Segunda-feira, Outubro 26, 2009

O Ladrão de Raios

Para usar um dos inícios de frase favoritos do nosso presidente, “nunca antes na história deste país” se viu tamanha enxurrada de lançamentos literários no gênero normalmente chamado “infanto-juvenil”, mas que, como se sabe, também agrada aos adultos que gostam de soltar a fantasia quando tiram tempo para ler um livro por prazer. Bem, às vezes agrada. Depende de muitas coisas. De qualquer forma, é fato que nunca se publicou tanto livro de fantasia no Brasil como de alguns anos para cá. Dos melhores aos piores, livros envolvendo magia, grandes aventuras, criaturas fantásticas e, quase sempre, heróis adolescentes, entopem prateleiras e mais prateleiras em quase todas as livrarias onde entro. Como seria de se esperar, essa abundância de oferta tropeça numa certa mesmice: muitas histórias são excessivamente parecidas entre si. Sendo assim, encontrar O Ladrão de Raios, do norte-americano Rick Riordan, é uma bem-vinda brisa de novidade, pois nos oferece algo inesperado e interessante.
Confesso que, ao pegá-lo para olhar pela primeira vez, minha testa se franziu automaticamente ao ver escrito em letras douradas, em sentido transversal à capa, aquele “Percy Jackson e os Olimpianos - Livro Um”. Nada errado com Percy Jackson nem com os Olimpianos, e sim com o “livro um”... Outra série?? Porra, se antigamente (e mesmo nem tão antigamente assim) os escritores conseguiam contar boas histórias num único volume, por que raio (ops...) os autores de hoje parecem absolutamente incapazes disso? Agora tudo é, no mínimo, “trilogia”... E, na maioria das vezes, a história não é tão grandiosa que justifique passar do primeiro volume. Na verdade, para não poucas delas, um volume já é demais.
Mas vamos falar de Percy Jackson.
O herói adolescente (Não diga! Sério??) de mais esta coleção de fantasia tem 12 anos e é um garoto problemático, que sofre de dislexia e déficit de atenção, além de uma acentuada tendência a atrair eventos bizarros e inesperados, que teimam em acontecer nos locais onde ele está. Por conta disso, já foi expulso de cinco escolas - a média é uma por ano. No momento, prestes a concluir a sexta série, Percy está por um fio de ser expulso de mais uma escola, onde, apesar de continuar enfrentando todos os problemas de sempre, fez ao menos um amigo, Grover, além de ter um professor de quem gosta, o cadeirante Sr. Brunner, que ensina latim e cultura clássica (é o cara que eu gostaria de ser quando crescer...). O drama de Percy é que, por mais que ele tente andar na linha e ser um garoto “comum”, as tais coisas estranhas continuam acontecendo independentemente de sua vontade. E quando ele descobrir por quê... Bem, toda a sua vida vai sofrer uma reviravolta.
OK, sei que até aqui não parece haver novidade, está tudo soando meio Harry Potter, não é? O garoto que sempre se sentiu diferente dos outros um dia descobre que é muito mais diferente do que pensava, e tal revelação será seu passaporte para uma vida cheia de aventuras inimagináveis... Mas sosseguem, que a proposta de Riordan não envolve nenhuma escola de magia, nem tampouco um grande bruxo do mal que quer ter de qualquer maneira a cabeça empalhada do jovem herói na parede de sua sala de visitas. Em vez disso, ele levanta a pergunta que está na orelha do livro: “E se os deuses do Olimpo estivessem vivos em pleno século XXI? E se eles ainda se apaixonassem por mortais e tivessem filhos que pudessem se tornar heróis?” Seria o desajustado Percy um semideus como Hércules ou Perseu??
Esse é o pano de fundo para uma aventura surpreendente, onde personagens e criaturas da mitologia clássica aparecem misturados com exemplares típicos da fauna humana das grandes cidades norte-americanas, e a interação de uns com os outros, além de bizarra, é por vezes muito engraçada. É deliciosamente absurdo (em especial para quem já tem um bom conhecimento do universo da mitologia e história gregas, como, modéstia à parte, é o caso deste que escreve estas mal digitadas linhas) ver os elementos daquele universo fascinante se misturarem com as coisas prosaicas do dia-a-dia moderno. Por exemplo, na mitologia, o deus Hermes usava sandálias aladas; neste livro, seus filhos nos dias de hoje usam tênis Nike ou Reebok alados! Sem falar na coisa exótica (para dizer o mínimo) que é ler uma narrativa onde moleques americanos praguejam em grego arcaico.
Creio também que muitos leitores adolescentes irão se identificar com a sensação de inadequação que Percy experimenta, pois parece não pertencer realmente a lugar algum. Quando descobre sua verdadeira natureza, ele é levado para uma espécie de “acampamento de verão” nos arredores de Nova York, onde dezenas de outros jovens semideuses já estão sendo educados e treinados. Lá, tem o privilégio de tomar aulas com o centauro Quíron, famoso mestre de heróis desde os tempos clássicos: na lista de seus ex-alunos figuram nomes como Hércules, Aquiles e outros menos votados. É Quíron quem explica a Percy o significado do fato de os deuses gregos continuarem vivos e atuantes: segundo o velho centauro, eles fazem parte da própria essência e espírito do que conhecemos como civilização ocidental, e existirão enquanto ela existir. São chamados de deuses “gregos” porque foi na Grécia que nossa civilização nasceu, mas habitaram sempre “onde quer que a chama da civilização ardesse mais forte”: depois da Grécia, transferiram-se para Roma, e em seguida, durante períodos mais curtos, sempre para o país que mais fortemente representasse, naquele momento histórico, essa mesma civilização ocidental: Espanha, França, Inglaterra... Segundo essa lógica, eles hoje vivem nos Estados Unidos. Bem, o que vocês esperavam? O livro foi escrito por um norte-americano. Política e economicamente, temos que concordar que os Estados Unidos são onde “a chama arde mais forte”, agora, culturalmente, isso é no mínimo discutível... Mas passei por cima desse pomo da discórdia (epa) por amor a uma boa história, e estou certo de que vocês podem fazer o mesmo.
E a história propriamente dita (passada a parte de apresentar o herói e esboçar o enredo) começa quando Percy é informado de que o raio-mestre de Zeus, a mais poderosa arma já forjada, foi roubado, e de que o rei dos deuses tem um suspeito - o deus que vem a ser o provável pai de Percy, e que não vou revelar aqui quem é. Zeus exige a devolução do raio até o solstício do verão, e o deus acusado exige um pedido de desculpas até a mesma data. Caso contrário, haverá uma guerra entre os deuses, com consequências desastrosas para o mundo dos mortais. Percy, então, recebe uma missão: ir em busca do verdadeiro ladrão do raio e recuperá-lo antes que o prazo expire. Para isso, terá que atravessar os Estados Unidos - mas não os Estados Unidos que os mortais conhecem, e sim uma versão do país por onde se locomove todo tipo de criatura mítica, algumas das quais poderão ajudá-lo, enquanto outras o matariam com o maior prazer. A explicação que Quíron (perdão: Riordan) dá para o fato de os simples mortais não verem essas criaturas ou qualquer indício de suas atividades é muito interessante: “A Névoa é algo poderoso, Percy. (...) Leia a Ilíada. Está cheia de referências a isso. Sempre que elementos divinos ou monstruosos se misturam com o mundo mortal, eles geram a Névoa, que tolda a visão dos seres humanos. Você verá as coisas exatamente como são, sendo um meio-sangue, mas os seres humanos interpretarão tudo de modo muito diferente. É realmente incrível até que ponto os seres humanos podem ir para adaptar as situações à sua concepção de realidade”. Sim, eu li a Ilíada, e sim, isso está lá! :) Sem falar que conheço muita gente a quem a última frase se aplica com perfeição, sem a necessidade de haver Névoa alguma.
Eu até gostaria de fazer um pouco de pose de grande literato e dizer meramente que achei o livro “agradável, recomendável para um pouco de relax mental” - mas, como sou a favor de reduzir a hipocrisia ao mínimo inevitável, vou dizer a verdade: me irritei com cada coisa que me obrigou a largar este livro antes de terminá-lo, e mal posso esperar pelo segundo volume. Que deve aparecer em breve: conforme me disse o rapaz da livraria, um filme sobre as aventuras de Percy Jackson já está em produção e deve estrear em 2010, o que, somado ao fato de a edição original ter sido publicada nos Estados Unidos em 2005, é sinal de que os livros poderiam ter saído no Brasil bem antes, e estão saindo agora para ir no embalo do filme... Bem, espero ter tempo de ler a série toda antes que os filmes apareçam.

Domingo, Setembro 27, 2009

O Culto do Amador

Qualquer pessoa que já haja experimentado manter comigo alguma conversação de pelo menos 15 minutos sobre temas culturais (como é o caso de todos os leitores deste blog - toda a meia dúzia, quero dizer) já me ouviu esbravejar ardorosamente contra o que considero uma das maiores pragas da modernidade: aquilo que chamo de fragmentação do conhecimento, fruto de uma supervalorização da especialização, que, por sua vez, é fruto dos antolhos que o mundo capitalista pós-moderno prendeu na cara do cidadão mediano do fim do século XX, início do XXI. Em bom português, a ideia geral é que você não precisa (e, para muitos, nem deve) conhecer, saber ou se interessar por coisa alguma que não tenha diretamente a ver com sua profissão ou área de atuação: se você é um técnico em informática, não tem que saber nada de biologia, se você é um administrador, não deve perder tempo com literatura, se você é um advogado, não deve se ocupar de nada que não seja jurídico, e por aí afora. Para mim, isso é a receita mais garantida para criar uma multidão de pessoas burras (diploma e sucesso profissional não são antídoto contra a burrice, nunca foram), rasas, tapadas, desumanas e materialistas. Mesmo que eu esteja sozinho no mundo, sem ninguém que compartilhe de tal opinião, continuo acreditando que devemos saber um pouco de tudo, sim: não necessariamente ser um multi-homem como Leonardo da Vinci, mas saber uma infinidade de pequenas e grandes coisas sobre os mais variados assuntos, saber o que é fotossíntese, quem foi Péricles, no que acreditam os muçulmanos, onde fica o deserto de Gobi, o que são placas tectônicas, como se sopra vidro, como os samurais obtinham a liga de aço que lhes permitia fabricar as melhores espadas do mundo (domo arigato, Fernanda!), saber que baleia não é peixe, saber o que é o teorema de Pitágoras, saber qual a função dos metais semicondutores na eletrônica... SABER! Não importa se esses conhecimentos irão lhe ser "úteis" algum dia ou não: saber, simplesmente (parafraseando Ítalo Calvino) porque saber é melhor que não saber. É preciso conhecer muitas coisas, sobre muitos assuntos diferentes, para chegar a alguma percepção - nunca à percepção completa - de que todas as áreas do conhecimento humano estão interligadas, de que todas as ciências e artes interagem e se interpenetram, de que tudo faz parte de um grande todo. Estou convencido de que o único motivo porque algumas pessoas são curiosas e sedentas de saber, enquanto outras são apáticas e não se interessam por coisa alguma, é que as primeiras compreenderam isso, e as outras não.
Ocorre que o "jogo" (na falta de palavra melhor...) do conhecimento tem ainda outra particularidade tão fascinante quanto aflitiva: toda moeda tem dois lados. Este livro de Andrew Keen me mostrou esse fato na prática. Tendo sido um figurão dentro de mais de uma grande empresa norte-americana de internet, Keen não apenas testemunhou a assim chamada "revolução da informação" nos anos 90, mas ajudou a fazê-la. Agora, nos anos 2000, alarmado com os rumos que a coisa tomou, escreveu este livro para chamar a atenção para o grande problema deste mundo onde temos toda a informação que desejarmos sempre à mão, acessível com poucos cliques: quem é que garante a qualidade dessa informação? Essa já era uma das grandes questões relacionadas à internet desde que ela se popularizou e passou a ser acessível a muita gente, e tornou-se ainda mais crucial nos dias de hoje, quando literalmente qualquer um pode escrever e publicar qualquer coisa que deseje.
Não se trata de questionar o princípio da liberdade de expressão, e não mudei de ideia sobre o bem que faz à mente humana interessar-se por muitas coisas diferentes, mas é preciso reconhecer que algo está errado quando não se faz mais distinção entre boato e realidade, entre opinião e fato, entre amador e especialista. Eu me irrito com a conversa de executivos que são totalmente analfabetos sobre qualquer outra coisa que não seja o mundo "business", mas reconheço a importância do que fazem e jamais me meteria a entender mais que eles sobre esse mundo, assim como consideraria ridículo que um deles pretendesse saber mais que eu sobre língua ou literatura. O que me distingue desses executivos é apenas que, enquanto eles não sabem nem querem saber nada que não se relacione ao seu campo profissional, eu, embora tenha estudado e me formado em língua e literatura, não me contento em viver num mundo onde só exista isso: quero conhecer física, química, biologia, ocultismo, matemática, zoologia, medicina, geografia, história, religião, arte, filosofia e (por que não?) também economia e administração, ou seja, "business"... Não me tornarei um expert em nenhuma dessas disciplinas como o sou (espero) em língua e literatura, mas, poxa, eu quero saber! Saber, sem perder de vista que você tem que estudar uma coisa durante longos anos se quiser ser algo mais que um curioso sobre ela. Quando um especialista em qualquer um desses campos estiver falando, eu humildemente murcharei a minha orelha. Isso requer apenas bom senso.
Bom senso esse que, como nos mostra Keen, anda em falta no mundo pós-revolução da informação: qualquer pessoa, por menos credenciais que tenha, pode discorrer sobre qualquer assunto, e 99% dos eventuais leitores irão atribuir ao material produzido por essas pessoas sem credenciais o mesmo peso que aos trabalhos de doutores na matéria, simplesmente por não terem maturidade intelectual para separar o que merece credibilidade do que não merece. Na verdade, talvez a maioria dos leitores-internautas dê mais valor ao que é escrito por amadores, por ser mais próximo do seu nível de entendimento e de seus pontos de vista como leigos - ainda que o que está sendo dito seja uma asneira digna de participante de reality show.
Tudo o que escrevi até agora pode ser assim resumido: um sujeito contentar-se em ser especialista em algo e pensar que não precisa saber mais nada é ruim, mas muito pior é não saber nada e pensar que pode falar como um especialista - e vira uma calamidade se houver outras pessoas ainda mais desinformadas que o aceitem como se fosse um.

Infelizmente, o que não falta neste mundo - ou nestes mundos: o real e o virtual - é gente desinformada.
Keen prossegue seu raciocínio mostrando que há muito mais em jogo do que apenas a qualidade da informação que estamos digerindo e assimilando: o desenfreado faça-você-mesmo da internet dos anos 2000 está aterrando o fosso que sempre separou o palco da plateia, gerando uma oferta torrencial de conteúdo gratuito criado pelos próprios usuários, e que, por ser gratuito, está usurpando o mercado que sempre pertenceu a profissionais ou empresas que se dedicavam a produzir esse conteúdo - e que, por só fazerem isso, podiam especializar-se e atingir a excelência em seus respectivos campos. Se a visão (muitas vezes tola e desinformada) de um sujeito que durante o dia trabalha em qualquer outra coisa e posta textos num site depois do jantar, vale para o público o mesmo que a de um jornalista profissional com décadas de experiência, por quanto tempo ainda será compensador para um jornal ou uma emissora de TV continuar pagando um salário a esse jornalista? O oba-oba dos downloads gratuitos de música destruiu a indústria fonográfica, que atualmente está em seus estertores (não vou bancar o único inocente e dizer que nunca baixei música da internet: só posso dizer em meu favor que não parei de comprar CDs por causa disso). Sem gravadoras, quem irá investir dinheiro e trabalho em descobrir e alavancar novos talentos musicais? E quanto tempo levará para que a indústria do cinema e a do livro tenham o mesmo destino? Conclusão: o atual modelo de utilização da internet está promovendo o fim das próprias fontes de conteúdo das quais depende.

Um velho adágio existente em várias línguas diz que o que vem fácil, vai fácil; embora tenha sido criado para referir-se a dinheiro, ele é igualmente verdadeiro no que toca ao conhecimento. Quando eu e as pessoas da minha geração frequentávamos a escola, um trabalho de história, por exemplo, demandava horas na biblioteca, pesquisando em enciclopédias - ao contrário da maioria dos colegas, eu gostava disso, mas não vem ao caso: gostando ou não, o próprio esforço despendido em encontrar e processar as informações de que precisávamos fazia com que ao menos uma parte daquilo tudo se cristalizasse em nossos cérebros em formação, de modo que sei até hoje quem foram Maurício de Nassau e o padre Anchieta; já os estudantes de hoje, tudo o que precisam fazer é acessar o Google ou o Yahoo! e digitar no mecanismo de busca o tema do trabalho, para instantaneamente terem dezenas ou centenas de textos prontos à disposição. Aí temos que perguntar: o que essa garotada está realmente aprendendo? Alguns anos atrás, essa suprema facilidade para se obter informação era o sonho de quem desejava um mundo onde a cultura estivesse ao alcance de todos; hoje, quando muitos professores se veem obrigados a proibir seus alunos de entregar trabalhos impressos, tendo que exigir que sejam manuscritos, para tentar evitar que eles simplesmente imprimam qualquer coisa achada na internet e entreguem sem ler, somos forçados a reconhecer que parece ter havido algum desvio no caminho trilhado entre o sonho e sua transformação em realidade.

Talvez o maior exemplo do "culto do amador" na era da internet seja a famigerada Wikipédia, a "enciclopédia livre que todos podem editar" - que ostenta esse slogan com orgulho, como se conhecimento fosse uma questão de democracia. E não é: sinto muito, mas não é. Nas enciclopédias tradicionais, podemos ter a certeza de que as informações que encontraremos serão fidedignas: o verbete sobre o padre Anchieta foi escrito por um historiador, o sobre José Saramago, por um doutor em Letras, o sobre dicotiledôneas, por um botânico, o sobre vulcões, por um geólogo, e assim por diante. Naturalmente que todo esse pessoal não é infalível, mas são eles os que, por todo o estudo e experiência que acumularam, têm maiores possibilidades de deter informação correta sobre seus respectivos campos. Na Wikipédia, por tudo o que se sabe, qualquer verbete pode ter sido escrito por um adolescente de bermudão e boné de beisebol virado para trás, já que ninguém lhe pediu credenciais mesmo. Conforme conta Keen:

"O dr. William Connolley, um modelador climático no British Antarctic Survey em Cambridge, especialista em aquecimento global e autor de muitas publicações profissionais, recentemente entrou em confronto direto com um editor da Wikipédia particularmente agressivo em torno do verbete 'aquecimento global' do site. Após tentar corrigir imprecisões que percebera no verbete, foi acusado de 'impor fortemente seu ponto de vista, com a remoção sistemática de todo ponto de vista que não coincidia com o seu'. Connolley, que não estava impondo nada além da precisão factual, foi submetido a restrições editoriais pela Wikipédia e limitado a fazer apenas uma adição por dia. Quando contestou a decisão, o comitê de arbitragem da Wikipédia não deu nenhum peso à sua expertise, tratando-o, um especialista internacional em aquecimento global, com a mesma deferência e atribuindo-lhe o mesmo nível de credibilidade que a seu adversário anônimo – o qual, pelo que se sabia, podia ser um pinguim na folha de pagamento da Exxon Mobil." (pp. 44-5)

Exxon Mobil é uma grande companhia petrolífera norte-americana, que, é claro, não deve ter entre suas prioridades a correta informação da opinião pública sobre a questão do aquecimento global.

Esse excerto ilustra o quanto a distinção entre fato e opinião torna-se a cada dia mais nebulosa nessa nova cultura que está se formando entre as malhas da "rede". "Pontos de vista", meus amigos, não têm o poder de mudar fatos, mas parece que, no mundo da cultura pós-moderna, ninguém sabe ou se importa com isso. Dar a mesma importância às palavras de um especialista e às de um diletante sem qualquer instrução formal na matéria que se mete a discutir, é reconhecer que estamos pouco ligando para a qualidade da informação que consumimos.

Disse acima que conhecimento não é uma questão de democracia. Explico-me: não quero com isso dizer que ele não deve ser democratizado - ele deve, claro, ser democratizado, no sentido de estar acessível a todos, e para isso a internet poderia (eu disse poderia) ser uma ferramenta maravilhosa. Porém, a veracidade de um fato não depende da "opinião" de uma ou de milhões de pessoas, e não deveria ser tratada como se dependesse, que é o que vem acontecendo na sociedade pós-revolução da informação. Há assuntos onde existe espaço para opiniões divergentes; em outros não. Num fórum sobre telenovelas, um participante pode declarar que acha Caminho das Índias ridícula, enquanto outro pode considerá-la uma obra definitiva da teledramaturgia brasileira - cada um tem suas razões para pensar como pensa, e, concordando ou não, devemos respeitar essas razões. Mas, se em vez de telenovela o assunto em pauta for de natureza científica, como no caso do Dr. Connolley versus o "pinguim", aí não se pode dar-se ao luxo de entrar no terreno do "eu acho". Em ciência não existem "opiniões": existem teorias, que, para adquirirem o status de fatos, precisam ser provadas.

Percebo que me foquei na questão que mais me chamou a atenção no livro, porque isso tudo me fez repensar a minha velha antipatia a priori pela noção de especialista, o que significou a necessidade de remodelar diversas ideias que eu tinha há bastante tempo, mas Keen não para por aí. Ele dedica um capítulo todo ao desmoronamento da indústria da música graças à pirataria digital, outro ao perigo do jogo de azar online (potencialmente ainda mais pernicioso que o jogo tradicional em cassinos, por estar acessível 24 horas por dia e a partir de qualquer lugar), e outro, ainda, aos males causados pelo livre acesso de crianças e adolescentes à pornografia na rede (já que nenhum controle parental é cem por cento seguro, e na maioria dos sites a única exigência feita ao usuário é clicar num botão que diz "sou maior de 18 anos"...). O capítulo final chama-se Soluções, e tem exatamente o conteúdo que o título sugere, mas, sem querer ser muito apocalíptico, a maior parte das saídas propostas por Keen para os problemas discutidos nos capítulos anteriores soa-me um tanto ingênua: algumas passam pela adaptação da legislação existente e pela criação de uma nova, capaz de ser aplicável ao meio amorfo e em constante mutação que é a internet - o que, concordo, é da maior importância -, mas a maior parte das soluções sugeridas parecem depender de que o público em geral caia em si e mude de atitude - uma circunstância que tenho dificuldade em acreditar que se concretize. Historicamente, situações extremas somente foram revertidas após terem chegado ao ponto de ruptura - e não me perguntem o que pode representar o "ponto de ruptura" para um mundo onde uma gorda fatia do dinheiro e toda a informação passam por uma internet que lembra muito o Velho Oeste sem lei. Mas uma coisa é possível dizer: ao contrário do que acontece com os grandes problemas ecológicos, por exemplo, onde é lugar comum dizer que "nossos filhos e netos sofrerão as consequências", no mundo da web tudo é tão rápido que não poderemos sequer contar com a chance de passar a bola para as gerações seguintes: a maioria de nós ainda estará por aqui para ver o fim. Seja ele qual for.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

O Delírio de Dawkins

“Dawkins está correto - inquestionavelmente correto - quando propõe que não embasemos a vida em delírios. Precisamos examinar nossas crenças - em especial se formos ingênuos o bastante para acreditar, primeiramente, que não temos nenhuma. No entanto, pergunto-me: quem está, de fato, iludido sobre Deus?” (Alister McGrath)
Antes de se transformar no guru do ateísmo “científico” que se contenta em ser hoje, o biólogo britânico Richard Dawkins foi por muito tempo um dos mais bem-sucedidos dentre os cientistas que se ocupam da delicada e por vezes espinhosa missão de tornar a ciência inteligível para o leitor não especializado. Suas obras de divulgação científica inspiraram e despertaram entusiasmo e curiosidade em muita gente, e, só por isso, ele já seria merecedor de algum crédito. Isso tudo torna ainda mais difícil de compreender o fato de que ele hoje se empenhe, de forma absolutamente fanática e amarga, numa contínua tentativa de dissuadir a humanidade de qualquer tipo de crença na divindade, levantando a bandeira de que “a ciência explica tudo”. Com esse objetivo, escreveu um verdadeiro tijolo de mais de 500 páginas, intitulado Deus: um Delírio, onde tenta provar por A mais B que a crença em Deus não passa de uma herança perniciosa e ridícula que ficou de épocas supersticiosas, e que seria melhor extirpar de uma vez, já que, além de inibir o pensamento crítico e obstruir o avanço da ciência, ela se constitui (segundo ele) na “raiz de todo o mal” sofrido pela humanidade. Para dar a resposta necessária, ninguém melhor que um colega de Dawkins (ambos são professores na Universidade de Oxford) que, ateu na juventude, converteu-se ao cristianismo, e, hoje, doutor tanto em biologia molecular quanto em teologia, está preparado como poucos para discorrer sobre o conflito (se é que precisa ser um conflito) entre ciência e fé. Este é Alister McGrath, autor de O Delírio de Dawkins.
Tendo sido durante anos um admirador do trabalho de Dawkins como cientista e divulgador da ciência, McGrath mostra-se perplexo de constatar o quanto seu colega afastou-se da razão que alega defender, com o objetivo de propagandear suas idéias ateístas. Não o critica por ser ateu - pois esse é um direito que assiste tanto a Dawkins quanto a qualquer pessoa, assim como o direito de ter fé, se tal for a sua opção -, mas pela atitude inflexível, intolerante e, surpreendentemente, cheia de dogmas que ele demonstra em seu livro.
Tive o primeiro contato com a obra de Dawkins quando tinha uns 18 anos de idade e encontrei por acaso seu livro O Relojoeiro Cego na livraria da universidade. Na época, eu vivia contando os tostões (não raro, saía de casa só com o dinheiro certo para o ônibus), de modo que não tinha a menor condição de comprá-lo, mas voltei diversas vezes só para ler mais um trecho, sentindo-me cativado pela defesa vigorosa e apaixonada que Dawkins fazia do darwinismo, e que me parecia ser uma prova cabal de que uma atitude científica podia, sim, ser conciliada com a intensidade emocional e, por conseguinte, com uma certa forma de idealismo. Para qualquer pessoa que, sem a obrigação acadêmica ou profissional de fazê-lo, movida apenas pela curiosidade e pelo amor ao conhecimento, haja se dado ao trabalho de estudar de fato a teoria da evolução e de se inteirar do que ela realmente diz, há pouca coisa mais exasperante que ouvi-la ser atacada por pessoas que, nos próprios “argumentos” (?) que usam, entregam o fato de que nunca chegaram sequer a entendê-la - nem querem, pois, caso a entendessem, correriam o risco de começar a achar que ela faz sentido.
Embora isso possa parecer uma desnecessária divagação pessoal, creio que pode ser útil, por ilustrativo, sintetizar aqui a experiência intelectual de um leitor de Dawkins no tocante ao suposto choque “Ciência x Religião”. O que há é que sou e fui católico toda a minha vida; sou também um darwinista convicto, e nunca vivi um só instante de conflito devido ao fato de ser ambas as coisas. Para mim, a evolução biológica é um fato além de qualquer contestação possível; a dúvida que ainda paira em torno dela reside somente em ainda estarmos longe de compreender integralmente de que forma ela acontece. O livro do Gênese não precisa (nem deve) ser lido literalmente - trata-se de uma alegoria, e, também, de uma explicação adaptada à compreensão das pessoas da época. Não há nada de intrinsecamente anti-religioso em aceitar a noção de que a natureza segue seu curso, submetida a determinadas leis - uma das quais é a da evolução, que determina que as espécies vivas se transformem, ao longo de milhares ou milhões de anos, a fim de melhorar suas chances de sobrevivência dentro das condições impostas pelo ambiente. Tal noção nada tem de incompatível com a crença em Deus: conforme a expressão extraordinariamente feliz empregada por McGrath, “Deus deu corda ao relógio e, então, deixou-o trabalhar por si”. A atitude de certas correntes religiosas (ou, talvez, nem isso: a de alguns indivíduos dentro delas), sim, é anticientífica ao usar a crença como uma fonte de respostas fáceis: quando defrontadas com qualquer mistério ou indagação relacionada a algum fenômeno da natureza, essas pessoas simplesmente declaram que “isso é assim porque Deus quer que seja assim e pronto”. Esse tipo de atitude me enoja e revolta. Ninguém agrada a Deus sendo burro, e menos ainda usando o nome d'Ele como desculpa esfarrapada para a própria preguiça de pensar. O que Dawkins faz, infelizmente, é fechar os olhos ao fato de que só alguns extremistas e fanáticos agem dessa forma: a fim de tentar dar consistência a seus argumentos, ele finge acreditar que toda e qualquer pessoa religiosa usa necessariamente sua crença como um álibi para a ignorância voluntária, e que, portanto, fé é incompatível com ciência. Ele se empenha para vender sua idéia de que o verdadeiro cientista deve ser ateu - e, para vendê-la, está disposto a fazer o que for necessário, inclusive manipular informações. Nas palavras de McGrath, “um dos traços mais característicos da polêmica anti-religiosa de Dawkins é apresentar o patológico como o normal, o extremo como o centro, o excêntrico como o padrão. Isso em geral funciona bem para o seu público, que supostamente pouco conhece de religião e, com muita probabilidade, menos ainda se importe com ela. O que, no entanto, não é aceitável nem científico.”
E, de fato, nota-se que muitas vezes Dawkins torna-se o que poderíamos chamar um “cego guiando cegos”, pois não consegue ocultar que desconhece a coisa que está atacando. Ao contrário de outros autores ateus, como Christopher Hitchens, que pelo menos sabe do que está falando, o autor de Deus: um Delírio mostra-se deploravelmente ignorante em matéria de cultura religiosa. Por tal razão, o maior efeito que seu trabalho atual alcança é o de perpetuar preconceitos - coisa que, a meu ver, deveria estar abaixo da dignidade de qualquer pessoa que se pretenda um cientista. Pintando todos os cristãos - aliás, todos os adeptos de qualquer religião - como fanáticos pervertidos e auto-iludidos, Dawkins age como os homens que o imperador Nero mandava infiltrarem-se pelos mercados e tavernas de Roma, para espalhar rumores de que os cristãos praticavam incesto e canibalismo em suas reuniões secretas - tudo para preparar a opinião pública para uma perseguição em massa contra essa estranha seita. Contra os pontos levantados por Hitchens, é possível ter uma discussão decente; quanto a Dawkins, tudo o que se pode fazer é desejar que ele fosse menos obtuso e tendencioso.
“A visão dawkinsiana da realidade”, escreve McGrath, “é uma imagem invertida da concepção encontrada em algumas das seções mais exóticas do fundamentalismo americano.” Outra frase certeira. Talvez a coisa mais surpreendente na argumentação de Dawkins, e na visão de mundo por trás dela, seja perceber o quanto ele se tornou dogmático em seu próprio antidogmatismo. Acusa os religiosos de serem “imunes a qualquer argumentação” e de teimarem em manter suas crenças “a despeito da ausência de qualquer evidência - e até mesmo contra ela”, mas não parece se dar conta de que faz as mesmas coisas de que acusa os outros. A mim parece que fanatismo algum pode ser bom - não importa que seja fanatismo teísta ou ateísta. Não admira que nem mesmo a maioria dos cientistas que são ateus simpatizem com Dawkins e muito menos queiram ter seus nomes associados, de qualquer forma que seja, ao dele: não se pode querer que um sistema de idéias seja levado a sério, quando alguém que se diz seu representante parece querer que todos os que pensam diferente sejam queimados na fogueira. McGrath menciona que “um respeitável cientista ateu, colega em Oxford, me pediu (...): 'Não julgue todos nós por essa conversa fiada pseudo-intelectual'”. Outro cientista, Michael Ruse, igualmente ateu, registrou, e McGrath relata: “Quando João Paulo II escreveu uma carta endossando o darwinismo, a resposta de Richard Dawkins foi simplesmente dizer que o papa era hipócrita, que ele não podia falar genuinamente sobre a ciência e que o próprio Dawkins preferiria um fundamentalista honesto.” Evidentemente que preferiria: isso lhe daria excelente motivo para lançar mais farpas contra a Igreja Católica e, por extensão, contra o cristianismo em geral, acusando-o de ser anti-ciência. E, claro, pela ótica de Dawkins, qualquer religioso que se declare favorável à ciência está sendo “hipócrita”...
Não há dúvida de que o mundo estaria melhor sem o fundamentalismo religioso - mas será que seria vantagem substituí-lo pelo fundamentalismo ateu de Dawkins? É realmente digno de lástima que um cientista de tanto mérito se empenhe hoje nesse tipo de “cruzada anti-Deus”, ao invés de devotar sua energia e entusiasmo ao progresso e à divulgação da ciência, como fez durante tanto tempo, mas talvez não haja muito o que fazer além de ter esperanças de que Dawkins acabe vendo a luz - não uma luz divina, já que despreza tal idéia (e tem todo o direito de fazê-lo), mas a luz da razão, essa mesma razão que ele tanto defende com palavras e da qual tanto se desvia com suas atitudes.

Sábado, Março 07, 2009

Alexandre Nevski

Hoje, finalmente, consegui ver um filme sobre o qual andava curioso há anos. Datado de 1938 e dirigido por Sergei Eisenstein - um dos poucos cineastas da União Soviética a terem feito alguma fama no ocidente, ainda que não toda que teria merecido -, Alexandre Nevski é obviamente uma peça de propaganda ideológica, mas trata-se de um daqueles raros exemplares dessa categoria que se mostram capazes de sobreviver ao seu momento histórico e até mesmo ao regime que os produziu, continuando a ser admirados por seu valor artístico intrínseco.

Em meados do século XIII, a Rússia, que já sofria tentativas de invasão por parte dos tártaros ao leste, passa a conviver com outra ameaça, oriunda das pretensões expansionistas do Império Germânico. O exército alemão é encabeçado pelos célebres e temidos Cavaleiros Teutônicos, cujo característico manto branco adornado por uma cruz negra aparece no filme como um símbolo do Mal. Depois de diversas cidades russas terem se rendido ao invasor, os cidadãos de Novgorod pedem a Alexandre, príncipe de Pereslavl, que já gozava de certa fama por ter derrotado os suecos no rio Neva (o que lhe valeu o apelido de Nevski), que os lidere numa tentativa de resistência.

O enredo do filme é simples, sem grandes tortuosidades, e os fãs de épicos recentes como Coração Valente ou Gladiador devem ter em mente que, num filme produzido na Rússia e em 1938, não podem esperar ver batalhas hiper-realistas de encher os olhos como as mostradas nesses filmes; sem a ajuda de efeitos especiais ou outros recursos modernos, os atores precisavam ter muito cuidado, pois mesmo as armas cenográficas utilizadas eram capazes de causar danos sérios, e em vários momentos ao longo do filme essa precaução fica patente nas imagens - ou seja, as cenas de batalha não são espetaculares. O que seduz em Alexandre Nevski é a solenidade quase exagerada com que celebra o amor à Pátria, num momento em que a Rússia se preparava para encarar o que talvez tenha sido a maior provação de sua história: toda pessoa bem informada já estava ciente de que a Alemanha de Hitler se preparava para a guerra e que a União Soviética seria um de seus alvos principais, de modo que a história se repetiria. Trabalhando sob a chancela do governo soviético, Eisenstein fez deste filme um apelo para que todo cidadão russo se espelhasse no exemplo do herói semilendário para fazer sua parte no esforço de resistência durante a guerra prestes a estourar. Em vez do Niemetz, o Cavaleiro Teutônico, a Rússia encararia agora um inimigo ainda mais impiedoso, o nazismo.

É curioso observar como a História dá voltas, e esse é um dos exemplos mais notáveis que conheço. Apenas um ano após o lançamento do filme, ele foi tirado de circulação porque o líder Josef Stalin (1878-1953) havia celebrado um pacto de não-agressão com as potências do Eixo. Ou seja, o inimigo de há pouco era agora um aliado... Porém, não por muito tempo, pois em 1941 o pacto foi rompido e os exércitos do Eixo invadiram a União Soviética. A resistência ao agressor germânico voltou a estar na ordem do dia.

E parece que Santo Alexandre Nevski (sim, ele é considerado santo pela Igreja Ortodoxa) estava de fato olhando por seus compatriotas e animando-os, pois a obstinada resistência dos russos, com alguma ajuda de seu clima (a exemplo do que acontecera com Napoleão um século e meio antes, também Hitler viu seus planos serem arruinados pela intervenção do “general Inverno”), quebrou as pernas do poderoso exército do Reich. Sem esquecer que o contra-ataque soviético também foi essencial para a vitória dos Aliados, já que foi o exército russo que tomou Berlim em 1945, sepultando de vez as esperanças alemãs na Segunda Guerra Mundial.

Engraçado ter mencionado o fato de Alexandre ter sido canonizado pela Igreja Ortodoxa, pois esse era um lado do personagem que o “patrão” de Eisenstein – o governo soviético dos anos 30 –, com certeza não desejava ver enfatizado: o regime comunista era oficialmente ateu. De fato, em Alexandre Nevski a Igreja Ortodoxa (religião majoritária na Rússia, e que manteve milhões de devotos fiéis, mesmo tendo ficado na clandestinidade por 80 anos) é “diplomaticamente” deixada de fora: os religiosos que aparecem são representantes da Igreja Católica e são apenas a cereja do bolo de crueldade preparado pelos Teutônicos, abençoando a matança de camponeses pacíficos e outros atos de brutalidade. Para o governo comunista, o ideal seria colocar toda e qualquer forma de religião ou crença no sobrenatural num mesmo e ignominioso cesto, pintando Deus como uma superstição anacrônica que seria melhor abolir de vez - mas ele deve ter percebido que atacando a Igreja Ortodoxa seria difícil ganhar a simpatia de muitos russos para a ideologia trazida pelo filme, pois grande parte da população continuava a ser fortemente religiosa, mesmo tendo que esconder o fato. Assim, o governo contentou-se em demonizar a Igreja Católica, que, mesmo antes da Revolução de 1917, tinha poucos fiéis no país e parecia uma coisa “distante”. Diplomacia, de certo tipo.

Além disso, traços (na verdade, “traços” dá a idéia de algo demasiado sutil, mas não encontro palavra melhor) do comunismo e sua visão das coisas aparecem ao longo de todo o filme: Alexandre, embora seja um príncipe, trabalha ombro a ombro com seus súditos mais humildes, pescando no lago Plestcheveio; quando ele chega a Novgorod, é recebido como herói salvador pelo povo humilde, mas repudiado pelos ricos, que de bom grado entregariam seu país aos invasores se a margem de lucro fosse suficientemente alta; durante a preparação para a guerra, um velho ferreiro doa todas as armas e armaduras que tem em sua oficina pelo bem da causa; dois guerreiros russos, Vassili e Gavrilo, que no começo são rivais pelo amor de uma mesma jovem, abraçam-se fraternalmente antes de entrarem em combate com os alemães - ou seja, o interesse da Mãe Pátria deve passar por cima de diferenças pessoais. Não há sutileza: o filme é uma obra fortemente ideológica e não tenta ocultar isso. A própria música, por vezes exótica para ouvidos ocidentais, é claramente feita para mexer com as emoções, e em vários momentos acaba por causar uma reação empolgada no espectador, mesmo a contragosto: uma vontade de pegar uma lança e ir ajudar Alexandre e seus seguidores a expulsar o invasor.

Mesmo com todo o doutrinarismo político existente por trás de sua criação, Alexandre Nevski ainda é um filme interessante. A história fascina por tratar de uma das infindáveis facetas da eterna questão do heroísmo, além de falar sobre esforço e superação, de modo que sempre terá o que ensinar a pessoas de qualquer lugar ou época.

Uma curiosidade: numa pesquisa realizada no ano passado por um jornal russo, apurou-se que, para a maioria da população do país, Alexandre Nevski ainda é a personalidade mais importante de sua história, superando por uma boa margem os próprios Lenin e Stalin (!). Seria isso um sinal de que os russos não têm vergonha de reconhecer sua necessidade de ter heróis? E nós?...

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Hellboy - o Exército Dourado

Nunca li as histórias em quadrinhos de Hellboy, mas vi o primeiro filme do personagem, lançado em 2004, e o fato é que gostei, de modo que, ao ter notícia de que estava saindo do forno o segundo episódio, registrei logo na minha agenda a intenção de vê-lo. Ainda mais curioso fiquei ao saber que quem assinava a direção era o mexicano Guillermo del Toro, responsável por A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006), duas extraordinárias produções espanholas que apostam no bizarro e na fantasia inseridos em cenários realistas – não chegaria a classificá-los de “cinema alternativo”, mas é uma surpresa que o diretor de ambos seja versátil ao ponto de também assumir a frente de produções hollywoodianas de aventura. Soube também que Del Toro já havia dirigido o primeiro Hellboy, fato esse no qual não me liguei quando o vi.

Nesse segundo filme, o excelente Ron Perlman (o monge corcunda de O Nome da Rosa e um dos guerreiros pré-históricos de A Guerra do Fogo) volta ao papel do herói Hellboy, ou “Anung un Rama”, seu nome verdadeiro. Sua origem, mostrada no primeiro filme, é como segue: nos dias da Segunda Guerra Mundial, um grupo de ocultistas a serviço da Alemanha nazista (Hitler realmente tinha um enorme interesse por ocultismo, ao ponto de ter assessores exclusivamente dedicados a pesquisar esse campo) realiza um ritual que abre uma brecha entre a Terra e o inferno, esperando conseguir um poder que garanta sua vitória na guerra. Uma missão dos Aliados chega a tempo de impedir que o processo se complete, mas “algo” escapa de lá para cá: um “demônio-bebê” de pele vermelha, chifres, cauda longa e cuja mão direita, gigantesca, é feita de pedra. A bizarra criaturinha ganha dos soldados o apelido de Hellboy (o “Garoto do Inferno”), é adotada por um dos integrantes da missão, o cientista Trevor Broom, e educada como uma criança humana.

Sendo um demônio, Hellboy naturalmente não envelhece no mesmo ritmo que um ser humano, de modo que atinge o apogeu de sua força cerca de 60 anos depois de vir parar na Terra – ou seja, mais ou menos nos dias de hoje. Por esse tempo, virou um gigante de bem mais de dois metros de altura (a enorme mão de pedra finalmente tornou-se proporcional ao resto), força e resistência prodigiosas, apetite insaciável e coração de ouro: adora crianças, animais, e seu senso moral é o de um escoteiro. Integra o “grupo de choque” do Departamento de Defesa e Pesquisa Paranormal, que se dedica a combater ameaças sobrenaturais, sob a coordenação de seu pai adotivo, o Prof. Broom, e tendo como companheiros a namorada, a pirocinética Liz Sherman (Selma Blair – ver os dois lado a lado lembra irresistivelmente o conto de fadas A Bela e a Fera) e o melhor amigo, o homem-peixe Abraham “Abe” Sapien (Doug Jones).

O segundo filme começa com um flash de uma história lida pelo Prof. Broom para Hellboy quando este ainda era criança – a história de uma guerra entre os seres humanos e as criaturas mágicas, lideradas pelo rei elfo Balor, e que teria tido lugar muitos séculos atrás. Por encomenda do rei, um mestre-ferreiro goblin construiu um exército de golems (algo como robôs animados por magia ao invés de eletrônica), 70 vezes 70 guerreiros dourados gigantescos e indestrutíveis, impossíveis de serem detidos. Sob as ordens de Balor, o Exército Dourado causou tamanha carnificina entre os humanos, que a guerra parou: os homens estavam demasiado aterrorizados, e o rei elfo, por demais arrependido. Celebraram então um acordo, pelo qual os homens ficariam com as cidades, e os elfos e demais seres mágicos, com as florestas. Balor fez uma coroa mágica e a dividiu em três partes, guardando duas e dando uma aos humanos como penhor da trégua: só com a coroa completa seria possível comandar o Exército Dourado, que, até ser novamente chamado, ficaria dormindo sob a terra. Contudo, o filho do rei, o príncipe Nuada Lança-de-Prata, não aceitou isso, porque não confiava nos humanos, e partiu para o exílio, jurando voltar no dia em que seu povo mais precisasse.

E aparentemente, Nuada (Luke Goss) é de opinião que esse dia chegou, pois agora, em nossa época, ele está de volta e disposto a fazer o que for preciso para reunir as três partes da coroa, e a última coisa com que se importa é quantos humanos terá de matar para isso – pois afinal, se conseguir seu objetivo, será mesmo para varrer de uma vez por todas nossa espécie da face do planeta. O pior é que não podemos deixar de dar certa dose de razão ao príncipe elfo: “Os humanos esqueceram os deuses, destruíram a terra, e para quê? Estacionamentos, centros comerciais! A ambição criou um vazio no coração deles que nunca será preenchido. Eles nunca terão o bastante! (...) Eu voltei do exílio para começar uma guerra, e reclamar a nossa terra, nosso direito!” Nuada, sob um certo ponto de vista, tem motivações justas, que lhe conferem algum grau de complexidade e o fazem, de longe, o personagem mais interessante do filme: não há nada pior que um vilão que só está ali porque toda história precisa de um vilão, mesmo que seja um que de vez em quando dá uma olhadinha para a câmera e diz: “Hehehe... Como eu sou mau!” Graças a Nuada, Hellboy II está livre de pagar esse mico.

E, claro, para fazer o que pretende, o príncipe terá que enfrentar o pessoal do Departamento, sendo que, desta vez, Hellboy, Liz e Abe contam com o reforço do Dr. Johann Krauss, um homem cujo corpo foi totalmente destruído, restando um ser feito exclusivamente de ectoplasma, o material hipotético de que seriam feitos os fantasmas. Não há surpresas da parte do grupo de heróis, a menos que se considere o que acontece com Abe, o homem-peixe de fala calma e gestos comedidos, cultíssimo, apreciador de literatura e música clássica, que sempre foi o cérebro da equipe, enquanto seu amigo Hellboy responde pelos músculos. Apaixonado pela princesa Nuala (Anna Walton), irmã do vilão, Abe se vê as voltas com sentimentos desconhecidos, que o levam a agir de maneiras que teria considerado inimagináveis em qualquer outra situação. Por conta disso, algumas cenas são bem engraçadas, e outras, dramáticas, embora de uma maneira manjadíssima.

No mais, é interessante assistir a este filme tendo em mente quem é o diretor, quando já se conhece e admira o trabalho de Del Toro. Ele também assina o roteiro, em parceria com Mike Mignola, veterano argumentista de quadrinhos e criador de Hellboy. O enredo, envolvendo a interação entre a humanidade e um mundo oculto habitado por criaturas fantásticas, faz lembrar O Labirinto do Fauno, assim como o visual das cenas em que esse mundo é mostrado – dando-se um desconto para o fato de que, aqui, Del Toro conta com a tecnologia mirabolante a serviço da indústria norte-americana do cinema, enquanto no outro filme teve de se virar com um aparato bem mais modesto, e eu não chegaria a considerar isso uma vantagem: quando se quer mostrar criaturas fabulosas na tela, um excessivo realismo turbinado por programas de computador de última geração é antes prejudicial que benéfico. Afinal, uma criatura fantástica deveria ter um visual ligeiramente irreal. Por conta disso, o Fauno de O Labirinto... continua a me agradar muito mais que qualquer dos seres esdrúxulos que Hellboy, Abe e o Dr. Krauss encontram no Mercado Troll, numa das cenas mais extravagantes do filme.

Por mais que pareça (e, no fundo, seja) um mero filme-pipoca, sem outras ambições além de dar lucro nas bilheterias e oferecer ao espectador duas horas de diversão adrenal, Hellboy toca num ponto interessante, ao negar de forma absoluta a crença no determinismo – que, para quem não sabe, é a noção, muito difundida entre as elites intelectuais dos séculos XVIII e XIX, de que cada pessoa é exatamente aquilo que nasceu para ser, e, não importa o que aconteça, nunca será nada diferente disso. Um exemplo clássico é o romance Oliver Twist, de Charles Dickens, onde o garoto Oliver continua bom, educado e honesto, apesar de ter crescido num orfanato, exposto a tratamento desumano, e depois vivido vários meses entre ladrões e todo tipo de pilantras: a crença de Dickens era a mais aceita na época, a de que ser uma pessoa decente (ou um bandido nato) está nos genes, ou no “sangue”, como se dizia então. Ou seja, o homem não seria um produto do meio, mas tão somente da genética, o que tornaria a educação, em princípio, algo bem pouco importante. Hellboy ilustra a crença contrária: a de que até mesmo um demônio, um criatura do puro mal, gerada com o único objetivo de disseminar o caos e a perversidade, pode tornar-se bom, se for educado para o bem.

Observação de última hora: acaba de chegar às locadoras o filme O Orfanato, produção espanhola dirigida por J.A. Bayona e onde Del Toro participa como produtor executivo, além de (e talvez isso seja o mais importante) emprestar seu nome para a divulgação, pois a primeira coisa que aparece nos créditos iniciais é Guillermo del Toro presenta..., o que certamente atrairá um punhado de espectadores já familiarizados com seu nome e admiradores de suas brilhantes bizarrices. Sinal de que o cara não abandonou de vez suas raízes e ainda podemos esperar mais novidades suas no campo do cinema fantástico não-Hollywood. Gostei de saber disso.

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

Construtores de Continentes

O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos um mínimo de auto-estima.” (Nelson Rodrigues)

Em primeiro lugar, não, eu não sou fã de Nelson Rodrigues. Concordo que todo escritor que tenha a pretensão de dar alguma profundidade ao que escreve não pode furtar-se, por vezes, a ter de retratar as torpezas e o mal inerente aos seres humanos, mas tenho para mim que isso deve ser feito quando necessário. No meu entender, um escritor que escolhe sempre e deliberadamente como tema o que existe de pior na humanidade, não está contribuindo para criar nada de bom, e não terá a minha admiração. Excesso de idealismo? Talvez; podem chamar do que quiserem.

Mas, mesmo não simpatizando com o dramaturgo carioca, não vou tirar os méritos que ele tenha, e um deles é o de ter forjado um punhado de frases certeiras e perfeitas sobre vários assuntos. A que escolhi para abrir este artigo é minha preferida, e tem a ver com meu tema.

Dias atrás, visitando a Feira do Livro de Porto Alegre, tive a grata surpresa de encontrar numa caixa de saldos o livro Construtores de Continentes, do autor norte-americano L. Sprague de Camp, que já havia lido nos meus saudosos 14 ou 15 anos, época do meu maior furor no que se referia à ficção científica. Batido pela nostalgia, comprei o livro por um valor simbólico qualquer e, no trem mesmo, durante a viagem de volta para São Leopoldo, comecei a relê-lo, experimentando uma sensação muito semelhante à de reencontrar um velho amigo.

Dá um certo desespero perceber que, não bastasse o fato de que não viverei o suficiente para ler todos os livros que gostaria (e ver todos os filmes, estudar todos os assuntos, visitar todos os lugares...), ainda há esse outro fato: o de que muitos livros, dentre os que já li, merecem uma segunda leitura, à luz de tudo o que aprendi e vivi desde meu primeiro contato com eles. É o caso de Construtores de Continentes, pois a nova leitura me levou a pensar coisas que não ocorreram ao garoto que eu era 20 anos atrás.

Lyon Sprague de Camp (1907-2000) foi o que poderíamos chamar de escritor polivalente, pois, além de ficção científica, escreveu fantasia, romance histórico, mistérios, poesia e sabe Deus o que mais. Foi um nome importante durante a Era de Ouro da ficção científica, e amigo pessoal de vários outros autores famosos, entre eles Isaac Asimov, que, aliás, prefaciou este livro. Construtores de Continentes não é um romance – inclui duas novelas independentes entre si, embora ambientadas no mesmo futuro imaginário. A primeira passa-se em 2137, chama-se Moto-contínuo, e narra as aventuras de Felix Borel, um trambiqueiro profissional que decide tentar a sorte em Krishna, um planeta de descoberta relativamente recente, habitado por uma raça espantosamente semelhante aos terráqueos, só que com algumas características insectóides, e com um nível tecnológico pouco mais que medieval. Justamente por ainda terem convivido pouco com os terráqueos, os krishnianos ainda são passíveis de serem enganados por golpes em que, na Terra, ninguém mais cai há muito tempo – ou seja, o planeta é um paraíso para trapaceiros como Borel, que, no entanto, vai descobrir, às suas próprias custas, que nada é tão fácil quanto parece.

A segunda novela, que dá título ao livro, começa em 2153 e fala sobre um projeto que está sendo implementado para criar um novo continente no Atlântico, entre a América do Sul e a África. Por meio de engenharia tectônica, os cientistas e técnicos do século XXII esperam aumentar o espaço vital disponível para a humanidade na Terra, independentemente da eventual migração para outros planetas.

Agora é que chegamos ao ponto verdadeiramente importante... Por mais interessantes que sejam os enredos dessas duas histórias, não são elas que mais chamam a atenção dos leitores brasileiros, e sim um “detalhe” do pano-de-fundo: no futuro imaginado por De Camp, os Estados Unidos decaíram de sua posição de liderança mundial, que passou a ser exercida por uma nova superpotência... Imaginam qual? Sim, meus amigos, o Brasil.

Ao contrário de muitos outros escritores (e dos americanos em geral), De Camp realmente conhecia alguma coisa sobre o Brasil – no texto original em inglês apareciam diversas palavras em português, que o tradutor teve a boa idéia de assinalar para nossa referência. O departamento de abrangência mundial que cuida das idas e vindas dos viajantes espaciais chama-se Viagens Interplanetárias – assim mesmo, em português, porque a coisa toda é controlada e administrada por brasileiros. De Camp não teria incluído isso em seus livros se não acreditasse pelo menos na possibilidade de tais coisas – e ele era norte-americano... E nós, que somos brasileiros? Nós acreditamos que possamos chegar lá??

É difícil dizer até que ponto o nosso povo criou o autoconceito que tem, e até que ponto simplesmente comprou a imagem de si mesmo que é vendida pelos “gringos”, mas o que se observa é que o brasileiro, quase sempre, acredita que sua função no mundo é simplesmente a de ser o cara alegre, hospitaleiro e “caloroso”, e que a vocação do Brasil é a de um “país-colônia de férias”, para onde americanos, europeus, japoneses e demais habitantes do “Primeiro Mundo” vêm quando querem praia, sol e festa – porque, tanto na visão desses estrangeiros quanto, infelizmente, na dos próprios brasileiros, tudo o que o nosso país tem para oferecer são praia, sol e festa! Tem sido assim por tanto tempo, que é difícil para a maioria dos brasileiros encarar a possibilidade de fazerem parte de algo sério e importante, ou de que seu país possa um dia ocupar uma posição de destaque no cenário mundial. Pois isso exigiria um esforço sério e comprometido, cujos resultados só seriam visíveis a longo prazo, e, ainda mais importante, exigiria que acreditássemos ser capazes. Seria necessário que víssemos em nós mesmos força de vontade e inteligência (qualidades que, infelizmente, não estamos acostumados a associar ao nosso próprio povo como um todo), e capacidade latente para fazer mais do que apenas organizar o maior carnaval do mundo. Quero muito acreditar que, se não a nossa geração, a de nossos filhos ou netos há de acordar desse torpor de séculos e se dar conta de que tudo o que qualquer outro povo foi (ou será) capaz de realizar, também está ao nosso alcance, desde que queiramos e acreditemos.

Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Pinceladas clássicas

Houve tempos em que a cultura geral era vista como um dos componentes mais importantes da bagagem de conhecimento de uma pessoa. Não fazia diferença se você estivesse estudando para ser um advogado, médico, engenheiro, administrador... Era considerado indispensável ter algum conhecimento de História, literatura, mitologia e campos afins, porque não era concebível que uma pessoa que se pretendia instruída não soubesse ao menos o básico sobre as raízes culturais de nossa civilização e suas grandes realizações. Isso foi antes da era da especialização, cujos amargos frutos a atual geração está colhendo: a sociedade incentiva cada um a se aperfeiçoar em sua própria profissão e ignorar o resto do universo. Não estou dizendo que a especialização seja ruim em si mesma, mas ela pode estimular a fragmentação do conhecimento – e esta, sim, é uma praga em todos os sentidos, um poderoso agente perpetuador da ignorância.

No tempo em que um pouco de conhecimento clássico era considerado parte essencial do cabedal de qualquer pessoa que tivesse atingido um determinado grau de instrução, expressões como estas abaixo eram usadas, não largamente, mas com uma certa freqüência, em situações as mais diversas: um discurso numa festa, uma defesa judicial, um artigo que se enviava para a página de “opinião do leitor” num jornal... As pessoas podiam usá-las porque tinham cultura para tanto, e também porque podiam ter confiança de que seus ouvintes ou leitores as compreenderiam. Hoje, com exceção de um punhado das mais populares (“força hercúlea”, “presente de grego”, “agradar a gregos e troianos”), essas figuras de linguagem estão em extinção, o que eu acho realmente uma pena – elas deixavam mais interessantes uma série de situações cotidianas. Como um exercício agradável, fiz um pequeno apanhado de algumas delas, com a explicitação de seus significados. Ordenei-as numa seqüência temporal dos eventos que deram origem a cada uma, dos mais antigos para os mais recentes.

1. O leito de Procusto: Damastes era um salteador de estrada que aterrorizava os arredores da cidade grega de Elêusis. Entediado de apenas roubar e matar, igual a todos os outros bandidos, ele inventou uma variação: quando um viajante lhe caía vivo nas mãos, era amarrado ao seu leito de ferro e “adaptado” ao tamanho deste: os mais altos tinham um pedaço das pernas cortado, enquanto os mais baixos eram violentamente esticados com cordas até ficarem do comprimento do leito. Isso valeu a Damastes o apelido de Procusto (“o Estirador”). Essa revoltante diversão terminou com a chegada do herói Teseu, que deu um fim ao bandido infligindo-lhe o mesmo tratamento que ele dera a tantos infelizes. Em lembrança a essa lenda, a expressão “leito de Procusto” designa algum padrão rígido e arbitrário no qual todos são forçados a se enquadrar.

2. O pomo da discórdia: Conta-se que, por ocasião do casamento do herói Peleu e da nereida Tétis (que viriam a ser os pais do célebre Aquiles), todos os deuses haviam sido convidados, exceto Éris, a Discórdia, que foi deixada fora da lista justamente para evitar brigas na festa. Não adiantou: despeitada por não ter sido convidada, Éris apareceu na festa, jogou uma maçã (“pomo”) de ouro entre as deusas, e desapareceu, sem dizer uma palavra. No pomo estava gravada uma frase: “À mais bela”. Foi o suficiente. Imediatamente três das principais deusas começaram a reclamar o prêmio: Hera, esposa do deus supremo, Zeus; Atena, filha de Zeus e deusa da sabedoria; e Afrodite, também filha de Zeus, deusa do amor. O papel de juiz coube ao pastor Páris, na verdade filho de Príamo, rei de Tróia, que deu a vitória a Afrodite – mas não fazia muita diferença, pois, qualquer das três que escolhesse, ele ganharia a inimizade mortal das outras duas, como de fato aconteceu. A expressão “pomo da discórdia” pode significar qualquer coisa, concreta ou abstrata, que cause disputas acirradas. Uma observação: essa história, como se viu, apresenta Páris já adulto numa época em que Aquiles ainda não havia nascido, enquanto outros episódios da saga da Guerra de Tróia sugerem que a diferença de idade entre os dois não era maior do que alguns anos. Discrepâncias cronológicas são comuns em ciclos lendários, já que eles aglutinam uma série de histórias que, na origem, eram independentes umas das outras.

3. O calcanhar de Aquiles: Esta é outra daquelas expressões de origem clássica que deverão sobreviver, pois é de uso tão comum que acaba por se auto-alimentar: muita gente a conhece e usa, mesmo sem saber quem foi Aquiles. Como vimos, o tal cara era filho de Peleu, rei da Tessália e famoso herói, e da ninfa marinha Tétis. Conta-se que esta última, desejando fazer o filho imortal, mergulhou o bebê no rio Estige, o que o tornou invulnerável – com exceção do fatídico calcanhar, por onde a mãe o estava segurando e que, por isso, não foi tocado pela água milagrosa. Adulto, Aquiles veio a ser o maior guerreiro grego e fez de seu nome uma lenda durante a Guerra de Tróia. Eventualmente, ele se apaixonou por Polixena, uma das filhas do rei Príamo, e, para poder desposá-la, ofereceu-se para usar sua influência entre os gregos para conseguir que se estabelecessem negociações de paz. Então, durante uma reunião de negociação (0u, segundo outros, já em seu casamento), Aquiles foi ferido no calcanhar, seu único ponto vulnerável, por uma flecha envenenada atirada por Páris – que era covarde, mas ótimo arqueiro – e morreu. Claro que isso pôs fim às esperanças de paz: a guerra foi retomada e, ao fim de mais um ano, Tróia caiu. “Calcanhar de Aquiles”, como a história deixa óbvio, significa, simplesmente, um ponto fraco em alguém ou alguma coisa. O curioso nisso tudo é que o detalhe da invulnerabilidade de Aquiles é criação de algum poeta anônimo em um período já relativamente tardio da História grega, pois é em vão que se procurará por qualquer menção a ela na Ilíada de Homero. O Aquiles de Homero usa uma armadura (quase um canto inteiro do poema é dedicado a narrar sua forjadura pelo deus Hefestos) e chega a sofrer um ligeiro ferimento em combate.

4. A teia de Penélope: Alguns anos após chegar a notícia de que a Guerra de Tróia havia acabado, Ulisses (ou Odisseu), rei da ilha grega de Ítaca, ainda não havia retornado à sua terra, nem havia qualquer notícia sobre seu paradeiro. Muitos já o davam como morto, acreditando que tivesse perecido no mar durante a viagem de volta. A rainha Penélope, porém, mantinha a esperança de ver o marido retornar, e por isso recusava obstinadamente as propostas de casamento que recebia de diversos nobres da ilha – todos de olho no trono. Conforme o tempo passava, a pressão para que escolhesse um novo marido aumentou, e a rainha arquitetou uma artimanha: anunciou que faria sua escolha depois que terminasse de tecer a mortalha de seu sogro, Laertes (será que era normal, naquela época, tecer mortalhas para pessoas vivas?). E, para ganhar mais tempo, ela desmanchava à noite a parte tecida durante o dia. Uma “teia de Penélope”, então, é aquele trabalho que está sempre sendo feito, mas nunca é concluído.

5. Vitória de Pirro: Pirro do Épiro foi coroado rei da Macedônia em 287 a.C. Além de ter sobre os ombros o pesado encargo de governar um reino e comandar um exército que ainda sonhavam com a figura semidivina de Alexandre, ele também teve de se preocupar com a ameaça representada por certa cidade italiana que, até então pouco importante, estava agora procurando se impor como uma nova potência na bacia do Mediterrâneo: Roma. Bom estrategista e contando com uma arma secreta – elefantes de guerra e arqueiros treinados para atirar do alto do lombo dos paquidermes –, Pirro venceu os romanos por duas vezes no campo de batalha. Porém, mesmo na derrota, as destemidas legiões romanas nunca deixavam de mostrar ao inimigo de que matéria eram feitas: essas vitórias custaram tantas baixas, que o rei teria declarado: “Mais uma vitória como essas duas, e nós, os vencedores, é que teremos que oferecer nossa rendição aos vencidos!” Daí surgiu a expressão “vitória de Pirro”, que significa uma vitória obtida a um custo excessivamente alto, ao ponto de não valer a pena.

6. Paz cartaginesa: Outros, além de Pirro do Épiro, desafiaram Roma quando esta ainda era uma potência “emergente”, como diríamos hoje. Destes, a mais digna de nota, e a que mais perto chegou de obter a vitória, foi sem dúvida Cartago, cidade de origem fenícia situada no norte da África, e que, já independente de qualquer obrigação para com os reinos fenícios do leste, enriqueceu muito graças ao comércio marítimo no Mediterrâneo. Roma e Cartago eram, portanto, duas cidades poderosas, procurando ampliar suas esferas de influência numa mesma região. O resultado não surpreendeu: as duas entraram em choque, e não foi uma vez só. As assim chamadas Guerras Púnicas duraram de 264 a 241, de 218 a 201 e de 149 a 146 a.C. Do ponto de vista militar, os romanos, formidáveis num combate de infantaria, eram medíocres como marinheiros – já com os cartagineses, a recíproca era verdadeira. Isso criava um certo equilíbrio que pode explicar a longa duração das duas primeiras guerras. No entanto, e apesar de Cartago ter produzido dois dos mais brilhantes generais da Antigüidade – Amílcar Barca na Primeira Guerra Púnica, e seu filho, Aníbal, na Segunda – ambas terminaram com vitórias romanas. E, fosse pela falta de outro comandante do mesmo calibre, ou porque Roma evoluíra muito em matéria militar no período após a Segunda Guerra Púnica, o fato é que a Terceira foi breve e decisiva. No verão de 146 a.C., os romanos finalmente tomaram Cartago. Todos os homens foram mortos; mulheres e crianças, escravizadas. Os vencedores foram metódicos em se certificar de que nenhuma pedra ficasse sobre outra na cidade, e depois espalharam sal sobre os destroços e em volta deles, para que nem capim crescesse mais ali. Brutal? Sem dúvida, mas, se Cartago tivesse saído vitoriosa, Roma teria tido o mesmo destino. A verdade é que ambos os lados sofreram o diabo nessas guerras, e qualquer um que vencesse no final iria querer ter a certeza de ter-se livrado do outro de uma vez por todas. Desse sangrento episódio ficou a expressão “paz cartaginesa”, que significa a paz obtida mediante a completa aniquilação do inimigo.

Terça-feira, Abril 15, 2008

Literatura Fantástica

“Trust the tale, not the teller!” (D.H. Lawrence)

Esta tarde passei duas horas muito agradáveis participando da aula inaugural da oficina literária O Fantástico no Conto, ministrada por Maurício Chemello, mestre em Letras, na livraria/café Letras & Cia (Av. Osvaldo Aranha, 444). Adoraria poder participar de todos os encontros, que acontecerão até fins de junho, sempre às terças-feiras, mas, infelizmente, trabalho no interior e geralmente fico de segunda a sexta-feira longe de Porto Alegre. Pude estar presente à aula inaugural (aberta a todos os interessados, sem necessidade de inscrição) por estar de férias no momento. Ao me despedir do Maurício, sugeri que promova uma oficina aos fins de semana, o que seria ótimo para diversas pessoas que gostariam de participar e têm o mesmo problema que eu.

Sendo eu um graduado em Letras, não sou estranho à nomenclatura particular da Teoria Literária, mas, como, na faculdade, o currículo dedicava pouquíssimo espaço à literatura fantástica, saí desta aula com algumas noções novas. Aprendi, por exemplo, que o que comumente chamamos de literatura de fantasia (exemplo: todas as sagas heróicas ambientadas em mundos próprios e/ou envolvendo seres imaginários) é conhecido, dentro da Teoria Literária, como realismo mágico. Imagino que a palavra realismo, aí, aponte para o fato de que essas histórias descrevem uma determinada realidade – não a nossa, mas uma realidade – onde as coisas acontecem de modo a serem coerentes com a lógica interna desse universo próprio. Já o conto fantástico, assunto propriamente dito da oficina, é aquela história que, em princípio, retrata a realidade cotidiana – onde o autor introduz algum elemento incomum, inusitado, inesperado, que vai contra a ordem “normal” das coisas, podendo, ou não, ter caráter sobrenatural. Forçando um pouco (não muito) essa definição, poderíamos até dizer que todo conto é fantástico!... Pois toda história, para existir, precisa envolver um conflito – algo que perturba o andamento da vida cotidiana –, sendo que o enredo falará basicamente das ações dos personagens com o objetivo de restabelecer o equilíbrio. Isso se aplica a Os Três Porquinhos como a Guerra e Paz; é um princípio universal. Daí temos que, se for para escrever uma história apenas narrando fatos comuns do dia-a-dia, onde nada de diferente acontece, melhor não escrevê-la. Por outro lado, se, em meio ao cotidiano, destaca-se um fato qualquer digno de ser narrado, isso não encaixa a história na definição acima? Pois!...

Claro que sabemos que não é bem assim, mas não dá pra resistir a fazer um pouco de “terrorismo” contra aquelas criaturas cansativas que gostam de torcer o nariz para livros, filmes, etc., dizendo que são “inverossímeis”, como se isso fosse um defeito...

Como “tema” para a próxima aula, da qual, infelizmente, já não poderei participar, o Maurício nos recomendou ler a coletânea de contos O Livro de Areia, do argentino Jorge Luís Borges, um grande autor do conto fantástico e também ensaísta, que vem a ser um dos (inúmeros) escritores com os quais já estou há muito tempo devendo a mim mesmo um contato mais aprofundado. Mesmo não podendo seguir a oficina, pretendo fazer o tema: depois escrevo aqui sobre o livro.

Para pensar: cá entre nós: para que a literatura (ou, se pensarmos bem, todas as artes) serviria, se nada mais pudesse fazer do que copiar a realidade?

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Eu, Robô

Isaac Asimov nasceu em Petrovich, na então União Soviética, em 02 de janeiro de 1920, e faleceu em Nova York, onde morava, em 06 de abril de 1992. Entre uma coisa e outra, teve tempo de ser um dos mais prolíficos e admirados escritores norte-americanos do século XX (pois, apesar de nascido na Rússia, mudou-se com a família para os Estados Unidos aos três anos de idade, e sempre se considerou um cidadão americano). Desde pequeno foi um leitor voraz, e, graças à leitura das revistas de ficção científica mais populares da época, desenvolveu também o entusiasmo pela ciência. Formou-se em Bioquímica na Universidade de Columbia, onde mais tarde também lecionou. Porém, fizesse o que fizesse, nunca deixou de escrever.

Tenho uma longa história com o livro Eu, Robô. Li pela primeira vez aos 12 anos, e foi um dos grandes responsáveis por me tornar um fã de ficção científica, o que fui durante muitos anos – e ainda sou, embora hoje em dia tenha tantos outros interesses no campo da leitura, que tornou-se um tanto raro pegar um livro do gênero. O livro reúne nove contos – nove exemplos do que de melhor se produziu em matéria de ficção robótica durante a assim chamada “era de ouro da ficção científica”, que foi do fim dos anos 30 ao fim dos 40, aproximadamente – escritos quando Asimov tinha de 19 a 30 anos, e publicados ao longo desse período em diversas revistas. Em 1950, o autor selecionou exatamente esses nove (dentre a enormidade de coisas que havia escrito desde 1939) para integrarem este livro, que viria a ser uma das “bíblias” do gênero.

O livro começa em 2057, quando a famosa robopsicóloga (sim, isso mesmo: psicóloga de robôs) Susan Calvin, uma das figuras mais importantes da gigante US Robôs e Homens Mecânicos S.A., está para se aposentar, e um repórter é incumbido de entrevistá-la. Essa conversa acaba não sendo apenas sobre a vida da Dra. Calvin, mas sobre a história da US Robôs e, por conseqüência, também sobre a evolução dos robôs positrônicos, sem os quais já não é possível imaginar a sociedade naqueles tempos. Os nove contos originais são inseridos na conversa entre a cientista e o repórter, como sendo lembranças de histórias de que ela participou, que testemunhou ou ouviu contar durante mais de 50 anos de vida dedicados ao trabalho com os robôs.

Para nove histórias que foram escritas independentemente umas das outras, é impressionante como os contos ilustram bem a crescente importância que os robôs assumem ao longo da primeira metade do século XXI (não esqueçam, essas histórias foram escritas quando o século XXI era um futuro relativamente distante). O primeiro conto, Robbie, passa-se ainda no século XX, para ser mais exato em 1998, e trata da amizade entre Gloria, uma menina de oito anos, e um robô programado para ser sua ama-seca (!). Detalhe: Robbie é mudo, pois foi construído antes da invenção dos sintetizadores de voz que depois equipariam robôs mais avançados, mas isso não o impede de comunicar-se com sua pequena dona. Mas talvez o ponto mais importante do conto seja a abordagem da tecnofobia, que iria se manifestando com cada vez mais força à medida em que os robôs se tornassem mais sofisticados. Embora Robbie seja um modelo relativamente rudimentar, causa desconfiança à mãe de Gloria, que não gosta da ideia de sua filha ser “criada por uma máquina” e empenha-se ferozmente em separar os dois amigos.
A tecnofobia, aliás, tem a ver com uma das principais razões que fizeram as histórias de robôs de Asimov serem consideradas revolucionárias, apesar de tantos autores de ficção científica antes dele já terem escrito sobre o assunto. Ele foi o grande responsável por eliminar (ou, ao menos, suavizar) o “complexo de Frankenstein”, que era o ponto de vista predominante até então: a idéia de que, se o homem criasse uma máquina tão ou mais inteligente que ele próprio, essa máquina fatalmente destruiria seu criador. Vale lembrar que Frankenstein, de Mary Shelley, escrito em 1818, é considerado uma das primeiras obras de ficção científica, apesar de seu ponto de vista ainda ser típico do romantismo (refiro-me ao movimento artístico) vigente na época: “Há coisas que o homem não deve descobrir!”

Asimov mudou isso ao criar as Três Leis da Robótica, que são enunciadas pela primeira vez no segundo conto de Eu, Robô (que, por falar nisso, é também onde foi inventada a palavra “robótica”). O conto é Brincadeira de Pegar, e, nele, os engenheiros da US Robôs Gregory Powell e Michael Donovan estão em sérios apuros, em pleno planeta Mercúrio, com sua sobrevivência dependendo de um robô que aparentemente enlouquece de uma hora para outra. Para descobrir o porquê do estranho comportamento da máquina, os dois homens precisam raciocinar tendo como base as Três Leis, que são:

1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano, ou, por inação, permitir que um ser humano sofra qualquer tipo de mal.
2. Um robô deve obedecer às ordens recebidas de seres humanos, exceto quando tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que, fazendo isso, não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Leis.

A idéia é que tais leis fossem o “princípio zero” no cérebro dos robôs, de tal forma que nenhum “bug” (como diríamos hoje) seja capaz de interferir nelas: qualquer robô simplesmente pararia de funcionar muito antes de se tornar capaz de desobedecer a essas leis.

Ao longo dos contos seguintes, somos confrontados com uma série de situações desafiadoras envolvendo robôs de diversos tipos, sempre tendo como eixo as Três Leis e as possíveis implicações e problemas do seu cumprimento. O que a inflexível lógica binária dos robôs interpretaria como “fazer mal”?... Mesmo que um robô se julgue superior aos seres humanos (e, sob muitos aspectos, sem dúvida ele o é), continua a ter a obrigação de obedecer a tais criaturas patéticas?...

Os dois últimos contos são os de maior alcance e implicações mais profundas. Em Prova, um certo Stephen Byerley, candidato a prefeito de Nova York, é suspeito de ser na verdade um robô de aparência humanóide. A Dra. Susan Calvin, que participa diretamente da ação, declara que o teste para saber a verdade é um só, mas não é conclusivo: se Byerley transgredir as Três Leis, então ele é humano – mas, se ele as respeitar, isso não prova coisa alguma! No último conto, O Conflito Evitável, Byerley já é Coordenador Mundial, numa época em que a maior parte das funções de governo são desempenhadas por supercomputadores, que, por também serem robôs de certo tipo, operam subordinados às Três Leis, o que faz deles governantes muito mais confiáveis que a maioria dos políticos que conhecemos. Quantos líderes, ao longo da História, se lembraram que seu verdadeiro papel devia ser o de servir àqueles a quem governavam?... Nesse conto, escrito às vésperas da década de 50 – o período mais tenso da Guerra Fria –, Asimov aposta em que os robôs, com sua “inteligência artificial”, poderiam um dia evitar que nós, seres humanos, nos autodestruíssemos com nossa “burrice natural”.

Deixo a conclusão para a própria Dra. Calvin: "E isto é tudo. Vi tudo desde o começo, quando os pobres robôs não podiam falar, até o fim, quando servem como baluartes, postados entre a humanidade e a destruição. Nada mais tenho a ver. Minha vida terminou. Cabe a vocês ver o que virá no futuro."

Uma nota final: por muito tempo me neguei a ver o filme Eu, Robô, de 2004, estrelado por aquela mistura de cantor de rap, comediante e ator de ação que atende pelo nome de Will Smith, por receio de ficar excessivamente enfurecido no caso de os enredos profundamente cerebrais bolados por Asimov terem sido transformados num pastiche propício para Smith protagonizar cenas de ação ensandecida e soltar suas piadinhas sem graça, mas, recentemente, quando o filme passou na TV, resolvi encarar, e, para minha surpresa, ele não é um desastre total. Certo, Susan Calvin aparece totalmente descaracterizada, e Asimov JAMAIS criaria um herói como o interpretado por Smith, mas o enredo geral, baseado no conto Pobre Robô Perdido, que também está em Eu, Robô, manteve o elemento de mistério do original – Asimov também escreveu histórias policiais, e, dentro de sua produção de ficção científica, esse é provavelmente o conto mais “policial”. Não terá sido por outro motivo que foi escolhido para basear o filme.

Domingo, Novembro 25, 2007

As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica

Preenchendo uma velha lacuna no mercado editorial brasileiro, os autores gaúchos A. S. Franchini e Carmen Seganfredo chamaram a si a tarefa de recontar numa linguagem acessível as antigas histórias, lendas e fábulas que a humanidade acumulou ao longo de milênios de experiências e sonhos. O primeiro volume a me chegar às mãos, oriundo dessa parceria, foi este As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica. Já existem vários outros, enfocando as mitologias grega, egípcia, a Bíblia, ou sagas e ciclos específicos, como O Anel dos Nibelungos ou o recente Beowulf. Trata-se de uma sacada publicitária inteligente o fato de a capa deste livro trazer a frase “A mitologia na qual J. R. R. Tolkien se baseou para escrever O Senhor dos Anéis”, pois, desde o boom de popularidade que a obra de Tolkien experimentou no Brasil após o lançamento da trilogia cinematográfica alguns anos atrás, isso tem quase o mesmo efeito que teriam, na capa de uma nova edição de algum ro-mance brasileiro, os dizeres “Obra que deu origem à mini-série da TV Globo”... Mas vamos falar do livro.
Para quem já é familiarizado com a mitologia greco-romana, um primeiro contato com a nórdica pode causar um certo estranhamento, pois esta reflete os valores e crenças de um povo cuja mentalidade distava anos-luz da dos habitantes da bacia do Mediterrâneo – embora curiosas semelhanças, por vezes evidentes demais para serem casuais, também existam. Franchini e Seganfredo tiveram o cuidado de traçar paralelos, sempre que necessário, entre a mitologia nórdica propriamente dita – aquela originária dos países escandinavos – e a germânica, das regiões que hoje correspondem à Alemanha e Holanda. Os deuses e os heróis são basicamente os mesmos, com nomes ligeiramente diferentes, e o mesmo se dá com muitas das narrativas, que diferem em pequenos ou grandes detalhes. Por exemplo, na primeira parte do livro está narrada a versão nórdica das aventuras de Sigurd – o mesmo herói que os alemães chamam de Siegfried e que protagoniza o ciclo d’O Anel dos Nibelungos, que pode ser lido na segunda parte, permitindo que se comparem as duas versões, o que dá lugar a observações curiosíssimas. Tanto em sua versão nórdica quanto na germânica, essa narrativa orbita em torno de um anel amaldiçoado e dotado de estranhos poderes, um objeto capaz de transtornar a mente das criaturas a tal ponto que o desejo de possuí-lo supera qualquer escrúpulo moral ou da razão. Esse é o principal ponto de contato entre a obra de Tolkien e a mitologia nórdica, mas não o único: a espada que é quebrada e depois reforjada faz parte do mesmo mito, assim como o dragão que guarda um tesouro com o maior ciúme e ferocidade, embora este seja para ele completamente inútil. Além disso, as passagens em que o deus supremo Odin aparece sob disfarce humano – na figura de um velho misterioso portando um cajado e uma espada – lembram de forma irresistível a figura tolkieniana do mago imortal, Gandalf. Coincidência? De jeito nenhum!
Deixando Tolkien um pouco de lado (mas não muito, já que tudo está interligado), também não dá para crer que seja coincidência a maneira como Sigmund, pai de Sigurd/Siegfried, vem a possuir a espada mágica Notung, que será mais tarde empunhada pelo filho: Sigmund a remove do tronco de uma imensa árvore onde fora cravada e de onde centenas de guerreiros já haviam tentado retirá-la, inutilmente, já que só um predestinado poderia possuí-la. Não lembra nada?? Pode ser impossível dizer se a lenda nórdica inspirou a britânica, se foi o contrário, ou se ambas simplesmente tiveram origem em algum arquétipo ou símbolo que está no inconsciente coletivo de todos os povos, mas que esse tema merece profundos estudos, disso não há dúvida. Talvez não se chegue a uma resposta final, mas, ao longo do caminho, esses estudos podem revelar coisas essenciais para nosso autoconhecimento e para a compreensão do mito do herói, que, direta ou indiretamente, inspirou todos os seres humanos que já realizaram algo de notável, em qualquer época.
O livro tem alguns pequenos problemas de língua portuguesa, o que é bem estranho, se considerarmos que a orelha informa que Carmen Seganfredo é “bacharelada em Letras e tradutora”, mas isso é uma falha menor e perdoável, se comparada à excelente idéia em que se baseia a obra da dupla de escritores e a pesquisa cuidadosa que obviamente existe por trás de cada capítulo. Jung dizia que “os mitos são sonhos públicos, e os sonhos são mitos privados”. Tal como os sonhos (tanto os que temos ao dormir quanto os que criamos de olhos abertos) são peças-chave para a compreensão da mente do indivíduo, conhecer os mitos é essencial para quem nunca se cansa de tentar (só tentar!) compreender esse oceano de contradições, esse universo de grandezas e misérias que é a condição humana.

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

O 13.º Guerreiro

De um livro pouco conhecido de Michael Crichton (autor do blockbuster Jurassic Park, além de outros livros/filmes de sucesso mais discreto como Congo e Linha do Tempo) originou-se este ótimo filme de aventuras dirigido por John McTiernan e estrelado por Antonio Banderas. Além de adrenalina, o DVD também oferece ao espectador mais atento a questões culturais uma série de detalhes interessantes de se observar. Por sinal, as proporções relativas do sucesso alcançado pelas obras de Crichton adaptadas para a tela reflete a grande e inevitável injustiça da indústria cinematográfica: O 13.º Guerreiro é incomparavelmente mais interessante que todas as correrias de T. Rex e Velociraptors pelo parque.
O título original do livro era Eaters of the Dead – (‘Os devoradores de mortos’). Não tive o prazer de lê-lo ainda, mas uma pesquisa a respeito me informou que Crichton utilizou o velho truque de apresentar a história como sendo a transcrição de um “antigo manuscrito”, nesse caso de autoria do árabe Ahmad Ibn Fadlan, datado do ano 922. Exilado do “mundo civilizado” (o que, nessa época, significava principalmente os países árabes, que superavam em muito a Europa cristã em matéria de ciência e desenvolvimento cultural), Ahmad é enviado para o norte, para atuar como embaixador num país distante. Mas não chega ao destino: às margens do Volga, encontra um bando de vikings e acaba tendo que acompanhá-los numa arriscada viagem para socorrer um reino ameaçado por um mal antigo e misterioso. Um oráculo determina que a expedição deve ser composta por homens em número idêntico ao dos meses no calendário dos nórdicos – treze – e que o último não deve ser viking. Sobra para Ahmad.
Embora eu seja um apaixonado pela cultura, história e mitologia dos povos nórdicos, não posso me dizer um grande conhecedor. Entretanto, até onde pude ver, o visual do filme é bem cuidado: arquitetura, figurinos, armas e, o mais importante, nada de elmos com chifres, coisa que pertence a uma visão caricata dos vikings. Não que tais capacetes não existissem, mas eram raros e usados somente em cerimônias religiosas ou ocasiões de gala – por exemplo, era bem visto para um chefe comparecer a uma festa importante usando sua melhor roupa e um capacete com chifres. Já em batalha, tal objeto seria apenas um peso desnecessário e um alvo fácil para os golpes do inimigo.
Nota-se que a história do filme é parcialmente inspirada no poema épico Beowulf, um dos mais antigos representantes da literatura inglesa – escrito ainda em anglo-saxão, língua ancestral do inglês moderno, e datado entre os anos 700 e 1000. E, sim, foi escrito na Inglaterra, apesar da temática nórdica, e provavelmente antes das invasões dinamarquesas do século X. É claro que no poema não havia nenhum árabe envolvido, e no filme o nome do herói mudou ligeiramente: Beowulf virou Buliwyf. Além disso, não é ele o protagonista, e sim Ahmad.
O mal que os treze guerreiros são convocados a enfrentar é uma horda de criaturas aparentemente semi-humanas, semi-animais, que se escondem em cavernas e atacam em noites brumosas, matando todos que encontram com incrível brutalidade. Seu número parece ilimitado, de modo que apenas lutar com eles e matá-los é inútil: a parte mais difícil da missão consiste em encontrar um meio de detê-los.
Há diversas sugestões de que o wendol – coletivo que designa os monstros – é na verdade uma raça de origem muito primitiva: num dos lugares por onde semearam a morte, eles perdem um ídolo, uma pequena estátua feminina com seios e nádegas enormes, ou seja, uma deusa representando a fertilidade, tal como era figurada pelo homem de Cro-Magnon há mais de 30 mil anos. São aparentemente governados por uma “rainha-mãe” e pelo companheiro dela, que lidera o wendol nos ataques e usa chifres como insígnia. Tudo elementos de uma simbologia de origem pré-histórica: a Grande Mãe e o Deus Chifrudo...
Mas o mais interessante é o choque de culturas, que o livro deve desenvolver muito mais, já que no filme só há tempo para rápidas pinceladas. Ahmad é um homem culto, sofisticado, que a princípio se choca na presença daqueles “bárbaros”, mas aos poucos aprende a reconhecer suas qualidades e a criar laços de amizade com eles. Fica atordoado com a alegria constante e ruidosa dos nórdicos, que brincam e gargalham quase o tempo todo, seja a bordo de um navio a ponto de ir a pique numa tempestade, ou pouco antes de uma batalha em tremenda desvantagem numérica contra um inimigo apavorante. Tanto ele quanto o espectador compreendem um pouco melhor essa atitude quando um dos guerreiros diz a Ahmad mais ou menos isto: “Nosso destino já estava escrito antes de nascermos, e assim também o momento de nossa morte. Esconda-se num buraco se quiser, mas isso não o fará viver nem um minuto a mais. O homem nada ganha com o medo”. Essa filosofia fatalista explica a coragem por vezes beirando a insensatez que sempre caracterizou os guerreiros nórdicos, e é idêntica à que norteava os heróis gregos nos poemas homéricos: o homem não escolhe o momento de sua morte, mas pode escolher o modo como irá encará-la.
Enfim, seja com um olhar cultural ou apenas por diversão, recomendo plenamente que O 13.º Guerreiro seja visto. Vale bem mais a pena do que muitos outros filmes sobre os quais se fez bem mais barulho!

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Quinta-feira, Setembro 20, 2007

A História Sem Fim

"(...) É isso precisamente o mais importante. Não percebe? Os homens só não pensarão em visitar Fantasia se pensarem que ela não existe. E tudo depende disso, pois, enquanto não conhecem sua verdadeira natureza, vocês podem fazer deles o que quiserem.
- Fazer deles o quê?
- Tudo o que quiserem. Vocês têm poder sobre eles. E nada tem mais poder sobre o homem do que a mentira. Porque os homens, filhinho, vivem de idéias. E as idéias podem ser dirigidas. Esse poder é o único que conta. É por isso que eu tenho estado do lado do poder e o servi, para poder participar dele... embora de forma diferente da sua e da dos seres iguais a você.
- Eu não quero participar dele!, balbuciou Atreiú.
- Calma, pequeno louco, rosnou o lobisomem. Quando chegar a sua vez de saltar para o Nada, você se transformará também num servidor do poder, desfigurado e sem vontade própria. Quem sabe para o que vai servir. É possível que, com sua ajuda, se possa convencer os homens a comprar o que não necessitam, a odiar o que não conhecem, a acreditar no que os domina ou a duvidar do que os podia salvar. Por seu intermédio, pequenos seres de Fantasia, fazem-se grandes negócios no mundo dos homens, desencadeiam-se guerras, fundam-se impérios...
Gmork contemplou o rapaz durante algum tempo, com os olhos semicerrados, e logo acrescentou:
- Há também uma quantidade de pobres tontos que, naturalmente, se julgam muito inteligentes e pensam servir à verdade, e não encontram nada de melhor para fazer do que dissuadir as crianças da existência de Fantasia. Talvez você possa ser útil a eles.
Atreiú permaneceu de cabeça baixa. Agora ele sabia por que os filhos dos homens já não vinham mais a Fantasia e por que nunca nenhum deles viria para dar um novo nome à imperatriz Criança. Quanto mais se alastrava a destruição em Fantasia, maior era o número de mentiras que entrava no mundo dos homens; precisamente por isso, a cada segundo que passava, diminuía a possibilidade da vinda de um ser humano. Era um círculo vicioso de onde não se podia fugir. Atreiú sabia-o agora."

* * *

Michael Ende (1929-1996) foi um escritor curioso. Filho do pintor Edgar Ende – um dos nomes mais importantes do surrealismo alemão, além de ter sido ativo na política, tendo chegado a ser perseguido por ser opositor do nazismo –, ele também se dedicou à pintura, embora as obras que o tornaram famoso tenham sido as que produziu na máquina de escrever. Não obstante, a lembrança das imagens poderosas e do pensamento profundo e franco do pai influenciaria Michael durante toda a vida, e apareceria tanto em sua pintura quanto em seus livros. Não é por outro motivo que nenhum outro escritor que eu conheça conseguiu transplantar de forma tão eficaz para a literatura a estética própria da pintura surrealista.

Sempre que menciono A História Sem Fim para algum amigo, ouço o comentário inevitável: "Ah, sim, o filme do cachorro voador..." É normal: não dá para negar que Fuchur, o Dragão da Sorte, embora seja descrito no livro como tendo um rosto mais semelhante ao de um leão, ficou mesmo parecendo um cão ao ser recriado no cinema, no já antigo filme The Neverending Story (1984), dirigido pelo mesmo Wolfgang Petersen que recentemente desgraçou o próprio nome ao perpetrar aquela monstruosidade denominada Tróia. Entretanto, por A História Sem Fim, Petersen merece elogios, pois fez um trabalho bastante notável e, no que é essencial, fiel ao espírito da obra. Cuidado, porém: foram produzidos três episódios, dos quais só recomendo assistir ao primeiro. Passem longe dos outros dois!...

O elemento surrealista na escrita de Michael Ende fica mais explícito em outro livro seu, o perturbador O Espelho no Espelho, mas também pode ser observado em A História Sem Fim, que é de longe sua obra mais conhecida. E o autor serviu-se de forma magistral desse elemento como uma ferramenta para expressar seu inconformismo diante de um mundo que ele via a cada dia tornar-se mais banal e mecânico, um mundo do qual a imaginação e a beleza pareciam estar sendo sistematicamente banidas em prol de um racionalismo vazio e autodestrutivo. Esse inconformismo foi a tela sobre a qual Ende pintou A História Sem Fim, que, a um olhar distraído, parece um simples romance infanto-juvenil, mas, aos que se dispuserem a procurar entendê-lo, revela-se uma obra de implicações filosóficas profundas e um vigoroso manifesto a favor dos valores humanos essenciais, tão negligenciados pela sociedade "moderna".

A história começa com um garoto, habitante de uma cidade qualquer da Alemanha, um garoto gorducho, tímido, desajeitado, que vivencia o mesmo pequeno inferno de muitas crianças em todos os lugares do mundo. Ao mesmo tempo em que não é atlético nem popular entre os colegas, não conta com o consolo de ser um estudante brilhante, pois, embora possua uma inteligência toda especial, esta não é valorizada pelo sistema de ensino pelo qual se rege a escola que ele freqüenta (isso soou familiar a alguém? A mim, sim). Para completar seu sofrimento, ele perdeu a mãe há algum tempo, e o pai jamais se recuperou da morte dela, de modo que se formou um abismo entre os dois: o menino está, para quase todos os efeitos, sozinho no mundo.

Esse garoto se chama Bastian Baltasar Bux. Como pouco ou nada no texto de Ende deixa de ter um significado, o nome do personagem deve receber atenção. "Bastian" é um bastião – uma fortaleza solitária que ainda guarda uma chama de imaginação num mundo tão carente disso. O nome do meio também deve ter seu simbolismo, que não consegui decifrar, mas o último é muito fácil: Bux significa livros – a pronúncia é a mesma tanto em alemão (Buchs) quanto em inglês (books). Bastian, pois, é uma esperança para o mundo dos homens, por ser um dos últimos, talvez o último ser humano que ainda conhece o poder da imaginação e a magia dos livros. E é nos livros que o garoto desajustado encontra refúgio e consolo, bem como nas histórias que inventa e "conta a si mesmo".

Certa manhã fria e chuvosa, ao dirigir-se à escola, Bastian acaba tendo que fugir de outro componente de seu calvário cotidiano: aqueles onipresentes garotos cujo maior prazer na vida é atormentar qualquer um que seja "diferente". Aparentemente por acaso, Bastian esconde-se numa pequena loja de livros raros, cujo proprietário, o Sr. Koreander, apesar de absolutamente ranzinza e antipático, digna-se a uma rápida conversa com ele. Pouco depois, sem saber ao certo como isso aconteceu, Bastian acaba furtando da loja um livro intitulado A História Sem Fim – e, a partir daí, encontra-se com um destino que não tem mais volta.

O livro fala de um lugar chamado "Fantasia", que, aos poucos, Bastian descobre ser o mundo infinito criado pela imaginação dos seres humanos. Todos os seres e histórias fabulosas são reais nesse mundo – e não apenas os gnomos, fadas e outras coisinhas simpáticas: por mais de uma vez Ende deixa entrever que em Fantasia também moram as criações mais horripilantes e demoníacas já engendradas pela mente humana.

E Fantasia está em crise. Em quase toda parte surge o misterioso fenômeno conhecido como "o Nada": coisas, criaturas, lugares inteiros simplesmente desaparecem, sem deixar nada em seu lugar – absolutamente nada; um vazio absoluto, a ausência do que quer que seja. Pequeno a princípio, o Nada aumenta sem parar, e vai aos poucos devorando países inteiros. Ao mesmo tempo em que isso acontece, a soberana de Fantasia, a imperatriz Criança (eis aí outro nome cheio de significado) sofre de uma estranha doença que médico algum consegue diagnosticar e muito menos curar.

Para ir em busca de cura para a imperatriz e de salvação para Fantasia, um herói é chamado: um improvável herói, Atreiú (pronuncie Atrêiu), um menino da idade de Bastian, pertencente à raça dos Peles-Verdes, caçadores semi-selvagens que habitam as pradarias de Fantasia e são exímios cavaleiros – é óbvio que, para criar esse povo, Ende inspirou-se nos índios norte-americanos. Atreiú parte para sua Grande Busca e nela vive mil peripécias, enfrenta perigos e sofrimentos. Tudo é acompanhado por Bastian através das páginas do livro, mas, à medida em que vai lendo, ele percebe coisas estranhas: indícios de que sua própria existência é conhecida pelos habitantes de Fantasia, e de que seus gestos podem repercutir no desenrolar da história.

Sem exagero algum, posso dizer que o capítulo IX de A História Sem Fim, que narra o encontro de Atreiú com Gmork, o Lobisomem, e o diálogo entre os dois, é uma das coisas mais impressionantes que já li em minha vida – e, modéstia à parte, eu já li muita coisa. Gmork é um servo dos poderes obscuros que estão por trás da destruição de Fantasia, e revela a Atreiú como tudo funciona: Fantasia está acabando porque os seres humanos do mundo real, cujos sonhos e imaginações são o próprio material do qual Fantasia é feita, esqueceram-se dela e não mais a estão visitando. Ao mesmo tempo, as criaturas fantásticas que são aniquiladas à medida em que o Nada se espalha são lançadas no mundo dos homens, mas terrivelmente deformadas e mutiladas: transformam-se em mentiras, que envenenam o pensamento dos seres humanos e os tornam cada vez mais desesperançados e infelizes, contribuindo para que a destruição de Fantasia aconteça cada vez mais depressa. A única salvação possível seria que um – pelo menos um – ser humano viesse a Fantasia agora.

E Bastian vai. Sua intervenção salva a vida da imperatriz Criança e faz com que Fantasia se recupere, eliminando o Nada. Em gratidão, a imperatriz lhe permite realizar todos os seus sonhos. O garoto desengonçado torna-se um herói admirado por todos em Fantasia. Encontra-se com Atreiú e os dois tornam-se grandes amigos. De agora em diante, Bastian terá que empreender uma jornada por Fantasia em busca da sua "Verdadeira Vontade" e do caminho de volta para seu mundo – e só poderá fazer isso através de seus desejos, passando de um desejo a outro.

Mas há um porém: cada desejo que Bastian tem, ao se realizar, faz com que ele esqueça alguma coisa de sua existência no mundo dos homens. O próprio Bastian não se preocupa com isso, pois a vida que tem agora em Fantasia é mil vezes melhor que a que tinha antes, e ele não tem a menor vontade de retornar à realidade. Mas Atreiú, preocupado com o amigo, sabe que, se ele esquecer tudo sobre sua vida anterior, terá perdido o contato consigo próprio e deixado de ser ele mesmo – e não poderá voltar ao mundo dos homens para ensinar a outros o caminho para Fantasia, de modo que esta ficará novamente em perigo de ser destruída.

Michael Ende não é defensor de um escapismo irresponsável. Sua História Sem Fim, ao mesmo tempo em que alerta para o mal que o abandono da imaginação e do sonho causa às pessoas como indivíduos e à sociedade como um todo, também fala sobre o perigo de querer ficar para sempre em Fantasia e perder o contato com a realidade. É o que se vê no capítulo em que Bastian visita a Cidade dos Antigos Imperadores, onde vivem milhares de seres humanos que trilharam o mesmo caminho que ele e o finalizaram de forma errada: perderam suas últimas recordações do mundo real e ficaram sem saída em Fantasia, incapazes de ter desejos, de modo que o que lhes restou foi um estado de absoluta demência e uma vida aprisionada no instante presente, sem passado e sem futuro.

A História Sem Fim foi um dos livros que mais me marcaram até hoje. Vi o filme aos 11 anos de idade, ganhei o livro cerca de um ano depois e, de lá para cá, pelos meus cálculos, devo tê-lo lido seis ou sete vezes, e cada nova leitura revelou coisas novas, e me despertou pensamentos diferentes. Ende, tal como Bastian, cumpriu com louvor a missão de ensinar a muita gente o caminho para Fantasia, e, como diz o Sr. Koreander a Bastian quando os dois se reencontram no final do livro, "há muitas portas para Fantasia, meu rapaz. Há muitos outros livros mágicos. Muitas pessoas nunca percebem isso. Tudo depende da pessoa em cujas mãos o livro vai parar."

Eu encontrei meu caminho para Fantasia e agradeço por isso não só a Ende, como também a Tolkien, Haggard, Júlio Verne, Weis & Hickman, Poul Anderson, Jack Vance e uma miríade de outros. Hoje tento retribuir o bem que me foi feito, ensinando-o a outras pessoas. Ficarei feliz se este texto apontar o caminho a mais um ou dois que se tornem, como eu, Bastian e Ende, viajantes de Fantasia.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

Lady of the Lake

(Blackmore/Dio)
There's a magical sound slidin' over the ground
Makin' it shiver and shake
And a permanent cry fallin' out of the sky
Slippery and sly like a snake

With a delicate move kind of shifty and smooth
A shadow has covered the light
Then a beam in the shade from a silvery blade
Has shattered the edge of the night

I know she waits below
Only to rise on command
When she comes for me
She's got my life in her hands

When a movement behind hit the side of my mind
I trembled and shook it away
Then another assault and I started to faulter
Fibres of steel turned to clay

With a bubbly turn now the water should churn
And push it way from the core
And a lady in white will bring sun to the night
Brighter than ever before

I know she waits below
Only to rise on command
When she comes to me
She's got my life in her hands
Lady of the lake

There's a magical sound slidin' over the ground
Makin' it shiver and shake
And a permanent cry fallin' out of the sky
Slippery and sly like a snake

With a delicate move kind of shifty and smooth
A shadow has covered the light
Then a beam in the shade from a silvery blade
Has shattered the edge of the night

Straight down I'm swirling around
Blinded and bruised by the strain
There must be some way to see
Diamonds out of the rain

I know she waits below
Only to rise on command
When she comes for me
She's got my life in her hands
Lady of the lake

* * *

Uma de minhas grandes frustrações é não conseguir fazer poesia. Sei que escrevo bem, e, por mais que isso seja inútil neste mundo onde o semianalfabetismo não é obstáculo para uma carreira "bem-sucedida" (conforme a noção corrente de "sucesso"), escrever acabou por tornar-se um dos maiores prazeres que encontro numa vida que oferece tão poucos motivos de satisfação. Mas não há nada como ser capaz de alinhar em versos, com ou sem rima, os nossos sentimentos mais pungentes, jogá-los numa folha de papel, onde já não nos podem machucar, e ali os olhar com a sensação de quem venceu uma luta. Transformar dor em beleza! Mesmo as horrendas tentativas que ocasionalmente já perpetrei fizeram-me um certo bem. Escrever um bom poema deve ser como arrancar um espinho do próprio coração.

Aos que não têm esse dom, resta ler os poemas daqueles que o têm - uma forma de catarse, penso eu. O poema que diz as coisas que gostaríamos de dizer se o conseguíssemos não precisa necessariamente estar em livros, nem num site de poesia. A letra de uma música também é poesia - boa ou ruim, mas poesia -, embora só em momentos especiais a percebamos como tal.

Conheço Lady of the Lake há uns 17 ou 18 anos - o Rainbow, grupo que a compôs e gravou, foi uma das primeiras bandas de rock que ouvi. Seu vocalista e letrista, Ronnie James Dio, passaria depois pelo Black Sabbath, além de fazer uma cultuada carreira solo, e hoje é tido como um dos maiores cantores da história do rock. O guitarrista Ritchie Blackmore, membro fundador do Deep Purple, não é uma figura menos lendária. Considero Lady of the Lake um dos mais belos produtos da breve parceria dos dois.

Lady of the Lake ('A Dama do Lago') é obviamente uma referência tomada às lendas do ciclo arturiano, adaptada por Dio à sua própria e muito particular maneira. São versos bastante obscuros, e, como dizia Renato Russo, qualquer tentativa de interpretação deve ser feita com cuidado, pois pode acabar revelando mais sobre a pessoa que tenta interpretá-la do que sobre a letra em si...

Sempre me pareceu que essa letra quer passar a mensagem de que, não importa que trevas e turbulências enfrentemos, há sempre uma luz para aqueles que sabem para onde olhar – uma luz que pode tornar o mundo (ao menos o mundo particular de cada um) mais belo e significativo, fazê-lo valer a pena. Talvez eu interprete dessa forma porque meu mundo interior sempre me foi muito caro. É muito mais fácil não se sentir sozinho quando se tem uma vida interior intensa, e isso depende apenas da vontade do indivíduo. É simples.

Porém, como às vezes acontece, esses versos ganharam novos significados para mim, num momento em que, ao ouvir a música (calculo que pela 1294.ª vez na minha vida, ou por aí), eu me encontrava num estado melancólico e sentimental, um daqueles momentos em que nem mesmo a vida interior intensa de que eu falava há pouco consegue evitar que um sujeito se sinta dolorosamente sozinho. Então, enquanto Blackmore tocava seu solo, pus-me a me perguntar quem era, afinal de contas, essa Dama do Lago – quem ela era para mim.

Um lago, com suas profundezas sombrias, pode simbolizar muita coisa, desde o desconhecido infinito do universo que me cerca até o outro desconhecido infinito dentro de mim – ou qualquer coisa entre os dois. Quem seria então, quem poderia ser, essa Dama que surge de lá?... Minha intuição a respeito dela era de algo realmente grande e bom – o sol que ela traria para a minha noite, e que me faria ver tudo de uma maneira diferente e mais bela. Mas, independente do que pudesse ter nas mãos quando viesse, como seria ela? Não me pergunto que aparência teria, pergunto-me apenas como me sentiria ao reconhecê-la, ela que com apenas um olhar daria um sentido a tudo. E não precisaria trazer nas mãos a sagrada Excalibur para me entregar: ela, a Dama, sua presença, bastaria para que eu entendesse que a verdadeira Excalibur não precisava ser retirada de uma rocha, nem trazida das profundezas místicas de um lago qualquer – ela sempre teria estado na minha mão, desde o início, sem ser percebida. E a Dama estaria sempre ao meu lado e em meus pensamentos, sua suavidade amplificando minha força, a lembrança de seu sorriso bastando para curar qualquer ferida. Guiado pelo toque delicado de seus dedos, meu braço poderia abater gigantes.

Um belo sonho, e os sonhos são necessários – não importa se podem ou não se realizar. Eles são necessários porque são tudo o que impede que a brutalidade do mundo “real” seque nossa alma e nos transforme em seres triviais e mesquinhos. Porém, naquele momento, ao mesmo tempo em que pela primeira vez encontrava uma resposta, por nebulosa que fosse, sobre quem seria a minha Dama do Lago, também compreendi que ela não podia existir. Pois, a partir do momento em que ganhasse existência real, ela estaria maculada pelo mundo, e já não seria mais a Dama do Lago.

Domingo, Abril 29, 2007

300

Logo que ele estreou, algumas semanas atrás, corri ao cinema para ver o novo filme sobre a batalha das Termópilas, sobre o qual até quem não tem especial inclinação para épicos da Antigüidade andava curioso – imagine-se então como eu estava. E, para começar com a impressão geral que tive, posso dizer que 300 não me decepcionou, embora também não seja exatamente o que eu estava esperando.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, apesar de inspirado num acontecimento histórico real – e extremamente importante – e de o roteiro seguir os fatos nos pontos principais, 300 é uma fantasia, o que fica evidenciado por uma série de elementos que claramente pertencem ao universo da imaginação: criaturas semi-humanas, como um homem-fera que os Imortais persas atiçam contra os espartanos; um inusitado “rinoceronte de guerra” – elefantes de guerra, tudo bem, realmente existiam e o exército persa os tinha (ainda que não haja registro de terem sido usados nessa batalha), mas o rinoceronte nem mesmo é suficientemente inteligente para ser domado ou treinado – e por aí vai. E como não mencionar o rei Xerxes, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro, que, graças ao milagre dos efeitos visuais, aparece em cena com três metros de altura? Talvez seja melhor dizer que o filme é uma trama histórica temperada com elementos de fantasia, e tudo arquitetado com extrema competência. O elenco corresponde às exigências da história e a sombria fotografia em sépia ajuda a configurar o clima de “armagedom”. O que realmente não gostei foi da anêmica e desnecessária trama paralela protagonizada pela rainha Gorgo (Lena Headey), esposa do rei Leônidas (Gerard Butler), que serve apenas para causar irritantes quebras de ritmo e de clima, a cada vez que a ação é transferida do local da batalha para a cidade de Esparta. Mas algo do tipo já era previsível, considerando a completa impossibilidade de Hollywood produzir um filme de grandes proporções sem colocar um romance, ainda que periférico, na trama. A culpa não cabe a Headey, que, além de bonita, é boa atriz.

Comenta-se que a produção cinematográfica baseou-se diretamente numa graphic novel – para os não familiarizados com esse termo, trata-se de um “romance gráfico” (numa tradução bem literal, mas não muito acurada), ou seja, um livro em quadrinhos, de autoria de Frank Miller, um nome coroado nesse meio, embora, de momento, eu só me lembre de seu trabalho na Marvel, com o super-herói cego Demolidor – na adolescência eu gostava tanto de quadrinhos quanto de livros, já nos últimos anos tenho andado desligado desse universo. Gostaria muito de ler essa graphic novel em particular, espero que agora, aproveitando o embalo do filme, seja relançada. Para ver como é curioso o processo de realimentação que a arte sofre através dos tempos, Miller foi inspirado, para fazer a graphic novel, por um outro filme sobre o mesmo assunto, Os Trezentos de Esparta (1962), baseado diretamente no relato do historiador grego Heródoto (484-425 a.C.).

E sobre o que é tudo isso, afinal de contas? Bem... O evento central é a batalha das Termópilas, ocorrida no desfiladeiro de mesmo nome no verão de 480 a.C., na qual uma força de cerca de 4000 gregos, tendo como ponta-de-lança uma elite de 300 espartanos, enfrentou o exército invasor de Xerxes, rei da Pérsia – um exército de dimensões inconcebíveis para a época, cujo número exato é até hoje alvo de controvérsia, mas certamente não menos de 200 mil soldados; há autores que falam em um ou dois milhões. Embora não tenha sido o primeiro nem o último enfrentamento entre gregos e persas, essa batalha revestiu-se de um significado especial para os gregos daí em diante; Alexandre, ao aniquilar o Império Persa um século e meio depois, dedicou sua vitória aos Trezentos, como uma vingança tardia. E o que teve essa batalha de tão especial?... É uma longa História (com H maiúsculo, mesmo).

A noção que a maioria das pessoas tem a respeito da Grécia é a de uma civilização sábia, totalmente voltada para a razão, a ciência, a arte e a beleza, que nos legou uma herança inestimável de filosofia, monumentos deslumbrantes, uma mitologia fascinante e conceitos sem os quais não é possível imaginar o mundo moderno. E tudo isso é verdade, de modo que a noção não é errônea – é meramente incompleta. A civilização grega tinha um outro lado, talvez não tão belo, mas que da mesma forma fazia parte do que ela era. 300, assim como o episódio histórico que lhe deu origem, mostra um pouco desse outro lado.

A Grécia antiga nunca foi uma nação unificada. Estava dividida em inúmeras cidades-estado, que, apesar de compartilharem a mesma língua, origem étnica e base cultural, eram politicamente independentes umas das outras, e, não raro, rivais entre si. Enquanto outras cidades gregas eram famosas por sua arte, filosofia, ciência, e por seus avançados sistemas políticos, havia uma que era um Estado eminentemente militarista: Esparta.

A partir das reformas realizadas por um certo Licurgo por volta de 700 a.C., tudo na sociedade espartana passou a ser feito em função da guerra. Os meninos nascidos de pais livres eram separados das famílias aos oito anos de idade e ficavam sob a responsabilidade do Estado, sendo submetidos a um duríssimo treinamento que se prolongava até os 21 anos e fazia deles guerreiros praticamente imbatíveis. Como hoplitas (assim chamados por causa do hoplon, grande e pesado escudo circular), integravam as falanges, certamente as mais disciplinadas e bem treinadas unidades militares da Antigüidade até então, e que, como tais, não seriam superadas até o advento das legiões romanas, séculos mais tarde. Nelas, os guerreiros lutavam em linha, lado a lado, cada um protegido em parte pelo próprio escudo, em parte pelo do companheiro à direita; combatendo assim, eram muito poderosos, mas bastava que se abrisse uma brecha na linha para levar toda a tropa ao desastre. Em resumo: se um fraquejasse, punha todos os companheiros em risco. Os soldados espartanos precisavam confiar totalmente uns nos outros. Quanto aos outros gregos, lutavam de forma parecida, mas, ao contrário dos espartanos, não tinham a vantagem de serem treinados para isso durante toda a vida. E eis aí um aspecto não tão glorioso da civilização grega: os espartanos cidadãos só podiam dedicar-se de corpo e alma ao treinamento militar porque o trabalho que mantinha a cidade funcionando era todo feito por escravos (ninguém deve supor que isso queira dizer que nas outras cidades gregas não havia escravidão; de maneira nenhuma!).

Como é fácil imaginar, o ressurgimento da ameaça persa nos anos imediatamente anteriores a 480 a.C. inspirou os gregos divididos a porem de lado suas rivalidades e unirem forças, mas, mesmo assim, naquele verão, a Grécia ainda não estava preparada para enfrentar o invasor. A menos que fosse encontrada uma maneira de atrasar os persas por tempo suficiente para que os exércitos de todas as cidades gregas pudessem se reunir, não haveria como evitar que o país fosse conquistado e passasse a ser mais uma província do vasto Império Persa, que já se estendia do Egito à Índia. Leônidas, rei de Esparta, ouvira uma profecia que dizia que ou sua cidade cairia, ou perderia um rei. Preparou então uma expedição, reunindo trezentos de seus melhores soldados, e certificando-se de que todos tivessem filhos vivos do sexo masculino, para que suas linhagens não fossem extintas – pois sabia que nenhum deles voltaria vivo dessa missão. Nem ele, Leônidas, tampouco.

O lugar chamado Termópilas, ao norte da Grécia, só era conhecido até então por ser um inocente balneário, procurado por pessoas de todo o país por causa de suas fontes de águas termais – aliás, foi daí que lhe veio o nome: Thermopylae, em grego, quer dizer “Portões Quentes” – no filme, os atores se referem ao lugar como “the Hot Gates”, versão perfeita e fiel para o inglês; não me perguntem por que a pessoa responsável pelas legendas decidiu traduzir (?) “Hot Gates” por “Boca do Inferno”. Leônidas escolheu esse lugar para fazer frente ao inimigo devido à existência de um desfiladeiro estreito que anularia a vantagem numérica dos persas: não importava quantos eles fossem, apenas algumas centenas poderiam entrar de cada vez. Ali os quatro mil gregos lutaram praticamente sem descanso, durante sete dias, contra sucessivas levas de atacantes, matando até suas armas se desmancharem em suas mãos – segundo a narrativa de Heródoto. Talvez tivessem resistido ainda mais tempo, não fosse por um morador da região que, subornado pelos persas, mostrou-lhes uma trilha íngreme pelas montanhas, através da qual parte do exército persa flanqueou os espartanos, que assim ficaram cercados. Quando isso aconteceu, os aliados gregos se retiraram, com a aprovação de Leônidas, que, com os que ainda restavam de seus Trezentos, permaneceu no local, sem ceder uma polegada de terreno, até serem exterminados até o último homem.

Não vou entrar, aqui, em especulações sobre que tipo de determinação sobre-humana pode ter levado todos esses homens a sacrificarem deliberadamente suas vidas numa batalha que desde o início era impossível de ser vencida. Digamos apenas que cada um ali esforçou-se ao máximo por vender a sua vida tão caro quanto possível, e, de fato, calculou-se que cada espartano não tombou sem ter levado consigo pelo menos vinte persas, ainda que, diante da vastidão do exército inimigo, isso representasse umas poucas folhas arrancadas de uma floresta. O mais importante, portanto, não foi o número de inimigos eliminados, mas os preciosos sete dias que a batalha durou, e que permitiram que o restante do exército espartano, bem como os exércitos das outras cidades gregas, ocupassem posições estratégicas e, durante os meses seguintes, infligissem aos persas um revés após outro, até derrotá-los definitivamente na batalha de Platéia, obrigando-os a abandonar o plano de conquistar a Grécia. A batalha das Termópilas foi um daqueles momentos que podemos considerar verdadeiras “encruzilhadas” na História, pois, se o desfecho tivesse sido outro, tudo o que veio depois poderia ter sido diferente. Se os persas tivessem conquistado a Grécia, coisas como democracia ou o conceito de liberdade individual só nasceriam séculos ou milênios depois – ou, talvez, nunca. É raro, mas há momentos na História em que verdadeiramente o destino de uma civilização inteira repousa nas mãos de um punhado de homens; esse foi um deles, e a civilização a que me refiro não é apenas a Grécia, mas todo o Ocidente. Paradoxalmente, Esparta, a menos democrática das cidades gregas, impediu que a democracia morresse no berço e tornou possível o nascimento das sociedades modernas – que podem não ser perfeitas, mas sem a menor dúvida seriam muito piores sem os legados que a Grécia nos deixou. A conclusão a se tirar disso tudo é que cada um de nós, hoje, tem uma dívida pessoal para com aqueles bravos soldados mortos há quase 2500 anos, e que a única maneira de saldar essa dívida é procurando fazer de nossas vidas a coisa mais digna, útil e interessante que pudermos.

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

O Marechal das Trevas

Gilles de Rais (1404-1440), barão de Laval, é um dos personagens mais curiosos – e mais assustadores – da história da França. Seus feitos medonhos, ecoando pelo universo da cultura popular através de histórias contadas em tavernas e ao pé do fogo, deram origem à lenda que o grande escritor Charles Perrault (1628-1703) poria por escrito em seu clássico livro Histórias ou Contos de Outrora, com o título A História de Barba-Azul – uma nota tenebrosa em meio a histórias encantadoras ou engraçadas, como A Bela Adormecida do Bosque ou O Gato de Botas. Se bem que tanto Perrault quanto os irmãos Grimm, e outros autores que recolheram e redigiram tais contos populares, suavizaram grandemente essas histórias, muitas das quais, como eram na origem, seriam consideradas hoje pouco apropriadas para se contar a crianças... Mas isso é assunto para outro artigo.
Em O Marechal das Trevas, o jornalista e escritor espanhol Juan Antonio Cébrian, usando de uma prosa ágil em tom de reportagem – que ele prova ser compatível com uma análise histórica apurada, ainda que não tão aprofundada – reconstrói a trajetória do “verdadeiro” Barba-Azul, tendo o cuidado de situar o leitor por meio de uma breve história da Guerra dos Cem Anos, conflito no qual De Rais se destacou como soldado antes de ganhar reputação bem mais sombria graças a seus crimes.
O autor nos informa, por exemplo, dos feitos do rei inglês Henrique V, que, aparentado com os reis franceses (depois de séculos de casamentos políticos, quase todas as famílias reais da Europa eram aparentadas entre si), decidiu fazer valer seu suposto direito ao trono da França e, em 1415, invadiu o país, derrotando o exército francês na histórica batalha de Agincourt. Henrique obrigou o então rei da França, Carlos VI, a reconhecer seus direitos de herdeiro e a dar-lhe sua filha em casamento, de modo que, se Carlos morresse, Henrique seria o próximo a ocupar o trono francês, acumulando-o com o da Inglaterra (o que praticamente faria dele um imperador) e preterindo o direito do filho do rei, o delfim, também chamado Carlos. A propósito desse episódio da Guerra dos Cem Anos, vejam o magnífico filme Henrique V (1989), baseado na peça homônima de Shakespeare, e dirigido e estrelado por Kenneth Branagh.
Inesperadamente, porém, Carlos VI sobreviveu a Henrique V, ainda que por um espaço de poucos meses: o rei inglês faleceu em agosto de 1422, e o francês, em outubro do mesmo ano. Isso criou um impasse: os ingleses, e parte da França que estava do seu lado, coroaram como novo rei (da Inglaterra e da França) o filho de Henrique, então ainda uma criança de colo, com o nome de Henrique VI; já os franceses nacionalistas queriam declarar rei o delfim Carlos, como Carlos VII. Havia um empecilho: por uma tradição de séculos, todo rei francês deveria ser coroado na catedral da cidade de Reims, sob pena de não ter sua legitimidade reconhecida pelo povo e pelos nobres – e Reims, como várias outras partes da França, estava nas mãos dos ingleses. O delfim, então, aquartelou-se em seu castelo na cidade de Chinon, juntamente com todo o exército que pôde reunir e os nobres ainda dispostos a lutar por ele – e entre estes, estava Gilles de Rais.
De Rais, durante alguns anos, foi um dos cavaleiros mais admirados da França, e parecia um homem destinado à grandeza. Bonito, culto, guerreiro formidável (com apenas 25 anos de idade, alcançou o altíssimo posto de Marechal da França) e dono de uma das maiores fortunas pessoais da Europa, celebrizou-se pela bravura demonstrada no campo de batalha e ganhou um lugar de honra na corte do delfim. E foi na corte, em Chinon, num dia qualquer de 1429, que Gilles e os outros nobres viram aparecer uma camponesa analfabeta de 17 anos chamada Joana d'Arc, declarando-se enviada pelo próprio Deus para garantir que o delfim fosse coroado rei como era seu direito. Por mais absurdo que isso parecesse, Joana já havia feito profecias que deram certo, o que impediu que suas pretensões fossem sumariamente rejeitadas.
Entre os que desde o início acreditaram nela esteve Gilles de Rais, que mais tarde, em seu julgamento, contaria que só enquanto esteve junto de Joana conheceu a paz de espírito e sentiu a presença de Deus; a pureza e a fé inquebrantável da donzela trouxeram alívio à alma do marechal, já então ensombrecida pelo mal. Gilles lutou ao lado de Joana na batalha de Orléans, pouco depois, e foram as mãos dele que, diante dos olhos dela, puseram a coroa da França na cabeça do delfim, um mês mais tarde, em Reims, recuperada dos ingleses graças ao inexplicável ardor que a liderança daquela garota inspirava aos soldados.
De Rais foi seguidor e protetor de Joana por mais algum tempo, até que o recém-coroado Carlos VII os separasse, designando a cada um diferentes missões. A verdade é que, depois de ter retomado Orléans, garantido a coroação do rei, e causado uma reviravolta na guerra a favor da França, Joana tornou-se um incômodo para Carlos VII e sua corte, de modo que, quando ela foi capturada pelos borgonheses (da região francesa de Borgonha, aliada à Inglaterra), em maio de 1430, o rei não esboçou nenhum esforço para salvá-la, nem mesmo diante da enérgica intercessão do marechal Gilles de Rais. Embora tenha-se tentado dar ao julgamento e à execução de Joana d’Arc a aparência de um processo por crimes religiosos, a verdade é que a Donzela de Domrémy morreu por razões políticas. Depois de um ano de julgamento sob acusação de heresia, a pressão da coroa inglesa fez com que Joana fosse condenada à morte na fogueira, sentença que foi executada na cidade de Rouen, em 30 de maio de 1431. Tinha 19 anos de idade.
Isso foi, de certa forma, o fim para Gilles de Rais; qualquer chance que ele tivesse de dar à sua vida um rumo positivo morreu com Joana. De acordo com o levantamento biográfico feito por Cébrian, Gilles era filho de um casamento político: seus pais nunca coabitaram de fato e deram pouquíssima atenção a ele e a seu irmão, René. Ambos foram criados pelo avô materno, o conde Jean de Craon, que lhes incutiu a noção de que a crueldade era parte integrante da força e da hombridade. Isso, somado à falta de uma verdadeira família, pode em parte explicar, embora nunca justificar, sua conduta posterior.
Desgostoso após o destino que tivera Joana d’Arc, Gilles abandonou as armas e passou a dividir seu tempo entre os vários castelos que possuía, espalhados pelo interior da França, levando uma vida de luxo excessivo e promovendo quase diariamente festas suntuosas para centenas de convidados. Nem mesmo sua enorme fortuna poderia arcar indefinidamente com tais exageros, e o barão passou a enfrentar problemas financeiros. Sabe-se que procurou renovar sua riqueza tentando obter ouro por meio da alquimia, que ele próprio estudou e praticou, além de empregar especialistas, notadamente o italiano Francesco Prelati, que também se dedicava à feitiçaria. Infelizmente para De Rais, a transformação de metais comuns em ouro era algo que vinha sendo tentado desde a Antigüidade sem sucesso – e não foi com ele que essa história mudou. Chegou-se a aventar a hipótese de que as práticas alquímicas e mágicas teriam sido o início da carreira de assassino do barão, já que o sangue de crianças era um ingrediente mencionado em inúmeras fórmulas da época, mas sua própria confissão descarta essa idéia: ele já matava por prazer bem antes de dedicar-se a tais práticas.
A última parte de O Marechal das Trevas é uma leitura penosa, pois conta sobre a prisão e o julgamento de De Rais, reproduzindo os depoimentos dele e dos criados que o assistiam em seus crimes, onde abundam detalhes capazes de causar horror até a Jack, o Estripador, que, comparado ao barão de Laval, não passava de um aprendiz. Desconhece-se o número exato de vítimas – na maioria crianças de 8 a 12 anos, de ambos os sexos – que foram raptadas, violentadas e mortas entre os anos de 1431 e 1440; sabe-se que não foram menos de 140, provavelmente cerca de 200, e há cronistas que elevam a conta até perto dos mil. O marechal confessou sem a necessidade de tortura (que na época era considerada um método legítimo de interrogatório em qualquer julgamento, e não apenas nos de bruxaria, como muita gente pensa), demonstrando arrependimento que foi considerado sincero por seus juizes, e pediu um padre para ouvi-lo em confissão, no que foi atendido. Foi levado à forca em 26 de outubro de 1440, e, antes de morrer, suas últimas palavras foram dirigidas à multidão que comparecera para ver sua execução, e que incluía muitos pais de crianças que ele assassinara. Suplicou-lhes perdão e pediu que rezassem por sua alma, o que todos fizeram.
O livro tem ainda um apêndice que reproduz A História de Barba-Azul de Perrault e fornece breves resumos a respeito de alguns serial killers modernos que Cébrian considera “herdeiros” de De Rais. A meu ver, O Marechal das Trevas vale a leitura principalmente pela informação histórica que oferece (e ultimamente, não sei por que, ando com uma curiosidade louca a respeito da Guerra dos Cem Anos, de modo que veio a calhar), mas, claro, também é recomendável para os que se interessam pelo estudo dos distúrbios mentais e suas manifestações, inclusive as mais violentas e assustadoras. Mas mesmo esses precisarão ser fortes para encarar a última parte do livro.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

1984

Desejo, ao iniciar esta postagem, agradecer ao Prof. Luís Augusto Fischer por ter gentilmente autorizado a utilização do texto abaixo. Eu pensava há algum tempo em escrever um post para este blog enfocando 1984, de George Orwell, livro extremamente importante por uma série de razões. Entretanto, no último domingo, dia 08/10, ao ler o jornal Vale do Sinos, aqui da minha cidade (São Leopoldo/RS), topei com este magnífico artigo, de autoria do Prof. Fischer. Como, depois de lê-lo, nada que eu pudesse escrever sobre o mesmo assunto me pareceria bom o bastante, enviei um e-mail ao autor solicitando permissão para reproduzir o texto. Após o texto de Fischer, incluí alguns comentários adicionais meus.

Um livro profético

Por Luís Augusto Fischer
Reli agora, adulto, um livro que não é tão bom quanto poderia, mas que mantém grande interesse para nossos dias. É o famoso 1984, de George Orwell (com tradução recente pela editora Nacional). Trata-se de uma fantasia medonha, uma utopia negativa (ou uma distopia, como alguns preferem chamar): lançado em 1949 e escrito no ano anterior, 1984 relata a história de um sujeito chamado Winston Smith, que vive em Londres num sombrio futuro (que para nós é passado, mas isso é apenas um detalhe): o mundo todo é atravessado por guerras infinitas e está dividido em três grandes blocos.

Winston vive numa cidade ocupada por cartazes gigantes do Grande Irmão – se o leitor não sabe, foi daqui, deste livro, precisamente, que nasceu a imagem do Big Brother, este ser onipresente, que para Orwell era uma caricatura do líder soviético Stálin, mas também representava qualquer ditador, muito especialmente Hitler. Big Brother que veio a ser, anos depois, caricaturado pela televisão naquele programa inventado na Holanda e espalhado por todo o mundo, no Brasil pela Globo. No mundo inventado no livro, além da imagem do Irmão que a tudo vê metaforicamente, porque está espalhado por tudo, há coisa pior, uma engenhoca chamada teletela, uma tela de televisão que despeja incessantemente, nas ruas e nos interiores, nos comércios e nas casas, toneladas de informações sempre otimistas sobre os níveis de produção do país, mesma tela que inspeciona a vida de todo mundo, como se fosse uma antecipação perversa das câmeras de vídeo que se multiplicam nas cidades atuais.

Orwell foi profético em vários sentidos, como na teletela. O mundo que o atormentava era o da falta de liberdade, o mundo da sociedade administrada, sem espaço para a criatividade, que nasce do exercício da individualidade, dos sentimentos elevados do ser humano quando vive dignamente. Seu personagem trabalha numa repartição pública que se chama Departamento de Registro; seu trabalho consiste em reescrever antigas notícias de jornal, portanto alterando dados da história, falseando fatos ocorridos, tudo segundo as conveniências do poder, que é absoluto. Se por exemplo algum sujeito, no presente da história, caiu em desgraça por ter desagradado a cúpula do poder, do Partido, os registros históricos que envolviam seu nome serão alterados, de forma que no futuro não será possível ler seu nome, nem saber que ele existiu, que fez alguma coisa, nada.

Escrever para quê?

Winston vive nesse mundo mas com algum desconforto. Não consegue formular uma crítica concatenada contra o poder, contra a opressão, a falta de liberdade, mas apenas sente que o mundo poderia ser diferente. Sabe que houve organização social diferente da que ele vive no presente, mas não consegue dizer como era. Recorda imprecisamente haver coisas como família, liberdade, amor, mas tudo em sua mente é esparso, lacunoso. E é claro que suas lembranças atrapalham sua perfeita inserção naquele mundo, que deseja que os cidadãos sejam uniformemente concordinos, que trabalhem e não pensem.

Em certa altura, ele vai ter um relacionamento com uma jovem, Júlia. Ele tem seus 40, ela vinte e tantos. Ela trabalha em outro setor, o Departamento de Ficção, encarregado de escrever novelas baratas para entreter a camada de baixo da população, os proles – naquele mundo terrível, só existe o Partido, com seus filiados, e os proles. Dentro do Partido, naturalmente, há divisões, entre a cúpula, privilegiada, e a gente mais simples, como é o caso de Winston e Júlia, que são manipulados o tempo todo.

O livro descreve o trabalho de Júlia na invenção de novelas (equivalentes às telenovelas de nosso tempo, em grande parte), que também eram administradas, desde o plano geral feito por gente de cima até os retoques finais. Ela chegara a trabalhar numa subdivisão do departamento, encarregada de escrever pornografia, sempre para entreter os “proles”. De lá saíam títulos como Contos da chibata ou Uma noite num internato de moças. O procedimento, diz Júlia, era simples: eram só seis enredos, que eram misturados e adaptados, mediante um caleidoscópio que recombinava sempre os mesmos elementos. Parecido com nossos dias?

Orwell foi uma figura interessantíssima. Seu nome de batismo era Eric Arthur Blair; nasceu na Índia, onde seus pais, ingleses, trabalhavam, em 1903; estudou na Inglaterra, lugar de excelentes escolas públicas; depois, jovem, foi trabalhar na Birmânia, como policial (é preciso lembrar que a Inglaterra era a cabeça do maior império do mundo, naquela altura, até a Primeira Guerra Mundial); e resolveu escrever profissionalmente na altura dos vinte e poucos anos, quando adotou o pseudônimo, que junta o nome do santo padroeiro de seu país com o nome de um rio. Lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos, porque sempre foi um sujeito de esquerda não autoritária, e sobre essas vivências escreveu excelentes textos, hoje em dia reunidos em edição brasileira chamada Lutando na Espanha (editora Globo); fez carreira como escritor, principalmente de ensaios e reportagens, mas também de ficções, como este 1984. Morreu em 1950, muito jovem ainda, e assustadíssimo com o destino da humanidade, como se pode ver.

Deixei para o fim uma cena que está bem no começo do romance e que me levou a essa evocação: Winston, o desconfortável habitante daquele mundo totalitário, conseguiu comprar um velho caderno de notas e resolve fazer um diário. Há o perigo da teletela, que o vigia também dentro de casa, de tal forma que ele precisa esconder-se numa reentrância da parede, dentro de seu próprio lar, para então ter um mínimo de liberdade – a liberdade de anotar pensamentos, impressões, palpites, lembranças. O primeiro texto que escreve é uma sucessão desordenada de sensações sobre um filme que viu no dia anterior. A letra treme, porque ele não está à vontade; um fluxo de associações lhe passa pela mente, sem que ele consiga ajeitar frase com frase; “de repente, pôs-se a escrever por puro pânico, mal percebendo o que estava registrando”, diz o narrador.

Era um texto atropelado, uma desordem sem pontuação adequada, com palavras saindo erradas de sua caneta. Não importa: era um homem exercendo sua sofrida, pequena mas viva liberdade.

O "meu" 1984

Para quem mora na Grande Porto Alegre e mantém contato regular com o ambiente cultural/acadêmico, não há necessidade de apresentar o autor do texto acima; para os demais, aqui vai: Luís Augusto Fischer é professor da UFRGS, autor de diversos livros, e certamente uma das melhores cabeças da região para tudo quanto se refira a língua e literatura. Perdi por pouco a oportunidade de ser seu aluno, quando, em 2004, tendo sido aprovado no vestibular, estava iniciando meu segundo curso de graduação em Letras (bacharelado em tradução), mas fui obrigado a abandoná-lo depois de poucos dias de aulas para pegar o emprego burocrático onde ainda permaneço.

No artigo que acabamos de ler, Fischer nos brinda com uma análise magistral de um livro que sempre mereceu um olhar atento – e, em nossos dias, mais do que nunca. Quando li 1984, o ano que lhe dá o título já tinha passado havia cinco anos, mas, embora eu tivesse, na época, apenas 15, percebi logo que isso não significava, de forma alguma, que o risco de os horrores nele descritos se tornarem realidade tivesse sido afastado.

Aos 15 anos, eu andava mais interessado que nunca em estudos de natureza social e política, e foi isso, em grande parte, o que me levou a procurar esse livro. Mais tarde (lamento dizer), esse interesse diminuiu, creio que pelo fato de tudo à minha volta apontar para a impossibilidade de qualquer mudança real. De qualquer forma, 1984 me abriu os olhos para numerosas questões que ainda me perturbam – como sei que também perturbam a muitos outros.

O fato é que George Orwell, apesar de todo o clima de paranóia (justificada) que permeia seu romance, ficaria de cabelo em pé se pudesse, como Nostradamus, efetivamente ver o futuro e tomar conhecimento de como as coisas são nos dias de hoje. A teletela que ele descreve é aquilo que as pessoas simples do tempo do autor imaginavam que fosse a televisão (na época, uma invenção recente, e que ainda inspirava desconfiança): “eles” nos mostram as imagens que querem que vejamos, mas, ao mesmo tempo, “eles” também nos observam – o tempo todo. Entretanto, assustadora como possa parecer, essa idéia pouco representa se comparada a certas coisas que não são ficção... Hoje em dia, informações a nosso respeito são coletadas a cada passo que damos, e é impossível saber para o que estão sendo usadas. Alguns meses atrás, a revista Superinteressante publicou uma matéria sobre o assunto, que (admito) me preocupou. Imagine: você solicita um cartão numa dessas hipermegalojas de hoje – essas onde se pode comprar de tudo, de rabanetes a aviões. Graças ao cartão, obtém descontos, condições facilitadas de pagamento, e muitas vezes nem precisa mais carregar dinheiro nos bolsos – mas, em contrapartida a essas vantagens, o banco de dados da loja registra tudo o que você compra. Essas informações podem ser vendidas a outras empresas – por exemplo, uma companhia de planos de saúde, que, analisando as suas listas de compras, passa a conhecer seus hábitos alimentares, e, por conseguinte, a ter uma estimativa das chances que você tem de vir a precisar de serviços médicos. Com base nisso, a companhia calcula o preço que você terá que pagar por um plano de saúde!...

Isso é apenas um exemplo das coisas que ocorrem num mundo onde a privacidade, outrora um direito básico de todo cidadão, passou a ser um luxo nem sempre disponível. Também é tristemente irônico que o Grande Irmão – Big Brother – criado por Orwell com o objetivo de alertar a humanidade para o perigo do totalitarismo, tenha-se transformado num ícone da cultura do voyeurismo, ao ter seu nome usado para batizar um programa de TV onde pessoas absolutamente vulgares e sem conteúdo expõem sem o menor constrangimento sua mediocridade e, o que é pior, transformam-se em ídolos para uma população carente de exemplos mais construtivos ou de referências mais sólidas... Um paralelo, contudo, existe: no livro de Orwell, Winston lembra-se que o rosto do Grande Irmão nos cartazes ainda é o mesmo de quando ele era menino, 30 anos atrás – o GI não envelhece, porque não é uma pessoa de verdade, apenas um personagem, um rosto que personifica o próprio regime. Da mesma forma, as pessoas que se exibem no zoológico hi-tech que é o Big Brother da TV não são, enquanto estão ali, propriamente pessoas – apenas imagens, personagens, rostos e corpos que simbolizam algo na cabeça dos telespectadores. “Reality show”? Show, sem dúvida; de realidade, parece haver muito pouco.
O fato de a amante de Winston, Júlia, trabalhar no “Departamento de Ficção”, chamou-me a atenção ao ser relembrado pelo Prof. Fischer; o paradoxo de tal detalhe me havia escapado quando li o livro – em parte, acredito, devido à minha pouca idade, e em parte ao fato de as principais mídias de então serem ainda basicamente as mesmas que Orwell conheceu em vida, ou cujo desenvolvimento já podia ser previsto em sua época: em 1989, embora os telefones já fossem coisa corriqueira, ninguém achava estranho o fato de uma família de classe média não ter um (de fato, na minha casa ele só seria instalado quatro anos depois); videocassetes, muita gente tinha, e muita gente não tinha; computadores caseiros eram raros; DVDs e celulares não existiam, e de internet, então, nem se falava. Por tudo isso, não causou estranhamento a um garoto de 15 anos que, na sociedade totalitária prevista por Orwell, o governo usasse a literatura como instrumento de lavagem cerebral. Hoje em dia só podemos ficar pensando em como seria bom se a população em geral lesse seja lá o que fosse, não importa o quão ordinária fosse essa literatura. Já foi dito, e é certo, que a leitura é uma forma de vício (um vício que deveríamos estimular nossas crianças a contrair o mais cedo possível...), e, como em outros vícios, também no caso dela o “usuário” desenvolve tolerância e passa a sentir necessidade de coisas mais fortes: quem começa hoje lendo Paulo Coelho, daqui a um ano ou dois sentirá vontade de experimentar algo mais consistente e bem escrito, e talvez passe a Sidney Sheldon, e assim, de passo em passo, quem sabe não acabe um dia tornando-se um apreciador de Tolstoi, Machado de Assis ou Shakespeare?... Mesmo que esse leitor jamais vá além do nível Sidney Sheldon, isso já será incomparavelmente melhor do que seguir pela vida sem ler nada. Sei que estou repetindo coisas já ditas milhares de vezes, mas é fato: ao contrário da televisão e de outras mídias que simplesmente nos despejam coisas prontas, a leitura estimula a imaginação, o senso crítico, e leva a pessoa a fazer-se perguntas e procurar as respostas. Não existe livro tão vagabundo que não ensine alguma coisa nova, por menor que seja, a quem o lê. A leitura, com tudo o que ela traz à vida de uma pessoa, é como uma avalanche, que, uma vez iniciada, não pode ser detida. Enfim, o Grande Irmão do século XXI jamais teria a seu serviço um Departamento de Ficção!...

Sexta-feira, Junho 23, 2006


Herois de verdade Posted by Picasa

Heróis de verdade

Precisamente pelo fato de sempre ter sido um apaixonado por literatura, tenho o costume de passar longe de livros do gênero conhecido como “auto-ajuda” – primeiramente porque, tendo uma razoável experiência como leitor, estou ciente de que existe um sem-número de obras realmente merecedoras de que se dedique tempo à sua leitura, ao passo que a maioria das pessoas não têm essa sorte, e (para empregar uma metáfora) comem capim, simplesmente, por não terem sido apresentadas ao filé mignon. Em segundo lugar, os poucos livros de auto-ajuda que cheguei a ler me permitiram constatar que a maior parte dos títulos do gênero realmente merecem o nome, mas não pelo motivo pretendido: são de auto-ajuda porque foram a maneira que o autor encontrou para se auto-ajudar a ganhar dinheiro.
Entretanto, como toda regra tem exceção (inclusive esta), cá estou eu para falar de um livro de auto-ajuda que não só vale a pena ler, como deveria ser objeto de reflexão e discussão séria. Em Heróis de verdade, o psiquiatra Roberto Shinyashiki mostra-nos uma radiografia implacável de uns tantos absurdos que a vida na sociedade moderna acabou fazendo-nos achar normais, e aconselha sobre as atitudes que deveríamos tomar para não entrar nesse jogo.
De forma resumida, o objetivo do livro é nos alertar para o fato de que a mídia tenta constantemente nos vender uma imagem de “sucesso” irreal e por vezes absurda. Somos bombardeados dia após dia com regras, sugestões, exigências e cobranças que podem nos levar ao desespero se tentarmos atendê-las todas: publicidades de todo tipo de gulodices altamente calóricas nos atingem ao mesmo tempo que as de marcas de roupas exigindo corpos perfeitos. Pior ainda, parece que uma pessoa só poderá se considerar “bem-sucedida” se chegar à direção de uma megaempresa, com salário na casa das dezenas de milhares de reais e poder sobre o destino de centenas, milhares de empregados... Conseqüentemente, cria-se a noção de que os 99,9 % da população que jamais chegarão nem perto disso, são nada mais que uma multidão de “fracassados”. Essa mentalidade leva inevitavelmente à frustração e a uma atitude de competição destrutiva – de forma totalmente desnecessária e evitável. Ao lado disso, criou-se uma cultura onde o stress é visto como uma espécie de distintivo de honra: as pessoas incham o peito para dizer que não tiram férias há cinco anos, como se isso fosse motivo de orgulho. Lembro-me dos meus tempos de faculdade e de ter ouvido muitos colegas declararem – não em tom de lamento, mas de quem se vangloria – que geralmente não lhes sobrava tempo nem para almoçar direito. Sobre tudo isso, Shinyashiki é categórico: trabalhar 16 horas por dia e levar trabalho para casa no fim de semana não é sinal de dedicação, e muito menos de competência – é meramente coisa de quem sente necessidade de se provar, quer diante dos outros ou de si mesmo. É, em última análise, o mesmo mecanismo que leva muitas pessoas a sentirem necessidade de comprar o carro do ano, apesar de ainda terem um automóvel em perfeitas condições: precisam comprar o carro para mostrar – aos outros e a si – que podem.
Para definir as pessoas que o autor vê como os “heróis de verdade” do título, eu poderia juntar as idéias do livro com algumas considerações pessoais minhas. Um “herói de verdade”, então, é alguém que busca progredir em seu trabalho como um caminho para a realização pessoal, e não para provar que não é um “fracassado”. Alguém que exerce suas atividades de forma dedicada, mas não permite que isso o impeça de ter uma vida. Que tira seu tempo para ficar com a família, conversar com os amigos, dar um passeio ao ar livre, ler (e não ler o que precisa para o trabalho) sem ficar se sentindo culpado por tê-lo feito. Numa palavra, alguém que não negligencia nenhum dos aspectos do seu próprio ser, sabe combinar uma atitude humilde com uma saudável admiração por si próprio, e procura levar sua vida da melhor maneira possível – quer dizer, da maneira melhor para si, e não da maneira que os outros acreditam ser a melhor. Diante dessa pequena coleção de verdades tão simples, mas por vezes tão difíceis de enxergar, só resta mesmo aplaudir Shinyashiki por ter realizado essa raridade: um livro de auto-ajuda que pode verdadeiramente ajudar alguém.

Domingo, Novembro 27, 2005


Ayla - a Filha das Cavernas Posted by Picasa

Os Filhos da Terra

Muitos anos atrás (eu era criança), li na revista Istoé uma crítica que nunca mais esqueci, a respeito do filme A Guerra do Fogo, do diretor francês Jean-Jacques Annaud, inspirado no romance de mesmo nome, do belga J. H. Rosny. A crítica começava com uma reflexão sobre o fenômeno da nostalgia coletiva que parecia estar atingindo a humanidade, que, vivendo num mundo cheio de engenhocas tecnológicas mirabolantes (tanto quanto se podia falar tal coisa na década de 80), passava a sentir saudades do passado, o que, depois de produções como Excalibur e Conan, o Bárbaro, fez com que A Guerra do Fogo (que vai ainda mais fundo no passado e nos leva de volta à pré-história), tivesse se tornado um grande sucesso de público. De fato, ao menos para certo tipo de pessoas (incluo-me) existe um fascínio todo especial nesse mundo primitivo por onde se deslocavam nossos ancestrais, lutando dia a dia por uma precária sobrevivência em meio a uma natureza hostil. Embora hoje pareça difícil acreditar, houve um tempo em que a humanidade era apenas mais uma espécie, ou espécies, que, como qualquer outro animal, lutava com todas as armas para escapar da implacável lei da seleção natural, que elimina sumariamente da face do planeta as espécies que não se adaptam satisfatoriamente às condições de vida de cada era. Com um agravante: por ter inteligência, o homem também buscava compreender a razão de ser disso tudo, questão essa que jamais preocupou os mamutes ou os tigres de dentes de sabre. E não havia ciência para explicar os porquês das coisas: tudo era mistério, e o homem estava perpetuamente à mercê de forças que não dominava ou sequer compreendia.

Valendo-se de uma grande quantidade de novos dados arqueológicos que não eram conhecidos na época de Rosny, a escritora norte-americana Jean M. Auel decidiu dedicar-se a um projeto extremamente ambicioso, a saga dos Filhos da Terra, do qual Ayla, a Filha das Cavernas, é o primeiro volume. O título original do livro era The Clan of the Cave Bear – literalmente, “O Clã do Urso da Caverna”. A saga, hoje, conta com pelo menos cinco volumes, mas, a partir do segundo, O Vale dos Cavalos, já começa a descambar para o mais elementar romance sentimental, com o impressionante painel do mundo pré-histórico servindo apenas de pretexto. Ayla, a Filha das Cavernas, entretanto, contém uma das narrativas mais poderosas e convincentes que já tive oportunidade de ler, onde os terrores e mistérios do mundo pré-histórico, e o esforço heróico do homem para lidar com a realidade que esse mundo lhe impunha, assumem dimensões épicas.

Todos nós já vimos aquela clássica gravura que ilustra a evolução da espécie humana, mostrando alguns dos nossos ancestrais andando em fila. Iniciando com algo parecido com um gibão, ela apresenta várias espécies primitivas e (se a memória não me trai) passa pelo Homem de Neanderthal segurando uma ferramenta de pedra, pelo Cro-Magnon de lança ao ombro, e termina com o homem moderno, novamente de mãos vazias, como a sugerir que sua mais importante arma e ferramenta é o próprio cérebro. Não se trata de uma imagem totalmente incorreta, mas tem a falha de dar a impressão de que cada espécie se sucedia à anterior em linha reta, sem desvios ou ramificações, o que, é claro, não foi o caso: por vezes, ao longo das eras, até três ou quatro espécies diferentes de seres humanos tiveram de partilhar o mesmo ambiente. Na Europa pós-Era Glacial, há cerca de 35 mil anos, onde está ambientada a narrativa de Auel, conviviam duas espécies: o Homem de Cro-Magnon – praticamente idêntico a você e a mim – e o Homem de Neanderthal.

Este último, que muita gente pensa que era um semimacaco, na realidade possuía uma cultura bastante complexa, o que este livro retrata magnificamente. O fio condutor é a história de Ayla, uma menina da espécie Cro-Magnon, que, após ficar órfã durante um terremoto, é encontrada e adotada por um clã de neandertalenses – o Clã do Urso da Caverna, assim autodenominado porque, na religião em que acreditam, o Urso da Caverna é o mais poderoso de todos os espíritos, e é à sua proteção que eles se confiam. Para servir de ponte entre o mundo dos homens e o dos espíritos, cada clã tem um feiticeiro – o mog-ur – que adota como totem o próprio Urso da Caverna.

São justamente Creb, o mog-ur do clã, e sua irmã Iza, a curandeira, que passam a fazer as vezes de pais para Ayla. Creb, aleijado desde a infância, nunca foi capaz de caçar, mas esse fato, que teria significado desgraça e vergonha para a maioria dos homens daquele povo, acabou proporcionando-lhe uma posição única em sua sociedade: sem precisar preocupar-se com as atividades comuns dos outros homens, pôde dedicar todo o seu tempo à meditação e à observação da natureza, e assim tornou-se o mais poderoso feiticeiro que o clã jamais teve. Graças à sua sensibilidade privilegiada, ele logo percebe que as diferenças entre aquela estranha criança e o povo que a adotou vão muito além da aparência.

É particularmente interessante a passagem em que Creb tenta ensinar a Ayla os segredos dos números – e fica espantado ao ver a menina “pegar” instantaneamente conceitos que ele próprio só conseguiu dominar após muitos anos de meditação profunda. Ocorre que Ayla, como todos de sua espécie, tem uma conformação cerebral diferente da de Creb e seu povo: enquanto o Homem de Neanderthal tinha a parte traseira do cérebro muito desenvolvida, o de Cro-Magnon desenvolveu mais a parte frontal. O resultado disso é que o neandertalense devia ter uma memória prodigiosa, mas era fraco em raciocínio abstrato, o que tornaria muito difícil imaginar qualquer número maior do que os que pudesse contar com os dedos, e quase impossível executar operações aritméticas. Já nós, não temos tanta facilidade para memorizar, mas, em compensação, desenvolvemos a matemática e o pensamento criativo, que tornaram possíveis todas as invenções. É importante salientar, entretanto, que isso não significa que sejamos mais “inteligentes” que aqueles nossos parentes hoje extintos: simplesmente, nossa inteligência se desenvolveu numa direção, e a deles, em outra.

Ayla é ensinada a portar-se e a trabalhar como fazem as mulheres dos clãs, tendo que superar inúmeras dificuldades para adequar suas diferenças ao tipo de comportamento que é esperado dela. O livro é cheio de detalhes fascinantes sobre a vida diária entre os neandertalenses, desde a procura e o tratamento das ervas medicinais até a fabricação de artefatos de sílex. As cenas de caçadas são espetaculares – a inteligência do homem triunfando sobre a força bruta do bisão, do mamute, do urso. As cerimônias religiosas oficiadas por Creb (em geral, assistidas apenas pelos homens) transmitem um sentido indescritível de profundo mistério, que não deixa de ser impressionante nem mesmo para a mente moderna “esclarecida”, desde que se tenha alguma sensibilidade e não se queira julgar por padrões atuais a mentalidade de homens que viveram há 35 mil anos.

É, também, muito digna de nota a habilidade com que Auel desenha a personalidade de Ayla, que, por mais que se esforce sinceramente para agir como uma boa mulher dos clãs, não consegue deixar de transgredir tabus, porque a natureza simplesmente não a desenhou para viver como vive o povo que a acolheu, e esse problema segue num crescendo, até tornar impossível a sua permanência no clã onde se criou. Talvez esse conflito cultural seja parte do que falta aos livros seguintes da série, deixando um vazio que a autora procurou preencher com problemas românticos e muitas cenas de sexo. De qualquer forma, Ayla, a Filha das Cavernas, é uma leitura que recomendo plenamente.

Sábado, Agosto 13, 2005

A última legião

O escritor italiano Valerio Massimo Manfredi escolheu como seu “chão” o mundo antigo, tendo-se notabilizado entre nós com sua belíssima trilogia Aléxandros (para quem não sabe, é sobre Alexandre, o Grande, sendo o título a forma original do nome do grande conquistador – a tônica é no e e o x pronuncia-se ks), sobre a qual ainda espero escrever meus comentários. Não obstante, foi com A última legião que tive meu primeiro contato com a obra de Manfredi, e foi este o livro que me levou a considerá-lo, pau a pau com o britânico Bernard Cornwell, o melhor da “nova geração” de autores de romances históricos que as editoras nacionais estão atualmente colocando nas livrarias.

Experimentem pegar diversos livros, ou, mais ainda, vídeos, cuja ação seja ambientada na Roma antiga, e ler as sinopses nas orelhas e contracapas. Em quase todos se lêem coisas como “um retrato vivo e marcante da Roma antiga da época da decadência”. Isso me irrita profundamente, pois demonstra apenas que quem escreve essas sinopses não entende coisíssima alguma de História. Seja qual for o período que o livro ou filme focalize – as Guerras Púnicas, a época de Júlio César, a perseguição aos cristãos sob Nero ou o tempo de Marco Aurélio e Cômodo – as sinopses sempre falam em “época da decadência”, como se a civilização romana jamais tivesse feito coisa alguma em toda a sua história a não ser “decair”. E foi essa a idéia que se popularizou: Roma como uma civilização de bêbados, loucos e libertinos. Ninguém jamais ouviu falar em Horácio Cocles, que defendeu a Ponte Sublícia, sozinho, contra todo o exército etrusco, ou em Caio Cévola, que queimou a própria mão direita para não entregar ao inimigo informações que prejudicassem seus compatriotas. Mesmo no tempo de Calígula ou de Nero, as orgias e demências desses dois imperadores e de seus protegidos em nada importavam ao legionário anônimo que arriscava a vida em alguma fronteira bárbara pela grandeza do Império.

Por outro lado, pode-se dizer que A última legião, sim, é um romance que realmente fala sobre a decadência do Império Romano. Não que retrate nobres embriagados ou funcionários corruptos: ele simplesmente narra os acontecimentos de 476 d.C. – ano em que foi deposto Rômulo Augusto, último imperador a governar o Império Romano do Ocidente, acontecimento esse que, simbolicamente, marca o fim da civilização romana e da Antigüidade, bem como o início da Idade Média (não custa lembrar que o Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, com sede em Constantinopla, continuaria a existir por mais mil anos).

O livro é apresentado como se fossem as memórias de Myrdin Emreis, que os romanos chamam de Meridius Ambrosinus – um druida da Bretanha, que no ano fatídico desempenhava as funções de preceptor do imperador, que tinha, à época, apenas 13 anos de idade. O pai do imperador é o general Flávio Orestes, que foi, em tempos, assessor de Átila, cuja fúria destruidora de civilizações conseguiu, em parte, refrear. Mais tarde, Orestes veio a derrubar o fraco imperador Júlio Nepote, mas, ao invés de colocar o manto imperial sobre os próprios ombros, preferiu nomear o filho, reservando para si o comando supremo do exército. Numa época em que o exército romano era formado basicamente por guerreiros bárbaros recrutados, Orestes decidiu (assim nos conta Manfredi) criar uma unidade especial, à qual chamou Legio Nova Invicta, treinada nos moldes das antigas legiões, cuja força e disciplina levaram Roma a dominar o mundo. Quando o chefe germânico Odoacro – que havia feito carreira servindo ao exército romano – decide se rebelar, a Nova Invicta, depois de lutar bravamente, é massacrada por uma multidão de guerreiros bárbaros sob as ordens do líder rebelde, quase ao mesmo tempo em que a casa de Orestes é atacada por outro bando. Quase todos são mortos, mas o jovem imperador e seu mestre Myrdin, por alguma razão, são poupados e conduzidos vivos ao exílio na ilha de Capri, na outrora suntuosa e agora decadente Villa Júpiter, residência de verão construída pelo imperador Tibério. É historicamente sabido que Rômulo foi realmente poupado e exilado – mas essa é a última informação que os historiadores podem oferecer sobre ele. Nada mais se sabe sobre sua vida desse ponto em diante, e é precisamente esse momento nebuloso que Manfredi escolhe para começar sua narrativa.

Entre os poucos sobreviventes da Última Legião estão três bravos que ainda não desistiram de considerar a si próprios soldados romanos: o espanhol Rúfio Vatreno, o africano Cornélio Batiato, e o único italiano de nascimento entre eles, Aureliano Ambrósio, conhecido como Aurélio – e deve-se observar que as origens diversas dos três heróis lembram o fato de que ser romano não era realmente uma questão de nacionalidade, mas de cultura e de identificação com uma civilização e suas idéias. Surge então o audacioso plano de seguir o imperador até seu cativeiro em Capri e tentar libertá-lo. Ao destemido trio juntam-se os gregos Orósio e Demétrio, e a jovem Lívia Prisca, exímia arqueira vinda de uma cidade recém-fundada na laguna próxima de Ravena: uma cidade chamada Venetia (pronuncia-se Venécia), construída sobre as águas e onde o único meio de locomoção viável são os barcos. Isso lembrou a alguém alguma coisa??

Está armado o palco para uma aventura de tirar o fôlego, onde lances de ação vertiginosa se revezam com passagens contemplativas onde os personagens – especialmente o jovem Rômulo, orientado por seu mestre bretão – procuram entender o que se passa com o mundo que os cerca, pois ninguém ainda conseguiu assimilar verdadeiramente a noção de que o Império Romano, que durante séculos pareceu tão eterno quanto o céu, não existe mais. Myrdin conduz os companheiros à sua terra natal, na vasta e misteriosa ilha que foi outrora a província mais setentrional do Império, onde ainda os aguarda uma última batalha, e onde a memória de seus feitos, através da bruma dos séculos, irá dar origem a uma nova lenda.

Um detalhe desagradável, mas que não é culpa do autor, é o fato de que, na tradução brasileira, a tentativa de utilizar uma linguagem antiga, que correspondesse melhor ao clima da história, resultou numa infinidade de frases gramaticalmente defeituosas – a triste realidade é que, hoje em dia, praticamente ninguém mais sabe conjugar corretamente os verbos nas pessoas tu e vós.

Para finalizar, uma curiosidade: na nota de agradecimento no começo do livro, o autor “entrega” que já escreveu a história pensando numa futura adaptação para o cinema, o que torna muito lógicas as seqüências de ação realmente “visuais” e “cinematográficas” de que o romance está repleto. E quando, meses depois de ter lido A última legião, vi no cinema o trailer de Rei Arthur, que estava prestes a ser lançado, confesso que, antes de ficar sabendo do que se tratava, pensei que já fosse o livro de Manfredi transformado em filme!... As paisagens britânicas, aquele guerreiro de elmo e armadura romanos, uma bela arqueira, tudo parecia bater. Leiam o livro e vejam se não me dão razão!... Por fim, faço votos de que o filme A última legião não tarde muito a surgir.

Domingo, Junho 12, 2005

Duas observações

Olá! Desta vez estou aqui apenas para dar dois toques aos meus leitores, enquanto o próximo post não fica pronto. O primeiro é que hoje, 12 de junho, substituí a versão anterior do post sobre os Contos fantásticos do séculos XIX por uma nova versão "revista e ampliada", ou seja, agora o texto está como deveria ter sido desde o começo. O segundo toque é a respeito de um comentário feito por alguns amigos que visitaram o blog e me disseram que era muito complicado postar comentários, já que para isso é exigido que se registrem no Blogger, e suponho que alguém que nem mesmo me conhece dificilmente se daria a esse trabalho todo, apenas para fazer alguma observação sobre o que escrevi. Então, quem tiver algo a dizer pode entrar em contato comigo diretamente através do e-mail centurion13@bol.com.br, que, a partir de agora, colocarei no final de cada novo post que publicar. Obrigado a todos!

Sábado, Abril 30, 2005


Contos Fantásticos do Século XIX Escolhidos por Ítalo Calvino Posted by Hello

Contos Fantásticos do Século XIX Escolhidos por Ítalo Calvino

Sei que ainda estou devendo mais comentários sobre Alexandre, o Grande e suas representações na literatura, mas, como ainda não me sinto pronto para levar adiante esse projeto, e já faz muito tempo que não atualizo o blog, acho que é justo adiar um pouco as peripécias do grande conquistador, a fim de tratar de um tema que ultimamente anda me pedindo atenção.
Alguns anos atrás, li um ensaio bastante curioso, de autoria do escritor americano Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), intitulado O horror sobrenatural na literatura. Publicado postumamente em 1945, o livro pretendia ser um guia para os interessados em conhecer as obras e os autores mais importantes da moderna literatura fantástica – campo do qual o autor podia falar com conhecimento de causa, pois, para quem não o conhece, Lovecraft, discípulo aplicado de Edgar Allan Poe, é hoje considerado um dos nomes mais importantes da literatura de horror e fantasia de todos os tempos nos Estados Unidos.Esse ensaio era uma leitura muito interessante, mas acabava deixando no leitor (ao menos no leitor brasileiro) um sentimento de frustração, já que a vasta maioria dos trabalhos citados por Lovecraft nunca tinham sido publicados por estas plagas, nem havia perspectiva próxima de que viessem a sê-lo, pois a literatura de imaginação nunca foi considerada, dentro do restrito mercado editorial brasileiro, um campo em que valesse a pena investir, já que não falava ao gosto da maioria do ainda mais restrito público leitor.
Ultimamente, entretanto, pode-se arriscar dizer que a situação está mudando. A tremenda popularidade que a obra de Tolkien começou a ganhar no país por volta de meados dos anos 90, e que estourou de uma vez por todas com o lançamento da vitoriosa trilogia cinematográfica O Senhor dos Anéis, trouxe em sua esteira uma ampliação radical do mercado potencial para a literatura de imaginação como um todo. O estilo que em alguns círculos é chamado de “fantasia medieval”, do qual Tolkien é o maior expoente, era praticamente desconhecido no Brasil até há alguns anos – já agora, a maioria das livrarias têm dezenas de títulos do gênero para oferecer, sendo alguns até de autores nacionais. E não causa estranheza que o leitor já acostumado com a literatura de fantasia através de Tolkien e seus seguidores, tenha maior facilidade em interessar-se pelos lados mais sombrios da ficção fantástica.
Assim, por meio da antologia Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Ítalo Calvino, eu, e presumo que um bom número de outros leitores do ensaio de Lovecraft, tive por fim o prazer de realmente conhecer diversas das histórias resenhadas com tanto entusiasmo pelo autor americano. O nome do organizador da antologia já há que ser considerado uma recomendação: Calvino, autor de uma obra mundialmente aclamada, tanto como ficcionista quanto como teórico da literatura, escreveu, entre muitas outras coisas, uma pequena pérola intitulada Por que ler os clássicos, livro que deve fazer parte do arsenal de todos os que trabalham na área da literatura ou dos que simplesmente a amam, pois nos abastece com uma fartura de respostas para dar aos onipresentes imbecis (desculpem-me, mas a palavra é essa mesmo) que vêm perguntar “para que serve” ler Homero, Cervantes ou Shakespeare. Com o estofo proporcionado por sua vasta bagagem de conhecimentos sobre literatura universal, Calvino selecionou com rara felicidade uma série de textos que representam o que de melhor se produziu em matéria de ficção fantástica no século XIX.
A antologia contempla desde textos e autores famosos como os americanos Nathaniel Hawthorne (O jovem Goodman Brown) e Edgar Allan Poe (O coração denunciador) até os praticamente desconhecidos, ao menos entre nós, como o polonês Jan Potocki (História do demoníaco Pacheco), além de cobrir uma surpreendente diversidade de estilos dentro do que se convencionou chamar “horror gótico”: temos oportunidade de percorrer desde os exageros emotivos e estilísticos (intencionais?) do romantismo alemão (E. T. A. Hoffmann com o seu O Homem de Areia), passando por climas sombrios como no já citado Goodman Brown de Hawthorne, e indo até coisas que dificilmente seríamos capazes de classificar como “horror”, pois o efeito que produzem é bem outro, como no caso da hilária O nariz, do russo Nikolai Gogol. Há ainda lugares onde o macabro e o engraçado se entrecruzam de forma magistral, como em A mão encantada, de Gérard de Nerval. As histórias encadeiam-se umas nas outras sem a menor intenção de ilustrar uma “evolução” da literatura fantástica ao longo do século, mas antes uma variação natural de tons, conforme a índole de cada autor e o ambiente cultural onde seu talento se desenvolveu. Calvino faz questão de nos mostrar tanto autores cujos nomes são automaticamente associados ao conto fantástico – Poe ou Guy de Maupassant, por exemplo – quanto aqueles que se celebrizaram em outros ramos da literatura, mas que eventualmente se dedicaram a explorar o campo do insólito: Hans Christian Andersen, Balzac, Walter Scott...
Se tivesse que escolher as melhores histórias do livro, eu apontaria A Vênus de Ille, de Prosper Merimée, que expressa com tremenda força – mas sempre com sutileza – a sensação de um horror que ressurge depois de ter ficado adormecido desde a Antigüidade, tudo girando em torno do achado de uma antiga estátua romana; Amour Dure, onde um jovem estudioso de História se vê apaixonado por uma dama bela e terrível, morta há trezentos anos; O demônio da garrafa, de Robert Louis Stevenson, que consegue a proeza de manter o leitor acorrentado à narrativa, mesmo lidando com um tema tão batido quanto o que lhe serve de título; quanto a Poe e Hawthorne, nem é preciso dizer que seus trabalhos estão entre os melhores.
Mas a melhor história de todas é a que Calvino, sabiamente, reservou para o fim: Em terra de cego, do grande H. G. Wells. O conto fala de um vale encravado no meio dos Andes, onde um grupo de exilados se refugiou no século XVI, e onde existe todo o necessário para que uma pequena população humana viva em paz e fartura – com o inconveniente de que, por alguma razão misteriosa, lá todas as crianças nascem cegas. Devido à erupção de um vulcão que fecha sua única saída, o vale acaba ficando isolado do mundo exterior, e durante três séculos só nascem lá pessoas cegas. Um dia, já no século XIX, Nuñez, um guia de alpinismo, perde-se de seu grupo e é arrastado por uma avalanche para dentro do vale. Por algum tempo ele acredita que, pelo fato de poder ver, será admirado e invejado por aquele bizarro povo cego (“Em terra de cego, quem tem um olho é rei”), mas logo se decepciona: depois de catorze gerações só de cegos, os habitantes do vale esqueceram tudo sobre o mundo exterior. Ao longo dos séculos surgiram entre eles alguns de espírito filosófico que questionaram as lembranças transmitidas pelos ancestrais, passaram a considerá-las meras crendices (“Por que temos que crer em coisas que nenhum de nós nunca viu?”), e acabaram por negá-las completamente e por convencer os demais. Agora, todos ali ignoram completamente que existe um mundo lá fora: para eles, o universo é aquele vale. E não é tudo: palavras como luz e trevas, dia e noite, olhar, ver, simplesmente não existem em seu vocabulário, nem tampouco a palavra cego, pois esqueceram por completo tudo o que diz respeito ao sentido da visão. As histórias de Nuñez sobre o mundo exterior soam para eles como delírios de um louco, assim como tudo o que ele lhes diz sobre poder “ver”. A história é uma alegoria extremamente inteligente que critica certos postulados filosóficos e a maneira como geralmente o conhecimento humano é construído.
É claro que nem tudo é perfeito: há coisas sem as quais o livro poderia passar muito bem, como Os buracos da máscara, de um tal Jean Lorrain, texto sem pé nem cabeça cujo único mérito é ser breve, e que simplesmente descreve as alucinações da mente de um drogado, ou Os amigos dos amigos, de Henry James – não tenho a menor intenção de pôr em dúvida a importância ou os méritos de James, mas esse conto em particular, a meu ver, não tem por que ser considerado literatura fantástica, já que as brevíssimas menções que faz a aparições fantasmais não passam de um pretexto para páginas e mais páginas descrevendo as inseguranças sentimentais da heroína narradora.
Apesar desses tropeços, cada conto do livro reserva ao leitor uma ou várias surpresas, e, como guia nessa viagem pelo mundo da imaginação visionária, dificilmente poderíamos querer alguém melhor que Ítalo Calvino, que nos situa no contexto através de uma interessantíssima introdução, além de ter escrito para cada história um pequeno prefácio que fornece informações importantes sobre o autor – embora seja muito incômodo o fato de o organizador, por alguma razão misteriosa, ter decidido várias vezes bancar o desmancha-prazeres, contando ao incauto leitor o final do conto que ele ainda nem começou a ler. Depois de três ou quatro dessas, passei a adotar o expediente de simplesmente pular o prefácio e depois voltar atrás para lê-lo – após ter terminado o conto, é claro. Recomendo aos demais leitores fazer o mesmo, e basta tomar esse pequeno cuidado para ter garantidos alguns momentos de arrepios inesquecíveis.

Domingo, Janeiro 23, 2005


Colin Farrell como Alexandre. Atrás, Jared Leto (Heféstion) Posted by Hello

Alexandre

Ontem, sábado, fui ao cinema ver Alexandre, de Oliver Stone. Suponho que devamos agradecer a Ridley Scott e a seu excelente Gladiador pelo fato de os filmes épicos (um gênero que, poucos anos atrás, qualquer um teria dito que estava morto) terem voltado com força total, o que eu, pessoalmente, considero um acontecimento muito feliz, embora, claro, a qualidade dessas produções varie, de modo que tivemos desde os ótimos Gladiador e Rei Arthur até aberrações como Tróia... Mas vamos ao que interessa.

A primeira coisa que ficou evidente após os primeiros 30 ou 40 minutos assistindo a Alexandre foi que ele dificilmente irá se tornar um campeão de bilheteria, pois não tem os ingredientes que tornam um filme palatável para o grande público – durante a exibição, várias pessoas se levantaram e foram embora. Trata-se de um filme bastante pesado, intenso (o espectador comum dirá simplesmente que é chato), e, para completar, a impressão que tive foi de que quem não conhecesse ao menos as linhas gerais da trajetória do rei da Macedônia dificilmente entenderia muito bem o que a tela estava mostrando. É óbvio que houve pesquisa séria, e, historicamente, o filme é bastante acurado, o que foi um alívio constatar, pois assim, mesmo que o filme não acrescente muito, pelo menos não fará ninguém sair do cinema com noções absurdas. Sabe-se que Alexandre tinha como seu principal herói Aquiles, de quem se acreditava descendente, e confesso que eu estava com fortes receios de que o Alexandre de Colin Farrell se mostrasse digno do Aquiles de Brad Pitt, mas, graças aos “deuses”, não foi o que se viu – não graças ao desempenho de Farrell, que não se mostra à altura do papel, mas, de todo jeito, se Alexandre não é um filme brilhante, também não decepciona.

Uma coisa que se deve elogiar é o fato de o filme ter captado com eficiência alguns detalhes sutis mas importantes a respeito do personagem, particularmente seu relacionamento complicado com seus pais e a educação esmerada que recebeu. Pessoalmente, eu gostaria de ter visto o momento em que, ao receber a notícia de mais uma vitória militar de seu pai, o rei Felipe, Alexandre, ainda menino, voltou-se para seus companheiros e lamentou: “Meu pai vai conquistar tudo, meninos, e não deixará para nós nenhum feito grandioso!” O que geralmente chama a atenção das pessoas nesse caso é a ambição demonstrada pelo jovem príncipe; a mim, o que mais impressiona é o fato de ele não ter dito “para mim”, e sim “para nós”, mostrando seu desejo de que seus companheiros de brinquedos de então viessem a ser, no futuro, seus seguidores nos grandes feitos que esperava realizar, pois estava perfeitamente ciente de que, sozinho, nada conseguiria fazer. É essa a maneira de pensar de um verdadeiro líder.

Comentei que o filme mostra a educação cuidadosa dada ao jovem Alexandre, mas aí existe um senão: em certo momento, seu mestre, Aristóteles (interpretado por um envelhecido Christopher Plummer) declara que “apesar de pertencerem a uma raça inferior, os persas governam quatro quintos do mundo conhecido”. “Raça inferior”?! Depois dessa, fiquei antevendo a hora em que o velho sábio de Estagira iria bater os calcanhares e gritar “heil Hitler!” Não vou tentar exibir conhecimentos que não tenho, pois ainda não li as obras de Aristóteles e não sei se uma afirmação dessas encontraria respaldo nelas, mas, à luz de tudo o que sei sobre o pensamento greco-romano, ela é muito estranha. Para os romanos, pelo menos, racismo era um conceito alienígena – e, como eles herdaram boa parte de suas crenças e convicções dos gregos... Não quero dizer com isso que o modo de pensar deles pudesse ser considerado politicamente correto nos dias de hoje; embora não classificassem os seres humanos em superiores e inferiores pela raça, os romanos praticavam o culturalismo, que, para olhos modernos, é quase tão condenável quanto o racismo: a superioridade, para eles, não estava na cor da pele ou dos olhos, mas na educação que a pessoa recebesse. Um homem podia ser negro retinto e ter nascido numa palhoça em qualquer savana empoeirada da África: desde que tivesse uma boa educação clássica e aprendesse a portar-se como um verdadeiro “cidadão”, nenhum romano esclarecido se recusaria a tratá-lo como um igual. É verdade, porém, que isso pode dever-se ao fato de os romanos terem tido muito mais contato com povos e culturas exóticas que os gregos. Agradeço se alguém que me ler puder enviar informações a respeito.

Voltando a falar do filme, achei o elenco bem irregular. Anthony Hopkins, no papel de Ptolomeu, está como sempre impecável, mas aparece pouco. Colin Farrell, como Alexandre, parece perdido e desnorteado durante a maior parte do tempo. Angelina Jolie está belíssima e, por que não dizê-lo, venenosa interpretando a ardente e manipuladora rainha Olímpia, mãe de Alexandre, enquanto Val Kilmer encarnou perfeitamente o pai, Felipe, que, apesar de ter sido um bom rei, hábil general e um dos homens mais astutos de sua época, nunca deixou de ser um tipo grosseiro – um “bárbaro”, como dizia o orador ateniense Demóstenes, seu inimigo jurado. E Jared Leto, como Heféstion, é pouco mais que uma figura decorativa, apesar da óbvia pretensão do diretor de criar polêmica em torno da discutida relação entre Alexandre e esse seu companheiro de infância – seriam eles amigos fraternos ou “algo mais”? Oliver Stone aposta no “algo mais”, o que é, no mínimo, uma iniciativa corajosa.

O filme também mostra o que, segundo os historiadores antigos, causou a perdição de Alexandre: as concessões cada vez maiores que foi fazendo aos costumes orientais com que foi tendo contato ao longo de suas conquistas – concessões essas que dizem respeito tanto a sua vida pessoal quanto ao modo de agir como monarca e comandante militar. Inicialmente um homem comedido em tudo, acostumado desde a infância ao desconforto, a despeito de seu berço real, acabou adotando um modo de vida dissoluto, varando noites e mais noites em orgias e bebendo quantidades enormes de vinho, o que acabaria minando sua saúde e causando sua morte antes de completar 33 anos. Já no relacionamento com seus seguidores, o discurso do general Clito pouco antes de ser assassinado pelo rei num acesso de cólera (essa cena é histórica) traduz perfeitamente o descontentamento que foi crescendo entre os guerreiros de Alexandre: “Lembro-me do tempo em que conversávamos olho no olho, como homens; agora temos que implorar a funcionários estrangeiros para ter uma palavra com nosso próprio rei!” De fato, Alexandre, que começara sendo tão amado por seus soldados exatamente porque eles sentiam que ele era, antes de mais nada, um deles, passou a distanciar-se cada vez mais de seus homens, exigindo que se curvassem em sua presença – ato que para os persas e outros asiáticos era perfeitamente natural perante a realeza, mas, para macedônios e gregos, acostumados a tratar em pé de igualdade com seus líderes, era um ultraje.

Apesar dos defeitos que tem, e dos quais o maior é o próprio Colin Farrell, o filme de Stone, visualmente, beira a perfeição – a cena em que Alexandre enfrenta um elefante de guerra nas florestas da Índia vai ficar impressa em minha mente até o fim dos meus dias, e o predomínio dos tons vermelhos nas tomadas seguintes parece dizer que, depois de tão terrível batalha, tudo parecia, aos olhos de Alexandre, estar envolto numa névoa de sangue. Também a parte que mostra o esforço desesperado de Alexandre e seus comandantes para evitar que os soldados entrassem em pânico diante de uma carga de elefantes – monstros gigantescos e aterradores, dos quais, no máximo, tinham ouvido falar – merece ser destacada. Porém, de acordo com os historiadores, não foi essa a primeira vez que o exército de Alexandre enfrentou elefantes, pois o exército persa que já tinham enfrentado e vencido por mais de uma vez também os utilizava.

Detalhe curioso: junto ao leito de morte de Heféstion, tentando animar o amigo moribundo, Alexandre fala das conquistas que projeta para o futuro: depois de conquistar a Ásia, ele almeja a Europa (e quem pode dizer que não o teria conseguido, caso tivesse vivido mais vinte ou trinta anos?). Refere-se à Sicília e aos romanos, a quem considera bons lutadores, mas que tem certeza de poder conquistar. Quem diria então que, um século e meio depois, seriam os descendentes dos mesmo romanos a quem Alexandre sonhava subjugar – e que, na época dele, não passavam de uma tribo bárbara –, seriam eles a conquistar uma Macedônia fragmentada e enfraquecida, cujo último rei, Perseu, não pôde resistir a eles?

Houve dois pontos, aliás, que, muito caros a Alexandre, seriam mais tarde retomados pelos romanos. O primeiro foi o sonho de um Império universal, que unisse toda a humanidade (do mundo conhecido, claro está) sob um único governo, o que asseguraria uma paz sólida e duradoura. O outro foi a importância da disciplina militar: tanto Alexandre quanto os generais de Roma mostraram, de forma inequívoca, que um exército não tão grande, mas disciplinado e guiado por um bom plano de batalha, poderia ser capaz de derrotar inimigos três, quatro vezes mais numerosos, mas que lutavam sem qualquer plano ou método.

Para terminar meu comentário sobre o filme especificamente, posso dizer que ele pode ser uma experiência interessante para quem já leu sobre Alexandre e conhece sua história – mas quem não a conhece, não é através desse filme que irá conhecer. Durante esta semana, tentarei escrever sobre o Alexandre da História e da literatura, tal como me foi apresentado por um punhado de livros que li sobre ele.

Sábado, Dezembro 25, 2004


Rei Artur, de Allan Massie Posted by Hello

Rei Art(h)ur

Para inaugurar este diário literário, vou falar do livro que estou acabando de ler agora: Rei Artur, de Allan Massie. Embora a Ediouro venha já há algum tempo investindo massivamente em Massie (perdoem esse trocadilho horroroso; não deu para resistir), publicando em rápida sucessão vários de seus romances, este foi o primeiro livro do autor que cheguei a ler, apesar de sua série sobre imperadores romanos já me haver atraído a atenção durante visitas a livrarias. Pelo que eu soube, Rei Artur está vendendo muito bem, obrigado – e posso apostar que a maior parte desses exemplares estão sendo comprados por pessoas equivocadas, que pensam estar adquirindo o livro que deu origem ao recente filme de mesmo nome. Aliás, seria um caminho interessante a adotar nesta resenha tentar traçar um paralelo entre ambos, deixando claro, desde já, que um não tem qualquer relação com o outro: são apenas duas visões diferentes, e totalmente independentes, de uma mesma lenda, ou melhor, conjunto de lendas.
A saga do Rei Artur sempre foi um de meus ambientes lendários preferidos, talvez perdendo apenas para o ciclo da Guerra de Tróia. Um dos primeiros livros que lembro de ter lido na vida foi um volume de bolso intitulado Os Cavaleiros da Távola Redonda: acredito que era uma adaptação para o público juvenil de La Morte d’Arthur, de Sir Thomas Mallory. E uma coisa curiosa de se observar a respeito das lendas arturianas é o campo praticamente infinito que elas oferecem para variações, recriações, releituras.
Posso ilustrar isso com exemplos. Depois de ver o filme Tróia, saí do cinema com uma vontade incontrolável de torcer o pescoço do diretor. O motivo? Simplesmente que a Ilíada, na qual o filme pretende estar baseado, talvez tenha sido o livro que mais me marcou e emocionou até hoje, e que o que se viu na tela não foi uma “adaptação” dela, e sim uma grosseira deturpação. Só quem não conhece Homero pode ter gostado desse filme. Felizmente para os interesses comerciais de Hollywood, e infelizmente para a cultura da humanidade, quase todo mundo hoje em dia preenche esse requisito. Chega a me enfurecer pensar que, por causa desse filme, agora milhões de pessoas acreditam piamente que Heitor matou Menelau, que Aquiles morreu durante a tomada de Tróia, e que Agamenon era um rei covarde que morreu apunhalado por uma escrava!...
Mas vejam o que aconteceu quando fui ver Rei Arthur... Se Tróia tem pouco a ver com a Ilíada, esse outro filme não tem praticamente nada a ver com qualquer uma das várias versões da história de Artur que li desde que, ainda garoto, abri pela primeira vez aquele livrinho de bolso. E no entanto, e apesar de alguns furos que o filme tem, eu gostei!... Como é possível?
A explicação, na realidade, é bem simples. A história da Guerra de Tróia, apesar de, como quase todas as lendas, ter muitas variações, tem na Ilíada uma espécie de versão oficial. O poema não narra toda a guerra, na verdade focaliza apenas um curto período do décimo ano do cerco de Tróia, e não inclui o início nem o final do conflito; porém, os eventos desse período, somados a outros narrados em flashback na própria Ilíada e em seu poema-irmão, a Odisséia, compõem um painel, mesmo que fragmentário, da história da guerra, que poetas posteriores se encarregaram de completar e enriquecer; mas esse assunto posso desenvolver em outra ocasião.
O que pretendia dizer era que, embora nos detalhes haja variações para todos os gostos, naquilo que é principal a história da Guerra de Tróia tem em Homero e em seus sucessores um roteiro bem traçado, e que as pessoas que conhecem esses autores tendem a considerar suas obras como a “versão oficial” da lenda, e, por conseguinte, também tendem a se irritar com deturpações como as que citei acima. Já com a história de Artur, isso não acontece. Como existem tantas versões, e nenhuma delas é oficial, o autor que quiser recontar a lenda pode tomar liberdades sem ferir os brios de ninguém – desde que, é claro, saiba fazer isso atendo-se aos princípios mais óbvios do bom senso e do bom gosto, questões essas a respeito das quais tenho uma ou duas coisas a dizer ao Massie... Mas vou chegar lá no devido tempo.
Rei Arthur, o filme, tem como subtítulo “A verdadeira história por trás da lenda”. Disse e repito que gostei do filme, mas esse slogan não passa de marketing. O máximo que se pode dizer é que esse filme possui mais embasamento histórico que produções anteriores, e, mesmo assim, mistura elementos de épocas diferentes. Geralmente se aceita que o personagem que deu origem à lenda de Artur (quem quer que tenha sido) deve ter vivido nos séculos V e/ou VI, logo depois da queda do Império Romano, e liderado os bretões romanizados na resistência contra os saxões e outros povos bárbaros que estavam se aproveitando do desaparecimento do poder romano para invadir as terras civilizadas. Mas uma teoria recente baseada em elementos arqueológicos leva as origens da lenda para o distante século II – a era de ouro do Império –, na pessoa de um certo Lucius Artorius Castus, herói romano que comandava cavaleiros sármatas – bárbaros das planícies da Rússia – recrutados para servir a Roma. O filme, como sabe quem o viu, mistura as duas idéias: resgata Artorius como o verdadeiro Artur, mas ambienta a história no século V mesmo. Na tradução do filme, os cavaleiros são chamados de “sarmatians”, como no original inglês, o que não é tão ruim: quando a gente não sabe traduzir uma palavra, o melhor é mesmo deixá-la como está. Seria bem pior se o tradutor tivesse decidido chamá-los de “samaritanos”, como fez o autor de certo comentário que li sobre o filme. A mistura vai mais além: é óbvio que bárbaros russos não teriam nomes como Tristan, Gawaine, Galahad, e muito menos Lancelot; os nomes clássicos dos supostos cavaleiros de Artur foram mantidos apenas para permitir ao público estabelecer alguma relação entre a história contada no filme e as que eventualmente já conhecesse.
Os “furos” a que já me referi e que consegui identificar são coisas que apenas quem está ligado no aspecto histórico notaria. São os seguintes:
  • Primeiro, na seqüência inicial, Lancelot conta como foi que os cavaleiros sármatas vieram a entrar para o serviço de Roma, o que teria acontecido por volta do ano 300, mas os soldados romanos que aparecem usam nos escudos e estandartes o monograma de Cristo, formado pelas letras gregas khi (X) e (P), sobrepostas. No ano 300 o Império Romano ainda não era cristão.
  • Segundo, a ação propriamente dita do filme transcorre no ano 452. Na verdade, os romanos se retiraram oficialmente da Bretanha em 410. Isso não significou o fim da influência da cultura romana sobre a vida dos bretões, mas uma missão militar oficial ordenada por Roma já não teria como acontecer no país em 452.
  • Terceiro, os saxões vieram da região que corresponde hoje à Alemanha, de modo que invadiram a Bretanha pelo leste e sudeste, e não pelo norte, como aparece no filme. A região ao norte da Muralha de Adriano (a atual Escócia) era realmente controlada pelos pictos (chamados no filme de “woads”), de modo que os bretões estavam encurralados entre duas invasões potenciais. Isso ajuda a entender por que aqueles tempos eram tão desesperadores para quem os viveu.
  • Quarto, por que diabos uma família romana nobre viveria ao norte da Muralha, em pleno território inimigo?
Rei Artur, o livro, foi concebido por Allan Massie como o segundo volume de uma trilogia sobre a Idade Média, que começa com O Crepúsculo do Mundo. Não li esse, mas sei que se trata da história de um nobre romano, Marcos, que vive no século V e testemunha o desmoronamento do Império. O título, inegavelmente, é bem dado: as pessoas da época, ao verem ruir a única instituição que fora capaz de garantir aos povos do Ocidente algum nível de direito, ordem e civilização, devem ter tido a nítida sensação de que o mundo estava mesmo acabando. O personagem criado por Massie faz, ou tenta fazer, um contraponto ao cenário de decadência geral, recordando os tempos mais gloriosos da história romana: ele se diz descendente de Júlio César, e, através dele, de Enéias, o herói troiano que, de acordo com a lenda, teria sido o ancestral dos fundadores de Roma. Não sei quais são as peripécias pelas quais o tal Marcos passa em O Crepúsculo do Mundo, mas no começo de Rei Artur vamos encontrá-lo governando a Bretanha, tido e havido pelos bretões romanizados como verdadeiro imperador.
Antes de continuar, é preciso fazer duas observações. A primeira é que neste livro é importante distinguir “Britânia” de “Bretanha”. Massie chama de Britânia a moderna Inglaterra, e de Bretanha a região do norte da França que em outras versões é conhecida como Bretanha Menor ou Bretanha Armoricana (a pátria de Sir Lancelot). Pessoalmente, sempre preferi a designação de Bretanha para a Inglaterra, mas, doravante, enquanto estiver escrevendo sobre o livro de Massie, utilizarei a terminologia dele. A outra observação é sobre uma particularidade da estrutura narrativa: Massie finge estar reproduzindo um manuscrito medieval, supostamente redigido no século XIII por um tal Michael Scott, um erudito escocês que teria sido professor do então adolescente Frederico de Hohenstaufen, neto de Frederico Barba-roxa e futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico. E Scott teria escrito essa narrativa sobre Artur para a diversão e ilustração de seu nobre discípulo.
Não vou resumir o roteiro do romance, para não estragar a diversão de quem quiser lê-lo, mas há alguns comentários que considero necessários. Primeiramente, senti-me incomodado pela insistência irritante com que Scott (Massie?) repete sem parar que aquela é a “verdadeira” história de Artur, pois um leitor desavisado e sem muito conhecimento é capaz de acreditar. A impressão que fica é de que o autor se esconde por trás de um narrador imaginário para poder fazer suas afirmações terminantes e categóricas sem ter que arcar com a responsabilidade por elas. Do ponto de vista histórico, há diversas incoerências e alguns absurdos: ao longo do livro fala-se várias vezes em milho – planta nativa das Américas, e que, portanto, era totalmente desconhecida pelos europeus, fosse nos tempos de Artur ou nos de Michael Scott. Em certo ponto, diz-se que a rainha Guinevere, entediada, “fazia as aias lhe lerem romances sobre cavaleiros errantes e damas a quem eles professavam devoção”; na realidade, essa espécie de romance de cavalaria só surgiria na Idade Média tardia, bem depois do ano 1000, quando a cavalaria em si já estava caindo em desuso. O cavaleiro Lancelot, que não existia nas versões mais antigas da lenda, deve ter sido criado por volta dessa época, quando as narrativas arturianas eram passadas adiante por trovadores franceses, que devem ter se ressentido com a índole excessivamente “britânica” da história e por isso decidiram introduzir um personagem que fosse francês como eles. Também a suposta traição de Artur por Guinevere e Lancelot foi inventada por esses mesmos trovadores, que acreditavam que amor era incompatível com casamento, de modo que amor verdadeiro só existiria no adultério (essa idéia é a base da temática do “amor cortês”, que serviu de tema principal aos trovadores não só franceses, mas de quase toda a Europa, durante séculos; de qualquer forma, isso nada tem a ver com a lenda de Artur).
Resumindo: essa história “real” de Artur está repleta dos mesmos clichês medievais que recheiam quase todas as outras versões, e que nada têm de “reais”, o que é bem curioso, já que, segundo o suposto Michael Scott, Artur seria neto daquele mesmo Marcos e teria como principal objetivo a reconstrução do Império Romano. Sendo assim, não seria preferível retratar o herói e sua época de uma maneira mais romana, o que, além disso, teria sido mais coerente com a realidade histórica por trás da lenda? Também é preciso destacar o gosto do autor por tramas ao estilo Teoria da Conspiração, o que ele demonstra neste romance criando uma história absurda na qual o papado da época teria conspirado para impedir que Artur obtivesse sucesso em seu plano imperial, e teria conseguido isso apoiando Mordred.
A origem de Mordred, aliás, é um ponto que muda um pouco neste romance. Massie fundiu em uma única personagem, que ele chama de Morgan, as duas meias-irmãs mais velhas de Artur: Morgana e Morgause (e antes que os leitores de As Brumas de Avalon me escrevam dizendo que Morgause era tia de Artur, esclareço que nas obras clássicas de Thomas Mallory e Chretién de Troyes, ela era realmente filha de Igraine e de Gorlois, duque da Cornualha, portanto irmã de Morgana e meia-irmã de Artur. Quem decidiu convertê-la em irmã de Igraine e tia de Morgana e Artur foi Marion Zimmer Bradley, autora de As Brumas..., usando de licença poética). Essa Morgan seria irmã de Artur por parte de pai, e não de mãe, como nas outras versões, e teria sido confiada por Merlin à guarda da superiora de um convento, de onde mais tarde o mesmo Merlin a tirou para entregá-la ao rei Lot de Orkney, com quem ela se casaria (tudo tramado por Merlin) e teria os filhos Gawaine, Agravaine e Gaheris – além de Mordred, nascido de uma relação incestuosa entre Morgan e Artur, que se encontram por acaso (será?) e sem saber que são irmãos.
Talvez a personagem cujas modificações de uma versão para outra são mais curiosas de observar e comparar seja a rainha Guinevere. Na maioria das versões ela é filha de Leodegranz, um rei bretão menor, vassalo e aliado de Artur; no filme recente, é uma guerreira picta, ou “woad”; e no livro de Massie, é uma princesa saxã (!), cujo pai, derrotado em combate por Artur, aceita uma aliança com ele e, para selar o acordo, dá-lhe a filha em casamento.
Enfim, Rei Artur de Allan Massie é uma versão toda modificada (até aí, nada de errado...), narrada com pedantismo, e que raramente chega a prender o leitor. De bom, tem a interessante descrição da organização da Távola Redonda e da estrutura de governo implantada por Artur na Britânia, e que, enquanto dura seu reinado, dá ao país um período de prosperidade comparável ao do tempo dos romanos. Além disso, o autor, talvez sem querer, proporciona aos leitores um pouco mais instruídos uma oportunidade de refletir sobre o valor da cultura e da erudição, valor esse tão menosprezado no mundo moderno, onde o único tipo de conhecimento considerado importante é o conhecimento técnico. A grande maioria das pessoas jamais chegará a compreender por que é importante conhecer a história dos povos antigos e as obras dos grandes autores da literatura universal, nem saberá o prazer todo especial que há, por exemplo, em ler sobre Artur dizendo a Gawaine que “a arte de governar consiste em impor o costume da paz, poupar os conquistados e subjugar os orgulhosos”, e saber que ele está citando Virgílio. E isso, permitam-me dizer, é lamentável. A supervalorização da técnica em detrimento do conhecimento humanístico é sem dúvida a grande responsável pelo empobrecimento cultural que hoje atinge a maior parte da humanidade, incluindo as pessoas que têm estudo, mas simplesmente não conseguem entender qual o sentido de gastar tempo lendo coisas que não têm relação com sua profissão – ou, em bom português, coisas que não servem para ganhar dinheiro.

Tudo tem um início

Alguém espirituoso, e antenado no que rola em ambos os mundos – o real e o virtual – já disse que, ao lado da globalização, a outra grande tendência do mundo moderno é a “blogalização”. Todo mundo parece estar fazendo um “blog”, que, no meu modesto entendimento, parece ser o sucessor pós-moderno do diário que eu escrevia quando adolescente, com a diferença de que o diário era um de meus segredos mais bem guardados – que me lembre, jamais permiti que alguém o lesse –, enquanto os tais blogs ficam na internet, à disposição de qualquer um no planeta que tenha um computador e uma linha telefônica. Suponho que isso seja uma conseqüência dessa cultura do voyeurismo que anda tão em voga nos dias de hoje, exemplificada por programas do tipo Big Brother e assemelhados. Pessoalmente, nunca entendi por que alguém haveria de achar interessante saber detalhes da intimidade de pessoas que nem conhece; os tais programas jamais me interessaram, e, no que diz respeito aos blogs, os poucos em que cheguei a dar uma olhada eram verdadeiros festivais de banalidade e, pior, de cinismo – o que não é surpreendente, já que hoje em dia, quem quiser passar por inteligente e “sofisticado” precisa ser, antes de mais nada, cínico. De minha parte, sinto um franco desprezo por essa espécie de “modernidade”.
A esta altura, seria bastante lógico que quem estiver lendo isto (se é que alguém vai chegar a ler) estivesse se perguntando por que motivo, se tenho tal opinião sobre essa coisa de blogs, resolvi eu também fazer um. É uma questão justa, e a resposta é que tenho a intenção de que este seja um blog diferente. Não pretendo aqui falar da minha vida, pois não me atrai a idéia de me transformar em personagem de um “diário-Big Brother”; será um espaço que dedicarei a uma de minhas maiores paixões: a literatura. Aqui vou falar – bem, vou escrever – sobre o que estiver lendo no momento ou sobre o que tiver lido anos atrás e que, por qualquer razão, me voltar à memória; sobre os grandes clássicos ou sobre os livros que eu considerar dignos de um dia virem a ser incluídos nessa categoria; e não tenham dúvida de que, quando eu não gostar de alguma coisa, vou dizer isso também. Sem dúvida que por vezes, ao falar sobre literatura, o próprio tema me levará a dedicar algumas linhas a assuntos que estejam relacionados a ela, como história, cinema ou música; isso faz parte da brincadeira, e o importante é que sempre estarei escrevendo sobre os assuntos a respeito dos quais me dá prazer escrever.
Mais uma coisa antes de realmente começar: estou ciente de que este blog não irá se tornar popular. Literatura é assunto que interessa a pouquíssima gente, de modo que a freqüência de visitantes aqui não chegará nem a dez por cento da que têm os blogs do outro tipo – aqueles onde as pessoas contam a que festa foram no fim de semana e com quem “ficaram”. Isso não me preocupa. Gosto de pensar neste projeto como um “diário literário”, e, como sou antiquado, para mim um diário é, ou deveria ser, algo que escrevemos, antes de mais nada, para nós mesmos. Se fosse um diário pessoal, eu não o colocaria na internet, pois, a meu ver, não haveria o menor sentido em fazer isso. Mas, já que é um diário apenas literário, e os livros que leio não pertencem apenas a mim, então aqui está o meu blog, que é, antes de mais nada, para mim; mas, se ao menos uma pessoa tiver a curiosidade despertada para um livro por algo que ler aqui, e graças a isso chegar a lê-lo, eu me considerarei gratificado.

Imagem do filme Rei Arthur Posted by Hello