sexta-feira, maio 19, 2017

Westworld

Li em algum lugar (caramba, como eu repito essas palavras!) que Westworld foi aprovado para produção como uma aposta para tentar resolver um problema bem prático que o HBO estava tendo: a "sazonalidade" de muitos de seus assinantes, atraídos por seu "produto" mais famoso, Game of Thrones. As pessoas faziam suas assinaturas quan­do estava para estrear uma nova temporada da série, cancelavam quando ela terminava, e só voltavam a as­sinar quando era anunciada a temporada seguinte – o que acarretava longos meses de vacas magras para o canal. As cabeças pensantes responsáveis pela programação decidiram, então, que o que o HBO precisava era de outra série superproduzida e com enredo viciante, que fosse capaz de manter os espectadores interessados durante os longos hiatos entre uma e outra temporada de GoT.

(Pelo menos, essa é a versão que li: se por acaso não for bem assim, agradeço se alguém me corrigir. Pessoalmente, não tenho TV por assinatura, vejo essas séries depois, por meio da internet ou em DVD, então não acompanhei as coisas em tempo real.)

A história escolhida foi Westworld, criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy, e o HBO acertou em cheio: estamos falando de uma das melhores e mais criativas tramas de ficção científica em mídia audiovisual (quer dizer, cinema ou TV) vistas em muito tempo. O conceito da série foi reaproveitado de um filme de 1973, roteirizado e dirigido por Michael Crichton, autor, entre muitos outros, de Jurassic Park, Congo, Linha do Tempo e O 13.° Guerreiro. O plot, por sinal, apresenta um parentesco visível com o de Jurassic Park, pois também gira em torno de um parque temático que oferece atrações únicas e inigualáveis, criadas por uma tecnologia revolucionária… E tecnologias revolucionárias, como sabemos, costumam acarretar dois problemas. Primeiro, elas atraem cobiça: há sempre concorrentes dispostos a tudo para pôr as mãos nesses segredos. Segundo, e mais grave, elas ainda não foram suficientemente estudadas e testadas, não se tem como prever as situações complexas e potencialmente perigosas que podem surgir quando essas tecnologias forem postas em uso prático – e, mesmo assim, elas são postas em uso, porque quem financiou as pesquisas quer ver retorno sobre o que foi investido. Como resultado, em Westworld, tal como em Jurassic Park, alguma coisa fatalmente vai dar errado, pois, caso contrário, não haveria história.

Num futuro próximo, o parque que dá nome à série recria o Velho Oeste americano, tal como ele ficou plasmado na imaginação popular, graças, principalmente, ao cinema. Os visitantes recebem roupas de época, os acessórios necessários, e chegam à cidadezinha de Sweetwater, no centro do parque, a bordo de um trem a vapor igual aos do século XIX. E é lá que têm o primeiro contato com aquilo que é a verdadeira atração de Westworld, seu diferencial em relação a vários outros parques: todos os personagens que alguém esperaria encontrar num lugar assim estão lá, mas não são interpretados por atores – caso no qual a interação deles com os hóspedes teria que respeitar certos limites, impostos pela segurança e pelo decoro. Em Westworld, os personagens do faroeste são androides, com cérebro eletrônico, mas corpo orgânico, tão perfeitos que é impossível distingui-los de seres humanos de verdade, e, com eles, os hóspedes podem interagir da maneira que quiserem. Qualquer maneira. É como se fosse um MMORPG, só que em live action. No linguajar dos funcionários do parque, os androides são chamados de hosts, algo como 'anfitriões', em contraposição aos guests, ou hóspedes. Os hosts se referem aos hóspedes como newcomers, que, na dublagem, foi traduzido (um tanto literalmente demais, na minha opinião) como 'recém-chegados'; eu teria usado 'forasteiros', uma tradução mais livre, mas com mais sabor de faroeste.


Certo: o que se espera de um hóspede equilibrado e saudável é que ele vá a Westworld buscando viver aventuras, coisa que o parque está preparado para oferecer como talvez nenhum outro lugar o faça. E é o que muitos realmente buscam, e encontram. Só que, é claro, nem todo mundo é equilibrado e saudável. Muitos vão lá porque a ideia de poderem fazer o que quiserem com criaturas que se parecem em tudo com seres humanos é simplesmente tentadora demais para que resistam. O leque de possibilidades inclui desde interagir com prostitutas de saloon aptas para intercurso sexual real, até a liberdade de, sem mais nem menos, sacar sua arma, matar um homem a tiros sem motivo algum, e berrar "Isso sim é que são férias!" – um lembrete sombrio de como a violência gratuita vem, mais e mais, tornando-se a ideia que as pessoas no mundo real fazem de diversão. Não se pode ter a menor dúvida de que, se um lugar como Westworld realmente existisse, muita gente iria lá só para isso, ou para coisas ainda piores.

Quem estiver me lendo sem ter ainda assistido à série deve estar se perguntando: e como é que um hóspede do parque sabe quem lá é host e quem é hóspede também? Pergunta pertinente. Com a maioria, é muito fácil, pois, mesmo em trajes de época, só faltam ter "turista" escrito na testa… Mas com alguns, é bem mais complicado: hóspedes que sejam verdadeiros aficionados do Velho Oeste, conhecedores de suas características e nuances, podem aparentar uma integração quase perfeita com o lugar. Por segurança, as armas fornecidas matam hosts, mas são inofensivas contra seres humanos – só não me perguntem como isso é possível. Mais importante ainda, os próprios hosts são programados para não ferir seriamente nenhum hóspede: no máximo você pode levar uns socos numa briga no saloon, mas nada que vá incapacitá-lo, e muito menos matá-lo. Daí decorre que, na prática, os hosts estão totalmente à mercê dos hóspedes, que ficam livres para agir de maneiras ainda mais selvagens que no Velho Oeste real. No nosso exemplo do sujeito matando outro a tiros sem motivo, no mundo real ele teria que se explicar ao xerife da cidade; em Westworld, o xerife até pode aparecer, mas isso só vai servir para tornar mais completa a diversão do bandido amador, já que, sendo um host, o xerife nada poderá fazer contra ele.

Como quase todo aparato sofisticado, os hosts são caros, e, por isso, são construídos de modo a que possam ser rebootados um número indefinido de vezes. Quando um deles "morre", é simplesmente consertado e, no dia seguinte, está pronto para outra; sua memória é apagada, restaurada de volta ao ponto em que ele ou ela possa voltar a cumprir seu papel, que pode ir de simples figuração até a função-chave de fisgar um hóspede para uma aventura: o parque oferece dezenas de narrativas para que o hóspede escolha em quais delas quer se envolver. A linda moça que deixa cair uma lata de conserva ao sair do empório local pode atraí-lo para uma trama romântica; o sargento bigodudo que conclama voluntários para o exército da União pode liderá-lo numa aventura militar ambientada na Guerra Civil; o velho caolho no saloon tem um mapa que pode ser o ponto de partida para uma surpreendente caça ao tesouro. E assim por diante. O mais extraordinário é que as narrativas acontecem, mesmo que nenhum hóspede esteja disponível ou interessado: os hosts interagem também uns com os outros, o tempo todo. Se, num determinado dia, nenhum hóspede estivesse no parque, mesmo assim o sargento não ficaria sem recrutas, nem as prostitutas sem clientes. Mais realista, impossível.

Quando a história da série começa, Westworld já opera há cerca de 35 anos; seu idealizador original foi o agora idoso Robert Ford (Anthony Hopkins – acredito que o sobrenome do personagem homenageie o legendário diretor de westerns John Ford), que, no entanto, não deu forma ao sonho sozinho. Tinha um parceiro, um sócio, Arnold Weber, cuja existência quase nunca é mencionada; de fato, só os funcionários mais antigos e inteirados da história do lugar sabem sobre ele. O que se comenta (sempre à boca pequena) é que Arnold morreu no parque, num acidente com um host – coisa que a atual administração afirma ser impossível, sendo a absoluta segurança de suas instalações um dos pontos principais de seu marketing.

Como seria natural, nos primeiros tempos os hosts eram mais simples, mais rudimentares, de construção mecânica, envoltos numa pele de borracha que oferecia uma semelhança apenas razoável de aparência humana; o padrão de corpo orgânico (na verdade, somente músculos e pele orgânicos sobre um esqueleto robótico) veio alguns anos depois. Recentemente, outro aperfeiçoamento importante está sendo implementado: uma série de upgrades no software que serve de sistema operacional aos cérebros dos androides. Um dos principais responsáveis por esses upgrades é Bernard Lowe (Jeffrey Wright, da saga Jogos Vorazes), chefe da divisão de programação do parque (que, lá, é chamada de divisão de "Comportamento"), um de seus funcionários mais antigos e discípulo direto de Ford. Lowe tem uma espécie de obsessão por melhorar a capacidade de improvisação dos hosts, que, embora programados, em linhas gerais, para agir de maneiras predeterminadas, são capazes de fazer pequenas adaptações por conta própria em suas falas e ações, coisa necessária para manter o nível de realismo quando interagindo com criaturas tão imprevisíveis quanto os seres humanos. Lowe considera que os hosts poderiam agir de forma cada vez mais realista caso pudessem aprender com a experiência – mas há um empecilho a isso: como já vimos, a cada reboot, eles têm sua memória recente apagada. Um host é capaz de tirar o chapéu amavelmente na rua principal de Sweetwater para o mesmo hóspede que o "matou" na véspera, e isso é essencial tanto para que as narrativas sigam seu curso adequadamente, quanto por razões de segurança. Lowe, entretanto, parece disposto a correr um certo risco em prol de seu objetivo, e fecha os olhos a algumas pequenas ações inesperadas de seus hosts… Só que o inesperado não se mantém "pequeno" por muito tempo. Westworld (e agora falo da série, não do parque) lida com um dos fatos mais preocupantes a respeito do desenvolvimento da inteligência artificial, que já está dando seus primeiros sinais em nossos dias: quanto mais complexo um ser se torna (seja ele biológico ou artificial), mais difícil fica prever suas atitudes, e por consequência, controlá-lo. E não fica apenas nisso: alguns hosts (ao que parece, os que passaram por experiências especialmente traumáticas) começam a ter lampejos de suas "vidas" (e mortes) anteriores, e, a partir disso, a questionar a verdadeira natureza de suas existências. Gradualmente, o espectador vai compreendendo que os hosts não são meras simulações: sua inteligência artificial atingiu um nível que fez deles seres autoconscientes, embora aprisionados num ciclo de existência fechado e imutável… Sendo assim, usá-los como brinquedos é moralmente inaceitável, e isso foi o pomo da discórdia entre Weber e Ford naqueles primeiros tempos. Como essa discórdia os afetou e ao que conduziu, eu estaria dando spoiler se contasse.

Westworld, a série, transcorre em dois ambientes: o parque propriamente dito e seus bastidores. Tal como o parque faz com seus hóspedes, a série faz com que nós, espectadores, esqueçamos que aquilo tudo é um jogo: há trechos que empolgam tanto quanto cenas de um bom filme western "de verdade". No parque, a história acompanha dois jovens hóspedes, Logan (Ben Barnes, de O Retrato de Dorian Gray) e William (Jimmi Simpson); Logan é filho do diretor-presidente da megaempresa Delos, que está em vias de adquirir o controle acionário de Westworld, e William, um executivo em ascensão na empresa e prestes a casar-se com a filha do diretor, irmã de Logan. O primeiro é um habituée do parque e um playboy de marca maior, que vai lá pelo mesmo motivo pelo qual parece fazer tudo o mais em sua vida: atrás de prazeres. William, por outro lado, está em Westworld pela primeira vez, e, por alguma razão, parece um tanto relutante, tendo concordado com a viagem mais pela insistência do futuro cunhado. Os dois acabarão aprendendo muito um sobre o outro, e sobre si mesmos. Há também um misterioso "Homem de Preto" de nome não revelado, que diz frequentar Westworld há 30 anos e se dedica com afinco a duas coisas: praticar maldades aparentemente aleatórias contra os hosts e procurar por um igualmente misterioso "labirinto", que parece esconder os segredos mais recônditos do parque, aqueles dos quais os hóspedes comuns nem fazem ideia.

Enquanto isso, debaixo do parque, em suas vastas dependências subterrâneas, questões menos "humanas", mas não menos intrigantes, são tratadas, tendo como figuras principais Bernard Lowe, sua assistente Elsie Hughes (Shannon Woodward), o excêntrico e mal-humorado roteirista Lee Sizemore (Simon Quarterman) e a chefe do departamento de Qualidade, a calculista e ambiciosa Theresa Cullen (Sidse Babett Knudsen), que tem como missão na vida ser um eterno espinho na carne do pessoal da Criação e do Comportamento, cujo trabalho é encarregada de supervisionar. As partes ambientadas no parque apostam mais na ação, já aquelas dos bastidores nos introduzem numa trama intrincada, muitas vezes narrada de forma não-linear: quando somos convidados a ver os acontecimentos através do ponto de vista de um host, principalmente, torna-se difícil dizer o que é realidade e o que não é, pois lembranças artificiais são implantadas em sua memória para dar-lhes background e torná-los personagens mais convincentes; mais ainda, é difícil saber o que está acontecendo agora e o que aconteceu anos ou décadas atrás, pois, sendo criaturas que não envelhecem, e por causa do constante apagar e regravar de memória, os hosts não têm noção da passagem do tempo. Graças a isso, a não-linearidade também se estende para as cenas do parque. Uma das principais personagens é Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), a linda filha de um rancheiro dos arredores de Sweetwater (ela é a moça da lata de conserva), e, por acompanharmos a história, ou um lado dela, pelo seu ponto de vista, acabamos tendo uma enorme e desconcertante surpresa perto do final da primeira temporada… Assistam para saber do que se trata.

Estejam avisados: Westworld não é uma daquelas séries concebidas para proporcionar momentos de relax mental (em bom português: a nos liberar durante uma hora da obrigação de pensar. Vocês terão que estar dispostos a pôr os neurônios a trabalhar, caso pretendam entender alguma coisa da trama. Entendê-la por completo, eu acho quase impossível, e talvez o mais importante nem seja entender, e sim tomar a iniciativa de questionar elementos da nossa realidade que sempre consideramos certos, imutáveis, pétreos – começando pelo que, diabos, é essa tal "realidade", afinal de contas. E, por mais que exija esforço, podemos dizer, sem medo de errar, que o HBO conseguiu o que pretendia: é uma trama, sem dúvida alguma, viciante.

No filme original, Westworld era um de três parques administrados pela Delos – nome que, por sinal, pertence a uma ilha grega, suposto local de nascimento dos deuses gêmeos Apolo e Ártemis, filhos de Zeus com a titânide Leto; não consegui estabelecer a relação entre isso e o conceito do filme ou da série. Talvez Crichton tenha simplesmente gostado da sonoridade. Enfim, dizia eu, no filme havia dois outros parques, sendo um inspirado na Idade Média europeia, o outro no Império Romano. Na primeira temporada da série, há menções fugidias ao fato de Westworld fazer parte de um complexo de seis parques, mas só é revelada alguma coisa sobre os outros (na verdade, sobre apenas um deles) no último episódio da temporada, quando alguns personagens invadem um laboratório de criação que ainda não havia sido mostrado e encontram ali hosts caracterizados como samurais, o que significa que um dos outros parques deve ter como tema o Japão feudal. Há boatos circulando na internet de que os produtores da série estariam em tratativas com George R. R. Martin a respeito da possível introdução, em futuras temporadas de Westworld, de tramas ambientadas num parque inspirado em Game of Thrones… Caramba! Se as pessoas já vão a Westworld procurando por sexo e violência, imagine o que fariam em… "Westerosworld"?!? Se os boatos forem verdadeiros, e se os roteiristas conseguirem pensar em uma boa história, será com certeza empolgante ver rolar esse crossover entre duas das séries mais aclamadas do HBO em todos os tempos.

sexta-feira, abril 14, 2017

O Resgate das Águias

Cinco anos se passaram desde a traição de Armínio, que levou três legiões romanas à destruição na floresta de Teutoburgo. Como ele esperava que acontecesse, Roma não fez novas tentativas de estabelecer bases permanentes na margem oriental do Reno, mas fortaleceu suas posições na margem ocidental e, com toda a certeza, não se esqueceu da humilhação sofrida. Armínio esperava por isso também, e, embora ele próprio não possa transpor o rio – se o fizesse, seria um homem morto, em menos tempo do que leva dizê-lo –, não deixou de enviar regularmente espiões, que percorrem as ruas das cidades romanas da Germânia, ouvem a conversa dos legionários nas tabernas, e coisas assim. Graças a isso, ele sabe dos planos do imperador Augusto de tentar retomar o território perdido e punir exemplarmente as tribos que se rebelaram, e está fazendo seus próprios planos para que a "Germânia Livre" esteja preparada quando esse dia chegar, o que agora parece estar muito perto. Nesse período de cinco anos, Armínio tem levado a vida normal de um homem das tribos na Germânia, muito diferente da do oficial romano que ele já foi. Sucedeu ao pai como chefe da tribo dos Cherusci e casou-se com a bela Tusnelda, filha de Segestes – um chefe tribal leal a Roma, que inclusive tentou, inutilmente, alertar o governador Varo sobre a traição planejada por Armínio; como é fácil imaginar, o convívio entre genro e sogro não é dos mais tranquilos. As articulações de Armínio para ampliar seu poder até tornar-se uma espécie de rei (coisa que os germanos, divididos em tribos, nunca tiveram) ainda não deram frutos, mas ele não tem pressa.

Corre o ano 14 d. C. e Augusto ainda é o imperador, mas é agora um homem bastante idoso, tendo governado por mais de 40 anos. Como não tem filhos homens, nomeou como herdeiro o enteado, Tibério, que, também sem descendência masculina, por sua vez adotou o sobrinho Nero Cláudio Druso Germânico, filho de seu falecido irmão de mesmo nome. Germânico, portanto, já era o segundo na linha de sucessão ao trono quando assumiu o cargo de governador da Germânia, terra onde seu pai alcançou glória no campo de batalha e fez jus ao agnomen que lhe legou, embora seja mais correto dizer que o que ele realmente assumiu foi o governo da pequena parte da Germânia que Roma ainda controlava. Sua posse ocorreu no ano 13, mas O Resgate das Águias começa com um prólogo ambientado em 12, quando foi celebrado em Roma um triunfo em honra de Tibério, por suas vitórias na Ilíria. É aí que vamos reencontrar Lúcio Comênio Tulo, o protagonista de Águias em Guerra.

Apesar de seu comportamento heroico durante a malfadada batalha da floresta de Teutoburgo (se é que dá para chamar aquilo de batalha), Tulo, como a maioria dos sobreviventes, caiu em desgraça. No caso dele, isso se deu, principalmente, devido às maquinações de seu desafeto Lúcio Túbero, que também sobreviveu, mas, ao contrário dele, ficou bem na "foto", ocupando agora, aos 22 anos, o posto de legado, comandante de uma legião. Túbero conseguiu que Tulo fosse rebaixado de posto: anteriormente primus pilus de uma coorte, ele é agora um centurião comum, tendo sido realocado na Quinta Legião, junto com os soldados que conseguiu salvar. Muitos de seus novos colegas oficiais o respeitam, mas alguns – em especial os centuriões de patentes superiores à sua – gostam de fazê-lo alvo de chacota porque, de toda uma coorte, só conseguiu salvar 15 homens… Sendo que, se eles soubessem quais eram as condições em Teutoburgo, perceberiam que até mesmo isso foi um feito admirável.

(Para os raros mas obstinados nerds de história militar: a Quinta Legião aí referida é a própria Legio V Alaudae, 'Quinta Legião das Cotovias', em tradução literal. Formada por Júlio César na Gália, em 52 a. C., ela ganhou esse nome por causa dos penachos em estilo gaulês que os soldados usavam nos elmos nos primeiros tempos, e que lembravam o penacho do pássaro. Já seu emblema, um elefante, foi ganho após a batalha de Tapsos, em 46 a. C., na qual a Quinta enfrentou com sucesso uma carga de elefantes de guerra númidas. Não deve ser confundida com a Legio V Macedonica.)

Os historiadores registraram que os romanos que foram capturados vivos pelos germanos na floresta de Teutoburgo, e posteriormente libertados em troca de resgate, ficaram marcados pela desonra, e foram proibidos pelo imperador, sob pena de morte, de pisar na Itália durante o resto de suas vidas. Para seus objetivos literários, o autor Ben Kane estendeu a mesma proibição a todos os sobreviventes de Teutoburgo, mesmo aqueles (poucos) que escaparam sem terem sido capturados, como Tulo e seus homens. Portanto, ele e seu segundo em comando, Marco Fenestela, estão correndo um enorme risco quando decidem ir a Roma assistir ao triunfo – provavelmente o mais grandioso espetáculo que um cidadão romano da época podia esperar ver ao longo de sua vida, algo que, visto na infância, ainda era lembrado e contado na velhice. Esperam não ser reconhecidos por ninguém, mas Germânico, com outros generais, está acompanhando Tibério em seu triunfo…

Um dos motivos para que Germânico seja adorado por seus soldados é sua capacidade de olhar para cada um deles como indivíduo, não como um simples número que engrossa suas tropas, e parece que tal fama é merecida, pois, de seu lugar na procissão triunfal, ele avista Tulo, com quem se encontrou na Germânia anos antes – e o reconhece, mesmo em trajes civis e no meio de uma multidão de espectadores. O mais importante, porém, é que Germânico não o denuncia como "deveria" fazer. Numa conversa que os dois têm mais tarde, ele elogia Tulo pelo que fez em Teutoburgo e diz que precisará de homens como ele para concretizar seu plano de vingar o massacre e recuperar as águias perdidas da Décima Sétima, Décima Oitava e Décima Nona legiões, que caíram nas mãos dos germanos e devem agora estar ornamentando como troféus os salões de diferentes chefes tribais. Para Tulo, que só vive pela esperança de ter a chance de fazer justamente isso, a fim de restaurar sua honra, essa promessa é um presente dos deuses.

E é assim que, dois anos depois, Tulo e Fenestela, assim como o restante dos soldados da Quinta e das outras três legiões locais, estão esperando pela chegada de Germânico. Quando ele por fim chega, entretanto, não pode dedicar-se imediatamente ao plano de punir os germanos e recuperar as águias, tendo primeiro que lidar com uma insurreição entre suas próprias tropas: parte dos soldados estão insatisfeitos por não terem seus soldos reajustados há muitos anos, e pelo fato de alguns deles já terem passado há muito do prazo regular para se reformarem, e mesmo assim não serem dispensados. A coisa já passou do estágio dos protestos verbais: os revoltosos tomaram o controle dos acampamentos e assassinaram vários oficiais contra os quais tinham queixas já antigas – e, é claro, seja qual for o desfecho das negociações, os homens que fizeram isso não podem ser deixados impunes. Isso coloca Tulo, junto com outros oficiais e soldados que se mantiveram leais, numa das situações mais repulsivas que um legionário romano poderia imaginar: a de receber a ordem de matar um camarada. Essa insurreição é histórica, e é mencionada também em Eu, Claudius, Imperador, de Robert Graves, mas aparece com bem mais detalhes aqui, provavelmente porque O Resgate das Águias é narrado sob o ponto de vista de um oficial das legiões da Germânia, que está lá e vê tudo acontecer, enquanto, no livro de Graves, o narrador é Cláudio, irmão de Germânico – um intelectual que mora em Roma, de modo que só sabe do caso através de informações de segunda ou terceira mão. Aquele movimentado ano 14 é marcado, ainda, pela morte de Augusto, sucedido por Tibério, com Germânico precisando esfriar o ânimo de suas legiões, que querem que ele derrube o tio e se faça, ele próprio, imperador.

Superadas todas essas turbulências, Germânico decide aproveitar o desusado bom tempo daquele outono para atravessar o Reno com suas quatro legiões, reforçadas por tropas auxiliares gaulesas e germânicas (das poucas tribos germanas ainda leais a Roma, claro está) e cair sobre um punhado de aldeias habitadas pela tribo dos Marsi, uma das que se juntaram ao exército de Armínio cinco anos antes. Quando as legiões romanas atacavam com ordens para riscar do mapa uma cidade ou aldeia, o procedimento padrão era matar todos os homens; mulheres e crianças normalmente eram poupadas, mesmo que fosse só para passarem o resto da vida como escravas. Desta vez, porém, as ordens são mais duras ainda: ninguém deve sobreviver – ninguém mesmo. A ideia é que fique absolutamente claro que não haverá misericórdia para os que se aliaram a Armínio. A narração do ataque aos Marsi é tanto mais perturbadora por se parecer muito com a do ataque dos Usipeti às aldeias sob proteção romana no livro Águias em Guerra: o leitor fica se perguntando onde foi parar a distinção entre barbárie e civilização, que os romanos pareciam prezar tanto. A verdade é que, como dizia Conan numa história que li certa vez, a guerra nunca é civilizada. É claro que, para Tulo, assim como para qualquer homem decente, a necessidade de chacinar mulheres e crianças é encarada com repugnância… Só que, como em qualquer grupo numeroso, não se pode esperar que todos no exército sejam decentes, de modo que é muito difícil impedir que estupros e outras crueldades desnecessárias aconteçam.

Seja como for, o "recado" é entendido por Armínio, que não perde tempo em, mais uma vez, chamar às armas as tribos germânicas, encorajando-as a deixar temporariamente de lado as rixas que têm umas com as outras para enfrentarem juntas o contra-ataque romano. Para se prepararem, os germanos dispõem do restante do outono, bem como do inverno de 14-15, já que, depois dessa investida rápida contra os Marsi, que estavam mais próximos, os romanos só poderão dar sequência à campanha na primavera.

O que o chefe dos Cherusci não esperava era receber um golpe tão doloroso: uma expedição furtiva liderada por Tulo e por seu próprio irmão, Flavo (que era um dos germanos leais a Roma) consegue penetrar em sua aldeia durante sua ausência, resgatar Segestes, que ele estava mantendo prisioneiro, e, o pior de tudo, raptar Tusnelda, grávida de seu primeiro filho. Por algum tempo, chega a parecer que os romanos vão conseguir exatamente o que esperavam com isso: desestabilizar o chefe germano, levá-lo a agir de forma precipitada e fazer alguma bobagem, mas, depois de se entregar a uma fase de desespero e bebedeira, Armínio se recupera o suficiente para retomar o complicado trabalho de coordenar as tribos para que ajam juntas contra o inimigo. Daí para diante, os capítulos se revezam entre os esforços de Armínio com esse objetivo e a narração da campanha romana, sob o ponto de vista de Tulo. As partes que narram as reuniões de Armínio com outros chefes evidenciam bem aquilo que foi, historicamente falando, a única coisa que o impediu de causar danos ainda maiores ao Império Romano: o zelo quase paranoico com que cada tribo germânica fazia questão de manter sua independência em relação a todas as demais, e a consequente fragilidade de qualquer aliança entre elas. Armínio sabe que é o mais preparado de todos os chefes, porque viveu entre os romanos, foi treinado para ser um oficial do exército imperial, aprendeu suas táticas e seu modo de pensar, mas os outros não gostam nem um pouco de sua tendência a querer mandar em tudo e a agir como se fosse o único ali com capacidade para liderar um exército contra os romanos, embora o seja. Suas ambições reais não passam despercebidas aos olhos de alguns mais perspicazes, que não perdem a oportunidade de lembrá-lo de que, ali, ele é apenas o que seus inimigos romanos chamariam em latim de primus inter pares ('primeiro entre iguais'), e, mesmo isso, somente em caráter provisório. A lealdade de cada chefe nunca pode ser tida como certa, e precisa ser ganha repetidamente, mais vezes por meio de bajulação que de boas ideias ou liderança inspiradora, o que leva Armínio a ter inveja dos generais romanos, que têm assegurada por juramento a obediência de seus soldados e oficiais, sendo que qualquer insubordinação é considerada traição.

O Resgate das Águias não fica devendo nada a Águias em Guerra nos quesitos tensão, ação, atmosfera, reconstituição histórica ou personagens convincentes, provando ser uma sequência perfeitamente condigna para seu antecessor. A Trilogia das Águias de Ben Kane é um prato cheio (e apetitoso!) para os fãs da Antiguidade, mais especificamente do Império Romano, e, mais especificamente ainda, das legiões. Há poucos livros tão bons em fazer você se sentir como se estivesse marchando por um território hostil, com uma cangalha de madeira sobre os ombros contendo 30 quilos de equipamento, um elmo fazendo correr suor pelo seu rosto, e a consciência de estar sendo observado por hordas de bárbaros desgrenhados escondidos no mato, que o matarão com o maior prazer na primeira oportunidade que tiverem. As legiões me fascinam, sem dúvida, mas só como objeto de estudo: não lamento nadinha o fato de não ter feito parte de uma!… Era uma vida dura e brutal. O século XXI tem muitos defeitos, mas também tem vantagens suficientes para que eu prefira estar aqui, confortavelmente instalado na minha poltrona, e apenas ler sobre as façanhas e as provações daqueles bravos soldados. Sendo assim, que bom que temos Ben Kane! Ave atque vale.

domingo, março 26, 2017

Ed & Lorraine Warren: demonologistas

Os nomes de Edward e Lorraine Warren são há muito conhecidos por todos os que se interessam pelo estudo dos fenômenos sobrenaturais – e, nos últimos anos, também pelos que não perdem um blockbuster hollywoodiano de terror, pois Invocação do Mal tornou-se uma franquia que já conta com dois filmes oficiais e um spin-off, Annabelle, que é a respeito da boneca demoníaca que aparece rapidamente no primeiro filme. Entretanto, como em todo assunto do qual se apossa (epa!), Hollywood acrescentou um bocado de pirotecnia, enxertou mais drama, mais cenas de ação rápida, e fez tudo parecer muito mais simples do que realmente é; por isso, entre outros motivos, este livro é recomendável. Ele traça um panorama das quase cinco décadas da carreira dos Warren como investigadores de fenômenos ocultos e fornece um resumo de alguns de seus casos mais ilustrativos (incluindo o de Annabelle). O resultado é uma leitura para lá de inquietante – menos intensa que uma história de Stephen King, talvez, mas com probabilidades muito maiores de fazer você ter vontade de dormir com a luz acesa, pelo simples motivo de que o que King escreve, em princípio, é ficção… Já as histórias dos Warren são apresentadas como verídicas.

Ed Warren, que faleceu em 2006, foi o único exorcista não ordenado reconhecido pelo Vaticano em toda a história; na verdade, chegou a ser solicitado a ajudar no treinamento de padres exorcistas. Lorraine possui poderes mediúnicos e, hoje, aos 90 anos, ainda profere palestras e administra o museu que montou com o marido, e que é, ao mesmo tempo, uma espécie de depósito de lixo radioativo: ele reúne uma vasta variedade de objetos amaldiçoados, ligados aos casos que investigaram. Segundo o casal, muitos deles só precisariam ser tocados por uma pessoa desavisada para desencadear consequências funestas em sua vida. No primeiro Invocação do Mal, ao ser questionado se não seria melhor simplesmente queimar esses objetos, Ed explica que isso só destruiria o receptáculo, e que, às vezes, é mais seguro manter o gênio dentro da garrafa.

Segundo seus amigos e biógrafos, Ed era um homem bem-humorado por natureza, e cuja calma era difícil abalar. Uma das poucas coisas capazes de irritá-lo era quando alguém (geralmente no momento perguntas-e-respostas, durante as palestras que ele e Lorraine faziam) iniciava seu aparte esclarecendo, a priori, que "pessoalmente, não acreditava no sobrenatural", ou coisa parecida – o que, para bom entendedor, significava que, para tal pessoa, tudo o que os Warren acabavam de dizer não passava de baboseira. Na visão de Ed, não existem pessoas que acreditam ou não no sobrenatural: o que existe são pessoas que já tiveram a prova de que o sobrenatural é real, e pessoas que ainda não a tiveram. A questão não se presta a "achismos": mostrar-se cético a respeito da lei da gravidade não vai poupar você de nenhum tombo. É fácil demais uma pessoa sem nenhuma experiência na matéria sentar-se num auditório bem iluminado, cheio de gente, movimento e normalidade, e dizer que não acredita no sobrenatural, mas Ed, na certa, gostaria de saber o que tal pessoa diria se tivesse visto o que ele e Lorraine viram em apenas um ou dois das centenas de casos que investigaram.

Gerald Brittle, organizador do livro, conduziu muitas das entrevistas que aparecem nele, e selecionou e editou as demais, além de ter selecionado também, junto com os Warren, quais os casos que seriam detalhados a título de ilustração (a publicação original é de 1980, quando o casal estava em plena atividade; parece que houve uma reedição nos Estados Unidos em 2002, e esta edição nacional é do ano passado). É preciso, primeiramente, separar algumas coisas que a mídia costuma apresentar embaralhadas. Ed Warren, em algumas entrevistas, mostra-se bastante enfático ao aproveitar a oportunidade aberta por certas perguntas para separar o que é pesquisa parapsicológica do que é pesquisa de fenômenos ocultos. Geralmente, o mesmo tipo de ocorrência acaba sendo investigado por pesquisadores dos dois campos, mas cada um possui um enfoque muito diferente. O parapsicólogo, embora vinculado a um ramo ainda pouco tradicional da ciência, opera a partir dos pressupostos desta última – e o primeiro pressuposto da ciência é que qualquer fato observado, não importa o quão incompreensível pareça à primeira vista, deve ter uma explicação natural. Já se sabe há algum tempo que a mente humana possui poderes latentes que podem ser ativados sob certas condições; a psicocinese, por exemplo, é a capacidade de mover objetos sem contato físico, muitas vezes de forma involuntária e até inconsciente – ou seja, uma pessoa pode causar tais fenômenos sem querer, e até sem saber que é ela quem está fazendo isso. Trata-se de algo que a ciência já sabe que é real, embora ainda esteja longe de conseguir explicar, e não há dúvida de que muitas ocorrências registradas em casas "assombradas", na verdade não eram mais que episódios de psicocinese. Porém, isso não se aplica a todos os casos, e a principal crítica de Ed aos parapsicólogos é que muitos deles, ao não conseguirem explicar determinados eventos, simplesmente os rotulam como fenômenos Poltergeist, ou coisa parecida, e param por aí – trazendo pouco alívio a quem está sendo atormentado em casa por forças espirituais hostis. É onde entram pesquisadores de outro tipo, como Ed e Lorraine.


Chegando a esse ponto, outra separação é necessária. Quando já se apurou que as perturbações num local, ou em torno de uma pessoa ou família, têm causas sobrenaturais, ainda é preciso determinar se são de origem humana ou inumana. Um espírito humano é o clássico fantasma: alguém que morreu, mas, por algum motivo, não "foi adiante"; geralmente trata-se do espírito de uma pessoa cuja morte foi marcada por violência, por sentimentos fortes e negativos, ou que morreu com a sensação de ter deixado pendente algum assunto que, para ela, era muito sério. Esses espíritos podem permanecer num lugar durante anos, décadas ou séculos; na verdade não têm consciência alguma da passagem do tempo, e muitas vezes até ignoram que estão mortos. De qualquer forma, e ainda que suas manifestações possam ser muito assustadoras, os fantasmas, segundo o casal Warren, são o tipo menos problemático de ocorrência sobrenatural. Em geral estão preocupados consigo mesmos; quando querem algo dos vivos, costuma ser atenção, ou até mesmo ajuda. É raro que tenham intenções malignas, e seus poderes são limitados. Muitas vezes, uma boa "conversa", do modo como isso for possível, é o suficiente para libertá-los e fazer com que sigam seu caminho no mundo espiritual, resolvendo o problema para todos. O outro tipo, o espírito inumano, é de longe muito pior. Trata-se de algo que "nunca caminhou sobre a terra em forma humana", e cujas intenções são invariavelmente malignas. Numa palavra, um demônio.

A boa notícia é que demônios não têm o poder de interferir diretamente na vida das pessoas, a menos que sejam convidados a isso; a má notícia é que eles são muito astutos e, não raro, conseguem achar subterfúgios para que as pessoas os convidem sem ter a menor noção do que estão fazendo. Coisas aparentemente inofensivas, brincadeiras com o oculto como a tábua Ouija (que em vários países possui versões industrializadas, vendidas em lojas de brinquedos feito um jogo de tabuleiro qualquer) ou o "jogo do copo" podem abrir uma porta que depois será extremamente difícil fechar – e pela qual podem passar coisas pavorosas além de qualquer descrição. Confesso que, quando comecei a ler os relatos dos casos neste livro, minha expectativa era a de que a coisa que me deixaria mais "passado" seria ver (mais um pouco) até que ponto as pessoas são capazes de ir para tentar moldar os acontecimentos à sua concepção de "realidade" – e não é que isso não apareça. É verdade que quem chegava ao ponto de procurar os Warren, geralmente já havia sido forçado a abandonar as tentativas teimosas de achar explicações "plausíveis", mas não antes de muito sofrimento e de perder um tempo precioso. Mas houve outra coisa que me rachou a cara ainda mais: ver até que extremos pode chegar a estupidez de algumas pessoas, como a senhora do "Caso Foster", que simplesmente deu um livro sobre conjuração de demônios como presente de Natal à filha adolescente "interessada em ocultismo". Tudo bem que ter curiosidade sobre essas coisas é natural a muitas pessoas, talvez até à maioria (eu não teria lido este livro se não tivesse alguma, e tenho a séria desconfiança de que vocês tampouco estariam aí me lendo se também não tivessem!), mas isso aí já é colocar uma arma carregada e destravada nas mãos de uma criança, e o fato de a mãe "não acreditar" que a munição dentro da arma pudesse ferir alguém não impediu as consequências catastróficas que se seguiram. Detalhe: na época em que Ed & Lorraine Warren foi publicado, ocultismo e feitiçaria eram muito populares nos Estados Unidos, tanto quanto o são hoje, principalmente entre os jovens; livros e revistas sobre o assunto eram muito fáceis de achar, e não eram só edições dando informações de caráter geral, para quem tinha uma mera curiosidade de fã de terror: havia também as que traziam instruções passo a passo para realizar qualquer tipo de ritual que vocês imaginarem. Para comprar a Playboy, você tinha que apresentar documento para provar que era maior de idade; já para comprar um manual de feitiçaria que poderia ferrar por completo sua vida e a da sua família, isso não era necessário. Não que hoje em dia seja melhor, é claro: se a oferta de publicações (impressas) desse tipo diminuiu, foi só porque agora está tudo na internet. Há outros casos citados como exemplos, alguns deles de pessoas que foram em busca de envolvimento com o oculto sabendo o que faziam (ou, mais provavelmente, achando que sabiam), na esperança de conseguir algo que desejavam – e que acabaram, da mesma forma como as outras, precisando da ajuda dos Warren para ter uma chance de sobreviver ao assalto de forças invisíveis que aproveitaram a porta aberta e pareciam decididas a aniquilá-las, fosse emocional ou fisicamente, ou de ambas as formas.

Mais dos ensinamentos de Ed: um caso clássico de ataque demoníaco tem três fases – infestação, opressão e possessão. A infestação é o período no qual o espírito, ou espíritos, estão se instalando; e, como tais seres são grandes estrategistas, sempre sabem quando é melhor (para eles, é claro) fazê-lo de forma silenciosa, ou já se anunciando por meio de pequenos fenômenos destinados a causar um início de inquietação e medo. Durante o período da opressão, passam a ocorrer fenômenos agressivos e assustadores, como objetos levitando e voando pela casa, som de vozes, passos e respirações, odores repugnantes vindos de lugar algum, batidas em portas e paredes, aparecimento de vultos – podendo, com o tempo, descambar para agressões físicas diretas, tudo com o objetivo de enfraquecer e minar a força de vontade da pessoa ou pessoas sob ataque, deixando-as no estado ideal para a terceira fase: a possessão, na qual o corpo da pessoa passa a ser aparentemente controlado por uma vontade maligna, alheia à sua. A simples ideia é de gelar o sangue, imagine-se como seria testemunhar tal coisa, ou, pior, passar por ela.

"(…) Embora a possessão ou o pandemônio tenha sido testemunhado em primeira mão, as pessoas geralmente não conseguem aceitar o fato de que forças invisíveis de natureza sobrenatural foram as reais causadoras do caos. A sociedade é, em parte, responsável pelo problema, é claro. As pessoas têm sido metodicamente ensinadas a não acreditar em fantasmas, espíritos e forças sobrenaturais porque se supõe que essas coisas sejam 'irracionais'. Na minha opinião, fechar a mente ao conhecimento é que é irracional. No aconselhamento, as pessoas precisam desaprender a percepção estreita da vida que lhes foi ensinada, e, então, serem expostas ao fato de que o mundo é um lugar muito mais complexo e sério do que elas foram levadas a acreditar." (Lorraine Warren)


Além de narrar casos em que os Warren atuaram diretamente, o livro inclui as análises deles a respeito de outros fenômenos conhecidos do mesmo tipo, inclusive o caso da estudante alemã Anneliese Michel, que acredita-se ter vivido um calvário que durou três anos, até finalmente falecer em 1976, e cujos pais foram levados a julgamento sob a acusação de negligência, por terem, supostamente, decidido suspender o tratamento médico para procurar a ajuda de um padre exorcista, o qual também foi julgado. A história de Anneliese, numa versão hollywoodizada, é claro, está em O Exorcismo de Emily Rose, que, apesar da americanização forçada e da mistura insólita de terror com filme de tribunal, não deixa de ser uma boa dica.

O sobrenatural é um campo no qual cada um terá suas próprias convicções, e será necessariamente a partir delas que Ed & Lorraine Warren deverá ser lido; só posso adiantar que, a menos que você seja um cético empedernido (o que, a meu ver, não é melhor que ser um crédulo ingênuo), achará estas histórias difíceis de ignorar, assim como as asserções sólidas e lógicas, sempre bem embasadas, expostas pelo casal nas entrevistas. Pessoalmente, não tenho dúvida de que há no universo muita coisa invisível, intangível, e nem por isso menos real, e de que pretender reduzir tudo ao plano da matéria é uma forma de cegueira voluntária. Como diz Lorraine, não deveríamos fechar a mente ao conhecimento apenas porque ele não parece se encaixar nos ditames daquilo que fomos treinados para considerar crível. Além disso, ter ciência de que mexer com tais coisas pode ter consequências muito graves talvez ajude algumas pessoas a pensar duas vezes antes de se meterem com algo de que depois se arrependam.

Aproveitando a oportunidade, quero registrar um elogio ao trabalho que o selo Darkside vem fazendo, publicando uma ampla variedade de livros (muitos deles, títulos não óbvios) destinados aos interessados em terror, suspense e sobrenatural, em caprichadas edições de capa dura e com um visível esforço para oferecer uma boa qualidade editorial: coisas assim há muito andavam fazendo falta nas livrarias nacionais. Esperemos que continuem a surgir.

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

O Senhor das Moscas

Eu não ligo mais para esse mundo
Eu só quero viver minha própria fantasia.
O destino nos trouxe a estas praias
O que tinha que ser agora está acontecendo.

Eu descobri que gosto desta vida em perigo
Viver no limite nos faz sentir como um só.
Quem liga agora para o que é certo ou errado, isto é a realidade.
Matando nós sobrevivemos, onde quer que possamos vagar,
Onde quer que possamos nos esconder, temos que fugir.

Eu não quero que a existência termine.
Nós devemos nos preparar para os elementos.
Eu só quero sentir que somos fortes
Nós não precisamos de um código de moralidade.

Eu gosto de toda essa emoção misturada e raiva
Isso traz à tona o animal,
o poder que você pode sentir.
E sentindo-nos tão altos com toda essa adrenalina
Excitados, mas assustados de acreditar no que nos tornamos.

Santos e pecadores
Algo dentro de nós
Nós somos o senhor das moscas.

Santos e pecadores
Algo que nos quer
Para ser o senhor das moscas.


                                        Iron Maiden
                                        Lord of the Flies
                                        Álbum: The X Factor (1995)

*       *       *

Quando um livro atinge o status de clássico, seu autor ganha o raro privilégio da imortalidade: seu nome continuará a ser citado séculos e, em casos extremos, milênios depois de sua morte biológica. Em compensação, o livro, pela exposição e influência que passa a ter, vira objeto de inúmeros estudos, e, por consequência, fica sujeito a todo tipo de interpretação – muitas delas que, estou certo, deixariam o autor sem fala se lhe perguntassem a respeito. Por mais que eu ame o estudo da literatura, uma coisa que sempre me incomodou nele, pelo menos dentro do ambiente acadêmico, foi essa obrigatoriedade de sempre encontrar algum significado oculto ao analisar qualquer obra… Significados esses que, com toda a probabilidade, em sua maioria jamais passaram pela cabeça do autor. Uma vez que um livro passa a ser considerado um clássico, parece se tornar inconcebível a possibilidade de que, ao escrevê-lo, o autor quisesse dizer exatamente aquilo que disse, e nada mais que isso. Citando Stephen King, que, por sua vez, estava citando Bob Dylan, a explicação deve ser que, quando você tem muitos garfos e facas, é preciso cortar alguma coisa. Não que eu ache que O Senhor das Moscas seja um exemplo de livro que diz claramente tudo o que quer dizer: pelo contrário, ele sem dúvida apresenta diversas alegorias e metáforas, e lê-lo apenas como história de aventuras seria perder de vista seus aspectos mais interessantes. Apenas acho exagerado (forçado, se quiserem) ficar tentando ver nele tudo quanto é significado político, como já vi fazerem. A meu ver, é muito mais razoável interpretá-lo como um convite a refletir sobre a natureza do ser humano e sobre a sociedade, que, no fim das contas, é um desdobramento de nossa própria essência, já que interagir uns com os outros é uma parte indissociável da condição humana.

Para (tentar) ser mais claro, eu poderia dizer que sim, certamente há alegorias políticas em O Senhor das Moscas; porém, discordo de quem quer ver aí referências específicas: "Jack é Hitler", ou mesmo o nazifascismo de modo geral. Para mim, isso é, ao mesmo tempo, forçar uma interpretação e limitar o alcance da obra. Talvez, na verdade, eu veja O Senhor das Moscas como uma história que se presta melhor à aplicabilidade que à alegoria, conforme a diferença entre as duas é explicada por Tolkien: "Acho que muitos confundem 'aplicabilidade' com 'alegoria', mas a primeira reside na liberdade do leitor, e a segunda, na dominação proposital do autor."

Também já li em algum lugar que o tema deste livro, ou, ao menos, um de seus temas, é o do mal supostamente inerente ao ser humano – e essa ideia já é mais difícil de desprezar, considerando o título da obra: 'Senhor das Moscas' é a tradução literal de Ba'al Zebuth, nome de um deus cultuado pelos antigos fenícios e cananeus, e que era associado tanto à chuva e à fertilidade (quando de bom humor) quanto à morte, principalmente a morte pela peste (quando enfurecido), donde a ligação com as moscas. O nome dessa divindade chegou aos tempos modernos como Beelzebub em inglês, Belzebu em português, e formas parecidas nas outras línguas – e, em todas elas, é um dos inúmeros nomes do diabo da tradição judaico-cristã. Com um título desses, não parece forçado aceitar que se trate de um livro a respeito do mal.

Na história, é tempo de guerra. Não sabemos qual guerra, e isso não é relevante para seus fins. Ocorre que um avião transportando dezenas de estudantes ingleses é abatido por artilharia inimiga e cai numa ilha aparentemente desabitada do Pacífico; a maioria dos jovens passageiros escapa, mas nenhum membro da tripulação sobrevive, de modo que os garotos, com idades variando de seis a doze anos, estão por sua própria conta, sem qualquer adulto para ajudá-los, tampouco para lhes dizer o que fazer ou não fazer. Estão assustados, é claro, mas também empolgados, pois aquela situação oferece mais oportunidades para aventuras e descobertas do que eles normalmente teriam em toda a vida. Dois deles, Ralph e Porquinho, encontram uma grande concha que, quando soprada da forma adequada, produz um som potente que pode ser ouvido praticamente em toda a ilha, e que logo se torna o sinal de reunir. Os dois garotos são muito diferentes, mas, de certa forma, se completam: Ralph, por ser bonito e ter um talento natural para liderar, preenche o papel do herói no imaginário dos companheiros, e é logo eleito o chefe; Porquinho é gordo e tímido, mas claramente o mais inteligente ali. Pouco depois, entra em cena uma terceira figura proeminente, Jack Merridew, que lidera um grupo que costumava ser um coro, e que também viajava no avião. Por estar acostumado ao comando, Jack mostra-se disposto a rivalizar com Ralph pela liderança geral, mas, quando o outro é eleito por aclamação, parece, no começo, aceitar o fato; Ralph lhe permite conservar a liderança do coro, e os dois parecem estar formando uma amizade.


A primeira coisa sobre a qual O Senhor das Moscas nos leva a refletir (ou, ao menos, comigo foi assim) é o fato de que, por mais civilizados e sofisticados que nos tornemos, nada mudará a verdade básica de que a selvageria sempre será o estado natural do homem. Não é preciso muito para revertermos a ela – e, em se tratando de crianças, é preciso menos ainda. Em questão de semanas, os elegantes e bem-educados alunos de tradicionais instituições de ensino britânicas já estão lembrando mais uma tribo pré-histórica – quer pela aparência, quer pelo comportamento. Cansados de sua dieta de frutas do mato, os garotos voltam seus olhos para os porcos selvagens que habitam a ilha… Porém, muito mais determinante que a vontade de todos de comer carne é o forte desejo de Jack de experimentar aquelas sensações que apenas um caçador conhece: o "poder de impor sua vontade a uma coisa viva". Abater seu primeiro porco torna-se uma obsessão, e ele converte os antigos membros do coro num time de caçadores – que, aos poucos, também vão se adaptando a fazer as vezes de sua guarda pessoal, sendo leais antes a ele que a Ralph. O primeiro conflito sério acontece quando Jack e seu grupo retornam de sua primeira caçada bem-sucedida (depois de muitas tentativas falhadas), carregando um porco morto: para ir caçar, eles abandonaram a fogueira que todos haviam concordado em sempre manter acesa no topo de um morro, e ela se apagou. O objetivo da fogueira é chamar a atenção de algum navio que porventura passe próximo à ilha, o que é a única chance de serem resgatados. De fato, um navio apareceu – Ralph o viu. E passou direto, pois a fogueira estava apagada.

A partir daí, conforme vai acumulando sucessos na caça, Jack vai ficando cada vez mais disposto a desafiar a autoridade do líder; matar parece aumentar sua autoestima e diminuir sua inclinação para obedecer, seja às ordens de Ralph ou a regras de qualquer espécie. Esse espírito contagia primeiro o coro, e depois, gradualmente, alguns dos outros.

Cada um dos principais personagens de O Senhor das Moscas passa por sua própria jornada de crescimento, o que não quer dizer necessariamente um processo de melhoria, mas apenas o caminho inevitável de tornar-se aquilo que está destinado a ser. Ralph, por exemplo, aprende a duras penas o que liderar realmente significa. Todo mundo já sonhou em ser o chefe da turminha da vizinhança (e quem nunca, que atire o primeiro coelho azul de pelúcia). Pudera: na cabeça de uma criança, "chefe" é alguém que manda em todo mundo e em quem ninguém manda, que pode fazer tudo o que quiser e não precisa fazer nada que não queira; é só status e privilégio. Porém, Ralph não demora a compreender que o posto é uma responsabilidade pesada, que exige sacrifícios e, muitas vezes, é desesperador. Tendo sido professor, o autor do livro, William Golding (1911-1993), sem dúvida sabia bem como são as crianças, particularmente os meninos. E o fato é que meninos se entusiasmam por uma ideia com a mesma facilidade com que perdem o interesse nela pouco depois. Quando Ralph sopra a concha, todos comparecem sem demora; parece haver algo na solenidade da coisa que torna essas reuniões divertidas, mas as decisões que nelas são tomadas, embora referendadas por todos e, a princípio, seguidas, são esquecidas em pouco tempo. Não é fácil ser chefe desse jeito.

Quando um dos garotos menores começa a falar sobre um "bicho" que aparece à noite, parece, a princípio, que a coisa não é mais que um pesadelo, ou um medo infantil sem origem definida – mas, quando o menino some sem que ninguém saiba como, e outros passam a acreditar ter visto a criatura, já não é tão fácil ter certeza. Ralph e Porquinho insistem que não pode haver nenhum animal ameaçador, porque nenhum grande carnívoro sobreviveria numa ilha tão pequena, mas ficam sem ter o que responder quando outro dos pequenos afirma que "o bicho sai do mar" – o que multiplica o potencial assustador do boato. Jack, por seu turno, não faz esforço algum para que os outros percam o medo; em vez disso, procura usar o "mito" em benefício próprio, garantindo a todos que, se houver um bicho, ele e seus caçadores vão matá-lo. Se isso for uma alegoria (ou se quisermos exercer a nossa liberdade como leitores para encontrar a aplicabilidade do texto), os caçadores podem simbolizar o exército, e o próprio Jack, qualquer um dos inúmeros ditadores sobre os quais a História nos conta, pois foi assim que a maioria deles chegou ao poder: tirando vantagem do medo que a população sentia, oferecendo proteção, tanto faz se contra ameaças reais ou imaginadas. Em algum momento, um dos personagens pensa em voz alta que "talvez não haja nenhum bicho; talvez sejamos só nós" (não consegui encontrar a passagem para copiar a frase exata, mas é essencialmente isso), referindo-se de maneira alegórica, mas mesmo assim bem clara, ao mal que cada pessoa traz dentro de si – e que, não raras vezes, é projetado no outro, porque fica mais fácil lidar com ele dessa forma. O ódio de Jack por Porquinho também não é gratuito: o gordinho é a voz da razão e do conhecimento, que dissipam o medo. Se Jack permitir que isso aconteça, ficará privado de seu maior trunfo.

Jack leva adiante seu trabalho de sedição, que chega ao ponto da ruptura, com ele e seus seguidores separando-se da "tribo" para formar a sua própria. Para convencer mais garotos a trocar de grupo, ele lança mão de qualquer meio ao seu alcance, desde promessas (principalmente a de que quem o seguir sempre terá carne para comer) até intimidação. À medida em que a inimizade entre os dois grupos vai ficando mais amarga e mais séria, as regras de conduta introjetadas mediante anos de educação vão se revelando como nada mais que um fino verniz, que descasca e cai se não for continuamente reforçado. Enquanto Ralph tenta fazer com que seus companheiros não se esqueçam do que significa ser humano, Jack e os seus vão progressivamente cedendo à tentação da violência e da arbitrariedade, num conflito que acaba por ser mais profundo e de implicações mais graves (ao menos para quem está vivendo a situação) que o tradicional antagonismo "bem" versus "mal". Não há surpresa quando a tensão descamba para a violência homicida – mas a ausência de surpresa não faz com que o fato deixe de ser chocante. Bem, ao menos deveria sê-lo; não creio que o público dos anos 2000, acostumado a ver violência extrema ser apresentada como uma forma de entretenimento, se perturbe com o final da narrativa. O que eu não consigo ver como um bom sinal.

O Senhor das Moscas, publicado originalmente em 1954, teve o mesmo destino de muitos outros clássicos: não foi nenhum sucesso instantâneo. Sua primeira edição não vendeu nem três mil cópias, mas, redescoberto durante as décadas de 60 e 70, ganhou o status de cult e acabou dando a seu autor o Prêmio Nobel de Literatura em 1983. Hoje é leitura obrigatória em muitas escolas secundárias em todos os países de língua inglesa – e eu sinceramente espero que isso, por si só, não leve muita gente a desenvolver uma antipatia a priori por ele, o que seria mesmo uma pena. A grande sacada do livro, na minha opinião, é a de ter pego um enredo que nada tinha de original (grupos de personagens isolados em ilhas desertas ou lugares semelhantes são um plot que vem sendo explorado desde a Antiguidade) e, a partir disso, criado tantas situações fascinantes e cheias de significados. Além disso, Golding é excelente na arte da narração e da descrição; provavelmente o melhor exemplo disso está no capítulo chamado Visão de Uma Morte, no qual o autor demonstra saber perfeitamente como é uma tempestade nos trópicos – coisa que a maioria dos anglo-saxões não consegue nem imaginar. Em resumo, O Senhor das Moscas deve ser lido, antes de mais nada, por prazer, mas é altamente aconselhável manter um olho aberto para o que ele pode nos ensinar e para as reflexões que pode estimular. E essa é a melhor combinação que podemos encontrar num livro.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Depois de Morte Súbita e dos romances policiais escritos sob o pseudônimo de Robert Galbraith, eis J. K. Rowling de volta ao universo de Harry Potter, nove anos depois de Harry Potter e as Relíquias da Morte, conclusão oficial da saga. Os azedos de plantão, é claro, já deram seu veredito: "ela só está a fim de ganhar mais dinheiro!" Rowling simplesmente não precisa disso: ela já tem o suficiente para assegurar uma vida mansa a todos os seus descendentes até a vigésima ou trigésima geração, com folga. Portanto, ela não está nisso pelo dinheiro – pelo menos, não mais. Se continua escrevendo, é porque gosta, e seus fãs certamente não vão reclamar.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada é algo um tanto diferente. A história, escrita por Rowling em cooperação com John Tiffany e Jack Thorne, foi concebida como roteiro para uma peça de teatro, a ser dirigida por Tiffany, e que estreou (com ingressos esgotados e todo o alarde que seria de se esperar) no Palace Theatre, em Londres, em 30 de julho de 2016. O livro foi lançado no Brasil em 31 de outubro – nada mais adequado: em pleno Dia das Bruxas. Confesso que fiquei meio decepcionado ao folheá-lo pela primeira vez, pois, embora soubesse que a história teve origem no teatro, imaginava que a autora tivesse reescrito o roteiro sob a forma de romance para a publicação, mas não: o que temos no livro é o próprio roteiro. Ler desse jeito causa estranheza a quem está acostumado a acompanhar as peripécias do jovem bruxo, mas não será isso que irá impedir os potterheads (fãs apaixonados da saga) espalhados pelo planeta de devorar essa nova aventura.

A história contada na peça inicia-se 19 anos depois dos eventos narrados em Harry Potter e as Relíquias da Morte – portanto, em 2016 mesmo – e se estende alguns anos para o futuro. Harry está agora com 37 anos de idade, trabalha no Ministério da Magia (para ser exato, é chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia), está casado com Gina Weasley e tem três filhos: Tiago, Alvo e Lílian (a tradutora Anna Vicentini teve que seguir o controverso sistema de nomenclatura adotado por Lia Wyler, que traduziu os sete volumes anteriores e tinha por hábito traduzir nomes próprios e até mesmo – sei lá com qual critério – rebatizar certos personagens). Tiago, o mais velho, e a caçula, Lílian, foram batizados em homenagem ao pai e à mãe de Harry, e parecem ser filhos perfeitos. A ovelha negra da família é o do meio, Alvo Severo Potter. Seu primeiro nome homenageia o lendário diretor da não menos lendária Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore; o segundo, Severo Snape, o professor que Harry odiou durante sete anos, só para descobrir ao final que, na verdade, o homem era um herói. A peça começa quando Alvo está indo para Hogwarts pela primeira vez, junto com sua prima Rosa – filha de Rony Weasley, irmão de Gina e melhor amigo de Harry desde sempre, e de Hermione Granger, outra grande amiga e aluna mais brilhante de Hogwarts em sua época. Rosa é de opinião que, na viagem de um dia inteiro de trem até a escola, ela e Alvo, a exemplo do que aconteceu com seus pais, poderão ter a chance de fazer as amizades que irão influenciar seus destinos pela vida afora, e mais, também acredita que, por serem quem são, todos vão querer ser amigos dos dois, de modo que poderão escolher à vontade. Para a decepção da garota, o único amigo que seu primo faz é Escórpio Malfoy… Por ironia, filho de Draco Malfoy, arqui-inimigo de Harry durante toda a vida escolar de ambos.

(Toda vez que eu lia o nome Escórpio, era impossível não pensar na arma de cerco romana.)

As surpresas não param por aí. Na cerimônia de seleção, na qual o Chapéu Seletor decide para qual das quatro casas de Hogwarts cada novo aluno será mandado, Alvo acaba sendo designado para a Sonserina, que foi desde sempre a casa dos Malfoy, além de ter sido a de Tom Riddle, antes de ele se tornar o temido Lorde Voldemort. Embora isso vá lhe permitir ter a companhia de seu novo amigo quase em tempo integral, não deixa de ser um choque, pois, até onde se tem lembrança, todos os ancestrais e parentes de Alvo, pelos dois lados da família, sempre foram da Grifinória.

Seja como for, Alvo e Escórpio logo percebem que é uma sorte terem um ao outro: nenhum dos dois tem praticamente qualquer outro amigo. Alvo não demonstra talento para nada em particular, nem mesmo para o voo de vassoura, o que acaba com as esperanças que muita gente alimentava, de que ele viesse a honrar os feitos de seu pai e seu avô no campo de quadribol; Escórpio é inteligente e estudioso, mas tímido. De modo que os dois rapidamente assumem seu papel como aquele tipo de estudante que pode ser encontrado em qualquer escola, mágica ou não, esgueirando-se pelos corredores, procurando evitar ser visto, já que é presa fácil para bullies. Alvo se sente de forma oposta ao que acontecia com o pai em sua idade: enquanto Harry detestava as férias (porque tinha que passá-las com seus insuportáveis tios trouxas) e contava os dias para voltar a Hogwarts, Alvo detesta a escola, se bem que em casa não pareça se sentir muito melhor. Embora Harry se esforce por ser um bom pai, o garoto não gosta nem um pouco do fato de ser filho do famoso Harry Potter, e menos ainda de todas as expectativas que isso naturalmente cria nas pessoas – expectativas essas que, em sua própria opinião, ele sempre irá frustrar.

Todavia, por pior que Alvo ache sua vida, a de Escórpio é ainda pior. Muita gente ainda associa os Malfoy a Voldemort, de quem o avô de Escórpio, Lúcio Malfoy, foi um fiel servidor – e correm boatos persistentes de que Astória, esposa de Draco e mãe de Escórpio, foi enviada para o passado a fim de engravidar do próprio Voldemort, presumivelmente quando ele ainda era Tom Riddle, e humano o suficiente para gerar filhos. Ou seja, se esses boatos tiverem fundamento, significa que o verdadeiro pai de Escórpio é… Você-Sabe-Quem. Porém, verdade seja dita, o garoto não parece lembrar em nada o grande bruxo das trevas: segundo Alvo, Escórpio é bom, o que nenhum filho de Voldemort poderia ser; já segundo Draco, ele é por natureza um seguidor, e não um líder, o que tampouco combina com uma possível ascendência "voldemortiana". E há mais: se Astória tivesse viajado ao passado, só poderia ter sido por meio de um viratempo, um dispositivo mágico capaz de realizar esse feito – e todos os viratempos de cuja existência se tinha conhecimento estavam guardados no Ministério, onde foram destruídos durante uma batalha entre Comensais da Morte (os servos de Voldemort) e os membros da Ordem da Fênix, comandada por Dumbledore; esse episódio está narrado num dos últimos livros da saga, não lembro ao certo qual. Portanto, e por vários motivos, os boatos parecem um completo disparate, o que não impede que continuem a ser um doloroso espinho na carne de Escórpio.

Os primeiros três anos de Alvo Potter em Hogwarts passam em rápidos flashes. O importante para os fins da peça é o que acontece em seu quarto ano, quando ele e seu amigo Escórpio estão com 14 – não por acaso, a mesma idade que Harry tinha ao tomar parte no Torneio Tribruxo, como sabe quem leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto volume da série. O torneio, realizado durante o ano letivo de 1994-95, terminou de forma terrível e trágica, com o retorno de Voldemort e a morte do outro campeão de Hogwarts, Cedric Diggory (a Sra. Lia Wyler que me desculpe, mas eu me nego a chamar o coitado de "Cedrico"!). Durante todo o torneio, os dois garotos haviam vivido uma relação de rivalidade e admiração mútua ao mesmo tempo, e, ao concluírem a última tarefa da competição, que daria a vitória a quem o fizesse, nenhum dos dois achou justo que o outro fosse derrotado: decidiram vencer juntos, e, para isso, pegaram ao mesmo tempo a taça da vitória – que, sem que eles imaginassem, estava enfeitiçada para levar instantaneamente quem a tocasse até a presença de Voldemort. O bruxo das trevas só estava interessado em Harry, de modo que, ao ver que havia outro rapaz com ele, displicentemente ordenou a um de seus servos que o matasse. Cedric, portanto, teve uma morte tola e desnecessária, coisa pela qual Harry jamais se perdoou – como se tivesse culpa.


Alvo, naturalmente, conhece essa história. Acontece então que, pouco antes de ele partir para seu quarto ano em Hogwarts, Harry e seus homens dão uma batida na qual estouram um covil de bruxos das trevas, e apreendem, entre outras coisas, um viratempo clandestino. O ocorrido chega aos ouvidos do jovem Alvo, enquanto o perigoso objeto fica sob custódia no Ministério – e, por falar nisso, a atual Ministra da Magia é ninguém menos que Hermione Granger (agora Granger-Weasley). Por uma daquelas coincidências fatais, Alvo também ouve uma conversa entre seu pai e Amos Diggory, o pai de Cedric, hoje um ancião solitário e inválido que vive num lar para bruxos idosos. Sabendo que Harry agora tem acesso a um viratempo, Amos implora que ele o use e volte no tempo para impedir a morte de seu filho, mas Harry, com dor no coração, tem que se recusar: de acordo com os mais conceituados teóricos da magia, o máximo que uma pessoa pode voltar no passado sem perigo de causar perturbações graves no fluxo do tempo é de cinco horas – quem pode prever as possíveis consequências de uma intervenção num fato ocorrido há 22 anos? Alvo, por outro lado, compadecido do velho, fascinado pela possibilidade de corrigir o que considera um dos erros de seu pai e sem um pingo de juízo na cabeça, decide empreender a arriscada missão. Para isso, conta com a ajuda de seu inseparável Escórpio e de uma jovem que diz chamar-se Delfine ("Delfi") e ser sobrinha de Amos Diggory, prima de Cedric. Os dois garotos fogem do Expresso de Hogwarts em plena viagem – o que, até onde se sabe, ninguém antes deles jamais conseguiu fazer, embora tenha sido tentado por transgressores legendários como Sirius Black e os gêmeos Fred e Jorge Weasley –, reúnem-se a Delfi, e os três invadem o Ministério em busca do fatídico viratempo… E, embora essas já pareçam ser façanhas notáveis, isso é apenas o começo. No decorrer da história, fica provado algo que quem, por enquanto, só leu Harry Potter talvez ainda não tenha percebido, mas que todo leitor de ficção científica sabe: que mexer no passado é extremamente perigoso, não importa se por meios tecnológicos ou mágicos. Por mais tentadora que pareça a ideia de ser testemunha ocular de grandes acontecimentos históricos ou de fazer um safári em meio a dinossauros ou mamutes, acho que, no fim das contas, é uma boa coisa que a viagem no tempo seja, por tudo o que se sabe, impossível segundo as leis da física… Embora seja verdade que já se disse o mesmo a respeito de ultrapassar a barreira do som, coisa que, hoje em dia, até meras aeronaves comerciais fazem tranquilamente.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, sem dúvida, mantém o espírito da saga; se reescrito, talvez não rendesse um romance, mas daria um conto de boa extensão e, certamente, irresistível para qualquer um dos milhões de "órfãos" que tiveram pelo menos alguns dias de depressão quando terminaram de ler o que acreditavam ser o último livro das aventuras de Harry. Além de nostálgico (inevitável…), é também empolgante rever, agora na idade adulta, aqueles personagens cuja infância e adolescência acompanhamos tão de perto. Muita coisa continua igual e muita coisa mudou. O próprio Draco Malfoy tornou-se menos arrogante, imagino que tanto por ter amadurecido quanto por causa das coisas que passou ao tentar seguir os passos do pai como um Comensal da Morte, e, levado pela necessidade de proteger o filho, aceita o que duas décadas antes teria, sem dúvida, considerado impossível: colocar-se ao lado de Harry como aliado. Talvez, até, como amigo, possibilidade que fica em aberto numa cena da peça. Senti muita falta do gentil e atrapalhado meio-gigante Rúbeo Hagrid, que só aparece em cenas que retratam o passado; não temos nenhuma notícia dele, por onde anda ou o que está fazendo na época em que se passa a ação principal. No mais, assistir a essa peça deve ser uma experiência e tanto. Há coisas que o roteiro descreve e que só podemos ficar imaginando como, em nome de Merlim, podem ser apresentadas num palco: os efeitos especiais devem ser de deixar no chinelo muita coisa que se vê no cinema (não nos filmes de HP, é claro). Quem sabe não tenhamos uma surpresa e seja anunciada uma montagem brasileira? O surgimento de um filme é inevitável, mas ainda deve demorar, e eu realmente torço para que seja um filme – não uma totalmente desnecessária "trilogia", ou coisa que o valha. É esperar pra ver.