terça-feira, março 26, 2024

Nefarious


O mal prega a tolerância, até que se torne dominante. A partir daí, ele procura silenciar o bem. (São John Henry Newman)

Nunca encontrei um diabo ateu. (Pe. Gabriele Amorth, exorcista-chefe do Vaticano)

Ele fez vocês à Sua imagem… mas nós os refizemos à nossa. (Nefarious)

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Se Nefarious tivesse sido filmado dez anos atrás, teria alcançado uma notoriedade discreta, sendo saudado por um segmento de aficionados do terror que muito apreciariam a chegada de um filme sobre possessão demoníaca que faz a proeza de fugir da maioria dos estereótipos desse subgênero – estereótipos esses que se consolidaram por meio das toneladas de imitações de O Exorcista (1974), baseado no livro de William Peter Blatty e dirigido por William Friedkin, que praticamente criou sozinho o referido subgênero e é hoje aclamado, com justiça, como um clássico e como um dos melhores filmes de terror já feitos, embora, infelizmente, a vastíssima maioria dos filmes que ele inspirou durante esses 50 anos sejam esquecíveis… com uma honrosa exceção aqui e outra ali. E, sim, Nefarious realizou essa proeza, oferecendo como resultado um filme de possessão (sem exorcismo) que investe na tensão psicológica e no debate de ideias, deixando de lado os sustos fáceis, os efeitos visuais mirabolantes e a "exibição vulgar de poder" (e aqui dou o devido crédito às palavras do demônio Pazuzu através dos lábios da garota Regan, no filme de Friedkin).

Hoje, embora ainda seja tudo isso, Nefarious se reveste também de um significado maior. Na atual conjuntura, em meio à guerra cultural que estamos vivendo, um filme com pontos de vista conservadores, com uma premissa baseada numa visão de mundo cristã, e potencial para fazer sucesso e suscitar o debate, deixa o pessoal "do lado de lá" de orelha em pé, como é fácil verificar ao procurarmos saber qual foi a reação dos "especialistas": mais de 70 por cento da crítica detonou o filme – para surpresa de ninguém, pois sabemos que, com raríssimas exceções, esse povo é fortemente woke, de modo que não poderiam dizer nada de bom sobre uma obra alinhada com as pautas da "extrema-direita", como esta; o julgamento deles é puramente ideológico, sem nada a ver com o mérito artístico. E, como também sabemos, para a beautiful people e para a mídia, que está quase toda nas mãos deles, se você defende que a vida humana é sagrada, que pátria e família são importantes, que um ser humano com pênis e testículos é um homem e um ser humano com vagina e ovários é uma mulher, que a liberdade de pensamento e de expressão é base para a existência de qualquer outro tipo de liberdade, então você é "extrema-direita".

(Sim, sabemos o quanto a galera woke ama a liberdade de expressão: eles amam tanto que têm ciúme, querem só para eles.)

Na primeira cena de Nefarious, temos um suicídio: o Dr. Alan Fischer, que, como viremos a saber, é um psiquiatra de grande renome, joga-se do terraço do edifício onde tem seu consultório. O doutor estava prestes a emitir o parecer final a respeito de um serial killer condenado à morte; se sua conclusão fosse a de que o homem era insano, a sentença não poderia ser aplicada. Ante a necessidade de que esse parecer seja dado, o caso é assumido pelo Dr. James Martin (Jordan Belfi), um ex-aluno de Fischer especialmente brilhante. O condenado, Edward Wayne Brady (Sean Patrick Flanery) está detido numa penitenciária em Oklahoma, um dos 27 estados americanos que têm previsão legal para a pena de morte, e é para lá que o Dr. Martin se dirige para uma entrevista com ele – na manhã do próprio dia marcado para a execução de Brady, que deverá ocorrer naquela noite, a menos que Martin o declare insano. Portanto, o ônus de decidir sobre a vida ou a morte do assassino pesa unicamente sobre os ombros do médico.

A maior parte do filme consiste nos diálogos entre James e Edward… ou entre James e aquele que todos supõem ser Edward. Logo no começo da conversa, o prisioneiro se identifica como sendo na verdade um demônio, que está apenas ocupando o corpo de Brady. Seu verdadeiro nome, segundo ele diz, está num dialeto fenício extinto há milênios, então ele o traduz para o inglês moderno e diz a James que pode chamá-lo de Nefarious. Temos a palavra nefário em português, mas é raramente usada a não ser por quem esteja procurando deliberadamente falar difícil, então "nefarious" pode ser traduzido por vil, perverso, maligno. Um sujeito como James, ateu e sem o mínimo interesse em qualquer assunto relacionado a religião, não saberia disso, é claro, mas o primeiro e um dos mais sérios problemas enfrentados quando se está lidando com um demônio é aquilatar o tamanho do desafio: a entidade pode ser desde um reles demônio soldado raso (e mesmo um desses não é um oponente que se deva subestimar) até um grão-duque infernal que comande 60 legiões. Nefarious, no entanto, mostra-se desusadamente franco e objetivo para um demônio, e facilita essa parte declarando-se "lorde e alto príncipe". Portanto, dispõe de poderes que lhe permitiram induzir o Dr. Fischer ao suicídio, porque queria ser entrevistado não por ele, mas por James… E, quando o jovem psiquiatra pergunta por quê, o demônio responde que quer que ele escreva sua história.

Não é preciso dizer que James (no começo) não leva a sério de maneira nenhuma o que Edward/Nefarious diz. Para ele, demônios não existem – simples assim. Sua tarefa, ou assim ele pensa, consiste apenas em descobrir se o condenado acredita realmente no que está falando (e, nesse caso, é um doido de pedra, que não pode ser executado, mas passará o resto da vida num manicômio judicial) ou se só está jogando com ele, tentando convencê-lo de que é louco para escapar da execução (e, se for assim, é seu dever endossar a condenação dele). Porém, o suposto demônio inesperadamente vira o jogo ao dizer a James que, antes que o dia termine, ele – James – terá cometido três assassinatos… E não posso dizer mais sobre esse ponto para não dar spoiler; posso apenas adiantar que o psiquiatra se arrependerá do ceticismo com que a princípio recebe essas palavras.

Nefarious é um filme cuja força não está na ação, mas nos diálogos – e, nesse ponto, a dupla de atores principais impressiona com o desempenho que entrega: Belfi está bem, mas Flanery dá um show, praticamente interpretando dois papéis, e fazendo-o com maestria. Edward Brady parece um animal acuado, gagueja muito, evita o contato visual, está trêmulo, encolhido, com toda a sua linguagem corporal demonstrando a vergonha dos crimes que cometeu e o sofrimento de estar sob o domínio de Nefarious – enquanto este último se mostra à vontade, como quem tem total controle de uma situação e sabe disso, e fala pelos cotovelos, sempre de modo lógico e articulado. Isso nos leva a um ponto muito importante: o único momento em todo o filme em que o demônio demonstra medo é quando, a pedido de James, o capelão da penitenciária, Pe. Louis, entra na sala onde está ocorrendo a conversa – mas não demora nada para que ele perceba que o medo é desnecessário. Quando o padre e o psiquiatra se apresentam, ao apertarem as mãos, o capelão diz "Padre Louis… Mas pode me chamar de Louis, ou de Lou", ao que James replica: "Doutor James Martin". O título de padre deveria ser, de longe, muito mais importante e honorável que o de doutor, mas, enquanto James faz questão de ser tratado por seu título, Louis pouco parece ligar para o dele, o que já diz uma coisa ou duas sobre o tipo de padre modernex que ele é – um tipo bem comum, infelizmente. Na vida real, um padre desses provavelmente estaria em trajes civis; no filme ele veste clergyman para que o espectador possa identificá-lo facilmente como padre, mas usa também uma estola toda colorida, que simboliza seus pendores progressistas. Ao perceber que está diante de um padre, Edward/Nefarious pula da cadeira, tentando afastar-se dele o quanto lhe permite a corrente que prende suas algemas à mesa, e berra: "O que quer comigo, filho de Deus?" Essa é também a única vez que ele pronuncia o nome de Deus, o que durante todo o resto do tempo evita cuidadosamente fazer, referindo-se a Ele apenas como "o Inimigo"; é só o pânico do momento que o leva a esquecer-se de fazer isso. (Trataremos da importância dos nomes daqui a pouco.) Porém, como dito acima, bastam poucos minutos de conversa com o sacerdote para o lorde-demônio se tranquilizar:

Pe. Louis: Não estou aqui para lhe fazer mal, Edward. Estou aqui para ajudá-lo. (…) Pessoalmente, nunca encontrei um demônio, nunca tomei parte num exorcismo, nem espero fazê-lo. Muitas das coisas que nos incomodam são apenas nossos próprios medos e pensamentos desordenados.

Nefarious (depois de uma longa pausa): Então… você não considera a possessão demoníaca uma possibilidade?

Pe. Louis: Nossa compreensão evoluiu além disso.

Nefarious (depois de uma pausa ligeiramente mais curta): Bem, eu… estou contente de que você diga isso. Eu me sinto muito melhor. E eu estava errado sobre você. Deveria tê-lo convidado a me visitar muito antes, mas estou contente de que tenha vindo. Estou contente por estarmos todos nos dando bem.

Pe. Louis: Você gostaria que eu ficasse?

Nefarious (prontamente): Não. Já terminamos.

Por causa de sua unção apostólica, tendo validamente recebido o sacramento da ordem, o Pe. Louis está investido de uma parcela do poder de Cristo, incluindo a capacidade de expulsar demônios – e isso Nefarious teme. Mas, quando percebe que Louis não tem fé nesse poder e não vai usá-lo, até porque acha que demônios não passam de "metáforas", ele relaxa. Sua interação com o padre passa a ser amigável, e ele chega a tentar apertar-lhe a mão, o que Louis não permite – talvez por via das dúvidas. O recado que o roteiro quer passar com isso tudo fica claro: há certas alas dentro da Igreja que estão fazendo pouco ou nada para atrapalhar os planos de Satanás e seus asseclas. Para estes últimos, a infiltração de uma mentalidade progressista no meio cristão é ótima.

Nefarious é um filme difícil de comentar sem dar spoilers, porque 80 por cento de seu interesse está no campo da discussão de ideias, de modo que a tentação de descambar para longas dissertações que entregariam tudo é grande. Vou tentar contentar-me em sublinhar dois ou três pontos essenciais, que servirão para dar uma noção básica a algum leitor que porventura encontre este post sem ter ainda visto o filme. Disse acima que Nefarious se sente no pleno controle da situação, e isso literalmente, pois foi ele quem tramou para que sua conversa com James acontecesse exatamente nas circunstâncias em que de fato acontece. Isso fica evidente neste diálogo:

James: Edward, você entende por que eu estou aqui? Entende que eu tenho o poder de salvar sua vida ou de condená-lo?

Nefarious: O que eu entendo, James, é que você não teria nenhum poder sobre mim se eu não lhe tivesse dado esse poder lá de baixo.

James, ignorante de religião, jamais perceberia, mas o que temos aí é a paráfrase de um trecho de outro diálogo, este entre Jesus e o governador romano Pilatos (Jo 19, 10-11). Nada mais adequado, já que, segundo a teologia, Satanás esforça-se por imitar Deus, embora sempre de maneira distorcida ou invertida, o que nos remete às descrições de missas negras, com suas cruzes de cabeça para baixo e orações recitadas de trás para frente… Foi Nefarious quem propositalmente se pôs naquela situação, e o fez com um objetivo bem determinado.

O demônio vai mais longe, falando a James sobre algumas das grandes chagas da sociedade moderna, a maioria delas engendradas por seu mestre Lúcifer, com sua ajuda e a de outros demônios – mas também afirma que há algumas nas quais eles "lá de baixo" nem tinham pensado: essas os homens inventaram sozinhos, para grande satisfação das hostes infernais. O pior (ou, dependendo do ponto de vista, melhor) é que James, do alto da sua arrogância woke, acha que tudo lá fora está indo às mil maravilhas.

Nefarious: Olhe, James não se trata apenas de você ou do Edward. Trata-se de todos: toda a raça humana. Todos nós (demônios) contra todos vocês.

James: Se é assim, o seu lado não está se saindo muito bem. (…) Nunca fomos tão livres. Alcançamos altos índices de alfabetização. Estamos acabando com o racismo, com a intolerância, com a desigualdade de gênero. As pessoas podem amar quem elas quiserem, ser o que quiserem, fazer o que quiserem. A diversidade não é mais um sonho. O discurso de ódio não é mais tolerado. Chegamos a uma posição moralmente superior.

Nefarious: James… Acho que eu te amo.

Para Nefarious e sua "patota", é ótimo que James e milhões de outros abestados pensem dessa forma. O que o demônio enxerga e o psiquiatra não, é que o que o mundo moderno chama de "liberdade" consiste em não assumir responsabilidade por nada; que, se hoje em dia quase todo mundo é alfabetizado, isso não acontece sem que uma tonelada de ideologias nocivas sejam ensinadas junto com as letras a crianças que ainda não têm como se defender; que agora dizer a verdade, ou chamar as coisas pelo nome que elas têm, é considerado "discurso de ódio", e assim por diante. As sociedades modernas estão caminhando a passos largos para o maior e mais enlameado buraco em que alguma sociedade já se meteu em toda a História – e estão indo para esse buraco na maior das alegrias, crentes de que estão fazendo grandes progressos. Satanás deve estar às gargalhadas. Ele e seus servos sempre tiveram a mentira como uma de suas principais armas, mas não significa que não possam dizer a verdade quando lhes convém, e é o que Nefarious faz quando cruamente mostra a James que o que ele chama pelo antisséptico nome de "interrupção eletiva" (ou seja, aborto) não é diferente do que os fenícios faziam na Antiguidade como ato de adoração a ele e a outros demônios (que eles tinham na conta de deuses), queimando bebês vivos diante de imagens antropozoomórficas de bronze.

Satanás e seus demônios também parecem ter familiaridade com as lições de Sun Tzu sobre a importância de conhecer o inimigo. Quando James (afetadamente, como é próprio dele) se mostra surpreso ao ouvir conversa teológica vir da boca de um demônio, Nefarious lhe dá a real: "Eu conheço mais teologia que qualquer ser humano que já tenha vivido." E isso faz todo o sentido. Há gente que diz "eu acredito em Deus" como se isso, por si só, significasse grande coisa; bem, todos os demônios também acreditam. Outras pessoas, equivocadamente, veem uma afinidade entre satanismo e ateísmo – quando, na verdade, se admitirmos que Deus não existe, então, por óbvio, Satanás também não. Satanismo significa revolta contra Deus, e não faz nenhum sentido revoltar-se contra algo em cuja existência não se acredita. Isso me leva a outro ponto: o inimigo, ou melhor, "Inimigo", com letra maiúscula, é como Nefarious se refere a Deus; já Jesus, ele chama de "o Carpinteiro". Evita nomeá-los porque, como ele mesmo diz, nomes têm poder. Na certa não foi por outro motivo que se escusou de dizer a James seu verdadeiro nome, substituindo-o por uma versão adaptada. (Não que um pateta como James fosse saber o que fazer com tal informação, mas para que correr riscos desnecessários?) Padres exorcistas sempre dizem que, uma vez que se consiga fazer com que um demônio diga seu nome, um grande passo foi dado para vencê-lo – mas que eles se negam com todas as forças a fazê-lo, porque sabem que… bem, que os nomes têm poder.

Há outros pontos dos diálogos entre o demônio e o psiquiatra que eu gostaria muito de abordar, mas aí já estaria entregando muita coisa; acho que o que detalhei até aqui é suficiente para dar uma ideia do que espera por quem decidir ver o filme – e vale muito a pena vê-lo. Não apenas os pontos discutidos, mas também o final, que reserva diversas surpresas, ficarão na mente do espectador durante um bom tempo. Nefarious é um bom exemplo de como é possível fazer filmes notáveis com um baixo orçamento – segundo informações da internet, cinco milhões de dólares, o que, para os padrões da indústria cinematográfica, é o troco da padaria. Também não é um filme que fosse receber atenção da grande mídia, ao menos nenhuma atenção positiva, e, se chegou a ser exibido nos cinemas nacionais, eu não fiquei sabendo. Foi assunto forte no YouTube há alguns meses, recebendo comentários positivos de produtores de conteúdo cujas opiniões eu prezo – e negativos de outros cujo desagrado, para mim, é sinal de coisa boa. Na época, consegui ver o filme na internet, depois de muita procura, e não me senti muito bem de não estar contribuindo com minhas moedas para que ele fosse bem-sucedido e pudesse ajudar a encorajar outras iniciativas semelhantes – mas que opção eu tinha? Era assistir assim ou então não assistir. Foi por isso que agora, que ele finalmente ficou disponível no YouTube Premium, fiz questão de não meramente alugá-lo, mas comprá-lo, o que, acredito, quita minha dívida, fora o fato de que é um desses filmes que vale a pena ter, e rever de tempos em tempos. Por sinal, acabo de revê-lo, e precisava disso para me sentir razoavelmente seguro para escrever sobre ele – um mau hábito meu que torna minhas resenhas sobre filmes basicamente inúteis, já que só consigo postá-las meses depois do lançamento. Paciência! Eu só escrevo sobre um filme quando acho que ele tem relevância duradoura (ou quando acho que perdeu a oportunidade de tê-la…), e, analisando por esse lado, talvez as resenhas tenham sua razão de existir, afinal de contas.

A direção de Nefarious é a quatro mãos, assinada por Chuck Konzelman e Cary Solomon, também produtores; este último também é responsável por Deus Não Está Morto (2014), um filme muito simples, quase amadorístico, mas que também apresenta um ponto de vista claramente cristão e tem o debate de ideias como eixo de seu roteiro, o que o torna interessante, mesmo com as deficiências que tem. A comparação deixa evidente que Solomon progrediu muito como cineasta: considero Nefarious muito bem feito, embora pessoas que entendem mais de cinema que eu (e que gostaram do filme) tenham apontado certas falhas que, para mim, passaram por alto. Não é demais elogiar de novo o soberbo desempenho de Sean Patrick Flanery, que, vejam só, eu descobri que já conhecia há muito tempo, embora não fosse reconhecer nunca: lá no início dos anos 90, ele protagonizava a série de TV O Jovem Indiana Jones, que, como o título já entrega, conta as aventuras da juventude do célebre arqueólogo imortalizado no cinema por Harrison Ford. Eu adorava essa série, mas de lá para cá, que me lembre, não tinha tornado a ver Flanery.

Em nossos dias, um filme como Nefarious está nadando contra a correnteza da mídia mainstream. Foi-se o tempo em que Hollywood apostava em produções de forte apelo religioso, como Os Dez Mandamentos ou O Manto Sagrado, que faziam sucesso porque dialogavam com um público indelevelmente conectado à mensagem e ao modo de vida cristão que (gostem os modernetes ou não) tornaram possível o nascimento da civilização ocidental como a conhecemos, e a mantiveram de pé durante séculos. O próprio O Exorcista, um filme assustador e perturbador, termina com a inevitável conclusão de que a fé em Deus é o único antídoto verdadeiramente eficaz contra o mal que ensombrece a alma humana – e que tantas vezes se manifesta sem necessidade de possessão alguma. Hoje, a indústria do cinema nem considera a possibilidade de permitir o surgimento de coisas assim, e não é porque não fossem dar lucro: a maioria das pessoas ainda crê em Deus e nos valores humanos fundamentais, e ainda deseja consumir obras que reflitam sua visão de mundo; acontece que a referida indústria está fechada com um lado da guerra cultural, e, para esse lado, desmantelar o cristianismo é essencial, porque ele é o maior obstáculo à instauração de uma nova forma de totalitarismo, desta vez de alcance global. É por isso que, já há décadas, tudo o que seja cristão só é representado, na grande mídia, de duas maneiras: ridícula ou maléfica. Quem tentar fazer algo diferente jamais encontrará, na esfera dessa grande mídia, apoio ou investimentos para tirar sua ideia do papel. Para os realizadores que desejam produzir obras que deem voz aos valores cristãos e tradicionais, e para o público ávido por obras assim, resta o caminho das produções independentes, e Nefarious é um dos melhores exemplos disso que vi nos últimos anos.

domingo, janeiro 28, 2024

Internato para Meninas Cruéis

Este foi outro daqueles livros que, mesmo não fazendo parte (bem, aparentemente não fazendo parte) de nenhum dos meus gêneros favoritos, me prenderam a atenção por um motivo ou outro, tanto que resolvi dar-lhes uma chance. E, como por vezes acontece nesses casos, tive boas surpresas: o que parecia à primeira vista ser apenas um relato dramático e um tanto revoltante sobre a adolescência feminina mostrou possuir elementos de uma boa história de suspense, gênero que, para mim (estou sendo totalmente subjetivo, OK?), está ali a meio caminho entre a ficção policial e o terror (que não precisa necessariamente envolver o sobrenatural, embora eu goste mais quando envolve). Tudo bem que a "surpresa" é parcialmente anulada pela sinopse da contracapa, que, afinal, precisava dar ao possível leitor uma noção global do que o livro realmente é, sob pena de que esse leitor largasse a obra julgando ser apenas uma história sobre os sofrimentos de uma garota desajustada no ensino médio. Pois, sim, Internato para Meninas Cruéis é isso – mas não é isso.

O ano é 1991, e Sarah Taylor, de 15 anos, está começando o segundo ano do ensino médio, só que, desta vez, não numa escola pública como aquelas em que sempre estudou até então. Sem que Sarah soubesse, sua mãe pegou um texto que ela escreveu sem pretender que jamais fosse lido por ninguém, e o mandou, junto com uma carta de pedido de bolsa de estudos, para o Internato St. Ambrose para Meninas, uma prestigiosa instituição particular de ensino na Nova Inglaterra, a algumas horas de viagem da cidadezinha melancólica onde as duas vivem. E parece que os dotes de escritora da garota impressionaram as pessoas certas, pois a bolsa foi concedida. Para Sarah, uma garota solitária e problemática apesar da inteligência acima da média, a mudança brusca para um mundo diferente não é uma perspectiva empolgante, embora ficar onde estava também não seja. Em sua cidade, tudo que ela pode esperar depois que terminar a escola é algum emprego maçante e mal remunerado; ela não tem amigos, e sua mãe, Theresa, é uma pessoa bastante vulgar e superficial, com quem Sarah não consegue sentir maior afinidade – mas com uma vontade de elevar o padrão de vida da família, o que a levou a fazer o que fez. A "família", por sinal, são só as duas: Sarah é filha única e Theresa é mãe solteira, com alta rotatividade de namorados. Sobre seu pai, tudo que Sarah sabe é que era um aspirante a roqueiro, o que atiçou os sonhos de vida glamourosa na então jovem Theresa… mas, é claro, a banda do rapaz nunca decolou e a relação dos dois acabou antes que a filha nascesse, ou talvez logo depois – não faz diferença. A vida reles não ajudou Sarah, que, para piorar, sofre de sérios problemas psiquiátricos: bipolaridade, provavelmente combinada com algo mais grave, mas o livro não entra em detalhes. Sua mente tem o péssimo hábito de levá-la a passeios alucinatórios por realidades paralelas sem sua permissão, uma condição que não tem cura, podendo apenas ser controlada mediante medicação. Aos 15 anos, ela já tentou o suicídio por duas vezes.

(Talvez seja oportuno registrar que em 1991 não existia essa modinha de ter problemas psiquiátricos, como hoje. Em 2024, entre os "jovens dinâmicos" da geração Z, se você não puser nos seus perfis nas redes sociais que tem pelo menos depressão ou algum grau de autismo e toma medicamentos controlados, você não é "bacana". [Isso é o mínimo aceitável; se puder colocar que tem algo mais grave ou mais exótico, tipo uma síndrome de Tourette, tanto melhor.] Já naquele início dos anos 90, quem realmente tinha esses problemas fazia de tudo para mantê-los ocultos, para não ser visto pelos outros como maluco ou, na melhor das hipóteses, estranho.)

Que Sarah fosse ter problemas de adaptação, seria de se esperar: ela é uma das poucas estudantes pobres naquele colégio frequentado pelas filhas de algumas das famílias mais abastadas do estado de Massachusetts. Seu vestuário simples (todo preto: ela parece ser meio gótica), a falta de traquejo social e de familiaridade com o modo de vida da classe alta a mantêm à margem, sem fazer qualquer amizade a não ser com sua colega de quarto, Ellen Strotsberry, mais conhecida por "Strots", uma atleta por natureza (mas também uma fumante inveterada já aos 15 anos; certas coisas que hoje nos parecem óbvias não o eram tanto assim naquela época) e evidentemente masculinizada, embora Sarah procure não julgar. Só que os "problemas de adaptação" assumem uma dimensão mais terrível por intervenção de uma certa Margareth "Greta" Stanhope, que ocupa o quarto bem do outro lado do corredor do dormitório, exatamente em frente ao de Sarah e Strots. Greta, para resumir, é aquilo que hoje chamamos de "patricinha", em todos os sentidos, inclusive os piores.

(É verdade que "patricinha" é uma gíria tipicamente brasileira, e que parece ter mudado sutilmente de significado ao longo do tempo. Por coincidência, ela apareceu por volta da mesma época em que esta história é ambientada; eu próprio era adolescente então, e lembro bem de quando começamos a ouvi-la ser usada. "Patricinha", logo que surgiu, era apenas o equivalente feminino de "mauricinho", termo que apareceu primeiro e designava um garoto ou rapaz que andava sempre com o visual da moda e vestia as marcas mais desejadas; tinha um leve tom pejorativo, mas era um pejorativo bem-humorado, e o mesmo acontecia com "patricinha", que, como dito, era a contraparte feminina, a garota que andava sempre produzida e muito bem vestida – e, no começo, a palavra só queria dizer isso mesmo. Por um desses fenômenos da língua que ninguém explica, "mauricinho" teve a sua época e depois caiu em desuso, mas o mesmo não aconteceu com "patricinha", que, além de continuar bem vivo no vocabulário dos jovens, foi ganhando com o tempo um sentido um pouco diferente: ainda queria dizer "garota elegante, normalmente rica", mas também adquiriu uma conotação ruim, como se na verdade significasse "garota que, porque é rica e elegante, se acha melhor que todo mundo, é arrogante e até má". Suponho que a novela teen Malhação, com seu uso repetido sempre dos mesmos estereótipos, tenha algo a ver com essa mudança de acepção.)

Greta, portanto, é a antítese de Sarah: rica, bonita, elegante e fútil. Sua implicância com a novata começa praticamente sem qualquer motivo concreto (como costumam começar as implicâncias, principalmente entre crianças ou adolescentes), e ela logo passa a fazer pequenas maldades – ou melhor, maldades que começam pequenas, mas vão escalando de forma consistente ao longo dos meses seguintes. Como toda vilã paty (pensando bem, como todo vilão adolescente, tanto faz o sexo – vide Draco Malfoy em Harry Potter), ela tem duas "capangas" fiéis, Francesca e Stacia, que seguem cegamente sua "líder" e mostram um potencial para o mal quase tão grande quanto o dela.


Além de Strots, há mais uma pessoa no St. Ambrose que demonstra simpatia para com Sarah. Pelo que pude entender, é costume nos internatos norte-americanos que cada andar dos dormitórios destinados às alunas tenha, além dos quartos delas, um pequeno apartamento que é ocupado por um professor ou professora que fica responsável por "controlar as coisas" por ali; é o "conselheiro residencial", ou apenas "CR". E o CR do andar onde moram Sarah, Strots, Greta e algumas dezenas de outras meninas é o jovem professor Nick Hollis. Nick tem uns 25 anos, ensina inglês e literatura, está se preparando para o doutorado, e é uma espécie de versão americana e moderna de Apolo (agora que escrevi isso, notei que ele de fato lembra muito a descrição de Apolo segundo Rick Riordan): alto, bonito, atlético e "descolado", enfim, o "sonho de consumo" de qualquer garota adolescente, e ainda mais desejável por ser inatingível, já que, além de ele ser casado, é um professor, de modo que qualquer envolvimento que viesse a ter com uma aluna poderia não só custar-lhe o emprego como desembocar num processo judicial. Nick ajuda Sarah quando ela sofre uma de suas crises por ter negligenciado sua medicação, e faz isso com interesse genuíno, não como alguém que está "só fazendo seu trabalho", o que conquista a estima e a confiança da garota, independentemente do "tesão" que ela já tinha nele. Com isso eles se conhecem num nível mais pessoal, Nick passa a admirar a inteligência de Sarah e a gostar da companhia dela, e os dois criam o hábito de se verem regularmente para conversar sobre livros.

Disse acima que Greta começa a implicar com Sarah sem motivo aparente; a antipatia da primeira para com a segunda tem início logo que as duas se conhecem, e vem, no início, simplesmente do fato de que, para Greta, Sarah é uma "ninguém" e está fora de seu lugar, "poluindo" um ambiente que só deveria pertencer à elite. Porém, se fosse só essa antipatia, talvez ela se empenhasse menos em infernizar a colega. A verdade é que algo mais acontece: Sarah começa a suspeitar, por alguns indícios, que Nick e Greta têm um caso – e Greta, a suspeitar que ela sabe. É tudo muito vago e inconclusivo, mas, para Greta, é o suficiente. Suas maldades, que começam discretas, só fazem subir de nível até a situação ficar insustentável.

A autora Jessica Ward parece estar escrevendo sobre coisas que conhece de perto, e, pelo visto, o bullying é algo tão presente em escolas exclusivamente femininas quanto em qualquer escola, embora, claro, seja um tipo diferente de bullying. Meninos são brutos, mas ao menos são francos: o bullying que praticam é claro e direto. Se for para humilhar um colega, você o humilha olhando na cara, e, se for para bater, você bate. Simples assim. Já o bullying feminino é sutil, dissimulado, tortuoso: uma frase dita por uma mulher a outra e que, se ouvida ao acaso por um homem, parecerá um elogio, pode ser na verdade uma farpa cruel, que não deixa de atingir o alvo. É assim entre as mais jovens também. A narração é em primeira pessoa, e há um nítido esforço por parte de Ward para "incorporar" a personagem, procurando escrever tal como Sarah escreveria – ou seja, como uma adolescente de inteligência aguçada e com um talento inato para a literatura, mas, ao mesmo tempo, com uma percepção um tanto curta da realidade, que decorre tanto da pouca idade e experiência quanto de ser uma desajustada desde que consegue se lembrar, e portanto não ter tido acesso a algumas vivências que uma garota "normal" teria conhecido. Sarah chega, por vezes, a ser um tanto cínica, mas embora eu, pessoalmente, não tenha praticamente nenhuma paciência para com o cinismo, fui capaz de dar-lhe um desconto, considerando as coisas pelas quais passou. Trata-se de uma garota com problemas reais – não de alguém que inventa problemas para se sentir especial.

No que se refere à estrutura da história, o componente de suspense vai se anunciando gradualmente, para tomar o primeiro plano durante a última quarta parte do livro, quando as picuinhas adolescentes dão lugar a fatos muito sérios e trágicos, que não detalharei para não dar spoiler. Arrisco a hipótese de que Ward (que, em outras obras, também assina como Jessica Bird ou como J. R. Ward) optou por ambientar sua história no início dos anos 90 para excluir o fator internet, pois várias situações importantes ou interessantes ao longo do livro não soariam plausíveis num mundo onde as adolescentes vivessem online a maior parte do tempo e contassem com possibilidades de comunicação quase ilimitadas. O resultado geral é positivo, com uma combinação de drama, crítica social e suspense que se mostra perfeitamente capaz de proporcionar várias horas de leitura instigante.