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quinta-feira, janeiro 13, 2022

The Videssos Cycle, vol. I: The Misplaced Legion

Já não sou propriamente jovem, pois nasci na década de 70, e, sendo assim, tenho idade suficiente para me lembrar bem de como era frustrante ser um leitor voraz e apaixonado por fantasia e aventuras épicas no Brasil durante os anos 80 e início dos 90 (já comentei isso antes). Não havia interesse por parte dos editores nacionais em publicar esse tipo de material, e nem mesmo saber inglês resolvia o problema (não que eu já soubesse na época), pois não tínhamos a internet para fuçar em busca de raridades; então, quando líamos em algum lugar uma referência e a breve descrição de alguma obra fascinante e jamais publicada no país, geralmente só podíamos ficar imaginando e chupando o dedo. Algumas existiam em edições portuguesas, mas consegui-las era trabalhoso e caro – como ainda é, só que esses empecilhos, que hoje em dia não me detêm quando se trata de adquirir algo que realmente me interesse, eram intransponíveis para um mero estudante que dependia de mesada. As coisas começaram gradualmente a melhorar a partir de meados dos anos 90, quando saiu uma nova edição de O Senhor dos Anéis, que há muito estava fora de catálogo, e suas boas vendagens fizeram as editoras abrirem os olhos para o fato de que havia, sim, público para a literatura de fantasia no Brasil. De lá para cá, a coisa deslanchou, chegando ao ponto de eu me perguntar se a oferta de títulos desse tipo não se tornou um tanto excessiva… É claro que cada leitor é livre para escolher o que comprar e o que ler, porém a grande quantidade traz no meio muita coisa de baixa qualidade.

Agora que comprei um Kindle, os últimos limites caíram: dá para adquirir praticamente qualquer coisa, publicada em qualquer lugar, sem esbarrar em problemas como edições esgotadas ou a dificuldade logística de importar um livro físico que teria que vir do outro lado do mundo. Se o que você quer estiver no catálogo de e-books da Amazon (e, pelo menos até o momento, tudo em que consegui pensar estava lá), basta selecionar, digitar o número do seu cartão de crédito, e voilà: tão logo o pagamento seja confirmado, o livro estará disponível para ser lido por meio dessa maquineta milagrosa, ou no seu computador, se lhe for mais conveniente. Isso não significa que, de agora em diante, eu só pretenda comprar livros desse jeito: sou em essência um tradicionalista, e sempre continuarei apreciando o contato físico com o livro, o cheiro do papel e da tinta, o som das páginas virando, o prazer de organizar uma estante e depois olhar para ela com aquela satisfação que só os leitores apaixonados conhecem. Além disso, não quero que as livrarias tradicionais deixem de existir, então continuarei contribuindo com a minha parte para mantê-las abertas. Ainda assim, o Kindle é muito bem-vindo, por tornar acessíveis muitas obras que seria praticamente impossível conseguir de outra forma.

E uma das primeiras coisas que me lembrei de adquirir por esse novo meio foi o Ciclo de Videssos, do norte-americano Harry Turtledove (1949-). Fiquei sabendo da existência dessa saga graças ao GURPS Império Romano, um suplemento para o RPG GURPS (sigla de Generic Universal Roleplaying System), publicado no Brasil pela editora Devir, pelo menos, desde os anos 90. Muitos RPGistas não gostam do GURPS por causa de suas regras muito complexas e detalhistas, que, do ponto de vista deles, comprometem a agilidade e a fluidez do jogo, mas ele tem o grande mérito de permitir a criação de aventuras com praticamente qualquer ambientação imaginável, de fantasia medieval até faroeste e de horror gótico até espionagem moderna, sem que seja necessário aprender um novo conjunto de regras para cada cenário desses: basta aplicar as regras contidas no "módulo básico", combinadas às informações trazidas em qualquer um dos suplementos disponíveis. Nos Estados Unidos existem literalmente dezenas desses suplementos; no Brasil, a Devir publicou um punhado deles. Tive pouca experiência com RPG e nenhuma com o GURPS especificamente, mas comprei esse suplemento por estar recheado de informações sobre a Roma antiga que eram e são interessantes independentemente de seu eventual uso no jogo. Perto do final do livro, o autor C. J. Carella fornece uma série de sugestões para que os game masters que o estiverem lendo criem suas próprias aventuras, além de indicar várias obras de ficção que podem servir de inspiração. Uma delas era justamente o Ciclo de Videssos, que, como informava Carella, narra as peripécias de uma legião romana que, por efeitos de um acidente de magia, é transportada para um mundo paralelo onde a referida magia é comum – ou seja, um crossover tentador entre ficção histórica e fantasia. São ao todo quatro livros, que, na Amazon, estão disponíveis em dois volumes (pode-se falar em "volumes" quando se trata de livros virtuais?), o primeiro contendo The Misplaced Legion e An Emperor for the Legion, e o segundo, The Legion of Videssos e Swords of the Legion. Acabo de ler o primeiro livro, e ele é ainda mais empolgante do que eu imaginava!

Estamos na Gália, provavelmente um pouco antes do ano 50 a.C., durante a campanha romana, liderada por Júlio César, que terminaria com a conquista desse país e sua transformação em província de Roma. Sob o comando do tribuno Marco Emílio Escauro, um destacamento composto por três coortes é enviado numa missão de reconhecimento até o território da tribo Lexovii, na região do delta do Sena. Escauro é jovem, mas não parece tão cru quanto o tribuno Lúcio Túbero, da Trilogia das Águias, além de ser muito mais cordato e inteligente. Parece já estar em serviço há alguns anos e deve andar pelos seus vinte e poucos ou perto dos trinta; seu segundo em comando, o centurião Caio Filipo, gosta mais dele que de qualquer outro jovem oficial com quem tenha servido em sua longa carreira.

Escauro está um tanto apreensivo com sua missão: já tem experiência para saber que o número de homens que ele comanda (três coortes seriam algo entre 1500 e 1800 legionários) é plenamente suficiente para chamar a atenção dos gauleses, mas pode ser pouco para enfrentá-los no caso de um ataque. E o ataque vem: um caótico e inflamado exército gaulês com aproximadamente o dobro do número de homens do destacamento romano os cerca numa clareira em meio às densas florestas daquela região, e uma desesperada batalha tem início. Os gauleses, como se sabe, estavam longe de ter a mesma disciplina e habilidades táticas dos romanos (nenhum povo da época tinha), mas, ainda assim, eram oponentes temíveis. Já à noite, depois de horas de luta com muitas baixas de ambos os lados, o chefe gaulês se adianta e desafia o líder dos romanos para um combate singular. Marco não se considera nenhum herói, na verdade admite que está no exército basicamente para acumular um currículo que o ajude no futuro a alcançar suas ambições políticas (como, aliás, era o caso da maioria dos tribunos militares), mas também não é um covarde, e não recua diante do desafio.

Um detalhe que até aí parecia apenas pitoresco vai assumir agora uma importância imprevista. Marco Escauro vem de uma família originária de Mediolanum (a atual Milão), bem no norte da Itália, e parece que, em algum momento, seus ancestrais misturaram seu sangue ao de seus vizinhos gauleses, pois ele é alto e loiro, bem diferente do romano típico, de estatura mediana e cabelos escuros. E, devido a sua altura incomum, escolheu uma arma também incomum para um oficial romano: uma espada longa gaulesa, tirada de um druida que ele matou em combate algum tempo antes; essa arma é mais adequada ao comprimento de seu braço que um gládio, a espada curta que era padrão nas legiões. A espada tem uma série de sinais gravados em sua lâmina, que, considerando quem era seu proprietário anterior, sem dúvida possuem algum significado mágico para os celtas, mas isso não importa para Escauro… Até ele verificar que o chefe gaulês contra quem vai lutar também empunha uma espada com símbolos semelhantes.

Quando as duas espadas se encontram, algo inconcebível acontece. O choque das lâminas encantadas faz com que Escauro e todos os seus homens – e, junto com eles, o chefe gaulês, que se chama Viridovix – sejam subitamente arrebatados por uma gigantesca cúpula luminosa e transportados de forma instantânea através do tempo, espaço ou seja o que for, até um mundo diferente, onde logo descobrem estar nos domínios do Império de Videssos. O mundo em si parece ser uma versão alternativa da Terra; as estrelas vistas no céu e a configuração dos continentes são totalmente diferentes, mas os habitantes são seres humanos perfeitamente comuns (embora com línguas e culturas diferentes), e a vida animal e vegetal também é familiar.

Não demora a ficar evidente que não há a menor chance de voltarem para casa, e, diante disso, o pequeno exército romano (composto, naturalmente, por homens de várias nações) precisa encontrar um meio de vida naquele mundo. Conforme vão se inteirando de mais coisas, descobrem que Videssos enfrenta ameaças intermitentes de invasão, e por isso sempre tem necessidade de bons mercenários; os romanos, então, "vendem suas espadas", como se dizia na época, a Sua Majestade, Mavrikios Gavras, imperador dos videssianos. Não se trata apenas de uma forma de ganharem seu sustento material: o serviço mercenário é também a única possibilidade de que os videssianos lhes permitam continuar todos juntos como uma unidade militar, pois, de outra forma, nenhum governante com algum juízo permitiria a permanência de uma força armada estrangeira dentro de seu território. E, naquela situação, a união e o companheirismo são ainda mais importantes para Escauro e seus homens do que normalmente já são para qualquer exército romano, já que, para cada um deles, os outros são agora o único elo com seu próprio mundo.

A primeira coisa que se nota em The Misplaced Legion é que o autor possui um conhecimento profundo de História, o que se revela, primeiramente, em suas descrições do exército romano e de elementos culturais e sociais da época, que se refletem na visão de mundo e no modo de vida dos legionários; em segundo lugar, não é difícil ver que, para a criação do mundo fictício de Videssos, Turtledove usou como modelo direto o Império Bizantino – também conhecido como Império Romano do Oriente, que tinha sua capital em Constantinopla (que antes se chamava Bizâncio e hoje é Istambul) e continuou a existir por quase mil anos depois que o Império Romano do Ocidente caiu. De fato, o Império Bizantino manteve vivas muitas tradições romanas ao longo da Idade Média, mesmo tendo como língua oficial o grego, e não o latim. O autor não procurou esconder essa inspiração: a descrição da cidade de Videssos, capital do império de mesmo nome, é claramente a de Constantinopla, com o formato aproximado de um triângulo, tendo dois lados voltados para o mar e o terceiro protegido por poderosas muralhas; fica até mesmo à margem de um estreito que a população local chama de "Travessia do Gado", o que é a tradução literal do nome Bósforo. Uma breve análise do mapa do mundo mostra que ele foi inspirado, em linhas gerais, na Eurásia e norte da África, só que de maneira espelhada: os reinos civilizados ficam no leste, e o continente vasto e pouco explorado, no oeste.

A descrição de outros povos desse mundo também remete ao Império Bizantino e sua época: a guarda imperial, por exemplo, é formada principalmente por bárbaros altos e loiros vindos do norte, os halogai (plural de haloga), numa clara alusão à Guarda Varangiana da Constantinopla histórica. "Varangianos" era como os bizantinos se referiam aos nórdicos de maneira geral, e durante muito tempo a maior ambição de todo aventureiro viking que deixava a Escandinávia em busca de glória e fortuna era juntar-se a essa guarda. "Haloga", por sinal, era o nome de uma antiga tribo da Noruega, e a região onde ela vivia é conhecida até hoje como Halogaland, ou, em português, Halogalândia. Há também povos nômades das planícies, cujos homens são famosos como exímios arqueiros e cavaleiros – a versão videssiana de hunos, tártaros etc. A ilha do Ducado de Namdalen, cuja população foi formada pela miscigenação de videssianos com invasores halogai, poderia corresponder, de forma um pouco mais livre, à Grã-Bretanha (que, é claro, pertenceu ao Império Romano do Ocidente, nunca tendo feito parte do Império Bizantino; por isso digo que essa seria uma adaptação mais livre).

De tudo isso, concluo que provavelmente a primeira ideia de Harry Turtledove foi que os romanos dos dias de César fossem transportados através do tempo até a Idade Média e vivessem suas aventuras no Império Bizantino histórico, mas, conforme amadurecia o livro, o autor deve ter pensado que incluir elementos mágicos e fantásticos deixaria a história ainda mais interessante, e que, se era para transformar o Império Bizantino numa terra de magia e monstros, era melhor afastar-se um pouco mais da historicidade e abraçar de vez a vocação de fantasia da saga, mantendo, ao mesmo tempo, as características interessantes da Constantinopla real. Um coquetel ousado, eu diria, mas que, pessoalmente, me agradou muito.

Num ponto Turtledove (certamente tendo seus motivos para tanto) distanciou deliberadamente Videssos do Império Bizantino: a religião. No nosso mundo, o Império Romano do Oriente era cristão, sendo que até o século XI submetia-se à autoridade do papa; nessa época ocorreu o cisma que resultou na separação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, que predominou no oriente a partir de então. A religião majoritária em Videssos, à primeira vista, pode parecer semelhante ao cristianismo: o deus que eles adoram é Phos, identificado com o bem e com a luz, e por isso simbolizado pelo sol; seu adversário é Skotos, o senhor das trevas e mestre do mal, e acredita-se que os homens e mulheres que, neste mundo, servirem a Phos praticando o bem, serão recompensados com vida e felicidade eternas após a morte, enquanto os que se renderem às tentações de Skotos serão atormentados para sempre numa espécie de inferno gelado. A semelhança, porém, é apenas superficial, já que a fé videssiana parece atribuir a ambas as entidades o mesmo peso no universo, talvez o mesmo grau de poder; para os cristãos, Satã se opõe a Deus, mas de maneira nenhuma tem o mesmo poder que Ele. As crenças dos videssianos se assemelham muito, isso sim, ao zoroastrismo persa. Seja como for, alguns dos sacerdotes dessa religião possuem assombrosos poderes de cura, sendo capazes de fazer com que homens com ferimentos mortais se recuperem mediante uma simples imposição das mãos – uma habilidade que Górgidas, o médico grego que acompanha a tropa romana, encara com um misto de incredulidade, admiração e despeito.

Num banquete na corte, ao qual ele e seus principais oficiais são convidados, Escauro acidentalmente derrama vinho no manto de um embaixador estrangeiro, um certo Avshar, enviado de Yezd, um reino no ocidente dominado por adoradores de Skotos. A presença de Avshar como diplomata possibilita uma precária paz entre Yezd e Videssos, mas, ao mesmo tempo, constitui um insulto, como o próprio imperador observa, já que a inimizade de facto entre os dois reinos é conhecida por todos. Avshar, truculento, não só se recusa a aceitar as desculpas de Escauro pelo acidente banal com o vinho, como ainda o insulta e esmurra. Exige um duelo, que o romano vence, embora com extrema dificuldade e, em grande parte, graças à magia presente em sua espada, já que Avshar, além de um combatente formidável, é também feiticeiro. O tribuno poupa a vida do embaixador – decisão da qual se arrependerá mais tarde. Quando, dias depois, Escauro sofre uma tentativa de assassinato, e provas inequívocas indicam que Avshar foi o mandante, o imperador declara que, com esse ato, o bruxo de Yezd perdeu o direito à proteção assegurada aos diplomatas, e ordena sua prisão. Escauro e outros vão no encalço do vilão, só para descobrir que ele escapou, deixando atrás de si armadilhas mágicas que custam as  vidas de vários homens. Mavrikios, então, declara guerra a Yezd (algo que ele sabia que teria que fazer, mais dia menos dia) e dá início à tarefa de reunir um grande exército, incluindo tanto tropas videssianas nativas quanto mercenários vindos de quase todos os cantos do mundo conhecido… E, no caso dos romanos, de mais longe ainda. Por falar neles, Escauro e seus homens são, sem comparação, a melhor infantaria de que o imperador dispõe, e por isso terão um papel-chave nessa campanha.

Assim como fiz com A Legião do Tempo, escolhi The Misplaced Legion para praticar o meu hobby/exercício de traduzir, e foi uma experiência empolgante. O texto está coalhado de referências clássicas – História, mitologia, filosofia –, e mesmo eu, que, modéstia à parte, tenho um razoável conhecimento ao menos nos dois primeiros campos, aprendi um bocado. Embatuquei um pouco na hora de dar o título: traduzir literalmente o título original resultaria em algo como A Legião Deslocada, ou, pior ainda, A Legião Extraviada – ou seja, sem chance! Passei um tempo indeciso, mas acabei ficando com A Legião Perdida; é verdade que já existe um filme com o mesmo nome, que, por sinal, é baseado no livro A Águia da Nona, de Rosemary Sutcliff, que já comentei aqui no blog – mas esse não é o primeiro e com toda a certeza não será o último caso em que duas obras sem qualquer relação direta entre si levam o mesmo título.

Além de nos oferecer uma história emocionante sobre guerra, lealdade, poder e intrigas, The Misplaced Legion apresenta uma galeria de personagens aos quais é impossível não se afeiçoar, chegando a me lembrar (atenção, isto é só um pensamento subjetivo!) Jornada nas Estrelas nesse quesito. Se Escauro for o capitão Kirk, então Górgidas (claro!) é o Dr. McCoy. Só é difícil ver algum traço de semelhança entre o lógico e racional Sr. Spock e o alegre e sangue-quente Viridovix, que, sim, acaba se tornando um amigo próximo de Marco. O gaulês adora farra e vinho, anda sempre atrás de rabos-de-saia, e ama a loucura da batalha, o que faz dele o oposto de Escauro, que é um adepto da filosofia estoica, que recomenda comedimento em tudo (bebida e sexo especialmente), e além disso, como ele mesmo reflete em certo trecho, tem em relação à guerra a mesma atitude que a maioria dos romanos: "Lutar era algo para ser feito quando necessário, e concluído o mais depressa possível." E, mesmo com tantas diferenças, os dois tornam-se amigos, o que reflete algo que já se verificava durante a batalha do começo do livro, antes de irem parar em Videssos: eles eram inimigos por força das circunstâncias, mas nunca tiveram pessoalmente nada um contra o outro, e respeitavam-se mutuamente como oponentes valorosos. Transportados para um mundo estranho, a inimizade perdeu todo o sentido. Essa amizade entre ex-inimigos é interessante e plausível; acho apenas que esse tema deveria ter sido melhor desenvolvido, o autor poderia ter-lhe dedicado mais espaço e aprofundado mais. E, como estou falando dos personagens, seria uma imperdoável injustiça não dedicar algumas linhas a Caio Filipo, que lembra inevitavelmente aquele sargento veterano de tantos filmes de guerra (especialmente os um pouco mais antigos) que todos já vimos: ríspido, durão, mas no fundo com um coração de ouro, ele dedica uma lealdade a toda prova a seu tribuno, que, como dito antes, mostra-se digno disso, diferente de outros oficiais que o velho centurião já conheceu. Mais importante que tudo isso, Caio Filipo é o personagem que melhor representa o apego à disciplina que era o próprio coração pulsante do exército romano: seus soldados sabem que pouco importa que o mundo esteja ruindo em volta, o treinamento diário acontecerá do mesmo jeito, e nenhum desleixo com o equipamento será tolerado. Sem esquecer, ainda, que as frequentes trocas de farpas verbais entre ele e Viridovix são uma diversão à parte.

A descrição da sociedade de Videssos, bem como da adaptação dos romanos a ela, acrescenta mais uma camada de interesse à trama. Há um diálogo entre Escauro e Górgidas em que o médico, mais velho e realista, faz ver ao tribuno que, com o tempo, seus homens se esquecerão de Roma – não no sentido de não se lembrarem de suas origens, mas no de gradualmente, sem perceber, irem adotando os usos, costumes e modos de pensar de sua nova pátria. Essa ideia, a princípio, choca Marco, mas, conforme passa o tempo, e quanto mais ele reflete a respeito, percebe que é verdade. Umas poucas centenas de homens jogados em meio a um povo estranho, com uma língua e uma cultura diferentes, fatalmente acabarão sendo absorvidos; deixarão sua marca, certamente, mas muito tênue e pequena num império vasto e multicultural como o de Videssos. E, como o grupo de romanos que foi transportado para esse novo mundo trata-se de uma unidade militar, são todos homens, que, não demora muito, começam a tomar companheiras locais, tal como faziam os legionários que serviam nas províncias do próprio Império Romano. Seus filhos ainda serão meio-romanos, mas cada uma das gerações seguintes terá menos de romana, até chegar um momento em que a marca de Roma já mal seja perceptível. É assim que as coisas acontecem quando povos se misturam. O próprio Escauro se apaixona por Helvis, uma bela namdalenense, e a toma como companheira. E, a respeito da vida pessoal e familiar dos legionários, acredito que, tal como no caso da amizade entre ex-inimigos, também nesse ponto faltou aprofundamento – afinal, é provável que muitos dos soldados de Escauro tivessem mulheres e talvez famílias no mundo que deixaram para trás, e devem ter sofrido com sua perda antes de aceitarem o fato e tentarem reconstruir suas vidas em Videssos. Praticamente nenhuma palavra é dedicada a isso.

Harry Turtledove, como vim a saber, possui uma extensa obra que parece oscilar entre a ficção histórica, a fantasia e a ficção científica, e este meu primeiro contato direto com uma história sua deixou a impressão mais favorável possível, apesar das pequenas omissões (bem, nem tão pequenas assim) citadas acima. É realmente uma pena ser tão improvável que seu trabalho algum dia chegue às livrarias brasileiras, mas, como observei no início, agora está disponível aos que fizerem uso das novas tecnologias e dominarem a língua inglesa. E, embora eu ainda não conheça nenhum de seus outros livros, ao menos o Ciclo de Videssos, em minha opinião, pode ser plenamente recomendado.

sexta-feira, junho 19, 2020

Manual Politicamente Incorreto da Civilização Ocidental

Caso queira ser chamado de simplório ou de repressor perverso, a maneira mais rápida é reconhecer que o mal realmente existe. No relativismo atual, a única coisa errada é dizer que algo é errado. (Anthony Esolen)

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Não invoco nenhum mérito pessoal nisso (não decorre de nada que eu tenha feito conscientemente – me parece algo natural, como o formato do meu nariz), mas sempre fui atraído pela História, sempre desejei conhecer os fatos do passado, como eles estavam interligados uns com os outros e como influenciavam o presente. Sempre tive a curiosidade de saber como os povos de outros tempos viviam, lutavam e amavam – e, mais importante, saber o que eles amavam e pelo que lutavam. Sempre compreendi a dificuldade, e também a necessidade indispensável, de tentar "pensar com a cabeça da época", em vez de simplesmente aplicar os padrões atuais à realidade de séculos passados, como a maioria das pessoas faz sem perceber. E, sinceramente, não entendo como é que tanta gente vê a História como uma coisa estática, sem vida, tediosa, algo que, até onde lhes importa, se resume a decorar meia dúzia de nomes e datas para fazer uma prova, receber uma nota, e depois esquecer tudo. Tampouco consigo ver sentido naquelas duas frases repetidas à exaustão (e geralmente ditas juntas) por milhões de estudantes e por outros que já não o são há um bom tempo: "Estudar História é uma perda de tempo! Pra que eu vou usar isso?"

Para os poucos que compartilham essa minha vontade de saber por que o mundo e a humanidade são como são, e a quem devemos aquilo que temos e somos (o que traz junto o peso de uma grande responsa sobre os nossos ombros), livros como este são um achado. O autor Anthony Esolen promove nestas páginas uma extensa viagem às raízes do ocidente, além de buscar respostas para as questões que estão na cabeça de todo intelectual que, mesmo nesse desvairado século XXI, ainda insiste em prezar esse legado inestimável de arte, filosofia e princípios que recebemos de nossos antecessores. Dessas questões, a primeira que vem à mente nestes tempos é: a quem interessa a destruição sistemática de todos os valores que serviram de alicerce à nossa civilização – e por quê? Questão essa que levanta imediatamente uma outra: e quando esse mundo, que direta ou indiretamente nos deu tudo o que temos (pelo menos, tudo de bom e digno) estiver definitivamente demolido, ele será substituído… pelo quê? O livro de Esolen também discute possíveis maneiras de resistir, mesmo que nossa resistência seja como a dos poloneses no Levante de Varsóvia: há momentos em que devemos lutar porque essa é a coisa certa a se fazer, mesmo que a esperança de vitória pareça ser nenhuma.

Como sabemos, a Europa, e, por consequência, todo o ocidente, nasceu do tríplice encontro entre a filosofia grega, o direito romano e a fé judaico-cristã, e Esolen faz o percurso lógico, dedicando a cada uma dessas bases um capítulo logo no começo do livro. O mais interessante é que ele não se limita a discorrer sobre a "coisa em si": em vez de focar só na filosofia grega, por exemplo, oferece-nos um painel (bem resumido, é claro) do amadurecimento da civilização helênica, que tornou possível o nascimento dessa filosofia, com copiosas indicações bibliográficas para quem quiser se aprofundar na matéria, embora, infelizmente, a maioria dos livros que ele indica não tenha edição brasileira. Qualquer pessoa com um pingo de cultura sabe que a Grécia antiga foi o berço da democracia, é claro – mas Esolen nos mostra que, por mais que a democracia seja uma coisa magnífica, já naquela época, como hoje, ela, sozinha, não era e não é garantia de nada. Liberdade é um bonito conceito, mas, se entendida simplesmente como "cada um faz o que quer", leva à libertinagem e ao caos. O homem só é verdadeiramente livre quando compreende que a liberdade não vem de graça: ela traz consigo deveres e responsabilidades, e, se ele não se mostrar à altura, desonra-se perante si mesmo e perante seus pares – isso para não mencionar outras consequências piores que o deslustro de sua honra, piores por poderem afetar seus filhos, netos e demais descendentes, caso esse homem livre de que estamos falando falhe em fazer o que tempos de crise exigem dele. Isso explica, por exemplo, o que manteve os soldados de Leônidas, homens livres, firmes em seus postos mesmo diante da morte certa, numa situação na qual os soldados-escravos do rei da Pérsia já teriam debandado, ou o que levava um legionário romano a dar a vida para impedir que o inimigo se apossasse da águia de sua legião. Como Esolen diz em algum lugar, essas civilizações só alcançaram o que alcançaram porque dispunham de homens assim – homens que temiam menos a morte que a desonra. Graças, em grande parte, ao que a Grécia e Roma nos legaram, foi possível construir uma civilização na qual um sacrifício tão drástico raramente é necessário, mas, hoje, cabe a nós lutar outro tipo de batalha. Em nossos dias, a guerra é cultural, o inimigo é ardiloso e sem escrúpulos e, como dizia Thomas Jefferson, o preço da liberdade é a vigilância constante.

Falei em liberdade porque estava pensando em democracia; as duas não são a mesma coisa, é claro, mas estão estreitamente relacionadas, e, assim como a liberdade precisa ser merecida, a democracia traz em si alguns pressupostos: o povo precisa ter um nível mínimo de educação e de virtudes cívicas para estar em condições de fazer bom uso do poder que esse sistema coloca em suas mãos. O que nos deixa (a nós, brasileiros) numa sinuca de bico que não preciso explicar. Bem, vamos adiante.

Boa parte do Manual Politicamente Incorreto da Civilização Ocidental é dedicada a desmontar o mito politicamente correto que pinta a Idade Média como a "idade das trevas" ou até mesmo a "noite dos mil anos" (esta última só pode ter sido cunhada por algum historiador francês, provavelmente filiado ao Iluminismo). A origem desse mito é fácil de entender: a Idade Média foi o período de maior poder e influência da Igreja Católica – portanto, por razões ideológicas, é da mais alta importância para os politicamente corretos que ela tenha sido um período obscurantista e miserável, quase sem nenhum progresso. É claro que essa noção é muito mais antiga que esses movimentos lacradores que hoje tentam com tanto empenho tornar a nossa vida insuportável, mas deve-se àqueles que, poderíamos dizer, foram os ancestrais ideológicos desses movimentos: os iluministas do século XVIII (sempre eles). Esolen nos toma pela mão para um passeio instrutivo no qual mostra que coisas como as catedrais, palácios e até fortalezas militares espalhadas pela Europa são testemunhas de um progresso técnico notável nos campos da engenharia e da arquitetura, o que não teria sido possível numa era culturalmente estagnada; que os primeiros hospitais e universidades surgiram precisamente na Idade Média e por iniciativa da Igreja; que, ainda que as pessoas da época estivessem longe de ter uma vida fácil, ela também não era tão horrível quanto quiseram nos fazer acreditar. O engraçado (ou revoltante, depende de como você escolha encarar) é ver que, à medida que mais e mais descobertas de evidências arqueológicas e documentos históricos vão mostrando, para além de qualquer dúvida, que a Idade Média trouxe muitos e importantes progressos em muitas áreas, a mídia vai mudando seu discurso: diante da impossibilidade de negar que esses progressos aconteceram, ela passa a insinuar que eles foram alcançados apesar da Igreja Católica, e não graças a ela. Não que isso surpreenda a alguém, considerando o habitual modus operandi da mídia e dos grupos que a controlam, e o tipo de opinião que eles tentam plantar na cabeça da população pouco instruída – e, o que é pior, daquela parte da população que teve alguma instrução, mas não enxerga o quão ideológica e enviesada ela foi. O resultado disso, é claro, é que essas pessoas se julgam altamente "críticas" e "conscientes", quando na verdade tudo o que estão fazendo é engolir um discurso que receberam pronto, sem questionar nada, ir atrás da maioria e repetir as opiniões que as deixam "bem na foto".

Você certamente conhece o relato padrão da Renascença. Os plebeus se libertaram da tirania da Igreja, e – recém-libertos – tornaram-se mais felizes e sábios. Grandes artistas, escritores e pensadores, livres para se concentrar em algo além da fé empoeirada, criaram a maior revolução artística, filosófica e cultural já vista pela Europa. A Renascença, em suma, nos é vendida como uma rejeição da Idade Média e o glorioso triunfo do secularismo. (…) Todas essas formulações servem às finalidades de nossos dias. Denigrem a religião, exaltam a modernidade e permitem que os secularistas exijam o crédito pelo florescimento da criatividade. Elas também possuem a virtude da simplicidade. O absurdo também é simples. (p. 166)

Impossível não concordar, até porque a estratégia da mídia não tem muito como fugir da obviedade nesse particular: quando você está tentando vender uma versão tendenciosa, ela não funciona se não for óbvia. Logo, se a Idade Média era ruim por causa da influência da Igreja, a Renascença (e notem como até esse nome já está carregado de ideologia), por ter, alegadamente, rompido com a Idade Média, só podia ser boa. E não se trata aqui de negar as maravilhosas realizações que os artistas desse período alcançaram nos campos das artes plásticas e da música, principalmente, nem os progressos científicos que também ocorreram; afinal, a Renascença nos deu Leonardo da Vinci, que, só ele, já teria bastado para conferir relevância a essa época, mesmo que tivesse sido o seu único expoente importante – e não foi, aliás longe disso. Acontece que essa suposta ruptura com a Idade Média (e, por conseguinte, com a fé cristã) é quase sempre muito exagerada por conta do viés ideológico de quem está contando a história; em muitos casos, se corretamente examinadas, as grandes realizações renascentistas foram muito mais um desenvolvimento natural do que já vinha sendo feito durante a Idade Média do que um grito de independência em relação a ela. Por outro lado, é um engano achar que houve progresso em todas as áreas. Houve o surgimento de muitas obras incríveis, como já dito, nas artes plásticas (pintura, escultura), na música, além de avanços nas ciências naturais etc., mas o que dizer, por exemplo, da filosofia? Na Idade Média tivemos uma vasta e rica tradição filosófica (de base cristã), iniciada por Santo Agostinho e que encontrou sua coroação com São Tomás de Aquino, que conciliou de forma brilhante o pensamento de Aristóteles com a teologia cristã. Na Renascença, o que tivemos? Maquiavel? A comparação fala por si.

(É fato que Santo Agostinho, que viveu de 354 a 430, ainda pertence, cronologicamente, à Antiguidade, mas faz sentido considerá-lo um dos fundadores da filosofia medieval, devido à enorme influência que teve nos séculos seguintes e ao fato de que viveu apenas algumas décadas antes da data tradicionalmente considerada como a da transição da Idade Antiga para a Média, com a queda do Império Romano do Ocidente, no ano 476.)

Vou admitir, por uma questão de honestidade intelectual, que por vezes, ao longo do livro, Esolen parece apoiar-se um pouco demais em sua fé católica para embasar seus pontos – e quem está dizendo isso é também um católico devoto. Se o objetivo do livro é defender as bases da civilização ocidental contra os ataques orquestrados pelos movimentos "progressistas" do nosso tempo, a meu ver o autor deveria fazê-lo de forma que soasse convincente para qualquer leitor, independentemente de sua fé ou da falta dela. Você pode ser um ateu, mas se, acima de tudo, for intelectualmente honesto (e não tiver se rendido à lavagem cerebral da mídia), não deverá ter problema em reconhecer que manter de pé a civilização que a Igreja Católica tornou possível seria benéfico para a humanidade de maneira geral, quer no campo cultural, social ou espiritual (e se você, como ateu, não gostar da palavra espiritual, pode substituí-la por "psicológico"; não é bem o que eu queria dizer, mas me falta palavra melhor – em todo caso, estou me referindo à saúde mental média da população do ocidente). Demolir as bases da nossa cultura e ensinar às novas gerações que não há ordem alguma no universo, muito menos algum sentido, e que o bem e o mal não passam de construções sociais, não vai criar um mundo mais livre e feliz; vai criar um mundo cheio de gente frívola, sem objetivos e com uma enorme tendência à depressão, às drogas e ao suicídio. Isso é algo que deveria ser evidente para qualquer pessoa razoável, fosse ela religiosa ou não. Infelizmente, o mundo sempre esteve em falta de pessoas razoáveis, e hoje não é diferente, com o agravante de que as facilidades de comunicação que a tecnologia trouxe, agora permitem que doidos de toda espécie arrastem para o seu lado multidões de jovens e de pessoas influenciáveis em geral, e que movimentos políticos com intenções escusas se aproveitem disso. Esolen estaria alcançando seus objetivos de forma bem mais eficiente se convencesse seu leitor de tudo isso sem precisar antes fazê-lo compartilhar de suas próprias convicções de fé – mas não o culpo, pois sei o quanto isso é difícil, ainda que os fatos e os exemplos históricos estejam aí à vista de todos, porque a mentalidade progressista já prendeu seus antolhos na cara de muita gente, e removê-los não é tarefa fácil.

A primeira vez que ouvi falar em "politicamente correto" foi durante os anos 90, e não dá para dizer que propriamente tenha ouvido falar; na verdade li sobre o assunto, numa revista (acho que era a Veja, mas não posso dar certeza) que folheava aleatoriamente na casa de alguém ou na sala de espera de um consultório qualquer – não lembro os detalhes. O texto era uma resenha sobre o livro Contos de Fadas Politicamente Corretos, de James Finn Garner (é claro que eu não lembrava o nome do autor também: procurei agora na internet), que, por sua vez, tinha o claro objetivo de ridicularizar a moda que estava então se popularizando nas universidades americanas, consistindo em fazer todo o esforço para purgar a linguagem de qualquer traço de racismo, sexismo, culturalismo, preconceito contra portadores de qualquer tipo de deficiência, e por aí afora… e de tudo o que as cabeças paranoicas e ultrassensíveis dos adeptos dessa ideologia entendessem como sendo qualquer uma dessas coisas, mesmo que o resultado fosse esquisitíssimo e, não raro, ridículo. Na prática, aplicado aos contos de fadas, isso gerou títulos como A Jovem de Origem Caucasiana e Seus Sete Amigos Prejudicados Verticalmente (para quem não entendeu, Branca de Neve e os Sete Anões). Nunca cheguei a ler o próprio livro, mas é fácil imaginar que a reação de quem o lesse seria, muito provavelmente, aquela pretendida pelo autor: dar risada. Naquele tempo, ainda parecia mais ou menos seguro confiar que essa "nova linguagem" seria encarada pela grande maioria das pessoas exatamente como aquilo que era – uma completa idiotice. Só que não era uma idiotice aleatória, e sim dotada de método e objetivo. Em 2020, em meio a notícias a respeito de escolas que estão adotando oficialmente o "gênero neutro" no ensino da língua portuguesa, fica bem mais difícil achar graça em tais coisas. "Politicamente correto", hoje, engloba muito mais que linguagem, virou designação de toda uma mentalidade que basicamente busca realizar o sonho dos marxistas mais radicais de décadas passadas: arrasar por completo a cultura e a sociedade existentes, para construir outras novas sobre as suas ruínas. Para conseguir isso, usa-se a mídia, que manipula informações de modo a moldar a opinião pública da maneira que mais favoreça esse objetivo, e a educação "moderna", que trata de inculcar cada vez mais cedo nas mentes de crianças e jovens a ojeriza a todos os valores tradicionais  (em especial religião e família) e a crença de que não existe bem ou mal, certo ou errado, de que tudo é relativo, maleável, questão de opinião e ponto de vista… E, embora tudo seja questão de opinião, só determinadas opiniões é que são aceitáveis. Agora é possível ver o que havia por trás da tal linguagem politicamente correta que nos arrancava risos há alguns anos: as palavras podem não ter poder sobre a realidade objetiva, mas têm poder sobre as mentes – o que, a longo prazo, vem a dar no mesmo. George Orwell, ao descrever a novilíngua em seu 1984, profetizou o que estamos vendo na prática hoje.

É revelador observar como, nessa nova cultura que tanto insiste em justiça e igualdade, tudo é seletivo, tudo tem dois pesos e duas medidas. O caso da linguagem apenas exemplifica o que acontece em todos os campos. A fala politicamente correta pisa em ovos para não deixar passar nada que possa soar longinquamente ofensivo a qualquer uma das assim chamadas minorias (você deve dizer "afrodescendente", porque “negro”, supostamente, traz conotações pejorativas), mas faz questão de ser o mais brutal e odiosa possível quando se trata de atacar o "outro lado": a expressão para "marido" é "estuprador legalizado". Foram inventadas até palavras e expressões totalmente novas, mas com objetivos óbvios, como "descolonização do corpo", que significa tornar-se lésbica… Porque, segundo o feminismo radical que acolheu de braços abertos a cultura politicamente correta, toda relação heterossexual é um estupro (elas afirmam isso com todas as letras), e, portanto, ser lésbica não é apenas uma característica que algumas pessoas apresentam e que deve ser respeitada: é uma escolha, um ato político – um ato de "libertação". Não podia ser mais evidente a intenção de pulverizar a família tradicional, que costuma ser um empecilho à implantação de regimes totalitários (com uma ou outra exceção, como o nazismo, que conseguiu, de certa forma, instrumentalizá-la). O mesmo com a religião: o “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, proferido por Jesus Cristo, deixou claro que há espaços na vida do indivíduo, e mesmo da sociedade, nos quais o Estado não deve interferir – ou seja, regimes totalitários são intrinsecamente maus e errados. Não causa surpresa, portanto, que os politicamente corretos de todas as vertentes tenham elegido o cristianismo como inimigo número um e alvo preferencial, e isso apesar de defenderem com tanto zelo (da boca para fora) a liberdade individual. No mundo de hoje, é opinião geral que toda pessoa deve ser livre para professar e praticar qualquer fé – contanto que não seja cristã. É malvisto criticar, ainda que moderadamente, o budismo, o islamismo ou qualquer forma de crença indígena/aborígine (é intolerância!), mas tudo bem dizer qualquer absurdo contra Deus, Jesus ou a Igreja (aí é liberdade de expressão). Há muito, mas muito objetivo por trás de tudo isso. O politicamente correto não é mais (se é que alguma vez o foi) um instrumento para proteger minorias; hoje, ele nada mais é que um meio que movimentos políticos usam para arrebanhar essas minorias – que, em termos de números, são na verdade a maioria – para usar como massa de manobra e, de quebra, calar quem discorda. Muito deste parágrafo e do anterior são observações minhas, aproveitando um ou dois ganchos fornecidos no livro de Esolen.

O capítulo VIII, já próximo do final do livro, intitula-se O Século XIX: o Homem é um Deus; o Homem é uma Besta, e inclui reflexões sobre mais de um ponto interessante. Primeiro, o que lhe dá título – no século XIX, impulsionada pelo romantismo, instaurou-se uma tendência de endeusar a natureza, o que, por sua vez, abriria caminho para a divinização do homem, que ganhou um porta-voz em Friedrich Nietzsche (1844-1900). Não que o romantismo, de maneira geral, fosse particularmente propenso ao ateísmo – muitos de seus expoentes eram cristãos, e mesmo os que não o eram, geralmente cultivavam alguma forma de espiritualidade –, mas a ênfase que ele punha nos sentimentos, no "mundo interior" de cada um, na coisa subjetiva, levou muitos (não todos, nem a maioria, mas muitos) a uma tendência perigosa para o individualismo, e daí para o ateísmo o caminho costuma ser curto. Uma vez que se admita que não há Deus, os próximos passos são previsíveis. O ideal do comportamento humano seria que o simples fato de compreendermos o que é certo e o que é errado fosse suficiente para nos levar a buscar o primeiro e evitar o segundo – porque isso é o correto a se fazer e pronto, sem necessidade de qualquer promessa de recompensa ou de castigo. Mas, repito, isso seria o ideal. Na prática, o ser humano não é assim. Se ele achar que ninguém nunca irá lhe pedir contas do que andou fazendo, quase sempre agirá conforme suas inclinações o inspirarem, fará o que tiver vontade sem se importar com quem prejudica. Ou seja, como escreveu Dostoiévski de forma tão concisa e certeira, "se Deus não existe, tudo é permitido". O homem fica livre (pelo menos, tem a impressão de que isso é liberdade) para agir ao sabor dos impulsos, deixar-se conduzir unicamente por seus instintos. Esolen exemplifica citando certas "comunidades alternativas" que surgiram na Europa no século XIX, nas quais se praticava o assim chamado amor livre. "O homem é um deus, o homem é uma besta (no sentido de animal ou fera); o homem é tudo, menos um homem."

O último capítulo, O Século XX: um Século de Sangue é dedicado a mostrar como as bases do ocidente foram sendo lentamente (ou nem tão lentamente assim) solapadas ao longo do século passado, por muitos e variados meios. A crescente intromissão do Estado na vida do indivíduo levou ao enfraquecimento da autonomia da família e dos laços entre seus membros; hoje em dia, sob o pretexto de proteger as crianças contra abusos, vem-se tirando dos pais, cada vez mais, o direito de dar a seus filhos o tipo de educação que julgarem melhor. A revolta infantiloide da maior parte da comunidade artística contra as convenções "burguesas" da arte clássica mudou as coisas, e, na minha opinião, não foi para melhor: achar que o objetivo da arte deve ser a beleza é considerado agora um ponto de vista míope e atrasado, ou até mesmo elitista – e quem contraria essa corrente é sistematicamente boicotado. O poder que a arte – aí incluídas não apenas as artes plásticas, mas também a literatura, a música e assim por diante – exerce sobre a mente do indivíduo e, por consequência, sobre a sociedade, é subestimado em muitos círculos, mas parece que o grupo dos que se interessam pela implosão da cultura ocidental o conhece muito bem. A análise de Esolen a respeito disso é elucidativa e perturbadora.

Como uma observação final sobre o livro, quero registrar que, tal como no único outro Manual Politicamente Incorreto que já tinha lido (ver aqui), senti o peso de um ponto de vista fortemente norte-americano, em especial quando o autor se alonga por páginas e mais páginas que pouco dizem aos não-estadunidenses, por abordarem a história dos EUA – da qual, sem dúvida, seria útil termos um conhecimento maior – ou aspectos do cotidiano daquele país, muito descolados da nossa realidade. Mesmo assim, o livro é valioso e importante, por acrescentar muitos conhecimentos e fornecer insights aos que desejam fazer a sua parte, por menor que seja, no esforço de resistência contra a demolição sistemática que vem sendo empreendida contra a nossa civilização.

quinta-feira, dezembro 19, 2019

O Manto Sagrado

Depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram as suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. O manto, porém, todo tecido de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: Não o rasguemos, mas lancemos sorte sobre ele, para ver de quem será. Assim se cumpria a Escritura: Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre o meu manto. Isso fizeram os soldados.

Jo 19, 23-24

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Todos os quatro Evangelhos mencionam o momento em que, tendo crucificado Jesus, os soldados romanos dividiram entre si as roupas que ele usava, mas apenas o de São João narra esse incidente com detalhes, talvez porque João, um adolescente na época, tenha sido o único dos evangelistas a ser testemunha ocular da crucificação do Filho de Deus. Lucas limita-se a um quase telegráfico "Eles dividiram as suas vestes e as sortearam", e Mateus e Marcos dizem o mesmo com pequenas variações. Só João se refere ao fato de que, depois de terem repartido entre si as peças menores usadas por Cristo, os soldados notaram que o item principal, o manto, era de boa qualidade, ainda que simples, e decidiram não fazer o óbvio, isto é, parti-lo em pedaços que também seriam distribuídos igualmente entre todos, para serem usados como pano para remendos, ou coisa parecida. Em vez disso, disputaram-no num jogo de dados.

Lloyd C. Douglas (1877-1951) contou certa vez que a ideia para escrever O Manto Sagrado surgiu quando, em 1940, já um escritor famoso (com obras, muitas vezes, de viés cristão), ele recebeu uma carta de uma leitora que perguntava se alguém sabia quem ganhou o manto naquele jogo ou o que foi feito dele. A questão é evidentemente complexa; consta que o manto que se supõe ter sido usado por Jesus esteve guardado em Constantinopla até o século IX, quando a imperatriz Irene o ofereceu de presente a Carlos Magno. A peça está hoje na basílica francesa de Saint-Denys de Argenteuil – quer dizer, temos a certeza de que se trata do mesmo manto que o rei dos francos recebeu; se é ou não o mesmo que teria um dia vestido Cristo, há controvérsia. Até o fiel mais devoto deve permitir-se uma dose de ceticismo quando se trata de relíquias: como dizia João Calvino, se se juntassem todos os supostos fragmentos da cruz de Jesus que eram venerados em igrejas Europa afora, o resultado seria madeira suficiente para construir um navio. E ainda que se trate mesmo do manto de Jesus, como saber por quais peripécias ele teria passado até chegar ao seu paradeiro atual? O Manto Sagrado trata-se, na maior parte, de ficção (sendo que o autor toma, inclusive, diversas liberdades históricas), mas, para sermos justos, existem poucos livros tão eficientes em capturar a atenção e a imaginação do leitor, em apresentar personagens cativantes e em fazer-nos mergulhar de cabeça em outra realidade a ponto de perder a noção do tempo. Enfim, um estupendo "virador de página", que, além disso, cumpre com louvor seu objetivo evangelizador (Douglas era pastor luterano) sem cair num didatismo tedioso que acabe afastando o leitor – pecado (ops…) que muitos romances inspirados na Bíblia cometem.

A história começa em Roma, seguindo o tribuno militar Marcelo Lucan Gallio. Como já mencionei em outros posts, os tribunos militares eram oficiais que se reportavam diretamente ao legado, ou seja, o comandante de uma legião, estando, por sua vez, acima dos centuriões. Em geral eram jovens de famílias abastadas e influentes, formados numa academia militar, mas sem experiência real de combate. Passando daí, havia tribunos e tribunos: enquanto alguns davam o seu melhor e arriscavam a vida participando ativamente de ações militares, outros apenas se aproveitavam das prerrogativas do posto. Marcelo, sinto dizer, tende mais para o segundo tipo; é filho de Marco Lucan Gallio, senador e homem de grande fortuna, e ainda mora na vasta e confortável villa da família, com os pais, a irmã adolescente, Lúcia, e um punhado de escravos. Está com 23 anos e, ao que tudo indica, articulando o início de sua carreira política, quando comete um infeliz deslize: num banquete, já com vinho demais na cabeça, ele cai no riso na hora errada e acaba ofendendo os brios do príncipe Gaio (ou Caio), enteado do imperador Tibério e responsável pela maior parte das decisões do governo desde que o imperador, já idoso, mudou-se de vez para seu palácio na ilha de Capri (já aí o autor tomou uma grande liberdade, mas voltarei a isso depois). Gaio já tinha queixas anteriores contra os Gallio, já que o pai de Marcelo, homem íntegro, por vezes o criticou em seus discursos no senado, por conta de suas extravagâncias e má administração. Ainda assim, a família possui muitas conexões e influência, de modo que o príncipe não pode permitir-se o tipo de vingança que teria preferido, mas faz o que está ao seu alcance: trança os pauzinhos para que o jovem tribuno perca a boa vida (e, mais importante, as possibilidades de ascensão política) que tem em Roma, destacando-o para comandar a guarnição de Minoa, uma cidade de pouca importância na Palestina. Marcelo, então, ruma para lá, acompanhado por Demétrio, seu escravo grego, que cumpre as funções de ajudante pessoal, guarda-costas, camareiro, leva-e-traz, e tudo o mais que for necessário.

Não dá para apontar um único protagonista em O Manto Sagrado; tanto Marcelo quanto Demétrio parecem se enquadrar nessa função. O tribuno já é um personagem interessante, mas o escravo é ainda mais. Filho de uma família próspera da cidade portuária grega de Corinto, é um rapaz instruído, criado para o orgulho, e agora reduzido à escravidão, depois que sua família caiu em desgraça devido ao envolvimento do pai com a resistência à ocupação romana. Ainda assim, ele teve mais sorte que muitos: o senador Gallio é um homem justo, e em sua casa os escravos são tratados de forma digna – sem prejuízo de uma disciplina rigorosa. Demétrio foi o presente que o senador deu ao filho quando este atingiu a maioridade (aos 17 anos, conforme a lei romana), e, nos seis anos que se passaram desde então, tem servido a seu jovem senhor com dedicação e lealdade. Marcelo, por outro lado, às vezes se esquece dos papéis de senhor e escravo: é nítido que Demétrio é seu melhor amigo.

Tenho escrito repetidamente, em diferentes posts, que o segredo do extraordinário sucesso do exército romano na grande maioria dos conflitos em que se envolveu em sua longa história era a sua disciplina férrea, e isso é fato, mas não significa que essa disciplina fosse igual sempre e em todo lugar, como Marcelo descobre. A guarnição de Minoa é uma espécie de depósito de inconvenientes, um bando desmazelado e indolente cujos oficiais tampouco têm moral ou sequer energia para tentar colocar as coisas nos devidos lugares – uma caricatura deprimente da eficiência e da ordem exemplares que caracterizam as outras guarnições romanas… Até a chegada do novo comandante. Mesmo sem experiência, Marcelo possui fibra, e não perde tempo para colocar a guarnição na linha.

O jovem Gallio, portanto, está desempenhando com excelência a missão que era para ser um castigo, quando chega a época da Páscoa judaica (lembrando que, naquele tempo, a Palestina era um país predominantemente judeu). Marcelo, sem dúvida, estudou História com seus tutores e depois na academia, mas os judeus eram um povo tão periférico na geopolítica da época, que aparentemente só foram vistos de passagem nas aulas. É seu segundo em comando, o centurião Paulo, que já está na região há muito mais tempo, quem lhe explica o que aquela festa significa no contexto da religião e dos costumes judaicos. Além de recordar sua libertação do cativeiro no Egito mais de mil anos antes, a Páscoa (palavra que vem de Pessach, 'passagem') é para os judeus um lembrete de que todo homem e mulher são peregrinos neste mundo, de que a vida material é algo passageiro, apenas um caminho que trilhamos rumo à eternidade – mas Marcelo foi educado conforme as correntes filosóficas mais em voga entre gregos e romanos cultos, e não acredita no sobrenatural ou em vida depois da morte. Para ele e seus pares, a fé nos deuses não passa de uma fantasia inofensiva que ajuda pessoas pobres e desfavorecidas a encarar as durezas da vida, algo que os "superiores" olham com indulgência e um certo divertimento. (O senador Gallio ensina ao filho que "há sempre alguma coisa de basicamente errado com um homem rico ou um rei que finge ser religioso"; ele está se referindo especificamente a Tibério, que, como já vimos em outro lugar, era adepto de todo tipo de crença e superstição esdrúxula – e, para homens como Gallio, religião é só uma superstição institucionalizada. Não há no livro menção à religião romana original, a do culto familiar – muito mais antiga, enraizada e importante para os romanos que a crença nos Olimpianos –, e é possível que Douglas, como quase todo mundo, nada soubesse a respeito; para sanar essa lacuna, recomendo o livro A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges.) A crença dos judeus, que adoram um Deus único, parece a Marcelo igualmente ingênua, com a desvantagem de não oferecer o mesmo campo fértil para a para a poesia, a literatura e as artes, como a religião greco-romana.

O importante no momento, porém, é que, durante a Páscoa (que, entre os judeus, dura toda uma semana), a cidade de Jerusalém recebe multidões de peregrinos, ficando apinhada, e, é claro, qualquer lugar onde se reúna muita gente torna-se propício a agitações, de modo que, enquanto dura a festa, todas as guarnições romanas da Palestina têm que deslocar parte de seus efetivos para a Cidade Santa, a fim de ajudar a manter a ordem e desencorajar tumultos. Ao aproximar-se a primeira Páscoa desde que assumiu seu posto, Marcelo quer incumbir Paulo de comandar o destacamento que irá a Jerusalém, mas o centurião sugere irem os dois, dizendo que é o único acontecimento interessante do ano naquelas paragens, e o jovem comandante concorda em acompanhá-lo, levando Demétrio consigo, naturalmente. Acontece então que, na chegada a Jerusalém, já durante a semana da Páscoa e poucos dias antes do sábado (o dia que os judeus consagram à oração e ao repouso), Demétrio vê uma movimentação estranha, uma multidão agitando ramos de palmeira e gritando aclamações enquanto um certo pregador da Galileia, um tal Jesus de Nazaré, entra na cidade cavalgando um humilde burrinho (conforme Mt 21, 8-11). Seu olhar cruza com o do estranho por apenas um instante, e isso basta para causar ao jovem grego uma impressão profunda, que não lhe sai da cabeça durante os dias seguintes. O que acontece a seguir, todos os que conhecem o Novo Testamento sabem: Jesus é preso, julgado e condenado à crucificação – uma das piores maneiras de morrer conhecidas na época. E quem, senão o destacamento de Minoa, sob o comando do legado Marcelo Lucan Gallio, recebe ordem de cumprir a sentença?

A crucificação, ou crucifixão (as duas formas existem) foi um método de execução que os romanos aprenderam com os macedônios, que o aprenderam com os persas, a quem possivelmente cabe o "mérito" da sua invenção. É pouco provável que a cruz de Jesus tivesse a forma que estamos acostumados a ver: normalmente os madeiros utilizados tinham forma de T, às vezes de Y, não sendo raro, ainda, que o "crucificado" fosse pregado a um simples poste, com os dois braços para cima. E, por falar em pregar, uma observação é necessária. Embora a prática de fixar o sujeito à cruz usando enormes pregos seja, sem dúvida, o detalhe mais horripilante de todo o processo, eles, na verdade, eram um mero acessório, destinado a aumentar o sofrimento do condenado e a tornar a cena mais assustadora para quem a visse, a fim de desencorajar outros de incorrer no mesmo crime que havia levado o homem a terminar assim. Tanto os pregos não eram essenciais que, por vezes, eram dispensados: ao final da revolta de Espártaco, em 71 a.C., quando seis mil de seus seguidores foram crucificados ao longo da Via Ápia, a certa altura os pregos acabaram, mas os executores continuaram a crucificar, simplesmente amarrando os condenados às cruzes. Os pregos não eram o verdadeiro tormento. Acontece que, quando uma pessoa fica durante horas dependurada, com a maior parte do peso do corpo sendo sustentada pelos braços, a musculatura do tórax entra em fadiga, tornando o processo de expandir e contrair os pulmões cada vez mais difícil e doloroso, até o condenado morrer de exaustão lutando para respirar. No caso de Jesus, ele havia sido açoitado, o que causou uma severa perda de sangue, e depois obrigado a carregar a cruz num longo percurso, o que certamente o cansou muito, e foram esses fatores que levaram à sua morte em apenas três horas a partir da crucificação propriamente dita; há registros que dão conta de que, quando um homem vigoroso era crucificado descansado e sem ferimentos prévios, podia demorar até vários dias para morrer. A exposição aos rigores do clima e aos ataques de insetos e de aves carniceiras eram acréscimos terríveis a uma pena já tão cruel.

O jogo de dados mencionado por São João é vencido por Marcelo, que leva o manto. A partir daí, porém, o episódio todo passa a assombrar o jovem oficial e o lança numa depressão profunda. Sendo um homem essencialmente decente, Marcelo ficaria inevitavelmente chocado ao testemunhar os horrendos detalhes de uma crucificação, mesmo que fosse a de um criminoso de verdade – e, para piorar, ele sente no fundo da alma que Jesus não só era inocente, como era um homem extraordinário e único. A angústia e o desespero são tamanhos que nem mesmo a chegada, logo depois, de uma carta de Roma, encerrando seu desterro e autorizando-o a voltar, consegue animá-lo.

A ordem para que Marcelo deixe Minoa e volte para casa vem do próprio imperador, e isso acontece graças à intervenção de uma personagem importante, mas que ainda não tive a oportunidade de mencionar, a adolescente Diana, filha de um certo legado Asínio Galo – Diana é provavelmente fictícia, já seu pai, se não for histórico, ao menos tem um nome que o é: pesquisando a respeito, encontrei diversos Asínios Galos com variados graus de destaque na História romana; nenhum deles se encaixa perfeitamente no que é dito no livro sobre esse personagem, mas isso pode ser apenas resultado de outra liberdade do autor. Diana é amiga inseparável de Lúcia, a irmã de Marcelo, e tem uma paixão juvenil por ele, que, ao que parece, estava apenas começando a enxergá-la como mulher quando foi mandado para a Palestina. Ela é praticamente a única pessoa de quem o senil e rabugento Tibério parece gostar; trata-o de "vovô", embora na verdade seja neta de sua ex-esposa, de quem ele foi obrigado a divorciar-se, por motivos políticos, antes de ser imperador. Diana, então, habilmente tira proveito dessa proximidade com o velho monarca para conseguir que ele anule a ordem de Gaio, e Marcelo retorna a Roma – abatido e apático, uma sombra do homem que era. O senador Gallio, sempre sagaz, toma a correta iniciativa de chamar Demétrio para uma entrevista a portas fechadas. Dessa forma fica sabendo de todo o acontecido, e imediatamente conclui que, se alguém pode ajudar seu filho e talvez fazer com que ele volte a ser o que era, é seu fiel e esperto escravo, que talvez o conheça melhor que ninguém. E decide mandar os dois numa viagem para que Marcelo mude de ares…

A partir daí, enquanto Marcelo e Demétrio visitam a Grécia e depois novamente a Palestina, seus destinos se entrelaçam definitivamente com os dos homens e mulheres cujas vidas foram tocadas, e mudadas para sempre, pelo misterioso pregador galileu. Vários personagens já conhecidos por quem leu os Evangelhos vão aparecendo, criando uma teia fascinante de encontros, histórias e atos admiráveis que leva à conclusão inevitável de que tudo sempre foi parte de um grande plano divino. O Manto (que Douglas grafa com maiúscula, afinal não é um manto qualquer) funciona como um catalisador de tudo isso. Num de seus piores momentos, Marcelo, na ânsia de livrar-se de qualquer coisa que o relembre do homem a quem crucificou, ordena a Demétrio que o queime – e, por essa única vez, o fiel coríntio desobedece a seu amo. A verdade é que o contato com o Manto o conforta de uma forma inexplicável, enchendo-o de serenidade e coragem, e em nenhum momento Demétrio duvida de que esse poder vem daquele que uma vez o vestiu. E, embora não saiba ao certo como, ele tem uma intuição de que, apesar do horror que a veste do galileu crucificado inspira em seu senhor, ela poderá acabar tendo um papel-chave em sua recuperação. Tanto Demétrio quanto Marcelo são homens instruídos e esclarecidos, o que, na mentalidade da época (pelo menos entre as elites), não era considerado conciliável com qualquer tipo de crença em divindades ou no sobrenatural – mas ambos sentem e concordam que havia no tal Jesus alguma coisa de extraordinário, algo que é muito difícil não chamar de sobre-humano. Essa convicção só aumenta à medida que eles vão descobrindo mais coisas a respeito de Jesus.

Conversando com aqueles que conviveram com Jesus, Marcelo rapidamente se convence de que o carpinteiro de Nazaré possuía uma sabedoria muitíssimo além de sua jovem idade, o que, à primeira vista, parece-lhe contraditório com o fato de que ele evidentemente acreditava, de verdade, que sua mensagem – um apelo à honestidade, generosidade e gentileza de todos para com todos – poderia encontrar eco no mundo real, tão cheio de ganância e injustiças; mas ele começa a compreender quando passa a notar a marca que o Nazareno deixou nas pessoas em toda parte por onde passou. Na aldeia de Caná, por exemplo (o local do primeiro milagre de Jesus), Marcelo conversa com Míriam, uma moça inválida em consequência de uma paralisia, que canta com a voz de um anjo as tradicionais canções judaicas (creio que os trechos reproduzidos são dos Salmos); ela teve um encontro com Jesus e, mesmo não tendo sido curada de sua enfermidade como aconteceu com muitos, recebeu uma cura ainda mais importante, a do espírito, transformando-se de uma pessoa rabugenta, amargurada com sua sorte, em uma alma meiga e serena, que transmite paz a todos os que a conhecem. Cito apenas esse exemplo para não estender demais o texto, mas há outros.

Empenhado em seu objetivo de evangelizar por meio de histórias, Lloyd C. Douglas utiliza-se dos pensamentos e sentimentos de seus personagens, bem como de certas conversas entre eles, para dar ao leitor um panorama do terreno intelectual onde a semente dos ensinamentos de Cristo foi primeiramente lançada. Como já comentamos, as pessoas instruídas da época, em geral, tinham suas ideias influenciadas por filósofos que eram, em sua maioria, céticos, ou, na melhor das hipóteses, agnósticos – só que algumas dessas pessoas instruídas questionavam as concepções desses filósofos, sentindo que não respondiam a todas as suas indagações. Demétrio sente que tem que existir algo mais, mas não consegue conciliar a crença na existência de um Deus todo-poderoso e bom (como aquele de que falam os judeus em geral e os discípulos de Jesus em particular) com o fato de tantas coisas tristes acontecerem no mundo – coisas como a destruição de sua família e sua própria escravização. Marcelo acredita, como seu pai, num mundo lógico e previsível, no qual cada causa tem seu efeito e cada efeito, sua causa, e onde as leis naturais não abrem exceções; o próprio conceito de "milagre" ofende sua inteligência… e, mesmo assim, quando sua depressão é repentinamente curada, ele sente um desejo instintivo de render graças a alguma entidade superior, só que não acredita em nenhuma. Essas inquietações são como que o primeiro passo num longo caminho que os dois jovens vão trilhar ao longo do livro, e que os levará a passar por transformações que nunca teriam imaginado.

Essas transformações, porém, não afetam a todos por igual. Em Jerusalém, cerca de um ano depois da morte e ressurreição de Jesus, Demétrio faz amizade com um conterrâneo grego, Estêvão, um cristão que faz parte da primeira comunidade dos que creem na doutrina do Nazareno, comunidade essa à qual o próprio Estêvão deu o nome de Eclésia, palavra grega que significa 'assembleia' e daria origem ao nome "Igreja". E Estêvão confessa que, a despeito do ardor que as palavras e o exemplo de Jesus lhe inspiram, muitas vezes ele se sente decepcionado e desanimado ao ver as rivalidades mesquinhas e as brigas tolas que surgem a toda hora entre muitos daqueles que, para serem fiéis aos ensinamentos do Mestre, deveriam viver como irmãos. Além disso, essa primeira comunidade cristã tentou uma experiência que poderíamos chamar de "protossocialista": "Não havia uma só pessoa necessitada entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos, que, por sua vez, o repartiam conforme a necessidade de cada um." (At 4, 34-35) Assim como o socialismo, isso parecia uma boa ideia à primeira vista – mas, tal como o socialismo, só poderia funcionar (talvez) se todo mundo fosse trabalhador, honesto e comprometido com o bem comum, o que nunca será o caso, nem mesmo entre uma comunidade de seguidores de Jesus, quanto mais em todo um país. O resultado prático dessa experiência foi que aqueles que haviam doado mais dinheiro para a Eclésia ficavam achando que podiam mandar nela, e também que muita gente que não era chegada a trabalhar passou a se dizer cristã só porque assim teria um teto sobre a cabeça e comida na mesa sem precisar se esforçar (isso foi antes de começarem as perseguições). Esse sistema seria mais tarde abandonado, quando ficou evidente que era mais prejudicial que benéfico à causa de Cristo. Em tempo: Estêvão, ou melhor, Santo Estêvão, seria preso e condenado pelas autoridades judaicas à morte por apedrejamento (cena que Douglas descreve de forma resumida, mas nem por isso com menos impacto), e é considerado o primeiro cristão a ter dado a vida pela fé – o primeiro mártir. Sua história está contada nos capítulos seis e sete dos Atos dos Apóstolos.

O Manto Sagrado foi levado às telas em 1953, numa superprodução dirigida por Henry Koster, com Richard Burton no papel de Marcelo, Victor Mature como Demétrio e Michael Rennie como o apóstolo Pedro, entre outros nomes de peso do cinema da época… Mas, para ser franco, e apesar da minha simpatia a priori por esses velhos filmes épicos e/ou bíblicos, não posso dizer que o recomende, pois o roteiro desvirtuou completamente o caráter dos dois personagens principais, bem como a relação entre eles, além de, a meu ver, simplificar a trama de uma maneira descabida. Se quiserem conferir, fiquem espertos para esses problemas – e, é claro, se puderem, não deixem de ler o livro, que, por sinal, bem que podia ganhar uma nova edição. A que eu li, emprestada por minha mãe, é do início dos anos 80, e, mesmo na época, representou um esforço quase arqueológico por parte do pessoal da editora Record, pois antes disso o livro havia ficado fora de catálogo no Brasil durante décadas. Ainda a respeito do filme e "adjacências", curiosamente houve um spin-off, como diríamos hoje: Demétrio e os Gladiadores, dirigido por Delmer Daves, lançado apenas um ano depois do filme de Koster, e claramente feito para surfar no sucesso deste. Também estrelado por Victor Mature, o filme mostra Demétrio sendo preso devido a uma falsa acusação e sentenciado à arena, onde acaba alcançando sucesso como gladiador, apesar de atormentado por dilemas de consciência causados pela incompatibilidade entre seu novo modo de vida e sua fé cristã. O roteiro também inclui a sedução do coríntio por Messalina, a esposa de Cláudio, tio e mais tarde sucessor do imperador Calígula (que havia sucedido Tibério). Nada disso foi escrito por Lloyd C. Douglas.

Como eu disse no começo, Douglas permitiu-se diversas liberdades históricas. O Tibério que ele pinta é supersticioso tal como informavam os historiadores antigos, mas aparenta ser meramente um velhinho caduco, um tanto desagradável por vezes, mas, de modo geral, inofensivo, que se transferiu de Roma para Capri a fim de aproveitar seus últimos anos num lugar de clima mais salubre, dedicando-se ao que realmente gosta, a arquitetura. Se formos ler a Vida dos Doze Césares, de Suetônio, ou algum romance que siga a História mais à risca, como Eu, Claudius, Imperador, o Tibério que ali encontramos retratado é sanguinário, frequentemente mandando prender e executar pessoas por conta de sua paranoia – para não falar em suas supostas preferências sexuais sádicas. Já o príncipe Gaio, enteado de Tibério, corresponde ao personagem histórico de nome Caio Vipsânio Agripa, filho do primeiro casamento de Júlia, esposa de Tibério e única filha do imperador Augusto. Adotado pelo avô materno, Gaio/Caio teve o nome mudado para Caio Júlio César Vipsaniano, e teria sucedido a Augusto como imperador, caso não tivesse morrido no ano 4 d.C., aos 23 anos de idade – portanto, já estava morto há cerca de 30 anos na época dos eventos de O Manto Sagrado. É possível que sua morte tenha sido encomendada por Lívia, mulher de Augusto e mãe de Tibério, para possibilitar a ascensão do filho ao trono, mas nada jamais foi provado. Há também o caso de Calígula, sobrinho-neto e sucessor de Tibério, cuja ascensão acontece já perto do final do romance. Em O Manto Sagrado, é dito que ele tinha apenas 16 anos nessa ocasião, mas na verdade Calígula, ou Caio Júlio César Augusto Germânico, nasceu no ano 12, e Tibério morreu em 37; portanto, Calígula já tinha 25 anos ao tornar-se imperador, e 29 quando foi assassinado, no ano 41.

Essas liberdades históricas, entretanto, são facilmente perdoáveis. Se vejo algum defeito em O Manto Sagrado, é a evidente má vontade que o autor demonstra para com a civilização romana, retratando-a sempre como tirânica, opressora, corrupta, e pouca coisa além disso – no máximo, admitindo que um ou outro romano pode ser uma pessoa decente. Claro que é ingenuidade canonizar qualquer povo ou cultura, mas é igualmente ingênuo demonizá-los: a meu ver, pintar Roma como "O Mal" é um erro tão grande quanto acreditar que as Américas eram um paraíso antes da chegada dos europeus. O Império Romano inúmeras vezes fez prevalecer sua vontade pela força das armas, escravizou populações inteiras, e, como todos os impérios, deu oportunidade a todo tipo de autoritarismo e abuso de poder, mas também alavancou a economia e a cultura em suas províncias (melhorando as condições de vida para milhões de pessoas), levou a civilização a lugares que nunca a tinham visto, e mostrou aos povos bárbaros que outro tipo de vida era possível, um em que havia leis, direito, e no qual um homem podia prosperar por meio do próprio trabalho e inteligência; além de tudo isso, os romanos aprenderam, por necessidade, a tolerar diferenças, o que era algo mais ou menos inédito até então. Nas preleções que faz a Marcelo, o senador Gallio declara, com ares proféticos, que Roma um dia sucumbirá à revolta dos povos conquistados e dos próprios escravos que importou, dando a impressão de pensar que isso pode acontecer a qualquer momento… quando sabemos que, na verdade, o Império ainda existiria por mais quatro séculos e meio e deixaria no mundo uma marca que, para o melhor e para o pior, jamais seria apagada. Roma fez grandes coisas – coisas maravilhosas e também coisas terríveis, pois, afinal, era feita de seres humanos – mas, em todo caso, grandes coisas.

O Manto Sagrado faz parte daquela categoria muito especial de livros que têm o dom de capturar o leitor logo nas primeiras páginas, mantê-lo hipnotizado até as últimas, e deixá-lo triste quando terminam. Na edição que li, o texto das orelhas reproduz trechos de uma entrevista com Lloyd C. Douglas, na qual ele contava que seu pai também era pastor e um grande contador de histórias, que "pensava em todas as pessoas da Bíblia como se estivessem vivas, e fazia com que parecessem vivas". Sendo assim, podemos atestar que o filho do Reverendo Douglas aprendeu bem as lições do pai, e que também fazia algo mais: misturava personagens bíblicos e/ou históricos com personagens de sua própria criação com tal habilidade que tudo parecia uma coisa só. Qualquer leitor cristão, não importa de qual denominação, fatalmente se emocionará com os exemplos de fé e heroísmo destas páginas, e qualquer leitor, seja cristão ou não, será inevitavelmente envolvido pela prosa fluente do autor.

quinta-feira, outubro 25, 2018

O Voo da Águia

O segundo volume da saga Águias do Império de Simon Scarrow começa praticamente onde o primeiro termina. O exército romano acaba de estabelecer sua primeira base de operações relativamente firme em solo britânico, tendo enfrentado para isso uma árdua batalha, e prepara-se para prosseguir com seu avanço de conquista. O general Aulo Pláucio e seus oficiais (entre eles Vespasiano, legado da Segunda Legião Augusta, e seu tribuno superior, Vitélio) sabem que precisam tomar a cidade de Camulodunum (trata-se da atual Colchester, e nesta tradução adota-se a versão aportuguesada "Camulodônia") antes que o mau tempo do outono e inverno tornem inviável a continuidade da campanha pelo restante do ano: a cidade é sede da aliança de tribos forjada por Carátaco, chefe dos catuvelaunos, para tentar resistir à invasão romana. Esse movimento tem dupla importância: tomando Camulodunum, os romanos quebrarão a espinha da aliança dos bretões e, além disso, darão uma de-monstração de força que poderá convencer várias tribos britânicas ainda neutras a apoiá-los. Se falharem e tiverem que esperar até a primavera seguinte, poderá ser tarde demais, pois Carátaco terá tempo de consolidar sua aliança e desferir um ataque fatal, tirando vantagem de sua superioridade numérica e melhor conhecimento do terreno. Só que tomar Camulodunum não será fácil: só para chegar até a cidade, as legiões precisarão atravessar dois rios, o Durobrivae (que, por alguma razão, Scarrow preferiu chamar pelo nome moderno, Meadway) e o Tamesis (Tâmisa), obstáculos naturais que Carátaco, sem dúvida, saberá usar a seu favor.

Nos bastidores da Segunda Augusta, a rivalidade velada entre Vespasiano e Vitélio está equilibrada, graças ao princípio da "destruição mútua assegurada": cada um conhece certos segredos que, se revelados, custariam a carreira e, provavelmente, também a vida do outro. Isso mantém os dois disputando um tenso jogo de xadrez no qual um só passo em falso pode ser fatal. Ambos estão destinados a serem imperadores – um deles por curto tempo e deixando uma memória ingrata, enquanto o outro se tornaria um dos mais notáveis a vestir a púrpura durante os 500 anos do período imperial romano. Porém, nessa época ainda não há como alguém saber disso.

Já entre os "meros mortais" que integram a legião, o jovem Quinto Licínio Cato, já com quase um ano de caserna, está, por fim, sentindo-se um legionário digno desse nome e, como optio, sua ajuda é valiosa para seu centurião, Lúcio Cornélio Macro, homem bravo e justo, mas um tanto bronco. Junto com a Nona, Décima Quarta e Vigésima legiões, a Segunda Augusta atravessa o Durobrivae em meio à feroz oposição dos bretões, resultando numa batalha sangrenta, na qual a Segunda, por estar com seu contingente reduzido, é utilizada como reserva… mas, para a aflição de Macro, Cato e seus companheiros, no momento em que eles são mais necessários e estão prontos para entrar em ação, a ordem de avançar não vem – e, desnecessário dizer, sem essa ordem eles não podem intervir, de modo que são obrigados a ficar olhando enquanto a Nona enfrenta a fúria dos bretões e sofre baixas pesadas. Chega a parecer que alguém no comando está sabotando a batalha, mas a Nona confirma a fama de unidade valente e durona que já então tinha, e ganha o dia, mesmo com tudo indo contra. A ordem para a Segunda avançar, quando finalmente vem, parece ter sido dada no último momento possível. Ainda assim, há luta suficiente para que Cato abata mais alguns inimigos e sofra um ferimento de certa gravidade.

As provações ainda estão longe de acabar. Na região pantanosa entre o Durobrivae e o Tamesis, a Segunda Legião, impossibilitada de se reagrupar, fica dividida em pequenas subunidades que se veem envolvidas numa série de escaramuças, nas quais os bretões, familiarizados com o terreno, levam vantagem. Num momento desesperado, em que a Sexta Centúria, já reduzida em número, parece na iminência de ser aniquilada, Macro ordena a Cato que tente salvar o restante da centúria enquanto ele próprio fica para trás, com um punhado de homens, para tentar atrasar o inimigo, num ato heroico e praticamente suicida. O jovem optio cumpre a missão, mas fica totalmente sem chão com a perda de seu centurião, que ele julga morto… Claro que não é spoiler dizer que Cato está enganado – todo mundo sabe que a série continua ainda por vários volumes e que, neles, Macro continua aparecendo, mas, durante alguns dias, não se tem notícias dele, o que automaticamente coloca Cato no comando interino, função na qual ele não se sente nada à vontade – e quem poderia culpá-lo, sendo ainda tão pouco experiente? De qualquer forma, Cato e os soldados, de comum acordo, determinados a vingar seu centurião, apresentam-se como voluntários para fazer parte da primeira leva de tropas que atravessará o Tamesis; essa primeira leva terá que segurar as coisas por ali até que a segunda chegue para ajudá-la, e mesmo os meros minutos que os transportes levarão para cruzar o rio de volta, embarcar a segunda leva e retornar podem ser tempo suficiente para que eles sejam massacrados. Essa parte é muito propícia a que Simon Scarrow dê mais uma demonstração de suas habilidades como narrador de batalhas. É interessante notar que esse tipo de batalha – um exército tentando atravessar um rio, fosse vadeando-o ou por meio de embarcações, enquanto o outro tentava impedi-lo – seria muito típico das guerras medievais, séculos mais tarde. As legiões romanas eram insuperáveis como infantaria pesada, mas, justamente por causa do peso de seu equipamento, sua mobilidade no campo de batalha era limitada; era mais vantajoso para elas esperar que o inimigo tomasse a iniciativa de atacar, mas, devido à própria natureza das batalhas travadas no Durobrivae e no Tamesis, desta vez viram-se forçadas a assumir postura ofensiva, o que teve seus custos em termos estratégicos e acarretou sérias baixas. A conquista da Britânia não sairia barata ao Império.


Uma vez assegurado o controle da travessia dos rios, o exército comandado por Pláucio está finalmente em condições de avançar para Camulodunum, mas não pode fazer isso de uma vez: o imperador Cláudio, determinado a tirar daquela campanha todo o proveito político que puder, faz questão de estar presente para posar de herói conquistador, embora, é claro, não vá tomar parte em batalha alguma – ele nunca teve saúde para ser soldado, e, além disso, nessa época já não é jovem, sem contar que não teria muito cabimento um imperador arriscar a vida dessa forma, considerando que sua morte repentina poderia facilmente lançar o Império no caos. Vespasiano reflete que, enquanto o exército romano permanece parado, esperando pela chegada do imperador, Carátaco está tendo tempo para se preparar, e diz consigo mesmo que "a vaidade de Cláudio podia matá-los a todos", mas, para crédito de Cláudio, a verdade é que não se trata de mera vaidade, e sim de uma maneira de consolidar-se no trono.

Por esse tempo, há em Roma um movimento semissecreto conhecido como "os Liberais", que tem por objetivo a restauração da República, e pretende alcançar isso sabotando tudo o que o imperador tente fazer, como a campanha da Britânia, por exemplo. Nesse caso, eles podem estar agindo de uma forma bastante direta: Macro, Cato e outros soldados na linha de frente começam a notar que muitos chumbos lançados pelos fundibulários britânicos e muitas espadas empunhadas por seus guerreiros são de fabricação romana. Se fosse numa escala menor, nada disso seria de se estranhar – os fundibulários poderiam estar simplesmente reaproveitando os chumbos lançados pelos romanos contra eles, e as espadas poderiam ser despojos de batalhas anteriores, mas a presença de tais itens na quantidade em que estão sendo encontrados só pode significar uma coisa: há romanos fornecendo armas aos bretões. A primeira e natural suspeita de Vespasiano é que algum comerciante romano, mais sensível à sede de lucro que ao patriotismo, esteja negociando com os bárbaros por baixo dos panos, mesmo correndo o risco de ser apanhado, caso no qual seria executado publicamente da forma mais dolorosa e vergonhosa possível – era assim que Roma lidava com traidores. Porém, a realidade parece ser ainda mais sinistra: há nisso o dedo dos Liberais, e, o pior de tudo, Vespasiano suspeita que sua própria esposa, Flávia, uma nobre dama romana com trânsito livre na corte imperial, esteja envolvida.

Quando Cláudio finalmente chega, traz consigo reforços substanciais sob a forma de tropas e máquinas de cerco, tudo isso muito bem-vindo pela força expedicionária romana, já combalida pelas batalhas. Traz também, curiosamente, alguns elefantes (!), muito mais para fazer vista que qualquer outra coisa: embora isso tenha sido tentado por mais de uma vez, não parece que tenha havido algum sucesso consistente em utilizar elefantes em combate de forma eficaz no exército romano, nem mesmo com a colaboração de mahouts (condutores) nativos da África, provavelmente cartagineses ou númidas – esses povos, antes de serem subjugados, haviam lutado contra os romanos, muitas vezes utilizando elefantes com resultados terríveis. Por outro lado, a simples visão dos paquidermes costumava valer por um golpe severo no moral do inimigo, que geralmente nunca tinha visto nem imaginado semelhantes "monstros". Para eles, os animais pareciam algo saído de um pesadelo.

(A título de curiosidade, os elefantes de Cláudio, embora parecendo enormes aos olhos dos bretões e mesmo da maioria dos romanos, provavelmente não eram tão grandes quanto nós, modernos, os imaginaríamos, pois quase certamente pertenciam a uma subespécie hoje extinta, a Loxodonta africana pharaoensis, que habitava o vale do Nilo e outras partes do norte da África e era menor que as outras duas subespécies de elefantes africanos, que ainda existem e que, por habitarem a África subsaariana, eram exóticas para os povos da bacia do Mediterrâneo na Antiguidade. Essa subespécie menor era a mesma dos elefantes de guerra empregados por Cartago nas Guerras Púnicas.)

Bem… Quando escrevi meus comentários sobre A Águia do Império, primeiro volume desta série, deixei registrado meu estranhamento quanto ao detalhe de que Cláudio tivesse ordenado a Vespasiano que investisse o adolescente Cato no posto de centurião – ordem essa totalmente disparatada e que, se cumprida, seria certeza de desastre para a centúria em questão e, numa batalha, poderia até afetar toda a coorte, num efeito dominó. Acontece que o Cláudio aqui retratado (pois, neste volume, ele aparece) seria perfeitamente capaz de ordenar isso. Scarrow pinta-o como um tolo completo, talvez até levemente retardado – um papel que Cláudio representava quando julgava necessário, mas que não correspondia a sua personalidade real. É ponto pacífico entre os historiadores que ele foi um governante competente, que tomou decisões sábias na administração e na justiça do Império e era estimado pelo povo, além de ter sido um intelectual de capacidades não desprezíveis, autor de vários livros de História considerados notáveis pelos acadêmicos das gerações seguintes, mas que, infelizmente, não foram preservados até nossos dias. Aqui, porém, Cláudio é retratado como um pateta vaidoso, completamente manipulado por seu homem de confiança, o liberto Narciso, e, enquanto permanece na frente de combate, por vezes dá pitacos absurdos, obrigando o general Pláucio a verdadeiros contorcionismos de retórica para salvar seu exército sem afrontar o imperador. Fiquei até as últimas páginas na expectativa de ver Cláudio, talvez em particular com Pláucio ou com Vespasiano, tirar a máscara de abobado e começar a falar com autoridade e firmeza (mesmo que continuasse a gaguejar!), mostrando-se como realmente era, mas isso não aconteceu.

Outro ponto discutível que encontrei foi numa passagem em que Cato (no exercício de suas funções administrativas na centúria) e Macro estão conversando sobre um soldado que precisou ter uma perna amputada devido a um ferimento gravíssimo em combate e que, por conta disso, seria mandado para casa tão logo recebesse alta do hospital de campanha. Não estou encontrando o trecho agora para me certificar dos detalhes (livro físico também tem suas desvantagens), mas, pelo que minha memória reteve, Macro relembra os veteranos aleijados que ele via nas ruas de Roma quando jovem, levando vidas miseráveis e dependendo da caridade alheia para sobreviver; então, para poupar seu legionário ferido desse destino, promove uma coleta entre os companheiros para que ele tenha o capital inicial para abrir um negócio, talvez fabricando calçados ou alguma outra atividade que possa exercer sentado. A questão é: todas as fontes históricas que já consultei a respeito das legiões romanas (e acreditem, foram muitas, ao longo de mais de 30 anos) são unânimes em afirmar que um legionário inválido não ficava entregue à própria sorte. Havia o aerarium militare, talvez o primeiro sistema de previdência institucionalizado e regulamentado da História, que era custeado em parte por um desconto compulsório sobre os soldos dos legionários na ativa, em parte por outras verbas provenientes de impostos e destinadas pelo governo imperial. Esse sistema garantia uma renda aos soldados inválidos ou às famílias dos que morressem. Dependendo de seu nível de educação e da qualificação profissional que possuísse, um legionário que ficasse incapacitado para lutar podia, também, ser remanejado para funções administrativas ou de apoio dentro do próprio exército ou em diferentes órgãos públicos.

Como parece ser característico da série Águias do Império, em O Voo da Águia encontramos a alternância entre partes que tratam do cotidiano dos legionários (incluindo as batalhas, é claro) e outras que envolvem política, intriga e suspense. Neste volume, há uma conspiração em andamento para assassinar Cláudio, e, como no livro anterior, Macro e Cato vão ver-se envolvidos na trama, resultando numa situação em que nenhum dos dois gostaria de estar metido, mas na qual terão que mobilizar toda a sua coragem para tentar salvar a vida do imperador. Suponho que procurar equilibrar os dois aspectos dentro da narrativa seja a aposta de Simon Scarrow para evitar que qualquer um deles se torne cansativo, e devo dizer que, na minha opinião, funciona. Suas histórias são interessantes, intensas e satisfazem plenamente o leitor interessado na Antiguidade romana. Seguirei lendo e recomendando.