quarta-feira, janeiro 18, 2017

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Depois de Morte Súbita e dos romances policiais escritos sob o pseudônimo de Robert Galbraith, eis J. K. Rowling de volta ao universo de Harry Potter, nove anos depois de Harry Potter e as Relíquias da Morte, conclusão oficial da saga. Os azedos de plantão, é claro, já deram seu veredito: "ela só está a fim de ganhar mais dinheiro!" Rowling simplesmente não precisa disso: ela já tem o suficiente para assegurar uma vida mansa a todos os seus descendentes até a vigésima ou trigésima geração, com folga. Portanto, ela não está nisso pelo dinheiro – pelo menos, não mais. Se continua escrevendo, é porque gosta, e seus fãs certamente não vão reclamar.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é algo um tanto diferente. A história, escrita por Rowling em cooperação com John Tiffany e Jack Thorne, foi concebida como roteiro para uma peça de teatro, a ser dirigida por Tiffany, e que estreou (com ingressos esgotados e todo o alarde que seria de se esperar) no Palace Theatre, em Londres, em 30 de julho de 2016. O livro foi lançado no Brasil em 31 de outubro – nada mais adequado: em pleno Dia das Bruxas. Confesso que fiquei meio decepcionado ao folheá-lo pela primeira vez, pois, embora soubesse que a história teve origem no teatro, imaginava que a autora tivesse reescrito o roteiro sob a forma de romance para a publicação, mas não: o que temos no livro é o próprio roteiro. Ler desse jeito causa estranheza a quem está acostumado a acompanhar as peripécias do jovem bruxo, mas não será isso que irá impedir os potterheads (fãs apaixonados da saga) espalhados pelo planeta de devorar essa nova aventura.

A história contada na peça inicia-se 19 anos depois dos eventos narrados em Harry Potter e as Relíquias da Morte – portanto, em 2016 mesmo – e se estende alguns anos para o futuro. Harry está agora com 37 anos de idade, trabalha no Ministério da Magia (para ser exato, é chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia), está casado com Gina Weasley e tem três filhos: Tiago, Alvo e Lílian (a tradutora Anna Vicentini teve que seguir o controverso sistema de nomenclatura adotado por Lia Wyler, que traduziu os sete volumes anteriores e tinha por hábito traduzir nomes próprios e até mesmo – sei lá com qual critério – rebatizar certos personagens). Tiago, o mais velho, e a caçula, Lílian, foram batizados em homenagem ao pai e à mãe de Harry, e parecem ser filhos perfeitos. A ovelha negra da família é o do meio, Alvo Severo Potter. Seu primeiro nome homenageia o lendário diretor da não menos lendária Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore; o segundo, Severo Snape, o professor que Harry odiou durante sete anos, só para descobrir ao final que, na verdade, o homem era um herói. A peça começa quando Alvo está indo para Hogwarts pela primeira vez, junto com sua prima Rosa – filha de Rony Weasley, irmão de Gina e melhor amigo de Harry desde sempre, e de Hermione Granger, outra grande amiga e aluna mais brilhante de Hogwarts em sua época. Rosa é de opinião que, na viagem de um dia inteiro de trem até a escola, ela e Alvo, a exemplo do que aconteceu com seus pais, poderão ter a chance de fazer as amizades que irão influenciar seus destinos pela vida afora, e mais, também acredita que, por serem quem são, todos vão querer ser amigos dos dois, de modo que poderão escolher à vontade. Para a decepção da garota, o único amigo que seu primo faz é Escórpio Malfoy… Por ironia, filho de Draco Malfoy, arqui-inimigo de Harry durante toda a vida escolar de ambos.

(Toda vez que eu lia o nome Escórpio, era impossível não pensar na arma de cerco romana.)

As surpresas não param por aí. Na cerimônia de seleção, na qual o Chapéu Seletor decide para qual das quatro casas de Hogwarts cada novo aluno será mandado, Alvo acaba sendo designado para a Sonserina, que foi desde sempre a casa dos Malfoy, além de ter sido a de Tom Riddle, antes de ele se tornar o temido Lorde Voldemort. Embora isso vá lhe permitir ter a companhia de seu novo amigo quase em tempo integral, não deixa de ser um choque, pois, até onde se tem lembrança, todos os ancestrais e parentes de Alvo, pelos dois lados da família, sempre foram da Grifinória.

Seja como for, Alvo e Escórpio logo percebem que é uma sorte terem um ao outro: nenhum dos dois tem praticamente qualquer outro amigo. Alvo não demonstra talento para nada em particular, nem mesmo para o voo de vassoura, o que acaba com as esperanças que muita gente alimentava, de que ele viesse a honrar os feitos de seu pai e seu avô no campo de quadribol; Escórpio é inteligente e estudioso, mas tímido. De modo que os dois rapidamente assumem seu papel como aquele tipo de estudante que pode ser encontrado em qualquer escola, mágica ou não, esgueirando-se pelos corredores, procurando evitar ser visto, já que é presa fácil para bullies. Alvo se sente de forma oposta ao que acontecia com o pai em sua idade: enquanto Harry detestava as férias (porque tinha que passá-las com seus insuportáveis tios trouxas) e contava os dias para voltar a Hogwarts, Alvo detesta a escola, se bem que em casa não pareça se sentir muito melhor. Embora Harry se esforce por ser um bom pai, o garoto não gosta nem um pouco do fato de ser filho do famoso Harry Potter, e menos ainda de todas as expectativas que isso naturalmente cria nas pessoas – expectativas essas que, em sua própria opinião, ele sempre irá frustrar.

Todavia, por pior que Alvo ache sua vida, a de Escórpio é ainda pior. Muita gente ainda associa os Malfoy a Voldemort, de quem o avô de Escórpio, Lúcio Malfoy, foi um fiel servidor – e correm boatos persistentes de que Astória, esposa de Draco e mãe de Escórpio, foi enviada para o passado a fim de engravidar do próprio Voldemort, presumivelmente quando ele ainda era Tom Riddle, e humano o suficiente para gerar filhos. Ou seja, se esses boatos tiverem fundamento, significa que o verdadeiro pai de Escórpio é… Você-Sabe-Quem. Porém, verdade seja dita, o garoto não parece lembrar em nada o grande bruxo das trevas: segundo Alvo, Escórpio é bom, o que nenhum filho de Voldemort poderia ser; já segundo Draco, ele é por natureza um seguidor, e não um líder, o que tampouco combina com uma possível ascendência "voldemortiana". E há mais: se Astória tivesse viajado ao passado, só poderia ter sido por meio de um viratempo, um dispositivo mágico capaz de realizar esse feito – e todos os viratempos de cuja existência se tinha conhecimento estavam guardados no Ministério, onde foram destruídos durante uma batalha entre Comensais da Morte (os servos de Voldemort) e os membros da Ordem da Fênix, comandada por Dumbledore; esse episódio está narrado num dos últimos livros da saga, não lembro ao certo qual. Portanto, e por vários motivos, os boatos parecem um completo disparate, o que não impede que continuem a ser um doloroso espinho na carne de Escórpio.

Os primeiros três anos de Alvo Potter em Hogwarts passam em rápidos flashes. O importante para os fins da peça é o que acontece em seu quarto ano, quando ele e seu amigo Escórpio estão com 14 – não por acaso, a mesma idade que Harry tinha ao tomar parte no Torneio Tribruxo, como sabe quem leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto volume da série. O torneio, realizado durante o ano letivo de 1994-95, terminou de forma terrível e trágica, com o retorno de Voldemort e a morte do outro campeão de Hogwarts, Cedric Diggory (a Sra. Lia Wyler que me desculpe, mas eu me nego a chamar o coitado de "Cedrico"!). Durante todo o torneio, os dois garotos haviam vivido uma relação de rivalidade e admiração mútua ao mesmo tempo, e, ao concluírem a última tarefa da competição, que daria a vitória a quem o fizesse, nenhum dos dois achou justo que o outro fosse derrotado: decidiram vencer juntos, e, para isso, pegaram ao mesmo tempo a taça da vitória – que, sem que eles imaginassem, estava enfeitiçada para levar instantaneamente quem a tocasse até a presença de Voldemort. O bruxo das trevas só estava interessado em Harry, de modo que, ao ver que havia outro rapaz com ele, displicentemente ordenou a um de seus servos que o matasse. Cedric, portanto, teve uma morte tola e desnecessária, coisa pela qual Harry jamais se perdoou – como se tivesse culpa.


Alvo, naturalmente, conhece essa história. Acontece então que, pouco antes de ele partir para seu quarto ano em Hogwarts, Harry e seus homens dão uma batida na qual estouram um covil de bruxos das trevas, e apreendem, entre outras coisas, um viratempo clandestino. O ocorrido chega aos ouvidos do jovem Alvo, enquanto o perigoso objeto fica sob custódia no Ministério – e, por falar nisso, a atual Ministra da Magia é ninguém menos que Hermione Granger (agora Granger-Weasley). Por uma daquelas coincidências fatais, Alvo também ouve uma conversa entre seu pai e Amos Diggory, o pai de Cedric, hoje um ancião solitário e inválido que vive num lar para bruxos idosos. Sabendo que Harry agora tem acesso a um viratempo, Amos implora que ele o use e volte no tempo para impedir a morte de seu filho, mas Harry, com dor no coração, tem que se recusar: de acordo com os mais conceituados teóricos da magia, o máximo que uma pessoa pode voltar no passado sem perigo de causar perturbações graves no fluxo do tempo é de cinco horas – quem pode prever as possíveis consequências de uma intervenção num fato ocorrido há 22 anos? Alvo, por outro lado, compadecido do velho, fascinado pela possibilidade de corrigir o que considera um dos erros de seu pai e sem um pingo de juízo na cabeça, decide empreender a arriscada missão. Para isso, conta com a ajuda de seu inseparável Escórpio e de uma jovem que diz chamar-se Delfine ("Delfi") e ser sobrinha de Amos Diggory, prima de Cedric. Os dois garotos fogem do Expresso de Hogwarts em plena viagem – o que, até onde se sabe, ninguém antes deles jamais conseguiu fazer, embora tenha sido tentado por transgressores legendários como Sirius Black e os gêmeos Fred e Jorge Weasley –, reúnem-se a Delfi, e os três invadem o Ministério em busca do fatídico viratempo… E, embora essas já pareçam ser façanhas notáveis, isso é apenas o começo. No decorrer da história, fica provado algo que quem, por enquanto, só leu Harry Potter talvez ainda não tenha percebido, mas que todo leitor de ficção científica sabe: que mexer no passado é extremamente perigoso, não importa se por meios tecnológicos ou mágicos. Por mais tentadora que pareça a ideia de ser testemunha ocular de grandes acontecimentos históricos ou de fazer um safári em meio a dinossauros ou mamutes, acho que, no fim das contas, é uma boa coisa que a viagem no tempo seja, por tudo o que se sabe, impossível segundo as leis da física… Embora seja verdade que já se disse o mesmo a respeito de ultrapassar a barreira do som, coisa que, hoje em dia, até meras aeronaves comerciais fazem tranquilamente.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, sem dúvida, mantém o espírito da saga; se reescrito, talvez não rendesse um romance, mas daria um conto de boa extensão e, certamente, irresistível para qualquer um dos milhões de "órfãos" que tiveram pelo menos alguns dias de depressão quando terminaram de ler o que acreditavam ser o último livro das aventuras de Harry. Além de nostálgico (inevitável…), é também empolgante rever, agora na idade adulta, aqueles personagens cuja infância e adolescência acompanhamos tão de perto. Muita coisa continua igual e muita coisa mudou. O próprio Draco Malfoy tornou-se menos arrogante, imagino que tanto por ter amadurecido quanto por causa das coisas que passou ao tentar seguir os passos do pai como um Comensal da Morte, e, levado pela necessidade de proteger o filho, aceita o que duas décadas antes teria, sem dúvida, considerado impossível: colocar-se ao lado de Harry como aliado. Talvez, até, como amigo, possibilidade que fica em aberto numa cena da peça. Senti muita falta do gentil e atrapalhado meio-gigante Rúbeo Hagrid, que só aparece em cenas que retratam o passado; não temos nenhuma notícia dele, por onde anda ou o que está fazendo na época em que se passa a ação principal. No mais, assistir a essa peça deve ser uma experiência e tanto. Há coisas que o roteiro descreve e que só podemos ficar imaginando como, em nome de Merlim, podem ser apresentadas num palco: os efeitos especiais devem ser de deixar no chinelo muita coisa que se vê no cinema (não nos filmes de HP, é claro). Quem sabe não tenhamos uma surpresa e seja anunciada uma montagem brasileira? O surgimento de um filme é inevitável, mas ainda deve demorar, e eu realmente torço para que seja um filme – não uma totalmente desnecessária "trilogia", ou coisa que o valha. É esperar pra ver.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Rogue One: Uma História Star Wars


Fomos, Cintia e eu, ver o novo filme da franquia Star Wars, anteontem, no Cinépolis 4D do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo – o mesmo cinema onde vimos Episódio VII: O Despertar da Força, exatamente um ano atrás. Para quem não conhece, trata-se de um cinema muito especial, com poltronas que se movem acompanhando o que acontece no filme, efeitos de vento, e até borrifos de água quando a cena assim exige. É tão legal que a gente até esquece essa bobagem de "4D" no nome! E esse filme, em especial, tornou a experiência bem divertida, fazendo valer os (bons) reais pagos a mais no ingresso. Mas vamos falar do que realmente importa.

Embora só tenhamos sabido disso no dia seguinte, vimos Rogue One no mesmo dia em que faleceu a atriz Carrie Fisher, que interpretou a Princesa Leia na trilogia clássica, nos anos 70 e 80, e também em O Despertar da Força. Fisher, de apenas 60 anos, sofreu um ataque cardíaco durante um voo da Inglaterra para os Estados Unidos, vindo a morrer horas depois no hospital da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – e, como minha namorada observou de forma tão sagaz, a vida não é justa mesmo, pois a atriz deixa este mundo bem no momento em que começava a voltar a chover em sua horta. Com a compra da Lucasfilm (detentora dos direitos de Star Wars) pela Disney, em 2012, a promessa feita foi a de que os fãs seriam brindados com um novo filme da franquia todo ano – já que a Disney, sendo a Disney, dispõe de pessoal, estrutura e recursos para tanto. E, depois do necessário período de ajustes de pouco mais de dois anos, a promessa vem sendo mantida: O Despertar da Força dava sequência a O Retorno de Jedi, lançado no distante 1983, e, embora ainda estejamos aguardando pelo Episódio VIII, Rogue One vem para suavizar a espera. Trata-se de um spin-off, ou seja, uma história que não propriamente faz parte da saga, mas ambienta-se no mesmo universo e está, de alguma forma, relacionada a ela.

Outra observação de Cintia: Star Wars nunca esteve tão na moda quanto agora, e os filmes são apenas uma fração do fenômeno. Nas livrarias há, literalmente, dezenas de títulos disponíveis, romances ambientados nesse universo, indo desde as adaptações dos filmes até extrapolações que exploram as muitas lacunas que eles deixam, isso sem falar, é claro, nos milhares de produtos licenciados de todos os tipos. O logo de Star Wars e as caras dos principais personagens estão em qualquer lugar para onde olhemos! Isso, somado ao fato de Leia ter, muito provavelmente, lugar de destaque em todos os episódios da nova trilogia, representaria uma mina de ouro e um salto em termos de fama para Fisher, bem como para seus colegas de elenco, dos quais apenas Harrison "Han Solo" Ford consolidou uma carreira de sucesso no cinema depois de sua participação na franquia (não estou considerando os que já eram nomes consagrados na época, como Peter Cushing ou Alec Guiness). Infelizmente, Fisher não se beneficiará dessas novas oportunidades… Parece que parte de suas cenas destinadas ao Episódio VIII já haviam sido gravadas; resta-nos esperar para ver qual a mágica que o diretor e o roteirista irão fazer para suprir sua falta no restante do filme.


Rogue One, entre outras coisas, responde a uma questão que os fãs mais detalhistas de Star Wars vêm levantando desde 1977, ano em que foi lançado o filme que hoje chamamos de Episódio IV: Uma Nova Esperança, mas que por muito tempo foi conhecido apenas como Star Wars, ou, no Brasil, Guerra nas Estrelas. A questão é: como é possível que a Estrela da Morte, projetada para ser a arma definitiva do Império Galáctico, capaz de destruir planetas inteiros, e que demandou um volume absurdo de recursos e mão de obra, tivesse uma brecha em suas defesas, que Luke Skywalker e os outros pilotos da Aliança Rebelde puderam usar para destruí-la? Nesse novo filme, que se passa imediatamente antes do Episódio IV, ficamos sabendo que o principal responsável pelo projeto da superarma foi o cientista imperial Galen Erso (o dinamarquês Mads Mikkelsen, da série Hannibal), que, no entanto, não concordava com a política tirânica do imperador Palpatine, e, por isso, tentou abandonar a posição que tinha, exilando-se, com a esposa e a filha pequena, num planeta primitivo, onde passou a viver como fazendeiro. Porém, agentes do Império acabam por conseguir localizá-lo e o capturam para obrigá-lo a finalizar o projeto inacabado da Estrela da Morte.

Galen é levado, sua esposa é morta, mas o casal consegue salvar a filha, Jyn, que fica sob a proteção de um homem chamado Saw Gerrera (Forrest Whitaker), um líder rebelde e velho amigo de seu pai. Anos mais tarde, Jyn, já adulta (Felicity Jones), está numa prisão do Império por causa de uma série de pequenas infrações não relacionadas à rebelião, quando é resgatada pelos rebeldes, que sabem quem ela é e planejam usá-la para encontrar Galen – e matá-lo, embora não contem a ela essa última parte. Escoltada pelos rebeldes, Jyn reencontra seu antigo tutor Saw Gerrera, que lhe mostra uma mensagem holográfica que Galen Erso gravou e enviou secretamente. No holograma, entre outras coisas, o cientista revela um segredo: embora tenha sido forçado a colaborar no desenvolvimento da Estrela da Morte, não queria ser responsável por dar ao imperador uma arma que seria usada para fortalecer sua tirania. Então, propositalmente, deixou um ponto fraco, que um piloto hábil e com conhecimento das plantas da Estrela da Morte poderia usar para destruí-la. Rogue One é a história de como os rebeldes obtiveram essas plantas, o que possibilitou aquela vitória épica ao final do Episódio IV, que sagrou o jovem Luke Skywalker como um guerreiro admirado. Para ir em busca dessas preciosas informações, Jyn é acompanhada por um curioso time de combatentes rebeldes sob a liderança do comandante Cassian Andor (Diego Luna). Todos os que compõem esse grupo são personagens cativantes, que certamente ficarão na memória dos fãs, mas já há muitos textos e vídeos pela internet afora tratando deles, de modo que prefiro adotar um foco diferente para o restante deste post. Não que o que vou dizer também já não tenha sido escrito, muito provavelmente, mas são considerações mais pessoais. Vamos a isso…

O que preciso comentar são as surpresas (e o contentamento) que essa nova fase de Star Wars tem trazido para os fãs da velha guarda como eu, proporcionando uma carga de emoção como não experimentávamos desde a trilogia clássica, formada por Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), Episódio V: O Império Contra-ataca (1980) e Episódio VI: O Retorno de Jedi (1983), que marcou época no cinema de ficção científica… Na verdade, classificá-la dessa forma é controverso; eu mesmo sou da opinião de que "fantasia espacial" chega mais perto de definir o que Star Wars é – mas aqui não é o lugar de discutir isso. O importante é que a trilogia clássica marcou época e inaugurou o que hoje é praticamente uma nova mitologia, um universo vastíssimo, cheio de tramas entrelaçadas, aventuras épicas e personagens inesquecíveis. Não que esses primeiros filmes tivessem enredos complexos ou muito inovadores: era a boa e velha luta do bem contra o mal, e pouco mais que isso. Talvez essa simplicidade seja parte da magia, juntando-se à ação vertiginosa, ao visual marcante e aos personagens carismáticos para explicar o que nos fascina tanto. Star Wars nunca terá a mesma complexidade nos roteiros que Star Trek, e dificilmente se prestará tão bem a estimular reflexões sobre questões do mundo real – o que não significa que um seja melhor que o outro: são propostas completamente diferentes (daí por que nós, nerds, ficamos tão contrariados quando um leigo confunde os dois!), e há muita gente que adora ambos, como eu, por exemplo.

Justamente o fato de Star Wars, como regra, tender para a simplicidade nos enredos, faz com que Episódio VII: O Despertar da Força e Rogue One sejam surpreendentes: pela primeira vez na saga, há sugestões de que nem o Império Galáctico nem a Aliança Rebelde são blocos monolíticos, nos quais todos pensam igual. No Episódio VII, conhecemos Finn, um stormtrooper (soldado de infantaria do Império) que tem dúvidas sobre a validade moral da causa que defende, passa a questionar as ordens que recebe, e acaba por desertar e juntar-se aos rebeldes; em Rogue One, descobrimos que dentro da Aliança Rebelde existem dissidências, facções que discordam entre si e membros ambiciosos que não desejam apenas trazer de volta a paz e a justiça dos tempos da Velha República, mas também subir na cadeia de comando e obter poder para si próprios. E pensar que, quando soubemos que Lucasfilm agora pertencia à Disney, chegamos a ter receio de que os novos filmes viessem com argumentos mais infantis!… Até agora, tem sido o contrário. No mesmo rumo vai o final surpreendente e um tanto chocante de Rogue One, que, se alguém me perguntasse antes de eu tê-lo visto, eu diria ser impensável para um filme de Star Wars.


(Parêntese 1: Enquanto assistia a Rogue One, meu queixo caiu lá embaixo ao ver o legendário Peter Cushing – astro de terror dos anos 50, 60 e 70, falecido em 1994 – de volta ao papel de Grand Moff Tarkin, comandante da Estrela da Morte, que havia interpretado no Episódio IV. É claro que eu sabia que a computação gráfica já atingiu um grau de desenvolvimento que torna possível criar imagens extremamente realistas, mas há diferença entre saber isso na teoria e ver um cidadão morto há mais de 20 anos atuando num filme recém-lançado, de tal jeito que quem não soubesse do que se trata poderia pensar que ele não só continua vivo, como não envelheceu nada nos últimos 39 anos, feito os vampiros que matava em seus antigos filmes. Nesse passo, logo não serão mais necessários atores! Também graças aos milagres da computação gráfica, uma Carrie Fisher com pouco mais de 20 anos de idade faz uma rapidíssima aparição bem no final do filme.)

(Parêntese 2: Eu disse há pouco que Star Wars virou quase uma nova mitologia, o que, entre outros efeitos práticos, faz com que nós, fãs de toda a vida, tenhamos a saga tão entranhada no nosso imaginário, que nos parece impossível que algumas pessoas realmente não saibam de certas coisas. Isso causou um incidente engraçado quando Cintia, uma neófita nesse universo, quis ver as duas primeiras trilogias. Levei meus DVDs dos episódios I a VI para a casa dela, e assistimos a tudo juntos – primeiro a trilogia clássica, é claro, e depois a mais recente… Só que, durante aqueles comentários que são de praxe entre um filme e outro, eu deixei escapar a informação de que Darth Vader era pai de Luke e Leia! Claro que ela ficou danada por eu ter estragado a surpresa, mas que culpa eu tenho?! "Luke, eu sou seu pai" já virou uma expressão proverbial, a cena em que essa fala é dita foi reproduzida centenas de vezes em comédias, charges etc… O assunto já rendeu até livros de humor! Como é possível que alguém ainda não saiba??)

(Parêntese 3: Garoto ainda, ao me aboletar diante da TV ao lado de meu pai ou de algum amigo para assistir pela enésima vez à reprise de qualquer dos episódios da trilogia clássica [isso foi antes do tempo do DVD, e não tínhamos videocassete, de modo que reprises eram algo que merecia importância], eu sempre ficava agoniado quando começava a passar aquele inconfundível letreiro inclinado, porque, logo no início dele, dizia Episódio IV, ou V, ou VI… Pois, se aqueles eram os episódios quatro, cinco e seis, isso devia implicar, logicamente, que existissem os episódios um, dois e três, que eu não conhecia! É claro que não podia imaginar que os primeiros episódios, até então, só existiam como uma ideia na cabeça de George Lucas, e só seriam efetivamente filmados muitos anos depois. O mais inacreditável é que, na época, ninguém além de mim jamais pareceu reparar nisso, e hoje muita gente teima comigo que os dizeres Episódio IV, V e VI não existiam nas versões originais, e que só foram introduzidos nas edições lançadas depois que a segunda trilogia já existia… Tsc, tsc.)

Enfim, é muito bom ver que, depois de tanto tempo sem novidades (no cinema, pois nos livros, quadrinhos e games os lançamentos nunca pararam), Star Wars foi retomado com qualidade e com um vigor renovado. Todos ficaremos felizes se a franquia, num futuro relativamente próximo, conseguir rivalizar com Star Trek em número de longas-metragens, e talvez nem mesmo o surgimento de séries de TV seja um sonho tão impossível. Afinal, agora a coisa está nas mãos da Disney, e, se ela continuar demonstrando a mesma competência… Bem, aí nem mesmo o espaço será mais a fronteira final (opa, isso é de Star Trek). Que a força esteja com todos (ah, agora sim!).

Obrigado por tudo, Carrie Fisher. Que a força esteja com você também, onde você estiver agora.


sexta-feira, setembro 16, 2016

O Tigre

Salvo por alguns inevitáveis e esporádicos acidentes de percurso, a convivência milenar entre tigres e seres huma­nos tem sido, de modo geral, pacífica, quanto mais não seja porque, durante a maior parte de sua história, os ho­mens não possuíam armas suficientemente poderosas que os encorajassem a enfrentar um animal tão perigoso sem necessidade. Como regra, enquanto os tigres não atacassem pessoas, e não cobrassem um tributo excessivo dos re­banhos domésticos, os humanos os deixavam em paz. Tem sido assim desde tempos imemoriais, das taigas geladas da Sibéria até as selvas tropicais da Indonésia, e das praias do Mar Cáspio até os confins orientais da Ásia – quer di­zer, em todas as paragens habitadas por tigres e humanos. Só o advento dos séculos XIX e XX, trazendo consigo ar­mas de fogo modernas e o conceito de "caça esportiva", é que mudou essa situação. É verdade que a medicina tradi­cional chine­sa – tão admirável em algumas coisas, tão estúpida em outras – há muito atribui poderes curativos (e sem qual­quer base em fatos) a diversos pedaços do tigre; a impressão que dá é a de que existe um raciocínio de que, se uma coisa é rara e difícil de obter, então ela necessariamente deve ter propriedades milagrosas. Em consequên­cia, o sangue do tigre, o pó de seus ossos, sua bílis, órgãos internos e várias outras partes valem um alto preço, mas, enquanto o bi­cho tinha que ser caçado com arco e flecha, lança, ou com mosquetes rudimentares de um só tiro, ha­via pou­quíssima gente disposta a encarar a bronca, por maior que fosse a recompensa em jogo. Armas mais eficien­tes mu­daram as coisas – não admira que o tigre-da-china esteja quase extinto. Não foi tão melhor na antiga União Soviéti­ca, cujo vasto território abrigava duas subespécies: o tigre-do-cáspio, extinto desde a década de 1960, e o ti­gre-da-sibéria, ou tigre-de-amur, o maior e mais possante de todos os tigres, que teve um pouco mais de sorte por habitar regiões muito re­motas e pouco populosas.

Porém, essa sorte não duraria para sempre. Nos primeiros tempos do comunismo so­viético, os tigres eram considerados uma praga, e o seu extermínio era incen­tivado pelo governo. Mais ou menos na mesma época em que o tigre-do-cáspio foi extinto, e com a população de tigres-­siberianos reduzida a poucas dezenas de exemplares na natureza, felizmente parece que alguém mais esclarecido teve acesso a um cargo no qual dispunha de poder para fazer algo a respeito, e foram promulgadas leis protegen­do os animais. Com isso, o número de tigres-siberianos subiu para algumas centenas ao longo das décadas seguin­tes, e conservacionistas do mundo inteiro já se sentiam mais tranquilos, quando chegou a década de 1990 – a déca­da da Perestroika, a reestruturação política e econômica que pôs abaixo a "Cortina de Ferro" que isolava a União Soviéti­ca do resto do mundo. A isso seguiram-se, sem muita demora, o fim da própria União Soviética e a implosão do co­munismo. Isso tudo teve duros efeitos sobre a sociedade e a economia da Rússia, com um empobrecimento ge­ral da população e um aumento drástico do desemprego. Muitos russos, sem outra alternativa de sobrevivência, passa­ram a tentar viver do que as florestas da Sibéria ofereciam, fosse por meio da caça de diferentes animais ou da ex­tração de madeira – invadindo o habitat dos tigres. Pior ainda, o relaxamento do controle das fronteiras permitiu a entra­da de caçadores ilegais vindos da China em busca dos tigres que já não existiam em seu país.

No entanto, Vladi­mir Markov, o caçador ilegal de 46 anos que foi morto por um tigre, nos arredores do vilarejo siberiano de Sobolo­nye, em de­zembro de 1997, não era chinês, e sim russo mesmo. A guarda florestal imediatamente chama a equipe local do pro­jeto conhecido como Inspec­tion Tiger, subordinado ao Departamento de Conservação e Caça. A equipe é lidera­da por Yuri Trush, ex-militar e experiente caçador, cujo trabalho, agora, consiste basica­mente em proteger os tigres contra caçadores ilegais – só que, na eventualidade de os papéis de caçador e presa se­rem troca­dos, isso tam­bém é de sua alçada. Quando Trush e seus companheiros chegam ao local, constatam que pouca coisa restou de Markov para ser vista; o mais desconcertante, entretanto, é que, a julgar pelos rastros e outros sinais deixados na cena da morte (sinais esses que um caçador experiente pode ler como se estivessem escritos num livro), o tigre não ma­tou Markov num encontro fortuito, e nem mesmo para se defender: ele o espreitou e caçou, com inteligência e paci­ência, talvez durante dias.


A primeira hipótese levantada é a de que Markov tivesse capturado um filhote a fim de vendê-lo, e sofrido a vingança da mãe, mas um dos companheiros de Trush logo descarta essa possibilida­de, por­que os rastros encontrados na neve são grandes demais para pertencerem a uma fêmea. E, como se descobre de­pois, ele está certo: o tigre responsável pela morte do caçador é um macho de cerca de seis anos – jovem, mas já adulto, e especialmente grande. No decorrer da mesma investigação, os agentes do Inspec­tion Tiger descobrem uma armadilha, obviamente instalada por Markov, e destinada à captura de tigres. Ou seja, é a prova de que o fale­cido não simplesmente lidava com incidentes ocasionais envolvendo tigres, como todo caçador da taiga está sujeito a ter: ele estava deliberadamente caçando os felinos, um crime grave perante a lei russa, mas também um negócio muito lucrativo.

Uma mente civilizada reluta em estabelecer o nexo entre Markov caçar tigres e o fato de ter sido morto por um. Afinal, nenhuma fera é capaz de desejar vingança, e tampouco de executá-la, não é mesmo? Um tigre pode atacar um caçador que atire nele, que tente roubar carne de uma presa que ele abateu, ou que ameace seus filhotes, e – embora isso seja muito raro – pode até mesmo atacar um ser humano como o faria com um ani­mal qualquer, levado simplesmente pela fome, mas todas essas situações podem ser atribuídas ao instinto de auto­preservação ou ao de defender a prole. Vingança requer compreensão de causa e consequência, capacidade de pla­nejar, e também de experimentar um sentimento semelhante ao ódio – tudo coisas demasiado complexas para um animal dito "irracional". Entretanto, a relutância em admitir essa possibilida­de não é compartilhada por povos nati­vos da Sibéria, como os nanai e os udeghe, que há séculos e milênios vivem em íntima comunhão com a taiga (um tipo de floresta característico das latitudes boreais). Para os caçadores desses povos, que tiram da floresta o susten­to de suas famílias, tal como seus ancestrais o fizeram desde tempos muito antigos, o tigre é tão inteli­gente quanto um homem, igualmente capaz de ser tanto generoso quanto cruel, de guardar rancor ou de perdoar, e, por tudo isso, é digno de ser tratado com respeito e cautela. Conversando com esses caçado­res nativos, Yuri Trush e seus ho­mens vão desenvolvendo uma compreensão diferente do incidente que tirou a vida de Markov – e que se repete al­guns dias depois: desta vez, a vítima é um jovem caçador de 20 anos, Andrei Po­chepnya, para quem Markov havia sido, além de vizinho e amigo, uma espécie de mentor. Se Pochepnya estava atrás de vingança, ou se simplesmente topou com o tigre enquanto caçava para pôr comida na mesa da família, não fica claro, mas o problema nas mãos de Trush e sua equipe fica cada vez maior. Sem alternativa, os homens dão iní­cio a uma caçada perigosa em meio a um ambiente no qual o tigre parece capaz de desaparecer sempre que assim deseja, e, embora o animal esteja ferido e pareça raivoso, age com uma sagacidade quase sobrenatural, tornan­do sua caça um desafio ainda maior, e fazendo da leitura desta história uma experiência que o leitor não esquecerá fa­cilmente.

Citar críticas elogiosas feitas por escritores de renome ou por órgãos de imprensa conceituados é uma estratégia muito comum para alavancar as vendas de livros de todos os gêneros, mas uma das que aparecem na contracapa de O Tigre me parece certeira: al­gum crítico do jornal francês Le Monde teria escrito que o livro é "o equivalente de Moby Dick para a floresta", e eu concordo, por pelo menos duas boas razões. A primeira é a combi­nação mortífera de ferocidade e inteligência, de­monstrada tanto pelo grande cachalote branco de Herman Melville quanto pelo tigre homicida caçado por Trush e seu grupo – o que confere a ambas as narrativas um clima aflitivo impossível de compreender sem lê-las. A outra é que o esquema geral de Moby Dick parece ter servido de inspira­ção a John Vaillant: Melville intercalava capítulos que narravam a caçada ao cachalote com outros de conteúdo en­ciclopédico, versando sobre cetologia, sobre a ativi­dade baleeira e assuntos afins; Vaillant alterna a investigação das mortes de Markov e Pochepnya e a perseguição ao tigre com dissertações sobre aspectos históricos, geográficos e humanos da Rússia em geral e da Sibéria em particu­lar, e com uma ampla e fascinante pesquisa na qual a antropo­logia dialoga com a história natural.

Os grandes primatas (entre eles nós, hominídeos) e os grandes felinos evoluí­ram de forma paralela, em muitos casos partilhan­do o mesmo habitat, e, durante 90 por cento do tempo, ou mais, os respectivos papéis eram muito claros: eles eram os predadores dominantes, e nós, presas eventuais. Nosso medo atávico do escuro (e quando digo "nosso", não que­ro dizer apenas dos humanos, mas dos grandes primatas em ge­ral) deve-se provavelmente ao fato de nossos ances­trais, durante pelo menos cinco milhões de anos, terem desen­volvido o hábito de buscar abrigo tão logo anoitecia, sob pena de tornarem-se o jantar de algum dentre uma longa lista de predadores noturnos, lista essa na qual leões, leopardos e outros felinos ocupavam lugar de destaque. Não tínhamos a menor chance contra essas feras: não po­díamos nem por sonhos rivalizar com sua força ou agilidade, e não tínhamos presas ou garras. Com o tempo, fomos encontrando maneiras de compensar essas desvantagens usando nossos dois principais trunfos – nosso cérebro e nossa habilidade manual. Aprendemos a fabricar armas cada vez mais eficien­tes e a agir em equipe de formas astu­tas, o que, aos poucos, equilibrou a balança, e depois a fez pender para o nosso lado. A partir daí, parece que passa­mos a merecer algum respeito da parte de nossos vizinhos felinos – pois, como Vaillant demonstra com base em di­versos estudos de especialistas, não somos os únicos animais capazes de incorporar novos conceitos e mudar nossos costumes de acordo com eles. Por muito tempo, os felinos viram os hu­manos como presas fáceis, mas, a partir do momento em que nossos ancestrais começaram a andar munidos de obje­tos pontiagudos e cortantes que podiam cau­sar sérios estragos, as feras passaram a evitá-los. Por outro lado, mes­mo que agora fosse capaz de se defender, o ho­mem primitivo não tinha qualquer desejo de procurar briga com ani­mais perigosos, a menos que fosse absoluta­mente necessário – um comportamento que foi passando de geração em geração, tanto entre felinos quanto entre humanos, até que se chegasse a um acordo de respeito mútuo, aquele do qual eu fala­va no começo do texto. Apesar disso, a escuridão, e o que quer que possa haver nela, continuaram e con­tinuam a nos intimidar, e devemos isso, em grande parte, aos ti­gres e seus parentes. Para mim, uma das coisas mais fasci­nantes a respeito da antropologia (e, mais especificamen­te, da parte dela que trata dos nossos ancestrais) é o fato de nos permitir compreender os moti­vos de sermos como somos.

O tigre-siberiano é um dos mais belos animais que alguém seria capaz de imaginar, e também um dos mais aterradores. Mais peludo e corpulento que seus paren­tes de regiões quentes, é uma perfeita má­quina de ma­tar que pode atingir (e, por vezes, ultrapassar) 300 quilos de peso e três metros de comprimen­to to­tal, medindo do fo­cinho à extremidade da cauda. Seus dentes cani­nos têm o comprimento de um dedo indica­dor, a mandíbula é pode­rosa o suficiente para partir o fêmur de um boi com uma única mordida, as garras são cur­vas como ganchos e afia­das como navalhas. Todo esse arsenal está a ser­viço de um cérebro astuto de predador: tal­vez por viverem e caça­rem sozinhos, os tigres parecem ter boa capacida­de de plane­jamento (sim!) e de lidar com situa­ções inesperadas, muito mais que seus primos, os leões. Nenhum animal da tai­ga está a salvo de seu apetite: o tigre pode se alimentar de qualquer coisa, de ratos-silvestres a bisões adultos, e, pasmem, até mesmo de animais que, em qualquer outro lugar, costumam ocupar o topo da cadeia ali­mentar, como ursos e lobos (!). Entretanto, parece que suas presas fa­voritas são cervídeos de grande porte (alce, rena, wapiti) e javalis.

Estima-se que existam hoje cerca de 500 ti­gres-siberianos em liberdade, mais uns cem em zoológicos e cen­tros de preservação em diferentes países. É o sufici­ente para que a subespécie não corra pe­rigo imediato, mas há outro fa­tor complicador a colocar em risco seu futuro: a gradual redução do espaço vital disponí­vel devido à ocupa­ção hu­mana. Foi-se o tem­po em que "Sibéria" designava uma região isolada e quase despo­voada, para onde eram mandados os prisioneiros políticos: hoje ela tem grandes ci­dades e uma população superior a 25 milhões de habi­tantes. Para complicar, o ti­gre, como todo predador de gran­de porte, necessita de um território vas­to – algo em tor­no de 450 quilômetros qua­drados para um macho adulto, sen­do que essa área pode sobrepor-se aos territórios de até duas ou três fêmeas. Embo­ra a Rússia tenha estabeleci­do reservas naturais visando tanto a preser­vação do tigre quanto de outras espéci­es, o sim­ples tamanho dessas reservas torna quase impossível um controle cem por cento efeti­vo; além disso, mais difí­cil que impedir que caçadores entrem, é impe­dir que os animais saiam. Há planos de trans­ferir certo número de ti­gres para o Par­que Pleistoceno, uma reserva natural no nordeste da Sibéria, onde biólogos estão tentando restabe­lecer as condi­ções ecológicas que lá existiam perto do final da última Era Gla­cial, por meio da reintrodução de espé­cies que habi­tavam a região na época. Mesmo antes que a área se tornasse um parque, já vi­viam nela animais como ur­sos, lobos, alces, renas e ja­valis; desde então, foram reintroduzidos com su­cesso bois-al­miscarados, bisões, wapi­tis, ca­valos selvagens, saigas e linces (e, se o projeto de clonagem que está ten­tando trazer de volta os mamutes for bem-­sucedido, o local será, sem dúvida, um lar confortável também para esses gigantes do passado – isso não seria for­midável??). Ainda estão em andamento os estudos sobre a viabilidade de ter tigres vi­vendo lá, e, de qualquer for­ma, será necessário aguardar que a popula­ção de herbívoros aumente até atingir núme­ros que permitam que sir­vam de alimento aos grandes feli­nos sem peri­go para sua própria conservação. Outra ideia, ainda mais ambiciosa, consiste em repovoar com tigres-siberianos as áreas antigamente ocupadas pelo extin­to tigre-do-cáspio, o que re­presentaria um aumento importante do espaço vi­tal disponível para a subespécie, mas isso ainda é uma possibilida­de distante. Por enquanto, o tigre-­siberiano só pode contar mesmo com as reservas que já ocupa, no extremo orien­te russo.

Acho que foi Jacques Cousteau quem declarou que ficava atônito de pensar que, durante o tempo de duração de sua vida, o homem, de­pois de milênios lutando contra a natureza pela sobrevi­vência, teve que fazer um giro de 180 graus e passar a empe­nhar-se em defendê-la, porque percebeu – e esperemos que não tenha sido tarde demais – que é preciso encontrar um equilíbrio. Continuando o pensamento de Cousteau, eu diria que o tigre é um perfeito exemplo concreto dessa ideia mais geral sobre a natureza. Junto com outras feras predadoras, ele fez parte dos nossos pesa­delos na pré-his­tória, e, ao longo de toda a construção da nossa cultura, foi sempre temido – pri­meiro, só temido; depois, temido, admirado e cobiçado de morte. Hoje, temos que nos esforçar para salvar os últi­mos deles, se não quisermos ser os responsáveis por legar às gerações futuras um mundo onde os tigres não exis­tam, um mundo, por­tanto, despojado de um pouco (na verdade, um muito) de sua beleza e terror. Eu fico pensando no quanto vai ser triste se, daqui a um ou dois séculos, uma criança de então abrir um livro, maravi­lhar-se com a ilustração represen­tando um gigan­tesco gato listrado de amarelo e preto, tão forte, majestoso, fasci­nante e terrível, e sentir a frustra­ção de saber que tal animal não existe mais, que nunca lhe será possível ver um de­les vivo e respi­rando – o mesmo tipo de frustração que eu, tanto em criança quanto ainda hoje, sentia e sinto ao abrir um livro e fi­car olhando com espanto para ima­gens de arsinotérios, gliptodontes, entelodontes, rinocerontes peludos e tantas outras feras magní­ficas que nunca vou ver a não ser em livros mesmo. Na verdade, acho que será mais triste ainda, porque essa crian­ça do futuro esta­rá olhando para fotografias, e não para pinturas; para um ani­mal cuja extinção não foi natural, e sim culpa do ho­mem. E ficará sabendo que tivemos uma chance de salvar o ti­gre, e não o fizemos. O que seria uma grande, grande vergonha.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Rosto de Caveira, Os Filhos da Noite e Outros Contos

Vocês talvez lembrem que, no post a respeito de Salomão Kane, observei que muitas coisas nas aventuras do valente puritano sinalizavam um interesse, por parte de Robert E. Howard, pela literatura de terror, inclusive especulando que, caso tivesse vivido mais, o autor, muito provavelmente, ter-se-ia dedicado ao gênero em algum momento. Bem, este outro livro veio para me mostrar que ainda estou longe de conhecer a obra do cara tão bem quanto julgava. As histórias de terror de Howard não são uma coisa hipotética: elas estão bem aqui.

O que encontramos em Rosto de Caveira, Os Filhos da Noite e Outros Contos são histórias com a marca inconfundível de Howard, já conhecida de quem leu as aventuras de Conan e outros de seus trabalhos. Um estilo um tanto hercúleo, vamos dizer assim – mais vigoroso que elegante. Nada que o tempo, a prática e a leitura de grandes vultos da literatura universal não tivessem resolvido, se tivesse havido chance para tanto. Isso me faz lamentar duplamente a morte precoce do escritor, pois, caso não tivesse desistido de viver, ele certamente nos teria brindado com um vasto número de novas obras – veja-se a quantidade de material que produziu em tão poucos anos –, além de, com igual certeza, evoluir muito em técnica e estilo. Caras, pensem no que seria ler um romance que Howard tivesse escrito nos seus maduros 60 ou 70 anos, aliando a tremenda imaginação que conhecemos com a experiência e a habilidade acumuladas numa longa carreira… Mas estou de novo escorregando para o universo do what if. Desculpem.

A primeira história, e a mais longa (ocupando sozinha mais de metade do livro) é Rosto de Caveira. O personagem-narrador chama-se Stephen Costigan, mas, segundo especialistas em Howard, é distinto de Steve Costigan, um marinheiro e boxeador que protagoniza quase 30 histórias e foi um forte candidato a personagem mais popular do autor – antes do aparecimento de Conan, é claro. O Costigan a quem somos apresentados aqui é um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, cuja mente foi severamente afetada pelas cenas de horror testemunhadas na batalha de Argonne, em 1918. Constantemente atormentado pelas lembranças traumáticas da guerra, Costigan busca amortecer a mente por meio do haxixe, e acaba afundando-se na droga até ao ponto de arruinar sua vida. É assim que vamos encontrá-lo, num "templo dos sonhos" (estabelecimento onde pessoas se reuniam para usar drogas) no coração do bairro oriental de Londres.

Antros de vício desse tipo eram comuns na China e em outros países do oriente na época em que a história parece se ambientar (final da década de 1920), depois de a Inglaterra, durante o século XIX, haver incentivado o cultivo de ópio e haxixe na Índia; essas drogas eram traficadas para a China e região por companhias britânicas. Com isso, o aumento da oferta e a consequente queda do preço e facilidade de acesso a essas substâncias haviam transformado o vício numa epidemia. Não havia cidade naquela parte do mundo onde não existissem um ou vários "templos dos sonhos", e também era muito provável haver um em qualquer lugar onde se concentrasse um grande número de habitantes de origem chinesa – como a "Chinatown" londrina, onde Costigan está consumindo sua saúde e seus recursos quando a história começa.


Quando tem a primeira visão do "homem de rosto de caveira", o ex-soldado pensa que é apenas mais uma alucinação produzida por sua mente entupida de haxixe, mas depois, mesmo do fundo de seu entorpecimento, ele percebe que o ser em questão é bem real. Trata-se de um indivíduo muito alto, magro como um esqueleto e com feições de acordo, parecendo ter o crânio coberto apenas por uma pele enrugada e pergaminhosa, que vive escondido num conjunto de câmaras secretas no prédio que abriga o "templo dos sonhos", e a quem até o todo-poderoso Yun Shatu, proprietário da casa, trata com subserviência. O estranho personagem diz chamar-se Kathulos e ser originário do Egito. Kathulos, a certa altura, manda buscar Costigan e, com o que parece ser um toque mágico, livra-o instantaneamente da dependência da droga, dizendo que tem um trabalho em mente para ele, o qual exigirá que esteja em sua melhor forma. Costigan, tomado de enorme gratidão, está disposto a fazer quase qualquer coisa que seu estranho benfeitor peça – pelo menos até descobrir que as coisas não são bem como parecem. Seus sentidos estão extraordinariamente alertas e ele se sente mais vigoroso que nunca, mais até do que em seus melhores tempos, mas parece-lhe que tudo isso faz parte da sensação maravilhosa de ter-se livrado do torpor da droga; entretanto, com o tempo, fica evidente que Kathulos, secretamente, administrou-lhe alguma outra substância, capaz de operar mudanças tão espetaculares e repentinas, e que o fez porque espera utilizá-lo como um peão em planos terríveis. A partir daí delineia-se o confronto que guiará os eventos da história. Kathulos, diga-se, não é realmente egípcio; suas origens são ainda mais antigas e misteriosas que as de qualquer múmia. Dizer mais que isso seria revelar demais, mas quero observar que o gosto de Howard por colocar seus heróis cara a cara com um mal antigo, vindo de eras esquecidas, certamente devia muito à amizade e admiração que ele dedicava a H. P. Lovecraft.

Também em suas outras características, Rosto de Caveira é puro Robert E. Howard: ação vertiginosa do início ao fim, quase sem interrupção, um herói forte e determinado, vilões cruéis, mistérios, combates violentos, e uma bela mocinha de aparência e nome exóticos (Zuleika, nada menos que isso), e que, embora frágil à primeira vista, acaba revelando uma insuspeitada coragem, demonstrando-se uma companheira digna do herói. Enfim, se mudássemos a ambientação, os nomes e alguns detalhes do enredo, a história poderia facilmente ser transformada numa aventura de Conan. Portanto, não se trata de terror, embora incorpore alguns elementos típicos desse gênero; é uma história de aventuras, e muito boa.

O terror mesmo aparece depois que Rosto de Caveira termina e dá lugar a sete contos de variadas extensões e temáticas. Na Floresta de Villefore e Cabeça de Lobo são sobre a lenda do lobisomem, ambas ambientadas no século XVII ou XVIII, e unidas pela presença de um mesmo personagem, Monsieur de Montour, um fidalgo da Normandia (França). A primeira, bem curta, passa-se numa floresta do interior da França, tida como assombrada, e conta como foi que De Montour veio a contrair a maldição da licantropia; a outra tem lugar numa propriedade colonial na costa da África, e conduz o personagem a um destino bastante inesperado. A Serpente do Sonho lembra alguns contos de Guy de Maupassant, com o narrador delegando a outro personagem a tarefa de contar a história, de modo que os elementos inacreditáveis ficam envoltos naquela aura duvidosa do "só estou contando conforme ouvi" (um recurso parecido também é utilizado em Cabeça de Lobo). O modo como sonho e realidade se mesclam na narrativa confere à história um encanto macabro. A Hiena é um conto sobre bruxaria africana, apresentando o que poderíamos considerar como a versão local da licantropia. Certo, o nome licantropia vem do grego lykos, 'lobo', mas o fato de não existirem lobos na África não é impedimento para que o Continente Negro tenha suas próprias lendas a respeito de homens que se transformam em animais. A principal diferença, afora o animal em questão, é que, em A Hiena, a metamorfose não aparece como uma maldição, e sim como uma habilidade somente possuída por feiticeiros de grande poder. Em A Maldição do Mar, temos um narrador que não atua diretamente na história, mas passa por ter sido testemunha ocular dos fatos; o cenário é a cidadezinha costeira de Faring, que poderia ficar no litoral norte-americano ou britânico, provavelmente no século XIX. John Kulrek, um marinheiro fanfarrão e chegado ao álcool, estupra uma garota do lugar, que, desesperada depois do ocorrido, comete suicídio lançando-se ao mar. Acontece que a tia da jovem, com quem ela vivia, tem fama de feiticeira, e lança uma maldição sobre Kulrek – uma maldição que irá cumprir-se de modo sinistro.

Não obstante, o conto mais apetitoso do livro, na minha opinião, é o último, Os Filhos da Noite, publicado originalmente na edição de maio de 1931 da revista Weird Tales. Além de ser, em si, uma história envolvente, ela também é notável pelo grande número de conexões que consegue estabelecer ao longo de suas modestas 30 e poucas páginas. O início dá a impressão de que será um tranquilo conto-ensaio: seis intelectuais, entre eles o Prof. John Kirowan (que tem histórias próprias como protagonista, mas aqui aparece como um personagem secundário) estão reunidos no estúdio de um deles, entretidos em discussões fascinantes de cunho antropológico, literário e mítico. Quando o assunto envereda para cultos misteriosos, Howard não perde a oportunidade de mencionar o Necronomicon, bem como o Grande Cthulhu e outras divindades monstruosas de tempos esquecidos – de modo que Os Filhos da Noite pode ser considerado parte dos Mitos de Cthulhu, iniciados por H. P. Lovecraft e que continuam crescendo até hoje. Howard, aliás, escancara toda a sua admiração pela obra do amigo ao colocar na boca de um dos personagens a opinião de que seu O Chamado de Cthulhu forma a tríade das melhores histórias de terror já escritas, junto com O Selo Negro, de Arthur Machen, e A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe.

Além do narrador John O'Donnel, do Prof. Kirowan, do anfitrião Conrad e de dois outros, está presente um homem conhecido como Ketrick, que, apesar de descender de pura linhagem anglo-saxônica, documentada desde os "dias do rei Canuto" (ou seja, desde o início do século XI!), tem estranhos olhos de feitio oriental e coloração amarelada, além de um sutil sibilar em sua fala, que O'Donnel acha um pouco incômodo. Conforme a conversa sobre cultos misteriosos prossegue, um dos participantes, de nome Clemants, menciona um tal "culto Bran", focado num "rei que governa o Império das Trevas, (…) e sobre a enorme e inominável caverna onde está o Homem das Trevas, a imagem de Bran Mak Morn, escavada à perfeição por uma mão de mestre quando o grande rei ainda era vivo. (…) Sim, esse culto ainda está vivo entre os descendentes do povo de Bran (…)." Isso é uma conexão com outra das criações do próprio Howard, o fictício Bran Mak Morn, que teria sido rei dos pictos na Caledônia (a atual Escócia) nos tempos do Império Romano – império esse ao qual ele devotava um ódio implacável.

Os historiadores têm pouco a oferecer sobre esse povo, os pictos, e mesmo o pouco que oferecem é controverso. Algumas fontes os dão como sendo um ramo primitivo dos celtas; de fato, o grande grupo étnico conhecido genericamente como "celta" comportava inúmeros subgrupos muito diferentes uns dos outros em cultura e tecnologia: enquanto algumas tribos dominavam técnicas sofisticadas de metalurgia, construíam grandes cidades e desenvolviam avançados sistemas de governo, outras viviam em choças de barro e palha, caçavam com armas de pedra polida, andavam pintadas e seminuas. Os pictos, então, fariam parte desse segundo tipo. Porém, também há quem os considere um povo à parte, totalmente distinto dos celtas, e que já ocupava as Ilhas Britânicas muito antes de estes últimos lá chegarem­. Não há mais como saber: fossem ou não celtas, os pictos foram completamente absorvidos, ao longo da Idade Média, por outros povos da região, mais numerosos e de cultura mais avançada. Traços de sua herança genética ainda podem ser encontrados no DNA de escoceses e irlandeses; de sua língua, só restaram alguns nomes de lugares. De qualquer forma, o costume picto de marchar para a guerra com o rosto pintado com a tinta azul obtida da flor conhecida como ísatis sobreviveu entre os escoceses até tempos bem recentes.

Não vamos esquecer que Howard, embora adorasse História e tivesse sólidos conhecimentos nesse campo, não era um historiador, e sim um escritor de ficção, e, como tal, podia valer-se de licença poética, o que significa que o que lemos em suas histórias, na maioria das vezes, não deve ser levado tão a sério – afinal, trata-se de entretenimento. Ainda assim, ele tem uma teoria interessante:

Com certeza o povo conhecido mais tarde como os selvagens pictos de Galloway era predominantemente celta, uma mistura de galeses, cymrics, aborígines e possivelmente elementos teutônicos. Se tomaram seu nome de uma raça mais antiga ou emprestaram seu próprio nome a essa raça, ainda não se sabe. Mas quando Von Junzt fala dos "pictos", ele se refere especificamente ao povo de baixa estatura, pele morena, comedor de alho, de sangue mediterrâneo, que trouxe a cultura neolítica para a Grã-Bretanha. Na verdade, foram os primeiros colonizadores daquela área (…).

(A tradutora Bárbara Guimarães quase sempre traduz people por 'pessoas', mesmo quando 'povo' seria obviamente a tradução correta; nesse excerto, tomei a liberdade de corrigir essa falha, fazendo as adaptações necessárias.)

"Sangue mediterrâneo" está de acordo com o que dizem os estudiosos que defendem a teoria de que os pictos eram um povo separado dos celtas: nesse caso, eles seriam provavelmente originários da Península Ibérica. Por outro lado, o próprio nome "pictos" não é nenhuma palavra ancestral e de origens incertas, como Howard faz parecer: é latim, e quem lhes deu esse nome foram os conquistadores romanos, a partir do primeiro século d.C. Significa simplesmente "pintados", aludindo ao costume já referido de desenharem símbolos tribais com tinta azul pelo corpo e rosto. Não se sabe como os pictos chamavam a si próprios. Mas, em resumo, a ideia de que podem ter existido dois povos distintos conhecidos como pictos – um, mais antigo, pequeno e moreno, e outro, mais recente, de biotipo celta – poderia explicar muita coisa.

Bem… A certa altura, no embalo desses assuntos, o dono da casa, Conrad, mostra a seus convidados um antigo martelo de pedra polida cuja cabeça foi encontrada nas colinas da Escócia; ele mesmo lhe colocou um cabo, para deixá-lo tal como devia ser na época em que era usado por seus misteriosos fabricantes, quem quer que tenham sido. A ferramenta (arma?) primitiva passa de mão em mão, até que, ao chegar sua vez, Ketrick consegue, sabe-se lá como, dar com ela na cabeça de O'Donnel, que perde os sentidos… E tem um sonho muito estranho, se é que é um sonho. Nele, o narrador se vê como Aryara, um jovem guerreiro de uma tribo que chama a si própria de "o Povo da Espada", e que presumivelmente viveu em algum lugar das Ilhas Britânicas em tempos antigos. E Aryara está envolvido num desesperado combate contra uma raça estranha, que quase nem parece humana: são criaturas pequenas, de cabeça grande, orelhas pontudas, olhos rasgados, pele amarelada, e com uma inconfundível nódoa reptiliana em sua aparência geral. Segundo as histórias que Aryara lembra de ter ouvido em sua tribo, esses seres dominavam aquela terra antes da chegada do Povo da Espada (provavelmente uma tribo celta de cultura primitiva), e antes até dos pictos. Apesar do pequeno tamanho, são seres perigosos, além de intrinsecamente malignos. Aryara nada sabe sobre O'Donnel, mas este, ao despertar, traz consigo a memória completa da aventura do guerreiro, o que muda totalmente seu modo de ver a si mesmo, sua raça e a História, além de oferecer uma razão para a vaga e inexplicável antipatia que ele sempre havia sentido por Ketrick. Detalhe: o recurso de um golpe na cabeça que faz o herói perder os sentidos e mergulhar em recordações de outra existência seria reaproveitado por Howard na história O Povo das Trevas, publicada um ano depois, e que apresentaria uma espécie de protótipo de Conan, cujo surgimento oficial se deu pouco mais tarde.

(Só para ilustrar como Howard não fazia a menor cerimônia para misturar as coisas como bem entendesse, e que, portanto, devemos ser cautelosos ao lê-lo: Aryara chama o deus de seu povo de Ilmarinen, um nome sem conexão alguma com a língua ou a cultura do povo que o autor estava, teoricamente, tentando retratar. Ilmarinen, ferreiro e guerreiro, era irmão do bardo e mago Vainamoinen – isso no Kalevala, o épico nacional da Finlândia. FINLÂNDIA.)

Quando vocês forem ler Os Filhos da Noite, não fiquem demasiado incomodados com as enfáticas e repetidas afirmações de O'Donnel a respeito do "sangue limpo" de saxões e celtas, que deveria ser preservado da "contaminação" pelo contato com "raças malignas"; as raças malignas a que ele se refere não são humanas e são totalmente fictícias. Além disso, não esqueçam que a história é de 1931, de modo que Howard não tinha como saber até onde um discurso parecido levaria a humanidade anos mais tarde, nem como prever que asserções desse tipo soariam tão mal aos ouvidos das gerações vindouras. Procurem ler com senso de perspectiva, levando em conta a mentalidade da época, que não era a mesma de hoje, e divirtam-se, que foi para isso que essas histórias foram escritas.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Morte Súbita

Morte Súbita é o primeiro livro publicado por Joanne Kathleen Rowling após a conclusão da saga de Harry Potter, o megassucesso que a catapultou de uma ilustre desconhecida a escritora mais famosa do mundo e mulher mais rica do Reino Unido, superando, e por uma boa margem, a própria rainha Elizabeth II. E parece que, tendo feito nome e fortuna com a fantasia, ela sentiu a necessidade de enfrentar novos desafios, e decidiu então enfrascarse en la realidad, como diria a Mafalda: os personagens e situações dos quais Morte Súbita é feito não serão estranhos a ninguém, em quase nenhum lugar do mundo. Nas personalidades descritas com agudeza e, não raro, com crueldade (não uma crueldade deliberada; acontece que não existe uma maneira gentil de mostrar certas coisas), o leitor fatalmente reconhecerá traços de pessoas reais que conhece ou conheceu – e, se tiver a coragem da autocrítica, é provável que também reconheça, envergonhado, algum traço de si próprio.

O cenário da história (e, eu me atreveria a dizer, seu verdadeiro protagonista, mais que qualquer personagem específico) é o fictício vilarejo de Pagford, distrito do também fictício município inglês de Yarvil. Trata-se de uma comunidade do tipo que seus membros gostam de definir como "pacata e ordeira", com aquele ar interiorano que turistas e moradores mais velhos acham encantador – e os mais jovens, deprimente – e a típica beleza bucólica do interior da Inglaterra. Seu único marco notável são as majestosas ruínas de uma abadia do século XII, no topo de uma das colinas que cercam o vilarejo… E a total indiferença dos moradores em relação a essas ruínas, embora seja provavelmente o retrato da realidade, não deixou de me fazer sentir levemente ultrajado. De minha parte, estou certo de que jamais me acostumaria com o fato de morar perto de algo assim: poderia estar com mais de cem anos de idade e ter visto essas ruínas todos os dias da minha vida, ainda assim seria capaz de me sentar diante delas e contemplá-las durante horas, com aquela sensação indescritível de estar olhando para a própria História. Mas talvez isso seja apenas a visão de alguém que, além de ter essa esquisitice de ser apaixonado por História, vive num país que nem sequer teve Idade Média. Bem, chega de digressões.

A morte súbita que dá título ao livro é a de um homem com o curioso nome de Barry Fairbrother, uma figura destacada na sociedade de Pagford – um de seus "pilares", diriam alguns. Jovem ainda, a meio da casa dos 40, Fairbrother repentinamente cai morto, vítima de um aneurisma, na frente do restaurante do clube de golfe local, onde ia jantar com a esposa, celebrando seu aniversário de casamento. Essa talvez seja a principal peculiaridade do livro: o homem morre no primeiro capítulo, mas influencia os eventos da história até o final. Fairbrother, entre outras coisas, era um dos membros mais ativos do conselho distrital de Pagford, e não demora nada para que comecem a surgir candidatos para a vaga aberta com sua morte (note-se que o título original do livro não é Sudden Death, e sim The Casual Vacancy – quer dizer, 'Vacância Casual').

Mesmo num lugar tão pequeno, há sempre disputas políticas, e o principal pomo da discórdia em Pagford é o bairro conhecido como Fields. Décadas atrás, a prefeitura de Yarvil comprou parte da vasta propriedade de uma família rica e tradicional de Pagford, e criou ali o loteamento que daria origem ao tal bairro, que teve desde o início uma fama ruim entre os pagfordianos, fama essa que o tempo só piorou. Na opinião dos moradores mais tradicionais e respeitados de Pagford, Fields não passa de um antro de drogados e de gente que vive às custas do auxílio do governo, de ruas sujas, casas pichadas, quintais cheios de lixo e outros sinais de miséria que não combinam com a placidez burguesa do resto do vilarejo. Muitos gostariam que Fields desaparecesse, mas, ante a impossibilidade de solução tão radical, procuram, por todos os meios, conseguir que o bairro fique sob a tutela de Yarvil e não seja mais problema de Pagford. Porém, Fields também tem seus defensores, dos quais um dos mais dedicados e influentes era justamente o recém-falecido Barry Fairbrother, que nasceu lá. Agora, o destino de Fields, ou, pelo menos, a política que Pagford adotará em relação a ele durante os anos seguintes, poderá depender de quem venha a ocupar a cadeira de Fairbrother no conselho. E ambas as facções tratam logo de escolher seus candidatos. Do lado pró-Fields, surge Colin "Pombinho" Wall, vice-diretor de Winterdown, a escola local, e um dos amigos mais próximos do falecido; do lado anti-Fields, é indicado o advogado Miles Mollison, filho de Howard Mollison, também membro do conselho e, durante anos, adversário encarniçado de Fairbrother nesse assunto.

A eleição do novo conselheiro distrital é o eixo em torno do qual orbita a narrativa, mas uma série de outras tramas se entrelaçam, direta ou indiretamente, nessa. Há muitos personagens, o que faz o leitor se perder algumas vezes, mas logo nos familiarizamos com eles e fica mais fácil acompanhar, principalmente depois que aprendemos quem está relacionado a quem e de que forma; há várias famílias em cena, e cada membro delas tem seus próprios problemas, motivações e pensamentos. À primeira vista, parece que a autora está sendo implacável com seus personagens, e, por tabela, com as pessoas que os inspiraram (pois é óbvio que foi assim que o processo criativo funcionou), mas, conforme vamos lendo, percebemos que não é bem assim: é o que eu dizia sobre a crueldade não deliberada, lá no início do texto. Rowling simplesmente mostra as coisas tal como elas são e as chama pelo nome que têm, sem racionalizar (embora muitos personagens façam isso o tempo todo) ou lançar mão de eufemismos. Se isso faz seus personagens parecerem, em sua maioria, patéticos e mesquinhos, bem… Talvez seja porque a maioria das pessoas de carne e osso é assim, mas não sejamos tão azedos: muitas delas também têm um lado bom. Não todas. Há personagens com os quais somos levados a simpatizar (ou, ao menos, a nos compadecer deles), como Colin Wall, um homem cujo passado esconde um segredo terrível, e que parece estar procurando fazer a coisa certa como uma forma de se redimir, mas é prejudicado por uma insegurança de dar pena (como alguém assim pode ter chegado a vice-diretor de escola, é coisa que não consigo imaginar); outros são absolutamente repulsivos, como Samantha, a desmiolada e fútil mulher de Miles Mollison, que parece pensar que pode retardar a chegada da meia-idade comportando-se como uma adolescente birrenta, e adora fazer pequenas maldades, geralmente colocando de propósito outras pessoas em situações embaraçosas. A autora entra na mente de todos os personagens e expõe ao leitor, de forma crua, todos os seus orgulhos tolos, mágoas ridículas e motivações tacanhas. Acho particularmente doloroso, em especial por ser (também) um retrato da realidade, ver que a grande maioria dos jovens não guarda sequer o mais longínquo traço de respeito por seus pais ou professores – ainda que alguns pais que aparecem no livro não façam mesmo por merecer. Isso não me deixa nada otimista quanto ao futuro da sociedade em geral.

Barry Fairbrother, aparentemente, era a melhor pessoa de Pagford, caracterizado pelo bom humor, pelo altruísmo e por uma reserva inesgotável de autoconfiança (é verdade que, quando uma pessoa acaba de morrer, todo mundo parece sentir um impulso de falar bem dela). Além de lutar para que Fields continuasse pertencendo ao distrito, ele tinha especial interesse em manter funcionando a clínica Bellchapel, que trata dependentes químicos – dos quais Fields, inegavelmente, está cheio – e cujo fechamento também está na pauta de Howard Mollison e seus aliados. Entre suas muitas atividades destinadas a beneficiar o próximo, Fairbrother também era técnico de uma equipe feminina de remo, formada por alunas de Winterdown, garotas que ficaram meio órfãs com sua morte. Uma delas em particular, Krystal Weedon, sente-se mais que meio órfã, já que Fairbrother parecia ser o que ela conhecia de mais parecido com uma figura paterna. Krystal mora em Fields com um irmão pequeno e a mãe, Terri, uma viciada barra-pesada que já passou diversas vezes pela clínica e sempre recaiu – e enfrenta todas as agruras dessa situação. No decorrer da história, Krystal se envolve (leia-se "começa a transar de forma inconsequente") com um garoto conhecido como "Bola" Wall – um apelido irônico, já que ele é bem magro –, considerado por muitos como o cara mais "descolado" da escola. Bola é filho do vice-diretor Colin Wall e da orientadora educacional Tessa, e um dos piores elementos a frequentarem Winterdown atualmente. Não que se rebaixe a ser um arruaceiro comum: suas maldades são engenhosas e sempre terminam com ele saindo incólume. Especial prazer Bola sente em atormentar Sukhvinder Jawanda, outra das remadoras da equipe de Fairbrother e filha de um casal de médicos paquistaneses que residem em Pagford, sendo que a mãe também integra o conselho distrital. Sukhvinder talvez seja a personagem mais digna de compaixão no livro: embora sua família seja próspera e benquista no vilarejo, a garota sofre tanto com as cobranças implacáveis da mãe no tocante aos estudos (ela tem dislexia, mas a mãe a considera simplesmente preguiçosa) quanto com a perseguição de certos colegas por causa de sua aparência pouco atraente. Bola, o pior de todos, mostra-se incansável e surpreendentemente criativo quando se trata de humilhar Sukhvinder, e, é claro, isso faz com que seu fã-clube o admire cada vez mais.

Desse fã-clube faz parte Andrew Price, que, além disso, é o melhor amigo de Bola. Andrew não parece achar tanta graça no que Bola faz com Sukhvinder, mas não move um dedo para defendê-la, já que isso significaria ser "do contra" e arriscar-se a perder a aceitação do grupo – o pior pesadelo de um adolescente. De alguma forma, ele entende o que a garota passa, pois não é tão diferente do que ele próprio, sua mãe e o irmão mais novo vivem em casa: o pai de Andrew, Simon Price, gerente de uma gráfica, é um completo idiota, que mantém a mulher e os filhos sob um estado de terror perene, com constantes humilhações e ameaças. Quando Simon mete na cabeça que também vai lançar uma candidatura à vaga no conselho, Andrew considera isso a gota d'água e decide sabotar os planos do pai. Como fará isso? Só adianto que tem a ver com as maravilhas da internet, um universo ainda misterioso para os mais velhos, mas pelo qual os adolescentes transitam tão à vontade quanto peixes na água. E que a sabotagem de Andrew vai iniciar uma reação em cadeia, que dará muito mais pano para as mangas do que ele alguma vez imaginou.

Em outro departamento de sua vida, Andrew está completamente fascinado (até aquele ponto em que um rapaz fica um tanto abobado) por uma nova e linda colega, Gaia Bawden, que acaba de se mudar de Londres com a mãe e, vejam só, por mais improvável que isso pareça, faz amizade não com as garotas bonitas e populares, mas justamente com a tímida e feiosa Sukhvinder Jawanda. A mãe de Gaia, Kay Bawden, calha de ser a assistente social encarregada do acompanhamento da família Weedon… Coisas de cidade pequena. O que levou Kay a mudar-se de Londres para Pagford foi seu affair com Gavin Hughes, um jovem advogado que trabalha com Miles Mollison, era amigo de Barry Fairbrother, e, desde a morte dele, parece estar desenvolvendo um novo tipo de interesse por sua viúva, Mary, a quem ajuda com as providências legais para o recebimento do seguro de vida do marido…

Eu poderia ir muito mais longe pulando de personagem em personagem, mas não acho necessário; isso já é uma amostra suficiente do tremendo emaranhado de relações e interações que faz parte de Morte Súbita. Um emaranhado capaz de desnortear completamente um narrador menos hábil, o que transformaria a trama numa bagunça, mas J. K. Rowling não deixa em momento algum que as rédeas lhe escapem das mãos. Sua técnica narrativa, que era apenas mediana nos primeiros volumes de Harry Potter, e já havia evoluído muito nos últimos, parece estar em contínuo aperfeiçoamento, garantindo que o leitor fique preso página após página, mesmo que o tema seja banal se comparado àquilo que estávamos acostumados a receber dela. Embora todos nós saibamos (e ela própria, sem dúvida, melhor que ninguém) que o estigma de "autora de Harry Potter" irá acompanhá-la até o túmulo e muito além, Rowling parece determinada a explorar outras searas e a procurar não ficar marcada como autora de um sucesso só, de modo que ficamos, desde já, curiosos pelo que mais pode estar vindo por aí.

quinta-feira, outubro 15, 2015

O Império dos Dragões

No ano 260 d.C., a cidade romana de Edessa, na Anatólia (correspondente a parte da atual Turquia) está sob cerco do exército persa. Dentro de suas muralhas, o bom imperador Valeriano espera por reforços, quatro legiões que estão vindo do oeste, conduzidas por seu filho Galieno, mas acaba por ficar evidente que o socorro não chegará a tempo de evitar que a população e as tropas aquarteladas na cidade pereçam devido à fome. Então chega uma mensagem de Shapur I, rei dos persas, propondo um encontro para discutir condições para o fim do cerco e a instauração da paz na região. Contrariando os conselhos do experiente legado Marco Metelo Áquila (o "Comandante Águia", como é chamado por seus homens), o imperador aceita o convite. Uma vez que suas advertências não deram resultado, Metelo insiste para que Valeriano lhe permita acompanhá-lo, no que é atendido.

Infelizmente, Metelo Áquila estava certo em desconfiar: o convite era uma armadilha. O imperador cai prisioneiro dos persas, e, com ele, Metelo e mais dez homens de sua legião, a Segunda Augusta (não tenho certeza se a presença da Augusta na Anatólia na segunda metade do século III é histórica; não encontrei registros nesse sentido, mas também nenhuma evidência em contrário). Não se sabe mais nada de Valeriano depois disso; ele pode ter sido executado pelos persas logo em seguida, ou pode ter vivido anos no cativeiro.

Tal como já o fizera em A Última Legião, Valerius Maximus Manfredus… perdão, Valerio Massimo Manfredi aproveita-se do final reticente da biografia de um imperador romano para explorar possibilidades surpreendentes numa obra de ficção. Porém, diferente do que acontecia naquele livro, neste o imperador em questão não vê o fim da jornada. O grupo é levado para uma mina de turquesas no coração do Império Persa – e ir para uma mina era um dos piores destinos que alguém podia ter na época. As condições insalubres, a alimentação miserável e os maus-tratos cobram seu preço de todos, mas Valeriano, devido à idade, sofre mais, e acaba não resistindo – ele e um soldado cuja fé cristã atrai a antipatia dos feitores persas, valendo-lhe uma dose extra de castigos físicos. À parte essas duas baixas, o restante do grupo insiste em agarrar-se à vida, até que, quando se dão conta, estão trabalhando na mina há mais de um ano, o que já é bem mais do que a maioria sobrevive em tal lugar. Quando conseguem fugir, isso é um feito inédito, só alcançado graças à ajuda de um prisioneiro veterano, o único que está lá há mais tempo que eles. Os conselhos do velho de nome Uxal e seu conhecimento do terreno, aliados à determinação dos romanos e sua capacidade para agir em equipe, permitem ao grupo escapar da mina, mas isso é apenas o começo de sua odisseia, que segue com uma exaustiva e perigosa fuga pelo deserto, caçados pelos persas. Num entreposto comercial, perto de onde o rio Khaboras (hoje conhecido como Khabur, na Síria) deságua no legendário Tigre, encontram um mercador indiano que os contrata como escolta para sua caravana, que, a partir daí, segue viagem pelo rio. Em tal companhia, Metelo e os outros chegam à foz do Tigre, no Golfo Pérsico, e, mais tarde, ao Oceano Índico, em cujas águas, até então, pouquíssimos europeus navegaram.

O plano original é separarem-se aí; os romanos esperam encontrar um navio que os leve rumo ao oeste e de volta para casa, enquanto Daruma, o indiano, seguirá ainda mais para o oriente, rumo ao misterioso país da seda, que, nos mapas romanos, é designado, de forma vaga, como Sera Maior – um lugar sobre o qual Roma, e o ocidente em geral, sabem muito pouco. Porém, é época de monção: durante os seis meses seguintes, ventos fortes e constantes soprando rumo ao leste tornarão impossível navegar em qualquer outra direção; Metelo e seus companheiros teriam que escolher entre ficar esse tempo esperando em alguma vila litorânea, sem conhecer o idioma local e quase sem dinheiro, ou tentar fazer o trajeto por terra, o que levaria talvez um ano ou mais, sem mencionar os incontáveis perigos, o fato de não conhecerem o caminho e, é claro, a vigilância dos persas. Daruma, então, lhes propõe o seguinte: os dez romanos podem continuar em sua função de escolta até que a caravana chegue a seu destino; promete-lhes pagamento generoso e, ao final, providenciar-lhes a viagem de volta. Considerando as poucas opções de que dispõem, Metelo e os outros aceitam.

Quando esse acordo é feito, Metelo já percebeu que Daruma não é um comerciante comum. A carga mais preciosa a viajar em sua caravana e em seus navios não é a mercadoria que leva, e sim um jovem cuja aparência só não é mais exótica que seus modos. Ele diz chamar-se Dan Qing e ser um príncipe chinês, que, depois de um bom tempo como refém dos persas, está retornando a seu país, onde o trono que seria seu por direito foi usurpado. Mesmo sozinho, o príncipe espera retomar o que lhe pertence e devolver a paz a seu império dividido. Dan Qing foi educado em certas misteriosas artes orientais, que combinam filosofia e combate, possuindo habilidades que, aos olhos dos soldados romanos, parecem quase sobre-humanas. Entre ele e Metelo, a despeito de uma interação, a princípio, muito fria e formal, vai gradualmente surgindo o mútuo e natural respeito entre dois homens bravos, semelhantes em essência, apesar de virem praticamente de mundos diferentes, com um abismo de distância e de cultura a separá-los. Acompanhando Dan Qing, Daruma e seus homens, o pequeno grupo de legionários desgarrados irá entrar num mundo exótico, além de sua imaginação, ver inúmeras maravilhas da natureza e da arte, e, também, envolver-se em conflitos de poder e em diversos outros tipos de perigos. Já contei o suficiente, mais que isso seria spoiler, mas podem ter certeza de que as possibilidades abertas por esse enredo são tão enormes e empolgantes, que facilmente renderiam uma série em vez de um único livro.

O Império dos Dragões é mais uma bela história de Valerio Massimo Manfredi, sem dúvida um excelente entretenimento, e também me ensinou um pouco sobre a situação do Império Romano no século III, período do qual não se fala muito… Mas qual será a probabilidade de que essa ficção esteja calcada em algo de verídico? O que Roma e a China sabiam uma da outra nessa época? Será possível que os dois impérios tenham interagido de algum modo?

Por tudo o que sabemos de seguro, com base em registros fiáveis, tanto do ocidente quanto do oriente, parece que os romanos tinham noções muito vagas a respeito da China, e vice-versa – cada uma dessas civilizações pensava na outra como pouco mais que um lugar lendário, inimaginavelmente distante, que podia existir ou não. Apesar disso, a interação acontecia, embora de modo indireto. Sabe-se que os mercados mais refinados de Roma ofereciam especiarias, seda e jade trazidos da China, o que não significa que algum mercador tivesse feito todo o percurso – esses produtos, provavelmente, eram comprados e vendidos pelo menos meia dúzia de vezes desde o seu local de origem até a venda ao consumidor final, o que era mais um motivo para que seus preços fossem proibitivos para todos com exceção dos mais ricos. Entretanto, não é impossível que, em algum momento da Antiguidade, uma conspiração de eventos, jamais prevista por ninguém, tenha levado esses dois mundos distantes a entrarem em contato de outras formas.


Rumores sobre a presença de contingentes militares romanos na antiga China circulam há séculos, e investigações feitas nos tempos modernos chegaram a fornecer-lhes certo respaldo, ao menos aparente. Depois da batalha de Carras, em 53 a.C. – uma das piores derrotas sofridas pelo exército romano em sua longa história –, cerca de dez mil legionários (ou seja, o equivalente a duas legiões inteiras) foram feitos prisioneiros pelos inimigos partas, e nunca mais o ocidente ouviu falar deles… Até meados do século XX, quando alguns historiadores ingleses levantaram uma hipótese, no mínimo, curiosa. Esses pesquisadores examinaram registros chineses sobre a batalha de Zhizhi, travada em 36 a.C., em algum lugar do atual Cazaquistão, entre as forças do Império do Centro (que era como a China chamava a si própria) e um povo que eles chamavam de Xiongnu, e que eram provavelmente os citas, cavaleiros nômades que habitavam as estepes de partes das atuais Rússia e Ucrânia. Nessa batalha, segundo tais registros, os Xiongnu contavam com uma infantaria pesada que lutava numa formação que os chineses nunca tinham visto; nela, os soldados posicionavam seus escudos numa configuração semelhante à de escamas de peixe. O ponto é: os citas, como outros povos acostumados a viver e morrer sobre seus cavalos, consideravam desonroso lutar a pé; seus exércitos eram compostos principalmente por arqueiros montados. Portanto, se os tais Xiongnu eram mesmo os citas – como parece ser o mais provável –, isso levanta a questão de qual seria a origem dessa infantaria. Os pesquisadores pensaram o mesmo que eu teria pensado no lugar deles: essa parte sobre os escudos dispostos "como escamas de peixe" parece uma descrição bastante boa da manobra que os legionários romanos chamavam de testudo ('tartaruga'), e, afinal, a batalha de Zhizhi foi apenas 17 anos depois da de Carras… É plausível, ao menos em tese, que os partas tivessem vendido os romanos capturados como soldados-escravos para os citas, seus vizinhos do norte, ou que ao menos parte dos legionários tivessem, de alguma forma, recuperado sua liberdade, e, ante a quase impossibilidade de voltarem para casa, passassem a ganhar a vida como mercenários.

Já se apontaram, como uma possível evidência a favor dessa teoria, as curiosas características étnicas dos habitantes da pequena cidade de Liqian, no norte da China, muitos dos quais têm olhos azuis ou esverdeados, cabelos alourados e estatura mais alta que a comum na região… Acontece que essas características nunca foram típicas dos romanos, um povo originalmente de estatura mediana, olhos e cabelos escuros. Por outro lado, as legiões não eram formadas só por romanos "da gema": para alistar-se, bastava ter cidadania romana e falar um pouco de latim. Você podia ser cidadão romano sem nunca ter posto o pé na Itália e mesmo que seu biotipo estivesse mais para celta ou germânico: bastava que seu pai, avô, bisavô ou outro ancestral tivesse sido romano, e que, desde então, tivesse havido uma linha ininterrupta de descendentes masculinos. Havia até os que eram cidadãos sem terem um pingo de sangue italiano – eram aqueles cujos pais ou avós haviam servido nas tropas auxiliares, pois, ao darem baixa, esses soldados de origem bárbara recebiam a cidadania romana, que era transmitida aos descendentes. Ou seja, as legiões tinham, sim, a sua quota de soldados altos e de olhos claros. A história da legião perdida pode ter lá o seu fundamento – ou não. Até o momento, não foram encontradas evidências materiais na região de Liqian, tais como armas ou artefatos de estilo romano, o que seria uma prova mais contundente. Por outro lado (de novo!), a ausência desses objetos não é necessariamente uma contraevidência: se os romanos que supostamente chegaram até lá estivessem entre aqueles aprisionados em Carras, seria muito natural que seus captores partas lhes tivessem tirado qualquer objeto que estivessem levando; mais tarde, ao se reequiparem, os romanos teriam que se contentar com armas e utensílios locais. Talvez alguma coisa de muito empolgante ainda esteja por ser descoberta.

Uma observação final. Eu gosto muito de Valerio Massimo Manfredi, apesar de reconhecer que ele não pode ser considerado um grande escritor do ponto de vista da técnica literária; seu métier, originalmente, eram História e arqueologia, e foi a partir disso que chegou à literatura, sem ter tido, até onde sei, um treinamento formal para tanto. Seus diálogos raramente são brilhantes, e os personagens carecem de profundidade e individualidade, mas, mesmo com essas limitações, o cara tem boas ideias e a energia necessária para fazê-las render. Para quem, como eu, é apaixonado por História em geral e pela Antiguidade em particular, seus livros sempre serão interessantes. Pena que, como já acontecia em A Última Legião, também no caso de O Império dos Dragões nem o tradutor Mario Fondelli nem seu revisor (cujo nome não é creditado) parecem ter a mínima noção acerca de como conjugar verbos nas pessoas tu e vós, de modo que a tentativa de dar um ar "de época" às falas dos personagens resulta em coisas realmente horríveis.