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segunda-feira, abril 29, 2019

A Noite dos Tempos

René Barjavel (1911-1985) é um autor pouco conhecido entre nós, embora seja considerado um nome-chave da ficção científica não só em seu país de origem, a França, mas em toda a Europa continental, onde esse gênero nunca chegou a ter a mesma força que nos países de língua inglesa. Foi provavelmente o primeiro a formular o célebre "problema do avô", que ilustra bem o paradoxo envolvido na teoria das viagens no tempo: se um homem viajar para o passado e matar o próprio avô (ou outro ancestral) antes que ele gere uma descendência, esse homem nunca existirá – mas então, quem foi que matou o tal avô? A questão aparece no livro Le Voyageur Imprudent ('O Viajante Imprudente', de 1944). Algumas das obras de Barjavel foram publicadas no Brasil durante os anos 70 pela editora Artenova, e foi por meio de uma dessas edições que, já no início dos 90, eu travei conhecimento com A Noite dos Tempos, isso na biblioteca do SESI, a mesma à qual já prestei tributo aqui antes. O exemplar que tenho hoje, e no qual acabo de reler a história, foi adquirido numa daquelas caixas de saldos, na última ou penúltima Feira do Livro de Porto Alegre a que compareci, e é da edição do Círculo do Livro (que, curiosamente, não datava suas publicações), aproveitando a mesma tradução, com algumas adaptações. A capa que aqui reproduzo é a dessa edição.

Embora parte de seus primeiros anos tenham coincidido com a Primeira Guerra Mundial, parece que a infância de Barjavel foi relativamente tranquila, vivida em sua cidade natal, a pequena Nyons, perto de Marselha. Era filho de um padeiro, e sua admiração pela maestria do pai em seu ofício o influenciaria para sempre: em diferentes trechos de suas obras, o escritor demonstra a convicção de que mesmo as profissões mais humildes são motivo de orgulho, se exercidas com dedicação e excelência. Apesar disso, nunca quis seguir os passos do pai: leitor voraz que era, desde muito cedo almejou fazer carreira no jornalismo e na literatura, como de fato aconteceria. Durante o início da Segunda Guerra Mundial, serviu como despenseiro do exército, sendo desmobilizado em 1942. Publicou seus primeiros trabalhos durante os anos seguintes, enquanto a França ainda estava ocupada pelos alemães; depois do fim da guerra, chegou a ser apontado como colaboracionista, por ter tido textos publicados num jornal pró-nazista que tinha o sugestivo e vagamente ameaçador nome de Je Suis Partout (literalmente, 'Eu Estou em Toda Parte'), mas acabou inocentado, e vamos concordar que o escritor não tinha muita opção, se é que tinha alguma: durante aquele período, era muito difícil publicar o que quer que fosse na França sem passar pelo crivo dos nazistas. Durante os 40 anos seguintes, Barjavel publicou 16 romances, além de contos, crônicas e ensaios, tudo paralelamente a sua atividade como jornalista. Também teve envolvimento com o cinema, tendo sido amigo do famoso diretor André Cayatte, cujo filme Les Chemins de Katmandou ('Os Caminhos de Katmandu', de 1969) teve por base o romance homônimo de Barjavel. Aliás, A Noite dos Tempos, publicado originalmente em 1968, é dedicado a Cayatte, e lembro que, na edição que li primeiro, o texto da orelha referia, de passagem, que, ao tempo em que saiu essa edição (1975), o escritor e o diretor estavam trabalhando juntos em sua adaptação para o cinema. Pelo visto, o projeto não foi para a frente: não há nenhum filme que pareça corresponder ao livro, seja na filmografia de Cayatte ou no extenso rol dos trabalhos de Barjavel para o cinema.

A Noite dos Tempos tem um enredo fascinante, que evoca mistérios de um passado desconhecido, perdido para a memória humana há centenas de milhares de anos, que, inopinadamente, vem à tona. Tudo começa quando a base francesa de pesquisa científica na Antártida recebe um novo tipo de sonda destinada a fazer levantamentos do relevo subglacial, ou seja, descobrir como é o solo do continente antártico, sepultado há milênios debaixo de centenas de metros de gelo e neve. O novo aparelho, bem mais sensível que seus congêneres tradicionais, detecta algo de inacreditável: sob quase mil metros de gelo, ele encontra estruturas que não podem ser naturais, pois possuem formas regulares, geométricas. São colunas, escadas, cúpulas, em sua maioria quebradas e desmoronadas, mas ainda reconhecíveis. Numa palavra, ruínas. Ruínas de construções que só podem ser obra de homens (ou de algum tipo de criatura inteligente e habilidosa), mas que, pela profundidade onde se encontram, devem datar de pelo menos 900 mil anos, época em que, por tudo o que se sabe, o hominídeo mais sofisticado existente era o Homo erectus, cuja tecnologia não ia além de algumas ferramentas e armas simples de pedra, osso e madeira. A sonda descobre também outra coisa: um sinal de rádio cuja origem parece estar em algum lugar em meio às tais ruínas.

A descoberta, que revoluciona tudo o que se sabia sobre o passado da espécie humana e do próprio planeta, causa o alvoroço que seria de se esperar. A França, sozinha, não dispõe dos recursos e da tecnologia que serão necessários para uma escavação desse porte e a exploração do que quer que venha a ser encontrado, então a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) convoca uma Expedição Polar Internacional (EPI) reunindo, além dos franceses, delegações dos Estados Unidos, União Soviética, Japão e demais potências, de modo que o empreendimento passa a contar com a última palavra em equipamento, maquinário e pessoal especializado, oriundos de todas as partes do mundo.

(Uma pessoa fica pensativa e um tanto melancólica ao dar-se conta de que, no tempo em que Barjavel escrevia, a UNESCO ainda devia ser de fato uma instituição que trabalhava seriamente pela ciência e pela cultura, em vez de pôr-se a serviço de estranhos projetos de engenharia social idealizados por grandes fundações internacionais, sabe-se lá com que objetivos tenebrosos.)

Conforme as escavações progridem, o que vai sendo encontrado (construções, artefatos, máquinas) é de uma estranheza quase alienígena. A civilização que criou tais coisas era, indubitavelmente, humana, mas não parece ter vínculo algum com nada que a História ou a arqueologia conheçam. Aquele povo antigo parece ter alcançado conquistas tecnológicas com as quais a civilização contemporânea apenas sonha, ou nem isso. Seguindo o sinal de rádio, os exploradores da EPI descobrem uma gigantesca esfera feita de ouro maciço, que parece ser uma espécie de cápsula e apresenta um novo desafio, pois, embora o metal amarelo nunca tenha sido notório por sua resistência, aquele parece quase indestrutível. Quando finalmente conseguem abrir a esfera (usando uma nova e revolucionária ferramenta que utiliza laser e plasma ao mesmo tempo), o que encontram supera a imaginação mais extravagante: um homem e uma mulher, congelados em hélio sólido à temperatura do zero absoluto (273 graus centígrados negativos, a temperatura mais baixa possível segundo as leis da física, e que a tecnologia moderna nunca conseguiu atingir). E, por tudo o que se sabe, podem estar vivos e talvez seja possível reanimá-los.

Tanto na época em que A Noite dos Tempos foi escrito quanto hoje, o congelamento de um ser humano vivo e sua posterior reanimação eram, e são, meras possibilidades teóricas; nada do tipo jamais foi efetivamente feito. Sendo assim, os médicos responsáveis pelo ousado procedimento decidem começar pela mulher, porque ela parece estar em perfeitas condições de saúde, enquanto o homem apresenta diversas lesões semelhantes a escoriações e queimaduras; logo, a mulher, provavelmente, suportará melhor o processo. Mais tarde, com a experiência ganha na primeira reanimação, eles esperam poder acordar o homem com maior segurança.

E a mulher desperta. A primeira e óbvia coisa a impressionar a todos é sua beleza, uma beleza na qual existe mais que a simples perfeição de formas: há nela algum tipo de viço indefinível que parece remeter ao fato de ela ser uma reminiscência de um tempo em que a própria espécie humana era jovem, o que traz aos seres humanos de hoje a compreensão do quanto a humanidade atual está velha e cansada. Quando ela fala, é numa língua que não tem qualquer semelhança, por longínqua que seja, com nenhuma outra, viva ou extinta, que se conheça. Isso, é claro, não é surpresa, dadas as circunstâncias, mas acaba por causar um grave e imprevisto problema: a mulher vinda do passado não consegue alimentar-se de nada do que lhe é oferecido, seu organismo não parece capaz de processar nutriente algum, e, por causa do abismo linguístico, é impossível perguntar a ela o que se pode fazer a respeito. Para tentar salvá-la antes que morra de inanição, a EPI pede ajuda a todas as empresas, universidades e governos que possuem grandes computadores (lembrem-se, isso foi escrito nos anos 60, quando computadores eram coisas enormes, intimidadoras e de custo proibitivo, de cuja existência as pessoas comuns tinham, no máximo, uma vaga noção) para decifrar a língua do passado. O esforço é bem-sucedido, o que, além de salvar a vida de Elea (pois é assim que a mulher se apresenta), permite, daí em diante, que ela se comunique. Depois de se recuperar, pelo menos tanto quanto possível, do choque terrível de descobrir durante quanto tempo dormiu, e de dar-se conta de que não sobrou absolutamente nada do mundo que conhecia, ela, por fim, consegue contar sua história e tentar satisfazer a enorme curiosidade que sua civilização agora desaparecida desperta entre os que a resgataram.

A Noite dos Tempos é narrado, mais ou menos, sob o ponto de vista de Simon (não é "Sáimon", é Simon mesmo: o personagem é francês como o autor), um jovem médico que fazia parte da equipe original da base francesa e estava com o grupo que fez a descoberta. Quando digo mais ou menos, é porque a maior parte do livro não é na primeira pessoa, apenas alguns trechos o são; esses trechos, impressos em itálico, são intercalados entre as partes narrativas, como se fossem comentários a elas, e parecem ter sido escritos, ou talvez apenas pensados, por Simon depois que a aventura já teve seu desfecho, como se o que lemos fosse ele recordando como tudo aconteceu. À parte o natural fascínio que aquela descoberta desperta em todos, o médico toma-se de um interesse muito pessoal e particular por Elea – um interesse que, como até mesmo o leitor menos perspicaz não teria dificuldade em prever, rapidamente se converte em paixão. Elea, mesmo sem nenhuma intenção, perturba a todos os homens, por causa da combinação intoxicante de beleza e mistério, mas a preocupação constante de Simon com seu bem-estar ultrapassa em muito o mero zelo do médico para com a paciente, e não esconde seus verdadeiros sentimentos.


Entre muitas outras coisas, Elea revela a identidade do homem na esfera de ouro: ele é Coban, o mais renomado cientista da poderosa nação de Gondawa – nome claramente inspirado em Gondwana, o supercontinente que reunia as atuais massas de terra do hemisfério sul, inclusive a Antártida, centenas de milhões de anos atrás; em todo caso, como o tempo de Elea e Coban foi há "apenas" 900 mil anos, os continentes já tinham uma configuração semelhante, em linhas gerais, à de hoje, e, pela descrição feita por Elea, Gondawa ocupava somente a Antártida, que, na época, estava em outra latitude e tinha um clima de temperado a tropical. E Gondawa era uma das duas grandes potências de então, sendo a outra Enisorai, que ocupava as atuais Américas do Norte e do Sul.

Embora os gondas tivessem alcançado progressos notáveis nos campos científico e social, e sua população desfrutasse de uma vida confortável, seria um grande erro pensar que aquele era um mundo paradisíaco. Algum tempo antes do nascimento de Elea (não é dito ao certo quanto tempo), as duas potências travaram uma série de guerras de grandes proporções, nas quais usaram armas terríveis criadas pela mesma tecnologia que tornara possível a tal vida confortável. Como resultado, a superfície de Gondawa tinha-se tornado inabitável, e, por isso, seu povo vivia em cidades subterrâneas.

O drama pessoal da heroína vem agora: ela havia atingido sua plenitude adulta e levava uma vida feliz com seu companheiro, Paikan, quando uma nova guerra sobreveio – a pior de todas. Coban, sabendo que a destruição que estava por vir seria numa escala nunca vista, podendo acarretar até mesmo o fim de sua civilização, pensou num meio de evitar que a ruína fosse completa. Projetou e fez construir um abrigo subterrâneo – a esfera de ouro – onde ele próprio, que, como bem sabia, era o mais importante cérebro de seu tempo, ficaria em animação suspensa, protegido da radiação e dos demais efeitos danosos da guerra, pelo tempo que fosse necessário. Quando as condições no exterior o permitissem, sairia e, com seu conhecimento, trabalharia para reconstruir o mundo. Algumas das maravilhosas máquinas criadas pela ciência gonda, capazes de funcionar pela eternidade afora sem precisar de manutenção ou reparo, conservariam as condições controladas dentro do abrigo e monitorariam as coisas do lado de fora, prontas para reanimar o cientista quando concluíssem que a sobrevivência já era possível… O que, de acordo com as previsões mais cautelosas de Coban, poderia demorar desde alguns anos até um século ou dois. O que nem mesmo ele poderia prever era que os efeitos das armas seriam tão tremendos, que tirariam o próprio planeta do prumo, alterando seu eixo e deslocando os pólos, o que mergulhou Gondawa num inverno eterno. As pobres máquinas, fiéis às instruções recebidas, só podiam concluir que as condições na superfície continuavam inóspitas… E assim continuaram durante 900 mil anos.

Porém, eu ia falar sobre o drama de Elea; tudo está interligado. Para sua missão de reconstruir a civilização, Coban precisaria de uma companheira, uma mulher que sobressaísse pela inteligência, capacidade, e também por uma genética privilegiada, traduzida nos quesitos saúde e beleza, pois não se podia excluir a possibilidade de que os dois tivessem que repovoar Gondawa sozinhos. Dentre milhões de mulheres em todo o continente, a escolha recaiu em Elea, que foi chamada a abandonar Paikan, a quem amava de uma forma que as línguas modernas não possuem palavras capazes de expressar, para cumprir seu "dever patriótico". Acho que já cheguei até onde podia sem prejudicar a experiência de quem for ler o livro (na verdade, meu objetivo foi atiçar a vontade de fazê-lo!), mas saibam, por último, que Elea não atendeu pacificamente a esse chamado, e que, desse momento em diante, é impossível não ficarmos penalizados com a avalanche de desventuras que se abatem uma após outra sobre a pobre moça. No final, uma reviravolta para ninguém botar defeito espera pelo fascinado leitor.

O que mais posso dizer sobre este livro extraordinário? Barjavel não acreditava na teoria da evolução; tal fato, apenas sinalizado em A Noite dos Tempos, é declarado com todas as letras no ensaio A Fome do Tigre (1966), que não é só sobre esse assunto: trata-se de um apanhado das reflexões do autor a  respeito de diversas grandes questões que, levantadas na adolescência, ainda o inquietavam aos 55 anos, questões sobre a vida, a morte, o destino, Deus e assim por diante. Muitas dessas reflexões são intrigantes e dão o que pensar, mas, no trecho em que o autor tenta expor as razões de sua descrença em relação aos postulados de Darwin, dá para perceber, pelos argumentos usados, que, como noventa e nove por cento dos que dizem não acreditar na teoria da evolução, ele nunca chegou a entendê-la, embora provavelmente pensasse que sim. A Noite dos Tempos, portanto, é um exercício de imaginação no qual o autor explora uma possível versão não-darwiniana para a origem da espécie humana – ou, pensando melhor, não é assim, pois tudo o que o romance nos mostra é o mundo de 900 mil anos atrás já ocupado por civilizações avançadas e poderosas, sem se aprofundar em explicar como elas surgiram ou como foi a gênese dos homens que as criaram. O importante é notar que, na visão de Barjavel, não é plausível que o homem tenha gradualmente emergido da animalidade: ele já teria surgido (como quer que isso tenha acontecido) plenamente inteligente, autoconsciente, capaz e belo.

Mesmo assim, o autor não se alinha com a visão que encontramos na maioria dos mitos de criação contados pelos mais diferentes povos, nos quais, quase sempre, o mundo, ao ser criado, era perfeito, livre do mal e da morte, mas decaiu, fosse gradualmente ou de uma só vez, por culpa do homem ou de algum outro ser autoconsciente. O mundo antigo de Barjavel até corresponde a alguns sonhos do homem moderno, mas não é perfeito de forma alguma: nele já existiam ganância, violência e ambição pelo poder, o que acabou causando seu colapso. O conflito entre Gondawa e Enisorai, que, pelo que nos é contado, alternava períodos de guerra declarada com outros de paz tensa, é um paralelo da situação do nosso próprio mundo na época em que o livro foi escrito, em plena Guerra Fria, e do desastre de proporções globais no qual ela poderia facilmente desembocar. E, já que falamos sobre poder e ganância, não deixem que o estilo poético e sonhador que a escrita de Barjavel não raro assume os engane: ele era também um experiente jornalista, e não era nada ingênuo. Sendo assim, não poderia deixar de abordar no livro um aspecto da realidade que fatalmente estaria presente, caso uma descoberta do porte da que ele imaginou realmente acontecesse: a cobiça que os valiosíssimos conhecimentos guardados no cérebro de Coban despertariam no mundo moderno. Assim, A Noite dos Tempos tem também o seu quantum satis de maquinações e intrigas.

Entre várias outras coisas, A Noite dos Tempos é uma história sobre amor, reunindo as características de um bom romance de ficção científica com uma parábola poética e bela sobre a convicção de que o amor, quando verdadeiro, resiste ao tempo, assim como a tudo o mais. E por ser, no fim das contas, sobre o amor entre um homem e uma mulher, bem… Barjavel era francês, lembram? Tem partes eróticas, sim – nada que vá sequer ruborizar um leitor do século XXI, mas esses trechos bem que mexeram com os hormônios do adolescente que eu era no distante 1990, época em que não havia esse negócio de qualquer criança poder ver todo tipo de cena de sexo imaginável ou inimaginável, tendo apenas que digitar duas ou três palavras num mecanismo de busca. E, a meu ver, era melhor assim: o sexo era muito mais excitante quando vinha envolto num certo mistério.

Foi especial ter um novo encontro com este livro tanto tempo depois de nosso primeiro contato, e, por mais que eu tenha mudado nesse intervalo, o efeito dele sobre mim permaneceu quase o mesmo, o que é uma proeza e tanto para qualquer livro: tenho certeza de que muitos de vocês, como eu, já passaram pela experiência de reler na idade adulta alguma obra que marcou sua infância ou adolescência e achar difícil compreender o que nela pareceu tão extraordinário naquela primeira leitura. Não foi o caso aqui. A Noite dos Tempos me fascinou quando eu tinha 15 anos e continua a fascinar agora. Bem que mereceria uma nova edição, mas, como isso é muito pouco provável, recomendo que, se tiverem a escolha, leiam a versão da Artenova, pois esta do Círculo do Livro, como observei no início, teve o texto revisado, e algumas das "mexidas" feitas não foram felizes. Porém, em se tratando de um livro que só existe em edições tão antigas, já vai ser muita sorte conseguir um exemplar, de qualquer edição que seja. Então, leiam do jeito que puderem, e conheçam a capacidade que René Barjavel tinha de tornar impossível ao leitor largar o livro depois de ter começado a lê-lo.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Manual Politicamente Incorreto do Catolicismo

Quer dizer então que você está numa situação na qual precisa demonstrar inteligência e "espírito independente", mas não sabe muito bem como fazer isso? Precisa fazer uma média com aquele seu professor marxista de História ou de sociologia? Quer causar uma boa impressão naquela rodinha de colegas "intelectuais" que se reúnem no bar da faculdade e com quem você está tentando se enturmar? Quer "lacrar" numa discussão na internet? Nada mais fácil: ataque a Igreja Católica. Nem precisa entrar em controvérsias teológicas (aliás, isso nem é aconselhável, pois o seu "público-alvo", incluído aí o professor marxista, não entenderia nada): basta falar de como ela incitou o ataque (gratuito e sem provocação, é claro) aos coitadinhos dos muçulmanos nas Cruzadas, matou milhões de pessoas inocentes (todas inocentes, naturalmente) na Inquisição, tramou esquemas manipulando reis e Estados, só para ficar mais rica e poderosa, empatou o progresso da ciência durante séculos, legitimou a escravidão declarando que os negros "não tinham alma"… Isso são apenas alguns exemplos. A lista de distorções, meias-verdades, exageros e simples mentiras deslavadas é longa e você pode escolher à vontade sem perigo de errar. Basta enfileirar duas ou três observações (pouco importa o quão tolas e sem fundamento: sendo contra a Igreja, qualquer coisa serve, e não é preciso provas) sobre qualquer um desses pontos, e pronto: você deu a impressão de que é inteligente e estão garantidos os aplausos.

Muito bem, mas e a verdade? A Igreja Católica, praticamente sozinha, foi a responsável por manter a civilização ocidental viva quando o Império Romano desmoronou e povos bárbaros tomaram conta da Europa; mais tarde, também foi ela, e ainda praticamente sozinha, quem conseguiu domar esses mesmos povos bárbaros e criar condições para que a civilização voltasse a florescer – e não torçam o nariz quando falo em civilização: barbárie só é bacana em história do Conan. Dentro dos muros de mosteiros e abadias (católicos, não é demais lembrar), bibliotecas bem organizadas preservaram o conhecimento do mundo greco-romano, em livros que os bárbaros teriam queimado sem pensar duas vezes… Que digo eu? Sem pensar sequer uma vez. Foi dentro desses mesmos muros que a ciência moderna deu seus primeiros passos, sim senhor. Foi em torno da fé católica que tribos e grupos étnicos que não tinham mais nada em comum se uniram para formar os primeiros Estados nacionais da forma como os entendemos. Hospitais e universidades? Devemos à Igreja Católica. Devo continuar? Poderia ir longe, mas creio que basta por enquanto.

Este livro, escrito por um sujeito chamado John Zmirak (uma das principais cabeças por trás do site e jornal The Stream), mostra mais uma vez que sempre há coisas a aprender, mesmo sobre assuntos que acreditamos já dominar. Não que eu alguma vez tenha alimentado a ilusão de saber tudo sobre a Igreja Católica, apesar de haver congregado nela durante toda a minha vida, o que, agora, já significa um tempinho bem considerável. Porém, a Igreja é uma realidade imensa e complexa, que não se pode ver ou abarcar com a inteligência de uma vez só, e há de fato um ou dois temas específicos ligados a ela que eu acreditava conhecer bem – até agora. A oportunidade de aprender mais sempre me deixa contente, e ainda mais se for num livro como este, escrito do jeito que me agrada: com uma levada dinâmica, um assunto conduzindo ao outro com fluência, mas sem nunca perder o foco, numa linguagem rica e elaborada, sem pedantismo desnecessário, e valorizada, nesta edição, por uma tradução de qualidade, coisa que, infelizmente, vem se tornando cada vez mais rara em edições brasileiras – parabéns e obrigado ao tradutor Raul Martins (OK, há alguns problemas de português aqui e ali, mas nada que comprometa). Por outro lado, recomendo que desconsiderem a capa de péssimo gosto, feita por um tal Fernando Mena. O que dá pena é saber que o livro será lido mais por católicos mesmo, e dificilmente chegará às mãos daqueles que mais precisariam lê-lo. Mas vamos ver o lado bom: há tantos assuntos importantes aqui, e esmiuçados de forma tão eficiente, que quase nenhum católico do planeta poderá percorrer estas 367 páginas e, ao final, dizer que não leu nada que já não soubesse.

Nota-se que Zmirak se esforçou, entre outras coisas, para dar ao leitor um panorama o mais atual possível da situação vivida pela Igreja (talvez um cacoete trazido do jornalismo), o que terá a desvantagem de deixar parte do livro datada depois de alguns anos. Por outro lado, a maior parte dele trata de temas que serão sempre atuais – e mesmo aquilo que ficar datado terá o valor de registro histórico deste turbulento início de milênio. Como boa parte dos católicos mundo afora, Zmirak não parece lá muito contente com certas atitudes do atual papa, Francisco. Partindo disso, o autor aborda seu primeiro ponto: a noção equivocada que muita gente (inclusive muitos católicos) tem, de que o fiel católico tem por obrigação aceitar tudo o que o papa disser sobre qualquer assunto – e, mais equivocado ainda, de endossar tudo o que ele fizer. Os pseudointeligentes aos quais eu me referia no início do texto ouvem falar no dogma da infalibilidade papal e, sem se darem ao trabalho de procurar saber o que isso realmente significa, abrem logo a boca: "Mas cooomo? Como assim, o papa é infalível? E todos os papas corruptos e assassinos que existiram? Eles também eram infalíveis?" Que fique claro: a infalibilidade é, de fato, um dogma da Igreja, mas só se aplica ao que o papa declarar ex cathedra, quer dizer, às suas declarações oficiais sobre a fé e a moral – e somente sobre esses assuntos. Ao fazer esse tipo de declaração, o papa está amparado pelo Espírito Santo, que, no interesse de toda a Igreja, o preserva do erro… Desnecessário dizer que isso é um artigo de fé, o que significa que é algo em que a pessoa simplesmente acredita ou não acredita – e, se você não é católico, é muito provável que não acredite. Em todo caso, as declarações papais a respeito de fé e moral têm-se mostrado de uma notável constância e consistência ao longo desses vinte séculos repletos de chuvas e trovoadas de todos os tipos.

Passando para outros temas, entretanto, a coisa toda é diferente. Se o papa quiser emitir opiniões sobre política ou ecologia, é claro que ele pode, mas essas serão meramente suas opiniões, com as quais nenhum de nós tem a obrigação de concordar, e, no que se refere a sua conduta pessoal, ele é tão falível e propenso ao erro quanto qualquer outro homem. Os papas indignos registrados pela História tomaram o cargo, ou foram colocados nele, por meio de manobras escusas, e unicamente por causa do poder político que ele trazia junto; não estavam minimamente interessados em espiritualidade e não me consta que tenham feito declarações oficiais sobre fé e moral – o que, com a licença dos incrédulos, nós acreditamos ser mais um indício da ação do Espírito Santo. Mais ainda: bulas, encíclicas e demais documentos redigidos pelo papa, ou por ele determinados, destinam-se a esclarecer pontos da fé e nortear a conduta da Igreja e dos fiéis diante de novas circunstâncias trazidas pelas constantes mudanças que o mundo atravessa. Consistem em orientação, não são declarações ex cathedra, e não são infalíveis. O fiel católico deve prestar-lhes atenção e levá-los em grande consideração, como o faria com o conselho de qualquer pessoa sábia e instruída, mas não é obrigado a aceitar tudo o que contenham. Por fim, há que se observar que declarações papais apoiadas no dogma da infalibilidade são muito raras: o dogma (que já existia de forma implícita desde os primeiros tempos da Igreja) foi oficialmente proclamado durante o concílio Vaticano I, que ocorreu em 1869-70, e, desde então, foi aplicado apenas duas vezes.

O livro prossegue tocando em pontos que, por vezes, se mostram espinhosos para os católicos de hoje; é claro que não tem como oferecer soluções para a maioria deles, mas consegue esclarecê-los bastante e, de modo geral, fornecer um lembrete de como deveríamos agir em relação a cada uma dessas questões, caso queiramos ser católicos de verdade, e não meros "católicos de IBGE". Não que isso seja fácil, é claro. A questão da contracepção, por exemplo: historicamente, a Igreja sempre a considerou reprovável, e até hoje não aprova o uso de coisas como pílula e camisinha – mas não venham querer culpar a Igreja por haver tanta gente por aí transando sem proteção: se o povo ligasse para o que a Igreja diz sobre vida sexual, manteria abstinência até o casamento e fidelidade a partir daí, de modo que o risco das doenças venéreas praticamente não existiria e a tal proteção seria desnecessária. Não vou ser hipócrita e dizer que sempre segui esses preceitos à risca (sou solteiro e já mantive relacionamentos íntimos, sim; como Zmirak, assumo minha condição de mau católico), mas o fato é que, embora ele possa parecer nada mais que um moralismo ultrapassado, na verdade é a única orientação que a Igreja pode efetivamente oferecer sobre esse assunto sem trair alguns de seus princípios mais fundamentais – o primeiro deles sendo o de que não estamos neste mundo a passeio: há um Deus que colocou uma ordem nas coisas e espera de nós que ajamos em conformidade com ela. O problema com os contraceptivos, na visão da Igreja, é que eles desvinculam o sexo da função que o Criador lhe atribuiu, que é a da reprodução. Conhecendo a natureza humana (e, creiam, a natureza humana é algo que a Igreja, ao longo desses dois mil anos, teve oportunidade de conhecer muito bem), fica evidente para qualquer um que, uma vez rompido esse vínculo, o sexo vira um reles parque de diversões – e alguém aí vai negar que é exatamente assim que a sociedade moderna e secularizada o compreende? A Igreja não pode compactuar com isso e continuar sendo a Igreja. Ponto. Ninguém jamais disse que ser católico era fácil.

Por outro lado, mesmo o sexo dentro do casamento tem as suas complexidades. A Igreja não pretende que todo ato sexual entre marido e mulher resulte num filho, mas ensina que, se e quando isso acontecer, a criança gerada deve ser recebida com amor e educada com responsabilidade. Isso vale hoje como valia há quinhentos, mil ou dois mil anos. O que mudou foram outras coisas. Em séculos anteriores, controlar a quantidade de nascimentos não era uma preocupação, nem para a sociedade, nem para as famílias. Um casal dificilmente poderia ter filhos demais: tê-los em grande número era uma necessidade. Era preciso ter uns dez para que houvesse ao menos uma boa chance de que dois ou três chegassem à idade adulta. Além disso, nas sociedades eminentemente rurais desses tempos, o custo de se criar um filho era baixo, já que só era necessária uma educação rudimentar, e ele podia, desde tenra idade, começar a ajudar os pais no trabalho. Ocorre que, de lá para cá, o progresso da medicina e a melhoria das condições de vida da população em geral fizeram as taxas de mortalidade infantil despencarem, ao mesmo tempo em que a urbanização da sociedade, com a consequente demanda por profissionais cada vez mais especializados, passava a exigir um outro tipo de educação – mais demorada e mais cara. Em resumo: se, como no exemplo acima, o casal tivesse dez filhos, agora era provável que todos os dez sobrevivessem, e todos precisavam ir para a escola. Nessa nova realidade, não seria razoável da parte da Igreja censurar os casais que quisessem limitar os nascimentos na família ao número de filhos que pudessem efetivamente alimentar e educar. Mas, nesse caso, como fica? Se você só pode criar três filhos e já tem os três, deve simplesmente parar de fazer sexo com sua esposa ou marido? A resposta, que poderá surpreender a muitos, é um redondo não, pois, ainda que a função natural do sexo seja a reprodução, ele não pode ser reduzido apenas a isso: é também parte importante da vida e da intimidade de um casal. Para resolver o problema, a Igreja recomenda o que chama de métodos naturais, que consistem basicamente em calcular os períodos férteis da mulher e evitar fazer sexo durante os mesmos; se isso funciona na prática, é controverso. Além disso, uma mudança de entendimento não parece impossível, ao menos não desde que o papa Bento XVI admitiu que o uso da camisinha é aceitável em certas situações, o que sinaliza que o problema não é a camisinha em si, mas o modo como ela vem sendo usada e propagandeada: como um instrumento para desvincular o sexo de qualquer tipo de compromisso ou responsabilidade.

Sobre não ser fácil ser católico, como dito acima, Zmirak escreve: "É claro, há muitos pontos nos quais a fé cristã tradicional, e sobretudo em sua forma católica, é frustrante e exigente. Não precisaríamos do sacramento da Confissão se viver uma vida cristã nos fosse algo natural, como respirar, comer ou fazer valer nossa vontade às custas dos outros." O livro está coalhado de espetadas certeiras e cruamente realistas como essa. Ao longo das últimas décadas, e particularmente no ocidente, a mídia e uma educação tendenciosamente torta têm tentado criar nas mentes a ideia de que a natureza é sempre o modelo de perfeição e de que o melhor que fazemos é obedecer sempre a ela, o que significa sempre seguir nossos instintos – mas uma análise um pouco mais profunda da questão leva-nos a perceber que isso equivaleria a assinar embaixo de atos como roubo, assassinato e estupro, que são, sim, tendências naturais em primatas como nós, como o estudo do comportamento dos nossos primos quase irmãos, os chimpanzés, não deixa dúvida. O que nos faz seres racionais, capazes de respeitar os direitos uns dos outros e de viver em sociedade, é a nossa capacidade de contrariar os nossos instintos, quando eles nos querem levar a ter comportamentos antissociais. Em outras palavras, nossa capacidade de decidir quando obedecer à natureza e quando lutar contra ela – o que sempre foi uma das bases do ensinamento da Igreja.

Afora as questões que dizem respeito a todo católico em qualquer lugar do mundo, Zmirak (talvez de forma não premeditada, o que torna tudo mais revelador) acaba por nos oferecer um vislumbre de como é ser católico nos Estados Unidos, país predominantemente protestante, onde, não raras vezes ao longo da História, professar a fé romana foi fator de discriminação: dependendo da época e da região do país, ser católico não era mais fácil, nem mais seguro, que ser negro ou judeu. Além disso, o autor expõe seu parecer, na qualidade de católico, sobre diversas questões da realidade do país, também aplicáveis, em maior ou menor grau, a outros países. A ideia do presidente Trump de construir um muro na fronteira dos EUA com o México, por exemplo, pode ser uma maluquice pra ninguém botar defeito – mas a imigração descontrolada é um problema real, não mera paranoia. E, no entanto, o papa Francisco costuma falar como se fosse um dever moral de toda nação próspera receber de braços abertos qualquer imigrante que a procure, isso apesar de o próprio Catecismo da Igreja Católica prever que esse acolhimento deve ocorrer "até onde for possível", e não parece descabido interpretar esse "até onde for possível" como significando que uma nação não deve descuidar de seus próprios cidadãos porque precisa se virar com um número absurdo de imigrantes. Zmirak se alonga, nessa parte, discorrendo sobre os efeitos da política de imigração sobre a sociedade dos EUA, o que pode parecer sem relação com a realidade dos não-estadunidenses, mas não é bem assim – primeiro, porque muito do que acontece lá também acontece em outros países, e segundo, porque, queiramos ou não, o que afeta os EUA também nos afeta indiretamente.

E, se a torrente de imigração preocupa os norte-americanos, o que dizer, então, da Europa? Os europeus estão tendo cada vez menos filhos, pelos motivos discutidos acima, e isso parece ser uma questão de mentalidade, fora do alcance da influência quer da Igreja, quer do Estado, pelo menos a curto prazo. Enquanto isso, levas intermináveis de imigrantes chegam todos os anos – a maioria deles oriundos de países muçulmanos. É claro que, em sua vasta maioria, são pessoas de bem, que querem apenas encontrar trabalho e construir prosperidade para si e suas famílias… Mas nem todos, como mostra o fato de muitos dos atentados "em nome do Islã" praticados nos últimos anos na Europa terem sido obra de pessoas que entraram nela legalmente; em alguns casos, até mesmo de filhos de imigrantes, que já nasceram no novo país, têm cidadania nele – e, mesmo assim, o atacaram. Mesmo que não houvesse o perigo do terrorismo para ser levado em conta, é inevitável nos perguntarmos que efeitos terá, a longo prazo, essa entrada maciça de muçulmanos na Europa, principalmente no aspecto cultural. Em palavras simples: o que isso fará com a identidade do ocidente? Na Idade Média, a Igreja convocou as Cruzadas, que, embora execradas pela corja politicamente correta, salvaram nossa civilização… Acontece que, como costumo dizer, os cruzados contavam, ao menos, com a vantagem de saber quem era o inimigo e onde ele estava. Hoje, o inimigo pode ser qualquer um, em qualquer lugar.

Não estou de acordo com todos os pontos de vista de Zmirak, é claro. A defesa veemente que ele faz do direito à posse e ao porte de armas, por exemplo, parece ter muito mais a ver com sua formação de americano-de-classe-média-que-sempre-vota-nos-republicanos que com a fé católica – e, antes que alguém me interprete mal, esclareço que não sou radicalmente contra esses direitos, nem irrestritamente a favor deles: como em tudo na vida, o meio-termo é a melhor coisa. O modelo norte-americano, que permite que praticamente qualquer um compre uma arma como quem compra um guarda-chuva, é insensato, mas tampouco parece certo negar às pessoas qualquer meio prático de defender sua integridade física e a de sua família, bem como seu patrimônio. Por isso, acho válido que se tenha armas, desde que o controle seja rígido, constante, e inclua todos os testes psicológicos possíveis, que deveriam ser repetidos com frequência. Se você quer ter uma arma, prove que é equilibrado e responsável o suficiente para fazer bom uso dela – que não é apenas mais um babaca que se acha um "cidadão correto" e sairá dando tiros na primeira discussão de trânsito em que se envolver. Por outro lado, um dos capítulos mais interessantes do livro é aquele no qual Zmirak se dedica a desfazer uma ideia muito comum – tão comum, de fato, que um número enorme de católicos acredita nela: o de que o católico, e o cristão em geral, deve ser um pacifista, incapaz de matar um mosquito, não importa a situação. O papa Paulo VI liquidou o assunto (ou assim deveria ter sido) ao declarar que o cristão ama a paz, mas não é pacifista. "Paz a qualquer preço" é uma ideia ingênua (na qual, confesso, eu mesmo já acreditei); a posição da Igreja, e, a meu ver, a de qualquer pessoa realista, é a de que, embora a guerra seja sempre um mal, há momentos na História em que ela é o mal menor. Junto com as questões das armas e da guerra, Zmirak debate também a da pena de morte – assunto esse no qual faço grandes ressalvas aos pontos de vista que ele expressa, embora precise admitir que o faz de forma coerente e bem argumentada.

O capítulo X trata da relação entre a fé católica e a ciência – e não deixa sobrar nada da noção, tão difundida, de que a Igreja fez e faz tudo ao seu alcance para impedir o progresso científico e manter a humanidade eternamente aprisionada numa bolha de obscurantismo. Esse é um dos porretes favoritos dos que querem bater na Igreja, e podemos retraçar sua origem até os filósofos iluministas da segunda metade do século XVIII – eles mesmos, os mentores intelectuais da Revolução Francesa, cujos virulentos ataques ao cristianismo e particularmente ao catolicismo tinham clara intenção política, pois o apoio da Igreja era um dos pilares do poder dos reis, o que levava tais filósofos a se sentirem na obrigação de tentar demoli-la. Destacam-se nomes como Diderot, Montesquieu e, principalmente, Voltaire (1694-1778), consumado hipócrita que escrevia manifestos contra a escravidão que levavam seus leitores às lágrimas e, enquanto isso, investia suas economias pessoais em ações de navios negreiros. Não por acaso, foi Voltaire quem inventou e alardeou o quanto pôde que a Igreja afirmava que os negros não tinham alma e que, por isso, não havia problema em escravizá-los – estupidez essa até hoje repetida à exaustão quando alguém que acha que sabe algo sobre alguma coisa quer parecer "crítico" e inteligente. Um pouco de pesquisa séria e imparcial (o que, claro, é pedir demais a esse tipo de gente) revela a realidade: a escravidão era simplesmente algo que sempre tinha existido e que a Igreja não tinha poder para mudar, ao menos não sozinha; sendo assim, fazia o que estava ao seu alcance, exortando a quem tivesse escravos para que os tratasse de forma justa, sob pena de pecar gravemente – o que pode parecer ridículo para a mentalidade atual, mas constituía preocupação séria para a maioria das pessoas naquela época. E tem mais: será que ninguém se pergunta por que é que a Igreja sempre insistiu para que todos os escravos fossem batizados? Se fizesse parte da crença católica que os negros não tinham alma, batizá-los seria como batizar bezerros – inútil além de sacrílego.

Mais uma vez, divaguei: a maior parte do que vai no parágrafo anterior não está no livro de Zmirak, que só toca muito de passagem nos filósofos iluministas; mesmo assim, trata-se de informação que considero relevante, de modo que fica como está. Voltemos agora ao capítulo X, do qual eu estava começando a falar.

O fato nu e cru, meus amigos, é que a Igreja não empatou o progresso científico – ela o promoveu, e Zmirak se sai muito bem em mostrar que, apesar das notáveis realizações intelectuais de todas as civilizações antigas, foi necessária a cosmovisão cristã da Europa medieval para que a ciência experimental pudesse nascer. Enquanto os antigos enxergavam o universo como uma realidade essencialmente caótica, na qual seria impossível ao intelecto humano se aprofundar muito, a filosofia de base cristã via esse mesmo universo como a criação de um Ser racional e que, portanto, possuía uma ordem que refletia a mente de Deus; como a nossa mente, por sua vez, foi feita à imagem e semelhança da do Criador, não nos seria impossível chegar a compreender (mesmo que de forma limitada) a natureza de Sua obra. Daí porque cientistas cristãos – muitos deles padres ou monges – construíram, no decurso de alguns séculos, mais conhecimento científico prático do que havia sido alcançado em milênios antes. Mesmo casos como o de Galileu Galilei (que, por falar nisso, foi sentenciado à prisão domicilar, e não queimado na fogueira, como já ouvi vários "gênios" afirmarem) muitas vezes não foram bem do jeito que nos contaram: Galileu, em que pese seu brilhantismo científico, tinha um temperamento difícil e sérios problemas de ego, o que o levou a comprar brigas com autoridades eclesiásticas por motivos que pouco tinham a ver com sua teoria heliocêntrica.

E, é claro, um capítulo sobre Igreja e ciência não estaria completo sem dedicar alguma atenção à questão "Deus x Darwin"… Para começar, colocar a coisa nesses termos, como se Darwin alguma vez tivesse tentado se igualar a Deus, ou como se crer num deles fosse necessariamente sinônimo de descrer do outro, é uma visão simplista e tola, propícia ao sensacionalismo de certos setores da mídia – ou ao fundamentalismo burro. Zmirak dá o recado, embora de forma muito resumida, dedicando à questão da evolução muito menos espaço do que já houvera dedicado a assuntos, a meu ver, bem menos relevantes; a impressão que tive foi de que ele próprio não simpatiza muito com Darwin, embora esteja de acordo com o fato de que não é preciso jogar fora A Origem das Espécies para ser fiel à Bíblia, ou vice-versa. O que precisamos notar é que, apesar de alguns cristãos fundamentalistas (em geral de igrejinhas protestantes picaretas, mas há um ou outro católico no meio) ainda hoje insistirem em ler o Gênesis ao pé da letra, a posição oficial da Igreja é a de que o livro é, em grande parte, alegórico. O autor bíblico (e, cremos nós, o próprio Deus ao inspirá-lo) não estava querendo nos ensinar ciência, mas apenas transmitir a verdade básica de que tudo o que existe tem em Deus sua origem primeira; como, exatamente, essa criação se deu, está aberto à investigação. E, como diz o ditado, quem procura acha: sinais da evolução estão por toda parte. Baleias possuem certos ossos sem função alguma, vestígios das patas traseiras que seus ancestrais, animais terrestres, um dia tiveram. Da mesma forma nós próprios, humanos, ainda temos algumas vértebras caudais. A ordem de mamíferos conhecida como os monotremos se distingue pelo fato de pôr ovos e amamentar os filhotes que saem deles – um claro indicativo de que os mamíferos evoluíram a partir dos répteis. Até mesmo nossos dentes não passam de escamas modificadas!… Quem rejeita a teoria de Darwin, geralmente não a entendeu, e os poucos que entenderam e ainda assim a rejeitam, o fazem por pura ideologia, não por uma convicção baseada em evidências. Há inúmeras pessoas religiosas instruídas que aceitam tranquilamente a ideia da evolução, e, do outro lado, há também muitos cientistas evolucionistas que acreditam em Deus – vide o "evolucionismo teísta" defendido por Alister McGrath. A meu ver, aceitar a teoria da evolução (que, como disse o papa São João Paulo II, na verdade "é mais que uma teoria") não conflita de forma alguma com a crença em Deus; pelo contrário, um sistema tão perfeito aponta para a existência de um Intelecto que deve tê-lo coordenado.

E creio que já escrevi o suficiente: isso tudo já dá um bom vislumbre dos assuntos tratados neste Manual Politicamente Incorreto do Catolicismo, cuja leitura recomendo sem dúvida para católicos interessados em conhecer melhor sua Igreja e a fé que ela professa, e para não-católicos dotados desse dom, hoje em dia tão raro, que chamamos de honestidade intelectual, em grau suficiente para desejar conhecer a verdadeira história, missão e propostas dessa instituição tão falada e tão pouco compreendida, antes de começar a apedrejá-la. Há uma pá de outros assuntos abordados no livro e sobre os quais fiquei tentado a discorrer, mas isso deixaria o texto longo demais (desconfio que ele já esteja, de qualquer forma). Terei oportunidade de tocar nesses assuntos quando estiver comentando outros livros, tanto de ficção quanto de não-ficção, que já estão na minha lista. Então, vamos para a conclusão.

Uma análise histórica isenta, independente da crença, ou falta dela, de cada um, mostra que, desde os filósofos iluministas, como visto acima, um grande esforço vem sendo feito para difamar e desacreditar a Igreja, e que a quase totalidade dos órgãos da mídia em nossos dias está firmemente comprometida com esse objetivo, seja por estar nas mãos dos inimigos da Igreja ou porque os profissionais que dirigem esses órgãos, e produzem o conteúdo que veiculam, foram adequadamente doutrinados e agora acreditam sinceramente estar divulgando a "verdade". O que se quer, em resumo, é que aqueles ainda suficientemente teimosos para continuarem a ser católicos tenham vergonha de fazer parte da Igreja e cultivem uma atitude do tipo "desculpem-me por ser católico", quando, na verdade, deveriam ter orgulho disso. Coisas como as Cruzadas e mesmo a Inquisição (nomes que soam praticamente como palavrões aos ouvidos de muita gente) na realidade foram muito diferentes daquilo que a mídia quer que o público acredite que foram: houve abusos e arbitrariedades como sempre há em qualquer empreendimento humano (abusos e arbitrariedades quase sempre cometidos por indivíduos ou grupos, e que a Igreja teria impedido se pudesse), mas elas tiveram sua razão de existir e, cada uma a seu modo, evitaram grandes desastres em suas respectivas épocas.

Em nossos dias, a tirania do politicamente correto tornou-se o principal instrumento usado para tentar impedir a Igreja de levar a cabo sua missão, ou deveria dizer suas missões; a primeira é aquela que Cristo tinha em mente ao fundá-la, e que consiste em ajudar homens e mulheres a salvarem suas almas, mas há outra que ela tomou sobre si ao longo dos últimos dois milênios, que é a de manter a civilização ocidental de pé, por mais atacada que ela seja e por mais que também tente se autodestruir. O pior é ver que muitos católicos (até mesmo sacerdotes) se deixam levar por esse discurso castrador e hipócrita. Tornou-se "feio" dizer a verdade sem eufemismos e chamar as coisas pelos nomes que elas têm. Em tal cenário, o aparecimento de livros como este é providencial – e para nós, católicos, literalmente, pois pode ser visto como um sinal da providência divina. Como disse antes, só tenho pena de que o livro de Zmirak dificilmente será lido por aqueles a quem mais poderia fazer bem. Ninguém é obrigado a partilhar da nossa fé, mas, para os que partilham, a promessa de Cristo ("Pois eu te digo, tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16:18) é uma injeção diária de coragem e uma garantia da vitória final, pouco importa o quão numerosos e poderosos sejam os inimigos, ou de quanta perfídia façam uso.

quinta-feira, julho 30, 2009

O Delírio de Dawkins

“Dawkins está correto - inquestionavelmente correto - quando propõe que não embasemos a vida em delírios. Precisamos examinar nossas crenças - em especial se formos ingênuos o bastante para acreditar, primeiramente, que não temos nenhuma. No entanto, pergunto-me: quem está, de fato, iludido sobre Deus?” (Alister McGrath)

Antes de se transformar no guru do ateísmo "científico" que se contenta em ser hoje, o biólogo britânico Richard Dawkins foi por muito tempo um dos mais bem-sucedidos dentre os cientistas que se ocupam da delicada e por vezes espinhosa missão de tornar a ciência inteligível para o leitor não especializado. Suas obras de divulgação científica inspiraram e despertaram entusiasmo e curiosidade em muita gente, e, só por isso, ele já seria merecedor de algum crédito. Isso tudo torna ainda mais difícil de compreender o fato de que ele hoje se empenhe, de forma absolutamente fanática e amarga, numa contínua tentativa de dissuadir a humanidade de qualquer tipo de crença na divindade, levantando a bandeira de que "a ciência explica tudo". Com esse objetivo, escreveu um verdadeiro tijolo de mais de 500 páginas, intitulado Deus: um Delírio, onde tenta provar por A mais B que a crença em Deus não passa de uma herança perniciosa e ridícula que ficou de épocas supersticiosas, e que seria melhor extirpar de uma vez, já que, além de inibir o pensamento crítico e obstruir o avanço da ciência, ela se constitui (segundo ele) na "raiz de todo o mal" sofrido pela humanidade. Para dar a resposta necessária, ninguém melhor que um colega de Dawkins (ambos são professores na Universidade de Oxford) que, ateu na juventude, converteu-se ao cristianismo, e, hoje, doutor tanto em biologia molecular quanto em teologia, está preparado como poucos para discorrer sobre o conflito (se é que precisa ser um conflito) entre ciência e fé. Este é Alister McGrath, autor de O Delírio de Dawkins.

Tendo sido durante anos um admirador do trabalho de Dawkins como cientista e divulgador da ciência, McGrath mostra-se perplexo de constatar o quanto seu colega afastou-se da razão que alega defender, com o objetivo de propagandear suas idéias ateístas. Não o critica por ser ateu - pois esse é um direito que assiste tanto a Dawkins quanto a qualquer pessoa, assim como o direito de ter fé, se tal for a sua opção -, mas pela atitude inflexível, intolerante e, surpreendentemente, cheia de dogmas que ele demonstra em seu livro.

Tive o primeiro contato com a obra de Dawkins quando tinha uns 18 anos de idade e encontrei por acaso seu livro O Relojoeiro Cego na livraria da universidade. Na época, eu vivia contando os tostões (não raro, saía de casa só com o dinheiro certo para o ônibus), de modo que não tinha a menor condição de comprá-lo, mas voltei diversas vezes só para ler mais um trecho, sentindo-me cativado pela defesa vigorosa e apaixonada que Dawkins fazia do darwinismo, e que me parecia ser uma prova cabal de que uma atitude científica podia, sim, ser conciliada com a intensidade emocional e, por conseguinte, com uma certa forma de idealismo. Para qualquer pessoa que, sem a obrigação acadêmica ou profissional de fazê-lo, movida apenas pela curiosidade e pelo amor ao conhecimento, haja se dado ao trabalho de estudar de fato a teoria da evolução e de se inteirar do que ela realmente diz, há pouca coisa mais exasperante que ouvi-la ser atacada por pessoas que, nos próprios "argumentos" (?) que usam, entregam o fato de que nunca chegaram sequer a entendê-la - nem querem, pois, caso a entendessem, correriam o risco de começar a achar que ela faz sentido.

Embora isso possa parecer uma desnecessária divagação pessoal, creio que pode ser útil, por ilustrativo, sintetizar aqui a experiência intelectual de um leitor de Dawkins no tocante ao suposto choque "Ciência x Religião". O que há é que sou e fui católico toda a minha vida; sou também um darwinista convicto, e nunca vivi um só instante de conflito devido ao fato de ser ambas as coisas. Para mim, a evolução biológica é um fato além de qualquer contestação possível; a dúvida que ainda paira em torno dela reside somente em ainda estarmos longe de compreender integralmente de que forma ela acontece. O livro do Gênese não precisa (nem deve) ser lido literalmente - trata-se de uma alegoria, e, também, de uma explicação adaptada à compreensão das pessoas da época. Não há nada de intrinsecamente anti-religioso em aceitar a noção de que a natureza segue seu curso, submetida a determinadas leis - uma das quais é a da evolução, que determina que as espécies vivas se transformem, ao longo de milhares ou milhões de anos, a fim de melhorar suas chances de sobrevivência dentro das condições impostas pelo ambiente. Tal noção nada tem de incompatível com a crença em Deus: conforme a expressão extraordinariamente feliz empregada por McGrath, "Deus deu corda ao relógio e, então, deixou-o trabalhar por si". A atitude de certas correntes religiosas (ou, talvez, nem isso: a de alguns indivíduos dentro delas), sim, é anticientífica ao usar a crença como uma fonte de respostas fáceis: quando defrontadas com qualquer mistério ou indagação relacionada a algum fenômeno da natureza, essas pessoas simplesmente declaram que "isso é assim porque Deus quer que seja assim e pronto". Esse tipo de atitude me enoja e revolta. Ninguém agrada a Deus sendo burro, e menos ainda usando o nome d'Ele como desculpa esfarrapada para a própria preguiça de pensar. O que Dawkins faz, infelizmente, é fechar os olhos ao fato de que só alguns extremistas e fanáticos agem dessa forma: a fim de tentar dar consistência a seus argumentos, ele finge acreditar que toda e qualquer pessoa religiosa usa necessariamente sua crença como um álibi para a ignorância voluntária, e que, portanto, fé é incompatível com ciência. Ele se empenha para vender sua idéia de que o verdadeiro cientista deve ser ateu - e, para vendê-la, está disposto a fazer o que for necessário, inclusive manipular informações. Nas palavras de McGrath, "um dos traços mais característicos da polêmica anti-religiosa de Dawkins é apresentar o patológico como o normal, o extremo como o centro, o excêntrico como o padrão. Isso em geral funciona bem para o seu público, que supostamente pouco conhece de religião e, com muita probabilidade, menos ainda se importe com ela. O que, no entanto, não é aceitável nem científico."

E, de fato, nota-se que muitas vezes Dawkins torna-se o que poderíamos chamar um "cego guiando cegos", pois não consegue ocultar que desconhece a coisa que está atacando. Ao contrário de outros autores ateus, como Christopher Hitchens, que pelo menos sabe do que está falando, o autor de Deus: um Delírio mostra-se deploravelmente ignorante em matéria de cultura religiosa. Por tal razão, o maior efeito que seu trabalho atual alcança é o de perpetuar preconceitos - coisa que, a meu ver, deveria estar abaixo da dignidade de qualquer pessoa que se pretenda um cientista. Pintando todos os cristãos - aliás, todos os adeptos de qualquer religião - como fanáticos pervertidos e auto-iludidos, Dawkins age como os homens que o imperador Nero mandava infiltrarem-se pelos mercados e tavernas de Roma, para espalhar rumores de que os cristãos praticavam incesto e canibalismo em suas reuniões secretas - tudo para preparar a opinião pública para uma perseguição em massa contra essa estranha seita. Contra os pontos levantados por Hitchens, é possível ter uma discussão decente; quanto a Dawkins, tudo o que se pode fazer é desejar que ele fosse menos obtuso e tendencioso.

"A visão dawkinsiana da realidade", escreve McGrath, "é uma imagem invertida da concepção encontrada em algumas das seções mais exóticas do fundamentalismo americano". Outra frase certeira. Talvez a coisa mais surpreendente na argumentação de Dawkins, e na visão de mundo por trás dela, seja perceber o quanto ele se tornou dogmático em seu próprio antidogmatismo. Acusa os religiosos de serem "imunes a qualquer argumentação" e de teimarem em manter suas crenças "a despeito da ausência de qualquer evidência - e até mesmo contra ela", mas não parece se dar conta de que faz as mesmas coisas de que acusa os outros. A mim parece que fanatismo algum pode ser bom - não importa que seja fanatismo teísta ou ateísta. Não admira que nem mesmo a maioria dos cientistas que são ateus simpatizem com Dawkins e muito menos queiram ter seus nomes associados, de qualquer forma que seja, ao dele: não se pode querer que um sistema de idéias seja levado a sério, quando alguém que se diz seu representante parece querer que todos os que pensam diferente sejam queimados na fogueira. McGrath menciona que "um respeitável cientista ateu, colega em Oxford, me pediu (...): 'Não julgue todos nós por essa conversa fiada pseudo-intelectual'". Outro cientista, Michael Ruse, igualmente ateu, registrou, e McGrath relata: "Quando João Paulo II escreveu uma carta endossando o darwinismo, a resposta de Richard Dawkins foi simplesmente dizer que o papa era hipócrita, que ele não podia falar genuinamente sobre a ciência e que o próprio Dawkins preferiria um fundamentalista honesto." Evidentemente que preferiria: isso lhe daria excelente motivo para lançar mais farpas contra a Igreja Católica e, por extensão, contra o cristianismo em geral, acusando-o de ser anti-ciência. E, claro, pela ótica de Dawkins, qualquer religioso que se declare favorável à ciência está sendo "hipócrita"...

Não há dúvida de que o mundo estaria melhor sem o fundamentalismo religioso - mas será que seria vantagem substituí-lo pelo fundamentalismo ateu de Dawkins? É realmente digno de lástima que um cientista de tanto mérito se empenhe hoje nesse tipo de "cruzada anti-Deus", ao invés de devotar sua energia e entusiasmo ao progresso e à divulgação da ciência, como fez durante tanto tempo, mas talvez não haja muito o que fazer além de ter esperanças de que Dawkins acabe vendo a luz - não uma luz divina, já que despreza tal idéia (e tem todo o direito de fazê-lo), mas a luz da razão, essa mesma razão que ele tanto defende com palavras e da qual tanto se desvia com suas atitudes.