domingo, setembro 27, 2009

O Culto do Amador

Qualquer pessoa que já haja experimentado manter comigo alguma conversação de pelo menos 15 minutos sobre temas culturais (como é o caso de todos os leitores deste blog - toda a meia dúzia, quero dizer) já me ouviu esbravejar ardorosamente contra o que considero uma das maiores pragas da modernidade: aquilo que chamo de fragmentação do conhecimento, fruto de uma supervalorização da especialização, que, por sua vez, é fruto dos antolhos que o mundo capitalista pós-moderno prendeu na cara do cidadão mediano do fim do século XX, início do XXI. Em bom português, a ideia geral é que você não precisa (e, para muitos, nem deve) conhecer, saber ou se interessar por coisa alguma que não tenha diretamente a ver com sua profissão ou área de atuação: se você é um técnico em informática, não tem que saber nada de biologia, se você é um administrador, não deve perder tempo com literatura, se você é um advogado, não deve se ocupar de nada que não seja jurídico, e por aí afora. Para mim, isso é a receita mais garantida para criar uma multidão de pessoas burras (diploma e sucesso profissional não são antídoto contra a burrice, nunca foram), rasas, tapadas, desumanas e materialistas. Mesmo que eu esteja sozinho no mundo, sem ninguém que compartilhe de tal opinião, continuo acreditando que devemos saber um pouco de tudo, sim: não necessariamente ser um multi-homem como Leonardo da Vinci, mas saber uma infinidade de pequenas e grandes coisas sobre os mais variados assuntos, saber o que é fotossíntese, quem foi Péricles, no que acreditam os muçulmanos, onde fica o deserto de Gobi, o que são placas tectônicas, como se sopra vidro, como os samurais obtinham a liga de aço que lhes permitia fabricar as melhores espadas do mundo, saber que baleia não é peixe, saber o que é o teorema de Pitágoras, saber qual a função dos metais semicondutores na eletrônica... SABER! Não importa se esses conhecimentos irão lhe ser "úteis" algum dia ou não: saber, simplesmente (parafraseando Ítalo Calvino) porque saber é melhor que não saber. É preciso conhecer muitas coisas, sobre muitos assuntos diferentes, para chegar a alguma percepção - nunca à percepção completa - de que todas as áreas do conhecimento humano estão interligadas, de que todas as ciências e artes interagem e se interpenetram, de que tudo faz parte de um grande todo. Estou convencido de que o único motivo porque algumas pessoas são curiosas e sedentas de saber, enquanto outras são apáticas e não se interessam por coisa alguma, é que as primeiras compreenderam isso, e as outras não.

Ocorre que o "jogo" (na falta de palavra melhor...) do conhecimento tem ainda outra particularidade tão fascinante quanto aflitiva: toda moeda tem dois lados. Este livro de Andrew Keen me mostrou esse fato na prática. Tendo sido um figurão dentro de mais de uma grande empresa norte-americana de internet, Keen não apenas testemunhou a assim chamada "revolução da informação" nos anos 90, mas ajudou a fazê-la. Agora, nos anos 2000, alarmado com os rumos que a coisa tomou, escreveu este livro para chamar a atenção para o grande problema deste mundo onde temos toda a informação que desejarmos sempre à mão, acessível com poucos cliques: quem é que garante a qualidade dessa informação? Essa já era uma das grandes questões relacionadas à internet desde que ela se popularizou e passou a ser acessível a muita gente, e tornou-se ainda mais crucial nos dias de hoje, quando literalmente qualquer um pode escrever e publicar qualquer coisa que deseje.

Não se trata de questionar o princípio da liberdade de expressão, e não mudei de ideia sobre o bem que faz à mente humana interessar-se por muitas coisas diferentes, mas é preciso reconhecer que algo está errado quando não se faz mais distinção entre boato e realidade, entre opinião e fato, entre amador e especialista. Eu me irrito com a conversa de executivos que são totalmente analfabetos sobre qualquer outra coisa que não seja o mundo "business", mas reconheço a importância do que fazem e jamais me meteria a entender mais que eles sobre esse mundo, assim como consideraria ridículo que um deles pretendesse saber mais que eu sobre língua ou literatura. O que me distingue desses executivos é apenas que, enquanto eles não sabem nem querem saber nada que não se relacione ao seu campo profissional, eu, embora tenha estudado e me formado em língua e literatura, não me contento em viver num mundo onde só exista isso: quero conhecer física, química, biologia, ocultismo, matemática, zoologia, medicina, geografia, história, religião, arte, filosofia e (por que não?) também economia e administração, ou seja, "business"... Não me tornarei um expert em nenhuma dessas disciplinas como o sou (espero) em língua e literatura, mas, poxa, eu quero saber! Saber, sem perder de vista que você tem que estudar uma coisa durante longos anos se quiser ser algo mais que um curioso sobre ela. Quando um especialista em qualquer um desses campos estiver falando, eu humildemente murcharei a minha orelha. Isso requer apenas bom senso.

Bom senso esse que, como nos mostra Keen, anda em falta no mundo pós-revolução da informação: qualquer pessoa, por menos credenciais que tenha, pode discorrer sobre qualquer assunto, e 99% dos eventuais leitores irão atribuir ao material produzido por essas pessoas sem credenciais o mesmo peso que aos trabalhos de doutores na matéria, simplesmente por não terem maturidade intelectual para separar o que merece credibilidade do que não merece. Na verdade, talvez a maioria dos leitores-internautas dê mais valor ao que é escrito por amadores, por ser mais próximo do seu nível de entendimento e de seus pontos de vista como leigos - ainda que o que está sendo dito seja uma asneira digna de participante de reality show.

Tudo o que escrevi até agora pode ser assim resumido: um sujeito contentar-se em ser especialista em algo e pensar que não precisa saber mais nada é ruim, mas muito pior é não saber nada e pensar que pode falar como um especialista - e vira uma calamidade se houver outras pessoas ainda mais desinformadas que o aceitem como se fosse um.



Infelizmente, o que não falta neste mundo - ou nestes mundos: o real e o virtual - é gente desinformada.

Keen prossegue seu raciocínio mostrando que há muito mais em jogo do que apenas a qualidade da informação que estamos digerindo e assimilando: o desenfreado faça-você-mesmo da internet dos anos 2000 está aterrando o fosso que sempre separou o palco da plateia, gerando uma oferta torrencial de conteúdo gratuito criado pelos próprios usuários, e que, por ser gratuito, está usurpando o mercado que sempre pertenceu a profissionais ou empresas que se dedicavam a produzir esse conteúdo - e que, por só fazerem isso, podiam especializar-se e atingir a excelência em seus respectivos campos. Se a visão (muitas vezes tola e desinformada) de um sujeito que durante o dia trabalha em qualquer outra coisa e posta textos num site depois do jantar, vale para o público o mesmo que a de um jornalista profissional com décadas de experiência, por quanto tempo ainda será compensador para um jornal ou uma emissora de TV continuar pagando um salário a esse jornalista? O oba-oba dos downloads gratuitos de música destruiu a indústria fonográfica, que atualmente está em seus estertores (não vou bancar o único inocente e dizer que nunca baixei música da internet: só posso dizer em meu favor que não parei de comprar CDs por causa disso). Sem gravadoras, quem irá investir dinheiro e trabalho em descobrir e alavancar novos talentos musicais? E quanto tempo levará para que a indústria do cinema e a do livro tenham o mesmo destino? Conclusão: o atual modelo de utilização da internet está promovendo o fim das próprias fontes de conteúdo das quais depende.

Um velho adágio existente em várias línguas diz que o que vem fácil, vai fácil; embora tenha sido criado para referir-se a dinheiro, ele é igualmente verdadeiro no que toca ao conhecimento. Quando eu e as pessoas da minha geração frequentávamos a escola, um trabalho de história, por exemplo, demandava horas na biblioteca, pesquisando em enciclopédias - ao contrário da maioria dos colegas, eu gostava disso, mas não vem ao caso: gostando ou não, o próprio esforço despendido em encontrar e processar as informações de que precisávamos fazia com que ao menos uma parte daquilo tudo se cristalizasse em nossos cérebros em formação, de modo que sei até hoje quem foram Maurício de Nassau e o padre Anchieta; já os estudantes de hoje, tudo o que precisam fazer é acessar o Google ou o Yahoo! e digitar no mecanismo de busca o tema do trabalho, para instantaneamente terem dezenas ou centenas de textos prontos à disposição. Aí temos que perguntar: o que essa garotada está realmente aprendendo? Alguns anos atrás, essa suprema facilidade para se obter informação era o sonho de quem desejava um mundo onde a cultura estivesse ao alcance de todos; hoje, quando muitos professores se veem obrigados a proibir seus alunos de entregar trabalhos impressos, tendo que exigir que sejam manuscritos, para tentar evitar que eles simplesmente imprimam qualquer coisa achada na internet e entreguem sem ler, somos forçados a reconhecer que parece ter havido algum desvio no caminho trilhado entre o sonho e sua transformação em realidade.

Talvez o maior exemplo do "culto do amador" na era da internet seja a famigerada Wikipédia, a "enciclopédia livre que todos podem editar" - que ostenta esse slogan com orgulho, como se conhecimento fosse uma questão de democracia. E não é: sinto muito, mas não é. Nas enciclopédias tradicionais, podemos ter a certeza de que as informações que encontraremos serão fidedignas: o verbete sobre o padre Anchieta foi escrito por um historiador, o sobre José Saramago, por um doutor em Letras, o sobre dicotiledôneas, por um botânico, o sobre vulcões, por um geólogo, e assim por diante. Naturalmente que todo esse pessoal não é infalível, mas são eles os que, por todo o estudo e experiência que acumularam, têm maiores possibilidades de deter informação correta sobre seus respectivos campos. Na Wikipédia, por tudo o que se sabe, qualquer verbete pode ter sido escrito por um adolescente de bermudão e boné de beisebol virado para trás, já que ninguém lhe pediu credenciais mesmo. Conforme conta Keen:

"O dr. William Connolley, um modelador climático no British Antarctic Survey em Cambridge, especialista em aquecimento global e autor de muitas publicações profissionais, recentemente entrou em confronto direto com um editor da Wikipédia particularmente agressivo em torno do verbete 'aquecimento global' do site. Após tentar corrigir imprecisões que percebera no verbete, foi acusado de 'impor fortemente seu ponto de vista, com a remoção sistemática de todo ponto de vista que não coincidia com o seu'. Connolley, que não estava impondo nada além da precisão factual, foi submetido a restrições editoriais pela Wikipédia e limitado a fazer apenas uma adição por dia. Quando contestou a decisão, o comitê de arbitragem da Wikipédia não deu nenhum peso à sua expertise, tratando-o, um especialista internacional em aquecimento global, com a mesma deferência e atribuindo-lhe o mesmo nível de credibilidade que a seu adversário anônimo – o qual, pelo que se sabia, podia ser um pinguim na folha de pagamento da Exxon Mobil." (pp. 44-5)

Exxon Mobil é uma grande companhia petrolífera norte-americana, que, é claro, não deve ter entre suas prioridades a correta informação da opinião pública sobre a questão do aquecimento global.

Esse excerto ilustra o quanto a distinção entre fato e opinião torna-se a cada dia mais nebulosa nessa nova cultura que está se formando entre as malhas da "rede". "Pontos de vista", meus amigos, não têm o poder de mudar fatos, mas parece que, no mundo da cultura pós-moderna, ninguém sabe ou se importa com isso. Dar a mesma importância às palavras de um especialista e às de um diletante sem qualquer instrução formal na matéria que se mete a discutir, é reconhecer que estamos pouco ligando para a qualidade da informação que consumimos.

Disse acima que conhecimento não é uma questão de democracia. Explico-me: não quero com isso dizer que ele não deve ser democratizado - ele deve, claro, ser democratizado, no sentido de estar acessível a todos, e para isso a internet poderia (eu disse poderia) ser uma ferramenta maravilhosa. Porém, a veracidade de um fato não depende da "opinião" de uma ou de milhões de pessoas, e não deveria ser tratada como se dependesse, que é o que vem acontecendo na sociedade pós-revolução da informação. Há assuntos onde existe espaço para opiniões divergentes; em outros não. Num fórum sobre telenovelas, um participante pode declarar que acha Caminho das Índias ridícula, enquanto outro pode considerá-la uma obra definitiva da teledramaturgia brasileira - cada um tem suas razões para pensar como pensa, e, concordando ou não, devemos respeitar essas razões. Mas, se em vez de telenovela o assunto em pauta for de natureza científica, como no caso do Dr. Connolley versus o "pinguim", aí não se pode dar-se ao luxo de entrar no terreno do "eu acho". Em ciência não existem "opiniões": existem teorias, que, para adquirirem o status de fatos, precisam ser provadas.

Percebo que me foquei na questão que mais me chamou a atenção no livro, porque isso tudo me fez repensar a minha velha antipatia a priori pela noção de especialista, o que significou a necessidade de remodelar diversas ideias que eu tinha há bastante tempo, mas Keen não para por aí. Ele dedica um capítulo todo ao desmoronamento da indústria da música graças à pirataria digital, outro ao perigo do jogo de azar online (potencialmente ainda mais pernicioso que o jogo tradicional em cassinos, por estar acessível 24 horas por dia e a partir de qualquer lugar), e outro, ainda, aos males causados pelo livre acesso de crianças e adolescentes à pornografia na rede (já que nenhum controle parental é cem por cento seguro, e na maioria dos sites a única exigência feita ao usuário é clicar num botão que diz "sou maior de 18 anos"...). O capítulo final chama-se Soluções, e tem exatamente o conteúdo que o título sugere, mas, sem querer ser muito apocalíptico, a maior parte das saídas propostas por Keen para os problemas discutidos nos capítulos anteriores soa-me um tanto ingênua: algumas passam pela adaptação da legislação existente e pela criação de uma nova, capaz de ser aplicável ao meio amorfo e em constante mutação que é a internet - o que, concordo, é da maior importância -, mas a maior parte das soluções sugeridas parecem depender de que o público em geral caia em si e mude de atitude - uma circunstância que tenho dificuldade em acreditar que se concretize. Historicamente, situações extremas somente foram revertidas após terem chegado ao ponto de ruptura - e não me perguntem o que pode representar o "ponto de ruptura" para um mundo onde uma gorda fatia do dinheiro e toda a informação passam por uma internet que lembra muito o Velho Oeste sem lei. Mas uma coisa é possível dizer: ao contrário do que acontece com os grandes problemas ecológicos, por exemplo, onde é lugar comum dizer que "nossos filhos e netos sofrerão as consequências", no mundo da web tudo é tão rápido que não poderemos sequer contar com a chance de passar a bola para as gerações seguintes: a maioria de nós ainda estará por aqui para ver o fim. Seja ele qual for.

quinta-feira, julho 30, 2009

O Delírio de Dawkins

“Dawkins está correto - inquestionavelmente correto - quando propõe que não embasemos a vida em delírios. Precisamos examinar nossas crenças - em especial se formos ingênuos o bastante para acreditar, primeiramente, que não temos nenhuma. No entanto, pergunto-me: quem está, de fato, iludido sobre Deus?” (Alister McGrath)

Antes de se transformar no guru do ateísmo "científico" que se contenta em ser hoje, o biólogo britânico Richard Dawkins foi por muito tempo um dos mais bem-sucedidos dentre os cientistas que se ocupam da delicada e por vezes espinhosa missão de tornar a ciência inteligível para o leitor não especializado. Suas obras de divulgação científica inspiraram e despertaram entusiasmo e curiosidade em muita gente, e, só por isso, ele já seria merecedor de algum crédito. Isso tudo torna ainda mais difícil de compreender o fato de que ele hoje se empenhe, de forma absolutamente fanática e amarga, numa contínua tentativa de dissuadir a humanidade de qualquer tipo de crença na divindade, levantando a bandeira de que "a ciência explica tudo". Com esse objetivo, escreveu um verdadeiro tijolo de mais de 500 páginas, intitulado Deus: um Delírio, onde tenta provar por A mais B que a crença em Deus não passa de uma herança perniciosa e ridícula que ficou de épocas supersticiosas, e que seria melhor extirpar de uma vez, já que, além de inibir o pensamento crítico e obstruir o avanço da ciência, ela se constitui (segundo ele) na "raiz de todo o mal" sofrido pela humanidade. Para dar a resposta necessária, ninguém melhor que um colega de Dawkins (ambos são professores na Universidade de Oxford) que, ateu na juventude, converteu-se ao cristianismo, e, hoje, doutor tanto em biologia molecular quanto em teologia, está preparado como poucos para discorrer sobre o conflito (se é que precisa ser um conflito) entre ciência e fé. Este é Alister McGrath, autor de O Delírio de Dawkins.

Tendo sido durante anos um admirador do trabalho de Dawkins como cientista e divulgador da ciência, McGrath mostra-se perplexo de constatar o quanto seu colega afastou-se da razão que alega defender, com o objetivo de propagandear suas idéias ateístas. Não o critica por ser ateu - pois esse é um direito que assiste tanto a Dawkins quanto a qualquer pessoa, assim como o direito de ter fé, se tal for a sua opção -, mas pela atitude inflexível, intolerante e, surpreendentemente, cheia de dogmas que ele demonstra em seu livro.

Tive o primeiro contato com a obra de Dawkins quando tinha uns 18 anos de idade e encontrei por acaso seu livro O Relojoeiro Cego na livraria da universidade. Na época, eu vivia contando os tostões (não raro, saía de casa só com o dinheiro certo para o ônibus), de modo que não tinha a menor condição de comprá-lo, mas voltei diversas vezes só para ler mais um trecho, sentindo-me cativado pela defesa vigorosa e apaixonada que Dawkins fazia do darwinismo, e que me parecia ser uma prova cabal de que uma atitude científica podia, sim, ser conciliada com a intensidade emocional e, por conseguinte, com uma certa forma de idealismo. Para qualquer pessoa que, sem a obrigação acadêmica ou profissional de fazê-lo, movida apenas pela curiosidade e pelo amor ao conhecimento, haja se dado ao trabalho de estudar de fato a teoria da evolução e de se inteirar do que ela realmente diz, há pouca coisa mais exasperante que ouvi-la ser atacada por pessoas que, nos próprios "argumentos" (?) que usam, entregam o fato de que nunca chegaram sequer a entendê-la - nem querem, pois, caso a entendessem, correriam o risco de começar a achar que ela faz sentido.

Embora isso possa parecer uma desnecessária divagação pessoal, creio que pode ser útil, por ilustrativo, sintetizar aqui a experiência intelectual de um leitor de Dawkins no tocante ao suposto choque "Ciência x Religião". O que há é que sou e fui católico toda a minha vida; sou também um darwinista convicto, e nunca vivi um só instante de conflito devido ao fato de ser ambas as coisas. Para mim, a evolução biológica é um fato além de qualquer contestação possível; a dúvida que ainda paira em torno dela reside somente em ainda estarmos longe de compreender integralmente de que forma ela acontece. O livro do Gênese não precisa (nem deve) ser lido literalmente - trata-se de uma alegoria, e, também, de uma explicação adaptada à compreensão das pessoas da época. Não há nada de intrinsecamente anti-religioso em aceitar a noção de que a natureza segue seu curso, submetida a determinadas leis - uma das quais é a da evolução, que determina que as espécies vivas se transformem, ao longo de milhares ou milhões de anos, a fim de melhorar suas chances de sobrevivência dentro das condições impostas pelo ambiente. Tal noção nada tem de incompatível com a crença em Deus: conforme a expressão extraordinariamente feliz empregada por McGrath, "Deus deu corda ao relógio e, então, deixou-o trabalhar por si". A atitude de certas correntes religiosas (ou, talvez, nem isso: a de alguns indivíduos dentro delas), sim, é anticientífica ao usar a crença como uma fonte de respostas fáceis: quando defrontadas com qualquer mistério ou indagação relacionada a algum fenômeno da natureza, essas pessoas simplesmente declaram que "isso é assim porque Deus quer que seja assim e pronto". Esse tipo de atitude me enoja e revolta. Ninguém agrada a Deus sendo burro, e menos ainda usando o nome d'Ele como desculpa esfarrapada para a própria preguiça de pensar. O que Dawkins faz, infelizmente, é fechar os olhos ao fato de que só alguns extremistas e fanáticos agem dessa forma: a fim de tentar dar consistência a seus argumentos, ele finge acreditar que toda e qualquer pessoa religiosa usa necessariamente sua crença como um álibi para a ignorância voluntária, e que, portanto, fé é incompatível com ciência. Ele se empenha para vender sua idéia de que o verdadeiro cientista deve ser ateu - e, para vendê-la, está disposto a fazer o que for necessário, inclusive manipular informações. Nas palavras de McGrath, "um dos traços mais característicos da polêmica anti-religiosa de Dawkins é apresentar o patológico como o normal, o extremo como o centro, o excêntrico como o padrão. Isso em geral funciona bem para o seu público, que supostamente pouco conhece de religião e, com muita probabilidade, menos ainda se importe com ela. O que, no entanto, não é aceitável nem científico."

E, de fato, nota-se que muitas vezes Dawkins torna-se o que poderíamos chamar um "cego guiando cegos", pois não consegue ocultar que desconhece a coisa que está atacando. Ao contrário de outros autores ateus, como Christopher Hitchens, que pelo menos sabe do que está falando, o autor de Deus: um Delírio mostra-se deploravelmente ignorante em matéria de cultura religiosa. Por tal razão, o maior efeito que seu trabalho atual alcança é o de perpetuar preconceitos - coisa que, a meu ver, deveria estar abaixo da dignidade de qualquer pessoa que se pretenda um cientista. Pintando todos os cristãos - aliás, todos os adeptos de qualquer religião - como fanáticos pervertidos e auto-iludidos, Dawkins age como os homens que o imperador Nero mandava infiltrarem-se pelos mercados e tavernas de Roma, para espalhar rumores de que os cristãos praticavam incesto e canibalismo em suas reuniões secretas - tudo para preparar a opinião pública para uma perseguição em massa contra essa estranha seita. Contra os pontos levantados por Hitchens, é possível ter uma discussão decente; quanto a Dawkins, tudo o que se pode fazer é desejar que ele fosse menos obtuso e tendencioso.

"A visão dawkinsiana da realidade", escreve McGrath, "é uma imagem invertida da concepção encontrada em algumas das seções mais exóticas do fundamentalismo americano". Outra frase certeira. Talvez a coisa mais surpreendente na argumentação de Dawkins, e na visão de mundo por trás dela, seja perceber o quanto ele se tornou dogmático em seu próprio antidogmatismo. Acusa os religiosos de serem "imunes a qualquer argumentação" e de teimarem em manter suas crenças "a despeito da ausência de qualquer evidência - e até mesmo contra ela", mas não parece se dar conta de que faz as mesmas coisas de que acusa os outros. A mim parece que fanatismo algum pode ser bom - não importa que seja fanatismo teísta ou ateísta. Não admira que nem mesmo a maioria dos cientistas que são ateus simpatizem com Dawkins e muito menos queiram ter seus nomes associados, de qualquer forma que seja, ao dele: não se pode querer que um sistema de idéias seja levado a sério, quando alguém que se diz seu representante parece querer que todos os que pensam diferente sejam queimados na fogueira. McGrath menciona que "um respeitável cientista ateu, colega em Oxford, me pediu (...): 'Não julgue todos nós por essa conversa fiada pseudo-intelectual'". Outro cientista, Michael Ruse, igualmente ateu, registrou, e McGrath relata: "Quando João Paulo II escreveu uma carta endossando o darwinismo, a resposta de Richard Dawkins foi simplesmente dizer que o papa era hipócrita, que ele não podia falar genuinamente sobre a ciência e que o próprio Dawkins preferiria um fundamentalista honesto." Evidentemente que preferiria: isso lhe daria excelente motivo para lançar mais farpas contra a Igreja Católica e, por extensão, contra o cristianismo em geral, acusando-o de ser anti-ciência. E, claro, pela ótica de Dawkins, qualquer religioso que se declare favorável à ciência está sendo "hipócrita"...

Não há dúvida de que o mundo estaria melhor sem o fundamentalismo religioso - mas será que seria vantagem substituí-lo pelo fundamentalismo ateu de Dawkins? É realmente digno de lástima que um cientista de tanto mérito se empenhe hoje nesse tipo de "cruzada anti-Deus", ao invés de devotar sua energia e entusiasmo ao progresso e à divulgação da ciência, como fez durante tanto tempo, mas talvez não haja muito o que fazer além de ter esperanças de que Dawkins acabe vendo a luz - não uma luz divina, já que despreza tal idéia (e tem todo o direito de fazê-lo), mas a luz da razão, essa mesma razão que ele tanto defende com palavras e da qual tanto se desvia com suas atitudes.

sábado, março 07, 2009

Alexandre Nevsky

Hoje, finalmente, consegui ver um filme sobre o qual andava curioso há anos. Datado de 1938 e dirigido por Sergei Eisenstein – um dos poucos cineastas da União Soviética a terem feito alguma fama no ocidente, ainda que não toda a que teria merecido –, Alexandre Nevsky é obviamente uma peça de propaganda ideológica, mas trata-se de um daqueles raros exemplares dessa categoria que se mostram capazes de sobreviver ao seu momento histórico e até mesmo ao regime que os produziu, continuando a ser admirados pelas gerações seguintes, por seu valor artístico intrínseco.

O filme trata de um momento-chave da história russa. Em meados do século XIII, a Rússia, que já sofria com repetidas tentativas de invasão por parte dos tártaros ao leste, passa a conviver com outra ameaça, oriunda das pretensões expansionistas do Império Germânico. O exército alemão é encabeçado pelos célebres e temidos cavaleiros teutônicos, cujo característico manto branco adornado por uma cruz negra aparece no filme como um símbolo do Mal. Depois de diversas cidades russas terem se rendido ao invasor, os cidadãos de Novgorod enviam uma mensagem a Alexandre, príncipe de Pereslavl, pedindo que os lidere numa tentativa de resistência. Alexandre, nessa época, tinha apenas 22 anos de idade, mas já gozava de certa fama por ter derrotado os suecos na batalha do rio Neva, em 1240 – episódio que lhe valeu o apelido de Nevsky.

O enredo do filme é simples, sem grandes tortuosidades, e os fãs de épicos recentes como Coração Valente ou Gladiador devem ter em mente que, num filme produzido na Rússia e em 1938, não podem esperar ver batalhas hiper-realistas de encher os olhos como as mostradas nesses filmes; sem a ajuda de efeitos especiais ou outros recursos modernos, os atores precisavam ter muito cuidado, pois mesmo as armas cenográficas utilizadas eram capazes de causar danos sérios, e em vários momentos ao longo do filme essa precaução fica patente nas imagens – ou seja, as cenas de batalha não são espetaculares. O que seduz em Alexandre Nevsky é a solenidade quase exagerada com que celebra o amor à pátria, num momento em que a Rússia se preparava para encarar o que talvez tenha sido a maior provação de sua história: toda pessoa bem informada já estava ciente de que a Alemanha de Hitler se preparava para a guerra, e de que a União Soviética seria um de seus alvos principais, de modo que a história se repetiria. Trabalhando sob a chancela do governo soviético, Eisenstein fez deste filme um apelo para que todo cidadão russo se espelhasse no exemplo do herói semilendário para fazer sua parte no esforço de resistência durante a guerra prestes a estourar. Em vez do Niemetz, o cavaleiro teutônico, a Rússia encararia agora um inimigo ainda mais impiedoso, o nazismo; não cabem aqui considerações sobre o fato de o regime comunista soviético nada ter ficado a dever à Alemanha nazista no quesito assassinato em massa, como se sabe.


É curioso observar como a História dá voltas, e esse é um dos exemplos mais notáveis que conheço. Apenas um ano após o lançamento do filme, ele foi tirado de circulação porque o líder Josef Stalin (1878-1953) havia celebrado um pacto de não-agressão com as potências do Eixo. Ou seja, o inimigo de há pouco era agora um aliado... Mas não por muito tempo, pois em 1941 o pacto foi rompido e os exércitos do Eixo invadiram a União Soviética. A resistência ao agressor germânico voltou a estar na ordem do dia.

E parece que Santo Alexandre Nevsky (sim, ele foi canonizado em 1547 pela Igreja Ortodoxa, e mais tarde reconhecido também pela Igreja Católica) estava de fato olhando por seus compatriotas e animando-os, pois a obstinada resistência dos russos quebrou as pernas do poderoso exército do Reich 
– com alguma ajuda do clima: a exemplo do que acontecera com Napoleão um século e meio antes, também Hitler viu seus planos serem arruinados pela intervenção do "general Inverno". Sem esquecer que o contra-ataque soviético também foi essencial para a vitória dos Aliados, já que foi o exército russo que tomou Berlim em 1945, sepultando de vez as esperanças alemãs de vitória na Segunda Guerra Mundial.

Engraçado eu ter mencionado o fato de Alexandre ter sido canonizado pela Igreja Ortodoxa, pois esse era um lado do personagem que o "patrão" de Eisenstein – o governo soviético dos anos 30 –, com certeza não desejava ver enfatizado: o regime comunista era oficialmente ateu. De fato, em Alexandre Nevsky a Igreja Ortodoxa (religião majoritária na Rússia, e que manteve milhões de devotos fiéis, mesmo tendo ficado na clandestinidade por 80 anos) é "diplomaticamente" deixada de fora: os religiosos que aparecem são representantes da Igreja Católica e são apenas a cereja do bolo de crueldade preparado pelos Teutônicos, abençoando a matança de camponeses pacíficos e outros atos de brutalidade. Para o governo comunista, o ideal seria colocar toda e qualquer forma de religião ou crença no sobrenatural num mesmo e ignominioso cesto, pintando Deus como uma superstição anacrônica que seria melhor abolir de vez – mas ele deve ter percebido que, atacando a Igreja Ortodoxa, seria difícil ganhar a simpatia de muitos russos para a mensagem trazida pelo filme, pois grande parte da população continuava a ser fortemente religiosa, mesmo sendo obrigada a cultivar sua fé às escondidas
. Assim, o governo contentou-se em demonizar a Igreja Católica, que, mesmo antes da Revolução de 1917, tinha poucos fiéis no país e parecia uma coisa "distante". Pode-se considerar isso como uma concessão.


Além disso, traços (na verdade, "traços" dá a idéia de algo demasiado sutil, mas não encontro palavra melhor) do comunismo e sua visão das coisas aparecem ao longo de todo o filme: Alexandre, embora seja um príncipe, trabalha ombro a ombro com seus súditos mais humildes, pescando no lago Plestcheveio; quando ele chega a Novgorod, é recebido como herói salvador pelo povo humilde, mas repudiado pelos ricos, que de bom grado entregariam seu país aos invasores se a margem de lucro fosse suficientemente alta; durante a preparação para a guerra, um velho ferreiro doa todas as armas e armaduras que tem em sua oficina pelo bem da causa; dois guerreiros russos, Vassili e Gavrilo, que no começo são rivais pelo amor de uma mesma jovem, abraçam-se fraternalmente antes de entrarem em combate com os alemães – ou seja, o interesse da Mãe Pátria deve passar por cima de diferenças pessoais. Não há sutileza: o filme é uma obra fortemente ideológica e não faz nenhuma tentativa de ocultar isso. A própria música, por vezes exótica para ouvidos ocidentais, é claramente feita para mexer com as emoções, e em vários momentos acaba por causar uma reação empolgada no espectador, mesmo a contragosto: uma vontade de pegar uma lança e ir ajudar Alexandre e seus seguidores a expulsar o invasor.

Mesmo com todo o doutrinarismo político existente por trás de sua criação, Alexandre Nevsky ainda é um filme interessante. A história fascina por tratar de uma das infindáveis facetas da eterna questão do heroísmo, além de falar sobre esforço e superação, de modo que sempre terá o que ensinar a pessoas de qualquer lugar ou época.

Uma curiosidade: numa pesquisa realizada no ano passado por um jornal russo, apurou-se que, para a maioria da população do país, Alexandre Nevsky ainda é a personalidade mais importante de sua história, superando por uma boa margem os próprios Lenin e Stalin (!). Seria isso um sinal de que os russos não têm vergonha de reconhecer sua necessidade de ter heróis? E nós?...

terça-feira, dezembro 30, 2008

Hellboy - o Exército Dourado

Nunca li as histórias em quadrinhos de Hellboy, mas vi o primeiro filme do personagem, lançado em 2004, e o fato é que gostei, de modo que, ao ter notícia de que estava saindo do forno o segundo episódio, registrei logo na minha agenda a intenção de vê-lo. Ainda mais curioso fiquei ao saber que quem assinava a direção era o mexicano Guillermo del Toro, responsável por A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006), duas extraordinárias produções espanholas que apostam no bizarro e na fantasia inseridos em cenários realistas - não chegaria a classificá-los de "cinema alternativo", mas é uma surpresa que o diretor de ambos seja versátil ao ponto de também assumir a frente de produções hollywoodianas de aventura. Soube também que Del Toro já havia dirigido o primeiro Hellboy, fato esse no qual não me liguei quando o vi.


Nesse segundo filme, o excelente Ron Perlman (o monge corcunda de O Nome da Rosa e um dos guerreiros pré-históricos de A Guerra do Fogo) volta ao papel do herói Hellboy, ou "Anung un Rama", seu nome verdadeiro. Sua origem, mostrada no primeiro filme, é como segue: nos dias da Segunda Guerra Mundial, um grupo de ocultistas a serviço da Alemanha nazista (Hitler realmente tinha um enorme interesse por ocultismo, ao ponto de ter assessores exclusivamente dedicados a pesquisar esse campo) realiza um ritual que abre uma brecha entre a Terra e o inferno, esperando conseguir um poder que garanta sua vitória na guerra. Uma missão dos Aliados chega a tempo de impedir que o processo se complete, mas "algo" escapa de lá para cá: um "demônio-bebê" de pele vermelha, chifres, cauda longa, e cuja mão direita, gigantesca, é feita de pedra. A bizarra criaturinha ganha dos soldados o apelido de Hellboy (o "Garoto do Inferno"), é adotada por um dos integrantes da missão, o cientista Trevor Broom, e educada como uma criança humana.

Sendo um demônio, Hellboy naturalmente não envelhece no mesmo ritmo que um ser humano, de modo que atinge o apogeu de sua força cerca de 60 anos depois de vir parar na Terra - ou seja, mais ou menos nos dias de hoje. Por esse tempo, virou um gigante de bem mais de dois metros de altura (a enorme mão de pedra finalmente tornou-se proporcional ao resto), força e resistência prodigiosas, apetite insaciável e coração de ouro: adora crianças, animais, e seu senso moral é o de um escoteiro. Integra o "grupo de choque" do Departamento de Defesa e Pesquisa Paranormal, que se dedica a combater ameaças sobrenaturais, sob a coordenação de seu pai adotivo, o Prof. Broom, e tendo como companheiros a namorada, a pirocinética Liz Sherman (Selma Blair - ver os dois lado a lado lembra irresistivelmente o conto de fadas A Bela e a Fera) e o melhor amigo, o homem-peixe Abraham "Abe" Sapien (Doug Jones).

O segundo filme começa com um flash de uma história lida pelo Prof. Broom para Hellboy quando este ainda era criança - a história de uma guerra entre os seres humanos e as criaturas mágicas, lideradas pelo rei elfo Balor, e que teria tido lugar muitos séculos atrás. Por encomenda do rei, um mestre-ferreiro goblin construiu um exército de golems (algo como robôs animados por magia ao invés de eletrônica), 70 vezes 70 guerreiros dourados gigantescos e indestrutíveis, impossíveis de serem detidos. Sob as ordens de Balor, o Exército Dourado causou tamanha carnificina entre os humanos, que a guerra parou: os homens estavam demasiado aterrorizados, e o rei elfo, por demais arrependido. Celebraram então um acordo, pelo qual os homens ficariam com as cidades, e os elfos e demais seres mágicos, com as florestas. Balor fez uma coroa mágica e a dividiu em três partes, guardando duas e dando uma aos humanos como penhor da trégua: só com a coroa completa seria possível comandar o Exército Dourado, que, até ser novamente chamado, ficaria dormindo sob a terra. Contudo, o filho do rei, o príncipe Nuada Lança-de-Prata, não aceitou isso, porque não confiava nos humanos, e partiu para o exílio, jurando voltar no dia em que seu povo mais precisasse.

E aparentemente, Nuada (Luke Goss) é de opinião que esse dia chegou, pois agora, em nossa época, ele está de volta e disposto a fazer o que for preciso para reunir as três partes da coroa, e a última coisa com que se importa é quantos humanos terá de matar para isso - pois afinal, se conseguir seu objetivo, será mesmo para varrer de uma vez por todas nossa espécie da face do planeta. O pior é que não podemos deixar de dar certa dose de razão ao príncipe elfo: "Os humanos esqueceram os deuses, destruíram a terra, e para quê? Estacionamentos, centros comerciais! A ambição criou um vazio no coração deles que nunca será preenchido. Eles nunca terão o bastante! (...) Eu voltei do exílio para começar uma guerra, e reclamar a nossa terra, nosso direito!" Nuada, sob um certo ponto de vista, tem motivações justas, que lhe conferem algum grau de complexidade e o fazem, de longe, o personagem mais interessante do filme: não há nada pior que um vilão que só está ali porque toda história precisa de um vilão, mesmo que seja um que de vez em quando dá uma olhadinha para a câmera e diz: "Hehehe... Como eu sou mau!" Graças a Nuada, Hellboy II está livre de pagar esse mico.



E, claro, para fazer o que pretende, o príncipe terá que enfrentar o pessoal do Departamento, sendo que, desta vez, Hellboy, Liz e Abe contam com o reforço do Dr. Johann Krauss, um homem cujo corpo foi totalmente destruído, restando um ser feito exclusivamente de ectoplasma, o material hipotético de que seriam feitos os fantasmas. Não há surpresas da parte do grupo de heróis, a menos que se considere o que acontece com Abe, o homem-peixe de fala calma e gestos comedidos, cultíssimo, apreciador de literatura e música clássica, que sempre foi o cérebro da equipe, enquanto seu amigo Hellboy responde pelos músculos. Apaixonado pela princesa Nuala (Anna Walton), irmã do vilão, Abe se vê as voltas com sentimentos desconhecidos, que o levam a agir de maneiras que teria considerado inimagináveis em qualquer outra situação. Por conta disso, algumas cenas são bem engraçadas, e outras, dramáticas, embora de uma maneira manjadíssima.

No mais, é interessante assistir a este filme tendo em mente quem é o diretor, quando já se conhece e admira o trabalho de Del Toro. Ele também assina o roteiro, em parceria com Mike Mignola, veterano argumentista de quadrinhos e criador de Hellboy. O enredo, envolvendo a interação entre a humanidade e um mundo oculto habitado por criaturas fantásticas, faz lembrar O Labirinto do Fauno, assim como o visual das cenas em que esse mundo é mostrado - dando-se um desconto para o fato de que, aqui, Del Toro conta com a tecnologia mirabolante a serviço da indústria norte-americana do cinema, enquanto no outro filme teve de se virar com um aparato bem mais modesto, e eu não chegaria a considerar esse up tecnológico uma vantagem: quando se quer mostrar criaturas fabulosas na tela, um excessivo realismo turbinado por programas de computador de última geração é antes prejudicial que benéfico. Afinal, uma criatura fantástica deveria ter um visual ligeiramente irreal. Por conta disso, o Fauno de O Labirinto... continua a me agradar muito mais que qualquer dos seres esdrúxulos que Hellboy, Abe e o Dr. Krauss encontram no Mercado Troll, numa das cenas mais extravagantes do filme.

Por mais que pareça (e, no fundo, seja) um mero filme-pipoca, sem outras ambições além de dar lucro nas bilheterias e oferecer ao espectador duas horas de diversão adrenal, Hellboy toca num ponto interessante, ao negar de forma absoluta a crença no determinismo - que, para quem não sabe, é a noção, muito difundida entre as elites intelectuais dos séculos XVIII e XIX, de que cada pessoa é exatamente aquilo que nasceu para ser, e, não importa o que aconteça, nunca será nada diferente disso. Um exemplo clássico é o romance Oliver Twist, de Charles Dickens, onde o garoto Oliver continua bom, educado e honesto, apesar de ter crescido num orfanato, exposto a tratamento desumano, e depois vivido vários meses entre ladrões e todo tipo de pilantras: a crença de Dickens era a mais aceita na época, a de que ser uma pessoa decente (ou um bandido nato) está nos genes, ou no "sangue", como se dizia então. Ou seja, o homem não seria um produto do meio, mas tão somente da genética, o que tornaria a educação, em princípio, algo bem pouco importante. Hellboy ilustra a crença contrária: a de que até mesmo um demônio, um criatura do puro mal, gerada com o único objetivo de disseminar o caos e a perversidade, pode tornar-se bom, se for educado para o bem.

Observação de última hora: acaba de chegar às locadoras o filme O Orfanato, produção espanhola dirigida por J.A. Bayona e onde Del Toro participa como produtor executivo, além de (e talvez isso seja o mais importante) emprestar seu nome para a divulgação, pois a primeira coisa que aparece nos créditos iniciais é Guillermo del Toro presenta..., o que certamente atrairá um punhado de espectadores já familiarizados com seu nome e admiradores de suas brilhantes bizarrices. Sinal de que o cara não abandonou de vez suas raízes e ainda podemos esperar mais novidades suas no campo do cinema fantástico não-Hollywood. Gostei de saber disso.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Construtores de Continentes

“O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos um mínimo de auto-estima.” (Nelson Rodrigues)

Em primeiro lugar, não, eu não sou fã de Nelson Rodrigues. Concordo que todo escritor que tenha a pretensão de dar alguma profundidade ao que escreve não pode furtar-se, por vezes, a ter de retratar as torpezas e o mal inerente aos seres humanos, mas tenho para mim que isso deve ser feito quando necessário. No meu entender, um escritor que escolhe sempre e deliberadamente como tema o que existe de pior na humanidade, não está contribuindo para criar nada de bom, e não terá a minha admiração. Excesso de idealismo? Talvez; podem chamar do que quiserem.

Mas, mesmo não simpatizando com o dramaturgo carioca, não vou tirar os méritos que ele tenha, e um deles é o de ter forjado um punhado de frases certeiras e perfeitas sobre vários assuntos. A que escolhi para abrir este artigo é minha preferida, e tem a ver com meu tema.

Dias atrás, visitando a Feira do Livro de Porto Alegre, tive a grata surpresa de encontrar numa caixa de saldos o livro Construtores de Continentes, do autor norte-americano L. Sprague de Camp, que já havia lido nos meus saudosos 14 ou 15 anos, época do meu maior furor no que se referia à ficção científica. Batido pela nostalgia, comprei o livro por um valor simbólico qualquer e, no trem mesmo, durante a viagem de volta para São Leopoldo, comecei a relê-lo, experimentando uma sensação muito semelhante à de reencontrar um velho amigo.

Dá um certo desespero perceber que, não bastasse o fato de que não viverei o suficiente para ler todos os livros que gostaria (e ver todos os filmes, estudar todos os assuntos, visitar todos os lugares...), ainda há esse outro fato: o de que muitos livros, dentre os que já li, mereceriam, se fosse possível, uma segunda leitura, à luz de tudo o que aprendi e vivi desde meu primeiro contato com eles. É o caso de Construtores de Continentes, pois a nova leitura me levou a pensar coisas que não ocorreram ao garoto que eu era 20 anos atrás.

Lyon Sprague de Camp (1907-2000) foi o que poderíamos chamar de escritor polivalente, pois, além de ficção científica, escreveu fantasia, romance histórico, mistérios, poesia e sabe Deus o que mais. Foi um nome importante durante a Era de Ouro da ficção científica, e amigo pessoal de vários outros autores famosos, entre eles Isaac Asimov, que, aliás, prefaciou este livro. Construtores de Continentes não é um romance - inclui duas novelas independentes entre si, embora ambientadas no mesmo futuro imaginário. A primeira passa-se em 2137, chama-se Moto-contínuo, e narra as aventuras de Felix Borel, um trambiqueiro profissional que decide tentar a sorte em Krishna, um planeta de descoberta relativamente recente, habitado por uma raça espantosamente semelhante aos terráqueos, só que com algumas características insectóides, e com um nível tecnológico pouco mais que medieval. Justamente por terem, até então, convivido pouco com os terráqueos, os krishnianos ainda são passíveis de serem enganados por golpes em que, na Terra, ninguém mais cai há muito tempo - ou seja, o planeta é um paraíso para trapaceiros como Borel, que, no entanto, vai descobrir, às suas próprias custas, que nada é tão fácil quanto parece.

A segunda novela, que dá título ao livro, começa em 2153 e fala sobre um projeto que está sendo implementado para criar um novo continente no Atlântico, entre a América do Sul e a África. Por meio de engenharia tectônica, os cientistas e técnicos do século XXII esperam aumentar o espaço vital disponível para a humanidade na Terra, independentemente da eventual migração para outros planetas.

Agora é que chegamos ao ponto verdadeiramente importante... Por mais interessantes que sejam os enredos dessas duas histórias, não são elas que mais chamam a atenção dos leitores brasileiros, e sim um "detalhe" do pano-de-fundo: no futuro imaginado por De Camp, os Estados Unidos decaíram de sua posição de liderança mundial, que passou a ser exercida por uma nova superpotência... Imaginam qual? Sim, meus amigos, o Brasil.

Ao contrário de muitos outros escritores (e dos norte-americanos em geral), De Camp realmente conhecia alguma coisa sobre o Brasil - no texto original em inglês apareciam diversas palavras em português, que o tradutor teve a boa idéia de assinalar para nossa referência. O departamento de abrangência mundial que cuida das idas e vindas dos viajantes espaciais chama-se Viagens Interplanetárias - assim mesmo, em português, porque a coisa toda é controlada e administrada por brasileiros. De Camp não teria incluído isso em seus livros se não acreditasse pelo menos na possibilidade de tais coisas - e ele era norte-americano... E nós, que somos brasileiros? Nós acreditamos que possamos chegar lá??

É difícil dizer até que ponto o nosso povo criou o autoconceito que tem, e até que ponto simplesmente comprou a imagem de si mesmo que é vendida pelos "gringos", mas o que se observa é que o brasileiro, quase sempre, acredita que sua função no mundo é simplesmente a de ser o cara alegre, hospitaleiro e "caloroso", e que a vocação do Brasil é a de um "país-colônia de férias", para onde americanos, europeus, japoneses e demais habitantes do "Primeiro Mundo" vêm quando querem praia, sol e festa - porque, tanto na visão desses estrangeiros quanto, infelizmente, na dos próprios brasileiros, tudo o que o nosso país tem para oferecer são praia, sol e festa! Tem sido assim por tanto tempo, que é difícil para a maioria dos brasileiros encarar a possibilidade de fazerem parte de algo sério e importante, ou de que seu país possa um dia ocupar uma posição de destaque no cenário mundial. Pois isso exigiria um esforço sério e comprometido, cujos resultados só seriam visíveis a longo prazo, e, ainda mais importante, exigiria que acreditássemos ser capazes. Seria necessário que víssemos em nós mesmos força de vontade e inteligência (qualidades que, infelizmente, não estamos acostumados a associar ao nosso próprio povo como um todo), e capacidade latente para fazer mais do que apenas organizar o maior carnaval do mundo. Quero muito acreditar que, se não a nossa geração, a de nossos filhos ou netos há de acordar desse torpor de séculos e se dar conta de que tudo o que qualquer outro povo foi (ou será) capaz de realizar, também está ao nosso alcance, desde que queiramos e acreditemos.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Pinceladas clássicas

Houve tempos em que a cultura geral era vista como um dos componentes mais importantes da bagagem de conhecimento de uma pessoa. Não fazia diferença se você estivesse estudando para ser um advogado, médico, engenheiro, administrador... Era considerado indispensável ter algum conhecimento de História, literatura, mitologia e campos afins, porque não era concebível que uma pessoa que se pretendia instruída não soubesse ao menos o básico sobre as raízes culturais de nossa civilização e suas grandes realizações. Isso foi antes da era da especialização, cujos amargos frutos a atual geração está colhendo: a sociedade incentiva cada um a se aperfeiçoar em sua própria profissão e ignorar o resto do universo. Não estou dizendo que a especialização seja ruim em si mesma, mas ela pode estimular a fragmentação do conhecimento - e esta, sim, é uma praga em todos os sentidos, um poderoso agente perpetuador da ignorância.

No tempo em que um pouco de conhecimento clássico era considerado parte essencial do cabedal de qualquer pessoa que tivesse atingido um determinado grau de instrução, expressões como estas abaixo eram usadas, não largamente, mas com uma certa freqüência, em situações as mais diversas: um discurso numa festa, uma defesa judicial, um artigo que se enviava para a página de "opinião do leitor" num jornal... As pessoas podiam usá-las porque tinham cultura para tanto, e também porque podiam ter confiança de que seus ouvintes ou leitores as compreenderiam. Hoje, com exceção de um punhado das mais populares ("força hercúlea", "presente de grego", "agradar a gregos e troianos"), essas figuras de linguagem estão em extinção, o que eu acho realmente uma pena - elas deixavam mais interessantes uma série de situações cotidianas. Como um exercício agradável, fiz um pequeno apanhado de algumas delas, com a explicitação de seus significados. Ordenei-as numa seqüência temporal dos eventos que deram origem a cada uma, dos mais antigos para os mais recentes.

1. O leito de Procusto: Damastes era um salteador de estrada que aterrorizava os arredores da cidade grega de Elêusis. Entediado de apenas roubar e matar, igual a todos os outros bandidos, ele inventou uma variação: quando um viajante lhe caía vivo nas mãos, era amarrado ao seu leito de ferro e "adaptado" ao tamanho deste: os mais altos tinham um pedaço das pernas cortado, enquanto os mais baixos eram violentamente esticados com cordas até ficarem do comprimento do leito. Isso valeu a Damastes o apelido de Procusto ("o Estirador"). Essa revoltante diversão terminou com a chegada do herói Teseu, que deu um fim ao bandido infligindo-lhe o mesmo tratamento que ele dera a tantos infelizes. Em lembrança a essa lenda, a expressão "leito de Procusto" designa algum padrão rígido e arbitrário no qual todos são forçados a se enquadrar.

2. O pomo da discórdia: Conta-se que, por ocasião do casamento do herói Peleu e da nereida Tétis (que viriam a ser os pais do célebre Aquiles), todos os deuses haviam sido convidados, exceto Éris, a Discórdia, que foi deixada fora da lista justamente para evitar brigas na festa. Não adiantou: despeitada por não ter sido convidada, Éris apareceu na festa, jogou uma maçã ("pomo") de ouro entre as deusas, e desapareceu, sem dizer uma palavra. No pomo estava gravada uma frase: "À mais bela". Foi o suficiente. Imediatamente três das principais deusas começaram a reclamar o prêmio: Hera, esposa do deus supremo, Zeus; Atena, filha de Zeus e deusa da sabedoria; e Afrodite, também filha de Zeus, deusa do amor. O papel de juiz coube ao pastor Páris, na verdade filho de Príamo, rei de Tróia, que deu a vitória a Afrodite - mas não fazia muita diferença, pois, qualquer das três que escolhesse, ele ganharia a inimizade mortal das outras duas, como de fato aconteceu. A expressão "pomo da discórdia" pode significar qualquer coisa, concreta ou abstrata, que cause disputas acirradas. Uma observação: essa história, como se viu, apresenta Páris já adulto numa época em que Aquiles ainda não havia nascido, enquanto outros episódios da saga da Guerra de Tróia sugerem que a diferença de idade entre os dois não era maior do que alguns anos. Discrepâncias cronológicas são comuns em ciclos lendários, já que eles aglutinam uma série de histórias que, na origem, eram independentes umas das outras.


3. O calcanhar de Aquiles: Esta é outra daquelas expressões de origem clássica que deverão sobreviver, pois é de uso tão comum que acaba por se auto-alimentar: muita gente a conhece e usa, mesmo sem saber quem foi Aquiles. Como vimos, o tal cara era filho de Peleu, rei da Tessália e famoso herói, e da ninfa marinha Tétis. Conta-se que esta última, desejando fazer o filho imortal, mergulhou o bebê no rio Estige, o que o tornou invulnerável - com exceção do fatídico calcanhar, por onde a mãe o estava segurando e que, por isso, não foi tocado pela água milagrosa. Adulto, Aquiles veio a ser o maior guerreiro grego e fez de seu nome uma lenda durante a Guerra de Tróia. Eventualmente, ele se apaixonou por Polixena, uma das filhas do rei Príamo, e, para poder desposá-la, ofereceu-se para usar sua influência entre os gregos para conseguir que se estabelecessem negociações de paz. Então, durante uma reunião de negociação (0u, segundo outros, já em seu casamento), Aquiles foi ferido no calcanhar, seu único ponto vulnerável, por uma flecha envenenada atirada por Páris - que era covarde, mas ótimo arqueiro - e morreu. Claro que isso pôs fim às esperanças de paz: a guerra foi retomada e, ao fim de mais um ano, Tróia caiu. "Calcanhar de Aquiles", como a história deixa óbvio, significa, simplesmente, um ponto fraco em alguém ou alguma coisa. O curioso nisso tudo é que o detalhe da invulnerabilidade de Aquiles é criação de algum poeta anônimo em um período já relativamente tardio da História grega, pois é em vão que se procurará por qualquer menção a ela na Ilíada de Homero. O Aquiles de Homero usa uma armadura (quase um canto inteiro do poema é dedicado a narrar sua forjadura pelo deus Hefestos) e chega a sofrer um ligeiro ferimento em combate.

4. A teia de Penélope: Alguns anos após chegar a notícia de que a Guerra de Tróia havia acabado, Ulisses (ou Odisseu), rei da ilha grega de Ítaca, ainda não havia retornado à sua terra, nem havia qualquer notícia sobre seu paradeiro. Muitos já o davam como morto, acreditando que tivesse perecido no mar durante a viagem de volta. A rainha Penélope, porém, mantinha a esperança de ver o marido retornar, e por isso recusava obstinadamente as propostas de casamento que recebia de diversos nobres da ilha - todos de olho no trono. Conforme o tempo passava, a pressão para que escolhesse um novo marido aumentou, e a rainha arquitetou uma artimanha: anunciou que faria sua escolha depois que terminasse de tecer a mortalha de seu sogro, Laertes (será que era normal, naquela época, tecer mortalhas para pessoas vivas?). E, para ganhar mais tempo, ela desmanchava à noite a parte tecida durante o dia. Uma "teia de Penélope", então, é aquele trabalho que está sempre sendo feito, mas nunca é concluído.

5. Vitória de Pirro: Pirro do Épiro foi coroado rei da Macedônia em 287 a.C. Além de ter sobre os ombros o pesado encargo de governar um reino e comandar um exército que ainda sonhavam com a figura semidivina de Alexandre, ele também teve de se preocupar com a ameaça representada por certa cidade italiana que, até então pouco importante, estava agora procurando se impor como uma nova potência na bacia do Mediterrâneo: Roma. Bom estrategista e contando com uma arma secreta - elefantes de guerra e arqueiros treinados para atirar do alto do lombo dos paquidermes -, Pirro venceu os romanos por duas vezes no campo de batalha. Porém, mesmo na derrota, as destemidas legiões romanas nunca deixavam de mostrar ao inimigo de que matéria eram feitas: essas vitórias custaram tantas baixas, que o rei teria declarado: "Mais uma vitória como essas duas, e nós, os vencedores, é que teremos que oferecer nossa rendição aos vencidos!" Daí surgiu a expressão "vitória de Pirro", que significa uma vitória obtida a um custo excessivamente alto, ao ponto de não valer a pena.

6. Paz cartaginesa: Outros, além de Pirro do Épiro, desafiaram Roma quando esta ainda era uma potência "emergente", como diríamos hoje. Destes, a mais digna de nota, e a que mais perto chegou de obter a vitória, foi sem dúvida Cartago, cidade de origem fenícia situada no norte da África, e que, já independente de qualquer obrigação para com os reinos fenícios do leste, enriqueceu muito graças ao comércio marítimo no Mediterrâneo. Roma e Cartago eram, portanto, duas cidades poderosas, procurando ampliar suas esferas de influência numa mesma região. O resultado não surpreendeu: as duas entraram em choque, e não foi uma vez só. As assim chamadas Guerras Púnicas duraram de 264 a 241, de 218 a 201 e de 149 a 146 a.C. Do ponto de vista militar, os romanos, formidáveis num combate de infantaria, eram medíocres como marinheiros - já com os cartagineses, a recíproca era verdadeira. Isso criava um certo equilíbrio que pode explicar a longa duração das duas primeiras guerras. No entanto, e apesar de Cartago ter produzido dois dos mais brilhantes generais da Antigüidade - Amílcar Barca na Primeira Guerra Púnica, e seu filho, Aníbal, na Segunda - ambas terminaram com vitórias romanas. E, fosse pela falta de outro comandante do mesmo calibre, ou porque Roma evoluíra muito em matéria militar no período após a Segunda Guerra Púnica, o fato é que a Terceira foi breve e decisiva. No verão de 146 a.C., os romanos finalmente tomaram Cartago. Todos os homens foram mortos; mulheres e crianças, escravizadas. Os vencedores foram metódicos em se certificar de que nenhuma pedra ficasse sobre outra na cidade, e depois espalharam sal sobre os destroços e em volta deles, para que nem capim crescesse mais ali. Brutal? Sem dúvida, mas, se Cartago tivesse saído vitoriosa, Roma teria tido o mesmo destino. A verdade é que ambos os lados sofreram o diabo nessas guerras, e qualquer um que vencesse no final iria querer ter a certeza de ter-se livrado do outro de uma vez por todas. Desse sangrento episódio ficou a expressão "paz cartaginesa", que significa a paz obtida mediante a completa aniquilação do inimigo.

terça-feira, abril 15, 2008

Literatura Fantástica

"Trust the tale, not the teller!" (D.H. Lawrence)

Esta tarde passei duas horas muito agradáveis participando da aula inaugural da oficina literária O Fantástico no Conto, ministrada por Maurício Chemello, mestre em Letras, na livraria/café Letras & Cia (Av. Osvaldo Aranha, 444). Adoraria poder participar de todos os encontros, que acontecerão até fins de junho, sempre às terças-feiras, mas, infelizmente, trabalho no interior e geralmente fico de segunda a sexta-feira longe de Porto Alegre. Pude estar presente à aula inaugural (aberta a todos os interessados, sem necessidade de inscrição) por estar de férias no momento. Ao me despedir do Maurício, sugeri que promova uma oficina aos fins de semana, o que seria ótimo para diversas pessoas que gostariam de participar e têm o mesmo problema que eu.

Sendo eu um graduado em Letras, não sou estranho à nomenclatura particular da Teoria Literária, mas, como, na faculdade, o currículo dedicava pouquíssimo espaço à literatura fantástica, saí desta aula com algumas noções novas. Aprendi, por exemplo, que o que comumente chamamos de literatura de fantasia (exemplo: todas as sagas heróicas ambientadas em mundos próprios e/ou envolvendo seres imaginários) é conhecido, dentro da Teoria Literária, como realismo mágico. Imagino que a palavra realismo, aí, aponte para o fato de que essas histórias descrevem uma determinada realidade - não a nossa, mas uma realidade - onde as coisas acontecem de modo a serem coerentes com a lógica interna desse universo próprio. Já o conto fantástico, assunto propriamente dito da oficina, é aquela história que, em princípio, retrata a realidade cotidiana - onde o autor introduz algum elemento incomum, inusitado, inesperado, que vai contra a ordem "normal" das coisas, podendo, ou não, ter caráter sobrenatural. Forçando um pouco (não muito) essa definição, poderíamos até dizer que todo conto é fantástico!... Pois toda história, para existir, precisa envolver um conflito - algo que perturba o andamento da vida cotidiana -, sendo que o enredo falará basicamente das ações dos personagens com o objetivo de restabelecer o equilíbrio. Isso se aplica tanto a Os Três Porquinhos como a Guerra e Paz; é um princípio universal. Daí temos que, se for para escrever uma história apenas narrando fatos comuns do dia-a-dia, onde nada de diferente acontece, melhor não escrevê-la. Por outro lado, se, em meio ao cotidiano, destaca-se um fato qualquer digno de ser narrado, isso não encaixa a história na definição acima? Pois!...

Claro que sabemos que não é bem assim, mas não dá pra resistir a fazer um pouco de "terrorismo" contra aquelas criaturas cansativas que gostam de torcer o nariz para livros, filmes, etc., dizendo que são "inverossímeis", como se isso fosse um defeito...

Como "tema" para a próxima aula, da qual, infelizmente, já não poderei participar, o Maurício nos recomendou ler a coletânea de contos O Livro de Areia, do argentino Jorge Luís Borges, um grande autor do conto fantástico e também ensaísta, que vem a ser um dos (inúmeros) escritores com os quais já estou há muito tempo devendo a mim mesmo um contato mais aprofundado. Mesmo não podendo seguir a oficina, pretendo fazer o tema: depois escrevo aqui sobre o livro.

Para pensar: cá entre nós: para que a literatura (ou, se pensarmos bem, todas as artes) serviria, se nada mais pudesse fazer do que copiar a realidade?

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Henrique V

A peça Henrique V, de William Shakespeare (1564-1616), começa com um pedido de desculpas. O coro, ao introduzir o tema, roga ao público que seja indulgente, já que é impossível, no acanhado espaço de um teatro (uma "rinha de galos", como diz o texto) e com um elenco de número limitado, reproduzir de forma digna a grandiosidade dos eventos que vão ser narrados. Segue-se uma exortação, pedindo aos espectadores que usem a imaginação para transformar aquele modesto palco nos vastos campos da França, para visualizar os cavalos quando estes forem mencionados, e para multiplicar em grandes exércitos o escasso punhado de atores vestidos de soldados. No filme baseado na peça, lançado em 1989, essa indulgência é muito menos necessária, pois as amplas possibilidades novas a serviço do cinema permitem recriar as cenas narradas de uma forma até que bem satisfatória, pelo menos para os olhos do espectador moderno. Mesmo assim, o coro (no filme, reduzido a uma única voz, a do excelente Derek Jacobi) ainda pede por indulgência – talvez para preservar a atmosfera teatral, ou apenas porque seria uma pena suprimir esses belos versos. Numa avaliação do conjunto, de qualquer forma, coisas como cenários, figurinos e uma boa produção, embora importantes, são secundárias: o essencial é a força inigualável do texto de Shakespeare, e essa eu acredito que permaneça relativamente intacta, apesar de muitos dos diálogos originais da peça terem sido adaptados para um inglês mais próximo do que se fala hoje. Vi o filme pela primeira vez em VHS, poucos anos depois de seu lançamento; dias atrás, relendo meu post sobre o livro O Marechal das Trevas, a breve menção que fiz dele me trouxe a vontade de revê-lo (adquiri o DVD há algum tempo) e de ler a peça, o que nunca havia feito. O resultado disso tudo está aqui.

Uma observação: embora eu domine o inglês, os escritos originais de Shakespeare são praticamente outra língua. Os quatro séculos de lenta e gradual transformação (as línguas nunca param de mudar), mais os floreios e imagens poéticas dos quais o autor fazia largo uso, tornam sua leitura um desafio, de modo que evitei morder mais do que podia mastigar: achei melhor ler a peça em tradução.

Henrique V é a parte final de uma quadrilogia que também inclui Ricardo II, Henrique IV, parte 1 e Henrique IV, parte 2 – mas não se preocupem, pois não é indispensável conhecer aquelas peças para poder apreciar esta. Retratado em Henrique IV, parte 2 como um adolescente turbulento e indisciplinado, mais interessado em prazeres irresponsáveis que em aprender a ser rei, Henrique V parece ter sofrido uma transformação radical com a chegada da idade adulta e sua coroação, em 1413, aos 27 anos, pois foi considerado, em sua época, um monarca competente, corajoso e dotado de múltiplos e variados talentos. E com uma ambição acima de todas as outras:

Rei Henrique:

Partamos, pois, meus caros compatriotas.
Nas mãos de Deus ponhamos nossa força
e demos logo início à expedição.
Alegres, para o mar! A guerra avança;
só serei vosso rei se o for da França.

(Ato II, Cena II)

A pretensão de Henrique ao trono da França era baseada em laços sanguíneos derivados de antigos casamentos políticos entre as famílias reais inglesa e francesa, e ele já havia, antes disso, reivindicado seu suposto direito por meios diplomáticos – só que os franceses, é claro, não iriam, de livre vontade, entregar o poder supremo de seu país a um monarca estrangeiro, fosse herdeiro de sangue ou não, e menos ainda em se tratando precisamente do rei da Inglaterra, rival da França desde os primórdios da história das duas nações. Sem esquecer, ainda, que estava-se em plena Guerra dos Cem Anos, que foi mais como uma sequência de diversos períodos de guerra intercalados por intervalos de uma paz frágil (e bota frágil nisso). Para negar a petição de Henrique, os franceses invocaram a Lei Sálica, do século V, que, entre muitos outros assuntos, tratava de direitos de sucessão e herança. Conforme essa lei, mulheres não podiam herdar bens imóveis: nem terras, nem tampouco casas, castelos etc. Numa interpretação extensiva, isso significava que elas também não podiam herdar títulos de nobreza (já que estes se ligavam estreitamente à posse da terra), incluindo o mais alto de todos os títulos, a realeza. Como, portanto, mulheres não podiam herdar a coroa (segundo essa interpretação), isso, por consequência, retirava a legitimidade de qualquer candidato ao trono que não fosse ligado à família real por linha masculina – e Henrique era parente dos reis franceses somente por intermédio de ancestrais femininas. Acontece que essa lei nunca havia sido aplicada com muito afinco até 1328, quando outro rei inglês, Eduardo III, havia feito a mesma reivindicação – que foi negada com o mesmo argumento. Ou seja, Henrique poderia alegar que os franceses só se lembravam da existência da Lei Sálica quando lhes convinha. Em adição a isso, o arcebispo de Canterbury, seu conselheiro, asseverou que essa lei, em sua origem, só vigorava na região de Meissen, na atual Alemanha, entre os rios Sala (e daí o nome de Lei Sálica) e Elba, e que tal região só se tornou possessão francesa sob o imperador Carlos Magno, séculos depois da criação da dita lei, de modo que não haveria motivo algum para afirmar que ela devesse ser seguida em todo o território francês. Uma vez aceita essa premissa, decorria como conclusão lógica que o rei francês de então, Carlos VI, só estava no trono porque este havia sido negado indevidamente, no passado, aos ancestrais de Henrique – que, portanto, estaria amparado pela razão e pelo direito.

Era tudo o que o jovem e ambicioso rei queria ouvir. Ele adotou um brasão pessoal cujo principal elemento, o escudo, era particionado em quatro; no jargão da heráldica, um escudo assim é dito esquartelado, e cada partição é um quartel. Dois dos quartéis desse novo escudo exibiam os leões da Inglaterra, dourados em campo vermelho, e os outros dois, os lírios da França, também dourados, em campo azul. Com esse símbolo, Henrique anunciava ao mundo que se considerava rei dos dois países, que estava disposto a sê-lo não só de direito, mas também de fato, e a fazer o que fosse necessário para isso. Ainda nesse mesmo espírito, ele também incluiu no brasão da coroa britânica a divisa em francês que ele ostenta até hoje: Dieu et mon droit ('Deus e meu direito').

(Na peça de Shakespeare, o desejo de Henrique por uma guerra é atiçado por um fator a mais: a petulância do delfim [título dado ao príncipe herdeiro do trono da França], que lhe envia de presente uma arca cheia de bolas de tênis… O tênis havia sido um dos passatempos favoritos de Henrique durante sua adolescência tresloucada, de modo que mandar as bolas é uma maneira de o delfim insultá-lo, deixando claro que ainda o considera o mesmo rapazinho tolo, indigno de temor ou sequer de respeito. Não sabemos se isso de fato aconteceu; tenho para mim que Shakespeare tenha inventado o episódio, inspirando-se em outro parecido, esse sim atestado por historiadores, que teria acontecido com Alexandre: Dario, rei da Pérsia, teria lhe mandado uma bola e um chicote de brinquedo como presentes, com o mesmo objetivo insultuoso. E, tal como o grande conquistador da Antiguidade, Henrique também não deixaria barata a brincadeira. Aliás, no ato IV, cena VII, a comparação de Henrique com Alexandre é explícita, na voz do capitão Fluellen, personagem meio heroico, meio cômico, que se gaba de ser conterrâneo do rei, e, como se fosse para sublinhar o fato, fala com um carregado sotaque galês).

Em agosto de 1415, Henrique desembarcou na Normandia (norte da França) com seu exército, que incluía, é claro, um contingente de cavaleiros, homens de berço nobre, treinados para a guerra desde a infância e equipados com armadura pesada e excelentes cavalos de combate, e também infantaria, lanceiros na maioria – esses, em geral, homens do povo, recrutados, treinados e equipados às expensas da coroa. Porém, a confiança do rei repousava de modo especial nos famosos arqueiros do País de Gales, que lhe eram particularmente devotados, já que também era galês. A arma desses soldados era o arco longo, assim chamado porque tinha quase a mesma altura de quem o manejava, e, embora fosse conhecido em toda a Europa, parece que a maioria dos exércitos o subestimava. Mas não os britânicos. Em Gales, principalmente, seu manejo era uma tradição. Apesar da construção simples, sendo feito numa única peça de madeira (geralmente teixo, às vezes carvalho ou bétula), esse arco, bem utilizado, tem um formidável alcance de até 500 metros, oferecendo boa precisão até mais ou menos a metade dessa distância. Naturalmente, o bom manejo exige muito treino, além de braços fortes. Cerca de sete mil desses arqueiros integravam o exército de Henrique, além de uns cinco mil lanceiros e algumas centenas de cavaleiros. As fontes divergem, mas o número total devia estar em torno de 13 mil homens.

O primeiro e bem-sucedido ataque do exército inglês foi contra a cidade portuária de Harfleur, que se rendeu depois de um cerco que se prolongou bem além do esperado e foi cruel para os dois lados. Henrique comandou pessoalmente suas tropas, participando do combate direto. Pode-se questionar a sensatez disso, já que sua morte em plena campanha causaria um caos e traria consequências terríveis não só para o exército, mas para a própria Inglaterra; por outro lado, não havia modo mais claro de mostrar a seus soldados que seu rei não estava pedindo a eles nenhum sacrifício que ele próprio não estivesse disposto a fazer. Também consta que Henrique enviou uma mensagem ao delfim, desafiando-o a ir a Harfleur para enfrentá-lo num combate singular. E parece que o delfim não respondeu.

Shakespeare nos conta que, na tomada de Harfleur, Henrique foi misericordioso, ordenando a seus soldados que tratassem com civilidade todos os cidadãos, proibindo a pilhagem e toda e qualquer violência desnecessária – mas só agiu assim porque o governador da cidade concordou com a rendição. No filme, a negociação entre ambos acontece numa pausa da batalha, com o governador falando do alto das muralhas, Henrique diante dos portões, montado em seu cavalo e coberto de sangue; o rei inglês aconselha a rendição, prometendo clemência, mas ressalva que, caso o governador não aceite, será ele o responsável por condenar seu povo:

Rei Henrique:

Que terei eu que ver, se sois vós próprios
os culpados de virem vossas filhas
a ser presas da mais intolerável
e feroz violação? (…)
Tão pouco resultado alcançaríamos
procurando pôr cobro nos excessos
dos soldados entregues à pilhagem,
como se ao Leviatã determinássemos
que viesse para a praia. Por tudo isso,
homens de Harfleur, mostrai-vos compassivos
com vosso próprio povo e com a cidade,
enquanto os meus soldados me obedecem (…).

(Ato III, Cena III)

A expressão de alívio no rosto de Henrique ao ouvir o governador concordar com seus termos é uma pequena amostra da capacidade dramática do ator Kenneth Branagh, que, por sinal, também é o diretor do filme. Um alívio que o rei, na certa, sentiu mesmo, pois seu exército, além de pouco numeroso, começava a padecer com o cansaço e doenças; uma epidemia de disenteria estava se anunciando, e pioraria muito durante as semanas seguintes. Além disso, era fim de verão, conta-se que chovia muito e havia lama por toda parte, condições realmente miseráveis para se manter um cerco. O rei Carlos, o delfim e seus oficiais também sabiam disso, de modo que abstiveram-se de ir em socorro de Harfleur (a cidade era um sacrifício que eles podiam dar-se ao luxo de fazer) e adiaram o quanto puderam o momento do confronto, à espera de que os ingleses ficassem tão debilitados quanto possível.


Depois da capitulação de Harfleur, Henrique deixou parte do exército como guarnição na cidade e marchou com o restante em direção ao leste, para Calais, na época um enclave britânico na França. O corpo principal do exército francês, que não havia se movido até então, saiu em seu encalço, mas, mesmo debilitados, os ingleses contavam com a vantagem da mobilidade, pois dispunham de cavalos em número superior ao da soma total de seus soldados e pessoal de apoio – quer dizer, mesmo quem, na hora da batalha, lutava a pé, ou nem lutava, tinha uma montaria para a viagem. É claro que a celeridade teve seu preço: as catapultas e os canhões (estes, uma grande novidade na época) que haviam sido usados para tomar Harfleur, tiveram que ser deixados lá mesmo, assim como toda carga não essencial: Henrique ordenou a seus homens que não levassem consigo nada além de armas, armaduras, o equipamento indispensável, e provisões – que já começavam a ficar escassas. O plano do rei era reunir-se a suas tropas estacionadas em Calais e, ou passar o outono e o inverno lá, ou navegar de volta para a Inglaterra e retornar no ano seguinte, pois, naquela região do mundo e com a tecnologia bélica existente na época, campanhas militares só eram praticáveis na primavera e verão, e, naquele momento, já se estava entrando no outono.

Mesmo viajando leves, a marcha foi dura. Chovia torrencialmente, as estradas eram verdadeiros atoleiros, e, depois de alguns dias, as rações tiveram que ser reduzidas, sob pena de, em breve, ficarem sem nada para comer. A má qualidade da água agravou as doenças que já castigavam o exército. Ao chegarem às margens do Somme, que teriam que transpor para alcançar Calais, os ingleses enfrentaram outro problema: todas as pontes tinham sido demolidas, e os pontos onde o rio podia ser vadeado estavam fortemente defendidos por tropas francesas – e um exército cruzando um rio fica muito vulnerável. A solução foi marchar cada vez mais para o interior ao longo do rio, à procura de um vau que não estivesse defendido, o que tomou vários dias, tempo esse durante o qual o exército britânico ficava cada vez mais cansado, faminto e fraco devido à doença.

Quando, por fim, conseguiram atravessar o Somme, Henrique e seus homens viram-se numa extensão de terra agrícola perto um vilarejo chamado Azincourt (Agincourt na forma inglesa), dominado pelo castelo de mesmo nome. A essa altura, o exército de 13 mil homens estava reduzido a uns seis mil ainda em condições de combater: os 13 mil originais, menos as baixas sofridas durante o cerco de Harfleur, menos os que foram deixados lá como guarnição, menos os que morreram ou ficaram incapacitados por causa da doença durante a marcha. Nos campos de Azincourt, o depauperado exército inglês viu-se encurralado entre duas forças francesas que, somadas, o superavam em número por uma diferença de, no mínimo, cinco para um, e provavelmente mais, para não mencionar que os franceses estavam descansados e bem alimentados. Era ao entardecer de uma quinta-feira, 24 de outubro de 1415.

A madrugada tensa que antecede a batalha é, sem dúvida, um dos trechos mais magistrais da peça. Tensa, é claro, para os ingleses, que temem a chegada da aurora, porque acreditam que não verão o próximo pôr-do-sol. Quanto aos franceses, esses anseiam pela manhã, reclamam da demora do dia em despontar, antegozando a batalha como se fosse uma festa, enquanto conversam despreocupadamente sobre quem tem o melhor cavalo e a mais bela armadura. Henrique, disfarçado, percorre o acampamento inglês, ouvindo o que dizem seus soldados, apresentando-se com um nome inventado para falar com eles. Ouve seu desalento e procura encorajá-los, sem nunca revelar sua verdadeira identidade. Por fim, ao ver-se sozinho, desabafa num monólogo a respeito do pesado fardo da realeza:

Rei Henrique:

Só sobre o rei! Ponhamos nossas vidas,
nossas almas, as dívidas, os filhos,
as esposas ansiosas, os pecados,
tudo, em cima do rei! Forçoso é tudo
suportarmos. Oh dura condição!
Ser gêmeo da grandeza e estar sujeito
ao capricho do sopro dos estultos
que só sabem sentir suas próprias dores.
Quantas satisfações são proibidas
aos reis para que os súditos se alegrem!
Que têm os reis a mais que seus vassalos,
além do rito, além das cerimônias
exteriores? Que vales, rito ocioso?
Que espécie és tu de deus, para sofreres
muito mais do que os teus adoradores
a condição humana!

(Ato IV, Cena I)

Entretanto, esse momento de fragilidade não é mais do que isso: um momento. Quando o dia finalmente desponta – sexta-feira, 25 de outubro, dia de São Crispiniano –, o rei profere aquele que é, sem sombra de dúvida, a "mãe" de todos os discursos inspiradores que outros reis e comandantes fazem a seus soldados em inúmeros filmes épicos, geralmente logo antes de uma batalha que tudo indica ser impossível vencer:

Westmoreland:

Oh, se agora tivéssemos ao menos
dez mil dos homens que imobilizados
se encontram na Inglaterra!

Rei Henrique:

Quem deseja
tal coisa? Westmoreland? Não, caro primo;
se fadados estamos para a morte,
a pátria, em nós, já perde muitos filhos;
mas se vivermos, quanto menos formos,
maior será nosso quinhão de glória.
Deus o decida. (…)
Hoje é dia de São Crispiniano. (…)
Quem neste dia não perder a vida
e chegar à velhice, há de todo ano,
na véspera, dizer para os vizinhos:
"Mais um dia de São Crispiniano!"
Arregaçando as mangas, mostra as marcas
e dirá: "Todas estas cicatrizes
são do dia de São Crispiniano".
Tudo os velhos esquecem; mas embora
fique tudo esquecido, hão de lembrar-se
com minúcias dos feitos deste dia. (…)
Esta história os valentes hão de aos filhos
transmitir, e de agora ao fim do mundo
não poderá jamais ser pronunciado
o nome de Crispim Crispiniano
sem que lembrados todos nós sejamos.
Nós, poucos; nós, os poucos felizardos;
nós, pugilo de irmãos! Pois quem o sangue
comigo derramar, ficará sendo
meu irmão. Por mais baixo que se encontre,
confere-lhe nobreza o dia de hoje.
Todos os gentis-homens que ficaram
na Inglaterra julgar-se-ão malditos
por não terem estado aqui presentes,
e hão de fazer ideia pouco nobre
de sua valentia, quando ouvirem
alguém dizer que combateu conosco
neste dia de São Crispiniano!

(Ato IV, Cena III)

(Fico com os olhos rasos d'água cada vez que leio isso, e sou macho o suficiente para admitir!)

Sim, eu sei: é fácil imaginar os soldados magros, esfarrapados e cobertos de lama saudando com um brado ensurdecedor o final desse discurso, e ainda mais fácil ter a sensação de que já ouvimos e vimos algo parecido antes, seja em Coração Valente, O Retorno do Rei ou, literalmente, dezenas de outros. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Para dar um toque final no moral de suas tropas, Henrique assegurou que não seria capturado vivo: em caso de derrota, morreria com seus soldados. Faz bem ao coração acreditar que isso não era só uma bravata, e, de qualquer forma, além de um ato de coragem pessoal, expressava a vontade de não causar ainda mais sofrimento a seu país: se os franceses o apanhassem vivo, a soma que pediriam por sua libertação poderia quebrar a Inglaterra (a expressão isso custa o resgate de um rei, usada em várias línguas para dizer que o preço de algo é abusivo, não surgiu do nada).


Se o discurso de Henrique deixou seus soldados ansiosos para lutar, eles precisaram ter um pouco de paciência. Ao romper do dia, os franceses estavam prontos, mas não fizeram nenhum movimento para atacar, e por bons motivos. É quase sempre mais vantajoso para um exército manter sua posição e esperar que o inimigo tome a iniciativa, e, no presente caso, o tempo era aliado dos franceses, para quem suprimentos não eram um problema: no que dependesse deles, podiam esperar ali até que os últimos ingleses morressem de fome. Lá pelo meio da manhã, Henrique fez o primeiro movimento, ordenando que seu exército avançasse cerca de 200 metros, até uma posição da qual seus arqueiros já tivessem o inimigo ao alcance de suas flechas. Analistas militares avaliam que, se a cavalaria francesa tivesse aproveitado a momentânea desorganização dos ingleses durante esse pequeno deslocamento, poderia ter quebrado a espinha do exército de Henrique e assegurado uma vitória fácil, mas, por algum motivo, a ordem para a carga não foi dada. Os franceses só se moveram ao serem forçados a isso, quando as flechas inglesas começaram a chover sobre suas posições. E foi aí que as coisas começaram a dar errado para eles.

Como vimos, o local da batalha era uma terra de cultivo, que havia sido recentemente arada, esperando pela semeadura do trigo; isso, combinado às chuvas pesadas dos últimos dias, havia convertido o terreno num grande lodaçal, onde os cavalos afundavam até os joelhos – que dirá então os enormes e pesados animais da cavalaria francesa, cada um levando sobre o dorso um cavaleiro em armadura completa. Com isso, a carga aconteceu em câmera lenta, facilitando as coisas para os arqueiros de Henrique, que, para a ocasião, haviam recebido aljavas carregadas das assim chamadas flechas-punhal, providas de pontas alongadas, desenhadas para concentrar toda a força do disparo num único ponto; impulsionadas por seus robustos arcos longos, essas flechas eram capazes de perfurar a maioria das armaduras. A topografia do local também conspirou a favor dos ingleses, pois o campo, relativamente estreito, era ladeado, à direita e à esquerda, por densos bosques onde a circulação de tropas montadas era impossível, o que livrava Henrique e seus homens da preocupação com a possibilidade de serem flanqueados. Para completar, a vanguarda francesa era formada pelos nobres e suas guardas pessoais: esses cavaleiros haviam feito questão de estar à frente, para garantir a própria glória no que esperavam ser uma vitória rápida e fulminante, e para ter a chance de capturar vivos alguns nobres ingleses, pelos quais seria possível obter gordos resgates. Os besteiros, únicos no exército francês que poderiam ter respondido aos arqueiros, estavam atrás, sem possibilidade de intervir. Os poucos cavaleiros franceses que conseguiram se aproximar do inimigo deram de cara com uma floresta de estacas longas e pontudas, que os arqueiros haviam fincado em diagonal no chão, e nas quais os cavalos se estripavam. Onda após onda de franceses atacou e encontrou seu fim sob as flechas inglesas. O próprio número enorme dos franceses trabalhou contra eles: os que vinham atrás, ainda sem perceber o tamanho do desastre, impediam que os da frente recuassem para se reorganizar. A pressão vinda de trás foi forçando milhares de franceses para dentro de uma espécie de corredor, entre duas colunas de arqueiros que os massacravam sem parar – e, ao fim desse corredor, os cavaleiros e lanceiros ingleses esperavam por eles. Quando ficaram sem flechas, os arqueiros empunharam o que quer que tivessem à mão (alguns tinham espadas, a maioria apenas machadinhas, facas e outros objetos que eram mais ferramentas que armas) e caíram sobre os flancos do inimigo, agora cansado, confuso e aterrorizado demais para conseguir lutar decentemente. Muitos franceses foram feitos prisioneiros, na maior parte homens nobres e/ou abastados, cujos resgates poderiam mudar a vida de seus captores. Entretanto, uma vez mais, o número excessivo foi sua perdição. Ainda havia um grande contingente de franceses descansados preparando-se para atacar, e o rei Henrique sabia que precisaria que cada homem que ainda tinha estivesse em seu posto de combate; não podia dar-se ao luxo de deixar boa parte deles vigiando prisioneiros. Além disso, estes últimos eram tão numerosos que, mesmo desarmados, poderiam rebelar-se, com boas chances de conseguir dominar seus carcereiros, apossar-se de armas que facilmente achariam entre os mortos no campo de batalha, e obrigar os ingleses a uma luta em duas frentes, que, sem a menor dúvida, seria o seu fim. Nessas circunstâncias, Henrique tomou uma decisão difícil, mas que se mostraria acertada: mandou seus homens executarem os prisioneiros e depois se prepararem para receber a última onda do exército francês, que não teve melhor sorte que as anteriores. Foi uma carnificina – mas parece que, nessa fase final da batalha, novos prisioneiros foram capturados; ou isso, ou os mais importantes do grupo anterior foram poupados da matança, pois os registros históricos fazem referência a cativos sendo levados até Calais e depois à Inglaterra, e a resgates que teriam sido efetivamente pagos.

Na peça, Shakespeare fala em dez mil franceses mortos, um número razoavelmente realista segundo os historiadores, mas "viaja" longe ao mencionar apenas 29 baixas fatais do lado inglês, sendo quatro nobres e 25 homens comuns – um "exagero ao contrário", claramente destinado a reforçar a ideia de que a vitória fora um milagre. O número real de mortos deve ter sido algo em torno de 500, sendo impossível saber quantos foram feridos; ainda assim, uma impressionante média de vinte para um! Henrique, que sempre acreditara ter Deus ao seu lado, atribuiu totalmente a Ele essa vitória impossível. No filme, o rei começa a entoar uma belíssima e comovente versão para o Non Nobis (do Salmo 113), dizendo, em síntese, que a glória desse dia não cabe a ele nem a seus homens, mas unicamente a Deus. Aos poucos, os soldados vão juntando suas vozes à dele em meio àquele campo enlameado e juncado de cadáveres, na cena mais emocionante do filme.

Ao colher os frutos de sua vitória, Henrique preferiu mostrar benevolência, talvez na intenção de dar início a um tempo de entendimento entre os dois reinos que esperava governar. Naturalmente, fez uma série de exigências de cunho territorial, econômico e estratégico, mas, em vez de destronar Carlos VI, como poderia ter feito, contentou-se em receber em casamento sua filha, a princesa Catarina, então com 15 anos (pelo costume da época, essa era a idade de casar; Henrique é que estava atrasado, ainda solteiro com quase 29), e em ser formalmente nomeado o próximo na linha de sucessão ao trono da França, o que, é claro, implicou em deserdar o delfim, o que muito deve ter agradado a Henrique. Infelizmente para ele e para a Inglaterra, porém, Henrique nunca se sentaria nesse trono: morreu repentinamente em 1422, com 36 anos de idade. Seu filho, Henrique VI, também foi um rei notável (e também assunto de peças de Shakespeare), que, além de reinar sobre a Inglaterra, disputou longamente o trono da França com seu tio, Carlos VII – o ex-delfim, coroado, em grande parte, graças aos feitos de Joana d'Arc.


Só a título de curiosidade, algumas fontes informam algo interessante: o popular gesto obsceno de mostrar o dedo médio esticado, que quase todos pensam tratar-se de um símbolo fálico (tanto, que o gesto é normalmente acompanhado da expressão fuck you, ou do equivalente no idioma local), teria tido origem, na verdade, num episódio relacionado à batalha de Azincourt. Os cavaleiros franceses tinham um ódio antigo aos arqueiros britânicos, em especial os galeses, por causa das derrotas sofridas em Crécy (1346) e Poitiers (1356); aos olhos deles, essas derrotas pareciam um ultraje, até mesmo algo antinatural: como era possível que arqueiros, que não passavam de camponeses, tivessem tido a ousadia de liquidar centenas de cavaleiros, que eram nobres?! Para eles, isso era uma subversão da ordem "natural" das coisas, um crime que merecia punição exemplar. Então, certos de vencer em Azincourt, dada a vasta superioridade numérica de seu exército, os nobres franceses teriam prometido cortar o dedo médio da mão direita de todos os arqueiros que fossem capturados, a fim de que nunca mais pudessem manejar um arco… Uma ameaça sem muito sentido, na verdade, pois os arqueiros eram homens do povo, sem famílias ricas que pudessem pagar resgates; portanto, não tinham valor como prisioneiros, e, se capturados, seriam muito provavelmente executados sem mais delongas. De qualquer forma, quando, contra todas as expectativas, os britânicos venceram, conta-se que os arqueiros divertiam-se ao passar pelos cercados improvisados para os prisioneiros franceses e zombar deles exibindo o dedo médio, para mostrar que ainda o tinham, de modo que a ameaça dera em nada. Talvez nunca saibamos se essa é de fato a origem do tal gesto, mas esse é bem o tipo de curiosidade do qual eu gosto!

Henrique V, claro, é um épico, mas não é só isso. O perfil psicológico do protagonista é sólido, detalhado, fazendo dele um personagem complexo, o que deve ser ainda mais difícil de conseguir no teatro que num romance. Como disse, não conheço as peças anteriores da quadrilogia, mas, pelo que fiquei sabendo ao pesquisar o assunto, a mudança de Henrique, do jovem irresponsável para o rei intrépido, é convincente e marcante. Dois episódios de Henrique V ilustram isso; ambos são tratados brevemente na peça e um pouco mais detalhados no filme, acredito que retomando elementos de Henrique IV, parte 2, e ambos envolvem antigos companheiros de farra do rei na época em que este era príncipe. No primeiro, ainda na Inglaterra, um velho fidalgo, Sir John Falstaff, está doente, à beira da morte, e todos os seus amigos são unânimes em dizer que ficou assim devido à tristeza de ter sido destratado e renegado pelo rei, que, no último encontro dos dois, afirmou não conhecê-lo, apesar de terem virado tantas noites bebendo, cantando e arrumando confusão juntos em tabernas. No segundo, ocorrido já durante a campanha na França, Bardolfo, soldado do exército de Henrique e também seu velho chapa de bebedeiras, rouba de uma igreja e, por tal crime, deve ser condenado à morte; o rei poderia, se quisesse, mandar prendê-lo e, mais tarde, depois da poeira baixar, libertá-lo discretamente, aplicando alguma pena mais branda – mas opta por não fazer nada disso: Bardolfo é imediatamente enforcado, sem favorecimento algum. Nesse caso, Henrique mostra-se apenas justo e, pode-se dizer, inflexível; com Falstaff, ele é decididamente cruel. Entretanto, os dois episódios deixam entrever no espírito do rei uma mesma decisão: a de enterrar de vez seu passado de loucuras. E esses dois homens faziam parte desse passado.

Henrique V acaba de passar a dividir com Macbeth o primeiro lugar na minha preferência entre as peças de Shakespeare (o que pode mudar, é claro, pois, por enquanto, li poucas delas), e apresenta em traços vigorosos a marca da genialidade de seu criador. As partes que tratam de pessoas comuns são um tanto maçantes, mas isso é largamente compensado pelas cenas grandiosas que colocam em jogo o destino de nações, com um protagonista de um carisma indescritível e mais um punhado de personagens notáveis. Nas mãos habilidosas de Kenneth Branagh, essa grande peça tornou-se um filme inesquecível, um sinal visível de que Henrique não estava dizendo palavras vazias ao prometer a seus soldados uma fama que o tempo não apagaria. Seis séculos depois, seus feitos ainda inspiram os que encontram em histórias de heroísmo, fictícias ou reais, uma fonte de força e coragem para enfrentar seus próprios desafios.