; ele explica a Lúcia e Edmundo que o objetivo de sua viagem é procurar por sete nobres telmarinos que eram amigos de seu pai, o rei Caspian IX, e por isso foram exilados pelo usurpador Miraz, para impedir que apoiassem o jovem príncipe quando ele reivindicasse seu direito ao trono. A jornada vai levá-los a mares raramente navegados antes e a descobertas fantásticas; é uma narrativa de "viagens maravilhosas" que segue uma tradição antiga na literatura popular do ocidente – e não só do ocidente: alguém lembra das aventuras do marinheiro árabe Sinbad? As origens desse tipo de história remontam, pelo menos, à Odisseia de Homero (que Edmundo chega a citar) e às viagens de Jasão e os Argonautas, e digo pelo menos porque, pelo pouco que sei sobre a Epopeia de Gilgamesh e outros textos legendários sumérios e assírio-babilônicos, suas raízes podem ser ainda mais profundas. Como também é comum em narrativas de viagens por terras desconhecidas, A Viagem do Peregrino da Alvorada acaba sendo, ao mesmo tempo, uma jornada de autodescoberta para diversos personagens; os exemplos mais marcantes são Eustáquio, que vai aos poucos mudando para algo melhor que aquele garoto de maus instintos e desprovido de imaginação, e Caspian, ainda aprendendo a ser um bom rei e a controlar seu temperamento impulsivo e por vezes autoritário. Mais sutilmente, também Lúcia aprende e "cresce"; já Edmundo parece ter aprendido sua lição em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, e não faz novas grandes descobertas interiores, embora vá ganhando experiência e demonstrando mais maturidade. Além de tudo isso, Lewis não resistiu a fazer uma crítica bem-humorada a uns e outros por meio dos Tontópodes, criaturas simpáticas, embora um tanto ridículas (engraçadas, vá), que os aventureiros encontram numa das ilhas onde aportam: eles sempre concordam enfática e energicamente com quem estiver falando no momento, e, se logo em seguida outra pessoa tomar a palavra e disser exatamente o contrário do que disse a primeira, imediatamente lhe dão razão com o mesmo entusiasmo… Caramba, espero que o recado tenha sido entendido pelo menos por alguns. Ao final, Lúcia e Edmundo descobrem, entristecidos mas conformados, que essa aventura, na qual não chegaram a pôr os pés em Nárnia propriamente dita, marcou sua última visita àquele mundo. Tal como já acontecera a Pedro e Susana, daí em diante terão que encontrar seus caminhos em seu próprio mundo, onde Aslam também está, mas, como ele mesmo informa, é conhecido por outro nome.

Como, portanto, os dois últimos dos irmãos Pevensie não mais voltarão a Nárnia, é seu primo Eustáquio quem sobra para servir de elo com a história do sexto livro, A Cadeira de Prata. Durante o ano letivo que se segue às férias em que teve sua primeira experiência em Nárnia, Eustáquio está bastante mudado, e sua colega de escola, Jill Pole, que já o conhecia antes, não deixa de notar o fato. Os dois estudam num colégio experimental, e Lewis, experiente professor, não fazia questão alguma de esconder o que pensava daquela pedagogia moderna:

Os diretores achavam que as crianças podiam fazer o que desejassem. Infelizmente, porém, havia uns dez ou quinze da turma que só queriam atormentar os outros. Lá acontecia de tudo: coisas horríveis que, numa escola comum, seriam descobertas e punidas. Mas ali, não. Mesmo que se descobrisse quem as havia feito, o responsável não era expulso nem castigado. O diretor achava que se tratava de "interessantes casos psicológicos" e passava horas conversando com tais alunos. E estes, se encontrassem uma resposta adequada para dizer ao diretor, acabavam se tornando privilegiados.

E mais:

Devido aos curiosos métodos de ensino do Colégio Experimental, lá não se aprendia muito Matemática ou Latim, mas todos sabiam desaparecer rapidamente e sem ruído, quando eles [os bullies, diríamos hoje] estavam atrás de alguém.

Jill, então, acompanha Eustáquio quando ele é novamente transportado para o mundo onde fica Nárnia – e, para manter a tradição da saga, a viagem acontece de uma maneira nova, diferente de todas as passagens anteriores. Jill, de certa forma, recebe um privilégio, pois encontra-se com Aslam praticamente assim que chega a Nárnia, o que não acontecera com nenhum outro protagonista até então. O Leão explica-lhe que ela e Eustáquio estão ali porque têm uma missão a cumprir: o único filho do velho rei de Nárnia foi raptado, e eles devem encontrá-lo e trazê-lo de volta, já que a morte de um rei sem herdeiro pode facilmente lançar o reino no caos. Quando as duas crianças chegam à corte em Cair Paravel, Eustáquio sofre um choque ao ter seu primeiro contato com o fenômeno da marcha diferente do tempo no nosso mundo e em Nárnia: o rei não é outro senão Caspian X, que ele conheceu como um rapaz em sua visita anterior, e agora é um homem idoso, pois naquele mundo 70 anos se passaram, enquanto na Terra transcorriam apenas alguns meses.

Além de longo, o reinado de Caspian foi próspero e marcado pela justiça, mas também por uma tragédia: seu filho, o príncipe Rilian, foi raptado, faz vários anos, aparentemente por uma feiticeira por quem ele se havia apaixonado, que tinha o poder de metamorfosear-se numa serpente (acredito que qualquer semelhança com outras histórias envolvendo criaturas em forma de serpente que seduzem ou enganam os incautos não seja mera coincidência). Muitos dos mais bravos cavaleiros e guerreiros de Nárnia – humanos ou não – partiram em busca do príncipe desde então; nenhum obteve sucesso, e a maioria não voltou, então Caspian, embora arrasado pela perda, proibiu novas buscas, para impedir que mais valorosos narnianos perdessem a vida. Agora, porém, o velho rei, sentindo a proximidade da morte, decide partir, ele próprio, acompanhado de um grupo de súditos fiéis, para uma última e desesperada tentativa de encontrar o filho. A missão que Aslam designa a Eustáquio e Jill é a de fazerem sua própria busca a fim de localizar o príncipe e trazê-lo de volta. O Leão dá algumas indicações, e as duas crianças partem, tendo como guia um paulama; esses seres são semelhantes aos humanos de maneira geral, mas com pernas e braços muito mais longos em relação ao corpo, parecendo adaptados à vida nos pântanos – e, muito de acordo com isso, o nome desse paulama em particular é Brejeiro. O guia é o que Eustáquio chama de pé-frio, pois quase todas as suas falas consistem em previsões pessimistas, mas, ao mesmo tempo, mostra-se um companheiro corajoso e leal, que se mantém fiel mesmo ante as eventuais malcriações dos garotos, que por vezes se irritam com suas intermináveis lamúrias.



Não há dúvida de que a Busca é uma das situações mais recorrentes em aventuras heroicas, desde a lenda de Jasão e os Argonautas, que citei não faz muito, até A História Sem Fim, e aqui temos mais um exemplo. Eustáquio, Jill e Brejeiro nos conduzem numa viagem que descortina uma série de paisagens desse mundo fantástico, e que, é claro, não está isenta de perigos e sofrimentos – enfim, podemos, se quisermos, ver essa aventura como uma alegoria para a vida humana… Mas será que o "se quisermos" não faz com que deixe de ser uma alegoria, entrando no campo da aplicabilidade? Eis de novo o choque entre as visões de Lewis e de Tolkien, que nunca está muito longe enquanto lemos as Crônicas de Nárnia.

Bem, se a história for uma alegoria da vida humana, então torna-se claro o significado  de certo detalhe. Ao falar com Jill, logo no começo, Aslam descreve à menina uma série de sinais que ela e seus companheiros encontrarão ao longo do caminho e a orienta sobre como devem agir diante de cada sinal, faz com que ela memorize e repita tudo para ele, porém, mais tarde, envolvida com tantas outras coisas, ela se esquece da maior parte do que o Leão lhe disse; um sinal após outro é perdido e as coisas não saem como deveriam. É fácil ver aí mais um paralelo com o cristianismo: uma pessoa pode amar Cristo e desejar sinceramente agir conforme Seus ensinamentos, mas fazer isso no dia a dia ao longo da vida é difícil, e ela inevitavelmente irá falhar muitas vezes. Faz parte. Também quero registrar que no capítulo 12 há um diálogo que resulta ser uma afiada crítica a certos segmentos religiosos e principalmente filosóficos que tentam fazer com que as pessoas se fechem dentro de uma bolha, esquecendo o que existe lá fora, e ainda se julguem muito inteligentes por fazê-lo. É tentador falar mais sobre esse capítulo, mas não poderia fazê-lo sem dar um sério spoiler.

As Crônicas terminam com A Última Batalha, e esse livro começa numa pegada que lembra as fábulas de Esopo. Numa floresta de Nárnia vivem um velho macaco, Manhoso, e seu amigo, o jumento Confuso, que pertencem à classe dos animais falantes narnianos. Como assinalei ao tratar de O Cavalo e Seu Menino, esses animais não só falam como também possuem inteligência equivalente à de um ser humano – só que, não adianta negar, os seres humanos não têm todos a mesma inteligência, e entre eles não é diferente: Confuso faz jus a seu nome e ao estereótipo (falso, por falar nisso) que pesa sobre toda a sua espécie. Já Manhoso é esperto e matreiro, conseguindo sempre engambelar o amigo para que faça todo o trabalho pesado enquanto ele colhe os benefícios. Um belo dia, os dois encontram por acaso uma pele de leão, e Manhoso decide fazer com que Confuso a vista; como o narrador observa, os habitantes daquela região de Nárnia nunca viram nem sequer um leão comum, de modo que muitos se deixam enganar quando o macaco começa a apresentar o jumento disfarçado como sendo o próprio Aslam, e se autonomeia seu porta-voz. É claro que o pobre asno nem mesmo entende direito o que está acontecendo, limitando-se a fazer o que Manhoso lhe diz. Aproveitando-se de sua nova posição de poder, o macaco passa a dar ordens "em nome de Aslam" para conseguir que os outros animais façam tudo o que ele quer – mais uma alegoria fácil de identificar, na qual Manhoso é o falso profeta, representando tanto líderes religiosos quanto reis e potentados em geral que, ao longo da História, arrogaram-se autoridade divina.

A farsa começa como um problema apenas local, mas ganha dimensões maiores quando Manhoso, também à semelhança de muitos desses líderes, vai longe demais com sua ganância e passa a negociar com os calormanos, obrigando os animais a trabalhar para eles e até vendendo muitos para os inimigos, tudo em benefício do "profeta" (que, é claro, assegura que o dinheiro será usado para o bem da comunidade) e supostamente por ordem de Aslam. Quando as notícias chegam aos ouvidos do jovem rei Tirian (bisneto do bisneto de Rilian, filho de Caspian, pois, novamente, séculos se passaram), ele decide investigar pessoalmente, acompanhado apenas por seu melhor amigo, o unicórnio Precioso, e acaba capturado pelos calormanos. Quando, em desespero, o rei clama pelo socorro do verdadeiro Aslam, este lhe envia ajuda nas pessoas de Eustáquio e Jill, e os três, com o reforço de mais alguns aliados, encaram a missão de recolocar as coisas nos devidos lugares. A história aborda não apenas a questão do falso messianismo, mas também uma de suas mais graves consequências: quando o deus falso é desmascarado, muita gente acaba descrendo até mesmo do verdadeiro, como um grupo de anões que declaram que não existe Aslam nenhum e se põem a bradar "vivam os anões!", o que só pode simbolizar o ateísmo e a visão antropocêntrica moderna, para a qual o homem é a medida e a finalidade de tudo, e não existe nada acima dele. Por fim, a tentativa de Manhoso e do comandante calormano de fazer com que os narnianos acreditem que Aslam e o deus dos calormanos, Tash – uma divindade sanguinária, em cujos altares fazem-se sacrifícios humanos – são o mesmo deus, é um alerta contra aqueles que, em nome de uma suposta tolerância, trabalham para sabotar a fé dos cristãos tentando convencê-los de que o Deus em que acreditam é a mesma coisa que as divindades de outras religiões, e que, portanto, não faria sentido crer em dogmas que são exclusivamente cristãos.



Curiosidade da vez: Tirian, por especial graça de Aslam, tem a oportunidade de reunir-se com os Sete Amigos de Nárnia que habitam no mundo dos filhos de Adão e filhas de Eva, e que vêm a ser os protagonistas de todas as histórias narradas nas Crônicas. O leitor atento provavelmente fará a mesma coisa que eu fiz ao chegar a esse trecho: vai pausar a leitura e fazer um cálculo. Sete? Como assim? Digory, Polly, Pedro, Susana, Edmundo, Lúcia, Eustáquio e Jill: são oito! Só que tem um porém…

– Senhor – disse Tirian, após saudar a todos –, a não ser que eu tenha entendido mal as crônicas, deve haver mais alguém. Vossa Majestade não tem duas irmãs? Onde está a rainha Susana?
– Minha irmã Susana – respondeu Pedro, breve e gravemente – já não é mais amiga de Nárnia.
– É verdade – completou Eustáquio. – E toda vez que se tenta conversar com ela sobre Nárnia, ou fazer qualquer coisa que se refira a Nárnia, ela diz: "Mas que memória extraordinária vocês têm! Continuam no mundo da fantasia, pensando nessas brincadeiras tolas que a gente fazia quando era criança!"
– Essa Susana! – disse Jill. – Agora só pensa em lingeries, maquilagens e compromissos sociais. Aliás, ela sempre foi louquinha para ser gente grande.
– Gente grande, pois sim! – disse Lady Polly. – Gostaria que ela crescesse de verdade. Quando estava na escola, passava o tempo todo desejando ter a idade que tem agora, e agora vai passar o resto da vida tentando ficar nessa idade. Tudo em que ela pensa é correr para atingir a idade mais boba da vida o mais depressa possível e depois parar aí o máximo que puder.

Muita gente vê machismo aí, e no meio dessa "muita gente" estão nomes de peso como J. K. Rowling, que tem uma dívida visível com Lewis (é só comparar o modo como os centauros são descritos na obra de cada um, e esse é apenas um exemplo dentre vários possíveis), mas já chegou a criticar especificamente esse trecho. À primeira vista, as alegações levantadas por ela e outros parecem fazer sentido: Susana é retratada como a pessoa que escolheu a pior parte de duas maneiras diferentes (em outro texto eu poderia dizer que ela escolheu "o pior de dois mundos", mas aqui isso causaria confusão), pois, em nome de sua vontade de se afirmar como uma mulher adulta, abandonou a imaginação, mas ao mesmo tempo, não alcançou a verdadeira maturidade e vai provavelmente passar a vida, como diz Polly, ocupando-se de frivolidades próprias de moças jovens-adultas. Porém, a meu ver, Lewis poderia igualmente ter excluído Pedro do rol dos Amigos de Nárnia e colocado Susana para explicar a Tirian que seu irmão mais velho agora só pensa em trabalho e carreira e diz que tudo sobre Nárnia é "fantasia" ou "brincadeira tola"; alguém tinha que ser exemplo da tolice que há em enterrar a imaginação em prol de um suposto crescimento, e calhou de ser Susana. A patrulha politicamente correta vai objetar: e por que é que trabalho e carreira são "coisas de homem", enquanto maquiagem e compromissos sociais são "coisas de mulher"? Sei que é inútil pedir a esse pessoal que leve em consideração a perspectiva histórica (um conceito que eles parecem incapazes de compreender), mas, em todo caso, a resposta é simples: as Crônicas de Nárnia foram escritas durante a década de 50, quando relativamente poucas mulheres tinham carreiras profissionais, e a maioria das pessoas via como normal que a empreitada mais importante da vida delas consistisse em aproveitar o breve período de beleza na juventude para conseguir o melhor casamento que pudessem. Sessenta e poucos anos depois, a sociedade vê isso tudo de forma diferente, mas Lewis não tinha como prever isso.

Esta edição termina com Três Maneiras de Escrever para Crianças, um brevíssimo e agradável ensaio que, ao contrário do que poderia parecer, não se propõe a dar diretrizes sobre como escrever histórias infantis – poderíamos dizer que é muito mais descritivo que normativo. Não vou resumir tudo aqui, este texto já está longo demais e, além disso, vale a pena ler o próprio ensaio; será suficiente dizer que, nele, Lewis tece interessantes considerações sobre o que define a literatura infantil como tal, sublinhando que "literatura infantil" e "literatura para adultos" não são compartimentos absolutamente estanques. Sua opinião, com a qual eu concordo inteiramente, é que uma das marcas de uma boa história para crianças é a capacidade de interessar também ao leitor adulto; faço, porém, uma ressalva: uma boa história infantil é a que consegue interessar a certo tipo de leitor adulto. As próprias Crônicas de Nárnia são um bom exemplo, pois, mesmo classificadas como literatura infanto-juvenil, têm multidões de fãs de todas as idades. Nenhum leitor verdadeiramente maduro deixará de ler o que o agrada e atrai por receio de que este ou aquele o julguem "muito criança" por causa disso; Lewis, afiado e certeiro, resume o caso parafraseando São Paulo: "Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto". Desta vez vou juntar-me aos Tontópodes e afirmar enfaticamente que "ninguém jamais disse palavras mais sábias!"

As Crônicas de Nárnia, sem dúvida, integram a seleta lista das obras de fantasia mais importantes do século XX, sendo, ao lado de O Senhor dos Anéis e mais algumas, uma das mais fortes e recorrentes influências dos autores do gênero que estão em atividade hoje, ou estiveram durante as últimas décadas. Como Lewis também observa em seu ensaio, há histórias de fantasia que são mais adequadas ao público infantil, e outras, a leitores mais maduros, mas não é raro que o público de ambos os tipos acabe sendo o mesmo; ele poderia estar falando exatamente sobre sua própria obra e a de seu amigo. Há leitores de todo o mundo que leram as Crônicas na infância e, depois de um pouco mais velhos, apaixonaram-se pela beleza intrincada do mundo de Tolkien, mas há também muitos outros que só chegaram a Nárnia depois de já conhecerem a Terra-média (meu caso) e nem por isso a amaram menos. As Crônicas são mais simples e despretensiosas que o SdA, mas não menos inspiradoras, empolgantes, comoventes ou cheias de significado. Todo fã de fantasia deveria conhecê-las.

terça-feira, setembro 25, 2018

Os Olhos do Dragão

Cheguei a possuir o livro Os Olhos do Dragão na edição da Francisco Alves, lançada como parte da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, mas o exemplar sumiu de casa antes que eu chegasse a lê-lo. Entretanto, naturalmente que dei uma folheada logo ao adquiri-lo, e lembro que incluía uma nota introdutória (ausente da edição que tenho hoje, da editora Objetiva) na qual Stephen King explicava a origem dessa obra um tanto diferente das coisas que ele em geral escreve. O livro foi publicado pela primeira vez em 1984, tendo sido escrito pouco antes, motivado pelo desejo de contar uma história que sua filha, Naomi, pudesse ler e apreciar: a garota era pré-adolescente na época e não gostava de terror (e que sina não gostar de terror e ser filha de Stephen King!). O resultado foi esta aventura de fantasia medieval, finamente sintonizada com o gosto dos leitores mais jovens… mas, como todo mundo já teve 13 anos, ninguém que goste desse tipo de literatura deixará de se empolgar. Mesmo tendo, por uma questão de aptidão natural, favorecido mais as narrativas horripilantes ao longo de sua carreira, King sempre teve um grande respeito pela literatura de fantasia (declarou em mais de uma ocasião que considera O Senhor dos Anéis um dos melhores livros já escritos), e mostra-se perfeitamente capaz de produzir coisas desse tipo quando quer. Apontar a influência de Tolkien é fácil demais, pois, por mais que a fantasia já tivesse uma antiga e rica tradição antes dele, o impacto de sua obra foi tamanho, que é muito difícil hoje (e nesse "hoje" incluo a década de 80) escrever qualquer narrativa épica envolvendo magia e/ou seres fabulosos sem ficar devendo algo ao Professor. Não é tão óbvio observar que Os Olhos do Dragão também tem um clima que remete a algumas histórias de Lord Dunsany, provavelmente o autor de fantasia mais injustamente desconhecido de todos os tempos.

A história é narrada no melhor estilo dos contos de fadas, com direito a "era uma vez" e a frequentes intervenções do narrador dirigindo-se diretamente ao leitor, como se fosse alguém contando histórias a uma pequena mas empolgada audiência de crianças junto à lareira. Conta-nos sobre um reino chamado Delain, sobre seu rei, Rolando, sua rainha, Sacha, e sobre os príncipes Pedro e Tomás. Rolando não é nenhum pilar de majestade; não é o rei mais valente nem o mais sábio que o reino já teve, e, embora tenha uma índole essencialmente boa, nunca conseguiu fazer grandes coisas em favor de seu povo, por não ser, tampouco, um governante de grandes capacidades – até casar-se, muito tarde na vida, com a jovem Sacha, que, além de bondosa, possui o espírito prático para realizar boas ações, em vez de ficar só nas intenções. Sacha é muito amada pelo marido, pelo povo e pelo pequeno Pedro, mas, infelizmente, perde a vida ao dar à luz o segundo filho, quando o mais velho está com apenas seis anos. Morte de parto é um risco que todas as mulheres correm, sejam camponesas ou rainhas, e, como estamos falando de um reino medieval, sem os recursos da medicina moderna, era uma fatalidade muito mais comum do que hoje em dia, razão pela qual, embora todos lamentem, ninguém acha o incidente realmente estranho… Mas a verdade é que a morte da rainha não foi nenhum acaso. Flagg, o feiticeiro da corte, lançou mão de suas artes misteriosas para livrar-se de Sacha, que estava minando o controle que o mago sempre havia exercido sobre Rolando e, antes dele, sobre a velha rainha-mãe durante o longo reinado dela.

Como dissemos antes, Rolando não é um rei que inspire admiração instintiva, seja por sua aparência (baixote, de pernas tortas) ou por suas qualidades (não é particularmente inteligente, nem um guerreiro notável, embora tenha certa vez praticado um feito heroico, ao abater um dragão com uma flechada certeira). Em resumo, o narrador pinta-o basicamente como um homem vulgar que, por acaso, herdou uma coroa. Como também foi dito, casou tarde, unindo-se a Sacha quando ele já tinha por volta de 50 anos e ela era uma adolescente, e, por essa razão, o rei chega à velhice enquanto seus filhos ainda são garotos. Pedro tem a beleza, a perspicácia e a bondade da mãe; é um jovem alto, esguio, de muitos talentos. Tomás, por outro lado, puxou ao pai, tanto na aparência comum quanto no intelecto medíocre – com o agravante de, por vezes, praticar atos de inegável maldade. Ainda assim, o narrador se esforça para que seus leitores não odeiem o príncipe mais jovem, garantindo reiteradamente que, no fundo, ele não é ruim. O fato é que Tomás se sente negligenciado, já que Pedro é o favorito de todo mundo, desde o rei até os serviçais do palácio, por ser o herdeiro do trono, além de ser bonito, corajoso e bom. Não dá para não sentir pena do irmão mais novo quando lemos sobre seus repetidos esforços para agradar e dar orgulho ao pai, que geralmente reage com um comentário distraído, do tipo "ah, muito bem, filho", para em seguida retornar a sua adoração incessante ao filho mais velho. Pedro nitidamente não queria que fosse assim, chegando a tentar ajudar o irmão – o que só faz com que Tomás o odeie mais, ao mesmo tempo que também o ama e admira. Muitos de nós já passamos por situações parecidas e sabemos que não é agradável estar nem de um lado, nem do outro. Para piorar, embora (até onde sabemos) ninguém jamais tenha sequer tocado no assunto em sua presença, Tomás acha que todos o odeiam por ter, involuntariamente, causado a morte da mãe, que, como ele bem sabe apesar de não tê-la conhecido, foi a rainha mais amada que Delain já teve. Enquanto os dois príncipes crescem, o rei envelhece e esse pequeno drama familiar se desenrola, Flagg observa tudo atentamente. Acaba chegando à conclusão de que precisa livrar-se de Pedro tal como se livrou da mãe dele, já que o rapaz dá todos os sinais de que, uma vez no trono, não sera um rei fácil de controlar como o pai. Seria bem melhor para o bruxo se a coroa passasse para Tomás, pois este ele tem certeza de que conseguirá manipular.

(Embora desta vez esteja escrevendo fantasia, King não renega totalmente seu pendor para o soturno: o laboratório de Flagg está repleto de objetos sinistros e sua mascote é um grotesco papagaio de duas cabeças. E, curiosamente, embora Delain seja um reino fictício, e pareça situado num mundo igualmente fictício, com geografia, cultura e mitologia próprias, a certa altura encontramos este trecho: "Sentou-se, emborcou uma ampulheta e se pôs a ler um enorme livro de encantamentos. Flagg vinha lendo esse livro – que era encadernado em pele humana – havia mil anos, e só percorrera uma quarta parte dele. Ler demais esse livro, escrito nas altas e longínquas planícies de Leng por um louco chamado Alhazred, seria arriscar-se a enlouquecer." Ou seja, Flagg possui um exemplar do Necronomicon!)

O motivo do título Os Olhos do Dragão é esclarecido quando Flagg, movido por seu "instinto para a maldade" (sobre o qual o narrador tece uma teoria) revela um segredo a Tomás. Na verdade, o bruxo procura, sempre que vê uma oportunidade, fazer coisas que levem o jovem príncipe a sentir-se em dívida com ele (e a temê-lo também), já que espera colocá-lo no trono e, quando isso acontecer, tornar-se, na qualidade de seu conselheiro, o verdadeiro detentor do poder em Delain. Acontece que uma das dependências particulares do rei Rolando no castelo consiste numa grande sala de estar em cujas paredes estão expostos os mais imponentes dentre os muitos troféus de caça que ele acumulou ao longo dos anos – pois em Delain, como em muitos reinos, a caça é tradicionalmente o lazer favorito de reis e nobres. E ali, entre tantas cabeças de ursos, alces, javalis e outros animais, figura em posição de destaque a cabeça da mais formidável presa que Rolando já abateu: a de Niner, o último dragão visto em Delain. O que ninguém parece saber a não ser Flagg (e, agora, Tomás) é que a cabeça do dragão foi montada na frente de uma câmara secreta embutida numa das grossas paredes do castelo; quem souber como entrar nessa câmara pode espiar através das lentes de vidro colorido que substituíram os olhos da fera, e assim ver e ouvir tudo o que acontece na sala de estar real. Flagg adverte a Tomás que ele não deve fazer uso desse segredo com muita frequência, para reduzir o risco de que seja apanhado – e que, caso isso aconteça, deve dizer que descobriu a câmara sozinho, por acaso, pois, do contrário, Flagg cuidará para que ele se arrependa.

O primeiro efeito dessa espionagem é um significativo abalo no respeito de Tomás pelo pai, já que agora pode observá-lo às escondidas e ver em primeira mão como ele se comporta quando pensa que ninguém está vendo… e, vamos ser francos, acho que pouca gente ficaria confortável com a ideia de ter sua intimidade devassada dessa forma. Quando estamos sozinhos, relaxamos – o que significa, entre outras coisas, parar de policiar nossos comportamentos mais esquisitos, ridículos ou repulsivos. E fica ainda mais desconcertante ver uma pessoa metendo o dedo no nariz, soltando puns, se embriagando ou falando sozinha (esta última coisa, Rolando faz tanto sóbrio quanto embriagado) quando tal pessoa é nosso pai e, ainda por cima, nosso rei, provavelmente o ser humano que mais respeitávamos até então. Com apenas dez anos de idade, Tomás ainda não tem maturidade para separar as coisas e entender que esses comportamentos repelentes são falhas humanas, e não necessariamente diminuem a dignidade de um soberano; seu apreço por Rolando sofre uma queda, o que, aparentemente, é excelente para os planos de Flagg.

Quando Pedro está próximo de completar 17 anos, Flagg decide que está na hora de tirá-lo do caminho, e encontra um meio de fazer isso ao mesmo tempo que se livra de Rolando – envenenando o velho rei com certa substância exótica adicionada ao seu copo de vinho da noite, e plantando provas contra Pedro, que é julgado e preso, considerado culpado do assassinato do próprio pai. O que o bruxo não sabe é que, no exato momento em que ele, pessoalmente, levou ao rei o vinho envenenado, Tomás estava novamente no seu posto de observação, atrás da carranca ameaçadora de Niner. O príncipe mais jovem não é nenhum gênio, mas tampouco é tolo, e compreende que dificilmente seria coincidência o fato de seu pai morrer poucos dias depois de Flagg ter-lhe levado um copo de vinho – coisa que Pedro, e não Flagg, costumava fazer toda noite. Porém, Tomás não tem coragem de abrir a boca, receoso do que o feiticeiro poderia fazer, e Pedro é encarcerado na alta torre conhecida como "o Obelisco", tradicional local de prisão para criminosos nobres ou membros da realeza. Tomás é coroado (muito a contragosto, pois nunca desejou nem se considerou capaz de ser rei) e assume seu papel como fantoche de Flagg.

Depois de muita reflexão em sua cela solitária e desconfortável no alto do Obelisco, Pedro conclui que tem o dever de provar sua inocência, um dever não só para consigo mesmo, mas principalmente para com o reino, que Flagg parece estar deliberadamente conduzindo em direção ao caos: mesmo ali, em seu cárcere nas nuvens, notícias chegam, e elas dão conta de que o reinado de Tomás está sendo desastroso. A questão é que Pedro não pode provar coisa alguma de dentro da cela, e ninguém jamais fugiu do Obelisco em toda a história de Delain. Ainda assim, o príncipe arquiteta um plano, para o qual precisará recorrer a certos ensinamentos que recebeu da mãe quando era bem pequeno, e que exigirá dele muita persistência e paciência. Existem pessoas que acreditam em sua inocência, e com cuja lealdade ele pode contar, mesmo que, no caso de algumas delas, nem saiba disso; é em grande parte na coragem e no espírito de sacrifício desses amigos e súditos fiéis que repousa a esperança de que Pedro consiga reconquistar seus direitos e reparar a injustiça praticada – e, como ele reflete com grande nobreza de alma, o fato de uma injustiça ter ocorrido é motivo suficiente para que todos os esforços sejam feitos para corrigi-la; que a vítima da injustiça tenha sido ele, é quase irrelevante. Esta parte me pareceu particularmente importante:

A princípio, por um ou dois dias, remoeu sentimentos inúteis. O seu lado infantil insistia em lamentar-se: Não é justo! Isto não é justo! E não era mesmo, mas pensamentos dessa espécie não o levavam a lugar algum. Jejuando, começou a recobrar o domínio de si mesmo. O ventre vazio fez com que ele se desembaraçasse daquele componente de criança. Passou a sentir-se mais limpo, livre, vazio… como um copo esperando para ser enchido. (...) Ele começou a ouvir mais claramente seus verdadeiros pensamentos.

Torço retroativamente para que a jovem Naomi tenha aproveitado a chance e assimilado a lição valiosa que o pai estava tentando lhe passar, evitando ter que aprendê-la mais tarde, provavelmente de alguma maneira pior. Sem contar que esse é um ensinamento que faria muito bem a essa juventude nutella dos nossos dias.

Sempre vamos pensar em Stephen King, antes de mais nada, como um autor de terror (e não tenho dúvida de que é assim que ele prefere ser lembrado), mas ninguém pode escrever um único tipo de coisa durante toda a vida, e King já mudou de ares diversas vezes ao longo de sua carreira que já dura quase cinco décadas. Já vi pessoas que torciam o nariz à simples menção de seu nome ficarem com os olhos marejados ao falarem de filmes como Conta Comigo (1986) e Um Sonho de Liberdade (1994), e terem reações que variavam da incredulidade à teimosia agressiva quando eu lhes disse que ambos os filmes são baseados em histórias de King! (risos) Ainda assim, Os Olhos do Dragão é especial, porque sua própria origem tem uma história comovente, e, como se fosse para não deixar dúvida sobre o que (e quem) o motivou a escrevê-lo, o autor fez questão de incluir uma personagem chamada Naomi!… Em outros de seus livros, como A Hora do Vampiro e O Cemitério (principalmente), King coloca em suas páginas um bocado de reflexões bastante tenebrosas sobre a vida, a morte e o mundo de maneira geral, quase sempre atribuídas direta ou indiretamente a algum personagem, e possivelmente influenciadas pelas dificuldades e sofrimentos que eles passam ao longo da história. Em Os Olhos do Dragão, talvez porque sabia que seria lido por sua filha (que, por sinal, seria sua primeira leitora), ele adota um ponto de vista mais construtivo e, de certa forma, até otimista: não há "felizes para sempre", mas uma pessoa pode levar uma vida boa e com significado, uma vida para a qual poderá olhar com orgulho no momento da morte, se, ao longo dela, tiver enfrentado seus problemas (que inevitavelmente surgirão) com calma e determinação, e feito sempre o melhor possível. A coragem e a retidão de caráter de Pedro são o que faz dele um rei, muito mais do que sua linhagem, e essas mesmas qualidades inspiram a amizade e a lealdade de seus companheiros. Se eu tivesse filhos adolescentes, seria esse o tipo de coisa que gostaria de escrever para eles. Senti falta apenas de um pouco mais de ação, embora seja verdade que há uma cena memorável de luta – uma luta só na base dos punhos. Mais uma ou duas cenas de confronto, talvez com o uso de espadas, teriam acrescentado uma dose extra de emoção.

Os Olhos do Dragão talvez não esteja entre os melhores livros de Stephen King, e pode até mesmo ser considerado uma coisa um pouco à margem de sua produção normal, mas vale muito a leitura para quem gosta de fantasia e quiser conhecer uma face um pouco diferente do mestre do terror.