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sábado, outubro 21, 2017

A Espada Diabólica

Dentro do subgênero de fantasia conhecido como sword and sorcery ('espada e feitiçaria'), o britânico Michael Moorcock (1939-) é um dos autores que mereceriam ter bem mais fama do que têm. Seu personagem mais conhecido, Elric de Melniboné, é, de várias maneiras, o oposto do típico herói desse subgênero – e, como o "típico" herói de sword and sorcery tem em Conan seu mais clássico exemplo, é interessante lembrar que o cimério e o melniboneano já se encontraram nos quadrinhos da Marvel: o épico crossover começa com uma luta, é claro (os fãs não dispensariam isso!), mas o breve duelo não chega a ter um desfecho, e os dois acabam por se tornar aliados – temporários e relutantes aliados, e de forma alguma amigos.

E por que seria Elric o oposto de Conan? Bem… Enquanto o herói cimério de Robert E. Howard desconfia da magia (embora, ao longo da carreira, por vezes tenha aceito a ajuda de magos e feiticeiros) e faz muita questão de só confiar em sua própria força, coragem e em sua espada, Elric é tanto um feiticeiro quanto um guerreiro – talvez mais feiticeiro que guerreiro. Albino e de constituição física frágil, ele ganha força e resistência por meio da magia e de uma misteriosa ligação com sua espada, Stormbringer (algo como 'a que traz a tempestade'), uma enorme lâmina feita de algum metal negro desconhecido, que, sem o auxílio da magia, ele não seria capaz sequer de levantar, quanto mais de manejar. Entre outros poderes, ela tem a capacidade de absorver a força vital daqueles que mata e transferi-la para seu detentor. Elric não gosta disso, dando por vezes a impressão de sentir que seu vínculo com a espada perverte sua própria humanidade, mas o considera, no fim das contas, um mal necessário.

Mais diferenças: Conan, um bárbaro do norte sem quaisquer traços de nobreza em suas origens, alimentou desde a juventude o sonho de tornar-se rei, o que eventualmente conseguiria; Elric, por outro lado, é um imperador, embora seu império, Melniboné, esteja em decadência, depois de ter dominado o mundo por dez mil anos. O mundo em questão, por falar nisso, parece ser a Terra, talvez num passado há muito esquecido, talvez num futuro distante: o prólogo da primeira parte, intitulada O Advento do Caos, diz que a saga de Elric tem lugar "dez mil anos antes de a História ser registrada ou dez mil anos depois que deixaram de ser compostas as crônicas, como se preferir", mas, ao longo do livro, novas informações que vão aparecendo revelam que a primeira possibilidade deve ser a verdadeira. A rigor, o uso da palavra "humanidade" no parágrafo anterior é impróprio: os melniboneanos não se consideram humanos e veem com preocupação a ascensão dos "Jovens Reinos", estes sim povoados por homens no sentido estrito do termo, que parecem estar ganhando poder e influência à medida que Melniboné enfraquece.

Fazer esse paralelo entre os dois heróis deixa óbvio que Moorcock cresceu lendo as histórias de Howard, assim como as de Edgar Rice Burroughs e, possivelmente, também as de Lord Dunsany, mas quis que suas aventuras fantásticas tivessem uma cara própria, e conseguiu isso com Elric. A exemplo dos contos de Howard sobre Conan, e também dos de Fafhrd, escritos por Fritz Leiber, as histórias sobre o imperador albino foram publicadas soltas, sem seguirem uma ordem, e organizá-las numa cronologia é tarefa complexa. Sei que isso já foi feito nos Estados Unidos, onde a saga de Elric foi publicada em vários volumes; provavelmente no Reino Unido também. No Brasil, por outro lado, até onde sei, só temos este volume, publicado pela editora Francisco Alves em 1975, dentro de sua coleção Mundo Fantástico, paralela à Mundos da Ficção Científica – ambas trazem gratas recordações para os fãs brasileiros de literatura de imaginação das décadas de 70 e 80 (pessoalmente, estou nessa desde os anos 80). O título original era Stormbringer.


A aventura começa quando, tarde da noite, uma tempestade sobrenatural desaba sobre Karlaak, a capital de Melniboné, e um grupo de assassinos inumanos – criaturas brutais enviadas pelos misteriosos Senhores do Caos – penetra na cidade, aproveitando-se de os portões estarem abertos, e as sentinelas, adormecidas, tudo efeitos da mesma magia que conjurou a tempestade para facilitar-lhes a missão. E sua missão parece ser a de matar Elric, que dorme em sua alcova no palácio, ao lado de sua esposa, a bela Zarozínia, sem de nada suspeitar. Parece, mas não é. Elric enfrenta os invasores, mas está sem sua espada, da qual prefere manter-se longe sempre que ela não é indispensável, e acaba subjugado, desacordado com um golpe na cabeça. Ao recuperar a consciência, fica surpreso por ainda estar vivo, mas a coisa seguinte que percebe é que a imperatriz foi raptada. Durante a luta, Elric conseguiu matar um dos sequestradores, e agora, por meio de magia, faz com que o cadáver se levante e fale. O efeito só dura alguns minutos, tempo suficiente para a criatura "desmorta" enunciar um enigma, que fala sobre uma guerra prestes a ser travada, e sobre um parente de Elric que deverá lutar ao seu lado empunhando a "cópia fiel" de Stormbringer. O imperador espera que, se for capaz de desvendar a charada e de sobreviver aos perigos aos quais ela conduzirá, talvez consiga recuperar sua esposa.

E é, a princípio, sozinho que Elric se aventura; não se faz acompanhar sequer por uma guarda pessoal, como um soberano normalmente faria, talvez na esperança de conseguir viajar incógnito – por mais que, no caso dele, isso seja quase impossível. É verdade que, numa sociedade de características medievais como o Império de Melniboné e terras vizinhas – sem imprensa, TV, internet e coisas que tais –, a maior parte da população que vive longe da capital nunca viu seu monarca e não o reconhecerá se por acaso o encontrar… A menos que o monarca em questão tenha uma aparência tão incomum a ponto de chamar atenção e causar comentários: vocês também não se lembrariam se, numa ruela enlameada de alguma aldeia, cruzassem com um sujeito magrelo, com pele e cabelo brancos feito marfim e olhos vermelhos ardentes, portando uma gigantesca espada negra de aparência tão exótica quanto a dele?

Seguindo as pistas enigmáticas obtidas do assassino morto-vivo, o herói albino viaja para o oeste, onde os reinos de Dharijor e Pan Tang formaram uma aliança e estão se preparando para invadir outros reinos vizinhos. Os exércitos dos defensores são comandados pela rainha Yishana de Jharkor, aliada e outrora amante de Elric, e sob sua bandeira, entre outros, lutam os mercenários de Imrryr, liderados por um homem de nome Dyvim Slorm, primo de Elric e seu único parente vivo. Quanto à cópia fiel da espada, é fato que Stormbringer possuía uma "gêmea", Mournblade (a "lâmina lamentosa", mais ou menos; o verbo to mourn quer dizer lamentar ou prantear, geralmente por alguém que morreu, podendo significar também, por extensão, 'estar de luto'); ocorre que essa segunda espada era empunhada por Yyrkon, outro primo, que Elric matou durante uma disputa dinástica anos antes, e a arma, ao que se acredita, foi perdida, de modo que parece impossível o pleno cumprimento da profecia. Em todo caso, Elric e Dyvim Slorm juntam-se ao exército de Yishana para a batalha que decidirá o destino do oeste.

E que batalha é essa! Saber narrar bem um combate em massa é tão importante para o escritor de fantasias épicas quanto para o de ficção histórica, e Moorcock demonstra ter o dom, mas não se trata de uma batalha "comum", entre tropas de homens protegidos por armaduras e usando lanças, espadas e arcos; há tropas assim, é claro, mas há também tigres treinados para o combate, cavaleiros montando répteis de seis patas em vez de cavalos, esquadrões de homens alados… Sim, eu também fiquei imaginando como seria isso tudo num filme, e é pena ser tão improvável que algo assim se concretize. De qualquer forma, a batalha, na qual Elric arrisca a vida, é apenas um passo em sua busca por Zarozínia. O narrador diz explicitamente que o albino se considera um realista, mas, em seus atos, pelo menos nesta história, ele demonstra um pendor para o fatalismo: seu inimigo morto fez uma profecia, e os mortos, se, por um lado, não podem dar respostas diretas, tampouco podem mentir. Sendo assim, Elric está disposto a cumprir seu papel nessa profecia, mesmo sem compreendê-la totalmente, na esperança de que, em seu desenlace, sua esposa lhe seja devolvida, como também foi profetizado. Porém, há mais em jogo que apenas sua vida. As forças do Caos que tramaram o rapto da imperatriz querem algo em troca de sua libertação: exigem a entrega tanto de Stormbringer quanto de Mournblade, as únicas armas que podem, nas mãos certas, representar um entrave a seus planos de dominar o mundo.

Elric odeia Stormbringer (a espada possui vontade própria e até um certo tipo de inteligência maligna, mais ou menos como o Um Anel de Tolkien) e ficaria feliz de nunca mais empunhá-la; portanto, em nível pessoal, aceitaria a troca com a maior das alegrias. Acontece que, se o fizer, estará, com esse ato, condenando o mundo a uma era de trevas e terror, e, embora preocupar-se com a sorte de povos ou reinos não seja nele uma reação natural, o imperador albino possui, sim, uma consciência. Talvez seu heroísmo tenha ainda mais valor por não ser instintivo como o de um Hércules ou um Super-Homem: ao contrário, escolher seu curso de ação numa situação como essa custa-lhe angústia e indecisão. Elric carrega o fardo de ser o último imperador de Melniboné, e de lhe haver cabido ocupar o trono exatamente durante esses dias, que equivalem ao apocalipse para esse mundo antediluviano. Os servos do Caos desprezam a Ordem porque, segundo eles, ela limita a matéria, enquanto o Caos representa possibilidades infinitas; para o mundo, porém, essas possibilidades acarretam catástrofes: ao mesmo tempo em que eclodem guerras terríveis, o próprio planeta parece estar em convulsão, assolado por terremotos, erupções vulcânicas e tempestades sobrenaturais. Além disso, a influência do Caos puro causa espantosas transformações nos seres vivos que estiverem nas proximidades, deformando seus corpos em paródias obscenas de suas aparências originais, ora mudando-os em figuras tortas e desproporcionais, ora fazendo com que desenvolvam aleatoriamente vários membros e cabeças em qualquer lugar do corpo. Enfim, os piores pesadelos ganham existência material.

Embora seja um feiticeiro erudito, iniciado em muitos mistérios, o monarca albino ainda é um mortal, e, por isso, há muitas coisas que não pode vislumbrar ou compreender. Uma delas lhe é revelada por um ser misterioso, imortal, de nome Sepiriz, que lhe oferece ajuda e aconselhamento para sua missão, e o teor da revelação é que, não importa o que Elric faça, ele não pode verdadeiramente salvar o mundo que conhece: esse mundo deve e vai desaparecer, abrindo espaço para o que Sepiriz chama de "os verdadeiros primórdios da história da humanidade", o que parece significar o início da História que conhecemos. Tudo o que Elric pode influenciar é que espécie de mundo vai se erguer dos escombros do seu milênios depois: se as forças do Caos vencerem, elas terão absoluto domínio nos tempos futuros; se Elric as derrotar, isso não significa que o Caos será erradicado, mas fará com que, no novo mundo, a Ordem, ou a Lei, como os personagens a chamam, tenha ao menos uma chance de luta. Nenhuma das duas forças deve alcançar uma vitória definitiva sobre a outra, pois é no embate interminável entre elas, e no precário e incerto equilíbrio que daí nasce, que o universo encontra condições de existir e de se desenvolver: o Caos puro o levaria ao colapso, a Ordem pura resultaria em estagnação.

Eu não iria ao ponto de dizer que Elric defende a Ordem, e sim que procura favorecer esse equilíbrio, mas mesmo isso já representa uma opção radical para ele, filho de uma raça gerada pelo Caos, se é que pode-se falar em opção quando existe um destino que somente ele pode cumprir. É nesse destino, e no modo como se posiciona diante dele, que reside aquilo que faz de Elric um personagem tão interessante, pelo menos no meu modo de ver. Ele não é bondoso nem altruísta por natureza, embora ainda seja mais afável que a média de seu povo – os melniboneanos são essencialmente caóticos e cruéis –, mas, mesmo assim, aceita os riscos e os sofrimentos que sabe que estão à sua espera, somente pelo bem de um mundo onde nem ele, nem nenhum descendente seu viverá, e no qual ninguém saberá que ele existiu.

Até agora, eu só tinha conhecimento indireto sobre a obra de Michael Moorcock, e Elric era para mim apenas um personagem que tinha aparecido numa aventura de Conan; sabia que ele tinha uma vida própria na literatura, e que suas histórias haviam inspirado pelo menos três músicas do Blind Guardian: Fast to Madness, do álbum Follow the Blind (1989), The Quest for Tanelorn, do Somewhere far Beyond (1992) e Tanelorn (Into the Void), do At the Edge of Time (2010), mas é a primeira vez que tenho a oportunidade de realmente lê-lo, e agora posso atestar que Moorcock é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes da história do subgênero sword and sorcery e, ouso dizer, até mesmo da literatura de fantasia em geral, e deveria ser considerado leitura obrigatória para a geração que hoje "viaja" nas páginas das Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin e de outros expoentes atuais desse segmento. É complicado ficar contando com traduções – este volume já é muito antigo (e, cronologicamente falando, deve ser o último da saga, por motivos que vocês terão que ler para saber), e nunca ouvi falar em outras edições nacionais desta ou de outras aventuras de Elric –, mas, se você lê em inglês e gosta desse tipo de literatura, eis aqui um mundo cujo fim será um privilégio testemunhar.

Em tempo: se eventualmente for feito um filme baseado em A Espada Diabólica, as partes a respeito dos dragões, e, mais especificamente, a respeito de seu uso como armas de guerra, na certa farão muitos quadrúpedes da internet soltarem comentários como "pô, véi, copiaram Game of Thrones na cara dura!" (As maiúsculas, a pontuação e os acentos são generosidade minha, é claro.) Espero que haja alguém com paciência para explicar que Michael Moorcock escreveu as histórias de Elric entre as décadas de 60 e 90, sendo que A Espada Diabólica foi originalmente publicada em 1965, quando George R. R. Martin, aos 17 anos, ensaiava os primeiros passos em sua carreira de escritor – e, muito provavelmente, era um ávido leitor de Moorcock.

domingo, junho 11, 2017

Mutação

Antes de redigir um post sobre um livro, gosto de saber um pouco sobre o autor, nem que seja por meio da Wikipédia, e, no caso de Robin Cook, foi a ela que recorri. Já sabia alguma coisa sobre ele, embora Mutação seja o primeiro livro seu que realmente li. Cook é considerado o fundador de um subgênero de suspense ao qual alguns se referem como "horror médico", que talvez fosse um produto inevitável da combinação de sua formação e experiência na medicina com o gosto por escrever e uma imaginação particularmente fértil para tramas densas e sombrias. Confesso que não me sentiria muito à vontade de me tratar com o sujeito que escreveu Coma e Cérebro, suas obras mais famosas; dessas, só li as sinopses, que já são bem perturbadoras. Pretendo ler os livros no futuro. Em Mutação, Cook trata de um dos ramos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, potencialmente perigosos da pesquisa médica moderna: a engenharia genética.

Esse, por sinal, é um daqueles assuntos sobre os quais é difícil ter uma opinião definitiva e categórica – a menos que você seja uma pessoa simplória, que acha que entende tudo e vai logo se posicionando contra… Ou a favor. As possibilidades são imensas, mas os perigos também. Desde que passamos a dominar um grau razoável de tecnologia, a lei da seleção natural perdeu a maior parte do poder sobre a nossa espécie. Na natureza, um animal que nasça com alguma doença genética, ou com qualquer característica debilitante, normalmente não sobrevive até a idade adulta, e, por consequência, não chega a se reproduzir, e não passa adiante a característica indesejável. É cruel, mas garante que a espécie se perpetue com indivíduos saudáveis. Já entre nós, humanos, é diferente: se uma criança nasce com algum problema, fazemos todos os esforços possíveis para que ela sobreviva. É claro que, do ponto de vista moral, essa é a coisa certa a se fazer, e esse senso de dever de uns para com os outros (solidariedade, se quiserem) foi um dos motivos do nosso sucesso como espécie; porém, a natureza é implacável. O fato de todos esses indivíduos que a seleção natural teria eliminado sobreviverem e eventualmente se reproduzirem acabará fazendo com que, a longo prazo, toda a humanidade seja portadora de algum tipo de doença genética – a menos que, até lá, tenhamos encontrado meios de diagnosticar e eliminar essas doenças ainda nos estágios iniciais da vida embrionária. Em resumo, pode chegar o dia em que a engenharia genética se tornará essencial para a própria sobrevivência de nossa espécie.

Por outro lado, a História mostra que novas tecnologias frequentemente recebem aplicações pouco louváveis, e a ficção científica já tentou por mais de uma vez antecipar o que poderia acontecer caso o DNA humano começasse a ser manipulado para fins meramente utilitários. Quem já tiver certa idade, suficiente para ter lido os quadrinhos da Marvel lá pelo final dos anos 80, início dos 90, talvez se lembre das histórias de Paradox, criadas por Bill Mantlo e desenhadas por Val Mayerik, e que, no Brasil, foram publicadas na revista Aventura & Ficção. Essas histórias, se não me falha a memória, ambientavam-se em meados do século XXII, e, nelas, existiam as "espécies servis", desenvolvidas por meio da engenharia genética para sobreviverem sob as condições vigentes nos diferentes planetas do sistema solar, com o único objetivo de extrair minérios e outras matérias-primas para a Terra; os membros dessas espécies eram cidadãos de segunda categoria (na prática, de quinta ou sexta), tratados como párias pelos humanos "originais". Isso já era bem ruim, mas a aparência das espécies em questão ainda era relativamente normal. A bizarrice se eleva à enésima potência no livro Man After Man, de Dougal Dixon, que tenta especular sobre as novas formas que nossos descendentes poderiam assumir à medida em que seus códigos genéticos fossem sendo reescritos para responder a novas "necessidades" impostas pelo ambiente, na Terra ou fora dela, começando alguns séculos no futuro e prosseguindo por milhões de anos.

Porém, não é preciso ir tão longe, nem se afastar tanto da nossa realidade, para compreender por que essa coisa da engenharia genética merece ser tratada com a máxima cautela. Basta pensar na clonagem, que não é exatamente engenharia genética, mas está estreitamente relacionada com ela, e nos usos que ela poderá ter num futuro próximo. Muitas pessoas adorariam a ideia de clonar um animal de estimação do qual gostavam muito e que morreu, e isso dificilmente poderia causar algum dano a alguém – mas a coisa muda de figura se quem tiver morrido for uma criança, e os pais decidirem apelar para a clonagem a fim de "ter o filho de volta". A criança-clone, é claro, não seria uma "ressurreição" da criança original, e sim algo como uma irmã gêmea dela, só que nascida depois, e todos sabemos que gêmeos só são idênticos na aparência: em geral, têm personalidades muito diferentes. Aí é que surge a pergunta inevitável: será que esses pais teriam a maturidade e o bom senso para entender que estão diante de uma pessoa única, com uma individualidade que precisa ser respeitada, e não de um mero substituto para aliviar sua saudade de alguém que já se foi? Acho que o fato de recorrerem à clonagem, em vez de terem outra criança da maneira normal, ou mesmo adotarem uma (que seriam formas de aceitar o acontecido e seguir com a vida) responde por si só, e não é preciso ser psicólogo para enxergar o quanto seria danoso para uma criança ser criada por pessoas que cultivam essa expectativa irreal de que ela seja alguém que não é e nunca será. Esse é só um exemplo de como é importante questionar não apenas se uma coisa pode ser feita, mas também (e, às vezes, principalmente) se ela deve ser feita, e questionar, acima de tudo, os motivos que nos levam a querer fazê-la, bem como suas possíveis consequências. Infelizmente, nem sempre foi isso o que aconteceu no passado, e é pouco provável que sempre aconteça no futuro.

E lá se foi mais um longo introito… Bem, acho que uma das coisas legais de se fazer um blog é poder relaxar, escrever do jeito que mais nos agrada, sem tanta preocupação em seguir manuais ou regras. Se surge um assunto interessante, por que não me permitir algumas digressões, não é mesmo? Mas já chega por ora: vamos ao livro.

Mutação é a história de um homem chamado Victor Frank (nenhum prêmio por identificar o personagem de uma obra clássica de terror e ficção científica ao qual esse nome faz alusão!) e sua família: a esposa, Marsha, e os filhos, David e Victor Jr., apelidado de VJ. Tanto Victor quanto Marsha são médicos; ela se dedica à psiquiatria, enquanto ele trabalha com pesquisa, tendo sido um dos três sócios fundadores da Chimera Inc., empresa de biotecnologia que se tornou uma gigante do setor, fazendo dele e de seus parceiros homens ricos. O casal parece ter tudo o que poderia desejar, exceto uma coisa. Complicações no parto de David comprometeram a capacidade de Marsha conceber, então, quando o filho mais velho está com cinco anos, ela e o marido decidem ter o segundo com a ajuda de uma mãe de aluguel. O óvulo é de Marsha, os espermatozoides de Victor, portanto o bebê resultante é biologicamente filho dos dois, mesmo sendo parido por outra mulher. E o procedimento parece ter sido tão bem-sucedido quanto se poderia desejar, tornando-os pais de um menino perfeito e saudável.

Entretanto, à medida que VJ cresce, fica evidente que ele é muito diferente das crianças de sua idade. Começa a falar com poucos meses, aprende a ler com pouco mais de um ano, e aos três é um brilhante jogador de xadrez e fera em computação (e creiam, lidar com os computadores da década de 80 exigia bem mais perícia que com os de hoje). Possui um QI de gênio, mas parece desprovido de emoções, é avesso a demonstrações de afeto, e prefere a companhia de adultos, já que está anos-luz à frente das outras crianças. Por volta dos três anos e meio, seu QI, inexplicavelmente, sofre uma brusca queda, e ele desaprende muitas coisas que dominava, mas, mesmo assim, continua a possuir uma inteligência muito acima da média, e não tem dificuldade para reaprender o que esqueceu. Estranhamente, a babá que cuida dele e de David, e que a princípio tinha completa adoração pelo caçula, passa a ter medo dele, a evitar sua presença e a repetir uma conversa religiosa sobre o menino ser um demônio. Pouco tempo depois, quando VJ está com cinco anos e David com dez, o garoto mais velho falece, vítima de uma forma rara de câncer – que, sem demora, tira a vida também da babá, uma coincidência quase inacreditável: esse tipo de câncer é tão raro, de fato, que a possibilidade de que afete duas pessoas de uma mesma casa é quase nula. E, no entanto, acontece, deixando VJ na condição de filho único.

A parte principal da narrativa acontece quando VJ está com dez anos. Victor se orgulha do filho, e Marsha, embora o ame profundamente, de vez em quando sente medo, conseguindo compreender, ao menos em parte, os delírios religiosos da antiga babá – mas, é claro, ela, que passa seus dias tratando as desordens mentais dos outros, não pode se permitir esse tipo de "maluquice". A vida dessa pequena família segue tão normal quanto possível, até ser sacudida por dois eventos trágicos cujo significado só Victor conhece: dois meninos de cerca de três anos, filhos de funcionários graduados da Chimera, ambos dotados de intelecto superior, sofrem algum tipo de mal súbito no cérebro e morrem, quase ao mesmo tempo. Por alguma razão, isso deixa Victor preocupado com VJ, o que ele não consegue ocultar de Marsha por muito tempo, e, naturalmente, ela quer saber o que uma coisa tem a ver com a outra. Quando Victor é forçado a se explicar, revela-se o porquê das características únicas do filho do casal e qual a relação entre ele e aqueles dois meninos que ele e seus pais nem conheciam.

Não entendo o suficiente de biologia (e não sei coisa alguma sobre medicina) para poder avaliar se as explicações oferecidas por Cook acerca do experimento que resultou na superinteligência de Victor Frank Jr. são corretas ou teoricamente possíveis, mas, para o leitor leigo, elas soam convincentes o bastante; além disso, por que não seguir o exemplo de H. G. Wells e pensar nas possíveis consequências de um avanço tecnológico, em vez de nos determos nas suas minúcias técnicas? Pois, como já entreguei, Victor pai decidiu aproveitar o plano dele e da esposa de terem um filho para colocar em prática pela primeira vez em um ser humano as experiências que já vinha realizando com animais, manipulando os genes para tentar aumentar a capacidade intelectual. Tal como seu quase-xará da obra de Mary Shelley, Victor vai descobrir que criar um novo ser é a parte fácil: prever e/ou controlar suas ações é que é o verdadeiro desafio, o que pode levar a consequências terríveis.

VJ, desde muito pequeno, passa muito tempo na Chimera, primeiro no laboratório do pai; mais tarde, passa a circular por outras dependências do lugar na companhia de Philip, um empregado mentalmente atrasado com quem fez amizade – ou seria melhor dizer que o recrutou a fim de poder dispor de força muscular quando precisar? Já mais velho, o garoto é frequentemente visto entrando na empresa e tornando a sair horas depois, mas ninguém parece capaz de dizer ao certo onde ele passa esse tempo ou o que faz. Tem passe livre para quase qualquer lugar do vasto complexo, graças à combinação de sua condição de filho de um dos donos da companhia com sua capacidade de cativar a todos quando quer – pois, como os psicopatas, pode mostrar-se muito simpático e sedutor quando isso for útil para a consecução de seus objetivos, apesar de não ser capaz de formar laços emocionais verdadeiros. Quando fatos estranhos e inexplicáveis começam a ser descobertos na empresa, ninguém os relaciona à presença constante do garoto, até as peças começarem a se ligar de uma forma que não pode mais ser ignorada… E paro por aqui, para não dar spoiler.

A escrita de Cook, pelo menos neste livro, não é nenhum primor de estilo; baseado nisso, o leitor pode ficar tentado a achar que ele é aquele tipo de autor que tem repertório para bolar boas ideias em razão de seu conhecimento profundo de uma determinada área – no caso, a medicina –, mas a quem faltam a sutileza e o refinamento técnico que também são tão importantes para um bom escritor. Eu não teria tanta certeza… Pode ser assim em relação à técnica, mas não se pode dizer que Cook não tenha uma considerável habilidade para decifrar o espírito humano (imagino que isso também seja necessário a um bom médico) e para retratar isso tudo em suas histórias. Em Mutação, isso aparece nas personalidades do casal Victor e Marsha Frank, em especial no modo como cada um deles age em relação ao filho: ela, seriamente preocupada com cada coisa inacreditável que vai descobrindo a respeito de VJ; ele, tentando achar tudo normal. Por exemplo, quando o gato da família é cruelmente morto por alguém de identidade desconhecida que parece estar tentando intimidá-los, e deixado para que o encontrem, Marsha fica transtornada com a tranquilidade de VJ diante do fato horrível; para ela, o menino deveria ao menos demonstrar alguma emoção, fosse raiva, pesar ou o que fosse – qualquer coisa, menos a mesma frieza inabalável de sempre. Já Victor acha que o filho está simplesmente "agindo com maturidade". Mais adiante no livro, quando Victor descobre certos feitos extraordinários de VJ, sua reação pode parecer excessivamente tranquila, mas, num segundo pensamento, lembramos que a relação dele com o menino não é apenas a de um pai com o filho, mas também (e talvez predominantemente) a de um cientista com o resultado de seus mais ousados experimentos. E o resultado de experimentos científicos precisa ser encarado com objetividade, não importa o quão empolgante (ou horripilante) possa ser.

Há uma observação que é impossível deixar de fazer: VJ lembra fortemente o garoto Damien, do livro/filme A Profecia, e isso serve para nos fazer refletir que a humanidade sempre terá seus medos, ainda que eles vão mudando conforme os tempos. E isso nem sempre significa que novos medos vão substituindo os antigos: muitas das coisas que hoje tememos são as mesmas que nossos ancestrais temiam, sejam coisas sobrenaturais como demônios ou fantasmas, ou concretas como guerra e doenças, e a isso se somam novos temores, como o do que pode acontecer caso as tecnologias cada vez mais incríveis que vão sendo desenvolvidas caiam em mãos erradas, sejam usadas de forma irresponsável, ou simplesmente acabem demonstrando ser mais do que somos capazes de administrar. Os livros de Robin Cook proporcionam uma experiência envolvente e diferente aos apreciadores do suspense, mas também cumprem a função de nos fazer pensar nos perigos de tudo isso. Se há algo que nós, meros mortais, possamos fazer a respeito, é outra questão, mas uma coisa podemos dar como certa: se estivermos cientes dos riscos e já tivermos refletido sobre eles, talvez tenhamos chance de fazer alguma coisa; por outro lado, se o que vier por aí nos apanhar desprevenidos e ingênuos, não teremos chance alguma.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Conan, o Bárbaro

E eis que a aventura A Hora do Dragão, único romance escrito por Robert E. Howard sobre seu mais famoso personagem, o bárbaro Conan, chega finalmente ao Brasil numa edição caprichada, embora intitulada simplesmente Conan, o Bárbaro e com a imagem do cartaz do filme servindo de capa... É incômodo dependermos das marés da indústria do cinema para ter acesso a obras que deveriam estar sempre em catálogo, mas vá lá: pior seria não termos acesso a essas obras de maneira nenhuma, como aconteceu durante muito tempo.

Howard (1906-1936) foi um jovem gênio de destino trágico. Filho de um médico da pequena cidade texana de Cross Plains, cresceu num "mundo real" bastante limitado, típico de cidades interioranas em quase qualquer lugar, mas compensou esses limites com uma poderosa imaginação, exercitada desde a primeira infância, e com uma insaciável curiosidade sobre o mundo. O Dr. Isaac Howard depressa perdeu as esperanças de que seu único filho seguisse seus passos na medicina, mas também via com grande desconfiança as ambições do rapaz de ser escritor – o que era naquela época, como ainda hoje, um ganha-pão muito incerto, mesmo para os dotados de talento. O jovem Bob passou por diversos empregos, desde balconista até carteiro, mas não criou raízes em nenhum. Seu primeiro passo para a profissionalização como escritor aconteceu quando sua história Spear and Fang ('Lança e Presa', um conto de homens das cavernas, escrito quando ele tinha 15 anos) foi publicada, na edição de julho de 1925 da revista Weird Tales. Durante os anos seguintes, Howard escreveu e vendeu literalmente dezenas de histórias, em vários gêneros: esporte, faroeste, ficção histórica, terror e fantasia. Dentro desta última, foi notável sua contribuição para o subgênero hoje conhecido como sword and sorcery ('espada e feitiçaria'), ao ponto de muitas pessoas acreditarem, equivocadamente, que tenha sido o seu criador – na realidade, o britânico Lord Dunsany publicou histórias nesse estilo ainda durante a primeira década do século XX. O primeiro expoente howardiano de sword and sorcery foi uma história escrita em 1929 e ambientada numa era perdida da pré-história da Terra, cerca de 20 mil anos atrás, um mundo dominado por impérios poderosos e onde a magia era comum. Para compor a geografia e as características humanas dessa era fictícia, o escritor costurou uma verdadeira colcha de retalhos, usando referências históricas e míticas oriundas das fontes mais diversas – e sem fazer a menor cerimônia para misturar elementos que, na origem, não tinham qualquer ligação de contemporaneidade entre si. Nesse mundo próprio repleto de esplendores e perigos desenrolou-se a saga de um personagem que, embora subestimado até mesmo por muitos fãs de Howard, em minha opinião possui potencial heroico próximo ao de Conan, e um potencial dramático bem superior: Kull da Atlântida, que vai me render outro post.

Por ora, digamos apenas que a primeira aventura de Kull foi rejeitada pela Weird Tales e ficou na gaveta da escrivaninha de Howard durante os três anos seguintes, enquanto o autor dedicava-se a outros projetos. Em 1932, ele a retomou e reescreveu, mantendo a linha geral do roteiro, mas mudando o nome e algumas características do herói e ambientando-a numa outra era fantástica, que teria existido oito mil anos depois dos tempos de Kull e 12 mil anos antes dos dias atuais. Desta vez aceito pela WT e publicado na edição de dezembro daquele ano, esse conto, The Phoenix on the Sword ('A Fênix Sobre a Espada'), marcou a primeira aparição de Conan, já como rei da Aquilônia – o reino mais poderoso da época –, enfrentando uma conspiração para destroná-lo e matá-lo, envolvendo inimigos tanto naturais quanto sobrenaturais.

Se a Era Pré-cataclísmica de Kull era uma fabulosa miscelânea de elementos tirados de todos os lugares possíveis e imagináveis, a Era Hiboriana de Conan é tudo isso elevado ao quadrado. "Hiborianos", por falar nisso, é uma designação genérica usada para se referir aos reinos correspondentes à atual Europa, que teriam sido os mais influentes e poderosos de tal época. Examinando o mapa do mundo onde viveu Conan, a impressão que se tem é a de que Howard quis certificar-se de que nele estivessem presentes os ambientes e ingredientes necessários para praticamente qualquer tipo de aventura que se pudesse imaginar: existem bárbaros orgulhosos e violentos em reinos gelados no norte, existem mares infestados de piratas, existem desertos povoados de belicosos beduínos e de mistérios ao estilo de As 1001 Noites, existem savanas e selvas tropicais com suas tribos selvagens e feras exóticas (os reinos negros ao sul da Stygia), existem reinos regidos por estruturas feudais de poder, como a própria Aquilônia, nitidamente inspirada na França medieval, existem países orientais esplendorosos e quase desconhecidos pelos hiborianos – e, claro, há vastas extensões ainda inexploradas, onde aventureiros audazes podem encontrar todo tipo de maravilhas e horrores.

O próprio Howard apenas começou a narrar as aventuras de seu herói nesse mundo extraordinário: não viveu o suficiente para levar as histórias muito adiante. Nele conviviam uma imensa criatividade e uma carga nada desprezível de conhecimentos gerais, particularmente sobre História (conhecimentos esses adquiridos de maneira autodidata, pois ele nunca concluiu uma faculdade), mas também uma personalidade atormentada e emocionalmente imatura. Quando ficou sabendo que sua mãe estava em coma e sem chance de se recuperar, ele tirou a própria vida: não era capaz de se imaginar vivendo sem ela. Tinha pouco mais de 30 anos. A Sra. Howard faleceu horas depois do suicídio do filho, e os dois foram enterrados juntos. Imaginem o que foi isso para o pobre Dr. Howard: perder esposa e filho de uma vez só...


Como uma última informação importante sobre o autor, deve-se lembrar que Robert E. Howard manteve durante anos uma extensa correspondência com vários outros escritores notáveis do gênero de fantasia, como H. P. Lovecraft, Clark Ashton Smith, August Derleth e outros, e que a leitura atenta das obras de todos esses autores mostrará a influência exercida reciprocamente entre eles.

A obra de Howard sofreu um período de ostracismo após a morte do autor. Nos anos 50 apareceu nos Estados Unidos um livro reunindo alguns contos sobre Conan; na década seguinte, os escritores L. Sprague de Camp e Lin Carter conseguiram ter acesso aos papéis pessoais deixados por Howard, entre os quais encontraram desde esboços rudimentares de enredo para contos que não chegaram a ser escritos até histórias inacabadas em variados estágios de progresso. Assumindo o encargo de novos cronistas da Era Hiboriana, De Camp e Carter completaram muitas dessas histórias, que vieram a ser publicadas. Também criaram histórias novas baseadas em simples anotações feitas por Howard, como a saga Conan, o Libertador, que contava sobre a revolução que o cimério teria liderado para derrubar o tirânico rei Numedides, vindo então a ocupar o trono da Aquilônia.

Em 1970, a Marvel adquiriu os direitos de adaptação para os quadrinhos de Conan e outros personagens de Howard, dando início àquela que seria a fase mais produtiva (em número de publicações) do bárbaro. Roy Thomas, já então um renomado argumentista de quadrinhos do selo, tornar-se-ia célebre pelo trabalho realizado com Conan. Não tenho certeza se as primeiras histórias em quadrinhos do herói a aparecerem no Brasil chegaram antes ou depois da estréia do primeiro filme sobre ele, mas a editora Bloch lançou algumas publicações antes de a Abril, então parceira da Marvel no país, começar a publicar A Espada Selvagem de Conan, versão nacional de The Savage Sword of Conan, revista em formato grande, preto e branco, que, no Brasil, durou de 1984 a 2001. Também saíram algumas aventuras de Conan nas revistas Heróis da TV e Superaventuras Marvel, que eram coloridas e em formato pequeno. Mais recentemente, a Dark Horse Comics publicou uma revista intitulada simplesmente Conan, também em quadrinhos. No tocante à publicação de contos em sua forma original, um único conto de Conan aparece no livro Magos, segundo volume da série de coletâneas Os Mundos Mágicos da Fantasia, coordenada por Isaac Asimov, Martin H. Greenberg e Charles G. Waugh e publicada no Brasil pela Melhoramentos no início da década de 90. Em 1995, a editora Unicórnio Azul lançou cinco edições de Conan – Espada & Magia, contendo contos originais de Howard e também trabalhos de De Camp & Carter. A editora Conrad publicou dois volumes, atualmente fora de catálogo, com contos do bárbaro. Por fim, agora, aproveitando o embalo do novo filme, a Generale nos traz esta edição, que inclui o romance A Hora do Dragão e mais três contos. Edição essa da qual vejo que terei que falar em outra oportunidade, pois já escrevi muito e não posso concluir sem dizer uma palavra sobre os filmes. Vamos a isso...

Conan nas telas – then & now...

Os fãs de Robert E. Howard e de filmes de aventuras em geral sempre se perguntaram o porquê de Conan e seu universo terem sido tão pouco explorados pelo cinema, fato esse que se torna ainda mais inexplicável se pensarmos no Tarzan de Edgar Rice Burroughs e nas dezenas de filmes já rodados sobre ele, com vários atores diferentes. Ora, o bárbaro de Howard teve a mesma origem do homem-macaco de Burroughs – as pulp magazines das décadas de 20 e 30 –, é um herói de nível, no mínimo, comparável, e com possibilidades infinitamente maiores, considerando o mundo onde viveu e a longa e variada carreira que teve. Apesar disso, e por alguma razão, até este ano só existiam dois filmes sobre as aventuras do cimério: Conan, o Bárbaro (1982) e Conan, o Destruidor (1984), ambos estrelados por Sua Excelência (respeito, afinal o homem já foi governador), o austríaco naturalizado ianque Arnold Schwarzenegger. E, verdade seja dita, se Schwarzenegger jamais chegou a ser um ator digno desse nome, nesses filmes, ainda em início de carreira, ele praticamente deu um novo sentido à palavra "canastrão". O máximo que se pode dizer a seu favor é que sempre esteve perfeitamente consciente de suas limitações e nunca tentou posar de prodígio dramático: alguns anos depois, comentou, bem-humorado, que até o cavalo que montara em Conan, o Bárbaro era mais expressivo que ele. Apesar disso, esse filme, dirigido por John Milius, marcou época, e há excelentes razões para que seja visto... Só que, por ser uma adaptação extremamente livre, não é aconselhável como primeiro contato com o personagem, embora um enorme número de pessoas (incluo-me) tenha conhecido Conan justamente por meio dele.

O roteiro foi criado de forma livre por John Milius e Oliver Stone, tendo os escritos de Howard apenas como fonte de inspiração. Por exemplo, a infância e adolescência atribuídas a Conan no filme não têm qualquer compromisso com a (incompleta e fragmentada) biografia do personagem deixada por Howard: embora o escritor tenha registrado, em cartas e anotações, que a tribo de Conan vivia perpetuamente envolvida em conflitos – fosse com aesires, vanires, hiperbóreos, ou com outros clãs cimérios –, não escreveu em parte alguma que ela teria sido massacrada, ou que o próprio Conan tivesse crescido como escravo. Na verdade, Howard chegou a mencionar que a primeira batalha de que Conan participou foi numa ocasião em que vários clãs da Ciméria uniram forças, pondo temporariamente de lado suas rixas, para atacar e arrasar a fortaleza de Venarium, construída pelos aquilonianos em solo cimério como primeiro passo de uma tentativa de conquista – e o escritor diz explicitamente que Conan teria então uns 15 anos, idade na qual, a dar-se crédito ao filme, ainda deveria estar movimentando uma pedra de moinho. Portanto, vejam o filme, mas não acreditem cegamente nele.

O vilão principal, o feiticeiro Thulsa Doom (interpretado por James Earl Jones, de longe a melhor atuação do filme), nunca enfrentou Conan nos livros ou nos quadrinhos: em vez disso, era o arquiinimigo do rei Kull, que teria vivido oito mil anos antes. O arqueiro e ladrão Subotai (Gerry Lopez), até onde sei, foi criado para o filme, enquanto Valéria (Sandahl Bergman), mostrada como sendo uma ladra e o amor da vida de Conan, na verdade era uma pirata, e apenas uma entre as muitas mulheres de sua carreira. É verdade que há citações a várias histórias de Howard: a sequência em que Conan encontra uma espada num velho túmulo foi tirada do conto A Coisa na Cripta, enquanto a invasão da fortaleza de Thulsa Doom tem vários detalhes que lembram A Torre do Elefante, sem mencionar que a promessa de Valéria a Conan ("Se eu estivesse morta e você lutasse por sua vida, eu voltaria do inferno para ajudá-lo!") é feita, na verdade, pela rainha pirata Bêlit – ela, sim, o grande amor do cimério, ou ao menos de sua juventude –, no conto A Rainha da Costa Negra (1934). E há mais detalhes assim. Ao mesmo tempo, o filme tenta ter o seu quantum satis de atualidade ao mexer com o tema da sedução de jovens por seitas estranhas, problema que havia alcançado dimensões preocupantes em diversos países na época. Por fim, é impossível negar que o clima épico e grandioso está lá, que há inúmeras cenas visualmente soberbas, que o ritmo e a narrativa prendem, que a magnífica trilha sonora de Basil Poledouris faz a sua parte (Anvil of Crom está entre as músicas com maior poder de causar arrepios de empolgação que já ouvi) e que o final é bem sacado por abrir possibilidades ilimitadas para os próximos filmes que viessem a ser rodados, ainda que isso tenha sido muito pouco explorado mais tarde. Resumindo tudo, Conan, o Bárbaro atualmente figura na minha coleção de DVDs, como acredito que deva figurar na de todo apreciador de fantasia e de aventuras épicas.

Pena que seja, até o momento, o único filme sobre Conan merecedor de tal distinção!...


Conan, o Destruidor, não chega a ser um desastre total, mas decepcionou, e muito, a quem esperava ver uma continuação digna do primeiro filme. É apenas uma aventurazinha feijão-com-arroz, do tipo que esperaríamos encontrar em alguma edição meia-boca d'A Espada Selvagem de Conan lá por meados dos anos 90, quando tanto as histórias originais de Conan escritas por Howard quanto as melhores criações de Roy Thomas e da dupla L. Sprague de Camp & Lin Carter já haviam sido todas publicadas e a revista tentava sobreviver com o material (muitas vezes pífio) disponível.

(Obs.: Para tornar a coisa toda ainda mais difícil de entender, o roteiro desse filmeco leva a assinatura de Roy Thomas em pessoa... Inexplicável.)

No filme, a rainha-bruxa Taramis (nome emprestado de uma personagem de uma história de Howard, embora a personagem em si não seja a mesma) contrata Conan para escoltar sua sobrinha Jenna (idem) na busca pelo Chifre de Dagon, um artefato de magia divina extremamente poderoso, e que somente Jenna, uma predestinada, pode tocar. O bárbaro é acompanhado por um amigo ladrão metido a engraçado (Tracey Walter) e pelo gigantesco guarda-costas de Jenna, Bombaata (Wilt Chamberlain); no caminho juntam-se ao grupo o mesmo mago do filme anterior (Mako) e uma guerreira negra, Zula (Grace Jones). O Chifre está guardado na fortaleza do mago Thoth Amon, e o grupo de heróis precisará invadir o local para obtê-lo. Há lutas, monstros, armadilhas, muitas cabeças decepadas e sangue à vontade, mas falta um algo mais que pudesse ter feito o filme sobressair acima do comum. Conan, o Destruidor vale para um passatempo inconsequente, mas não ficará marcado na memória como seu antecessor.

(Thoth Amon, a propósito, é um personagem que Howard parece ter criado meio às pressas, batizando-o com os nomes de dois deuses egípcios escolhidos ao acaso, apenas para que Conan tivesse um grande mago do mal como inimigo, assim como Kull tinha Thulsa Doom; de qualquer forma, embora nas histórias originais tenha dado muita dor de cabeça ao herói durante muito tempo, aqui ele aparece reduzido a um vilão de ocasião.)

E o que dizer do Conan versão 2011? Que é um festival de clichês? Bem, isso poderia ser dito dos dois filmes anteriores, e, vamos concordar, clichê não é sempre e necessariamente uma coisa ruim. Porém, dependendo de como são usados, os clichês podem dar forma a alguma coisa que empolgue – ou não.

O novo filme começa como nenhum filme de Conan pode deixar de começar: com uma voz que poderia pertencer a algum velho erudito recitando "
Entre os anos em que os oceanos tragaram a Atlântida e a ascensão dos filhos de Aryas..." Aqui, porém, essa introdução é emendada com uma história que repercutirá diretamente na aventura a ser narrada: no antigo e sombrio reino de Acheron, que teria existido antes do mundo hiboriano tomar forma, foi fabricado um artefato maligno, uma máscara capaz de dar poderes inimagináveis àquele que a usar – só que, para isso, precisa ser "abastecida" com o sangue de moças virgens. Quando o reino de Acheron caiu, as tribos bárbaras vitoriosas dividiram a máscara em três partes, "para que ninguém mais viesse a usar seus poderes malignos" (Obs.: Embora o filme nada diga a respeito, suponho que essa máscara tivesse algum tipo de magia que a tornava indestrutível, mais ou menos como o Um Anel de Sauron; é a única explicação para que os bárbaros não a tenham destruído de uma vez e encerrado o assunto. Aliás, por que será que de repente me lembrei de Hellboy II?). E, como seria inevitável que acontecesse, séculos depois surge um sinistro vilão disposto a tudo para encontrar as três partes e ganhar os poderes ilimitados que a máscara promete. Para falar a verdade, o vilão em questão poderia ser mais sinistro: Khalar Zym (Stephen Lang) lembra demais o zelador Argo Filch, dos filmes de Harry Potter, para ser capaz de meter medo em alguém.

Entrementes, o pequeno Conan nasce no seio da tribo ciméria que guarda um dos pedaços da máscara – e nasce, literalmente, num campo de batalha (Robert E. Howard escreveu de passagem algo a respeito). Em poucos anos mostra a que veio, vencendo rapazes bem mais velhos nas rudes competições atléticas que acontecem na tribo e, de quebra, matando alguns pictos, inimigos hereditários de seu povo, antes mesmo de ter idade para fazer a barba. Porém, antes que ele tenha tempo de se tornar um guerreiro de fato, Khalar Zym descobre o paradeiro do pedaço da máscara e vem buscá-lo, de modo que a tribo é dizimada (de novo), com o acréscimo de um requinte de crueldade: Khalar obriga Conan a assistir à morte de seu pai e mestre, o ferreiro e guerreiro Corin (Ron Perlman – puxa, Hellboy está me perseguindo hoje), ironicamente vitimado pelo mesmo elemento com o qual ganhava a vida: ferro derretido.

Não é difícil imaginar a vida de privações e perigos que o jovem cimério enfrenta a partir daí, mas isso fica implícito: o ator adolescente sai de cena e é substituído por Jason Momoa, o Conan "definitivo" – e preciso dizer: Momoa visivelmente se esforça, mas, embora eu bem que tenha tentado, não consigo achar que ele tenha a cara do personagem: talvez seja por ser havaiano, mas sempre vai me lembrar mais um surfista bombado que um guerreiro bárbaro. Como seria mais do que previsível, o cimério vai atrás de Khalar Zym para vingar a morte do pai, só que, a essa altura, o vilão está muito próximo de conseguir o que quer: já juntou todos os pedaços da máscara e só precisa encontrar uma mulher de "sangue puro" (seja lá o que isso queira dizer) para sacrificar a fim de ativar o poder da coisa. Essa é Tamara (Rachel Nichols), que está sendo educada para sacerdotisa até o templo onde vive ser atacado pela horda de Khalar Zym e todas as suas colegas e mestres serem chacinados. Ela própria escapa graças a Conan, e, se até aí não tinha havido surpresas, daí em diante muito menos: a bela mocinha passa quase todo o resto do filme a tiracolo do herói musculoso enquanto ele despacha filas e filas de vilões e monstros, e, a certa altura, é salva por ele de um destino trágico, por um triz, é claro. Gritando muito o tempo todo.

Visualmente, o novo Conan é cansativo em várias partes: a tentativa de evocar um clima "sombrio" faz com que haja muitas cenas escuras, em que os olhos do espectador se fatigam tentando acompanhar a ação no que parece ser apenas uma confusão de formas indistintas em movimento – em 3D fica ainda pior –, e, quando essas cenas terminam, tem-se sempre a sensação de haver perdido alguma coisa. O diretor alemão Marcus Nispel poderia ter aprendido com 300, no qual o uso inteligente da fotografia em sépia dá o tom soturno sem prejudicar a visibilidade.

Muito do que eu disse sobre Conan, o Destruidor também se aplica a Conan, o Bárbaro 2011: não é propriamente uma catástrofe, e não se pode negar que tem tudo o que uma aventura do gênero sword and sorcery que se preza (e até as que não se prezam) precisa ter: sequências vertiginosas de ação, lutas bem coreografadas, intervenções sobrenaturais, monstros, cenários exóticos... O problema é que, depois de assisti-lo, fica-se com a sensação de que, com tudo isso, teria sido possível fazer um filme muito melhor. Sabe como é quando você prova um prato que, embora tenha levado todos os ingredientes que devia, mesmo assim ficou insosso, porque faltou ao cozinheiro aquele "pulo do gato"? Resumindo: o filme até consegue seu objetivo de divertir – mas está muito, muito longe de fazer com que tenham valido a pena os 27 anos de espera para ver Conan nas telas novamente. Um filme sword and sorcery pode, sim, ir além de ser uma aventurazinha vulgar: pode empolgar, encher os olhos e a imaginação, inspirar e emocionar. Só que ainda continuamos esperando por uma produção sobre Conan que se mostre capaz de provar tudo isso: o filme de Nispel, definitivamente, não prova.

quarta-feira, junho 01, 2011

Thor


Para quem já foi durante muito tempo (ou o que para um adolescente pareceu ser muito tempo) um entusiasta de quadrinhos, mas já não os lê, a não ser ocasionalmente, há uns bons anos, não será tarefa das mais fáceis comentar este novo filme, mas já observei que os textos mais difíceis de começar costumam ser os que, depois que deslancham, acabam tendo os resultados mais interessantes. Então peço paciência a meus leitores se este post demorar um pouco a "decolar". ☺

Quando Stan Lee, fundador e, na época, principal argumentista da Marvel Comics Group, escreveu a primeira história tendo como protagonista o deus nórdico Thor (publicada na revista Journey Into Mystery n.º 83, de agosto de 1962), estava fazendo algo de inaudito para a época: buscar inspiração no passado da humanidade, em suas religiões antigas e lendas ancestrais, para contar histórias com uma roupagem moderna, que atraísse os jovens. Para aproximar mais o personagem de seus leitores e também poder fazê-lo interagir com os demais astros dos quadrinhos de seu selo, como o Hulk, Homem de Ferro, Capitão América e outros, Lee teria que trazer Thor para o século XX. Conseguiu isso criando para ele um alter ego, o Dr. Donald Blake, um cirurgião (americano, é óbvio) manco, que, durante uma viagem à Noruega, encontraria numa caverna um velho bastão de madeira e, ao batê-lo acidentalmente nas pedras, ver-se-ia transformado no poderoso Deus do Trovão, tendo o bastão virado o mítico martelo Mjolnir (o j pronuncia-se como i semivogal). Daí em diante, Blake levaria a vida dupla típica de quase todos os super-heróis, exercendo a medicina como rotina e ocasionalmente encarnando o deus para salvar o mundo daquelas boas e velhas ameaças cósmicas que todo argumentista do gênero é craque em tirar da manga.

As histórias de Thor seguiram nesse esquema durante anos, com os altos e baixos normais. Como não sou um especialista e, além disso, essas histórias foram publicadas muito antes do meu tempo, não sei dizer ao certo se foi ainda o próprio Lee ou um dos vários argumentistas por cujas mãos o herói passou quem teve a ideia de dar uma reviravolta em sua origem. Até então, Donald Blake acreditava ser apenas um mortal a quem os desígnios de alguma sabedoria superior teriam achado por bem conceder os poderes de um deus para que os usasse em defesa de causas justas. Aos poucos, eventos misteriosos que iam ocorrendo em sua vida, e imagens que surgiam inexplicavelmente em sua memória, acabaram por levá-lo a compreender a verdade: ele era o próprio deus Thor.

A explicação encontrada para isso foi bastante engenhosa e com um sabor realm
ente mitológico: calçado em sua condição de primogênito do deus supremo, Odin, e em sua reputação de grande guerreiro entre os habitantes de Asgard (o reino dos deuses), Thor ter-se-ia tornado um deus egoísta e arrogante. Para ensinar-lhe uma lição, Odin teria retirado seus poderes, apagado sua memória, e o colocado para viver na Terra sob uma identidade forjada, a do então estudante de medicina Blake. Como um jovem sem muitos recursos, e que sofria com as sequelas de uma paralisia, Thor aprenderia o valor da humildade e do trabalho duro, até estar pronto para receber de volta sua herança divina.

Foi já nos anos 80 que um sujeito chamado Walter Simonson assumiu a revista mensal de Thor nos Estados Unidos. Escritor e também desenhista, realizou uma reformulação geral no personagem e em seu ambiente, buscando reduzir ao mínimo possível as ligações com o universo super-heroístico da Marvel para investir pesado numa maior aproximação com a mitologia nórdica, que, afinal de contas, foi de onde o personagem veio. E é nítido que foi principalmente dessa fase que veio a inspiração para o primeiro filme da nova safra cinematográfica da Marvel a tratar do Deus do Trovão.

E vamos concordar, não se trata de um filme qualquer ― nenhum filme dirigido por Kenneth Branagh, responsável por nada menos que Henrique V, é um filme qualquer. Menos ainda se tiver Anthony Hopkins no papel de Odin e Natalie Portman ― rara combinação de beleza estonteante e talento admirável, capaz de se sair bem seja num filme ET (extra trash) como Marte Ataca (1996) ou num tenso thriller psicológico como o recente Cisne Negro ― como a "mocinha", no caso a cientista Jane Foster, com quem Thor, exilado na Terra, irá se envolver. O filme tem ainda Stellan Skarsgård (Rei Arthur, O Exorcista: o Início) como Dr. Erik Selvig, mentor de Jane; Tom Hiddleston como Loki; Jaimie Alexander como a deusa Sif (na mitologia, esposa de Thor, no filme aparentemente apenas uma "amiga", que nem chega a interferir na relação dele com Jane) e, curiosamente, Ray Stevenson (também de Rei Arthur e da série Roma), praticamente irreconhecível sob uma montanha de barba e cabelo, como o gordo e bonachão Volstagg, personagem criado para os quadrinhos.




O filme começa com uma cena em que Jane, Selvig e sua bolsista estão tentando observar e registrar um estranho fenômeno nos céus do deserto do Novo México, quando seu veículo de pesquisa atropela um homem que parece ter surgido do nada em meio à tempestade. Depois de o espectador ter apenas tido tempo de ver que o homem é Chris Hemsworth, que interpreta Thor, a narrativa recua para a Idade Média, nas terras do norte, e passa a ocupar-se de uma guerra entre os deuses de Asgard e os Jotun, ou gigantes de gelo ― é interessante notar que na mitologia nórdica, como na grega, os gigantes personificam forças da natureza, e que os deuses nórdicos, também como seus equivalentes gregos, têm com esses gigantes uma relação ambivalente: ao mesmo tempo em que são ligadas por estreitos laços de parentesco, as duas raças são inimigas mortais. Com os deuses saindo vitoriosos, Odin toma dos gigantes uma caixa misteriosa que dá origem aos poderes deles, e estabelece uma trégua ― que Thor, muitos anos depois, irá quebrar em busca de glória pessoal, levando Asgard à beira de uma nova guerra. No filme, é esse ato que leva o rei dos deuses a banir o filho para a Terra, tendo anulado a maior parte de seu poder, mas Thor não perde a memória, nem chega propriamente a ter um alter ego humano ― apenas usa falsamente e por um curto período de tempo o nome de Donald Blake, que, segundo Jane, é um "ex" seu. Em Asgard, Odin adormece (de acordo com a mitologia, ele precisava de longos períodos de sono para manter seus poderes) e, sem que ninguém saiba quando despertará, seu ardiloso filho adotivo, Loki, aproveita-se da ausência de Thor para fazer-se rei, o que precipitará o conflito que serve de combustível ao roteiro.


O filme toma diversas liberdades em relação à mitologia ― basicamente, as mesmas que os quadrinhos já tomavam, e mais algumas. Nas lendas nórdicas, por exemplo, Loki não era filho de Odin, nem mesmo por adoção, e, embora por nascimento pertencesse à raça dos gigantes, era admitido ao convívio dos deuses e geralmente considerado um deles. Tinha uma personalidade complicada, algumas vezes comportando-se como um fiel amigo dos deuses, outras como um trapaceiro compulsivo. Nos quadrinhos, essa complexidade havia sido abolida ― Loki era retratado sempre como mau-caráter ―, enquanto, no filme, ele é um personagem mais dramático, que sofre ao descobrir sua verdadeira origem, o que pode, em parte, justificar seus atos e ganhar para ele um pouco da simpatia do espectador. Loki era o deus do fogo e gerou muitos filhos, tanto humanos quanto feras, entre eles Sleipnir, o garanhão de oito patas que servia de montaria a Odin, bem como o monstruoso lobo Fenris, ou Fenrir, e a Serpente de Midgard. Midgard, aliás, era como os nórdicos chamavam o mundo onde vivemos nós, humanos. Esse nome, que significa literalmente terra média (alguém se lembra onde já vimos isso?), deve-se ao fato de que esse mundo fica no meio, abaixo do céu, onde vivem os deuses, e acima do mundo subterrâneo, habitado por trolls e outras criaturas do escuro.

O próprio Thor era uma figura à parte. Diferente do que o filme sugere, a deusa Friga, embora fosse esposa de Odin, não era a mãe de Thor, que nasceu da relação dele com uma giganta de nome Jord (que significa Terra), provavelmente antes de seu casamento com Friga. Embora Odin fosse o deus supremo, Thor era, de longe, muito mais popular e cultuado, principalmente entre os homens: era um deus-herói, guerreiro, aventureiro, exatamente a divindade adequada aos seguidores da filosofia viking de vida, que tinham no sangue a febre do desbravamento e acreditavam que a única morte digna de um homem era no campo de batalha. Em homenagem a Thor, quase todos os vikings usavam no pescoço um pingente em forma de martelo.

Por falar em morte, alguns podem ter estranhado a cena em que, prestes a partir para Jotunheim, o reino dos gigantes de gelo, Thor diz a Heimdall, o guardião dos portões de Asgard, que não tem planos de morrer naquele dia, e Heimdall replica que ninguém tem. Pode-se pensar: "Fácil para eles dizerem isso: são deuses, imortais!" Beeeem... Mais ou menos. O fato é que os deuses nórdicos não eram imortais no sentido pleno do termo. Para evitar a velhice e as doenças, precisavam comer regularmente as maçãs mágicas cultivadas pela deusa Iduna, e podiam, sim, morrer em combate da mesma forma que os homens ― embora, claro, para isso fosse preciso um adversário realmente poderoso.

Falar em Heimdall me fez lembrar de um detalhe discutível (para dizer o mínimo) do filme: esse deus é interpretado pelo ator Idris Elba ― que é negro ―, enquanto Hogun, outro personagem oriundo dos quadrinhos, é representado pelo japonês Tadanobu Asano. Pergunto: qual a lógica de colocar negros e orientais no reino dos deuses nórdicos? Não seria isso um exemplo típico da obsessão do politicamente correto prevalecendo sobre o bom senso?

Em resumo: Thor vale a pena ser visto. Tem um enredo cativante, que consegue a difícil proeza de ser interessante tanto para o inveterado leitor de quadrinhos quanto para o espectador de ocasião que pouco ou nada sabe sobre o universo da Marvel, tem ótimas atuações (com o inevitável destaque para o "imortal" Anthony Hopkins e para a boa surpresa Tom Hiddleston), tem um visual de encher os olhos, e tem o grande mérito de contribuir para despertar nas novas gerações o interesse pelo mundo fascinante e cheio de significados da mitologia.