quarta-feira, outubro 16, 2013

Duna

Um dos mais monumentais romances de ficção científica já escritos… Querem saber? Um dos mais monumentais romances de qualquer gênero já escritos, é a definição que melhor assenta em Duna, a obra-prima de Frank Herbert. Mesmo que criar mundos (e, em alguns casos, até universos) seja uma parte normal do trabalho de escritores imaginativos, dá para contar nos dedos de uma mão os livros em que isso foi feito de forma tão completa, minuciosa, coerente e cativante quanto aqui. O livro, lançado em 1965, valeu a seu autor os prêmios Hugo e Nebula, que estão para a literatura de ficção científica mais ou menos como o Oscar e a Palma de Ouro de Cannes estão para o cinema.

Mais de oito mil anos no futuro, o universo conhecido é regido por um sistema monárquico e feudal, de forma semelhante aos reinos da Europa na Idade Média. Há o imperador Padishah Shaddam IV, e, abaixo dele, a Landsraad, que vem a ser a aristocracia interestelar  uma série de famílias poderosas que controlam certos planetas ou sistemas solares. As viagens espaciais são monopólio da Corporação Espacial, cujos navegadores, ou "timoneiros", pilotam suas gigantescas naves por meio de um processo de expansão de consciência, turbinado por uma poderosa droga, uma especiaria conhecida como melange, muitas vezes chamada apenas de "a especiaria". Graças aos poderes que a especiaria lhes confere, os timoneiros conduzem as naves sem precisarem estar a bordo, e sem que a distância pareça fazer qualquer diferença: eles "viajam sem se mover". Para isso, têm que consumir grandes quantidades de melange, o que, ao longo de séculos, causou mutações bizarras: os timoneiros praticamente nunca são vistos, mas corre à boca pequena que não parecem humanos.

Não são apenas os timoneiros da Corporação que consomem a especiaria: em pequenas doses, ela prolonga a vida, amplia a percepção, e até permite a alguns usuários (que tenham uma inclinação para isso) ter vislumbres do futuro, de modo que todos os que podem fazem uso dela. Não é para qualquer um, porém, pois seu valor é alto. A especiaria não pode ser sintetizada e só é obtida em um único planeta em todo o universo conhecido. Nos mapas estelares, esse planeta, o terceiro da estrela Canopus, aparece como Arrakis, mas seus habitantes têm para ele outro nome: Duna. Quem controla a especiaria controla o universo, e Arrakis, como a única fonte da valiosa substância, tem, portanto, um papel essencial no jogo de poder no Império.

Arrakis não tem mares, oceanos ou qualquer corpo d'água digno de nota; sua superfície é quase toda coberta por desertos, nos quais pouquíssimas formas de vida conseguem sobreviver. Apesar disso, o planeta parece ter sido colonizado em tempos muito antigos, anteriores à descoberta da especiaria ou de seus poderes. Os humanos que o habitam chamam a si mesmos de Fremen (acredito que venha de free men, 'homens livres'), e todos os aspectos de suas vidas são moldados e regulados pela necessidade imperiosa de preservar a água. São uma gente orgulhosa e feroz, regida por um código de honra inflexível, e com um certo pendor para o fanatismo; tanto por suas características quanto pelo estilo de vida que levam, lembram muito beduínos, uma impressão que é reforçada pelo fato de vários ditos e expressões atribuídas a eles virem da língua árabe. Suas crenças religiosas também têm um quê de islâmico, embora certos conceitos católicos e, creio, judaicos, também estejam presentes. Aliás, esse é um dos diferenciais da obra de Frank Herbert: enquanto muitos autores de ficção científica acreditam que no futuro a religião vá progressivamente perdendo importância, até desaparecer por completo (Arthur C. Clarke) ou reduzir-se a uma prática semiclandestina de pequenos grupos de excêntricos (Alfred Bester), para Herbert ela será sempre uma das coisas que maior poder exercem sobre os seres humanos, e, portanto, um fator importante no desenrolar da História, com H maiúsculo. Foi a religião, por exemplo, que impulsionou a Grande Revolta, ou Jihad Butleriano, quatro mil anos antes dos eventos narrados em Duna: nessa época, a humanidade havia-se tornado dependente das máquinas inteligentes que criara, o que acabou fazendo com que a grande maioria se tornasse escrava dos poucos que controlavam as máquinas. A Revolta aboliu as "máquinas pensantes" e impôs, daí em diante, severas limitações à tecnologia mecânica e eletrônica, resumidas sob a forma de um dogma: "Não farás a máquina à semelhança da mente humana". Por isso, no universo de Duna, não existem supercomputadores; em vez disso, há os Mentat, homens treinados para "supremas conquistas da lógica", – na prática, computadores humanos.

Em Arrakis, a especiaria é obtida por meio de mineração; ela está em toda parte no planeta, misturada com a areia, mas apenas em certos lugares existe uma concentração suficiente para tornar viável a extração, e as areias com especiaria parecem ser consideradas uma espécie de possessão territorial pela forma de vida dominante em Duna: os gigantescos vermes do deserto, espantosas criaturas que podem medir mais de 400 metros de comprimento e muitas dezenas de metros de diâmetro. Os vermes viajam pelo subsolo a grandes velocidades e atacam qualquer fonte de vibrações ritmadas  por isso, os Fremen aprendem desde crianças a caminhar de forma descompassada quando no deserto profundo, de modo a evitar que seus passos formem um padrão rítmico que possa atrair um verme. Não está claro do que os vermes se alimentam; sugestões soltas aqui e ali nos levam a imaginar que eles talvez façam um tipo de fotossíntese, ou coisa parecida, o que explicaria o fato de a atmosfera conter oxigênio suficiente para ser respirável, num planeta praticamente sem vegetação. Outra coisa que também é insinuada é uma possível relação entre vermes e especiaria, uma ligação mais profunda que o mero fato de eles defenderem os lugares onde ela existe em maior quantidade. Porém, se tal ligação existe, só os Fremen sabem, e esse não é um segredo que estejam dispostos a partilhar com qualquer um. Eles ensinam a seus filhos que a atitude correta a se ter para com o verme é de respeito, não de temor. O principal rito de passagem para a idade adulta entre as tribos do deserto consiste em cavalgar um verme: eles o atraem com vibrações rítmicas, escalam o vasto costado da criatura utilizando equipamento especial, e, por incrível que pareça, uma vez sobre seu dorso, conseguem conduzi-la. A arma típica dos Fremen é a faca cristalina, feita do dente de um verme; tal matéria-prima não é comum de se encontrar, já que só pode ser retirada de vermes mortos, e, além de eles viverem milhares de anos, não há quase nada capaz de matá-los  com exceção de um verme mais forte. Teoricamente, um verme também poderia morrer envenenado com água, substância que não faz parte de sua fisiologia e é tóxica para ele; porém, em Arrakis, as possibilidades de que algo assim efetivamente aconteça são remotas, para dizer o mínimo. De qualquer forma, uma única carcaça de verme encontrada fornece material para centenas de facas, e, além disso, a mesma lâmina costuma passar de geração a geração dentro de cada família (assim como o equipamento para cavalgar o verme, por falar nisso). A faca cristalina representa para o guerreiro Fremen o mesmo que a katana para o samurai: mais que uma mera arma, é um símbolo de sua identidade cultural e dos valores que ele mais preza.


É nesse universo que tem lugar a saga de Paul Atreides, o messias de Duna. Filho do duque Leto Atreides, que governa o planeta Caladan, e de Lady Jessica, uma habilidosa "feiticeira" da ordem Bene Gesserit, Paul é treinado desde a mais tenra infância para suceder o pai. Tal treinamento inclui desde as coisas óbvias, como política e administração, até habilidades indispensáveis à sobrevivência de qualquer homem nobre e importante nesses tempos: luta armada e desarmada, identificar ciladas e venenos, além de toda uma gama de habilidades mentais ensinadas por sua mãe (a irmandade Bene Gesserit, formada apenas por mulheres, é famosa por cultivar o controle da mente sobre o corpo e por desenvolver poderes naturais, latentes no ser humano, mas que a maioria nunca aprende a utilizar). Além dos próprios pais, o jovem herdeiro tem outros professores extraordinários: Gurney Halleck, o guerreiro-trovador; Thufir Hawat, mestre de assassinos, um velho Mentat que serve à casa Atreides desde os tempos do avô de Paul; Duncan Idaho, legendário espadachim; e o brilhante médico Dr. Yueh. Graças, em parte, a toda essa soberba instrução, em parte a seus talentos inatos, Paul chega aos 15 anos como um rapaz extremamente inteligente, astuto e perigoso.

É por volta dessa época que a rotina da casa Atreides sofre uma reviravolta. O duque recebe ordens do imperador para transferir-se para Arrakis, sob a alegação de que o monarca estava insatisfeito com a administração realizada pela casa nobre anteriormente encarregada do planeta  os Harkonnen, parentes e inimigos mortais dos Atreides. O oferecimento é tentador, pois colocará Leto numa posição de grande poder, mas trata-se, na verdade, de uma armadilha: o imperador está preocupado com a crescente popularidade do duque entre as grandes casas de Landsraad, receando que em breve ele reúna apoio suficiente para dar um golpe e destroná-lo. Para livrar-se desse perigo, Shaddam IV tramou um conluio com o barão Vladimir Harkonnen, líder da casa Harkonnen: depois de fingir uma retirada e esperar que Leto e sua gente tenham se instalado em Arrakis, o barão deverá enviar suas tropas, reforçadas por um grande contingente dos Sardaukar  os temíveis soldados-fanáticos do imperador  para exterminar de uma vez por todas a linhagem Atreides. Um traidor entre os Atreides, coagido pelos Harkonnen, facilitará o ataque sabotando as defesas por dentro.

O plano infame parece obter sucesso. Leto é assassinado em meio ao caos da batalha  de forma traiçoeira, sem ter a chance de tombar lutando , e quase todos os seus soldados e servos são exterminados ou escravizados; os poucos que conseguem escapar ficam espalhados pelo planeta, sem liderança alguma, para morrer no deserto ou, no máximo, viver refugiados entre os Fremen  se estes não os matarem por prudência. E é entre os Fremen que Paul e Jessica encontram abrigo.

Uma nova cultura, um novo modo de vida; há muito a aprender e muito com o que se acostumar. Coisas que seus novos companheiros veem como normais desconcertam e por vezes chocam Paul. Porém, ele não é um garoto qualquer, e isso é algo que todos rapidamente percebem. Há entre os Fremen uma velha profecia sobre o "Lisan al-Gaib" (a 'voz do mundo exterior'), um messias que viria de outro mundo para conduzi-los à "verdadeira liberdade"  uma lenda que apresenta inquietantes semelhanças com outra profecia, esta das Bene Gesserit, a respeito do "Kwisatz Haderach", nome que se traduz por 'encurtamento do caminho': este seria um Bene Gesserit masculino, um ser absolutamente único, cujos dons proféticos superariam até mesmo os das mais poderosas reverendas-madres da ordem. E Paul parece preencher um por um os pontos estabelecidos por ambas as profecias. Na sociedade Fremen, ele se torna conhecido como Paul Muad'Dib, nome tomado de uma espécie de rato-canguru, uma criatura do deserto que os Fremen admiram por ser capaz de sobreviver com pouquíssima água, além de ser envolta numa aura mística, porque uma das duas luas de Arrakis exibe em sua superfície uma mancha com a forma do animal.

Tanto a mãe quanto o filho parecem destinados a ter papéis importantes na história do povo que os acolheu. Jessica, grávida de uma menina concebida pouco antes da morte de Leto, faz a ousada experiência de beber a "água da vida" numa cerimônia Fremen. Essa é uma substância perigosíssima, e que, apesar do nome, não é água de espécie alguma, pois é obtida do verme. Ingerido por uma pessoa suficientemente forte e preparada, esse líquido pode despertar a consciência e os poderes da mente num nível em que nenhuma outra coisa o faz  mas, se quem o tenta não estiver à altura do desafio, o preço do fracasso é a morte. Jessica obtém sucesso, tornando-se uma reverenda-madre altamente respeitada. Porém, ocorre um efeito colateral: sua filha, Alia, sofre uma espécie de fusão mental, que armazena em seu pequenino cérebro todo o conhecimento e a experiência acumulados por sua mãe até aquele momento  e não só por sua mãe, mas por todas as incontáveis reverendas-madres já mortas que a precederam. Alia torna-se, ela própria, uma reverenda-madre ainda no ventre da mãe. Ao nascer, é uma poderosa bruxa em corpo de criança.

Durante os anos seguintes, à medida em que vai amadurecendo e desenvolvendo seus poderes, Paul conquista cada vez mais respeito e proeminência entre os Fremen; apesar de sua pouca idade, constrói renome por sua sagacidade, ensinando a eles muito do que aprendeu com seus antigos mestres e arquitetando engenhosos planos de ataque contra os ocupantes Harkonnen. O ódio dos Fremen contra essa casa, que durante 80 anos tentou exterminá-los como se fossem uma praga, não é menor que o do próprio Paul. Seus esforços causam enormes baixas entre as tropas do barão e transformam a mineração da especiaria num negócio muito perigoso, até que a queda na produção acaba por atrair as atenções do imperador em pessoa… O que, vejam só, era exatamente o que Paul pretendia. A partir daí, vingar a morte do pai e reconquistar seus direitos como duque será apenas o começo para ele e para sua estirpe.

Duna é um daqueles livros que exigem inúmeros adjetivos para serem descritos. O primeiro que me vem à mente é "denso". Cada página é um pedaço de uma intrincada trama que envolve não apenas os infinitos detalhes de um universo exótico e complexo, mas também a parte psicológica dos personagens  por sua vez, profundos e multifacetados. As forças e fraquezas de cada personagem, suas motivações e seus medos, são peças que influenciam o desenrolar da história, tudo de forma perfeitamente pensada  cada causa com seu efeito, cada ação com sua reação. Um tratamento tão hábil, aplicado a um enredo tão grandioso, numa ambientação tão rica e fascinante, só poderia ter o resultado que efetivamente tem: um livro único, que não se parece com nada que eu conheça, uma leitura hipnótica, com um poder de imersão que poucas vezes encontrei ao longo de mais de 30 anos de experiência como leitor. Duna apresenta a História sendo feita, por meio da complexa interação de diferentes fenômenos sociais  religião, guerra, interesses econômicos , todos eles submetidos às condições impostas pelo poder da natureza. É comovente sentir o conflito na alma dos Fremen, que sonham com seu planeta transformado num mundo verdejante, hospitaleiro à vida humana, mas, ao mesmo tempo, amam o deserto, que possui seu próprio tipo de beleza cruel, além de ser o elemento central de sua cultura e visão de mundo, e o grande responsável por fazê-los fortes, já que os submete a provas duras e diárias pela sobrevivência.


Duna foi adaptado para o cinema em 1984, com direção de David Lynch, tendo seu "muso", Kyle MacLachlan, no papel de Paul Atreides, o veterano Max Von Sydow como o planetólogo imperial e líder Fremen Liet-Kynes, e, Patrick Stewart como Gurney Halleck  uma curiosidade para os fãs de Jornada nas Estrelas e de X-Men, já que esse ator já foi conhecido como capitão Jean-Luc Picard, e, ultimamente, como Prof. Charles Xavier. O filme é considerado por muitos dos fãs de Lynch como o "patinho feio" da obra do diretor, e foi um fracasso nas bilheterias  algo totalmente compreensível, pois, com exceção dos leitores de Frank Herbert, o público que foi vê-lo era provavelmente formado por aquele tipo de espectador que assiste a qualquer coisa rotulada como "ficção científica", mas que vai esperando ver um agitado bangue-bangue com armas laser, e não um filme difícil, cheio de implicações filosóficas e de sentidos não óbvios, como este. O filme tampouco foi bem recebido pela crítica, mas, apesar de tudo, deve ter seus admiradores, a julgar pela regularidade com que tem sido relançado em DVD e blu-ray, e talvez seja relevante lembrar que o próprio Herbert gostava dele. Pessoalmente, considero-o uma experiência envolvente e agradável para um fã do livro, pois as informações adquiridas durante a leitura encarregam-se de automaticamente preencher as lacunas e dar significado às cenas, deixando o espectador livre para encher os olhos com as espetaculares imagens. Por outro lado, compreendo plenamente que, para quem não é leitor de Herbert, deve tratar-se um filme bem indigesto e difícil de acompanhar. Possuo duas versões em DVD: uma traz o filme original, só que em formato fullscreen (tela de TV); a outra é uma edição estendida, que inclui 40 minutos de cenas que haviam ficado de fora da primeira versão  o que aumenta a já considerável duração original do filme para formidáveis 176 minutos , além de um prólogo com imagens estáticas e narração, falando sobre o Jihad Butleriano e sobre as origens da ordem Bene Gesserit. Esse é widescreen (tela de cinema). Curiosamente, essa última versão credita um tal Alan Smithee como diretor ao invés de David Lynch, o que acho um fato bem estranho. Mais recentemente, em 2001, o Sci-Fi Channel exibiu uma nova adaptação do livro, sob a forma de uma minissérie em três capítulos, dirigida por John Harrison, com William Hurt como o duque Leto e o (para mim) desconhecido Alec Newman no papel de Paul. Parece que essa produção foi mais bem-sucedida, pois teve uma sequência, outra minissérie lançada em 2003, Children of Dune, que cobria o segundo e o terceiro volumes da saga, que são O Messias de Duna e Os Filhos de Duna. Essas duas minisséries eu ainda preciso ver.

Duna rendeu ainda videogames, jogos de computador, e, como costuma acontecer com as grandes sagas épicas da literatura, chamou a atenção das bandas de heavy metal, inspirando pelo menos duas canções: To Tame a Land, do Iron Maiden, que está no álbum Piece of Mind, de 1983, e Traveler in Time, dos alemães do Blind Guardian, no álbum Tales from the Twilight World, de 1990.

Um comentário:

Gilberto Dayrell disse...

ótimo Livro!!! Quero ver esse filme!