terça-feira, dezembro 30, 2008

Hellboy - o Exército Dourado

Nunca li as histórias em quadrinhos de Hellboy, mas vi o primeiro filme do personagem, lançado em 2004, e o fato é que gostei, de modo que, ao ter notícia de que estava saindo do forno o segundo episódio, registrei logo na minha agenda a intenção de vê-lo. Ainda mais curioso fiquei ao saber que quem assinava a direção era o mexicano Guillermo del Toro, responsável por A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006), duas extraordinárias produções espanholas que apostam no bizarro e na fantasia inseridos em cenários realistas - não chegaria a classificá-los de "cinema alternativo", mas é uma surpresa que o diretor de ambos seja versátil ao ponto de também assumir a frente de produções hollywoodianas de aventura. Soube também que Del Toro já havia dirigido o primeiro Hellboy, fato esse no qual não me liguei quando o vi.


Nesse segundo filme, o excelente Ron Perlman (o monge corcunda de O Nome da Rosa e um dos guerreiros pré-históricos de A Guerra do Fogo) volta ao papel do herói Hellboy, ou "Anung un Rama", seu nome verdadeiro. Sua origem, mostrada no primeiro filme, é como segue: nos dias da Segunda Guerra Mundial, um grupo de ocultistas a serviço da Alemanha nazista (Hitler realmente tinha um enorme interesse por ocultismo, ao ponto de ter assessores exclusivamente dedicados a pesquisar esse campo) realiza um ritual que abre uma brecha entre a Terra e o inferno, esperando conseguir um poder que garanta sua vitória na guerra. Uma missão dos Aliados chega a tempo de impedir que o processo se complete, mas "algo" escapa de lá para cá: um "demônio-bebê" de pele vermelha, chifres, cauda longa, e cuja mão direita, gigantesca, é feita de pedra. A bizarra criaturinha ganha dos soldados o apelido de Hellboy (o "Garoto do Inferno"), é adotada por um dos integrantes da missão, o cientista Trevor Broom, e educada como uma criança humana.

Sendo um demônio, Hellboy naturalmente não envelhece no mesmo ritmo que um ser humano, de modo que atinge o apogeu de sua força cerca de 60 anos depois de vir parar na Terra - ou seja, mais ou menos nos dias de hoje. Por esse tempo, virou um gigante de bem mais de dois metros de altura (a enorme mão de pedra finalmente tornou-se proporcional ao resto), força e resistência prodigiosas, apetite insaciável e coração de ouro: adora crianças, animais, e seu senso moral é o de um escoteiro. Integra o "grupo de choque" do Departamento de Defesa e Pesquisa Paranormal, que se dedica a combater ameaças sobrenaturais, sob a coordenação de seu pai adotivo, o Prof. Broom, e tendo como companheiros a namorada, a pirocinética Liz Sherman (Selma Blair - ver os dois lado a lado lembra irresistivelmente o conto de fadas A Bela e a Fera) e o melhor amigo, o homem-peixe Abraham "Abe" Sapien (Doug Jones).

O segundo filme começa com um flash de uma história lida pelo Prof. Broom para Hellboy quando este ainda era criança - a história de uma guerra entre os seres humanos e as criaturas mágicas, lideradas pelo rei elfo Balor, e que teria tido lugar muitos séculos atrás. Por encomenda do rei, um mestre-ferreiro goblin construiu um exército de golems (algo como robôs animados por magia ao invés de eletrônica), 70 vezes 70 guerreiros dourados gigantescos e indestrutíveis, impossíveis de serem detidos. Sob as ordens de Balor, o Exército Dourado causou tamanha carnificina entre os humanos, que a guerra parou: os homens estavam demasiado aterrorizados, e o rei elfo, por demais arrependido. Celebraram então um acordo, pelo qual os homens ficariam com as cidades, e os elfos e demais seres mágicos, com as florestas. Balor fez uma coroa mágica e a dividiu em três partes, guardando duas e dando uma aos humanos como penhor da trégua: só com a coroa completa seria possível comandar o Exército Dourado, que, até ser novamente chamado, ficaria dormindo sob a terra. Contudo, o filho do rei, o príncipe Nuada Lança-de-Prata, não aceitou isso, porque não confiava nos humanos, e partiu para o exílio, jurando voltar no dia em que seu povo mais precisasse.

E aparentemente, Nuada (Luke Goss) é de opinião que esse dia chegou, pois agora, em nossa época, ele está de volta e disposto a fazer o que for preciso para reunir as três partes da coroa, e a última coisa com que se importa é quantos humanos terá de matar para isso - pois afinal, se conseguir seu objetivo, será mesmo para varrer de uma vez por todas nossa espécie da face do planeta. O pior é que não podemos deixar de dar certa dose de razão ao príncipe elfo: "Os humanos esqueceram os deuses, destruíram a terra, e para quê? Estacionamentos, centros comerciais! A ambição criou um vazio no coração deles que nunca será preenchido. Eles nunca terão o bastante! (...) Eu voltei do exílio para começar uma guerra, e reclamar a nossa terra, nosso direito!" Nuada, sob um certo ponto de vista, tem motivações justas, que lhe conferem algum grau de complexidade e o fazem, de longe, o personagem mais interessante do filme: não há nada pior que um vilão que só está ali porque toda história precisa de um vilão, mesmo que seja um que de vez em quando dá uma olhadinha para a câmera e diz: "Hehehe... Como eu sou mau!" Graças a Nuada, Hellboy II está livre de pagar esse mico.



E, claro, para fazer o que pretende, o príncipe terá que enfrentar o pessoal do Departamento, sendo que, desta vez, Hellboy, Liz e Abe contam com o reforço do Dr. Johann Krauss, um homem cujo corpo foi totalmente destruído, restando um ser feito exclusivamente de ectoplasma, o material hipotético de que seriam feitos os fantasmas. Não há surpresas da parte do grupo de heróis, a menos que se considere o que acontece com Abe, o homem-peixe de fala calma e gestos comedidos, cultíssimo, apreciador de literatura e música clássica, que sempre foi o cérebro da equipe, enquanto seu amigo Hellboy responde pelos músculos. Apaixonado pela princesa Nuala (Anna Walton), irmã do vilão, Abe se vê as voltas com sentimentos desconhecidos, que o levam a agir de maneiras que teria considerado inimagináveis em qualquer outra situação. Por conta disso, algumas cenas são bem engraçadas, e outras, dramáticas, embora de uma maneira manjadíssima.

No mais, é interessante assistir a este filme tendo em mente quem é o diretor, quando já se conhece e admira o trabalho de Del Toro. Ele também assina o roteiro, em parceria com Mike Mignola, veterano argumentista de quadrinhos e criador de Hellboy. O enredo, envolvendo a interação entre a humanidade e um mundo oculto habitado por criaturas fantásticas, faz lembrar O Labirinto do Fauno, assim como o visual das cenas em que esse mundo é mostrado - dando-se um desconto para o fato de que, aqui, Del Toro conta com a tecnologia mirabolante a serviço da indústria norte-americana do cinema, enquanto no outro filme teve de se virar com um aparato bem mais modesto, e eu não chegaria a considerar esse up tecnológico uma vantagem: quando se quer mostrar criaturas fabulosas na tela, um excessivo realismo turbinado por programas de computador de última geração é antes prejudicial que benéfico. Afinal, uma criatura fantástica deveria ter um visual ligeiramente irreal. Por conta disso, o Fauno de O Labirinto... continua a me agradar muito mais que qualquer dos seres esdrúxulos que Hellboy, Abe e o Dr. Krauss encontram no Mercado Troll, numa das cenas mais extravagantes do filme.

Por mais que pareça (e, no fundo, seja) um mero filme-pipoca, sem outras ambições além de dar lucro nas bilheterias e oferecer ao espectador duas horas de diversão adrenal, Hellboy toca num ponto interessante, ao negar de forma absoluta a crença no determinismo - que, para quem não sabe, é a noção, muito difundida entre as elites intelectuais dos séculos XVIII e XIX, de que cada pessoa é exatamente aquilo que nasceu para ser, e, não importa o que aconteça, nunca será nada diferente disso. Um exemplo clássico é o romance Oliver Twist, de Charles Dickens, onde o garoto Oliver continua bom, educado e honesto, apesar de ter crescido num orfanato, exposto a tratamento desumano, e depois vivido vários meses entre ladrões e todo tipo de pilantras: a crença de Dickens era a mais aceita na época, a de que ser uma pessoa decente (ou um bandido nato) está nos genes, ou no "sangue", como se dizia então. Ou seja, o homem não seria um produto do meio, mas tão somente da genética, o que tornaria a educação, em princípio, algo bem pouco importante. Hellboy ilustra a crença contrária: a de que até mesmo um demônio, um criatura do puro mal, gerada com o único objetivo de disseminar o caos e a perversidade, pode tornar-se bom, se for educado para o bem.

Observação de última hora: acaba de chegar às locadoras o filme O Orfanato, produção espanhola dirigida por J.A. Bayona e onde Del Toro participa como produtor executivo, além de (e talvez isso seja o mais importante) emprestar seu nome para a divulgação, pois a primeira coisa que aparece nos créditos iniciais é Guillermo del Toro presenta..., o que certamente atrairá um punhado de espectadores já familiarizados com seu nome e admiradores de suas brilhantes bizarrices. Sinal de que o cara não abandonou de vez suas raízes e ainda podemos esperar mais novidades suas no campo do cinema fantástico não-Hollywood. Gostei de saber disso.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Construtores de Continentes

“O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos um mínimo de auto-estima.” (Nelson Rodrigues)

Em primeiro lugar, não, eu não sou fã de Nelson Rodrigues. Concordo que todo escritor que tenha a pretensão de dar alguma profundidade ao que escreve não pode furtar-se, por vezes, a ter de retratar as torpezas e o mal inerente aos seres humanos, mas tenho para mim que isso deve ser feito quando necessário. No meu entender, um escritor que escolhe sempre e deliberadamente como tema o que existe de pior na humanidade, não está contribuindo para criar nada de bom, e não terá a minha admiração. Excesso de idealismo? Talvez; podem chamar do que quiserem.

Mas, mesmo não simpatizando com o dramaturgo carioca, não vou tirar os méritos que ele tenha, e um deles é o de ter forjado um punhado de frases certeiras e perfeitas sobre vários assuntos. A que escolhi para abrir este artigo é minha preferida, e tem a ver com meu tema.

Dias atrás, visitando a Feira do Livro de Porto Alegre, tive a grata surpresa de encontrar numa caixa de saldos o livro Construtores de Continentes, do autor norte-americano L. Sprague de Camp, que já havia lido nos meus saudosos 14 ou 15 anos, época do meu maior furor no que se referia à ficção científica. Batido pela nostalgia, comprei o livro por um valor simbólico qualquer e, no trem mesmo, durante a viagem de volta para São Leopoldo, comecei a relê-lo, experimentando uma sensação muito semelhante à de reencontrar um velho amigo.

Dá um certo desespero perceber que, não bastasse o fato de que não viverei o suficiente para ler todos os livros que gostaria (e ver todos os filmes, estudar todos os assuntos, visitar todos os lugares...), ainda há esse outro fato: o de que muitos livros, dentre os que já li, mereceriam, se fosse possível, uma segunda leitura, à luz de tudo o que aprendi e vivi desde meu primeiro contato com eles. É o caso de Construtores de Continentes, pois a nova leitura me levou a pensar coisas que não ocorreram ao garoto que eu era 20 anos atrás.

Lyon Sprague de Camp (1907-2000) foi o que poderíamos chamar de escritor polivalente, pois, além de ficção científica, escreveu fantasia, romance histórico, mistérios, poesia e sabe Deus o que mais. Foi um nome importante durante a Era de Ouro da ficção científica, e amigo pessoal de vários outros autores famosos, entre eles Isaac Asimov, que, aliás, prefaciou este livro. Construtores de Continentes não é um romance - inclui duas novelas independentes entre si, embora ambientadas no mesmo futuro imaginário. A primeira passa-se em 2137, chama-se Moto-contínuo, e narra as aventuras de Felix Borel, um trambiqueiro profissional que decide tentar a sorte em Krishna, um planeta de descoberta relativamente recente, habitado por uma raça espantosamente semelhante aos terráqueos, só que com algumas características insectóides, e com um nível tecnológico pouco mais que medieval. Justamente por terem, até então, convivido pouco com os terráqueos, os krishnianos ainda são passíveis de serem enganados por golpes em que, na Terra, ninguém mais cai há muito tempo - ou seja, o planeta é um paraíso para trapaceiros como Borel, que, no entanto, vai descobrir, às suas próprias custas, que nada é tão fácil quanto parece.

A segunda novela, que dá título ao livro, começa em 2153 e fala sobre um projeto que está sendo implementado para criar um novo continente no Atlântico, entre a América do Sul e a África. Por meio de engenharia tectônica, os cientistas e técnicos do século XXII esperam aumentar o espaço vital disponível para a humanidade na Terra, independentemente da eventual migração para outros planetas.

Agora é que chegamos ao ponto verdadeiramente importante... Por mais interessantes que sejam os enredos dessas duas histórias, não são elas que mais chamam a atenção dos leitores brasileiros, e sim um "detalhe" do pano-de-fundo: no futuro imaginado por De Camp, os Estados Unidos decaíram de sua posição de liderança mundial, que passou a ser exercida por uma nova superpotência... Imaginam qual? Sim, meus amigos, o Brasil.

Ao contrário de muitos outros escritores (e dos norte-americanos em geral), De Camp realmente conhecia alguma coisa sobre o Brasil - no texto original em inglês apareciam diversas palavras em português, que o tradutor teve a boa idéia de assinalar para nossa referência. O departamento de abrangência mundial que cuida das idas e vindas dos viajantes espaciais chama-se Viagens Interplanetárias - assim mesmo, em português, porque a coisa toda é controlada e administrada por brasileiros. De Camp não teria incluído isso em seus livros se não acreditasse pelo menos na possibilidade de tais coisas - e ele era norte-americano... E nós, que somos brasileiros? Nós acreditamos que possamos chegar lá??

É difícil dizer até que ponto o nosso povo criou o autoconceito que tem, e até que ponto simplesmente comprou a imagem de si mesmo que é vendida pelos "gringos", mas o que se observa é que o brasileiro, quase sempre, acredita que sua função no mundo é simplesmente a de ser o cara alegre, hospitaleiro e "caloroso", e que a vocação do Brasil é a de um "país-colônia de férias", para onde americanos, europeus, japoneses e demais habitantes do "Primeiro Mundo" vêm quando querem praia, sol e festa - porque, tanto na visão desses estrangeiros quanto, infelizmente, na dos próprios brasileiros, tudo o que o nosso país tem para oferecer são praia, sol e festa! Tem sido assim por tanto tempo, que é difícil para a maioria dos brasileiros encarar a possibilidade de fazerem parte de algo sério e importante, ou de que seu país possa um dia ocupar uma posição de destaque no cenário mundial. Pois isso exigiria um esforço sério e comprometido, cujos resultados só seriam visíveis a longo prazo, e, ainda mais importante, exigiria que acreditássemos ser capazes. Seria necessário que víssemos em nós mesmos força de vontade e inteligência (qualidades que, infelizmente, não estamos acostumados a associar ao nosso próprio povo como um todo), e capacidade latente para fazer mais do que apenas organizar o maior carnaval do mundo. Quero muito acreditar que, se não a nossa geração, a de nossos filhos ou netos há de acordar desse torpor de séculos e se dar conta de que tudo o que qualquer outro povo foi (ou será) capaz de realizar, também está ao nosso alcance, desde que queiramos e acreditemos.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Pinceladas clássicas

Houve tempos em que a cultura geral era vista como um dos componentes mais importantes da bagagem de conhecimento de uma pessoa. Não fazia diferença se você estivesse estudando para ser um advogado, médico, engenheiro, administrador... Era considerado indispensável ter algum conhecimento de História, literatura, mitologia e campos afins, porque não era concebível que uma pessoa que se pretendia instruída não soubesse ao menos o básico sobre as raízes culturais de nossa civilização e suas grandes realizações. Isso foi antes da era da especialização, cujos amargos frutos a atual geração está colhendo: a sociedade incentiva cada um a se aperfeiçoar em sua própria profissão e ignorar o resto do universo. Não estou dizendo que a especialização seja ruim em si mesma, mas ela pode estimular a fragmentação do conhecimento - e esta, sim, é uma praga em todos os sentidos, um poderoso agente perpetuador da ignorância.

No tempo em que um pouco de conhecimento clássico era considerado parte essencial do cabedal de qualquer pessoa que tivesse atingido um determinado grau de instrução, expressões como estas abaixo eram usadas, não largamente, mas com uma certa freqüência, em situações as mais diversas: um discurso numa festa, uma defesa judicial, um artigo que se enviava para a página de "opinião do leitor" num jornal... As pessoas podiam usá-las porque tinham cultura para tanto, e também porque podiam ter confiança de que seus ouvintes ou leitores as compreenderiam. Hoje, com exceção de um punhado das mais populares ("força hercúlea", "presente de grego", "agradar a gregos e troianos"), essas figuras de linguagem estão em extinção, o que eu acho realmente uma pena - elas deixavam mais interessantes uma série de situações cotidianas. Como um exercício agradável, fiz um pequeno apanhado de algumas delas, com a explicitação de seus significados. Ordenei-as numa seqüência temporal dos eventos que deram origem a cada uma, dos mais antigos para os mais recentes.

1. O leito de Procusto: Damastes era um salteador de estrada que aterrorizava os arredores da cidade grega de Elêusis. Entediado de apenas roubar e matar, igual a todos os outros bandidos, ele inventou uma variação: quando um viajante lhe caía vivo nas mãos, era amarrado ao seu leito de ferro e "adaptado" ao tamanho deste: os mais altos tinham um pedaço das pernas cortado, enquanto os mais baixos eram violentamente esticados com cordas até ficarem do comprimento do leito. Isso valeu a Damastes o apelido de Procusto ("o Estirador"). Essa revoltante diversão terminou com a chegada do herói Teseu, que deu um fim ao bandido infligindo-lhe o mesmo tratamento que ele dera a tantos infelizes. Em lembrança a essa lenda, a expressão "leito de Procusto" designa algum padrão rígido e arbitrário no qual todos são forçados a se enquadrar.

2. O pomo da discórdia: Conta-se que, por ocasião do casamento do herói Peleu e da nereida Tétis (que viriam a ser os pais do célebre Aquiles), todos os deuses haviam sido convidados, exceto Éris, a Discórdia, que foi deixada fora da lista justamente para evitar brigas na festa. Não adiantou: despeitada por não ter sido convidada, Éris apareceu na festa, jogou uma maçã ("pomo") de ouro entre as deusas, e desapareceu, sem dizer uma palavra. No pomo estava gravada uma frase: "À mais bela". Foi o suficiente. Imediatamente três das principais deusas começaram a reclamar o prêmio: Hera, esposa do deus supremo, Zeus; Atena, filha de Zeus e deusa da sabedoria; e Afrodite, também filha de Zeus, deusa do amor. O papel de juiz coube ao pastor Páris, na verdade filho de Príamo, rei de Tróia, que deu a vitória a Afrodite - mas não fazia muita diferença, pois, qualquer das três que escolhesse, ele ganharia a inimizade mortal das outras duas, como de fato aconteceu. A expressão "pomo da discórdia" pode significar qualquer coisa, concreta ou abstrata, que cause disputas acirradas. Uma observação: essa história, como se viu, apresenta Páris já adulto numa época em que Aquiles ainda não havia nascido, enquanto outros episódios da saga da Guerra de Tróia sugerem que a diferença de idade entre os dois não era maior do que alguns anos. Discrepâncias cronológicas são comuns em ciclos lendários, já que eles aglutinam uma série de histórias que, na origem, eram independentes umas das outras.


3. O calcanhar de Aquiles: Esta é outra daquelas expressões de origem clássica que deverão sobreviver, pois é de uso tão comum que acaba por se auto-alimentar: muita gente a conhece e usa, mesmo sem saber quem foi Aquiles. Como vimos, o tal cara era filho de Peleu, rei da Tessália e famoso herói, e da ninfa marinha Tétis. Conta-se que esta última, desejando fazer o filho imortal, mergulhou o bebê no rio Estige, o que o tornou invulnerável - com exceção do fatídico calcanhar, por onde a mãe o estava segurando e que, por isso, não foi tocado pela água milagrosa. Adulto, Aquiles veio a ser o maior guerreiro grego e fez de seu nome uma lenda durante a Guerra de Tróia. Eventualmente, ele se apaixonou por Polixena, uma das filhas do rei Príamo, e, para poder desposá-la, ofereceu-se para usar sua influência entre os gregos para conseguir que se estabelecessem negociações de paz. Então, durante uma reunião de negociação (0u, segundo outros, já em seu casamento), Aquiles foi ferido no calcanhar, seu único ponto vulnerável, por uma flecha envenenada atirada por Páris - que era covarde, mas ótimo arqueiro - e morreu. Claro que isso pôs fim às esperanças de paz: a guerra foi retomada e, ao fim de mais um ano, Tróia caiu. "Calcanhar de Aquiles", como a história deixa óbvio, significa, simplesmente, um ponto fraco em alguém ou alguma coisa. O curioso nisso tudo é que o detalhe da invulnerabilidade de Aquiles é criação de algum poeta anônimo em um período já relativamente tardio da História grega, pois é em vão que se procurará por qualquer menção a ela na Ilíada de Homero. O Aquiles de Homero usa uma armadura (quase um canto inteiro do poema é dedicado a narrar sua forjadura pelo deus Hefestos) e chega a sofrer um ligeiro ferimento em combate.

4. A teia de Penélope: Alguns anos após chegar a notícia de que a Guerra de Tróia havia acabado, Ulisses (ou Odisseu), rei da ilha grega de Ítaca, ainda não havia retornado à sua terra, nem havia qualquer notícia sobre seu paradeiro. Muitos já o davam como morto, acreditando que tivesse perecido no mar durante a viagem de volta. A rainha Penélope, porém, mantinha a esperança de ver o marido retornar, e por isso recusava obstinadamente as propostas de casamento que recebia de diversos nobres da ilha - todos de olho no trono. Conforme o tempo passava, a pressão para que escolhesse um novo marido aumentou, e a rainha arquitetou uma artimanha: anunciou que faria sua escolha depois que terminasse de tecer a mortalha de seu sogro, Laertes (será que era normal, naquela época, tecer mortalhas para pessoas vivas?). E, para ganhar mais tempo, ela desmanchava à noite a parte tecida durante o dia. Uma "teia de Penélope", então, é aquele trabalho que está sempre sendo feito, mas nunca é concluído.

5. Vitória de Pirro: Pirro do Épiro foi coroado rei da Macedônia em 287 a.C. Além de ter sobre os ombros o pesado encargo de governar um reino e comandar um exército que ainda sonhavam com a figura semidivina de Alexandre, ele também teve de se preocupar com a ameaça representada por certa cidade italiana que, até então pouco importante, estava agora procurando se impor como uma nova potência na bacia do Mediterrâneo: Roma. Bom estrategista e contando com uma arma secreta - elefantes de guerra e arqueiros treinados para atirar do alto do lombo dos paquidermes -, Pirro venceu os romanos por duas vezes no campo de batalha. Porém, mesmo na derrota, as destemidas legiões romanas nunca deixavam de mostrar ao inimigo de que matéria eram feitas: essas vitórias custaram tantas baixas, que o rei teria declarado: "Mais uma vitória como essas duas, e nós, os vencedores, é que teremos que oferecer nossa rendição aos vencidos!" Daí surgiu a expressão "vitória de Pirro", que significa uma vitória obtida a um custo excessivamente alto, ao ponto de não valer a pena.

6. Paz cartaginesa: Outros, além de Pirro do Épiro, desafiaram Roma quando esta ainda era uma potência "emergente", como diríamos hoje. Destes, a mais digna de nota, e a que mais perto chegou de obter a vitória, foi sem dúvida Cartago, cidade de origem fenícia situada no norte da África, e que, já independente de qualquer obrigação para com os reinos fenícios do leste, enriqueceu muito graças ao comércio marítimo no Mediterrâneo. Roma e Cartago eram, portanto, duas cidades poderosas, procurando ampliar suas esferas de influência numa mesma região. O resultado não surpreendeu: as duas entraram em choque, e não foi uma vez só. As assim chamadas Guerras Púnicas duraram de 264 a 241, de 218 a 201 e de 149 a 146 a.C. Do ponto de vista militar, os romanos, formidáveis num combate de infantaria, eram medíocres como marinheiros - já com os cartagineses, a recíproca era verdadeira. Isso criava um certo equilíbrio que pode explicar a longa duração das duas primeiras guerras. No entanto, e apesar de Cartago ter produzido dois dos mais brilhantes generais da Antigüidade - Amílcar Barca na Primeira Guerra Púnica, e seu filho, Aníbal, na Segunda - ambas terminaram com vitórias romanas. E, fosse pela falta de outro comandante do mesmo calibre, ou porque Roma evoluíra muito em matéria militar no período após a Segunda Guerra Púnica, o fato é que a Terceira foi breve e decisiva. No verão de 146 a.C., os romanos finalmente tomaram Cartago. Todos os homens foram mortos; mulheres e crianças, escravizadas. Os vencedores foram metódicos em se certificar de que nenhuma pedra ficasse sobre outra na cidade, e depois espalharam sal sobre os destroços e em volta deles, para que nem capim crescesse mais ali. Brutal? Sem dúvida, mas, se Cartago tivesse saído vitoriosa, Roma teria tido o mesmo destino. A verdade é que ambos os lados sofreram o diabo nessas guerras, e qualquer um que vencesse no final iria querer ter a certeza de ter-se livrado do outro de uma vez por todas. Desse sangrento episódio ficou a expressão "paz cartaginesa", que significa a paz obtida mediante a completa aniquilação do inimigo.

terça-feira, abril 15, 2008

Literatura Fantástica

"Trust the tale, not the teller!" (D.H. Lawrence)

Esta tarde passei duas horas muito agradáveis participando da aula inaugural da oficina literária O Fantástico no Conto, ministrada por Maurício Chemello, mestre em Letras, na livraria/café Letras & Cia (Av. Osvaldo Aranha, 444). Adoraria poder participar de todos os encontros, que acontecerão até fins de junho, sempre às terças-feiras, mas, infelizmente, trabalho no interior e geralmente fico de segunda a sexta-feira longe de Porto Alegre. Pude estar presente à aula inaugural (aberta a todos os interessados, sem necessidade de inscrição) por estar de férias no momento. Ao me despedir do Maurício, sugeri que promova uma oficina aos fins de semana, o que seria ótimo para diversas pessoas que gostariam de participar e têm o mesmo problema que eu.

Sendo eu um graduado em Letras, não sou estranho à nomenclatura particular da Teoria Literária, mas, como, na faculdade, o currículo dedicava pouquíssimo espaço à literatura fantástica, saí desta aula com algumas noções novas. Aprendi, por exemplo, que o que comumente chamamos de literatura de fantasia (exemplo: todas as sagas heróicas ambientadas em mundos próprios e/ou envolvendo seres imaginários) é conhecido, dentro da Teoria Literária, como realismo mágico. Imagino que a palavra realismo, aí, aponte para o fato de que essas histórias descrevem uma determinada realidade - não a nossa, mas uma realidade - onde as coisas acontecem de modo a serem coerentes com a lógica interna desse universo próprio. Já o conto fantástico, assunto propriamente dito da oficina, é aquela história que, em princípio, retrata a realidade cotidiana - onde o autor introduz algum elemento incomum, inusitado, inesperado, que vai contra a ordem "normal" das coisas, podendo, ou não, ter caráter sobrenatural. Forçando um pouco (não muito) essa definição, poderíamos até dizer que todo conto é fantástico!... Pois toda história, para existir, precisa envolver um conflito - algo que perturba o andamento da vida cotidiana -, sendo que o enredo falará basicamente das ações dos personagens com o objetivo de restabelecer o equilíbrio. Isso se aplica tanto a Os Três Porquinhos como a Guerra e Paz; é um princípio universal. Daí temos que, se for para escrever uma história apenas narrando fatos comuns do dia-a-dia, onde nada de diferente acontece, melhor não escrevê-la. Por outro lado, se, em meio ao cotidiano, destaca-se um fato qualquer digno de ser narrado, isso não encaixa a história na definição acima? Pois!...

Claro que sabemos que não é bem assim, mas não dá pra resistir a fazer um pouco de "terrorismo" contra aquelas criaturas cansativas que gostam de torcer o nariz para livros, filmes, etc., dizendo que são "inverossímeis", como se isso fosse um defeito...

Como "tema" para a próxima aula, da qual, infelizmente, já não poderei participar, o Maurício nos recomendou ler a coletânea de contos O Livro de Areia, do argentino Jorge Luís Borges, um grande autor do conto fantástico e também ensaísta, que vem a ser um dos (inúmeros) escritores com os quais já estou há muito tempo devendo a mim mesmo um contato mais aprofundado. Mesmo não podendo seguir a oficina, pretendo fazer o tema: depois escrevo aqui sobre o livro.

Para pensar: cá entre nós: para que a literatura (ou, se pensarmos bem, todas as artes) serviria, se nada mais pudesse fazer do que copiar a realidade?

terça-feira, janeiro 29, 2008

Eu, Robô

Isaac Asimov nasceu em Petrovich, na então União Soviética, em 02 de janeiro de 1920, e faleceu em Nova York, onde morava, em 06 de abril de 1992. Entre uma coisa e outra, teve tempo de ser um dos mais prolíficos e admirados escritores norte-americanos do século XX (pois, apesar de nascido na Rússia, mudou-se com a família para os Estados Unidos aos três anos de idade, e sempre se considerou um cidadão americano). Desde pequeno foi um leitor voraz, e, graças à leitura das revistas de ficção científica mais populares da época, desenvolveu também o entusiasmo pela ciência. Formou-se em Bioquímica na Universidade de Columbia, onde mais tarde também lecionou. Porém, fizesse o que fizesse, nunca deixou de escrever.

Tenho uma longa história com o livro Eu, Robô. Li pela primeira vez aos 12 anos, e ele foi um dos grandes responsáveis por me tornar um fã de ficção científica, o que fui durante muitos anos - e ainda sou, embora hoje em dia tenha tantos outros interesses no campo da leitura, que tornou-se um tanto raro pegar um livro do gênero. O livro reúne nove contos - nove exemplos do que de melhor se produziu em matéria de ficção robótica durante a assim chamada "era de ouro da ficção científica", que foi do fim dos anos 30 ao fim dos 40, aproximadamente - escritos quando Asimov tinha de 19 a 30 anos, e publicados ao longo desse período em diversas revistas. Em 1950, o autor selecionou exatamente esses nove (dentre a enormidade de coisas que havia escrito desde 1939) para integrarem este livro, que viria a ser uma das "bíblias" do gênero.

O livro começa em 2057, quando a famosa robopsicóloga (sim, isso mesmo: psicóloga de robôs) Susan Calvin, uma das figuras mais importantes da gigante US Robôs e Homens Mecânicos S.A., está para se aposentar, e um repórter é incumbido de entrevistá-la. Essa conversa acaba não sendo apenas sobre a vida da Dra. Calvin, mas sobre a história da US Robôs e, por conseqüência, também sobre a evolução dos robôs positrônicos, sem os quais já não é possível imaginar a sociedade naqueles tempos. Os nove contos originais são inseridos na conversa entre a cientista e o repórter, como sendo lembranças de histórias de que ela participou, que testemunhou ou ouviu contar durante mais de 50 anos de vida dedicados ao trabalho com os robôs.

Para nove histórias que foram escritas independentemente umas das outras, é impressionante como os contos ilustram bem a crescente importância que os robôs assumem ao longo da primeira metade do século XXI (não esqueçam, essas histórias foram escritas quando o século XXI era um futuro relativamente distante). O primeiro conto, Robbie, passa-se ainda no século XX, para ser mais exato em 1998, e trata da amizade entre Gloria, uma menina de oito anos, e um robô programado para ser sua ama-seca (!). Detalhe: Robbie é mudo, pois foi construído antes da invenção dos sintetizadores de voz que depois equipariam robôs mais avançados, mas isso não o impede de comunicar-se com sua pequena dona. Mas talvez o ponto mais importante do conto seja a abordagem da tecnofobia, que iria se manifestando com cada vez mais força à medida em que os robôs se tornassem mais sofisticados. Embora Robbie seja um modelo relativamente rudimentar, causa desconfiança à mãe de Gloria, que não gosta da ideia de sua filha ser "criada por uma máquina" e empenha-se ferozmente em separar os dois amigos.

A tecnofobia, aliás, tem a ver com uma das principais razões que fizeram as histórias de robôs de Asimov serem consideradas revolucionárias, apesar de tantos autores de ficção científica antes dele já terem escrito sobre o assunto. Ele foi o grande responsável por eliminar (ou, ao menos, suavizar) o "complexo de Frankenstein", que era o ponto de vista predominante até então: a idéia de que, se o homem criasse uma máquina tão ou mais inteligente que ele próprio, essa máquina fatalmente destruiria seu criador. Vale lembrar que Frankenstein, de Mary Shelley, escrito em 1818, é considerado uma das primeiras obras de ficção científica, apesar de seu ponto de vista ainda ser típico do Romantismo (refiro-me ao movimento artístico) vigente na época: "Há coisas que o homem não deve descobrir!"

Asimov mudou isso ao criar as Três Leis da Robótica, que são enunciadas pela primeira vez no segundo conto de Eu, Robô (que, por falar nisso, é também onde foi inventada a palavra "robótica"). O conto é Brincadeira de Pegar, e, nele, os engenheiros da US Robôs Gregory Powell e Michael Donovan estão em sérios apuros, em pleno planeta Mercúrio, com sua sobrevivência dependendo de um robô que aparentemente enlouquece de uma hora para outra. Para descobrir o porquê do estranho comportamento da máquina, os dois homens precisam raciocinar tendo como base as Três Leis, que são:

1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano, ou, por inação, permitir que um ser humano sofra qualquer tipo de mal.
2. Um robô deve obedecer às ordens recebidas de seres humanos, exceto quando tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que, fazendo isso, não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Leis.

A idéia é que tais leis fossem o "princípio zero" no cérebro dos robôs, de tal forma que nenhum "bug" (como diríamos hoje) seja capaz de interferir nelas: qualquer robô simplesmente pararia de funcionar muito antes de se tornar capaz de desobedecer a essas leis.

Ao longo dos contos seguintes, somos confrontados com uma série de situações desafiadoras envolvendo robôs de diversos tipos, sempre tendo como eixo as Três Leis e as possíveis implicações e problemas do seu cumprimento. O que a inflexível lógica binária dos robôs interpretaria como "fazer mal"?... Mesmo que um robô se julgue superior aos seres humanos (e, sob muitos aspectos, sem dúvida ele o é), continua a ter a obrigação de obedecer a tais criaturas patéticas?...

Os dois últimos contos são os de maior alcance e implicações mais profundas. Em Prova, um certo Stephen Byerley, candidato a prefeito de Nova York, é suspeito de ser na verdade um robô de aparência humanóide. A Dra. Susan Calvin, que nesse conto participa diretamente da ação, declara que o teste para saber a verdade é um só, mas não é conclusivo: se Byerley transgredir as Três Leis, então ele é humano - mas, se ele as respeitar, isso não prova coisa alguma! No último conto, O Conflito Evitável, Byerley já é Coordenador Mundial, numa época em que a maior parte das funções de governo são desempenhadas por supercomputadores, que, por também serem robôs de certo tipo, operam subordinados às Três Leis, o que faz deles governantes muito mais confiáveis que a maioria dos políticos que conhecemos. Quantos líderes, ao longo da História, se lembraram que seu verdadeiro papel devia ser o de servir àqueles a quem governavam?... Nesse conto, escrito às vésperas da década de 50 - o período mais tenso da Guerra Fria -, Asimov aposta em que os robôs, com sua inteligência artificial, poderiam um dia evitar que nós, seres humanos, nos autodestruíssemos com nossa burrice natural.

Deixo a conclusão para a própria Dra. Calvin: "E isto é tudo. Vi tudo desde o começo, quando os pobres robôs não podiam falar, até o fim, quando servem como baluartes, postados entre a humanidade e a destruição. Nada mais tenho a ver. Minha vida terminou. Cabe a vocês ver o que virá no futuro."

Uma nota final: por muito tempo me neguei a ver o filme Eu, Robô, de 2004, estrelado por aquela mistura de cantor de rap, comediante e ator de ação que atende pelo nome de Will Smith, por receio de ficar excessivamente enfurecido no caso de os enredos profundamente cerebrais bolados por Asimov terem sido transformados num pastiche propício para Smith protagonizar cenas de ação ensandecida e soltar suas piadinhas sem graça, mas, recentemente, quando o filme passou na TV, resolvi encarar, e, para minha surpresa, ele não é um desastre total. Certo, Susan Calvin aparece totalmente descaracterizada, e Asimov JAMAIS criaria um herói como o interpretado por Smith, mas o enredo geral, baseado no conto Pobre Robô Perdido, que também está em Eu, Robô, manteve o elemento de mistério do original - Asimov também escreveu histórias policiais, e, dentro de sua produção de ficção científica, esse é provavelmente o conto mais "policial". Não terá sido por outro motivo que foi escolhido para basear o filme.