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quarta-feira, fevereiro 03, 2016

A Máquina de Matar

Cerca de um ano depois de ter conseguido eliminar Attel Malagate, o primeiro de sua lista negra, Kirth Gersen atravessa um período de marasmo. Suas investigações em busca dos outros Príncipes-Demônios parecem ter chegado a um beco sem saída. Nessa situação, ele aceita um convite para uma reunião com um oficial da CCPI (Companhia de Coordenação Policial Intermundos), organização para a qual já trabalhou como freelancer no passado. O oficial tem em alta conta as habilidades de Gersen, e por isso deseja enviá-lo para um planeta periférico, no qual ele tem motivos para acreditar que certo indivíduo procurado pela CCPI esteja tratando de seus próprios negócios. A tarefa de Gersen seria a de localizar o homem e trazê-lo de volta, vivo se possível. Morto também serve. Entretanto, seu mandante em potencial se recusa a fornecer qualquer informação além das estritamente necessárias ao desempenho da missão: não diz por que o sujeito está sendo procurado e nem sequer sua verdadeira identidade, designando-o apenas por "Sr. Hoskins" – obviamente um nome fictício. Gersen, que não gosta de trabalhar no escuro, está pronto para recusar a incumbência quando o outro, quase por acaso, menciona que Kokor Hekkus, vulgo "a Máquina de Matar", um dos tristemente famosos Príncipes-Demônios, pode estar envolvido nos assuntos dos quais o procurado anda tratando. Isso muda totalmente as coisas para Gersen, que, embora mantendo a aparência de desinteresse para não dar na vista, toma no mesmo instante a decisão de aceitar a missão.

No planeta designado, Gersen testemunha o encontro de "Hoskins" com um tal Billy Windle, que ele suspeita ser um agente a serviço de Kokor Hekkus. O encontro acaba mal para "Hoskins", que perde a vida; ele estava em vias de trocar certos papéis com Windle, mas a intervenção de Gersen impede que a transação se concretize e, quando tudo termina, nosso herói se vê de posse de dois documentos. Um deles, rasgado durante a luta, está incompleto, e traz certas instruções envolvendo matemática, para algum propósito misterioso. O outro, para seu assombro, consiste em nada menos que instruções sobre como se tornar um hormagaunt – uma espécie de bicho-papão desses tempos futuristas, uma classe de homens que, segundo se diz, conseguem prolongar indefinidamente a própria vida utilizando ingredientes misteriosos obtidos dos corpos de jovens ou crianças. Como toda pessoa racional, Gersen sempre viu isso como mera fábula, mas é forçado a reconsiderar ao ver-se diante das tais instruções por escrito, que "Hoskins", sem dúvida, considerava sérias. Dizendo de outra forma: a coisa em si talvez não seja real, mas Gersen sabe agora que há pessoas que acreditam que seja – o que, para muitas finalidades, dá no mesmo. Em adição a tudo isso, um garoto que ele encontra naquele planeta afirma categoricamente que Billy Windle é mesmo um homem de Kokor Hekkus, que Hekkus é um hormagaunt, e que vive no planeta Thamber. Não que isso, em princípio, torne a coisa mais crível: Thamber é o planeta das lendas e dos contos de fadas. Aqui na Terra, quando os contos de fadas surgiram, supunha-se que as maravilhas e os horrores neles descritos acontecessem em "reinos distantes", pois, naquela época, nosso mundo ainda possuía suficientes partes inexploradas para permitir o benefício da dúvida quanto à existência de lugares assim; já nos tempos pós-exploração espacial em que se desenrola a Saga dos Príncipes-Demônios, as bruxas, os dragões e as princesas encantadas "migraram" para esse planeta misterioso, de localização desconhecida e existência duvidosa. Portanto, no que diz respeito a Gersen, o assunto fica sobrestado até que novos elementos surjam; ele já viu coisas demais para fechar a mente a qualquer possibilidade, mesmo as mais fantásticas.

Gersen tem seus motivos para trabalhar ocasionalmente para a CCPI, e o pagamento oferecido por cada missão não é o principal deles; para ele, ter contatos dentro da organização é muito mais valioso, pois lhe garante acesso a informações que não estariam disponíveis a pessoas comuns, e que, para ele, podem ser de importância capital. Pouco mais de um mês depois do incidente com o "Sr. Hoskins", o Oikumene (termo que Jack Vance foi buscar no grego clássico, e que significa algo como “o universo habitado”) começa a ser assolado por uma onda de sequestros. Não que sequestros sejam tão incomuns, mas esses são todos realizados de forma muito parecida, e não visam simplesmente pessoas ricas – só as extremamente ricas, ou seus entes queridos. O resgate solicitado também é o mesmo para todos: cem milhões de UPVs (a UPV, Unidade Padrão de Valor, é a moeda corrente nos mundos humanos). Tudo parece indicar que todos os sequestros tenham sido arquitetados por um mesmo mentor, e, graças ao acesso privilegiado a informações de que falávamos há pouco, Gersen descobre que esse mentor é Kokor Hekkus. Naturalmente, a questão que se impõe é: para que teria ele necessidade de tanto dinheiro, e com tamanha urgência que não pode dispor do tempo de obtê-lo por meio das suas atividades criminosas habituais, que chamam muito menos atenção?

Este é o momento em que precisamos conhecer outra particularidade desconcertante do universo exótico de Jack Vance. Como sabe quem já leu algum dos cinco volumes da Saga dos Príncipes-Demônios, o Oikumene, apesar do nome, não é todo o universo conhecido – somente a parte dele que pode ser considerada relativamente civilizada e segura. Suas "metrópoles", por assim dizer, são o sistema do Sol (o nosso, onde fica a Terra, berço da humanidade) e os de Vega e Rigel. Nesses sistemas, e nos outros que estão sob sua influência direta, existem leis, e também os órgãos dedicados a garantir que elas sejam cumpridas, o que oferece aos cidadãos um certo grau de proteção, embora, é claro, seja impossível impedir totalmente a ação de criminosos. O Oikumene é uma região vasta, mas nem de longe tão grande quanto o "resto", quer dizer, aqueles sistemas estelares que até podem já ter sido explorados e mapeados, mas que a força da lei não alcança e onde, literalmente, vale tudo – uma espécie de Velho Oeste cósmico. Esse é o assim chamado Além-Espaço, ou, às vezes, apenas o Além. Nem é preciso dizer que nele não é difícil encontrar contrabandistas, piratas, mercadores de escravos e todo tipo de bandidos comuns e incomuns, mas não só isso. Também é no Além que certas empresas são fundadas e prosperam, e não se trata somente de facções criminosas brutais e pouco organizadas: há companhias habilmente administradas por empreendedores esclarecidos, com funcionários, estatutos, hierarquia, burocracia e tudo o mais. O motivo pelo qual os fundadores dessas empresas escolheram estabelecê-las no Além-Espaço é um só: os negócios aos quais elas se dedicam são ilegais.

Uma dessas empresas é Intercâmbio, cujo ramo de atuação consiste em intermediar sequestros. A companhia possui um complexo instalado num pequeno planeta na borda do Além-Espaço, e é para lá que sequestradores de todos os lugares levam suas vítimas, eliminando a necessidade dos trabalhosos, arriscados e pouco práticos cativeiros. Mediante uma comissão sobre o valor do resgate, Intercâmbio se encarrega da custódia dos reféns e cuida de seu conforto, saúde e segurança, além de receber o pagamento e repassá-lo ao sequestrador (que, no jargão da companhia, é chamado de "patrocinador").

Intercâmbio existe há muito tempo, goza de prestígio e pode mobilizar recursos cuja extensão ninguém conhece ao certo; nem mesmo Kokor Hekkus ousaria tentar trapaceá-lo – guardem essa informação. No atual momento, aliás, Hekkus é o principal cliente da companhia: quase todos os dias uma de suas naves chega trazendo novos reféns. Gersen decide ir até lá ver o que descobre, e, para tanto, faz um acordo com um dos figurões cujos filhos foram sequestrados; é na qualidade de agente desse homem que ele chega a Intercâmbio, onde, graças à tagarelice de um empregado (encorajada por um pouco de dinheiro), fica sabendo, por fim, o que há por trás daquilo tudo. E o que descobre o surpreende, embora, pensando bem, bata com aquilo que se sabe sobre Kokor Hekkus. O Príncipe-Demônio tem duas paixões: uma são máquinas complicadas, e a outra é a beleza. Adora antiguidades e obras de arte, que compra ou rouba por todo o Oikumene e no Além-Espaço. Aconteceu então que, levado por essa obsessão estética, ele se encantou por certa jovem cuja beleza (dizem) desafia descrições, e que (também dizem) é originária do mítico Thamber. Horrorizada ante a perspectiva de cair nas mãos de Hekkus, e sabendo que ele moveria céus e terras para apanhá-la, a moça recorreu a Intercâmbio, cujas regras, como dissemos, nem mesmo ele se atreveria a tentar burlar. Agindo como sua própria patrocinadora, ela se pôs sob a guarda de Intercâmbio, fixando o próprio resgate em inacreditáveis dez bilhões de UPVs – soma superior ao orçamento anual da maioria dos planetas do Oikumene –, e só não o fixou ainda mais alto porque as normas da empresa não permitiam. Outra dessas normas estipula que, até o final de um certo prazo, só a parte diretamente interessada, isto é, a família do refém, pode pagar o resgate; passando daí, qualquer pessoa que o pague pode "tomar posse". No caso da jovem de Thamber, o prazo já expirou, de modo que Kokor Hekkus poderá finalmente tê-la… Desde que pague os dez bilhões de UPVs, que, como o funcionário de Intercâmbio observa a Gersen, são uma soma imensa, mas também são apenas cem vezes cem milhões. De posse de todas essas informações, Gersen encara o desafio de descobrir nelas alguma fresta que lhe dê a chance de localizar Kokor Hekkus, acercar-se dele e matá-lo. Um outro refém em Intercâmbio talvez possa ser útil: Myron Patch, engenheiro e industrial da cidade de Patris, no planeta Krokinole, está ali porque aceitou uma encomenda de Hekkus, que o encarregou de construir para ele uma espécie de fortaleza ambulante sobre pernas articuladas, um gigantesco centípede de metal para disseminar o terror entre certas tribos bárbaras de Thamber, que andavam a lhe causar problemas. Patch entrou em desacordo com Hekkus por motivos financeiros, e foi assim que acabou sequestrado. Gersen irá apostar que esse sujeito pode ajudá-lo a estabelecer um contato com seu alvo – e nessa aposta vai arriscar muita coisa, inclusive a vida, o que faz parte de seu destino de vingador.

Deixem-me dizer, os livros de ficção científica que já li devem contar-se pelas centenas, mas, se eu for fazer uma lista dos autores que me empolgaram tanto quanto Jack Vance, ela terá uns três nomes, no máximo quatro. Seu universo é de uma complexidade quase inacreditável, mas, apesar disso, conforme vamos imergindo nele, nos dá a sensação de uma familiaridade como só lugares reais costumam conseguir fazer. Só tenho pena de que a Saga dos Príncipes-Demônios só tenha cinco volumes, pois esse universo mereceria ser muito mais explorado, aproveitado em muito mais histórias. Como observei ao escrever sobre Star King, o autor foi afinando seus instrumentos conforme progredia nas aventuras de Kirth Gersen: o primeiro livro já era ótimo, mas tinha algumas arestas que precisavam ser aparadas, o que positivamente aconteceu em A Máquina de Matar. A narrativa ficou mais fluente, as "cores" ainda mais vivas, e a personalidade do protagonista ganhou mais profundidade. Gersen, ele próprio, também é uma "máquina de matar", quase perfeito como guerreiro, espião, detetive e assassino, treinado durante toda a vida para sua missão de vingança e educado para agir de forma estritamente racional – mas nada disso consegue apagar o fato de que ele, no fundo, é um romântico incorrigível, um fato que esta segunda história irá pôr em evidência mais do que a primeira.

A capacidade de Jack Vance de urdir tramas complexas sem deixar nenhuma ponta solta é algo de admirável. Desde as primeiras páginas, ele vai jogando pedaços de informação cuja importância só iremos compreender muito depois, num desafio de lógica investigativa que tanto Gersen quanto o leitor precisam desvendar, lembrando um pouco um romance policial, mas, é claro, em clima de ficção científica, e, neste livro, também de fantasia: é uma experiência emocionante chegar a Thamber e descobrir que ele é real. Colonizado por humanos em tempos antigos, o planeta ficou por muito tempo isolado, o que levou a civilização, nele, a regredir até um estágio técnico e social que lembra a Baixa Idade Média da Terra. Vance (que faleceu em 2013, aos 96 anos de idade) parecia gostar desse conceito, pois o utilizou em pelo menos mais duas histórias: The Miracle Workers ('Os Milagreiros') e The Dragon Masters (publicado no Brasil como 'O Planeta dos Dragões'). A ideia, que poderia facilmente soar ridícula em mãos menos hábeis, dá resultados formidáveis quando quem a usa é um mestre como Vance. É inexplicável que um autor desse calibre, cultuado mundo afora e reverenciado por gente como Ernest Cline, Neil Gaiman, George R. R. Martin, entre outros, tenha tido tão poucos livros publicados no Brasil, e que mesmo esses já não sejam reimpressos há uns 30 anos ou mais, só podendo ser encontrados em sebos, e com muita sorte.

Por falar em sebos e em sorte, quero finalizar com uma curiosidade. Possuo ambas as versões de The Killing Machine existentes em português: a da editora brasileira Francisco Alves, de 1980 (dentro da coleção Mundos da Ficção Científica), intitulada A Máquina de Matar, e a da portuguesa Europa-América, sem data de publicação, chamada A Máquina Assassina. Comprei a edição portuguesa primeiro, acho que foi na Feira do Livro de Porto Alegre, nos idos dos anos 90, mas, ao encontrar a brasileira mais recentemente, e por um preço mínimo, comprei também, principalmente pela curiosidade de comparar as duas traduções – mas, até agora, só havia lido de cabo a rabo a versão portuguesa. Quando resolvi reler, ficava pulando de uma edição para a outra, não raro me surpreendendo do quanto uma tradução pode mudar um texto, e desejando ter também uma edição em inglês, para ver como certos trechos eram no original. Acabei constatando mais uma vez algo que já sabia sobre mim mesmo: não sou uma pessoa "desprendida" (sou do tipo que, quando vai a um restaurante de que gosta, tem a tendência de pedir sempre o mesmo prato; perguntem a Cintia). Voltei para a edição portuguesa, concluindo que gostava mais dela, embora isso possa ser apenas porque já a conhecia!… Além disso, por razões que ignoro, na tradução brasileira Kokor Hekkus é frequentemente chamado apenas de "Kokor", e não acho recomendável demonstrar tanta intimidade com um notório malfeitor. Em todo caso, ao escrever este texto, procurei usar as palavras da terminologia do universo de Jack Vance do modo como aparecem na edição brasileira (exemplo: UPV em vez de SVU – a edição portuguesa usa a sigla em inglês, de Standard Value Unit), já que aqueles de vocês que quiserem ler o livro e tiverem sorte o bastante para consegui-lo, provavelmente encontrarão a edição da Francisco Alves. Por outro lado, optei por ilustrar o post com a capa da edição portuguesa, que é, de longe, muito mais bonita… Aliás, para falar francamente, a capa da nacional é muito feia. Mas, seja qual for a edição, não deixem de ler se puderem.

quarta-feira, maio 22, 2013

Encantamentos

Certa vez, no editorial da revista de ficção científica que levava seu nome (e que chegou a ser publicada no Brasil, onde sobreviveu por 25 edições), Isaac Asimov propôs uma teoria classificando seus leitores (e os de publicações do gênero de modo geral) entre "exclusivistas" e "inclusivistas". Exclusivistas seriam aqueles que têm noções muito precisas a respeito do que esperam encontrar nas páginas de uma revista de ficção científica, e tendem a ficar contrariados com qualquer desvio da "norma": esse é o tipo de leitor que escreve ao editor para reclamar que tal ou qual conto é de fantasia, e, portanto, não deveria ter sido publicado numa revista que se pretende de ficção científica. Inclusivistas, em contrapartida, seriam os que, ou não têm uma definição muito rígida do que distingue seu gênero favorito, ou até têm uma definição, mas não a levam muito a sério: em princípio, não se opõem à publicação eventual de histórias que não sejam necessariamente de ficção científica, desde que tenham qualidade. Asimov concluía, se não me falha a memória, dizendo-se, ele próprio, um exclusivista enquanto escritor e, até certo ponto, também enquanto leitor, confessando, porém, que, por vezes, a única resposta que podia dar às reclamações veementes dos exclusivistas mais radicais que liam a revista, era que concordava que o conto em questão não se tratava de ficção científica - só que havia gostado tanto da história, que, como editor, sentira que não podia deixar de publicá-la, independentemente do gênero.

Felizmente, as reservas de Asimov em relação à literatura de fantasia, quaisquer que fossem, não o impediram de unir forças com Charles G. Waugh e Martin H. Greenberg para organizar a série de coletâneas Os Mundos Mágicos da Fantasia, da qual Encantamentos é o primeiro volume. Bem, "série" talvez seja exagero: pelo que me consta, existe apenas mais um volume, Magos. Um terceiro livro, Mutantes, embora com a capa seguindo o mesmo projeto gráfico, e coordenado (se não me engano) pelo mesmo trio, é voltado para a ficção científica.

O maior mérito de compilações como esta é o de tornarem novamente disponíveis histórias que talvez só tivessem sido publicadas antes em antologias há muito esgotadas, ou mesmo em revistas que são hoje itens de colecionador ("novamente" para os norte-americanos, é claro, pois, para nós, esta é a primeiríssima oportunidade de ler a grande maioria desses contos). E são histórias que vale a pena conhecer, pois representam um pouco do melhor que se pode encontrar em matéria de ficção curta ou média no gênero de fantasia. As três únicas que lembro de já ter visto publicadas em outro lugar são as dos autores mais conhecidos do público em geral: O Menino Invisível, do gigante Ray Bradbury, que (mais uma vez confiando na memória) está na antologia de autor único Os Frutos Dourados do Sol; Lote 249, de Sir Arthur Conan Doyle, presente anteriormente numa velha edição dedicada a seus contos não-Sherlock Holmes e, recentemente, também em Góticos; e Eu Sei do que Você Precisa, de Stephen King, encontrável em Sombras da Noite. Ao lado destas, Encantamentos apresenta-nos um punhado de pérolas de imaginação e de escrita. Um (para mim) ilustre desconhecido que atende por Robert Arthur comparece com Satã e Sam Shay, conto que, com sua combinação magistral de humor e elementos sinistros, chega muito perto da perfeição como história cujo objetivo é divertir e entreter. Trata das atribulações de Sam Shay, um malandro de marca maior, que jamais na vida considerou seriamente a possibilidade de trabalhar, acostumado que está a viver à custa de apostas, e acaba por granjear tamanha reputação nesse métier, que seus conhecidos, divididos entre a admiração e o despeito, começam a dizer que "Sam Shay é capaz de fazer três apostas com o diabo, e ganhar todas elas". Até que Satã em pessoa ouve os comentários, e, sendo ele próprio um notório apreciador de jogatinas, decide aparecer para tirar a prova…

Andre Norton leva-nos, em Os Sapos de Grimmerdale, a visitar um mundo medieval imaginário, mais exatamente um país que acaba de emergir de uma guerra cruel, tendo conseguido, com muito sacrifício, repelir uma invasão bárbara. Agora a terra vive os tempos de escassez e confusão que sempre se seguem às guerras, e, em muitos lugares, sofre com a falta de lideranças, já que grande parte de seus homens adultos e capazes (incluindo muitos de seus lordes) tombou no campo de batalha. Esse é o cenário por onde perambula Hertha, uma jovem de estirpe nobre que caiu em desgraça ao ser estuprada - seu irmão expulsou-a do feudo da família, como se ela fosse culpada do acontecido. Ainda pior: o responsável pela violação não foi um dos invasores, mas um homem de seu próprio povo. Agora, grávida e desamparada, ela está em busca de vingança, e, para conseguir seu objetivo, está disposta a tudo, até mesmo a barganhar com os seres misteriosos que habitavam a região antes da chegada dos humanos, e que agora vivem escondidos e, segundo se diz, conhecem magia antiga e poderosa.

Outro mergulho empolgante em um mundo de guerreiros, magos e criaturas fantásticas é proporcionado por Gerald W. Page, que, em O Herói que Voltou, nos conta sobre o dilema de Dunsan (o nome do personagem é uma discreta, porém clara homenagem a Lord Dunsany, escritor pioneiro do gênero sword & sorcery do início do século XX), um homem já de certa idade que, depois de ter ganho a vida como agricultor e como ferreiro, acabou tornando-se balseiro, e agora faz travessias num rio. Detalhe: tudo o que existe na outra margem, por uma grande extensão, é uma região selvagem e uma velha e arruinada fortaleza que todos acreditam ser assombrada… Por causa disso, só um tipo de passageiro vem pedir transporte a Dunsan: heróis rumando para a tal fortaleza para enfrentar o que quer que exista lá, e tentar pôr fim à maldição. Esses audazes aventureiros vão, mas jamais voltam, de modo que o balseiro tem que conviver com o fato de que a comida que ele coloca na mesa para si próprio e para sua esposa vem de levar homens para a morte certa. Para completar, ele teme que a esposa, Maelwyd, bem mais jovem que ele e sonhadora por natureza, esteja insatisfeita com a vida rotineira que levam, e a presença, ainda que ocasional e breve, de todos aqueles guerreiros cheios de histórias fascinantes para contar não contribui para tranquilizá-lo. Até que, numa viagem que em nada parece diferente de inúmeras outras, Dunsan descobre que também é capaz de atos heroicos.

É claro que nem todos os contos são tão legais assim. A Feiticeira Está Morta, de Edward D. Hoch, até começa bem, com algumas estudantes de um colégio interno adoecendo misteriosamente depois que uma velha charlatã conhecida como Mãe Sorte (que, na juventude, fora expulsa do mesmo colégio) lhes roga uma maldição, e quem aparece para investigar é um tal Simon Ark, "detetive especializado em casos de ocultismo e feitiçaria", um homem que, a julgar por diversos indícios, parece ter séculos de idade. O enredo poderia render uma boa história, mas Hoch faz questão de estragar tudo trazendo uma "explicação lógica e racional" para o que parecia ser um fato sobrenatural - no melhor estilo Scooby-Doo -, e é difícil pensar em coisa mais frustrante e irritante que isso para qualquer verdadeiro apreciador da literatura do insólito, que começa a ler uma história de boa-fé, só para descobrir-se ludibriado dessa forma.

Mas não se assustem: não é essa bobagem que irá fazer com que deixe de valer a pena ler Encantamentos, pois o livro tem muito mais coisas a oferecer, e muitíssimo melhores. Particularmente empolgante é encontrar em suas páginas uma história que integra uma das mais monumentais séries de espada e magia já escritas, a das aventuras de Fafhrd, o bárbaro, criadas pelo norte-americano de ascendência alemã Fritz Leiber (1910-1992), que as escreveu durante quase 50 anos: a primeira é de 1939, e a última, de 1988. As Mulheres da Neve, presente em Encantamentos, não foi uma das primeiras a serem escritas (a publicação original é de 1970), mas, pela cronologia interna, talvez seja mesmo a primeira de todas, pois nela Fafhrd é adolescente e ainda vive em sua terra natal, no Canto Frio - uma região inóspita e gelada do norte do mundo de Nehwon -, começando a insurgir-se contra a tirania da mãe, Mor, que, por falar nisso, é uma líder entre sua gente e uma feiticeira temida, não necessariamente nessa ordem. E Fafhrd não é de modo algum o único homem do Povo da Neve a viver na rédea curta sob o controle de uma mulher, seja mãe, esposa ou outra: trata-se de uma sociedade fortemente matriarcal, e na qual as mulheres não dependem apenas da força dos costumes para manter seus homens dominados - na verdade sua magia, toda baseada no frio, no gelo e na neve, é um "argumento" bem mais eficaz que qualquer costume. E, embora não tenha como provar, Fafhrd nutre grandes suspeitas de que a morte de seu pai tenha sido obra dos poderes de Mor, enraivecida por não conseguir dobrar o espírito independente do marido. Há mais: o rapaz sente-se entediado e oprimido com a vida no Canto Frio, e seu interesse pelo sul civilizado e de clima mais ameno só tem aumentado durante os meses que passaram desde que participou de sua primeira expedição pirata para aqueles lados (essas expedições parecem ser mais ou menos uma tradição - um toque viking na caracterização do Povo da Neve). E o acúmulo do descontentamento provocado por todos esses fatores vai fazendo com que Fafhrd - um jovem de sentimentos intensos, embora seus atos sejam frios e calculados - fique cada vez mais inclinado a tomar uma atitude drástica.

Encantamentos termina em grande estilo, com Os Milagreiros, do sempre magnífico Jack Vance, uma história de fantasia com background de ficção científica. Num passado distante (que para nós é futuro), 1600 anos antes dos fatos que vão ser narrados, aconteceram as agora legendárias guerras interestelares, e, no caos que veio depois delas, alguns planetas que a Terra havia colonizado foram esquecidos, ficando sem contato com o resto do universo humano. Pangborn foi um deles. Ao longo dos séculos, seu povo foi-se esquecendo da tecnologia, e agora os descendentes dos antigos viajantes espaciais vivem de maneira praticamente medieval. Com um detalhe curioso: na opinião dos pangbornianos de hoje em dia, o que houve foi progresso. Eles consideram os antigos uma gente primitiva e supersticiosa, que depositava sua confiança em "milagres" (é assim que os personagens se referem à tecnologia e a tudo o que dela derive, mas sem que o uso dessa palavra traga qualquer conotação de admiração; pelo contrário, ela é pronunciada com desprezo), e orgulham-se de atualmente utilizarem-se de meios mais lógicos e racionais para alcançar seus objetivos: feitiços, maldições, invocação de demônios… Apesar disso, algumas heranças dos dias antigos ainda são usadas, seja porque podem trazer vantagens práticas ou como meras insígnias de tradição e status: nobres de ilustres famílias antigas levam na cintura pistolas laser que não funcionam e que, de todo jeito, eles não saberiam manejar, e Lorde Faide, um dos protagonistas, locomove-se num carro que flutua acima do solo, mas que dá claros sinais de estar nas últimas. No topo da fortaleza que leva o nome de sua família, Faide mantém o temido "Boca do Inferno", um canhão energético outrora removido de uma nave de combate arruinada, e que constitui agora sua principal arma defensiva. Há um atendente cuja única tarefa é cuidar do Boca do Inferno - mas tudo o que ele faz é polir e azeitar a superfície metálica da arma, sem que lhe ocorra a possibilidade de algo como uma manutenção interna, pela simples razão de que nem ele, nem ninguém no planeta tem a mínima ideia de como uma coisa daquelas funciona. A não ser quando o Boca do Inferno ou seus congêneres de outras fortalezas entram em ação, a maior parte do combate praticado em Pangborn - onde, por sinal, os conflitos de poder entre os diferentes feudos parecem ser comuns -, é realizada usando cavalos, espadas, arco e flecha e assim por diante, à moda medieval mesmo. Porém, todo lorde sagaz sabe que tão importante quanto ter um exército aguerrido é dispor de uma boa equipe de azarentos, que são uma categoria de feiticeiros profissionais, encarregados de fazer mandingas contra o exército oponente, podendo também invocar demônios, mas somente em situações de extrema necessidade, pois o esforço e o dispêndio de energia envolvidos nisso são enormes, muitas vezes deixando o azarento à beira da morte; por isso mesmo, apenas os mestres da azaração se atrevem a fazê-lo. Os demônios, a propósito, podem servir a dois objetivos: espalhar o terror entre os inimigos ou inspirar um estado semelhante à fúria berserker nos soldados de seu próprio exército. Lorde Faide tem a seu serviço Hein Huss, tido por muitos como o maior azarento vivo, e Huss, por sua vez, tem um aprendiz, Sam Salazar, amiúde ridicularizado tanto por seu medíocre talento na arte de azarar, quanto por cultivar um interesse sem cabimento pelos "milagres" dos antigos. Mas talvez chegue o dia em que nem a espada nem o azar poderão salvar o Forte Faide, e então todos tenham que depositar suas esperanças nas ideias tresloucadas do adolescente que até aí consideravam um pateta. Enfim, Os Milagreiros é tudo aquilo que um leitor de Jack Vance está acostumado a esperar dele, e dizer isso é suficiente para chegar à conclusão de que vale, e muito a pena lê-lo.

Com os altos e baixos inevitáveis (e os baixos são realmente poucos), o mesmo pode ser dito de Encantamentos como um todo: temos aqui um livro que constitui companhia perfeita para muitas horas de viagens de imaginação, para quem quer dar-se um tempo para ler por prazer, deixando de lado todas as demais preocupações e tirando uma folga da dura realidade. E que bem isso faz…

quinta-feira, junho 21, 2012

Star King - A Saga dos Príncipes-Demônios

John Holbrook Vance (1916-) não está entre os nomes mais famosos da história da ficção científica, o que talvez seja compreensível, considerando que suas obras não têm a mesma amplitude de apelo que as de um Isaac Asimov ou de um Arthur C. Clarke, e também que nunca foi tão prolífico quanto esses autores, mas tem, sim, seu próprio segmento de leitores fiéis, apaixonados por seu estilo único e sua espantosa criatividade. Um número relativamente pequeno de suas obras foi publicado em português, mas não há dúvida de que os poucos livros que chegaram até nós integram a parte mais importante e relevante de seu trabalho. Embora eu não conheça tanto de Jack Vance quanto gostaria, sempre senti que a Saga dos Príncipes-Demônios, formada por cinco romances, devia ser a joia da coroa.

Mesmo na época em que Vance começou a escrever essa saga (início dos anos 60), descrições de civilizações do futuro já eram carne-de-vaca na ficção científica. Quem quisesse criar um universo realmente marcante para ambientar suas histórias, um universo que não fizesse o leitor pensar "Humm, onde foi mesmo que já vi isso antes?", tinha diante de si um desafio muito sério. Um desafio que Jack Vance superou magnificamente. Ele começa por atiçar nossa curiosidade, ao citar datas que parecem do passado: a ação de Star King inicia em 1524. Só lá pelas tantas é que ficamos sabendo que houve uma reforma na contagem do tempo, que fez do ano 2000 o ano zero - portanto, estamos no ano que chamaríamos de 3524.

Então somos apresentados ao herói Kirth Gersen - uma das personalidades mais fascinantes que já encontrei em livros de ficção científica. Sua história é trágica: ainda criança, viu a pacata cidade onde nasceu, num planeta sem muita importância, ser pilhada e arrasada por um exército de piratas espaciais comandados por cinco homens cujos nomes causam calafrios em qualquer canto da parte habitada da galáxia, homens que, pela crueldade de seus atos de pirataria, ficaram conhecidos como os Príncipes-Demônios. Os habitantes da cidade que não foram assassinados, foram levados para serem vendidos como escravos (sim, o comércio de escravos é um negócio que prospera no assim chamado Além-Espaço, onde as leis que regem a vida na Terra e nos outros mundos civilizados não alcançam). No meio do punhado de cidadãos que escaparam, encontram-se o pequeno Kirth e seu avô, tudo o que sobrou de uma outrora extensa família. O velho Rolf Gersen trata então de preparar o neto para ir em busca de vingança. Kirth é treinado não apenas em todo tipo de habilidade de combate armado e desarmado, mas também em técnicas de investigação e em toda a gama de conhecimentos necessários para mover-se com desenvoltura pelos inúmeros mundos habitados por seres humanos.

E estes (tanto os mundos quanto os seres humanos) são de uma variedade infindável. Fala-se pouco em raças alienígenas inteligentes na Saga dos Príncipes-Demônios, mas, depois de adquirir alguma familiaridade com a obra, o leitor percebe que isso nem é necessário, tão grande é a diversidade cultural que Jack Vance atribui aos habitantes humanos dos diferentes sistemas estelares. Afastados da Terra de onde vieram seus ancestrais, esses povos desenvolveram identidades próprias, tão exóticas e surpreendentes quanto poderia ser a de qualquer raça alienígena. Só para começar, na própria Terra e nos planetas que lhe são mais chegados, a moda nessa época é tingir a pele - as pessoas se pintam de verde, azul, preto, laranja ou de qualquer cor que lhes venha à cabeça. Os poucos que não têm o hábito, como Gersen, são vistos como esquisitos. Há planetas onde o maior medo das pessoas é que estranhos lhes conheçam o rosto, de modo que usam máscaras durante a vida toda. Planetas onde a riqueza e o prestígio de um homem são medidos pela suntuosidade do túmulo que ele constrói para si próprio (bem, isso até tem antecedentes na História antiga da Terra, mas deixem pra lá). O famigerado planeta Sarkoy, cujos habitantes se orgulham de serem mestres absolutos na arte de fabricar e usar venenos - e de proteger-se deles. E por aí afora. O universo de Jack Vance é o sonho de qualquer antropólogo.

Os cinco Príncipes-Demônios - Attel Malagate, Kokor Hekkus, Lens Larque, Viole Falushe e Howard Alan Treesong - são tão diferentes entre si quanto poderiam ser. Cada um deles possui uma característica distintiva: Kokor Hekkus é inventivo e inquieto, apaixonado por máquinas complicadas; Lens Larque é um megalomaníaco; Viole Falushe tende aos vícios sensuais; Howard Alan Treesong é um gerador de caos (não me perguntem o que isso significa na prática), e Attel Malagate, cognominado "o Maldito", é frio e inflexível, desprovido de qualquer emoção. Juntando uma peça aqui e outra ali ao longo de anos de investigações, Gersen descobre que Malagate não é inumano apenas por conta de sua conduta: é inumano também na origem, pois pertence a uma estranha raça reptiliana, originária de um planeta da estrela Lambda Grus, da constelação do Grou. Esses seres intitulam-se imodestamente de "Reis das Estrelas", nome que os próprios humanos acabaram adotando por convenção. O detalhe assustador a respeito dos Reis das Estrelas é que eles não se parecem com qualquer dos inúmeros répteis inteligentes que estamos acostumados a ver em filmes, livros ou quadrinhos de ficção científica: não são escamosos nem têm pupilas verticais, muito menos cauda ou garras. Por um singular capricho da natureza, evoluíram de modo a tornarem-se externamente idênticos aos seres humanos, impossíveis de distinguir com um mero exame visual. Sim, sei o que estão pensando, mas a verdade é que a capa que o livro recebeu no Brasil, apesar de belíssima e climática, pura sci-fi art, tem o defeito de causar no leitor uma ideia errada e persistente da aparência que os Star Kings deveriam ter. Imaginem-nos com aparência humana, ponto.

Agora com 34 anos, Gersen fez aparentemente pouco progresso na missão para a qual foi preparado desde a infância, mas, absolutamente meticuloso e paciente que é, sabe que os poucos indícios que conseguiu reunir têm grande importância, pois servir-lhe-ão de ponto de partida - por muito tempo, ele não teve nem isso. É quando a sorte decide favorecê-lo: Gersen está descansando numa estalagem num pequeno planeta do Além-Espaço quando conhece um sujeito que se apresenta como Lugo Teehalt, demarcador - o que parece ser o jargão técnico para alguém que vasculha o espaço profundo e investiga mundos inexplorados, seja de forma independente, ou a mando de outrem, ou patrocinado por alguma instituição, a ver se descobre algo de interessante ou de rentável. E Teehalt descobriu um belo e idílico planeta cheio de montanhas, florestas e água, com um ar límpido e formas de vida fascinantes, pelo qual se viu imediatamente seduzido e subjugado. Infelizmente, Teehalt está demarcando para Malagate, com cujos representantes assinou um contrato: deveria, em tese, entregar a seu empregador a localização do planeta, o que se recusa a fazer, já que Malagate corromperia o belo mundo transformando-o numa colônia de férias para os chefões interestelares do crime.

Teehalt, previsivelmente, acaba assassinado quase diante dos olhos de Gersen, mas os homens de Attel Malagate cometem um erro fatal: levam por engano a nave de Gersen, que, por acaso, estava agindo sob o disfarce de demarcador a fim de não levantar suspeita sobre suas investigações, e deixam a de Teehalt. Dessa forma, Gersen se vê de posse do monitor que guarda a localização do misterioso planeta - a melhor isca que poderia querer, pois agora Malagate certamente virá atrás dele.

Assim tem início um intrincado e perigosíssimo jogo de xadrez entre dois cérebros extraordinários. Gersen tem de prever os movimentos de Malagate e, ao mesmo tempo, levar em conta o fato de que ele também estará tentando prever os seus, pois o Rei das Estrelas sem dúvida terá rapidamente percebido estar lidando com um indivíduo muito astuto. Gersen leva aos extremos a velha máxima que diz que a vingança é um prato que se come frio: cada ato que executa é calculado; não tem pressa e não é movido pelo ódio. Como ele explica a outro personagem num dos livros seguintes da saga, seu avô era quem sentia a raiva e o ódio, e foi por isso que o preparou para ser o agente da vingança, embora soubesse que não viveria o suficiente para ver essa vingança consumar-se.

Disse acima que Kirth Gersen é um dos personagens mais fascinantes da ficção científica, e a razão disso é a dualidade que existe nele: por baixo da casca de homem frio e totalmente racional que construiu ao redor de si próprio com a ajuda do avô, nota-se que seu verdadeiro espírito tem uma natureza romântica, arrebatada e idealista, bem como uma tendência algo mística a acreditar que o destino o levará a cumprir sua missão com êxito, embora tudo pareça apontar que são remotas as possibilidades de que consiga eliminar sequer um dos Príncipes-Demônios, que dirá então todos os cinco. Noventa por cento do tempo, ele age racionalmente; uma vez ou outra, rende-se ao seu gênio, para geralmente arrepender-se logo em seguida. Um personagem e tanto.

Star King é escrito de uma forma peculiar, que se tornaria uma marca registrada da Saga dos Príncipes-Demônios: é como se fossem dois livros em um. Cada capítulo começa com uma longa epígrafe revelando detalhes sobre o universo por onde transita Kirth Gersen; os textos consistem em trechos de manuais sobre os planetas, trechos de livros de História, declarações à imprensa feitas por personalidades de destaque sobre assuntos relevantes para esse universo, e assim por diante - naturalmente, tudo fictício, saído da cabeça incrivelmente imaginosa de Jack Vance. Terminada a epígrafe, tem início a ação propriamente dita do capítulo. Essa estrutura é uma ideia inovadora e brilhante, que permite ao leitor uma imersão sem igual no ambiente da história. Porém, verdade seja dita, o sistema ainda precisava de um certo polimento: talvez por ser este o primeiro livro onde o empregou, parece que o autor ainda estava aperfeiçoando um certo pulo-do-gato para fazer com que a coisa funcionasse. Enquanto certos trechos das epígrafes deste primeiro volume da saga trazem informações fascinantes e vitais para entendermos o universo do autor, outros são bastante indigestos e sem muito propósito. Para crédito de Vance, deve-se observar que as epígrafes presentes nos dois volumes seguintes, A Máquina de Matar e O Palácio do Amor, mostram-se bem menos pretensiosas, mais acessíveis e agradáveis.

Por falar nisso, até onde sei, infelizmente apenas esses três primeiros volumes da Saga dos Príncipes-Demônios existem em português; todos foram publicados pela Francisco Alves ao longo da década de 80, e existe também uma edição de bolso do segundo volume pela Europa-América, de Portugal, com o título A Máquina Assassina. Esse narra a caçada de Gersen ao segundo Príncipe-Demônio, Kokor Hekkus, enquanto O Palácio do Amor trata do terceiro, Viole Falushe. Todos podem ser lidos independentemente uns dos outros, mas o leitor que optar por seguir a saga acumulará informações que lhe permitirão apreciar melhor cada volume. E, com a ressalva do parágrafo anterior, qualquer livro de Jack Vance pode ser entusiasticamente recomendado aos apreciadores da boa ficção científica.