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quinta-feira, novembro 21, 2019

A Hora do Vampiro

Havia uma igreja em ruínas no caminho, um antigo centro de reuniões metodistas, que erguia seus destroços na extremidade de um gramado estragado pelas geadas e cheio de elevações, e quando alguém passava por suas janelas vazias e sem sentido, os passos soavam muito alto, e o que quer que se estivesse assobiando morria nos lábios, e podia-se pensar em como aquilo devia ser lá dentro – os bancos tombados, os hinários apodrecidos, o altar desmoronado, onde hoje só os camundongos guardavam o domingo, e ficava-se pensando, o que poderia haver ali além dos camundongos – que loucos, que monstros. Talvez estivessem olhando para a pessoa com seus olhos amarelos, de répteis. E talvez não bastasse espiar, uma noite; talvez uma noite qualquer aquela porta rachada, mal pendurada, se abriria repentinamente e o que se veria ali levaria à loucura, com um só olhar.

Não se poderia explicar isso à nossa mãe ou pai, que eram criaturas da luz. Assim como não se podia explicar-lhes que, aos três anos, o cobertor sobressalente ao pé do berço transformava-se numa coleção de serpentes que ficavam olhando para a gente com olhos planos e sem pálpebras. Nenhuma criança jamais vence esses medos, pensou ele. Se um receio não pode ser formulado, não pode ser vencido. E os medos trancados em cérebros pequeninos são grandes demais para passarem pelo orifício da boca. Mais cedo ou mais tarde, a gente encontrava alguém com quem caminhar por todas as casas de reunião desertas que se tem de passar entre a infância sorridente e a senilidade ranzinza. Até aquela noite. Até aquela noite, em que ele via que nenhum dos velhos receios fora vencido – apenas guardados em seus caixões pequeninos, de criança, com uma rosa silvestre espetada em cima.

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No post a respeito de Ao Cair da Noite, eu já havia dado breves pinceladas sobre o início da carreira de Stephen King, assinalando que, como muitos escritores de todos os gêneros, ele começou pelos contos, mais rápidos de escrever e mais fáceis de vender, somente passando aos romances quando já estava com o nome consolidado, com leitores fiéis e um currículo que obrigaria qualquer editor a, no mínimo, dar-lhe atenção. Carrie (1974) foi como que um trabalho de transição – um romance, mas relativamente curto, com menos de 200 páginas, como se o autor ainda estivesse se ajustando a escrever narrativas mais longas. Assim, podemos dizer que 'Salem's Lot (1975) foi seu primeiro romance "padrão": foi com ele que King deslanchou como romancista.

Quanto ao título nacional, bem… O exemplar que tenho, e cuja capa estou reproduzindo aqui, é da edição de 1991 da Nova Cultural, um livro barato vendido em bancas de jornal – o único tipo de livro que eu, adolescente, tinha condições de adquirir, e mesmo isso, só muito ocasionalmente; a maior parte do que eu lia na época era emprestado da biblioteca pública. O que eu ia dizer, entretanto, era que, como costuma acontecer com essas edições baratas, essa foi publicada mediante licença da editora que havia publicado o livro antes e que detinha os direitos da tradução, no caso a Record. Isso significa que a primeira edição brasileira de 'Salem's Lot saiu, provavelmente, alguns anos antes, portanto em meados dos anos 80, em plena febre dos filmes A Hora. Quem é macaco velho em matéria de cinema fantástico sabe do que estou falando; para os mais jovens, explico: durante boa parte daquela década mágica, existiu (no Brasil) uma convenção de que filme de terror, para fazer sucesso, tinha que ter o título começando com A Hora. Creio que isso tenha começado com A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), que inaugurou o que seria uma das franquias mais lucrativas do gênero, mas sobre a qual confesso que sei muito pouco. No ano seguinte surgiu A Hora do Espanto (Fright Night), de Tom Holland, por sinal um ótimo filme de vampiro. Depois que ambos os filmes foram sucessos de bilheteria no país, as distribuidoras nacionais passaram a rebatizar uma infinidade de produções de variados temas e qualidade ainda mais variada como A Hora disso e A Hora daquilo: tivemos A Hora dos Mortos-vivos, A Hora das Criaturas, A Hora da Zona Morta, A Hora do Lobisomem (os dois últimos baseados em livros de Stephen King), entre muitos outros. E o modismo, que surgiu no cinema, acabou respingando na literatura, o que valeu a 'Salem's Lot o pífio título pelo qual ficou conhecido no Brasil. A capa desta edição, apresentando uma espécie de Drácula genérico, também não ajuda, mas, felizmente, eu já conhecia um pouco de King na época (tinha lido Zona Morta e Sombras da Noite), e por isso não permiti que o título nem a capa me detivessem. E, com título ruim ou não, A Hora do Vampiro é um vigoroso exemplo de Stephen King no melhor de suas capacidades.

'Salem's Lot é uma contração de Jerusalem's Lot, nome da pequena cidade do Maine que serve de cenário à história. É bem claro que se trata da mesma cidade que aparece no conto A Saideira, presente na coletânea Sombras da Noite, mas fica-se em dúvida se será também a mesma de outro conto da mesma coletânea, intitulado Jerusalem's Lot. No livro de que estamos tratando, não há qualquer menção à amaldiçoada família Boone, ao livro profano De Vermis Mysteriis ou à sinistra mansão de Chapelwaite. Em vez dela, há outra mansão com reputação de assombrada, a Casa Marsten, cujo proprietário, então o homem mais rico de Lot e região, assassinou a esposa e logo em seguida suicidou-se, isso em 1939, décadas antes dos eventos narrados no livro, que se ambienta na mesma época em que foi publicado, meados dos anos 70. Benjamin Mears, escritor de certa fama, que morou na cidade durante parte de sua infância, decide passar uma temporada lá enquanto escreve um novo romance. Cerca de um ano antes, a fatídica Casa Marsten foi comprada, de forma sigilosa, por uma dupla de forasteiros que também adquiriram o prédio de uma lavanderia há muito fechada; sua intenção declarada é a de fixar residência na velha mansão e transformar a antiga lavanderia numa loja de móveis finos e antiguidades. Parece que os preparativos necessários foram demorados, pois, coincidência ou não, o homem que diz chamar-se Richard Straker e se apresenta como um dos sócios-proprietários da loja reaparece em Lot praticamente ao mesmo tempo em que Ben Mears chega. Straker, homem de aparência distinta, fala culta, modos misteriosos e calma imperturbável, diz a todos que seu sócio, Kurt Barlow, está em viagem de negócios, adquirindo itens para a loja, e só deverá aparecer na cidade dali a semanas.

Como foi dito, Ben está escrevendo um novo livro, que, diferente dos anteriores, terá uma pegada sobrenatural (olha a metalinguagem!), e, nas raras ocasiões em que consente em comentar algo sobre seu trabalho, confessa que parte da inspiração para ele veio da Casa Marsten e de experiências que teve quando garoto, ali em Jerusalem's Lot. Na biblioteca pública local, ele faz extensas pesquisas em jornais antigos, e, além das informações que procurava, acaba descobrindo algo inesperado e que pode ter implicações macabras: parece que desaparecimentos periódicos de crianças foram registrados em Lot sempre coincidindo com épocas em que a Casa estava habitada – e isso volta a acontecer agora. Os irmãos Glick, Danny, de 12 anos, e Ralphie, de nove, são surpreendidos por "alguma coisa" enquanto percorrem uma trilha na mata à noite; Ralphie desaparece e Danny volta para casa num estado de confusão mental, incapaz de dizer o que aconteceu ou que fim levou seu irmão. Poucos dias mais tarde, o garoto mais velho morre de algo diagnosticado como anemia perniciosa, embora nada em seu histórico médico sugerisse esse quadro ou qualquer tendência para ele. Todos sabemos que anemia significa, em linguagem médica, uma quantidade insuficiente de glóbulos vermelhos no sangue, geralmente devido à carência de ferro no organismo, mas é interessante atentar para a etimologia da palavra, que, se traduzida literalmente de sua origem grega, exprime um conceito bem mais simples: an (sem) + hema (sangue). Uma vez que sabemos isso, a coisa torna-se autoexplicativa.

Danny Glick é a primeira peça derrubada num tenebroso efeito dominó. Poucas pessoas sabem o que realmente está acontecendo em Jerusalem's Lot, e essas precisam lutar sozinhas, pois, se revelarem ao resto da sociedade local o que sabem, só conseguirão ser trancadas num manicômio. Impossível não lembrar de uma cena do filme 30 Dias de Noite e de uma coisa que o líder de um grupo de vampiros diz ao repreender um de seus comandados por ter feito algo que punha em risco o segredo em torno da existência de sua raça: "Levou séculos para convencermos os humanos de que somos apenas uma lenda!" Na verdade, a mais clássica de todas as histórias de vampiro (Drácula, é claro) já trazia algo parecido, quando o Dr. Van Helsing declara que o maior trunfo do vampiro é que ninguém acredita em sua existência.

King não faz qualquer tentativa de "modernizar" o mito: seus vampiros temem crucifixos, água benta, luz do sol, talvez até alho, e não podem entrar numa casa a menos que sejam convidados. Muitos autores desprezam tais noções, especialmente as que atribuem a objetos sagrados o poder de repelir os sanguessugas; no entendimento desses autores, isso tudo é fruto da ideia popular e antiga de que os vampiros estariam necessariamente relacionados às forças do mal, quiçá ao diabo em pessoa. Bem, parece que, para Stephen King, essas ideias, pouco importa o quão populares ou antigas, podem conter um fundo de verdade: não pode ser coincidência que, num romance sobre vampiros, haja tantas menções às ligações do falecido Hubert Marsten com cultos profanos e sacrifícios de crianças.

O pequeno grupo de heróis, capitaneado por Ben Mears, conta também com Susan Norton, uma jovem que ele conheceu ao chegar à cidade e com quem rapidamente se envolveu; Matt Burke, um veterano professor de inglês e literatura; Jimmy Cody, ex-aluno de Matt e hoje médico (que sempre me fazia pensar no Dr. Jack Seward, de Drácula); o padre Donald Callahan, vigário da paróquia católica de Jerusalem's Lot; e Mark Petrie, um garoto de 12 anos cuja coragem, força de vontade e autodomínio deixariam muitos adultos envergonhados. Mark desempenha o papel que crianças frequentemente têm em histórias fantásticas: sua mente, não limitada pelas amarras do "racional", aceita os fatos (por mais bizarros que sejam) quando eles se apresentam, e reage imediatamente, em vez de perder um tempo precioso tentando negar a realidade ou procurando "explicações plausíveis". Se é com vampiros que estamos lidando, vamos preparar as cruzes e as estacas! Ficar repetindo como um idiota que "vampiros não existem" não vai manter as presas deles longe do seu pescoço. Mark conta, ainda, com uma vantagem: conhecimento. Sendo um garoto de muita imaginação e com um gosto natural por coisas soturnas e misteriosas, é um ávido leitor de terror e, por isso, é quem melhor conhece as particularidades e os pontos fortes e fracos dos vampiros. Nesse quesito, supera Ben e Matt, embora ambos sejam homens cultos e já tenham lido a sua quota de histórias sobrenaturais.

Kurt Barlow, como se descobre, é apenas o nome atual de um ser que provavelmente já usou muitos outros ao longo dos séculos. Trata-se de um vampiro muito velho e muito poderoso; em certo capítulo, os caçadores invadem seu covil durante o dia, apenas para descobrir que ele antecipou seu movimento e foi esconder-se em outro lugar, deixando para eles uma carta muito polida e ligeiramente irônica. A carta é para o grupo, mas há algumas linhas dirigidas especificamente a cada um, e, na parte dedicada ao Pe. Callahan, Barlow revela que, embora há muito tempo ele tenha suas "diferenças" com a Igreja Católica, ela não é seu inimigo mais antigo: "Eu já era velho quando ela ainda era nova, quando seus membros se escondiam nas catacumbas de Roma e desenhavam peixes no peito, para poderem distinguir-se entre os outros. Eu já era forte quando esse clube lamuriento de comedores de pão e bebedores de vinho, que veneram o seu salvador-cordeiro, ainda era fraco." Portanto, estamos falando de um ser com mais de dois mil anos de idade – bem mais, se ele já se considerava velho quando a Igreja dava seus primeiros passos, pois sabemos que a palavra velho tem um significado diferente para um vampiro do que tem para um humano. Perto de Barlow, Drácula, com os quinhentos e poucos anos que teria se ainda fosse "vivo" nos anos 70, não passaria de um aprendiz. Do alto dessa vasta experiência acumulada, Barlow conhece bem a natureza humana, e sabe onde deve atacar primeiro ao fechar o cerco sobre Jerusalem's Lot. Qual o seu objetivo com isso? Mistério. Tudo o que podemos depreender é que tem a ver com Hubert Marsten, com quem o velho vampiro tinha ligações e, provavelmente, algum tipo de acordo. E ele ataca primeiro onde vê fragilidade: às vezes visa crianças, como no caso dos irmãos Glick, outras vezes pessoas que estejam emocionalmente abaladas, como Floyd Tibbets, o ex-namorado rejeitado de Susan, ou Corey Bryant, logo depois de ser pego em flagrante pelo marido de sua amante. Sendo um vampiro clássico, Barlow deve possuir todos os poderes que as lendas antigas atribuem a sua raça, ou, pelo menos, aos representantes mais poderosos dela: força descomunal, capacidade de controlar animais e sabe-se lá o que mais; Bram Stoker insinua que Drácula era capaz de controlar até mesmo as condições meteorológicas. Porém, ele prefere, sempre que possível, utilizar métodos mais sutis, em especial a hipnose. Depois de um instante de medo extremo, suas vítimas experimentam uma sensação de conforto e paz, uma noção de que basta entregarem-se para que todo o medo e sofrimento acabem. Para resistir a isso, é necessária uma tremenda força de vontade.

Vou admitir, 'Salem's Lot tem trechos deprimentes, sem relação direta com nada sobrenatural; o autor se permite explorar (nunca muito longamente, graças a Deus) a sordidez que constitui uma faceta inseparável da natureza humana – embora a natureza humana não se resuma só a sordidez, como certa classe de chatos parece sentir prazer em papagaiar. Uma jovem mãe que alivia sua frustração com a vida batendo no filho pequeno; uma anciã cuja razão de viver é conhecer segredos escabrosos dos outros habitantes da cidade e espalhá-los para o maior número de ouvintes que puder; um homem de negócios que suborna sem hesitar um de seus trabalhadores para que ele fique calado a respeito de possíveis evidências de um crime, e por aí vai. Outros trechos retratam momentos depressivos vividos por um ou outro personagem, como o Pe. Callahan, que enfrenta problemas com álcool e uma crise de fé. Pelo menos na minha leitura, as páginas dedicadas a isso tudo são necessárias: parece haver nas entrelinhas do romance como um todo uma insinuação de que, se todas as pessoas fossem fortes, íntegras, saudáveis e felizes, seres como Kurt Barlow não teriam poder, e talvez nem conseguissem sobreviver. Para se fortalecer e exercer seu poder, ele precisa das trevas – tanto as da noite quanto as da alma humana. Entretanto, o saldo final da história não é de puro pessimismo, já que existem pessoas corajosas dispostas a arriscar tudo para deter o mal. Ainda há esperança para nossa pobre espécie.

Mesmo nessa fase inicial de sua carreira, King já demonstrava uma compreensão muito precisa de como o medo funciona, e também do fato de que existem diferentes tipos de medo. Há medos que são socialmente aceitos, porque considerados racionais, como o medo da violência urbana, do futuro incerto, da guerra, de doenças; esses são temores que as pessoas confessam com relativa facilidade, porque sabem que encontrarão empatia. Porém, há outros medos, como aquele que experimentamos tarde da noite, sozinhos em casa, deitados na cama, no escuro, incapazes de dormir, quando temos a sensação inexplicável de uma presença sombria no canto do quarto, ou poderíamos jurar ter ouvido algo se mover na peça ao lado – e não temos coragem sequer de esticar o braço para acender a luz, quanto mais de ir averiguar a origem do barulho. Horas depois, à luz do dia, esses temores parecem tolos, e a maioria de nós acharia muito embaraçoso confessá-los a qualquer outra pessoa, mas isso não muda o fato de que aquele momento de medo e suor frio durante a madrugada parece durar um século, e de que, enquanto dura, esse medo sem nome é absolutamente real. Racionalmente, eu sei que o medo do escuro nada mais é que uma herança dos nossos ancestrais primatas, que, nas savanas e florestas onde viviam, estavam sempre expostos aos ataques de predadores de olhos brilhantes e presas afiadas que preferiam caçar à noite. Sendo assim, e continuando a ser racional, reconheço que esse medo está obsoleto, já que dificilmente algum leopardo ou hiena vai invadir meu apartamento – e, não obstante, algo em mim parece impermeável a toda essa racionalidade, e, como resultado, o velho medo do escuro continua a dar as caras de vez em quando. Muito menos que quando eu era criança, é verdade, mas ele ainda aparece. Talvez as únicas pessoas imunes a isso sejam as totalmente desprovidas de imaginação, e isso não é coisa que se possa escolher… E, para ser franco, ainda que fosse possível, eu não escolheria. Como dizia Jorge Luís Borges, não se pode matar os demônios sem matar junto as fadas.

Mas chega de poesia. Não há muito mais que eu possa dizer sobre 'Salem's Lot sem dar spoiler, exceto que, como narrativa de terror, é de uma eficiência implacável. Além disso, como acontece com quase todos os trabalhos de Stephen King, é um texto de leitura fluente, que você percorre sem sentir, o que favorece enormemente a imersão do leitor na história. Esta edição da Nova Cultural tem alguns pequenos problemas, erros que provavelmente não devem ser creditados à tradutora Luzia Machado da Costa, mas à revisão e/ou ao pessoal da composição – confesso que não faço ideia de como era o passo a passo da produção de um livro no início dos anos 90. A respeito da tradução, eu gostei dela de modo geral, tenho a impressão de que preservou bem o sabor original da prosa de King, embora haja alguns detalhes meio estranhos, em especial o fato de que nomes de lugares ou estabelecimentos comerciais são quase sempre mantidos "inteiros" como no original; por exemplo, a colina onde fica a Casa Marsten também leva o nome dos antigos proprietários, e a tradutora a chama de "Marsten's Hill" – por que não Colina Marsten? Ao chegar a Lot, Ben aluga um quarto numa pensão cuja proprietária chama-se Eva, e mais tarde diz a Susan que está hospedado em "Eva's Rooms" (!). Um senhor de nome Milt Crossen possui um bar, açougue e mercearia ao qual a tradutora se refere como "Crossen’s Store"; a meu ver, seria muito mais natural dizer "Loja Crossen", ou "a loja do Crossen", já que o texto, depois de traduzido, está em português. Também é engraçado que os personagens chamem uma menina ou moça de "pequena": isso me faz lembrar as dublagens de certos filmes do tempo do onça (creio que a maioria era dos anos 50, e as dublagens devem ter sido feitas logo depois) que eram reprisados à exaustão na Sessão da Tarde quando eu era garoto. Pode ter sido proposital, uma tentativa de reproduzir na tradução uma linguagem meio arcaica que talvez ainda fosse ouvida em lugarejos interioranos dos EUA naqueles tempos sem internet e quando rádios e TVs eram basicamente regionais. De qualquer forma, quem for adquirir o livro agora encontrará a edição da Suma de Letras, que provavelmente tem uma tradução diferente.

Curiosidade 1: Quando Ben e seus companheiros invadem a Casa Marsten e encontram certo personagem morto, pendurado de cabeça para baixo, Stephen King se engana ao colocar na boca do Pe. Callahan que "São Paulo foi crucificado assim, numa cruz em forma de X, com as pernas quebradas". São Paulo não foi crucificado de nenhuma maneira, porque, embora de origem judaica, possuía cidadania romana, e nenhum cidadão romano podia ser crucificado, já que esse método de execução era tido como aviltante. Em vez disso, ele foi decapitado, o que, em comparação, era considerado uma morte misericordiosa e, se não propriamente digna, ao menos decente. Quem morreu da forma que King descreve (com a possível exceção das pernas quebradas, pois não encontrei referência a isso) foi Santo André, o padroeiro da Escócia – é por isso que a bandeira desse país ostenta uma cruz em forma de X, a "Cruz de Santo André". Segundo a tradição da Igreja, André, condenado à morte no ano 60, teria pedido a seus carrascos para crucificá-lo de cabeça para baixo, porque não se achava digno de morrer do mesmo modo que Jesus Cristo. Idêntico pedido fez seu irmão, São Pedro (o primeiro papa), ao chegar sua vez, sete anos depois. A Cruz de São Pedro tem a mesma configuração da cruz comum, só que invertida, e já era reconhecida como o emblema do santo séculos antes que os satanistas decidissem adotá-la como símbolo de oposição a Cristo.

Curiosidade 2: Depois do prólogo e antes de começar a primeira parte de 'Salem's Lot, intitulada A Casa Marsten, encontramos, como epígrafe, uma citação do livro The Haunting of Hill House, de Shirley Jackson, publicado em 1959 e que recentemente ganhou uma adaptação para a TV, produzida pela Netflix. A citação é aquela que ouvimos logo no início do primeiro episódio, na voz do mais velho dos irmãos Crain, o escritor Steven: começa com "Nenhum organismo vivo pode continuar a existir por muito tempo num estado de realidade total", e termina com "o que quer que caminhasse ali, caminhava só". Stephen King visivelmente segue seu próprio conselho, o que ele sempre oferece aos aspirantes a escritor: ler muito, e parece que dedica especial atenção aos autores que escrevem o mesmo gênero que ele.

'Salem's Lot foi filmado em 1979 como uma minissérie de TV em seis episódios, totalizando cerca de três horas de duração, e dirigida por Tobe Hooper, mais conhecido por causa do filme "ame-ou-odeie" O Massacre da Serra Elétrica, e que também dirigiu ao menos um episódio de Contos da Cripta. Alguns anos mais tarde, apareceu nas videolocadoras uma versão editada de duas horas, apresentada como um filme único, com o título A Mansão Marsten. Em 2004 saiu um remake, desta vez feito para o cinema, com direção de Mikael Salomon, Rob Lowe no papel de Ben Mears, Rutger Hauer (de Blade Runner e O Feitiço de Áquila) como Kurt Barlow, e Donald Sutherland (de Jogos Vorazes) como Richard Straker. Confesso que não vi nenhum deles (assim como no caso de Christine, preferi preservar minhas próprias imagens da história), mas, enquanto procurava na internet por ilustrações para este post, encontrei fotos do ator Reggie Nalder caracterizado como Barlow para a antiga minissérie… O visual foi obviamente inspirado em Nosferatu (1922), de Friedrich Murnau: assim como Nosferatu, o Barlow de Nalder tem os dentes incisivos centrais em forma de presas, ao invés dos caninos, como é o comum em representações de vampiros – o que lhe dá uma aparência asquerosa lembrando um rato. Além disso, é calvo e tem a pele azul (!). Nada a ver com a descrição que King faz de Barlow, que deveria ter um aspecto aristocrático e atraente, podendo aparentar a idade que preferisse. Optei por não usar nenhuma dessas imagens, já que se afastam tanto da visão do autor, mas, se tiverem curiosidade, é bem fácil achá-las no Google.

quarta-feira, maio 22, 2019

O Cemitério

Exatos 30 anos depois de ser adaptado para o cinema pela primeira vez, um dos melhores e mais assustadores romances de Stephen King retorna às telas numa nova versão, que tem suscitado polêmica entre os fãs do mestre do Maine e entre os apreciadores de terror em geral. Há quem considere a versão de 1989, dirigida por Mary Lambert, superior, há quem prefira o remake que acaba de estrear, assinado pela dupla Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, e também há quem não aprove nenhuma das duas versões e só recomende o livro. Certo, eu já escrevi sobre muitos filmes, quase sempre explorando suas conexões com a literatura, mas não sou um comentarista de cinema – para isso, precisaria fazer as coisas numa velocidade vertiginosa, de preferência através de um canal no YouTube em vez de um blog. Ocorre que, além de eu não gostar de falar para a câmera, ter que lidar com prazos exíguos tiraria a diversão da coisa, pelo menos para mim, sem contar que sou apenas um apreciador de cinema, não um profundo conhecedor do assunto. Por tudo isso, nunca pensei a sério na possibilidade. Entretanto, não poderia deixar de ir ao cinema conferir pessoalmente o novo filme, e, enquanto assistia, uma série de possíveis comentários foi vindo espontaneamente à minha cabeça, de modo que, ao sair da sessão, já estava mais ou menos óbvio que eu teria que escrever um texto (há textos que eu decido escrever ou não escrever, e há outros que simplesmente se impõem). Então, revi o filme de Lambert, reli trechos-chave do livro, que li há anos, e lá vamos nós.

Louis Creed, médico, está se mudando com sua família para uma grande e acolhedora casa de subúrbio no município de Ludlow, no Maine (é claro!), pois vai assumir a chefia dos serviços médicos no campus da universidade desse estado, que fica em Bangor, relativamente perto. A casa fica à beira de uma rodovia por onde caminhões pesados trafegam velozmente dia e noite, o que faz Louis e sua esposa, Rachel, adquirirem o hábito de manter sempre um olho nos filhos, Ellie, de cinco anos, e Gage, um bebê que há pouco começou a andar. O quinto membro da família é o gato de Ellie, de nome Winston Churchill, mas que, no dia a dia, é chamado de "Church" – uma abreviação de Churchill e que, convenientemente, também significa 'igreja', assim como não terá escapado ao leitor atento e conhecedor da língua inglesa que o sobrenome da família pode ser traduzido por 'credo', com o sentido de fé ou sistema de crenças. King não escolheu esses nomes por acaso. Na época em que O Cemitério teve origem, o escritor atravessava uma crise em sua vida pessoal por conta de sua dependência do álcool (e, segundo certas fontes, de outras drogas também), correndo o risco de a esposa deixá-lo e levar os filhos consigo. O medo da perda o levou a refletir sobre outras maneiras pelas quais uma pessoa pode perder seus entes queridos, sendo a morte, é claro, a maneira mais comum e também a mais dolorosa, por representar uma perda definitiva e irreversível. Qual seria (ele deve ter-se perguntado) a verdadeira relação da fé e da religião com tudo isso? Elas oferecem conforto diante da perda, mas aquilo tudo que ensinam sobre Deus e sobre a morte não ser o fim, seria real, ou apenas algo que a humanidade criou para suavizar a própria dor? E, em crise ou não, King continuava a ser um escritor, que é um tipo de criatura que nunca realmente para: esses questionamentos se misturaram com algumas outras ideias e, a partir disso, uma nova história começou a tomar forma. O resultado está nestas páginas, que estão, sem dúvida, entre as mais poderosas, sombrias e angustiantes já escritas pelo cara.

Em sua nova residência, os Creed têm como vizinhos mais próximos um homem de nome Judson Crandall ("Jud" para os amigos) e sua esposa, Norma, um casal idoso que morou toda a vida naquela região. É Jud, profundo conhecedor dos caminhos e das histórias locais, quem mostra a Louis e sua família o "simitério de bichos" (no original, pet sematary), como diz a placa toscamente pintada por alguma das crianças que têm usado o local já há décadas para sepultar seus animais de estimação, muitos deles vítimas do tráfego na estrada. O próprio Jud, em criança, enterrou um cachorro ali… Ou essa é a versão que ele conta, um pouco diferente da realidade, como o leitor descobrirá depois.

A visita ao local acaba por causar na cabecinha da pequena Ellie sua primeira reflexão para valer a respeito da morte. Ela fica angustiada ante a ideia de um dia ter que dar adeus a seu querido Church, o que obriga Louis a ter com ela aquela conversa, sempre complicada, que todos os pais, mais dia, menos dia, precisam ter com as crianças sobre esse assunto. O médico lida com o problema de maneira bastante sensata, na minha opinião, mas sua esposa não parece pensar o mesmo… Na verdade, para ela, não há uma maneira sensata de encarar essa questão. Rachel tem uma fobia anormal à simples ideia da morte, e, se dependesse só dela, seus filhos cresceriam ignorando tudo a respeito. Mais adiante, descobriremos que esse medo irracional teve origem num episódio de sua infância – um episódio terrível.


Outro episódio terrível é o que tem lugar na universidade, bem no primeiro dia de Louis no novo emprego: um jovem estudante sofre um acidente de moto e tem a cabeça praticamente destruída ao colidir com o tronco de uma árvore. Quando o levam ao ambulatório chefiado por Louis, o médico percebe na hora que não há nada que possa ser feito para salvar a vida do rapaz, mas, ainda assim, ele e sua equipe se esforçam o quanto podem. Antes de exalar sua última respiração, o jovem, de nome Victor Pascow, sussurra para Louis algumas frases perturbadoras a respeito do simitério de bichos, em especial sobre ele "não ser o verdadeiro cemitério". Mais ainda: de alguma forma, Victor chama Louis pelo nome, embora os dois nunca se tivessem visto antes. O médico racionaliza tentando convencer-se de que Pascow apenas emitiu gemidos desconexos, e de que sua própria mente, perturbada pelo estresse extremo daquela situação, fez o resto, levando-o a acreditar ter ouvido palavras que na verdade não existiam. Naquela noite, ele tem um sonho (pelo menos, tenta acreditar que foi um sonho) no qual o fantasma de Victor aparece e o guia até o simitério, onde lhe mostra uma barreira de troncos que delimita o lugar e o adverte de que ela nunca, jamais deve ser transposta, por maior vontade que ele tenha de fazê-lo. Na hora, mesmo em meio à lógica toda peculiar dos sonhos, Louis pergunta-se qual o sentido de tal aviso: por que cargas d'água haveria ele de querer transpor a barreira? A resposta virá mais tarde, e não o deixará feliz.

Todo aquele território pertenceu, em tempos, aos índios Micmac, tribo que ocupava partes do que são hoje a Nova Inglaterra (região nordeste dos Estados Unidos) e o sudeste do Canadá. Não se enganem com o nome "engraçadinho": os Micmac eram guerreiros violentos, temidos pelos colonizadores e por outras tribos. Contudo, por mais ferozes que fossem, não eram adeptos do canibalismo – pelo menos, não sob condições normais. Quando, durante invernos especialmente longos e penosos (e os invernos daquela região não são brincadeira), eram forçados a isso, também eles recorriam a racionalizações: diziam que o wendigo, uma entidade maligna de seu folclore, os havia tocado, despertando um apetite incontrolável por carne humana. Os restos das vítimas dessas refeições macabras eram enterrados no alto de uma colina rochosa que – adivinhem – fica poucos quilômetros além do que é agora o simitério de bichos, em terra selvagem e onde só se pode chegar transpondo a tal barreira de troncos. Ao longo do tempo, os Micmac deixaram de usar o cemitério e passaram a evitá-lo, dizendo que o wendigo tinha azedado a terra e tornado aquele um lugar ruim. Porém, o velho cemitério indígena parece ter ganho um poder que não tinha nos tempos antigos. Louis descobre isso quando Church, no que pode ser considerado uma espécie de tragédia anunciada, morre atropelado na estrada. Por sorte (bem, pelo menos é o que parece), Rachel e as crianças estão viajando, o que lhe deixa algum tempo para pensar sobre como dar a notícia a Ellie. Mas Jud tem outra ideia. Ele guia Louis numa exaustiva jornada noturna até o cemitério Micmac, e é ali que, por razões que se recusa a explicar, ele insiste para que o médico enterre o gato da filha.

Louis, homem sem qualquer inclinação para o misticismo, sente com toda a clareza alguma coisa diferente e sinistra naquele lugar e na mata que o rodeia, e, uma ou duas vezes, a coisa não fica só no nível das sensações: desafio qualquer um a não ter calafrios ao ler o trecho em que ele e Jud ouvem "alguma coisa grande" se movimentando bem perto deles, sem que cheguem a ver seja o que for… Mas ouvem uma gargalhada louca, carregada de um triunfo maligno, soar ensurdecedora pela floresta escura. Palavra de honra, essa parte é assustadora até para quem está acostumado a ler Stephen King!… Naturalmente, na manhã seguinte, Louis terá se convencido de que o que ouviu se mover no mato era apenas um alce ou talvez um urso, animais que por vezes ainda aparecem nos bosques da região. E quanto à gargalhada? O grito de algum pássaro noturno, na certa. São mesmo incríveis os contorcionismos lógicos que as pessoas "racionais" são capazes de fazer para não enxergar os fatos, quando estes não se encaixam na maneira como elas acreditam que a realidade deva se comportar.


Mais difícil é achar uma explicação "racional" quando Church reaparece em casa – vivo, ou assim parece – no dia seguinte. Porém, o gato está mudado: seu comportamento, seu jeito de mover-se, seu olhar, tudo está diferente e um tanto desagradável. Inquirido por Louis, Jud revela o segredo do velho cemitério Micmac: ele realmente tem o poder de trazer de volta à vida as criaturas que são enterradas ali, mas elas voltam mudadas, e não para melhor. Jud nem tem certeza se fez a coisa certa ao levar Louis lá, pois, como ele diz, às vezes é melhor estar morto. Conhecer uma maneira de (tentar) enganar a morte faz, inevitavelmente, com que as pessoas pensem em coisas que não devem ser pensadas… E, em momentos de grande sofrimento, um homem pode cometer grandes erros. Parece haver algum tipo de consciência maligna, sem forma, envolvendo o antigo cemitério, uma consciência que, segundo Jud, já teve grande poder, e ele receia que esteja refazendo suas forças, explorando as fraquezas dos seres humanos, que, tendo visitado o lugar uma vez, acabam achando razões para voltar… E para levar outros até lá.

O Cemitério, na minha opinião, pertence ao tipo de terror mais aflitivo. Envolve elementos sobrenaturais, sim, mas também nos coloca cara a cara com o que há de tenebroso e aterrador dentro de nós mesmos. Seja lá o que for a mente sem corpo que habita o cemitério Micmac, ela não teria poder se não encontrasse nas mentes das pessoas o material de que precisa para trabalhar: o medo da morte e o impulso irracional de fazer tudo, qualquer coisa, para escapar da dor – e, para seres como nós, capazes de amar, poucas dores podem ser maiores que a da perda de um ente querido. A "coisa" sabe disso muito bem.

Os Filmes

Até aqui, eu estava falando sobre o livro. Agora, quando me preparo para entrar no assunto dos filmes, percebo que será inevitável dar alguns spoilers. Portanto, se vocês estiverem lendo isto antes de terem lido e/ou assistido, sugiro que parem aqui mesmo, leiam, assistam, e depois voltem (voltem mesmo!) para ler o restante do post (deixar um comentário também não dói nada!). Ou continuem por sua conta e risco, como preferirem. Vocês foram avisados! Vamos em frente.

A primeira versão de Pet Sematary para o cinema não é nenhum portento, mas tem o grande ponto positivo de ser bem mais fiel ao livro que essa nova – e tem excelentes razões para ser, já que o próprio Stephen King adaptou o romance para a tela e acompanhou de perto toda a produção, além de, como era seu costume em filmes baseados em obras suas, fazer uma ponta: aqui, ele interpreta o ministro religioso (metodista, provavelmente) que aparece oficiando um funeral. Por outro lado, não é um filme de atuações brilhantes. A melhor é provavelmente a do veterano Fred Gwynne como Jud Crandall; o restante do elenco exibe variados graus de canastrice, embora seja um tanto penoso para um fã de longa data de Jornada nas Estrelas dizer isso: no papel de Rachel está ninguém menos que Denise Crosby, crush de nove entre dez trekkers quando interpretava a tenente Tasha Yar, oficial de segurança da Enterprise em Jornada nas Estrelas: a Nova Geração (e só não o era de todos os dez porque a tripulação também incluía a conselheira Deanna Troi, interpretada por Marina Sirtis). Caramba… Isso já faz cerca de 30 anos e Denise é hoje uma senhora de 61!… Mais uma coisa para acrescentar às reflexões sombrias de Louis Creed sobre a passagem implacável do tempo e a brevidade da vida humana.


Isso, por sinal, já é um exemplo do quanto literatura e cinema são mesmo linguagens diferentes: nenhum dos dois filmes inclui as reflexões de Louis, nem poderia, já que a única maneira de fazê-lo no cinema seria por meio de longos trechos discursivos, o que afetaria o ritmo e seria tedioso. No livro, as numerosas passagens que reproduzem os pensamentos do protagonista são essenciais para entrarmos no clima e adquirirmos a compreensão dos problemas que vão ser tratados – e, pelo menos para mim, essas passagens não se tornam entediantes em momento algum. Entediantes, não… Já quanto a deixarem o leitor um tanto down, é outra conversa. Quando Louis percebe que seu filho de um ano e pouco está finalmente começando a ter cabelo de verdade, deixando para trás aquela fase de penugem que a maioria dos bebês tem no início da vida, isso, claro, é motivo de comemoração… mas, nas profundezas de seu íntimo, uma parte sua chora, porque o cabelo de Gage é mais um dentre tantos lembretes de que a areia na ampulheta está correndo para Louis tal como para o garoto… Com a diferença de que Gage está crescendo, indo rumo ao auge de sua vida, enquanto Louis, nos seus 30 e poucos anos, já entrou na espiral de decadência que, mais dia, menos dia, terminará num túmulo.

Outra coisa que os espectadores de qualquer um dos filmes jamais saberão até que leiam o livro é que, ao contrário de sua esposa, Louis tem um background que deveria (ou, ao menos, isso seria de se esperar) torná-lo mais apto a encarar a ideia da morte de uma maneira serena e natural: seu tio, Carl Creed, era agente funerário, e Louis passou alguns períodos trabalhando com ele, durante suas férias do colegial e início da faculdade (o famoso "emprego de verão" dos estudantes americanos). Carl era, antes de tudo, um homem prático, o que deve ser imprescindível nesse ramo de trabalho, e Louis, como seu aprendiz, assimilou um pouco do feeling da coisa: é preciso ter sensibilidade para lidar com uma família enlutada, mas, ao mesmo tempo, suficiente frieza para não se deixar abalar – duas capacidades tão úteis a um médico quanto a um agente funerário. Não que isso tudo deixe alguém preparado para sentir a perda na própria carne, como Carl e Louis perceberam quando Ruthie, filha do primeiro e prima favorita do segundo, morreu num acidente em plena adolescência. Tudo isso nos é revelado por meio dos pensamentos e lembranças de Louis. Mas já chega de falar do que os filmes não têm: vamos ver o que cada um deles tem.

Spoiler número um: no primeiro filme, tal como acontecia no livro, Gage, pouco tempo depois de seu segundo aniversário, morre atropelado na estrada, e Louis, transtornado pelo sofrimento, decide violar seu túmulo e enterrar o menino no cemitério Micmac, na esperança de "tê-lo de volta". Mais uma vez, o livre acesso à cabeça do protagonista, que temos no livro e não nos filmes, faz uma falta incrível. Um dos pontos-chave da história, talvez até o mais importante de todos, é a maneira como a influência daquela presença sombria no cemitério afeta a mente das pessoas, e, por consequência, a lenta, gradual e inexorável transição da sanidade para a loucura. Louis já fora severamente advertido por Jud de que não deveria nem pensar nessa possibilidade, e ouvira dele a história da única vez (pelo menos, até onde ele sabe) em que um ser humano foi enterrado no local: um jovem da cidade que morreu na França durante a Segunda Guerra Mundial, e cujo pai, incapaz de aceitar a perda, foi em frente e realizou o ato blasfemo. O morto, que em vida fora um bom rapaz, normal sob todos os aspectos, voltou transformado numa coisa maligna e odiosa, que o próprio pai, arrependido, acabou por matar de novo. O filme de Mary Lambert, aliás, estraga completamente o efeito dessa história ao pintar o soldado ressuscitado como um zumbi sem inteligência, perigoso, sem dúvida, mas da mesma forma como um animal irracional é perigoso: sem dolo, sem intenção maligna, apenas agindo de acordo com sua "natureza", se é que algo nisso pode ser considerado natural. No livro, ele era muito racional, e demoníaco, cruel. Há também o caso de Church, agora um bicho estranho cujo simples olhar causa calafrios, e que seus donos sentem repugnância de tocar. Em resumo, ninguém pode dizer que Louis não foi avisado, mas ele encontra mil e uma desculpas e racionaliza o impulso insano que está sentindo, convence-se de que, mesmo que Gage volte "um pouco diferente", ainda será seu filho, e assim por diante. Fica no ar a mórbida sugestão de que Louis, que, por tudo o que sabemos sobre ele, é e sempre foi um homem sensato, nunca faria o que acaba fazendo se não fosse pela influência daquilo que habita o antigo cemitério indígena – mas, ao mesmo tempo, a entidade sombria não poderia manipulá-lo se já não houvesse uma brecha por onde conseguisse entrar. Tudo isso é perdido nos filmes, assim como as visões fugidias e apavorantes de uma coisa inominável que habita os pântanos entre o simitério de bichos e o cemitério Micmac. Inominável?… Não para os índios, que tinham, sim, um nome para ela: wendigo.


Se eu for considerar apenas o apuro técnico e a qualidade geral da produção, terei que dizer que o filme de Kölsch e Widmyer é superior, pois demonstra mais senso de cena e de ritmo, a narrativa na tela flui melhor, e os atores manjam bem mais da arte de representar que os do filme anterior, além, é claro, de tudo o que se pode fazer com toda a tecnologia de que o cinema não dispunha em 1989 e da qual dispõe hoje… Também gostei muito da ideia de fazer com que o ronco do motor dos caminhões na estrada pareça o rugido de alguma enorme fera, pois cai muito bem no papel que eles terão a desempenhar. Por outro lado, confesso que me irritam esses cineastas que fazem mudanças absurdas nas histórias, não aquelas mudanças necessárias e inevitáveis quando se está adaptando um livro para a tela, mas mudanças sem qualquer justificativa possível, parecendo motivadas tão somente pela vontade de ser diferente, de "imprimir uma marca autoral" e outras estultices desse gênero. O que nos leva ao spoiler número dois: no filme novo, é Ellie (que, por sinal, virou uma garota bem mais velha, de nove anos) quem é atropelada, e não Gage. Agora me digam: o que essa mudança acrescenta? Trabalhar com criança em filme de terror deve ser extremamente difícil, mas, quando é bem feito, o resultado é horripilante, e, quanto menor a criança, maior o impacto. Uma menina de nove anos agindo de forma demoníaca não tem o mesmo efeito que um bebê de dois anos fazendo o mesmo, isso para não mencionar o fato irritante de terem mexido na história sem a menor necessidade. É verdade que o novo filme tem vários acertos, um deles a cena em que Louis, interpretado pelo ator Jason Clarke, deita-se ao lado da filha (ou da coisa que parece ela) para "fazer companhia até que adormeça". Nesse momento, ele já começou a perceber o tamanho do erro que cometeu, e ver um homem adulto morrendo de medo da garotinha cujas fraldas trocou é, sem dúvida, bastante perturbador. O final também não me agradou, pois o filme termina com a família novamente reunida – de uma forma grotesca e macabra, é verdade, mas, ainda assim, reunida, o que põe a perder a mensagem mais pungente que havia na obra original, a de que a separação imposta pela morte é dolorosa, mas é algo com que precisamos aprender a conviver, pois nada de bom pode vir da sua não aceitação.

Enfim, não tenho como dizer que nenhum dos dois filmes é excelente, mas as broncas que tenho do de Mary Lambert são de relevância muito menor: basicamente deficiências técnicas e coisas do tipo, como o fato de pelo menos duas cenas importantes, que, no livro, aconteciam à noite, se passarem em plena luz do dia – obviamente porque filmá-las à noite seria muito mais trabalhoso e caro. Já meu descontentamento com o filme de Kölsch e Widmyer é mais profundo, ligado a questões da própria estrutura da história. Por isso, se vocês só quiserem ver um filme baseado em Pet Sematary, minha sugestão é que escolham o primeiro, que, com todos os problemas que possa ter, ao menos tem o mérito de tentar ser fiel à história que lhe deu origem. E, independentemente do que decidam em relação aos filmes, não deixem de ler o livro, que é nada mais nada menos que Stephen King em sua melhor forma.

terça-feira, setembro 25, 2018

Os Olhos do Dragão

Cheguei a possuir o livro Os Olhos do Dragão na edição da Francisco Alves, lançada como parte da coleção Mestres do Horror e da Fantasia, mas o exemplar sumiu de casa antes que eu chegasse a lê-lo. Entretanto, naturalmente que dei uma folheada logo ao adquiri-lo, e lembro que incluía uma nota introdutória (ausente da edição que tenho hoje, da editora Objetiva) na qual Stephen King explicava a origem dessa obra um tanto diferente das coisas que ele em geral escreve. O livro foi publicado pela primeira vez em 1984, tendo sido escrito pouco antes, motivado pelo desejo de contar uma história que sua filha, Naomi, pudesse ler e apreciar: a garota era pré-adolescente na época e não gostava de terror (e que sina não gostar de terror e ser filha de Stephen King!). O resultado foi esta aventura de fantasia medieval, finamente sintonizada com o gosto dos leitores mais jovens… mas, como todo mundo já teve 13 anos, ninguém que goste desse tipo de literatura deixará de se empolgar. Mesmo tendo, por uma questão de aptidão natural, favorecido mais as narrativas horripilantes ao longo de sua carreira, King sempre teve um grande respeito pela literatura de fantasia (declarou em mais de uma ocasião que considera O Senhor dos Anéis um dos melhores livros já escritos), e mostra-se perfeitamente capaz de produzir coisas desse tipo quando quer. Apontar a influência de Tolkien é fácil demais, pois, por mais que a fantasia já tivesse uma antiga e rica tradição antes dele, o impacto de sua obra foi tamanho, que é muito difícil hoje (e nesse "hoje" incluo a década de 80) escrever qualquer narrativa épica envolvendo magia e/ou seres fabulosos sem ficar devendo algo ao Professor. Não é tão óbvio observar que Os Olhos do Dragão também tem um clima que remete a algumas histórias de Lord Dunsany, provavelmente o autor de fantasia mais injustamente desconhecido de todos os tempos.

A história é narrada no melhor estilo dos contos de fadas, com direito a "era uma vez" e a frequentes intervenções do narrador dirigindo-se diretamente ao leitor, como se fosse alguém contando histórias a uma pequena mas empolgada audiência de crianças junto à lareira. Conta-nos sobre um reino chamado Delain, sobre seu rei, Rolando, sua rainha, Sacha, e sobre os príncipes Pedro e Tomás. Rolando não é nenhum pilar de majestade; não é o rei mais valente nem o mais sábio que o reino já teve, e, embora tenha uma índole essencialmente boa, nunca conseguiu fazer grandes coisas em favor de seu povo, por não ser, tampouco, um governante de grandes capacidades – até casar-se, muito tarde na vida, com a jovem Sacha, que, além de bondosa, possui o espírito prático para realizar boas ações, em vez de ficar só nas intenções. Sacha é muito amada pelo marido, pelo povo e pelo pequeno Pedro, mas, infelizmente, perde a vida ao dar à luz o segundo filho, quando o mais velho está com apenas seis anos. Morte de parto é um risco que todas as mulheres correm, sejam camponesas ou rainhas, e, como estamos falando de um reino medieval, sem os recursos da medicina moderna, era uma fatalidade muito mais comum do que hoje em dia, razão pela qual, embora todos lamentem, ninguém acha o incidente realmente estranho… Mas a verdade é que a morte da rainha não foi nenhum acaso. Flagg, o feiticeiro da corte, lançou mão de suas artes misteriosas para livrar-se de Sacha, que estava minando o controle que o mago sempre havia exercido sobre Rolando e, antes dele, sobre a velha rainha-mãe durante o longo reinado dela.

Como dissemos antes, Rolando não é um rei que inspire admiração instintiva, seja por sua aparência (baixote, de pernas tortas) ou por suas qualidades (não é particularmente inteligente, nem um guerreiro notável, embora tenha certa vez praticado um feito heroico, ao abater um dragão com uma flechada certeira). Em resumo, o narrador pinta-o basicamente como um homem vulgar que, por acaso, herdou uma coroa. Como também foi dito, casou tarde, unindo-se a Sacha quando ele já tinha por volta de 50 anos e ela era uma adolescente, e, por essa razão, o rei chega à velhice enquanto seus filhos ainda são garotos. Pedro tem a beleza, a perspicácia e a bondade da mãe; é um jovem alto, esguio, de muitos talentos. Tomás, por outro lado, puxou ao pai, tanto na aparência comum quanto no intelecto medíocre – com o agravante de, por vezes, praticar atos de inegável maldade. Ainda assim, o narrador se esforça para que seus leitores não odeiem o príncipe mais jovem, garantindo reiteradamente que, no fundo, ele não é ruim. O fato é que Tomás se sente negligenciado, já que Pedro é o favorito de todo mundo, desde o rei até os serviçais do palácio, por ser o herdeiro do trono, além de ser bonito, corajoso e bom. Não dá para não sentir pena do irmão mais novo quando lemos sobre seus repetidos esforços para agradar e dar orgulho ao pai, que geralmente reage com um comentário distraído, do tipo "ah, muito bem, filho", para em seguida retornar a sua adoração incessante ao filho mais velho. Pedro nitidamente não queria que fosse assim, chegando a tentar ajudar o irmão – o que só faz com que Tomás o odeie mais, ao mesmo tempo que também o ama e admira. Muitos de nós já passamos por situações parecidas e sabemos que não é agradável estar nem de um lado, nem do outro. Para piorar, embora (até onde sabemos) ninguém jamais tenha sequer tocado no assunto em sua presença, Tomás acha que todos o odeiam por ter, involuntariamente, causado a morte da mãe, que, como ele bem sabe apesar de não tê-la conhecido, foi a rainha mais amada que Delain já teve. Enquanto os dois príncipes crescem, o rei envelhece e esse pequeno drama familiar se desenrola, Flagg observa tudo atentamente. Acaba chegando à conclusão de que precisa livrar-se de Pedro tal como se livrou da mãe dele, já que o rapaz dá todos os sinais de que, uma vez no trono, não sera um rei fácil de controlar como o pai. Seria bem melhor para o bruxo se a coroa passasse para Tomás, pois este ele tem certeza de que conseguirá manipular.

(Embora desta vez esteja escrevendo fantasia, King não renega totalmente seu pendor para o soturno: o laboratório de Flagg está repleto de objetos sinistros e sua mascote é um grotesco papagaio de duas cabeças. E, curiosamente, embora Delain seja um reino fictício, e pareça situado num mundo igualmente fictício, com geografia, cultura e mitologia próprias, a certa altura encontramos este trecho: "Sentou-se, emborcou uma ampulheta e se pôs a ler um enorme livro de encantamentos. Flagg vinha lendo esse livro – que era encadernado em pele humana – havia mil anos, e só percorrera uma quarta parte dele. Ler demais esse livro, escrito nas altas e longínquas planícies de Leng por um louco chamado Alhazred, seria arriscar-se a enlouquecer." Ou seja, Flagg possui um exemplar do Necronomicon!)

O motivo do título Os Olhos do Dragão é esclarecido quando Flagg, movido por seu "instinto para a maldade" (sobre o qual o narrador tece uma teoria) revela um segredo a Tomás. Na verdade, o bruxo procura, sempre que vê uma oportunidade, fazer coisas que levem o jovem príncipe a sentir-se em dívida com ele (e a temê-lo também), já que espera colocá-lo no trono e, quando isso acontecer, tornar-se, na qualidade de seu conselheiro, o verdadeiro detentor do poder em Delain. Acontece que uma das dependências particulares do rei Rolando no castelo consiste numa grande sala de estar em cujas paredes estão expostos os mais imponentes dentre os muitos troféus de caça que ele acumulou ao longo dos anos – pois em Delain, como em muitos reinos, a caça é tradicionalmente o lazer favorito de reis e nobres. E ali, entre tantas cabeças de ursos, alces, javalis e outros animais, figura em posição de destaque a cabeça da mais formidável presa que Rolando já abateu: a de Niner, o último dragão visto em Delain. O que ninguém parece saber a não ser Flagg (e, agora, Tomás) é que a cabeça do dragão foi montada na frente de uma câmara secreta embutida numa das grossas paredes do castelo; quem souber como entrar nessa câmara pode espiar através das lentes de vidro colorido que substituíram os olhos da fera, e assim ver e ouvir tudo o que acontece na sala de estar real. Flagg adverte a Tomás que ele não deve fazer uso desse segredo com muita frequência, para reduzir o risco de que seja apanhado – e que, caso isso aconteça, deve dizer que descobriu a câmara sozinho, por acaso, pois, do contrário, Flagg cuidará para que ele se arrependa.

O primeiro efeito dessa espionagem é um significativo abalo no respeito de Tomás pelo pai, já que agora pode observá-lo às escondidas e ver em primeira mão como ele se comporta quando pensa que ninguém está vendo… e, vamos ser francos, acho que pouca gente ficaria confortável com a ideia de ter sua intimidade devassada dessa forma. Quando estamos sozinhos, relaxamos – o que significa, entre outras coisas, parar de policiar nossos comportamentos mais esquisitos, ridículos ou repulsivos. E fica ainda mais desconcertante ver uma pessoa metendo o dedo no nariz, soltando puns, se embriagando ou falando sozinha (esta última coisa, Rolando faz tanto sóbrio quanto embriagado) quando tal pessoa é nosso pai e, ainda por cima, nosso rei, provavelmente o ser humano que mais respeitávamos até então. Com apenas dez anos de idade, Tomás ainda não tem maturidade para separar as coisas e entender que esses comportamentos repelentes são falhas humanas, e não necessariamente diminuem a dignidade de um soberano; seu apreço por Rolando sofre uma queda, o que, aparentemente, é excelente para os planos de Flagg.

Quando Pedro está próximo de completar 17 anos, Flagg decide que está na hora de tirá-lo do caminho, e encontra um meio de fazer isso ao mesmo tempo que se livra de Rolando – envenenando o velho rei com certa substância exótica adicionada ao seu copo de vinho da noite, e plantando provas contra Pedro, que é julgado e preso, considerado culpado do assassinato do próprio pai. O que o bruxo não sabe é que, no exato momento em que ele, pessoalmente, levou ao rei o vinho envenenado, Tomás estava novamente no seu posto de observação, atrás da carranca ameaçadora de Niner. O príncipe mais jovem não é nenhum gênio, mas tampouco é tolo, e compreende que dificilmente seria coincidência o fato de seu pai morrer poucos dias depois de Flagg ter-lhe levado um copo de vinho – coisa que Pedro, e não Flagg, costumava fazer toda noite. Porém, Tomás não tem coragem de abrir a boca, receoso do que o feiticeiro poderia fazer, e Pedro é encarcerado na alta torre conhecida como "o Obelisco", tradicional local de prisão para criminosos nobres ou membros da realeza. Tomás é coroado (muito a contragosto, pois nunca desejou nem se considerou capaz de ser rei) e assume seu papel como fantoche de Flagg.

Depois de muita reflexão em sua cela solitária e desconfortável no alto do Obelisco, Pedro conclui que tem o dever de provar sua inocência, um dever não só para consigo mesmo, mas principalmente para com o reino, que Flagg parece estar deliberadamente conduzindo em direção ao caos: mesmo ali, em seu cárcere nas nuvens, notícias chegam, e elas dão conta de que o reinado de Tomás está sendo desastroso. A questão é que Pedro não pode provar coisa alguma de dentro da cela, e ninguém jamais fugiu do Obelisco em toda a história de Delain. Ainda assim, o príncipe arquiteta um plano, para o qual precisará recorrer a certos ensinamentos que recebeu da mãe quando era bem pequeno, e que exigirá dele muita persistência e paciência. Existem pessoas que acreditam em sua inocência, e com cuja lealdade ele pode contar, mesmo que, no caso de algumas delas, nem saiba disso; é em grande parte na coragem e no espírito de sacrifício desses amigos e súditos fiéis que repousa a esperança de que Pedro consiga reconquistar seus direitos e reparar a injustiça praticada – e, como ele reflete com grande nobreza de alma, o fato de uma injustiça ter ocorrido é motivo suficiente para que todos os esforços sejam feitos para corrigi-la; que a vítima da injustiça tenha sido ele, é quase irrelevante. Esta parte me pareceu particularmente importante:

A princípio, por um ou dois dias, remoeu sentimentos inúteis. O seu lado infantil insistia em lamentar-se: Não é justo! Isto não é justo! E não era mesmo, mas pensamentos dessa espécie não o levavam a lugar algum. Jejuando, começou a recobrar o domínio de si mesmo. O ventre vazio fez com que ele se desembaraçasse daquele componente de criança. Passou a sentir-se mais limpo, livre, vazio… como um copo esperando para ser enchido. (...) Ele começou a ouvir mais claramente seus verdadeiros pensamentos.

Torço retroativamente para que a jovem Naomi tenha aproveitado a chance e assimilado a lição valiosa que o pai estava tentando lhe passar, evitando ter que aprendê-la mais tarde, provavelmente de alguma maneira pior. Sem contar que esse é um ensinamento que faria muito bem a essa juventude nutella dos nossos dias.

Sempre vamos pensar em Stephen King, antes de mais nada, como um autor de terror (e não tenho dúvida de que é assim que ele prefere ser lembrado), mas ninguém pode escrever um único tipo de coisa durante toda a vida, e King já mudou de ares diversas vezes ao longo de sua carreira que já dura quase cinco décadas. Já vi pessoas que torciam o nariz à simples menção de seu nome ficarem com os olhos marejados ao falarem de filmes como Conta Comigo (1986) e Um Sonho de Liberdade (1994), e terem reações que variavam da incredulidade à teimosia agressiva quando eu lhes disse que ambos os filmes são baseados em histórias de King! (risos) Ainda assim, Os Olhos do Dragão é especial, porque sua própria origem tem uma história comovente, e, como se fosse para não deixar dúvida sobre o que (e quem) o motivou a escrevê-lo, o autor fez questão de incluir uma personagem chamada Naomi!… Em outros de seus livros, como A Hora do Vampiro e O Cemitério (principalmente), King coloca em suas páginas um bocado de reflexões bastante tenebrosas sobre a vida, a morte e o mundo de maneira geral, quase sempre atribuídas direta ou indiretamente a algum personagem, e possivelmente influenciadas pelas dificuldades e sofrimentos que eles passam ao longo da história. Em Os Olhos do Dragão, talvez porque sabia que seria lido por sua filha (que, por sinal, seria sua primeira leitora), ele adota um ponto de vista mais construtivo e, de certa forma, até otimista: não há "felizes para sempre", mas uma pessoa pode levar uma vida boa e com significado, uma vida para a qual poderá olhar com orgulho no momento da morte, se, ao longo dela, tiver enfrentado seus problemas (que inevitavelmente surgirão) com calma e determinação, e feito sempre o melhor possível. A coragem e a retidão de caráter de Pedro são o que faz dele um rei, muito mais do que sua linhagem, e essas mesmas qualidades inspiram a amizade e a lealdade de seus companheiros. Se eu tivesse filhos adolescentes, seria esse o tipo de coisa que gostaria de escrever para eles. Senti falta apenas de um pouco mais de ação, embora seja verdade que há uma cena memorável de luta – uma luta só na base dos punhos. Mais uma ou duas cenas de confronto, talvez com o uso de espadas, teriam acrescentado uma dose extra de emoção.

Os Olhos do Dragão talvez não esteja entre os melhores livros de Stephen King, e pode até mesmo ser considerado uma coisa um pouco à margem de sua produção normal, mas vale muito a leitura para quem gosta de fantasia e quiser conhecer uma face um pouco diferente do mestre do terror.

sábado, março 19, 2016

Dança Macabra

Embora eu seja um fã de Stephen King (como quem acompanha este blog, se é que alguém acompanha, já deve ter percebido), não tenho a pretensão de ser um grande conhecedor de sua obra… E vamos concordar, ser um grande conhecedor de King é uma empreitada que requer um tremendo investimento em termos de tempo, dinheiro e espaço na estante: vai ser prolífico assim lá no Maine! Portanto, não estou (muito) envergonhado de só agora ter lido Dança Macabra, cuja publicação original é de 1981.

Trata-se de uma leitura muito interessante, além de muito útil para todos os aficionados do terror em qualquer de suas apresentações: literatura, cinema, TV, quadrinhos e o que mais imaginarmos. H. P. Lovecraft escreveu O Horror Sobrenatural na Literatura, sobre o qual já falei aqui uma pá de vezes, mas que nunca me senti à vontade para transformar em assunto de um post próprio; já Dança Macabra, tão logo percorri suas 20 ou 30 primeiras páginas, já deixou claro o fato de que eu teria que escrever sobre ele. Por quê? Não sei. Talvez (e isso não passa de um palpite) porque já tenha lido mais coisas de King que de Lovecraft, e por isso tenha a sensação de entender melhor como funciona a cabeça do autor. No mais, acredito que o paralelo (não é uma comparação) procede: cada um procurou apresentar um panorama da tradição que o precedeu na ficção fantástica. Lovecraft, em sua época, praticamente só tinha a literatura da qual tratar, e, nesse campo, cobriu quase três séculos de obras e autores europeus e norte-americanos. Já King, escrevendo entre o fim da década de 70 e o começo da de 80, precisava cobrir uma gama muito maior de mídias, e, talvez por isso, optou por restringir o arco de tempo a ser abrangido pelo ensaio: seu assunto propriamente dito é a produção de terror das décadas de 50, 60 e 70, embora seja impossível evitar, vez por outra, uma incursão no passado em busca das origens de determinados horrores. Também à diferença de Lovecraft, King não se detém apenas em obras de terror, dando alguma atenção também à fantasia e à ficção científica, em especial a segunda, já que, durante o período que ele analisa, ficção científica e terror frequentemente interagiram, dialogaram e se interpenetraram, na literatura e sobretudo no cinema.

Já que estamos falando de gêneros, peço a indulgência de meus leitores para também expor um pouco de teoria de minha própria lavra. Gosto de agrupar ficção científica, terror e fantasia (na literatura, claro está) debaixo de um mesmo e enorme guarda-chuva que chamo de "literatura de imaginação". Os três têm em comum o fato de não terem suas temáticas limitadas pelas amarras do "possível" (para não falar no fato de, muitas vezes, serem produzidos e/ou consumidos pelas mesmas criaturas estranhas), mas também têm entre si grandes e importantes diferenças. Desse trio, a ficção científica é a que mantém maior distância em relação a seus "irmãos" terror e fantasia, os quais, por sua vez, são muito próximos um do outro – King chega a dizer que o terror não é propriamente um gênero, e sim um subgênero dentro da fantasia, uma asserção com a qual eu não sei se concordo. E o que é que causa essa distância? Bem, a ficção científica é um gênero jovem, não no sentido de atrair o público jovem, mas no de existir há pouco tempo mesmo: seus primeiros expoentes dignos de nota são do século XIX. O terror e a fantasia, por outro lado, são muito antigos; nem sequer é possível fixar um marco exato de onde começam, herdeiros diretos que são da mitologia e do folclore – coisas que acompanham nossa espécie desde que ela passou a merecer o nome de humana. E, se a ficção científica teve um início recente, isso foi porque ela só pôde aparecer quando a ciência em si já estava madura a ponto de poder servir de inspiração para um gênero literário. Temos, então, que histórias de ficção científica são aquelas baseadas na ciência, ou, ao menos, em uma imitação aceitável de ciência; é um gênero que precisa oferecer explicações. A fantasia e o terror não precisam de explicações: sua matéria é a magia, o misticismo e o sobrenatural. Numa palavra, o inexplicável.


É claro que isso não significa que não possam ocorrer crossovers entre esses gêneros – e aqui devolvo o microfone a King. Obrigado, mestre. Logo no começo do livro, ele usa a miríade de filmes sobre invasões alienígenas que o cinema norte-americano produzia e exibia durante seus tempos de infância como ponto de partida para tecer uma reflexão. King, que nasceu em 1947, frequentemente se refere a sua própria geração como os "filhos da guerra" – a geração que colheu os frutos da vitória na Segunda Guerra Mundial. Todos os frutos. Por um lado, essa geração de norte-americanos cresceu em meio a uma prosperidade econômica com a qual seus pais e avós só poderiam ter sonhado; por outro, também cresceu em plena Guerra Fria, cercada pela paranoia constante da "ameaça comunista" (pois a União Soviética, outrora a mais importante aliada dos Estados Unidos contra as potências do Eixo, lideradas pela Alemanha nazista, era agora o inimigo a ser temido) e, pior ainda, convivendo com o fato de que uma guerra nuclear de extermínio total poderia estar à distância de um apertar de botão. A pergunta é inevitável: o que metia medo naquelas crianças e jovens? Por muito tempo, foram esses filmes (em geral toscos, é verdade) sobre invasores do espaço, que resultavam numa alegoria sobre a possível investida do inimigo – e, como bem observa o autor, a alegoria estava lá, pouco importa que o diretor tivesse feito a coisa de propósito ou que (nas palavras de King) o subtexto tivesse simplesmente acontecido. O resultado final de tudo era que, embora esses filmes partissem de elementos da ficção científica – civilizações extraterrestres, espaçonaves –, o efeito obtido era de terror. Em outro exemplo semelhante, King nos apresenta a lenda do "maníaco da mão de gancho", que era contada ao redor de muitas fogueiras de acampamento quando ele era garoto (e antes, e depois) e explica por que ela não deixaria de ser terror, mesmo que alguém decidisse recontá-la substituindo o maníaco por um ser de outro planeta ou de outra dimensão.

Continuando com suas teorizações, o autor apresenta a ideia – surpreendente de certa forma, mas que não deixa de fazer sentido – de que, por mais que o terror pareça um gênero transgressor (já que muitas vezes choca, seja com as alusões sexuais, ousadas para a época, de um Drácula, ou com o horror explícito de revirar o estômago de um Alien, o Oitavo Passageiro), o papel do escritor de terror, no fundo, é o de um agente do status quo, ou, se preferirem, o de um guardião da normalidade. Seguindo essa linha de raciocínio, a narrativa de terror não seria mais que uma variação da velha dicotomia "nós versus os outros". "Nós", nesse caso, significaria a sociedade e o modo de vida que conhecemos, e que talvez não propriamente amemos, mas com os quais, ao menos, nos sentimos confortáveis, rodeados pelo que nos é familiar; os "outros" seria qualquer tipo de criatura ou elemento que surgisse para subverter a ordem estabelecida dessa sociedade e desse modo de vida, quer falemos aqui de fantasmas, vampiros, serial killers ou alienígenas malvados – ou de qualquer das inúmeras coisas às quais esses seres podem servir de metáfora. Caberia ao autor, então, deixar bem marcada a distinção entre… Putz, eu estava pronto para escrever "entre o bem e o mal", mas isso é simplista demais. Talvez seja melhor dizer que o trabalho do autor de terror consiste em acumular sobre alguma figura, seja real ou imaginária, tudo aquilo que nos inquieta e atormenta, inclusive em nós mesmos, dando-nos, assim, um objeto conveniente ao qual direcionar nosso ódio, temor, ou nossa simples perplexidade. E, como o leitor mais perspicaz já deve estar pensando, isso pode ser usado de muitas maneiras. Pode nos proporcionar uma saudável catarse, permitindo que exorcizemos nossos impulsos violentos transferindo-os para um lobisomem fictício, ou pode ser usado com objetivos de controle social e político, com resultados catastróficos – vide o que aconteceu quando os nazistas conseguiram convencer o povo alemão de que eram os judeus o "monstro" que ele devia temer.

(Falar em lobisomem me fez lembrar de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que King considera uma variação moderna do velho mito, e que mereceu uma análise detida e comentários elogiosos. Para o autor, o livro de Stevenson forma, com Drácula, de Bram Stoker, e Frankenstein, de Mary W. Shelley, a tríade das grandes obras da ficção gótica, sendo ainda, segundo ele, a mais bem escrita das três, por conta de sua narração fluente e concisa, o que não é uma característica das outras duas.)

Em diferentes momentos ao longo do livro, King deixa-se arrastar (de forma deliberada, não tenho dúvida) para reminiscências autobiográficas. Na época, embora já se tivesse firmado como um escritor de sucesso, ele não tinha como saber que viria um dia a ser considerado um nome-chave na história da literatura fantástica, de modo que, ao partilhar essas reminiscências, ainda não sabia da importância que elas viriam a ter, e, então, apresenta-as somente como uma espécie de testemunho pessoal – valioso, de qualquer forma. Embora o gosto pela fantasia, e, em particular, pelo seu lado mais sinistro, pareça ter feito parte dele desde sempre, o autor arrisca apontar alguns acontecimentos de sua infância que podem ter tido sua parcela de culpa. Muito para minha surpresa, fiquei sabendo que o pai de King (que abandonou a família quando o pequeno Stephen tinha dois anos de idade e nunca mais foi visto pelos filhos), marinheiro de profissão, era um fã de ficção científica e terror, gêneros que lia avidamente e nos quais chegou a tentar a sorte como escritor, embora nunca tenha conseguido publicar nada. King, que não lembra de nada sobre o pai, acredita que seu definitivo "despertar" para o terror aconteceu quando, aos dez ou onze anos, encontrou, num sótão empoeirado, um caixote contendo alguns livros que haviam pertencido a ele, com destaque para uma coletânea dos contos de H. P. Lovecraft. Anos antes disso, porém, outra "epifania" já havia acontecido, numa ocasião em que um namorado de sua mãe levou toda a família para ver O Monstro da Lagoa Negra, filme que, hoje em dia, dificilmente ainda conseguiria meter medo em alguém (os sereianos de Harry Potter são, de longe, bem mais assustadores que o tal monstro, e isso para ficar só nas criaturas aquáticas), mas que deixou uma impressão profunda na imaginação de um garoto de sete anos naqueles meados da década de 50. E antes, ainda, outro evento pode ter deixado sua marca: aos quatro anos, King talvez tenha sido testemunha ocular da morte de um vizinho da mesma idade com quem costumava brincar, e que foi atropelado por um trem (digo "talvez” porque ele afirma não se lembrar de nada, sabendo do caso somente pelo relato da mãe, que não estava presente no momento do acidente; pode ser que, afinal de contas, ele não estivesse na companhia do amigo quando o fato aconteceu, mas também é possível que sua mente tenha simplesmente bloqueado essa memória, como dizem que acontece em casos de grandes traumas). King considera rematada tolice atribuir toda uma carreira literária a um trauma de infância, como alguns tentaram fazer desde que ele contou esse caso numa palestra, mas o episódio parece ter dado origem a uma história em particular: levante a mão aí quem lembrou do belíssimo filme Conta Comigo (Stand by Me), baseado em seu conto The Body, que, no Brasil, pode ser lido na coletânea Quatro Estações.

Outra obra que sem dúvida teve o seu peso na formação de King foi Além da Imaginação (The Twilight Zone), série criada por Rod Serling e exibida pela rede de TV americana CBS de 1959 a 1964. King dedica um bom espaço a essa série, e, mesmo que o tom no qual se refere a ela nem sempre possa ser considerado reverente (ele não hesita em apontar o que considera ruim), nota-se que, de modo geral, lembra dela com carinho. Além da Imaginação tinha formato de antologia, apresentando em cada episódio uma história fechada, independente das demais, com a temática variando entre terror, fantasia e ficção científica. No começo, quase todos os roteiros levavam a assinatura de Serling, às vezes adaptando contos de autores consagrados da literatura de imaginação, como Manly Wade Wellman, Richard Matheson e Ray Bradbury, entre outros menos famosos. Ainda durante a primeira temporada, o próprio Matheson, fisgado pelo projeto, passou a colaborar, de forma mais ou menos regular, com roteiros originais. Cancelada ao final de sua quinta temporada, Além da Imaginação seria, mais tarde, retomada por duas vezes. A primeira foi na década de 80, poucos anos depois da publicação de Dança Macabra; ainda lembro de muitos episódios dessa versão, à qual assistia na adolescência. Stephen King em pessoa escreveu ao menos um episódio, Gramma ('Vovó'), estrelado pelo garoto Barret Oliver, de A História Sem Fim, e os nomes de um punhado de outros escritores de peso também podem ser encontrados nos créditos: Harlan Ellison, Theodore Sturgeon, Ray Bradbury e George R. R. Martin. O segundo revival teve 44 episódios, exibidos entre 2002 e 2003, e é considerado pelos fãs a menos inspirada das três encarnações da série. Existe, ainda, um longa-metragem de 1983, intitulado Twilight Zone: the Movie, lançado no Brasil como No Limite da Realidade. O filme traz quatro histórias independentes, cada uma com cerca de 30 minutos de duração; três são remakes de episódios da série original, e uma é inédita. A produção é de Steven Spielberg, que também dirigiu um dos segmentos. Vários atores que participaram da série reaparecem. Note-se, de passagem, que esse formato de filme (longa-metragem composto de várias histórias mais curtas, quase sempre de terror) andou bastante em voga durante os anos 80 – posso lembrar de pelo menos mais dois exemplos: Nightmares ('Pesadelos Diabólicos'), de 1987, e Tales from the Darkside ('Contos da Escuridão'), de 1990. E deve haver outros. Puxa, que nostalgia bateu agora…

Dança Macabra, vamos admitir, parece ter uma organização um tanto caótica ("organização caótica"… Isso não é uma contradição?), fato para o qual o autor, de forma absolutamente honesta, já nos havia advertido em sua introdução; parece uma mistura de caderno pessoal de anotações, trechos de roteiros de palestras, e até mesmo apontamentos de tópicos levantados em conversas com amigos que também estavam envolvidos, de uma forma ou de outra, com a ficção de terror. Há, é claro, capítulos dedicados à ficção impressa, ao cinema, à TV e até ao rádio, mas o autor parece ter achado impossível se restringir, em cada um deles, àquele que deveria ser seu assunto específico: fazer isso implicaria em perder inúmeras oportunidades de traçar paralelos e construir ligações interessantes. E, para falar a verdade, essa ligeira balbúrdia acaba por ter um efeito positivo: dá ao produto final um ar mais informal e simpático, evitando o ranço de academicismo que poderia facilmente se formar num trabalho desse tipo.

A prosa ágil e por vezes irônica de King é tão agradável de acompanhar neste ensaio quanto em qualquer de seus trabalhos de ficção, mas não dá para fechar os olhos aos defeitos, e o maior deles, ou, ao menos, eu senti assim, é algo que talvez só seja um defeito para leitores estrangeiros como nós: o tom excessivamente norte-americano do texto, em geral concretizado nas constantes menções a coisas e principalmente pessoas que não temos ideia de quem sejam. Não me refiro a escritores ou cineastas, pois, embora muitos dos autores e obras dos quais o autor fala sejam mesmo desconhecidos para nós, eles são pertinentes ao assunto, e acabam se tornando parte do nosso acervo de referências, mesmo que não os tenhamos lido ou assistido e, por consequência, só os conheçamos por meio do que King diz; o que por vezes incomoda são as pencas e mais pencas de nomes de esportistas, políticos, cantores, apresentadores, celebridades locais e outros tipos que só um norte-americano, e digo mais, em muitos casos só um norte-americano daqueles dias, poderia saber quem eram. (Calma! Eu sei quem foram Eddie Cochran e John F. Kennedy, mas há nomes muito mais obscuros que esses, que não consigo me sentir culpado por não conhecer.) Além disso, noto em King uma dificuldade que eu também tenho: é duro resistir à tentação de incluir uma informação interessante ou um comentário mordaz quando eles nos vêm à cabeça no meio de uma frase, mesmo sabendo que, por amor à concisão e à clareza, deveríamos fazer o sacrifício. Isso resulta em longas interpolações que, não raro, fazem com que o leitor perca completamente o fio da meada e precise voltar atrás, reler a parte da frase que estava antes dessa intromissão, e pular para o que está depois, para conseguir juntar os sentidos. Esse cacoete, por sua própria natureza, aparece com muito mais frequência num ensaio que num texto de ficção; felizmente, a estrutura do ensaio permite o uso de notas de rodapé (às quais King, por sinal, recorre a toda hora), o que minimiza o problema. É preciso lembrar, também, que Dança Macabra foi escrito quando King tinha apenas 33 anos – e, como escritor não é jogador de futebol, essa era uma idade bastante jovem. Mais tarde, ao longo do tempo, ele iria lixando essa aresta.

Dança Macabra é interessante por ao menos duas boas razões: além de nos levar a uma compreensão mais profunda do fenômeno do terror na cultura popular do século XX, também traz informações sobre o próprio King que todos os fãs do escritor certamente vão apreciar conhecer – tanto informações sobre seu background por meio das partes autobiográficas, quanto sobre seu modus operandi e o porquê de algumas características que são indissociáveis de sua obra. Pena que a qualidade da edição nacional deixe tanto a desejar: há muitos erros de concordância, e inúmeros nomes próprios estão grafados errado (o escritor de ficção científica Poul Anderson virou "Paul Andersen", e Robert W. Chambers, o autor de O Rei de Amarelo, virou "Chalmers", entre muitos outros exemplos); além de tudo, até mesmo a fonte usada não é das que tornam a leitura mais confortável, sinto dizer. Na época desta edição (2003), as obras de King eram publicadas no Brasil pela Objetiva; não sei qual é a relação entre essa editora/selo e a Suma de Letras, que as publica atualmente, mas, por ocasião da transição, vários dos livros continuaram a ser impressos com as mesmas capas e o mesmo visual, mudando apenas o selo na lombada e no canto inferior direito de cada capa. Em todo caso, tenho a impressão de que as edições mais recentes são mais bem cuidadas. Espero não me decepcionar! Bons pesadelos a todos.