sexta-feira, maio 22, 2020

As Crônicas de Nárnia

É claro que eu sempre soube que em algum momento leria as Crônicas de Nárnia; já tenho o livro há alguns anos, mas o dia de realmente pegá-lo para ler vinha sendo protelado devido ao apelo irresistível de outros livros, que sem a menor cerimônia furavam a fila. Foi minha namorada, Cintia, quem providenciou o empurrão de que eu precisava ao reclamar, e não pela primeira nem segunda vez, que não aguentava não ter com quem comentar algo de muito surpreendente, empolgante ou curioso que acontece ou é revelado no último livro da saga, adequadamente intitulado A Última Batalha. Quando o protesto foi substituído pela ameaça de "spoilear" a coisa para poder comentar de um jeito ou de outro, me rendi. Bem-vindos aos domínios do poderoso Aslam!

Na verdade eu já tinha lido os dois primeiros livros, O Sobrinho do Mago e O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, na primeira edição da Martins Fontes, que era em pequenos volumes separados; tenho até mesmo um velho exemplar de O Príncipe e a Ilha Mágica, que vem a ser o mesmíssimo Príncipe Caspian (1951), segundo livro a ser publicado (quarto pela ordem cronológica), em sua primeira edição brasileira, lançada pela obscura editora ABU lá nos anos 80. Porém, depois de tanto tempo, o melhor era começar de novo e ler de uma tacada o volume único, também da Martins Fontes, como se fosse tudo um livro só. E foi o que fiz.

Se Clive Staples Lewis (1898-1963) não tivesse se dedicado à literatura fantástica, é provável que, hoje em dia, só fosse conhecido no restrito círculo dos estudos profundos de teoria literária e história da literatura, e possivelmente, também, pelos interessados em apologética cristã. Pois ele se dedicou a tudo isso, e sobressaiu em todas essas áreas. Irlandês de nascimento, Lewis ensinou nas universidades britânicas de Cambridge e Oxford; nesta última, foi colega de J. R. R. Tolkien, com quem firmou uma profunda amizade, reforçada pelos interesses comuns em língua e literatura, especialmente literatura medieval. Apesar da amizade, os dois divergiam em alguns pontos fundamentais, como no fato de Tolkien ser um católico fervoroso, enquanto Lewis era ateu. Depois de anos de discussões filosóficas, em 1931, ao final de uma conversa legendária que varou a madrugada, Tolkien por fim logrou êxito em converter Lewis ao cristianismo, ainda que tenha ficado um tanto decepcionado porque o amigo optou por voltar à Igreja Anglicana, na qual fora educado e da qual se afastara na adolescência, ao invés de abraçar a fé católica, como ele esperava. Os dois e mais alguns amigos literatos fundaram um grupo, uma espécie de pequeno clube informal denominado The Inklings; a tradução é difícil, o mais próximo que consigo chegar é "os da tinta", assim como Earthling significa "da Terra", com o sentido de terráqueo. Esse grupo se reunia num pub nas noites de quinta-feira para conversar sobre literatura; nessas ocasiões trocavam manuscritos ou os liam uns para os outros. Foi assim que Lewis tornou-se uma das primeiras pessoas a ler O Hobbit, e incentivou fortemente Tolkien a publicá-lo, tal como também o incentivaria durante o demorado processo criativo de O Senhor dos Anéis. Tudo indica que a influência de Tolkien tenha sido um dos fatores que levaram Lewis a, por sua vez, dedicar-se a escrever fantasia, embora também seja verdade que ele sempre teve um fascínio por folclore e mitologia, as fontes originais desse tipo de literatura.

As Crônicas de Nárnia só tiveram seu primeiro livro publicado em 1950, sendo que as reuniões dos Inklings deixaram de realizar-se no ano anterior, mas é provável que Tolkien e os outros tenham tido acesso a versões iniciais; sabe-se que o Professor nunca gostou muito delas, por serem essencialmente alegóricas, coisa que ele não apreciava, já que considerava a alegoria como uma forma de coerção intelectual – o autor estaria como que obrigando o leitor a interpretar a história da mesma maneira que ele. Em todo caso, Tolkien reconhecia às Crônicas o mérito de fábulas morais que poderiam contribuir para transmitir às novas gerações a moralidade cristã e os valores humanos fundamentais.


Quando me referi a O Sobrinho do Mago como sendo o primeiro livro das Crônicas, considerei a ordem cronológica da leitura, que é como os sete livros são apresentados nesta edição em volume único; pela ordem de publicação, ele seria o penúltimo, pois sua primeira edição é de 1955, depois de cinco outros livros e antes apenas de A Última Batalha. Entretanto, é em O Sobrinho do Mago que vamos encontrar a narrativa da criação do mundo que abriga o reino de Nárnia e dos primeiros contatos entre esse mundo e o nosso. O narrador afirma que os acontecimentos ali descritos tiveram lugar quando "Sherlock Holmes ainda vivia em Londres", o que significa algo entre o fim do século XIX e os primeiros anos do XX. O sobrinho do mago em questão é o garoto Digory Kirke, que acaba de mudar-se do interior da Inglaterra para Londres, em companhia da mãe doente, para morar com os tios André e Letícia, dois irmãos solteirões. O tio André é que é o mago… Ou, ao menos, acha que é: ele tem uma noção extremamente exagerada a respeito de seus próprios conhecimentos e poderes. Não sou muito de ficar procurando pelo em ovo, tenho uma tendência de me impacientar quando vejo alguém analisar uma obra e começar a atribuir-lhe "sentidos ocultos" e "mensagens nas entrelinhas" que provavelmente fariam o autor dar boas risadas se lhe perguntassem a respeito, mas, desta vez, não pude evitar que esse personagem me fizesse pensar em certo tipo de cientista, que se empolga tanto com os progressos alcançados, que por vezes não se dá conta de estar lidando com coisas que podem ser perigosas. Tio André herdou de sua falecida madrinha (segundo ele, uma descendente de fadas) um punhado de pó que teria vindo de outro mundo, ou outra dimensão, como diríamos hoje, e, trabalhando com esse material, consegue descobrir um meio de viajar magicamente para esse lugar, mas, em vez de ir pessoalmente, recruta Digory e sua amiga Polly como exploradores. Dessa forma as duas crianças chegam ao mundo de origem do tal pó, que, como descobrem, não é exatamente um mundo, mas uma espécie de encruzilhada entre as dimensões; tem a aparência de um bosque onde existem inúmeros pequenos lagos, cada um deles, na verdade, um portal para um mundo diferente. Passando por um deles, Digory e Polly vão sair num imenso palácio, uma edificação majestosa, mas quase em ruínas, como se já estivesse abandonado há séculos. Lá, inadvertidamente, acabam despertando a temível rainha-bruxa Jadis de uma espécie de sono mágico no qual ela se encontrava aprisionada sabe-se lá há quanto tempo. A feiticeira vem parar no nosso mundo, e, vendo o estrago que ela poderá causar caso sua estada se prolongue, Digory e Polly encontram um jeito de levá-la novamente ao Bosque Entre os Mundos, e, de lá, para qualquer mundo aleatório – e o mundo em questão acaba sendo aquele, ainda recém-criado, que abrigará Nárnia e outros reinos. Lá, Jadis estará entre os principais vilões da saga que irá se desenrolar.

Merece destaque a narração a respeito do nascimento da vida em Nárnia, que ainda é um lugar escuro e informe quando os personagens chegam lá; eles testemunham o primeiro nascer do sol e a criação da vida vegetal e animal, incluindo os seres míticos. Lewis é extremamente bem-sucedido ao narrar esses eventos com uma combinação de delicadeza e grandiosidade, tudo isso corporificado em Aslam, o Leão, cuja canção vai dando forma ao novo mundo (ou seja, aqui, como no Ainulindalë de Tolkien, o mundo nasce por meio da música!). Ao contrário de Tolkien, Lewis não via problema em recorrer a alegorias, e Aslam é sem dúvida a maior delas: o Leão é Jesus Cristo em pessoa sob uma aparência fantástica. Isso já fica suficientemente claro nesta primeira história, mas vai sendo reforçado por meio de suas palavras e atos ao longo das próximas.

A segunda história neste volume único foi a primeira a ser publicada; trata-se de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa (1950), cuja narrativa apresenta os quatro irmãos Pevensie: Peter, Susan, Edmund e Lucy, que na tradução são chamados de Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia (não sei ao certo o que penso a respeito de traduzir nomes próprios; às vezes isso parece necessário e adequado, às vezes não, e aqui é um dos casos em que não parece, mas OK). Os quatro são mandados pela mãe para longe de Londres, que sofria com os bombardeios alemães durante a Segunda Guerra Mundial, e hospedam-se na casa de campo de um amigo da família, o professor Kirke – que é ninguém menos que o garoto Digory, agora já um homem idoso, que teve uma carreira notável como intelectual e aventureiro. Tenho a "sensação" de que o professor pode ter sido inspirado em Tolkien – quero dizer, na pessoa de Tolkien, não em sua obra. Posso estar presumindo demais, mas há pelo menos um indício a favor dessa teoria: a mãe de Digory chama-se Mabel, o mesmo nome da mãe de Tolkien. Isso, porém, não é importante aqui.


A casa do professor Kirke é uma daquelas mansões rurais do interior da Inglaterra: muito antiga, e tão grande que o próprio professor declara que não a conhece muito bem. É nela, num dos muitos quartos desocupados, que Lúcia, a caçula dos quatro irmãos, acidentalmente descobre um guarda-roupa cujas portas dão acesso a uma passagem entre mundos. A origem desse guarda-roupa é contada no final de O Sobrinho do Mago: ele foi construído com a madeira de uma árvore cuja semente veio de Nárnia, e é lá que Lúcia vai sair. O tempo transcorre de maneiras diferentes em cada lugar, e parece que nem sempre do mesmo jeito: às vezes parece correr mais lento em Nárnia que na Inglaterra, e outras vezes sucede o contrário. Faz apenas algumas décadas que Digory Kirke esteve em Nárnia, mas, quando a pequena Lúcia põe os pés lá, séculos se passaram. O país está dominado pela temida Feiticeira Branca, que não é outra senão Jadis, outrora a imperatriz de um mundo já desaparecido, que ficou aprisionada em Nárnia em O Sobrinho do Mago, e lá tratou de consolidar seu poder. Agora se diz rainha de Nárnia, mas, embora parte dos narnianos (que são seres míticos ou animais falantes) tenha-se colocado a seu serviço, a grande maioria não a reconhece como tal e espera pelo cumprimento de uma profecia que promete o fim da tirania da feiticeira e a liberdade para toda a terra e seus habitantes. A profecia tem duas partes: uma fala sobre o retorno de Aslam, que não é visto em Nárnia há séculos; a outra diz que, quando os quatro tronos no castelo de Cair Paravel forem ocupados por "filhos de Adão e filhas de Eva", quer dizer, seres humanos, o poder de Jadis terá fim, e o inverno permanente que sua magia lançou sobre Nárnia finalmente acabará. A feiticeira, é claro, mantém observadores e presta a máxima atenção a quaisquer informes sobre a possível presença de humanos em Nárnia; quando Edmundo também faz a travessia pelo guarda-roupa, ela o encontra vagando sozinho pelos bosques gelados e facilmente obtém dele toda a informação de que precisa, engambelando-o com promessas de adotá-lo e fazer dele um príncipe, se trouxer até ela seu irmão e irmãs. Por serem justamente quatro, dois meninos e duas meninas, Jadis vê neles o potencial para cumprir a profecia, o que ela quer impedir a todo custo. Isso já é suficiente para dar uma ideia do enredo, e não vou continuar para não dar spoilers, mas não dá para deixar de comentar como Aslam se oferece como vítima em sacrifício em troca da vida de Edmundo, que deveria morrer por ter traído os irmãos, e, mesmo com todo o seu poder, deixa-se matar sem opor resistência, para depois ressuscitar mais poderoso e glorioso que antes – coisa com a qual Jadis não contava, porque, como Aslam explica, ela pode conhecer a Magia Profunda, mas ignora que existe outra magia ainda mais profunda, que vem de antes da aurora dos tempos.

Para completar, quando Edmundo retorna ao convívio dos irmãos, o Leão diz a estes que não devem recriminá-lo e que "o que passou, passou". Subentende-se que Edmundo já foi suficientemente castigado pela própria consciência, arrependeu-se e recebeu o perdão – isso é cristianismo puro. Deve-se notar que, ao ser resgatado das garras de Jadis e trazido até o acampamento onde estão Aslam, seu exército e também Pedro, Susana e Lúcia, Edmundo não é imediatamente conduzido para se juntar aos irmãos; antes disso, ele e Aslam têm uma conversa a sós, na qual, como o narrador sublinha bem, somente os dois sabem o que foi dito, e mais ninguém – uma clara alusão ao sacramento da confissão, muito prezado pelos católicos, mas alvo de controvérsia entre os anglicanos. Parece que, nesse ponto, Lewis se inclinava ao catolicismo.


A história seguinte é O Cavalo e seu Menino (1954), que tem lugar durante o reinado de Pedro como Grande Rei em Nárnia (com os irmãos como corregentes), mas começa em outro reino, Calormânia, onde o garoto Shasta vive com um pescador que o adotou e sonha em conhecer as terras do norte – quer dizer, Nárnia –, sobre as quais seu pai adotivo e os vizinhos evitam até mesmo falar. A sorte de Shasta tem uma reviravolta quando um tarcaã (parece ser um título nobiliárquico calormano; gostaria de saber como era isso no original…) se hospeda na cabana de seu pai e propõe comprá-lo como escravo, negociação essa que o pescador está disposto a aceitar, sendo o valor da transação a única dúvida. Shasta descobre que o cavalo do tarcaã nasceu em Nárnia e, como muitos animais lá, é capaz de falar e tão inteligente quanto um ser humano, detalhes esses que o animal sempre escondeu cuidadosamente de seu amo, mas revela a verdade ao garoto, e os dois decidem fugir juntos rumo ao norte. Por não conseguir pronunciar o nome com o qual o cavalo se apresenta, Shasta passa a chamá-lo de Bri. Durante sua viagem, os dois eventualmente se encontram com Aravis, a filha de um tarcaã que está fugindo da casa do pai para evitar um casamento arranjado, e a montaria de Aravis é Huin (onomatopeia de um relincho!), uma égua também de origem narniana e falante, como Bri. Como todos têm o mesmo destino, seguem viagem juntos; será inevitável passarem por Tashbaan, a capital da Calormânia, onde Shasta vem a conhecer Edmundo e Susana, dois dos quatro reis de Nárnia. Eles estão ali para as tratativas de um possível casamento entre Susana e o príncipe Rabadash, filho do Tisroc (título dado ao monarca calormano), mas a jovem acaba decidindo que não quer se casar com ele, e a delegação narniana parte de surpresa, para evitar que ela e o irmão acabem sendo feitos reféns. O príncipe, inconformado, convence o pai a invadir Nárnia, e, de formas que vocês saberão quando lerem o livro, esse plano chega ao conhecimento de Shasta, Aravis e seus amigos equinos, que precisam então avisar os reis de Nárnia e ajudá-los a impedir essa invasão. Não sei se alguma coisa do tipo foi levantada enquanto C. S. Lewis era vivo, mas hoje em dia, na "era da lacração", O Cavalo e Seu Menino é alvo de críticas, acusado até mesmo de racismo, porque a Calormânia e seus habitantes, nitidamente inspirados nos povos árabes, ficam com o papel de "império do mal", que tenta atacar a livre e pacífica Nárnia, que faria as vezes da Europa. Como sabemos, o discurso que garante os aplausos nestes nossos tristes dias consiste em pintar a longa e geralmente turbulenta relação entre o Oriente Médio e a civilização ocidental como se tivesse sido feita exclusivamente de ataques covardes e gratuitos desta última contra o primeiro; afinal, esses povos brancos e, pior ainda, cristãos, têm que ser apontados sempre como os vilões da História, não é mesmo? Eu não me surpreenderia se aparecesse gente propondo uma "reescrita" das obras de Lewis, como já quiseram fazer com as de Mark Twain… Antes de passar ao próximo livro, duas notas de pé de página. Primeira: no capítulo 14, uma conversa entre Aslam, Bri, Huin e Aravis toca num ponto importante da fé e da teologia cristãs; esse trecho deve ser lido mantendo em mente que o Leão simboliza Cristo. Seria empolgante esmiuçar a coisa, mas não posso permitir que este texto atinja dimensões demasiado absurdas, e, além disso, tem que sobrar algo para o leitor descobrir quando for ler o livro!… Segunda: a maneira de falar dos personagens calormanos de alta estirpe poderá cansar alguns leitores pelo excesso de floreios retóricos e poéticos, mas, correndo o risco de parecer pedante, devo dizer que me diverti muito com essas passagens. Lewis era certamente um mestre das palavras, e creio que isso tenha sido uma alfinetada proposital no estilo desnecessariamente rebuscado adotado por certos escritores e/ou oradores (assumo minha parcela de culpa).

Em Príncipe Caspian (1951), os irmãos Pevensie estão completando um ano desde seu retorno ao "mundo real" depois das aventuras vividas em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, e estão no meio de sua viagem de volta à escola, ao fim das férias, quando são novamente chamados a Nárnia, onde chegam de um jeito diferente da primeira vez – pois, segundo o ensinamento de Aslam, "nada acontece duas vezes da mesma maneira". Ao chegarem lá, descobrem que 13 séculos se passaram desde os tempos de seu reinado, e que Nárnia foi invadida pelos homens de Telmar, que a conquistaram de forma violenta e quase exterminaram os narnianos originais. Há alguns anos, o rei Caspian IX morreu, deixando um filho de mesmo nome, ainda pequeno, que, desde então, está sob a tutela de seu tio Miraz; este deveria atuar como regente até que o jovem Caspian chegasse à maioridade, mas acaba por fazer-se ele próprio rei. Caspian leva a vida normal de um príncipe herdeiro, mas tem uma particularidade: é fascinado pelas histórias da antiga Nárnia, que lhe são contadas primeiro por uma velha ama e mais tarde pelo Dr. Cornelius, seu preceptor – mas esse interesse não é bem visto pelo tio. Tudo a respeito dos narnianos é considerado mero conto de fadas nessa época, como se nunca tivesse existido de fato, e tanto Miraz quanto as demais figuras importantes da sociedade telmarina prefeririam que tudo isso fosse completamente esquecido.

Quando a esposa de Miraz tem um filho, o usurpador decide dar um fim em Caspian, que é salvo por Cornelius e parte em busca dos descendentes que restaram dos antigos narnianos, pedindo sua ajuda para conquistar o trono que por direito lhe pertence e prometendo que, se ele se tornar rei, iniciará uma nova era de paz entre telmarinos e narnianos, e reinará com justiça sobre ambos os povos. Pedro, Edmundo, Lúcia e Susana são figuras legendárias nesses tempos; como o próprio narrador compara, o retorno deles é para Nárnia o que seria para a Inglaterra a volta do rei Artur, como profetizado na lenda, e, ao que se espera, a presença deles fortalecerá a fé dos seguidores de Caspian durante a guerra que se prepara para estourar. Novamente, a narrativa de fantasia e aventura funciona por aquilo que é, e funcionaria mesmo que não houvesse qualquer mensagem em particular a ser passada – mas a mensagem existe, e desta vez o momento-chave está no capítulo 10, no qual um diálogo entre Lúcia e Aslam aborda a necessidade de acreditar mesmo que ninguém mais acredite, e de ter a coragem de seguir o caminho certo ainda que para isso seja preciso abandonar a segurança de um grupo e ir sozinho – coisas que sempre foram necessárias ao cristão, desde os primórdios, e hoje, talvez, mais do que nunca. Provavelmente vocês viram o filme, eu também vi e gostei, mas não se contentem com ele: leiam o livro. Há detalhes importantes que foram deixados de fora, importantes especialmente para quem está procurando interpretar o simbolismo cristão na obra de Lewis. Por outro lado, o roteiro do filme fez alguns acréscimos interessantes à história, coisas que não estão no livro, mas que são muito plausíveis e, poderíamos dizer, até mesmo adequadas, como a rivalidade que surge entre Pedro e Caspian, o antigo e o atual rei. E a parte sobre as árvores da floresta marchando para a batalha, essa eu poderia jurar que foi inspirada numa conversa entre Lewis e Tolkien!…


Em A Viagem do Peregrino da Alvorada, mais um ano se passou no "mundo real", a guerra já acabou (eu sei, no filme não) e Edmundo e Lúcia, os dois Pevensie mais jovens, estão hospedados, muito a contragosto, com seus tios Arnold e Alberta, que têm um filho chamado Eustáquio, o protótipo daquele primo insuportável que todo mundo tem ou já teve – a menos que você seja o primo insuportável. Não é por acaso que, dos quatro protagonistas anteriores, apenas Lúcia e Edmundo estão em cena: Aslam havia predito (ou decidido, como parece mais provável) que só os dois retornariam a Nárnia depois dos eventos do livro anterior, pois Pedro e Susana já haviam aprendido tudo o que podiam lá. E quando os dois fazem pela terceira vez a passagem entre os mundos, Eustáquio acaba indo junto. O trio se vê no meio do mar e é recolhido pela tripulação do Peregrino da Alvorada, um navio da novíssima armada de Nárnia, que o agora rei Caspian fez construir após ter conseguido, ao menos em parte, domar o pavor instintivo que seus patrícios telmarinos tinham do mar. E o rei em pessoa está a bordo; ele explica a Lúcia e Edmundo que o objetivo de sua viagem é procurar por sete nobres telmarinos que eram amigos de seu pai, o rei Caspian IX, e por isso foram exilados pelo usurpador Miraz, para impedir que apoiassem o jovem príncipe quando ele reivindicasse seu direito ao trono. A jornada vai levá-los a mares raramente navegados antes e a descobertas fantásticas; é uma narrativa de "viagens maravilhosas" que segue uma tradição antiga na literatura popular do ocidente – e não só do ocidente: alguém lembra das aventuras do marinheiro árabe Sinbad? As origens desse tipo de história remontam, pelo menos, à Odisseia de Homero (que Edmundo chega a citar) e às viagens de Jasão e os Argonautas, e digo pelo menos porque, pelo pouco que sei sobre a Epopeia de Gilgamesh e outros textos legendários sumérios e assírio-babilônicos, suas raízes podem ser ainda mais profundas. Como também é comum em narrativas de viagens por terras desconhecidas, A Viagem do Peregrino da Alvorada acaba sendo, ao mesmo tempo, uma jornada de autodescoberta para diversos personagens; os exemplos mais marcantes são Eustáquio, que vai aos poucos mudando para algo melhor que aquele garoto de maus instintos e desprovido de imaginação, e Caspian, ainda aprendendo a ser um bom rei e a controlar seu temperamento impulsivo e por vezes autoritário. Mais sutilmente, também Lúcia aprende e "cresce"; já Edmundo parece ter aprendido sua lição em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, e não faz novas grandes descobertas interiores, embora vá ganhando experiência e demonstrando mais maturidade. Além de tudo isso, Lewis não resistiu a fazer uma crítica bem-humorada a uns e outros por meio dos Tontópodes, criaturas simpáticas, embora um tanto ridículas (engraçadas, vá), que os aventureiros encontram numa das ilhas onde aportam: eles sempre concordam enfática e energicamente com quem estiver falando no momento, e, se logo em seguida outra pessoa tomar a palavra e disser exatamente o contrário do que disse a primeira, imediatamente lhe dão razão com o mesmo entusiasmo… Caramba, espero que o recado tenha sido entendido pelo menos por alguns. Ao final, Lúcia e Edmundo descobrem, entristecidos mas conformados, que essa aventura, na qual não chegaram a pôr os pés em Nárnia propriamente dita, marcou sua última visita àquele mundo. Tal como já acontecera a Pedro e Susana, daí em diante terão que encontrar seus caminhos em seu próprio mundo, onde Aslam também está, mas, como ele mesmo informa, é conhecido por outro nome.

Como, portanto, os dois últimos dos irmãos Pevensie não mais voltarão a Nárnia, é seu primo Eustáquio quem sobra para servir de elo com a história do sexto livro, A Cadeira de Prata. Durante o ano letivo que se segue às férias em que teve sua primeira experiência em Nárnia, Eustáquio está bastante mudado, e sua colega de escola, Jill Pole, que já o conhecia antes, não deixa de notar o fato. Os dois estudam num colégio experimental, e Lewis, experiente professor, não fazia questão alguma de esconder o que pensava daquela pedagogia moderna:

Os diretores achavam que as crianças podiam fazer o que desejassem. Infelizmente, porém, havia uns dez ou quinze da turma que só queriam atormentar os outros. Lá acontecia de tudo: coisas horríveis que, numa escola comum, seriam descobertas e punidas. Mas ali, não. Mesmo que se descobrisse quem as havia feito, o responsável não era expulso nem castigado. O diretor achava que se tratava de "interessantes casos psicológicos" e passava horas conversando com tais alunos. E estes, se encontrassem uma resposta adequada para dizer ao diretor, acabavam se tornando privilegiados.

E mais:

Devido aos curiosos métodos de ensino do Colégio Experimental, lá não se aprendia muito Matemática ou Latim, mas todos sabiam desaparecer rapidamente e sem ruído, quando eles [os bullies, diríamos hoje] estavam atrás de alguém.

Jill, então, acompanha Eustáquio quando ele é novamente transportado para o mundo onde fica Nárnia – e, para manter a tradição da saga, a viagem acontece de uma maneira nova, diferente de todas as passagens anteriores. Jill, de certa forma, recebe um privilégio, pois encontra-se com Aslam praticamente assim que chega a Nárnia, o que não acontecera com nenhum outro protagonista até então. O Leão explica-lhe que ela e Eustáquio estão ali porque têm uma missão a cumprir: o único filho do velho rei de Nárnia foi raptado, e eles devem encontrá-lo e trazê-lo de volta, já que a morte de um rei sem herdeiro pode facilmente lançar o reino no caos. Quando as duas crianças chegam à corte em Cair Paravel, Eustáquio sofre um choque ao ter seu primeiro contato com o fenômeno da marcha diferente do tempo no nosso mundo e em Nárnia: o rei não é outro senão Caspian X, que ele conheceu como um rapaz em sua visita anterior, e agora é um homem idoso, pois naquele mundo 70 anos se passaram, enquanto na Terra transcorriam apenas alguns meses.

Além de longo, o reinado de Caspian foi próspero e marcado pela justiça, mas também por uma tragédia: seu filho, o príncipe Rilian, foi raptado, faz vários anos, aparentemente por uma feiticeira por quem ele se havia apaixonado, que tinha o poder de metamorfosear-se numa serpente (acredito que qualquer semelhança com outras histórias envolvendo criaturas em forma de serpente que seduzem ou enganam os incautos não seja mera coincidência). Muitos dos mais bravos cavaleiros e guerreiros de Nárnia – humanos ou não – partiram em busca do príncipe desde então; nenhum obteve sucesso, e a maioria não voltou, então Caspian, embora arrasado pela perda, proibiu novas buscas, para impedir que mais valorosos narnianos perdessem a vida. Agora, porém, o velho rei, sentindo a proximidade da morte, decide partir, ele próprio, acompanhado de um grupo de súditos fiéis, para uma última e desesperada tentativa de encontrar o filho. A missão que Aslam designa a Eustáquio e Jill é a de fazerem sua própria busca a fim de localizar o príncipe e trazê-lo de volta. O Leão dá algumas indicações, e as duas crianças partem, tendo como guia um paulama; esses seres são semelhantes aos humanos de maneira geral, mas com pernas e braços muito mais longos em relação ao corpo, parecendo adaptados à vida nos pântanos – e, muito de acordo com isso, o nome desse paulama em particular é Brejeiro. O guia é o que Eustáquio chama de pé-frio, pois quase todas as suas falas consistem em previsões pessimistas, mas, ao mesmo tempo, mostra-se um companheiro corajoso e leal, que se mantém fiel mesmo ante as eventuais malcriações dos garotos, que por vezes se irritam com suas intermináveis lamúrias.



Não há dúvida de que a Busca é uma das situações mais recorrentes em aventuras heroicas, desde a lenda de Jasão e os Argonautas, que citei não faz muito, até A História Sem Fim, e aqui temos mais um exemplo. Eustáquio, Jill e Brejeiro nos conduzem numa viagem que descortina uma série de paisagens desse mundo fantástico, e que, é claro, não está isenta de perigos e sofrimentos – enfim, podemos, se quisermos, ver essa aventura como uma alegoria para a vida humana… Mas será que o "se quisermos" não faz com que deixe de ser uma alegoria, entrando no campo da aplicabilidade? Eis de novo o choque entre as visões de Lewis e de Tolkien, que nunca está muito longe enquanto lemos as Crônicas de Nárnia.

Bem, se a história for uma alegoria da vida humana, então torna-se claro o significado  de certo detalhe. Ao falar com Jill, logo no começo, Aslam descreve à menina uma série de sinais que ela e seus companheiros encontrarão ao longo do caminho e a orienta sobre como devem agir diante de cada sinal, faz com que ela memorize e repita tudo para ele, porém, mais tarde, envolvida com tantas outras coisas, ela se esquece da maior parte do que o Leão lhe disse; um sinal após outro é perdido e as coisas não saem como deveriam. É fácil ver aí mais um paralelo com o cristianismo: uma pessoa pode amar Cristo e desejar sinceramente agir conforme Seus ensinamentos, mas fazer isso no dia a dia ao longo da vida é difícil, e ela inevitavelmente irá falhar muitas vezes. Faz parte. Também quero registrar que no capítulo 12 há um diálogo que resulta ser uma afiada crítica a certos segmentos religiosos e principalmente filosóficos que tentam fazer com que as pessoas se fechem dentro de uma bolha, esquecendo o que existe lá fora, e ainda se julguem muito inteligentes por fazê-lo. É tentador falar mais sobre esse capítulo, mas não poderia fazê-lo sem dar um sério spoiler.

As Crônicas terminam com A Última Batalha, e esse livro começa numa pegada que lembra as fábulas de Esopo. Numa floresta de Nárnia vivem um velho macaco, Manhoso, e seu amigo, o jumento Confuso, que pertencem à classe dos animais falantes narnianos. Como assinalei ao tratar de O Cavalo e Seu Menino, esses animais não só falam como também possuem inteligência equivalente à de um ser humano – só que, não adianta negar, os seres humanos não têm todos a mesma inteligência, e entre eles não é diferente: Confuso faz jus a seu nome e ao estereótipo (falso, por falar nisso) que pesa sobre toda a sua espécie. Já Manhoso é esperto e matreiro, conseguindo sempre engambelar o amigo para que faça todo o trabalho pesado enquanto ele colhe os benefícios. Um belo dia, os dois encontram por acaso uma pele de leão, e Manhoso decide fazer com que Confuso a vista; como o narrador observa, os habitantes daquela região de Nárnia nunca viram nem sequer um leão comum, de modo que muitos se deixam enganar quando o macaco começa a apresentar o jumento disfarçado como sendo o próprio Aslam, e se autonomeia seu porta-voz. É claro que o pobre asno nem mesmo entende direito o que está acontecendo, limitando-se a fazer o que Manhoso lhe diz. Aproveitando-se de sua nova posição de poder, o macaco passa a dar ordens "em nome de Aslam" para conseguir que os outros animais façam tudo o que ele quer – mais uma alegoria fácil de identificar, na qual Manhoso é o falso profeta, representando tanto líderes religiosos quanto reis e potentados em geral que, ao longo da História, arrogaram-se autoridade divina.

A farsa começa como um problema apenas local, mas ganha dimensões maiores quando Manhoso, também à semelhança de muitos desses líderes, vai longe demais com sua ganância e passa a negociar com os calormanos, obrigando os animais a trabalhar para eles e até vendendo muitos para os inimigos, tudo em benefício do "profeta" (que, é claro, assegura que o dinheiro será usado para o bem da comunidade) e supostamente por ordem de Aslam. Quando as notícias chegam aos ouvidos do jovem rei Tirian (bisneto do bisneto de Rilian, filho de Caspian, pois, novamente, séculos se passaram), ele decide investigar pessoalmente, acompanhado apenas por seu melhor amigo, o unicórnio Precioso, e acaba capturado pelos calormanos. Quando, em desespero, o rei clama pelo socorro do verdadeiro Aslam, este lhe envia ajuda nas pessoas de Eustáquio e Jill, e os três, com o reforço de mais alguns aliados, encaram a missão de recolocar as coisas nos devidos lugares. A história aborda não apenas a questão do falso messianismo, mas também uma de suas mais graves consequências: quando o deus falso é desmascarado, muita gente acaba descrendo até mesmo do verdadeiro, como um grupo de anões que declaram que não existe Aslam nenhum e se põem a bradar "vivam os anões!", o que só pode simbolizar o ateísmo e a visão antropocêntrica moderna, para a qual o homem é a medida e a finalidade de tudo, e não existe nada acima dele. Por fim, a tentativa de Manhoso e do comandante calormano de fazer com que os narnianos acreditem que Aslam e o deus dos calormanos, Tash – uma divindade sanguinária, em cujos altares fazem-se sacrifícios humanos – são o mesmo deus, é um alerta contra aqueles que, em nome de uma suposta tolerância, trabalham para sabotar a fé dos cristãos tentando convencê-los de que o Deus em que acreditam é a mesma coisa que as divindades de outras religiões, e que, portanto, não faria sentido crer em dogmas que são exclusivamente cristãos.



Curiosidade da vez: Tirian, por especial graça de Aslam, tem a oportunidade de reunir-se com os Sete Amigos de Nárnia que habitam no mundo dos filhos de Adão e filhas de Eva, e que vêm a ser os protagonistas de todas as histórias narradas nas Crônicas. O leitor atento provavelmente fará a mesma coisa que eu fiz ao chegar a esse trecho: vai pausar a leitura e fazer um cálculo. Sete? Como assim? Digory, Polly, Pedro, Susana, Edmundo, Lúcia, Eustáquio e Jill: são oito! Só que tem um porém…

– Senhor – disse Tirian, após saudar a todos –, a não ser que eu tenha entendido mal as crônicas, deve haver mais alguém. Vossa Majestade não tem duas irmãs? Onde está a rainha Susana?
– Minha irmã Susana – respondeu Pedro, breve e gravemente – já não é mais amiga de Nárnia.
– É verdade – completou Eustáquio. – E toda vez que se tenta conversar com ela sobre Nárnia, ou fazer qualquer coisa que se refira a Nárnia, ela diz: "Mas que memória extraordinária vocês têm! Continuam no mundo da fantasia, pensando nessas brincadeiras tolas que a gente fazia quando era criança!"
– Essa Susana! – disse Jill. – Agora só pensa em lingeries, maquilagens e compromissos sociais. Aliás, ela sempre foi louquinha para ser gente grande.
– Gente grande, pois sim! – disse Lady Polly. – Gostaria que ela crescesse de verdade. Quando estava na escola, passava o tempo todo desejando ter a idade que tem agora, e agora vai passar o resto da vida tentando ficar nessa idade. Tudo em que ela pensa é correr para atingir a idade mais boba da vida o mais depressa possível e depois parar aí o máximo que puder.

Muita gente vê machismo aí, e no meio dessa "muita gente" estão nomes de peso como J. K. Rowling, que tem uma dívida visível com Lewis (é só comparar o modo como os centauros são descritos na obra de cada um, e esse é apenas um exemplo dentre vários possíveis), mas já chegou a criticar especificamente esse trecho. À primeira vista, as alegações levantadas por ela e outros parecem fazer sentido: Susana é retratada como a pessoa que escolheu a pior parte de duas maneiras diferentes (em outro texto eu poderia dizer que ela escolheu "o pior de dois mundos", mas aqui isso causaria confusão), pois, em nome de sua vontade de se afirmar como uma mulher adulta, abandonou a imaginação, mas ao mesmo tempo, não alcançou a verdadeira maturidade e vai provavelmente passar a vida, como diz Polly, ocupando-se de frivolidades próprias de moças jovens-adultas. Porém, a meu ver, Lewis poderia igualmente ter excluído Pedro do rol dos Amigos de Nárnia e colocado Susana para explicar a Tirian que seu irmão mais velho agora só pensa em trabalho e carreira e diz que tudo sobre Nárnia é "fantasia" ou "brincadeira tola"; alguém tinha que ser exemplo da tolice que há em enterrar a imaginação em prol de um suposto crescimento, e calhou de ser Susana. A patrulha politicamente correta vai objetar: e por que é que trabalho e carreira são "coisas de homem", enquanto maquiagem e compromissos sociais são "coisas de mulher"? Sei que é inútil pedir a esse pessoal que leve em consideração a perspectiva histórica (um conceito que eles parecem incapazes de compreender), mas, em todo caso, a resposta é simples: as Crônicas de Nárnia foram escritas durante a década de 50, quando relativamente poucas mulheres tinham carreiras profissionais, e a maioria das pessoas via como normal que a empreitada mais importante da vida delas consistisse em aproveitar o breve período de beleza na juventude para conseguir o melhor casamento que pudessem. Sessenta e poucos anos depois, a sociedade vê isso tudo de forma diferente, mas Lewis não tinha como prever isso.

Esta edição termina com Três Maneiras de Escrever para Crianças, um brevíssimo e agradável ensaio que, ao contrário do que poderia parecer, não se propõe a dar diretrizes sobre como escrever histórias infantis – poderíamos dizer que é muito mais descritivo que normativo. Não vou resumir tudo aqui, este texto já está longo demais e, além disso, vale a pena ler o próprio ensaio; será suficiente dizer que, nele, Lewis tece interessantes considerações sobre o que define a literatura infantil como tal, sublinhando que "literatura infantil" e "literatura para adultos" não são compartimentos absolutamente estanques. Sua opinião, com a qual eu concordo inteiramente, é que uma das marcas de uma boa história para crianças é a capacidade de interessar também ao leitor adulto; faço, porém, uma ressalva: uma boa história infantil é a que consegue interessar a certo tipo de leitor adulto. As próprias Crônicas de Nárnia são um bom exemplo, pois, mesmo classificadas como literatura infanto-juvenil, têm multidões de fãs de todas as idades. Nenhum leitor verdadeiramente maduro deixará de ler o que o agrada e atrai por receio de que este ou aquele o julguem "muito criança" por causa disso; Lewis, afiado e certeiro, resume o caso parafraseando São Paulo: "Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser infantil e o desejo de ser muito adulto". Desta vez vou juntar-me aos Tontópodes e afirmar enfaticamente que "ninguém jamais disse palavras mais sábias!"

As Crônicas de Nárnia, sem dúvida, integram a seleta lista das obras de fantasia mais importantes do século XX, sendo, ao lado de O Senhor dos Anéis e mais algumas, uma das mais fortes e recorrentes influências dos autores do gênero que estão em atividade hoje, ou estiveram durante as últimas décadas. Como Lewis também observa em seu ensaio, há histórias de fantasia que são mais adequadas ao público infantil, e outras, a leitores mais maduros, mas não é raro que o público de ambos os tipos acabe sendo o mesmo; ele poderia estar falando exatamente sobre sua própria obra e a de seu amigo. Há leitores de todo o mundo que leram as Crônicas na infância e, depois de um pouco mais velhos, apaixonaram-se pela beleza intrincada do mundo de Tolkien, mas há também muitos outros que só chegaram a Nárnia depois de já conhecerem a Terra-média (meu caso) e nem por isso a amaram menos. As Crônicas são mais simples e despretensiosas que o SdA, mas não menos inspiradoras, empolgantes, comoventes ou cheias de significado. Todo fã de fantasia deveria conhecê-las.

quarta-feira, abril 29, 2020

Terceira Humanidade

Em pleno continente antártico, sob uma camada permanente de milhares de metros de gelo, exploradores encontram uma imensa caverna dentro da qual há um lago congelado… E no lago, dois esqueletos humanos e um terceiro espécime inteiro, perfeitamente conservado no gelo, com idade estimada em cerca de oito mil anos. Uma descoberta notável, é claro, pois, por tudo o que se sabia até aí, a Antártida nunca teve populações humanas, estando isolada e coberta de gelo desde bem antes que nossos ancestrais deixassem a África, berço de nossa espécie. A nova descoberta possivelmente exigirá que a trajetória já rastreada das migrações humanas ao longo da Pré-história seja revista. Mas isso tudo é pinto se comparado a um certo detalhe do achado: esses humanos antigos tinham em torno de 17 metros de altura.

A equipe parece ser composta de apenas três pessoas (!): o paleontólogo Charles Wells (francês apesar do sobrenome, que claramente homenageia H. G. Wells), sua assistente e uma repórter e cinegrafista, cuja presença foi exigência do canal de TV que patrocinou a expedição. Os três parecem ter montado sozinhos a perfuratriz que abriu no gelo um túnel de quilômetros de comprimento, e sozinhos desceram para explorar o que houvesse lá embaixo; se eu estiver enganado, corrijam-me, mas a ideia de três pessoas – nenhuma delas um engenheiro – fazerem tudo isso sozinhas me parece bem ingênua. Ainda na mesma linha de abordagem simplista, a assistente de Wells, com a naturalidade de quem esquenta uma lasanha Sadia no microondas, saca um maçarico e descongela ali mesmo parte do corpo do gigante a fim de recolher amostras de seus tecidos!… Se algo assim fosse mesmo descoberto, a coisa não seria feita desse jeito, no total improviso: o espécime provavelmente seria removido ainda congelado e levado para um local onde pudesse ser analisado por cientistas de ponta de diferentes áreas, tendo à disposição a última palavra em equipamentos. Mas o autor Bernard Werber não parece muito preocupado em retratar fielmente os procedimentos científicos.

Wells exulta, imaginando o furor que sua descoberta irá causar nos círculos científicos. Simultaneamente, em Paris, seu filho, o biólogo David Wells, apresenta um projeto diante de uma comissão julgadora na Sorbonne, tentando obter uma bolsa que lhe permita levar adiante sua pesquisa: ele pretende provar que o caminho da evolução leva as espécies a diminuírem progressivamente de tamanho. Para ele, os pigmeus da África central, há muito considerados pela antropologia como um dos mais primitivos grupos humanos ainda existentes em nossos dias, representam, na verdade, um passo à frente na evolução em relação ao resto da humanidade, sendo menores e apresentando uma extraordinária resistência às doenças tropicais – resistência essa que, a meu ver, não é preciso ser cientista para compreender que deve resultar do mero fato de seus ancestrais terem vivido expostos a essas doenças durante centenas de gerações, nada tendo a ver com seu tamanho. Mas a explanação de David não para por aí:

Tenho um título de doutorado pela faculdade de biologia de Paris, e sou especialista no estudo da influência do meio na fisiologia humana e animal. Meu projeto gira em torno da redução do tamanho das espécies. Acredito que tudo se miniaturiza: os dinossauros se transformaram em lagartos, e os mamutes, em elefantes. Antigamente, as libélulas tinham até um metro e meio de envergadura, e agora medem 15 centímetros. Mais recentemente, os lobos se transformaram em yorkshires, e os tigres, em gatos siameses. (…) E também poderíamos citar os vegetais (…). Em outros tempos, certas sequoias chegavam a cem metros de altura. Mas agora são arbustos de dez metros, em média. Recentemente, descobriu-se que as baratas diminuíram para circular nos encanamentos das casas modernas. E, finalmente, no mundo dos objetos: os carros tornaram-se menores para se adaptar ao aperto e aos engarrafamentos das cidades, os computadores tendem a se miniaturizar, até a superfície média dos apartamentos se restringe com a superpopulação das megalópoles.

Certo, Bernard Werber é jornalista por formação, e eu certamente não vou afirmar que só cientistas deveriam escrever ficção científica (mesmo que ter formação em ciências represente uma enorme vantagem para quem se dedica ao gênero), mas, mesmo assim, é difícil ler esse amontoado de bobagens, dito por um personagem que se diz doutor em biologia, e continuar levando o livro a sério. A redução – ou o aumento – do tamanho nas espécies vivas ao longo do tempo é, sem dúvida, uma resposta evolutiva às condições do ambiente – só que essas condições não são sempre as mesmas, e, ainda que fossem, é ingenuidade pensar que um mesmo problema só pode ser resolvido de uma maneira. Pode perfeitamente acontecer de duas espécies expostas às mesmas condições ambientais encontrarem caminhos evolutivos diferentes e até opostos: uma pode crescer, a outra diminuir, e, naquele momento da evolução, cada uma delas terá se adaptado da maneira que melhor lhe permitiu enfrentar essas condições e sobreviver. Dinossauros não se "transformaram em lagartos"; em primeiro lugar, os lagartos que conhecemos hoje pertencem a um ramo dos répteis bem distinto daquele que incluía os dinossauros – aliás, filogeneticamente falando, as aves estão mais próximas dos dinossauros que os lagartos modernos. Em segundo, como qualquer criança aficionada por dinossauros sabe, nem todos eles eram gigantescos: havia espécies que eram do tamanho de um canário, e talvez ainda menores. Tampouco "mamutes viraram elefantes": no tempo dos mamutes já existiam elefantes como os de hoje. Os dois animais são parentes, é diferente; além disso, não havia apenas uma espécie de mamute, mas várias, e, tirando uma média, seu tamanho era mais ou menos equivalente ao dos elefantes – algumas espécies eram um pouco maiores, outras até menores. O mamute-anão da Sardenha, quando adulto, tinha porte semelhante ao de um boi, e nem por isso era menos mamute que o mamute-imperador da América do Norte, que ultrapassava quatro metros de altura e dez toneladas. David também "esquece" de mencionar que um dos ancestrais comuns de mamutes e elefantes, o moeritherium, que viveu há cerca de 35 milhões de anos, era do tamanho de um porco… Libélulas gigantes existiram de fato; insetos enormes eram comuns durante o período Carbonífero, há uns 300 milhões de anos, mas elas mediam em torno de 70 centímetros, não um metro e meio. Quanto a tigres terem virado gatos siameses, isso chega a ser ofensivo: o gato doméstico derivou de uma ou mais espécies de gatos selvagens do norte da África, e só tem um parentesco distante com os grandes felinos como tigres e leões. Finalmente, a transformação de lobos em centenas de diferentes raças de cães, algumas delas minúsculas, foi resultado de cruzamentos seletivos promovidos pelo homem, não de evolução natural. Para não dizer que nada nesse discurso faz sentido, é plausível que as baratas tenham mesmo diminuído de tamanho para melhor se adaptarem a viver nas cidades humanas, mas isso não significa que, se as condições do ambiente fossem outras, elas não pudessem ter, ao invés, aumentado. Não vou nem comentar a parte que fala de automóveis, computadores e apartamentos como se fossem seres vivos…


(Isso foi a título de alerta, além de ser algo que eu não conseguiria calar, e deve dar-lhes uma ideia da reserva com que devem encarar o restante de Terceira Humanidade. Vamos em frente…)

Se o sobrenome Wells homenageia o escritor britânico a quem a ficção científica tanto deve, a escolha do primeiro nome do personagem tampouco foi gratuita: David é Davi, aludindo ao pastor adolescente que, de acordo com o Primeiro Livro de Samuel, na Bíblia, deu aos israelitas a vitória na guerra contra os filisteus, ao abater com um tiro de funda o maior guerreiro destes últimos, Golias, um gigante de quase três metros de altura. Mais tarde, Davi se tornaria rei de Israel, por sinal um dos mais importantes. O nome cai bem para o jovem cientista de baixa estatura que está tentando provar que "gigantes" não estão com nada e que o futuro pertence aos pequenos – e que, ao tomar conhecimento do que seu pai encontrou na Antártida, verá aí um forte elemento corroborador de sua teoria, já que os gigantes de 17 metros do passado distante se extinguiram, enquanto nós, que, para eles, deveríamos parecer pouco mais que camundongos, continuamos por aqui.

Outra candidata à bolsa de pesquisa é Aurore Kammerer, médica endocrinologista cujo projeto versa sobre as supostas descendentes das legendárias amazonas citadas na mitologia grega, que ainda hoje viveriam na região próxima à fronteira da Turquia com o Irã, e que, graças ao uso terapêutico que fazem do mel e outros produtos das abelhas, gozariam de saúde muito superior à média, raramente apresentando qualquer doença. Para Aurore, os hormônios femininos das abelhas, presentes em profusão na "geleia real" que alimenta a rainha da colmeia, seriam o segredo – e uma progressiva "feminização" seria o caminho para criar uma humanidade mais sadia e próspera. Dentre 69 candidatos, David, Aurore e mais um são os únicos a terem seus projetos selecionados, e partem em suas respectivas expedições – ele para as selvas do Congo, ela para as estepes da Turquia. Sozinhos. Bem, a essa altura já acho que Werber não estava mesmo tentando soar crível.

A característica mais curiosa de Terceira Humanidade foi inspirada pela "Hipótese Gaia", proposta nos anos 70 pelo médico e ambientalista britânico James E. Lovelock e muito popular desde então. A propósito, o nome foi sugestão do escritor William Golding (ele mesmo, o autor de O Senhor das Moscas), amigo de Lovelock. Gaia, na mitologia grega, é a divindade primordial que personifica a Terra; seu nome em grego, Γαία, às vezes é transliterado como Gea, que originou o radical geo, presente em muitas palavras que fazem referência à Terra: geografia, geologia, geofísica e assim por diante. Ela e outras divindades primordiais teriam sido geradas pelo Caos; Gaia, sozinha, gerou Urano (o Céu), que se tornaria seu consorte. Os dois foram os pais dos titãs, que, por sua vez, gerariam os deuses do Olimpo.

Essa hipótese, basicamente, considera que os elementos físicos da Terra (sua atmosfera, massa terrestre, oceanos etc.) e sua biosfera (quer dizer, o conjunto formado por todos os ecossistemas do nosso planeta e pela totalidade dos organismos vivos que os habitam) mantêm uma estreita e delicada interdependência, cujo equilíbrio seria essencial para manter as condições necessárias à vida. A Terra, então, seria, de certo modo, um único e vasto ecossistema com a capacidade de se autorregular. Trata-se de uma hipótese séria e digna de atenção, mas que já foi alvo de muito sensacionalismo. Por vezes se diz, numa simplificação grosseira, que a Hipótese Gaia descreve a Terra como um grande ser vivo – que, como todo ser vivo, teria seu próprio "sistema imunológico", com a função de combater possíveis ameaças. Disso decorre que se nós, humanos, viéssemos a nos tornar um perigo para a saúde do planeta, "Gaia" encontraria um jeito de nos eliminar. Werber aproveita a Hipótese Gaia da maneira mais fantasiosa, intercalando capítulos (impressos em itálico) que seriam um monólogo da suposta consciência planetária, contando (resumidamente, é claro) sua história desde seu nascimento, há mais de quatro bilhões de anos, passando pelo surgimento e evolução da vida e pelo sofrimento trazido por repetidos impactos de asteroides, três deles especialmente grandes e que causaram estragos proporcionais a seu tamanho. O primeiro foi antes do surgimento da vida, já os outros dois causaram extinções em massa, sendo a última delas a que pôs fim ao reinado dos dinossauros, há cerca de 60 milhões de anos.

Gaia teria tido a ideia de selecionar, dentre as espécies animais que a habitavam, uma que tivesse o potencial para desenvolver inteligência e habilidade suficientes para criar uma tecnologia avançada e inventar uma maneira de protegê-la contra o perigo de novos impactos. Sua primeira aposta teriam sido os troodontes, uma linhagem de dinossauros que estava em ascensão quando o último grande asteroide atingiu o planeta. Eram bípedes carnívoros de tamanho semelhante ao nosso (a única espécie descrita até o momento, denominada Troodon formosus, tinha cerca de dois metros de comprimento do focinho à cauda e peso aproximado de 50 quilos), dotados de cérebros excepcionalmente grandes, estando, com toda a probabilidade, entre os animais mais inteligentes da época. Werber dá uma "viajada" ao assegurar que eles até já começavam a utilizar ferramentas rudimentares, coisa que dificilmente poderá algum dia ser provada (ou refutada), mas quem pode garantir que, se tivessem tido a oportunidade, esses répteis não teriam se tornado mais e mais inteligentes e habilidosos, até o ponto de construírem uma civilização? Um artigo que li há muitos anos na Isaac Asimov Magazine dizia que todos aqueles répteis inteligentes dos quais a ficção científica tanto gosta eram biologicamente impossíveis, porque inteligência (no sentido de autoconsciência, raciocínio abstrato etc., quer dizer, uma inteligência de nível comparável ao nosso) exige um cérebro grande e complexo, e os organismos reptilianos, por serem pecilotérmicos (o popular "sangue frio"), não teriam um metabolismo capaz de fornecer energia suficiente para desenvolver um cérebro assim e mantê-lo funcionando – só que, de lá para cá, a ciência descobriu muito sobre os dinossauros, inclusive o fato de que muitos deles, diferentemente dos outros répteis e à semelhança de nós, mamíferos, eram homeotérmicos ("sangue quente"). Alguns paleontólogos teorizam que os troodontes talvez tivessem penas – sabe-se que várias espécies de bípedes carnívoros as tinham; são um recurso eficaz para regular a temperatura corporal, e talvez tenham até mesmo permitido a esses dinossauros colonizar regiões de clima relativamente frio, que seriam inabitáveis para répteis comuns. Em teoria, portanto, nada impediria que uma espécie descendente deles se tornasse inteligente. Não é preciso dizer que, se essa civilização "troodôntica" tivesse se tornado realidade, nós, hominídeos, não teríamos tido o espaço que tivemos para evoluir, e é muito provável que não chegássemos ao nosso estágio atual. É tudo um grande "e se", mas, mesmo assim, as possibilidades são fascinantes e assustadoras.

Concretamente falando, a esperança que Gaia depositava nos troodontes foi baldada, pois aquele inesperado terceiro asteroide caiu e os varreu da existência, junto com cerca de 90 por cento das outras espécies animais de então, muito antes que eles chegassem sequer ao que chamaríamos de Idade da Pedra Lascada. A lista de candidatos que ela cogitou ao longo das próximas dezenas de milhões de anos variou de polvos a porcos, passando por golfinhos, formigas e outros, mas todos apresentavam alguma deficiência que os desclassificava. No caso dos golfinhos, a título de exemplo, era o fato de que, por mais inteligentes que eles fossem, sua conformação física os impossibilitava de criar ou utilizar ferramentas, edificações etc., de modo que nunca chegariam a ter uma civilização no verdadeiro sentido do termo (nisso Werber está correto). Polvos e formigas, é claro, são outra "viagem", ainda que ambos tenham, sob algum aspecto, uma inteligência notável. Por fim, essa Terra autoconsciente e capaz de deliberação voltou sua atenção para os primatas, que tinham uma característica que ela muito admirava: mãos dotadas de dedos preênseis, capazes de movimentos muito precisos. Infelizmente, segundo ela, ainda que os primatas tivessem essa ferramenta fenomenal, faltava-lhes capacidade intelectual que os habilitasse a tirar dela o máximo proveito. Por outro lado, havia o porco, o "animal terrestre mais inteligente" (George Orwell deve ter dado uma risadinha lá no Além), mas que, com cascos no lugar de dedos, dificilmente chegaria muito longe no caminho civilizatório, pelo mesmo motivo que o golfinho. Eis a genial solução encontrada:

Ocorreu-me inicialmente a ideia de um projeto original: levar um primata a fazer amor com um… porco. Certo dia, em consequência de um terremoto, um primata viu-se preso num fosso com uma fêmea facóquera (ancestral do porco). Os dois se estranharam, lutaram e, não conseguindo se matar, acabaram fazendo amor. Nove meses depois, nascia um novo animal híbrido com a pele lisa e rosada como os porcos, a sensibilidade e a inteligência dos porcos, mas a postura sobre as duas patas traseiras e a capacidade de agarrar objetos e manipulá-los, como os primatas. Parecia mais ou menos um macaco sem pelos, com pele de porco. Eu conseguira juntar a boa mente com o bom físico, numa repartição de 60% de genes suínos e 40% de genes primatas. Foi como "inventei" o meu defensor: o ser humano.

Eu poderia ficar aqui dizendo o óbvio, ou seja, que, mesmo que essa bizarra relação sexual chegasse a acontecer, ela jamais produziria uma descendência, que a "pele lisa e rosada" é uma característica do porco doméstico (na verdade, nem isso: só de algumas raças), e não do facóquero, ou facócero (javali africano), nem do javali europeu que foi quem realmente deu origem aos nossos amigos fornecedores de bacon… Mas acho suficiente observar que, com essa, todas as bobagens anteriormente ditas por Werber perdem a relevância, já que agora ele escancarou o fato de que não tem nenhuma pretensão de ser levado a sério.

(Destaque para o "bem-humorado" detalhe de nos atribuir uma porcentagem maior de genes suínos que primatas, e para a "sutileza" de emendar, logo a seguir a esse capítulo, outro no qual David Wells aparece praticando um ato "semicanibal" ao devorar sanduíches de presunto.)

Se, portanto, Gaia "inventou" o homem para que ele concebesse e executasse uma maneira de proteger-se (e, por tabela, também a ela) contra o perigo do impacto de asteroides, então, apesar de alguns sucessos pontuais obtidos pelos gigantes nos tempos antigos, parece que o saldo geral do experimento até agora é contraproducente, pois a humanidade atual não só permanece basicamente tão vulnerável a esse risco quanto estavam os dinossauros, como ainda tem maltratado um bocado o planeta, extinguindo espécies às centenas, destruindo florestas e poluindo a atmosfera, o solo e as águas com resíduos tanto comuns quanto radioativos.

Absurdos científicos e fantasias new age à parte, a narrativa prossegue. David, Aurore e o terceiro selecionado retornam de suas expedições preliminares financiadas pela Sorbonne e voltam a se apresentar à mesma comissão julgadora para a fase seguinte da seleção, na qual somente um passará – e acaba não sendo nenhum dos dois. Entretanto, uma integrante da comissão procura ambos e oferece-lhes a possibilidade de tocarem seus projetos sob a chancela do Ministério da Defesa da França. Seu nome é Natália Ovitz, coronel Natália Ovitz (curiosamente, uma anã), e ela parece ter como uma de suas funções manter o presidente da república (um abobado cheirador de cocaína) a par dos avanços da ciência que possam afetar os interesses da nação. A coronel Ovitz acredita que o estudo de David sobre a redução de tamanho e o de Aurore sobre a feminização da humanidade – ambos tendo a ver também com resistência a doenças – podem ser valiosas ferramentas para impedir possíveis desastres causados pela guerra nuclear e biológica.

Apesar de todas as sandices, Terceira Humanidade é notavelmente eficiente ao aproveitar-se da experiência de David na África para retratar – e denunciar – a situação revoltante vivida pelos pigmeus, outrora um povo livre e orgulhoso. Algumas tribos, cada vez menos, ainda conseguem continuar vivendo como seus ancestrais, isoladas na selva, sustentando-se com a caça e a coleta, mas a própria selva não cessa de diminuir por causa da exploração desordenada da madeira e da demanda por terra para a agricultura e a pecuária, o que força cada vez mais pigmeus a se renderem à "vida civilizada", o que, no caso deles, em geral significa trabalhar para os bantos (etnia majoritária no Congo e outros países da África central), em condições que só podem ser descritas como escravidão. Isso tudo é muito real e muito bem descrito por Werber – pena que, estando no meio de tanta bobagem, o leitor pode ser levado a menosprezar essas informações. Já as amazonas de Aurore podem ser fictícias (se alguém souber do contrário, por favor me informe!), mas a situação delas, de minoria perseguida, reflete bem a de várias etnias e culturas que ainda tentam resistir à extinção, no Oriente Médio e em outros lugares.

Por meio de um ritual dos pigmeus, turbinado por alucinógenos, David faz uma "viagem" a uma suposta encarnação anterior, na qual ele era um cientista da raça gigante que habitava a Atlântida, e cujas pesquisas teriam tornado possível a "miniaturização" da humanidade, dando origem a versões reduzidas dos seres humanos da época – e, como vocês já adivinharam, as miniaturas somos nós. Isso fazia parte do plano de Gaia: as naves espaciais que os gigantes atlantes construíram com o objetivo de defender a Terra contra meteoros eram, naturalmente, em escala para seus tripulantes, e, por serem tão grandes, elas se desintegravam ao chegarem ao espaço (não entendi o como ou o por quê, mas tudo bem). Com uma tripulação de criaturas pequenas, seria possível fazer naves menores e mais estáveis. O que David vê nesse vislumbre de sua vida passada lhe traz insights que permitem a ele e seus companheiros repetir o processo para gerar a "terceira humanidade" que dá título ao livro: os primeiros humanos, cuja estatura média era de 17 metros, "inventaram" a segunda humanidade, que somos nós, com nossa média de um metro e setenta centímetros; o próximo passo seria um ser humano de 17 centímetros de altura, que cresceria dez vezes mais depressa, chegando à fase adulta em menos de dois anos, e que, por consequência, viveria dez vezes menos, mas que, com esse tamanho reduzido, estaria em condições de tornar-se o espião e sabotador perfeito. Esse é o objetivo: criar uma equipe de miniespiões que possam se infiltrar em lugares-chave do governo e das forças armadas do Irã, país que, naqueles dias, ameaça precipitar o planeta na Terceira Guerra Mundial. Maluco? Totalmente.

Ah, sim: já perto do final do livro, Werber decide criticar e satirizar a religião. Seu "embasamento" é do mesmo nível de quando ele fala sobre ciência:

(…) São Paulo, cujo nome era Saulo de Tarso, foi inicialmente um grande perseguidor dos amigos de Jesus. Chegou inclusive a participar do apedrejamento de Estêvão, um dos companheiros mais próximos de Cristo. O que não o impediu de inventar o cristianismo, embora nunca tivesse encontrado Jesus pessoalmente. Por sinal, o dito-cujo, na verdade chamado José, deixou claro em vida que não queria "de modo algum criar uma nova religião, mas apenas lembrar a lei dos pais aos que a haviam esquecido sob o jugo da ocupação romana".

Que São Paulo começou por perseguir os cristãos, é fato, mas notem como o autor evita chamá-los por esse nome para não entrar em conflito com o que diz depois, isto é, que o próprio Paulo teria inventado o cristianismo, bobagem repetida com certa regularidade pelos detratores deste último. De onde Werber terá tirado que o nome de Jesus era José, não me perguntem, mas a declaração que ele coloca na boca de Cristo, se não me engano, foi copiada quase palavra por palavra do romance Operação Cavalo de Troia, de J. J. Benítez. Dos Evangelhos é que não foi.

Talvez alguém que me leia esteja pensando: mas Marcos, por que é que você, um assumido apreciador de literatura de fantasia, que sempre protestou quando via algum crítico malhar uma obra sob a alegação de que ela era "inverossímil", e sempre considerou uma atitude burra achar que a ficção deve se limitar a copiar a realidade, agora resolveu criticar esse livro específico dizendo que ele é "maluco"? A resposta não é simples, e eu absolutamente não tenho certeza da minha capacidade de explicá-la de forma satisfatória, mas acho que devo tentar.

É o seguinte: se você está lendo fantasia, significa que você e o autor celebraram um acordo tácito, e a sua parte nesse acordo, como leitor, consiste em suspender a descrença enquanto estiver lendo: você sabe que elfos e dragões não existem no mundo real, mas, ao abrir as Crônicas de Dragonlance, "esquece" momentaneamente esse fato e passa a pensar conforme a lógica interna do mundo de Krynn, onde existem dragões, elfos e muito mais. Isso pode valer também, embora de forma menos explícita, para a ficção científica: nenhum ou quase nenhum físico sério acredita na existência do famigerado hiperespaço, mas, se um autor de ficção científica tem uma ideia empolgante para uma história, e, para que essa história funcione, é indispensável que haja uma maneira de viajar mais rápido que a luz (coisa, até onde se sabe, impossível pelas leis da física), apenas um leitor muito chato torceria o nariz só porque o autor se permitiu essa "licença poética". Porém, se outro autor está escrevendo uma história que ele quer que tenha uma cara de realidade, que se pareça com algo que poderia acontecer no mundo que conhecemos, a meu ver ele precisa ser bem mais sutil em sua liberdade autoral. Colocar na boca de um personagem cientista declarações que qualquer pessoa com conhecimentos básicos de ciência sabe que são absurdas, e tornar imprescindível dar a esses absurdos o status de fatos, fazendo disso elemento essencial para que a história se sustente, compromete logo de cara toda a estrutura da narrativa e torna muito difícil "mergulhar" nela. Para falar de modo mais concreto, não me importo que Werber brinque o quanto quiser com a ideia de três humanidades sucessivas, cada qual dez vezes menor que sua antecessora – mas dinossauros não viraram lagartos e tigres não viraram gatos siameses, ponto. Trechos de resenhas (elogiosas, é claro) reproduzidas na contracapa do livro colocam ênfase na crítica que o autor faz ao mundo atual e também em seu "humor ácido"; é fato que tentativas de humor (negro, muitas vezes) pululam por todo o livro, mas, pelo menos para mim, ao longo de suas 500 páginas há no máximo duas piadas que funcionam.

É possível, entretanto, que vocês não se importem com nada disso, e, nesse caso, Terceira Humanidade até vale como passatempo, pois é inegável que a narrativa é fluente e entretém… Principalmente o Ato 2: a Era da Mutação, que narra uma pandemia mundial de uma "nova antiga" forma de gripe, um vírus que o professor Charles Wells e suas companheiras inadvertidamente "acordaram" na Antártida, depois de ter ficado inativo durante milênios. O médico-legista que examina seus corpos em Paris se contamina e, viajando de férias para o Egito logo em seguida, transmite a doença para outros turistas, profissionais de saúde, funcionários de companhias aéreas… Com isso, e graças ao transporte aéreo que hoje permite a qualquer um (saudável ou infectado) chegar a qualquer lugar do mundo em questão de horas, esse patógeno rapidamente se dissemina por dezenas de países e afeta milhões de pessoas, acabando com a economia e com a ordem social. E, casualmente, li o livro entre os meses de março e abril de 2020, bem durante a crise do COVID-19, o que resultou numa coincidência um tanto sinistra… É claro que o vírus da ficção é muito mais terrível que o real – transmite-se com mais facilidade e é cem por cento letal –, pois descrever uma doença relativamente controlável não teria um efeito satisfatório numa narrativa de tom apocalíptico, como a dessa parte do livro. Mas, mesmo assim, a coincidência é perturbadora. A partir daí, a história ganha mais ação, com coisas que já vimos em muitos outros lugares antes, como cidades mergulhadas no caos e sobreviventes encerrados em bunkers, tendo que rechaçar à bala outros que vagam pela terra devastada em busca de comida e abrigo. Nada de novo, mas funciona como narrativa de ação e de "ficção científica de terror".

quinta-feira, novembro 21, 2019

A Hora do Vampiro

Havia uma igreja em ruínas no caminho, um antigo centro de reuniões metodistas, que erguia seus destroços na extremidade de um gramado estragado pelas geadas e cheio de elevações, e quando alguém passava por suas janelas vazias e sem sentido, os passos soavam muito alto, e o que quer que se estivesse assobiando morria nos lábios, e podia-se pensar em como aquilo devia ser lá dentro – os bancos tombados, os hinários apodrecidos, o altar desmoronado, onde hoje só os camundongos guardavam o domingo, e ficava-se pensando, o que poderia haver ali além dos camundongos – que loucos, que monstros. Talvez estivessem olhando para a pessoa com seus olhos amarelos, de répteis. E talvez não bastasse espiar, uma noite; talvez uma noite qualquer aquela porta rachada, mal pendurada, se abriria repentinamente e o que se veria ali levaria à loucura, com um só olhar.

Não se poderia explicar isso à nossa mãe ou pai, que eram criaturas da luz. Assim como não se podia explicar-lhes que, aos três anos, o cobertor sobressalente ao pé do berço transformava-se numa coleção de serpentes que ficavam olhando para a gente com olhos planos e sem pálpebras. Nenhuma criança jamais vence esses medos, pensou ele. Se um receio não pode ser formulado, não pode ser vencido. E os medos trancados em cérebros pequeninos são grandes demais para passarem pelo orifício da boca. Mais cedo ou mais tarde, a gente encontrava alguém com quem caminhar por todas as casas de reunião desertas que se tem de passar entre a infância sorridente e a senilidade ranzinza. Até aquela noite. Até aquela noite, em que ele via que nenhum dos velhos receios fora vencido – apenas guardados em seus caixões pequeninos, de criança, com uma rosa silvestre espetada em cima.

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No post a respeito de Ao Cair da Noite, eu já havia dado breves pinceladas sobre o início da carreira de Stephen King, assinalando que, como muitos escritores de todos os gêneros, ele começou pelos contos, mais rápidos de escrever e mais fáceis de vender, somente passando aos romances quando já estava com o nome consolidado, com leitores fiéis e um currículo que obrigaria qualquer editor a, no mínimo, dar-lhe atenção. Carrie (1974) foi como que um trabalho de transição – um romance, mas relativamente curto, com menos de 200 páginas, como se o autor ainda estivesse se ajustando a escrever narrativas mais longas. Assim, podemos dizer que 'Salem's Lot (1975) foi seu primeiro romance "padrão": foi com ele que King deslanchou como romancista.

Quanto ao título nacional, bem… O exemplar que tenho, e cuja capa estou reproduzindo aqui, é da edição de 1991 da Nova Cultural, um livro barato vendido em bancas de jornal – o único tipo de livro que eu, adolescente, tinha condições de adquirir, e mesmo isso, só muito ocasionalmente; a maior parte do que eu lia na época era emprestado da biblioteca pública. O que eu ia dizer, entretanto, era que, como costuma acontecer com essas edições baratas, essa foi publicada mediante licença da editora que havia publicado o livro antes e que detinha os direitos da tradução, no caso a Record. Isso significa que a primeira edição brasileira de 'Salem's Lot saiu, provavelmente, alguns anos antes, portanto em meados dos anos 80, em plena febre dos filmes A Hora. Quem é macaco velho em matéria de cinema fantástico sabe do que estou falando; para os mais jovens, explico: durante boa parte daquela década mágica, existiu (no Brasil) uma convenção de que filme de terror, para fazer sucesso, tinha que ter o título começando com A Hora. Creio que isso tenha começado com A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), que inaugurou o que seria uma das franquias mais lucrativas do gênero, mas sobre a qual confesso que sei muito pouco. No ano seguinte surgiu A Hora do Espanto (Fright Night), de Tom Holland, por sinal um ótimo filme de vampiro. Depois que ambos os filmes foram sucessos de bilheteria no país, as distribuidoras nacionais passaram a rebatizar uma infinidade de produções de variados temas e qualidade ainda mais variada como A Hora disso e A Hora daquilo: tivemos A Hora dos Mortos-vivos, A Hora das Criaturas, A Hora da Zona Morta, A Hora do Lobisomem (os dois últimos baseados em livros de Stephen King), entre muitos outros. E o modismo, que surgiu no cinema, acabou respingando na literatura, o que valeu a 'Salem's Lot o pífio título pelo qual ficou conhecido no Brasil. A capa desta edição, apresentando uma espécie de Drácula genérico, também não ajuda, mas, felizmente, eu já conhecia um pouco de King na época (tinha lido Zona Morta e Sombras da Noite), e por isso não permiti que o título nem a capa me detivessem. E, com título ruim ou não, A Hora do Vampiro é um vigoroso exemplo de Stephen King no melhor de suas capacidades.

'Salem's Lot é uma contração de Jerusalem's Lot, nome da pequena cidade do Maine que serve de cenário à história. É bem claro que se trata da mesma cidade que aparece no conto A Saideira, presente na coletânea Sombras da Noite, mas fica-se em dúvida se será também a mesma de outro conto da mesma coletânea, intitulado Jerusalem's Lot. No livro de que estamos tratando, não há qualquer menção à amaldiçoada família Boone, ao livro profano De Vermis Mysteriis ou à sinistra mansão de Chapelwaite. Em vez dela, há outra mansão com reputação de assombrada, a Casa Marsten, cujo proprietário, então o homem mais rico de Lot e região, assassinou a esposa e logo em seguida suicidou-se, isso em 1939, décadas antes dos eventos narrados no livro, que se ambienta na mesma época em que foi publicado, meados dos anos 70. Benjamin Mears, escritor de certa fama, que morou na cidade durante parte de sua infância, decide passar uma temporada lá enquanto escreve um novo romance. Cerca de um ano antes, a fatídica Casa Marsten foi comprada, de forma sigilosa, por uma dupla de forasteiros que também adquiriram o prédio de uma lavanderia há muito fechada; sua intenção declarada é a de fixar residência na velha mansão e transformar a antiga lavanderia numa loja de móveis finos e antiguidades. Parece que os preparativos necessários foram demorados, pois, coincidência ou não, o homem que diz chamar-se Richard Straker e se apresenta como um dos sócios-proprietários da loja reaparece em Lot praticamente ao mesmo tempo em que Ben Mears chega. Straker, homem de aparência distinta, fala culta, modos misteriosos e calma imperturbável, diz a todos que seu sócio, Kurt Barlow, está em viagem de negócios, adquirindo itens para a loja, e só deverá aparecer na cidade dali a semanas.

Como foi dito, Ben está escrevendo um novo livro, que, diferente dos anteriores, terá uma pegada sobrenatural (olha a metalinguagem!), e, nas raras ocasiões em que consente em comentar algo sobre seu trabalho, confessa que parte da inspiração para ele veio da Casa Marsten e de experiências que teve quando garoto, ali em Jerusalem's Lot. Na biblioteca pública local, ele faz extensas pesquisas em jornais antigos, e, além das informações que procurava, acaba descobrindo algo inesperado e que pode ter implicações macabras: parece que desaparecimentos periódicos de crianças foram registrados em Lot sempre coincidindo com épocas em que a Casa estava habitada – e isso volta a acontecer agora. Os irmãos Glick, Danny, de 12 anos, e Ralphie, de nove, são surpreendidos por "alguma coisa" enquanto percorrem uma trilha na mata à noite; Ralphie desaparece e Danny volta para casa num estado de confusão mental, incapaz de dizer o que aconteceu ou que fim levou seu irmão. Poucos dias mais tarde, o garoto mais velho morre de algo diagnosticado como anemia perniciosa, embora nada em seu histórico médico sugerisse esse quadro ou qualquer tendência para ele. Todos sabemos que anemia significa, em linguagem médica, uma quantidade insuficiente de glóbulos vermelhos no sangue, geralmente devido à carência de ferro no organismo, mas é interessante atentar para a etimologia da palavra, que, se traduzida literalmente de sua origem grega, exprime um conceito bem mais simples: an (sem) + hema (sangue). Uma vez que sabemos isso, a coisa torna-se autoexplicativa.

Danny Glick é a primeira peça derrubada num tenebroso efeito dominó. Poucas pessoas sabem o que realmente está acontecendo em Jerusalem's Lot, e essas precisam lutar sozinhas, pois, se revelarem ao resto da sociedade local o que sabem, só conseguirão ser trancadas num manicômio. Impossível não lembrar de uma cena do filme 30 Dias de Noite e de uma coisa que o líder de um grupo de vampiros diz ao repreender um de seus comandados por ter feito algo que punha em risco o segredo em torno da existência de sua raça: "Levou séculos para convencermos os humanos de que somos apenas uma lenda!" Na verdade, a mais clássica de todas as histórias de vampiro (Drácula, é claro) já trazia algo parecido, quando o Dr. Van Helsing declara que o maior trunfo do vampiro é que ninguém acredita em sua existência.

King não faz qualquer tentativa de "modernizar" o mito: seus vampiros temem crucifixos, água benta, luz do sol, talvez até alho, e não podem entrar numa casa a menos que sejam convidados. Muitos autores desprezam tais noções, especialmente as que atribuem a objetos sagrados o poder de repelir os sanguessugas; no entendimento desses autores, isso tudo é fruto da ideia popular e antiga de que os vampiros estariam necessariamente relacionados às forças do mal, quiçá ao diabo em pessoa. Bem, parece que, para Stephen King, essas ideias, pouco importa o quão populares ou antigas, podem conter um fundo de verdade: não pode ser coincidência que, num romance sobre vampiros, haja tantas menções às ligações do falecido Hubert Marsten com cultos profanos e sacrifícios de crianças.

O pequeno grupo de heróis, capitaneado por Ben Mears, conta também com Susan Norton, uma jovem que ele conheceu ao chegar à cidade e com quem rapidamente se envolveu; Matt Burke, um veterano professor de inglês e literatura; Jimmy Cody, ex-aluno de Matt e hoje médico (que sempre me fazia pensar no Dr. Jack Seward, de Drácula); o padre Donald Callahan, vigário da paróquia católica de Jerusalem's Lot; e Mark Petrie, um garoto de 12 anos cuja coragem, força de vontade e autodomínio deixariam muitos adultos envergonhados. Mark desempenha o papel que crianças frequentemente têm em histórias fantásticas: sua mente, não limitada pelas amarras do "racional", aceita os fatos (por mais bizarros que sejam) quando eles se apresentam, e reage imediatamente, em vez de perder um tempo precioso tentando negar a realidade ou procurando "explicações plausíveis". Se é com vampiros que estamos lidando, vamos preparar as cruzes e as estacas! Ficar repetindo como um idiota que "vampiros não existem" não vai manter as presas deles longe do seu pescoço. Mark conta, ainda, com uma vantagem: conhecimento. Sendo um garoto de muita imaginação e com um gosto natural por coisas soturnas e misteriosas, é um ávido leitor de terror e, por isso, é quem melhor conhece as particularidades e os pontos fortes e fracos dos vampiros. Nesse quesito, supera Ben e Matt, embora ambos sejam homens cultos e já tenham lido a sua quota de histórias sobrenaturais.

Kurt Barlow, como se descobre, é apenas o nome atual de um ser que provavelmente já usou muitos outros ao longo dos séculos. Trata-se de um vampiro muito velho e muito poderoso; em certo capítulo, os caçadores invadem seu covil durante o dia, apenas para descobrir que ele antecipou seu movimento e foi esconder-se em outro lugar, deixando para eles uma carta muito polida e ligeiramente irônica. A carta é para o grupo, mas há algumas linhas dirigidas especificamente a cada um, e, na parte dedicada ao Pe. Callahan, Barlow revela que, embora há muito tempo ele tenha suas "diferenças" com a Igreja Católica, ela não é seu inimigo mais antigo: "Eu já era velho quando ela ainda era nova, quando seus membros se escondiam nas catacumbas de Roma e desenhavam peixes no peito, para poderem distinguir-se entre os outros. Eu já era forte quando esse clube lamuriento de comedores de pão e bebedores de vinho, que veneram o seu salvador-cordeiro, ainda era fraco." Portanto, estamos falando de um ser com mais de dois mil anos de idade – bem mais, se ele já se considerava velho quando a Igreja dava seus primeiros passos, pois sabemos que a palavra velho tem um significado diferente para um vampiro do que tem para um humano. Perto de Barlow, Drácula, com os quinhentos e poucos anos que teria se ainda fosse "vivo" nos anos 70, não passaria de um aprendiz. Do alto dessa vasta experiência acumulada, Barlow conhece bem a natureza humana, e sabe onde deve atacar primeiro ao fechar o cerco sobre Jerusalem's Lot. Qual o seu objetivo com isso? Mistério. Tudo o que podemos depreender é que tem a ver com Hubert Marsten, com quem o velho vampiro tinha ligações e, provavelmente, algum tipo de acordo. E ele ataca primeiro onde vê fragilidade: às vezes visa crianças, como no caso dos irmãos Glick, outras vezes pessoas que estejam emocionalmente abaladas, como Floyd Tibbets, o ex-namorado rejeitado de Susan, ou Corey Bryant, logo depois de ser pego em flagrante pelo marido de sua amante. Sendo um vampiro clássico, Barlow deve possuir todos os poderes que as lendas antigas atribuem a sua raça, ou, pelo menos, aos representantes mais poderosos dela: força descomunal, capacidade de controlar animais e sabe-se lá o que mais; Bram Stoker insinua que Drácula era capaz de controlar até mesmo as condições meteorológicas. Porém, ele prefere, sempre que possível, utilizar métodos mais sutis, em especial a hipnose. Depois de um instante de medo extremo, suas vítimas experimentam uma sensação de conforto e paz, uma noção de que basta entregarem-se para que todo o medo e sofrimento acabem. Para resistir a isso, é necessária uma tremenda força de vontade.

Vou admitir, 'Salem's Lot tem trechos deprimentes, sem relação direta com nada sobrenatural; o autor se permite explorar (nunca muito longamente, graças a Deus) a sordidez que constitui uma faceta inseparável da natureza humana – embora a natureza humana não se resuma só a sordidez, como certa classe de chatos parece sentir prazer em papagaiar. Uma jovem mãe que alivia sua frustração com a vida batendo no filho pequeno; uma anciã cuja razão de viver é conhecer segredos escabrosos dos outros habitantes da cidade e espalhá-los para o maior número de ouvintes que puder; um homem de negócios que suborna sem hesitar um de seus trabalhadores para que ele fique calado a respeito de possíveis evidências de um crime, e por aí vai. Outros trechos retratam momentos depressivos vividos por um ou outro personagem, como o Pe. Callahan, que enfrenta problemas com álcool e uma crise de fé. Pelo menos na minha leitura, as páginas dedicadas a isso tudo são necessárias: parece haver nas entrelinhas do romance como um todo uma insinuação de que, se todas as pessoas fossem fortes, íntegras, saudáveis e felizes, seres como Kurt Barlow não teriam poder, e talvez nem conseguissem sobreviver. Para se fortalecer e exercer seu poder, ele precisa das trevas – tanto as da noite quanto as da alma humana. Entretanto, o saldo final da história não é de puro pessimismo, já que existem pessoas corajosas dispostas a arriscar tudo para deter o mal. Ainda há esperança para nossa pobre espécie.

Mesmo nessa fase inicial de sua carreira, King já demonstrava uma compreensão muito precisa de como o medo funciona, e também do fato de que existem diferentes tipos de medo. Há medos que são socialmente aceitos, porque considerados racionais, como o medo da violência urbana, do futuro incerto, da guerra, de doenças; esses são temores que as pessoas confessam com relativa facilidade, porque sabem que encontrarão empatia. Porém, há outros medos, como aquele que experimentamos tarde da noite, sozinhos em casa, deitados na cama, no escuro, incapazes de dormir, quando temos a sensação inexplicável de uma presença sombria no canto do quarto, ou poderíamos jurar ter ouvido algo se mover na peça ao lado – e não temos coragem sequer de esticar o braço para acender a luz, quanto mais de ir averiguar a origem do barulho. Horas depois, à luz do dia, esses temores parecem tolos, e a maioria de nós acharia muito embaraçoso confessá-los a qualquer outra pessoa, mas isso não muda o fato de que aquele momento de medo e suor frio durante a madrugada parece durar um século, e de que, enquanto dura, esse medo sem nome é absolutamente real. Racionalmente, eu sei que o medo do escuro nada mais é que uma herança dos nossos ancestrais primatas, que, nas savanas e florestas onde viviam, estavam sempre expostos aos ataques de predadores de olhos brilhantes e presas afiadas que preferiam caçar à noite. Sendo assim, e continuando a ser racional, reconheço que esse medo está obsoleto, já que dificilmente algum leopardo ou hiena vai invadir meu apartamento – e, não obstante, algo em mim parece impermeável a toda essa racionalidade, e, como resultado, o velho medo do escuro continua a dar as caras de vez em quando. Muito menos que quando eu era criança, é verdade, mas ele ainda aparece. Talvez as únicas pessoas imunes a isso sejam as totalmente desprovidas de imaginação, e isso não é coisa que se possa escolher… E, para ser franco, ainda que fosse possível, eu não escolheria. Como dizia Jorge Luís Borges, não se pode matar os demônios sem matar junto as fadas.

Mas chega de poesia. Não há muito mais que eu possa dizer sobre 'Salem's Lot sem dar spoiler, exceto que, como narrativa de terror, é de uma eficiência implacável. Além disso, como acontece com quase todos os trabalhos de Stephen King, é um texto de leitura fluente, que você percorre sem sentir, o que favorece enormemente a imersão do leitor na história. Esta edição da Nova Cultural tem alguns pequenos problemas, erros que provavelmente não devem ser creditados à tradutora Luzia Machado da Costa, mas à revisão e/ou ao pessoal da composição – confesso que não faço ideia de como era o passo a passo da produção de um livro no início dos anos 90. A respeito da tradução, eu gostei dela de modo geral, tenho a impressão de que preservou bem o sabor original da prosa de King, embora haja alguns detalhes meio estranhos, em especial o fato de que nomes de lugares ou estabelecimentos comerciais são quase sempre mantidos "inteiros" como no original; por exemplo, a colina onde fica a Casa Marsten também leva o nome dos antigos proprietários, e a tradutora a chama de "Marsten's Hill" – por que não Colina Marsten? Ao chegar a Lot, Ben aluga um quarto numa pensão cuja proprietária chama-se Eva, e mais tarde diz a Susan que está hospedado em "Eva's Rooms" (!). Um senhor de nome Milt Crossen possui um bar, açougue e mercearia ao qual a tradutora se refere como "Crossen’s Store"; a meu ver, seria muito mais natural dizer "Loja Crossen", ou "a loja do Crossen", já que o texto, depois de traduzido, está em português. Também é engraçado que os personagens chamem uma menina ou moça de "pequena": isso me faz lembrar as dublagens de certos filmes do tempo do onça (creio que a maioria era dos anos 50, e as dublagens devem ter sido feitas logo depois) que eram reprisados à exaustão na Sessão da Tarde quando eu era garoto. Pode ter sido proposital, uma tentativa de reproduzir na tradução uma linguagem meio arcaica que talvez ainda fosse ouvida em lugarejos interioranos dos EUA naqueles tempos sem internet e quando rádios e TVs eram basicamente regionais. De qualquer forma, quem for adquirir o livro agora encontrará a edição da Suma de Letras, que provavelmente tem uma tradução diferente.

Curiosidade 1: Quando Ben e seus companheiros invadem a Casa Marsten e encontram certo personagem morto, pendurado de cabeça para baixo, Stephen King se engana ao colocar na boca do Pe. Callahan que "São Paulo foi crucificado assim, numa cruz em forma de X, com as pernas quebradas". São Paulo não foi crucificado de nenhuma maneira, porque, embora de origem judaica, possuía cidadania romana, e nenhum cidadão romano podia ser crucificado, já que esse método de execução era tido como aviltante. Em vez disso, ele foi decapitado, o que, em comparação, era considerado uma morte misericordiosa e, se não propriamente digna, ao menos decente. Quem morreu da forma que King descreve (com a possível exceção das pernas quebradas, pois não encontrei referência a isso) foi Santo André, o padroeiro da Escócia – é por isso que a bandeira desse país ostenta uma cruz em forma de X, a "Cruz de Santo André". Segundo a tradição da Igreja, André, condenado à morte no ano 60, teria pedido a seus carrascos para crucificá-lo de cabeça para baixo, porque não se achava digno de morrer do mesmo modo que Jesus Cristo. Idêntico pedido fez seu irmão, São Pedro (o primeiro papa), ao chegar sua vez, sete anos depois. A Cruz de São Pedro tem a mesma configuração da cruz comum, só que invertida, e já era reconhecida como o emblema do santo séculos antes que os satanistas decidissem adotá-la como símbolo de oposição a Cristo.

Curiosidade 2: Depois do prólogo e antes de começar a primeira parte de 'Salem's Lot, intitulada A Casa Marsten, encontramos, como epígrafe, uma citação do livro The Haunting of Hill House, de Shirley Jackson, publicado em 1959 e que recentemente ganhou uma adaptação para a TV, produzida pela Netflix. A citação é aquela que ouvimos logo no início do primeiro episódio, na voz do mais velho dos irmãos Crain, o escritor Steven: começa com "Nenhum organismo vivo pode continuar a existir por muito tempo num estado de realidade total", e termina com "o que quer que caminhasse ali, caminhava só". Stephen King visivelmente segue seu próprio conselho, o que ele sempre oferece aos aspirantes a escritor: ler muito, e parece que dedica especial atenção aos autores que escrevem o mesmo gênero que ele.

'Salem's Lot foi filmado em 1979 como uma minissérie de TV em seis episódios, totalizando cerca de três horas de duração, e dirigida por Tobe Hooper, mais conhecido por causa do filme "ame-ou-odeie" O Massacre da Serra Elétrica, e que também dirigiu ao menos um episódio de Contos da Cripta. Alguns anos mais tarde, apareceu nas videolocadoras uma versão editada de duas horas, apresentada como um filme único, com o título A Mansão Marsten. Em 2004 saiu um remake, desta vez feito para o cinema, com direção de Mikael Salomon, Rob Lowe no papel de Ben Mears, Rutger Hauer (de Blade Runner e O Feitiço de Áquila) como Kurt Barlow, e Donald Sutherland (de Jogos Vorazes) como Richard Straker. Confesso que não vi nenhum deles (assim como no caso de Christine, preferi preservar minhas próprias imagens da história), mas, enquanto procurava na internet por ilustrações para este post, encontrei fotos do ator Reggie Nalder caracterizado como Barlow para a antiga minissérie… O visual foi obviamente inspirado em Nosferatu (1922), de Friedrich Murnau: assim como Nosferatu, o Barlow de Nalder tem os dentes incisivos centrais em forma de presas, ao invés dos caninos, como é o comum em representações de vampiros – o que lhe dá uma aparência asquerosa lembrando um rato. Além disso, é calvo e tem a pele azul (!). Nada a ver com a descrição que King faz de Barlow, que deveria ter um aspecto aristocrático e atraente, podendo aparentar a idade que preferisse. Optei por não usar nenhuma dessas imagens, já que se afastam tanto da visão do autor, mas, se tiverem curiosidade, é bem fácil achá-las no Google.