quinta-feira, maio 19, 2011

O Retrato de Dorian Gray

Traçar um paralelo entre um novo filme e uma história consagrada na literatura é sempre um exercício empolgante e, ao mesmo tempo, complicado. Por um lado, nunca tive paciência com gente que pensa que achar tudo ruim é ter "gosto refinado", e a última coisa que quero é me parecer com esse tipo. Por outro, quanto mais importante, por uma ou outra razão, for um livro, maior obrigação tem o seu leitor de ser crítico com qualquer recriação que apareça... Obrigação essa que fica ainda mais pesada se o leitor em questão for um estudioso de literatura por formação e gosto. Não obstante, tentarei assim mesmo.

Esta nova versão cinematográfica do clássico da literatura gótica de Oscar Wilde já não chega tão "nova" aos cinemas nacionais, já que a produção (inglesa) é de 2009. Ben Barnes, já celebrizado como o príncipe Caspian na série As Crônicas de Nárnia (baseada nos não menos clássicos livros de C. S. Lewis) foi escolhido para encarnar o jovem burguês londrino que vende a alma em troca da juventude perpétua – note-se, de passagem, que Barnes não se parece com a visão que Wilde tinha do personagem, que é descrito no livro como sendo loiro. Ben Chaplin faz o papel do pintor Basil Hallward, responsável pelo famigerado retrato, enquanto Colin Firth, atualmente sob os holofotes por causa do oscarizado (epa!) O Discurso do Rei, é o insuportável lorde Wotton. Na ala feminina do elenco, Rachel Hurd-Wood empresta sua beleza a Sibyl Vane, a atriz adolescente que Dorian seduz e depois abandona, enquanto Rebecca Hall interpreta a "avançada" Emily, personagem inexistente no livro. Oliver Parker assina a direção.

O Retrato de Dorian Gray, publicado em 1890, foi o único romance escrito por Oscar Wilde (1854-1900), que, durante sua carreira literária, devotou a maior parte de sua energia ao conto, à poesia e ao teatro. Se não fosse pelo poderoso molho de terror sobrenatural que tempera suas páginas, é possível que o livro fosse hoje tão pouco lembrado quanto toneladas de outros romances da mesma época e cuja massa tinha a mesma composição – a crítica de costumes. Não que a crítica de costumes, em si mesma, não possa gerar boa literatura (alguém disse Machado de Assis?): o problema é que, quando o modelo é muito sem-graça, o retrato (ops!) dificilmente sairá espetacular, de modo que era preciso ser muito escritor para conseguir produzir algo interessante tendo como assunto a fútil e afetada alta sociedade inglesa da época – uma sociedade que Wilde, embora irlandês de nascimento, sem dúvida conheceu a fundo.

Ainda que não haja no livro nada tão explícito quanto o beijo trocado entre Barnes e Chaplin numa cena do filme, a sabida homossexualidade do autor é perceptível, de forma sutil mas ao mesmo tempo inequívoca, na interação entre o trio central da trama: Dorian, Hallward e lorde Henry Wotton – Harry para os íntimos (entendam esse "íntimos" como quiserem). Por sinal, se já houve um personagem de ficção que eu desejei que tivesse uma cara de carne e osso para que eu pudesse parti-la, foi esse lorde Wotton. O que essa figura faz é cultivar o cinismo no grau mais extremo e em sua forma mais repulsiva, aparentemente devotando cada minuto de vigília a forjar frases "chocantes" reduzindo amor, família, religião, qualquer espécie de decência, honestidade, honra e todos os demais valores morais e humanos imagináveis a convenções ridículas e ultrapassadas, que deveriam ser postas de lado como uma gravata fora de moda.

Dorian, Hallward e Wotton, estava eu dizendo, formam o núcleo da história, e as atenções que ambos os mais velhos dirigem ao jovem protagonista não disfarçam uma admir
ação que nada tem de inocente – na verdade, há nos diálogos um tipo de jogo erótico que só mesmo um escritor do calibre de Wilde poderia ter forjado: é quase impossível dizer exatament
e onde está o erotismo, mas não há dúvida de que ele existe, embora em nenhum ponto do livro haja a sugestão de alguma aproximação física maior entre os personagens. Uma piada velha, mas que não perde o poder de causar alguns risinhos amarelos entre o pessoal da literatura, é referir-se ao livro como O Retrato de Dorian Gay. Já que falei no assunto, não se deve pensar que tenha sido devido a qualquer tipo de escrúpulo moral que Wilde optou por não ser mais explícito em seu romance (fato que a nova versão cinematográfica tenta "corrigir", aproveitando os tempos mais relax que vivemos hoje). Se ele não o fez, foi porque sabia que tal coisa poderia render-lhe sérios problemas. Na época, atos homossexuais eram previstos em lei como delito de "conduta imoral", e podiam ser punidos com prisão. Foi exatamente o que aconteceu ao próprio Wilde, que, tempos depois da publicação de O Retrato..., amargou uma temporada de dois anos atrás das grades, por conta de seu relacionamento com o jovem filho de um lorde influente. De volta ao livro, o Dorian Gray do título é um típico jovem da alta sociedade britânica da segunda metade do século XIX. Ou melhor, seria típico se não fosse por sua extraordinária beleza, que o faz sobressair onde quer que esteja e atrai a atenção de Basil Hallward, um pintor de inegável talento e um dos favoritos dos aristocratas e da burguesia de Londres – não que, para fazer renome entre essa gente, o talento fosse uma condição indispensável: muitos cavalheiros e damas gostavam de fingir que entendiam de arte. Sendo Hallward um pintor renomado, e Dorian o modelo dos sonhos, o início da amizade entre os dois leva ao desfecho óbvio: o rapaz posa para um retrato. Durante a última sessão de trabalho no atelier de Hallward, Dorian fica conhecendo lorde Wotton, amigo do pintor. De certa forma, Wotton tem de Dorian uma visão inversa à que tem Hallward. Enquanto o pintor vê no jovem uma forma sublime que ele se esforça por reproduzir em tela e tinta, o lorde o vê como uma argila virgem que, com a necessária habilidade, poderia ser moldada na forma de... algo. Primeiramente, é Wotton quem incute em Dorian o pavor de envelhecer:

Para o senhor, Gray, tudo deveria ser importante (...), porque possui uma maravilhosa juventude, e a juventude é a única coisa que vale a pena. (...) Quando for velho, enrugado, feio, quando a meditação lhe tiver murchado a fronte com suas rugas e a paixão marcado seus lábios com horríveis estigmas, sentirá isso terrivelmente. Agora, aonde quer que vá, cativa todo mundo. Mas será sempre assim? (...) Sim, Sr. Gray, os deuses foram generosos com o senhor. Mas o que os deuses dão, tomam logo em seguida. O senhor só tem alguns poucos anos para viver verdadeiramente, perfeitamente, plenamente. (...) O tempo tem ciúme do senhor e luta contra os seus lírios e as suas rosas. O senhor empalidecerá, suas faces ficarão vincadas e seus olhos se apagarão. Sofrerá terrivelmente... Ah! Aproveite a sua juventude enquanto a possui. (...) Juventude! Juventude! Não há absolutamente nada no mundo, senão a juventude!

E Dorian, juvenilmente impressionado por tal discurso, desabafa:

Como é triste! Eu me tornarei velho, horrível, espantoso. Mas este retrato permanecerá sempre jovem. Não será nunca mais velho do que neste dia de junho... Se acontecesse o contrário! Se eu ficasse sempre jovem, e se este retrato envelhecesse! Por isso... por isso eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse! Daria até a minha própria alma!


Aparentemente, Satã estava ouvindo com interesse esse diálogo, e, quando o jovem declara sua disposição para tal barganha, deve ter dito simplesmente "Topo!", ou o equivalente a isso. O trato está feito, assim, de boca, sem necessidade de missa negra, pentagramas, livros profanos, mulher nua servindo de altar e essa presepada toda. Desse momento em diante, Dorian nunca mais envelhece um só dia: as marcas que, pelas leis da natureza, o tempo deveria deixar em seu rosto vão, ao invés, sendo transferidas para o retrato. E não só as marcas do tempo: cada maldade que ele pratica, cada desvio moral ao qual se entrega em busca de prazeres novos (tudo seguindo os conselhos de lorde Wotton e os seus desdobramentos inevitáveis) também provoca mudanças horripilantes na efígie, que passa a ser o segredo mais bem guardado de Dorian, trancado a sete chaves, longe dos olhos de todos. Com o tempo, como não poderia deixar de acontecer, sua aparência inalterada começa a chamar atenção, e, combinada com a fama proporcionada por suas inúmeras depravações e vícios, faz com que passe a ser encarado, pelos que o conhecem, com algo que beira o horror supersticioso. A relação entre Dorian e o retrato vai-se tornando progressivamente mais macabra e obsessiva, e seu final não poderia ser agradável – é claro que não vou contar o final, mas adianto a quem viu o filme e pretende ler o livro que o final de um tem pouco a ver com o do outro. Depois me contem qual dos dois acharam melhor – ou, dependendo do ponto de vista, pior.

Uma coisa que achei curiosa foi a contextualização histórica, que extrapola o que havia no romance – e o faz de forma plausível e inteligente. Por exemplo, há referências a uma guerra, obviamente a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ora, Oscar Wilde, que morreu em 1900, talvez até pudesse ter previsto a iminência de um confronto na Europa num futuro próximo, levando em conta a situação política em seus dias, mas é claro que não teria como incluir datas ou detalhes, a menos que os inventasse – e futurologia não era bem a sua seara literária. Não há enunciação de ano no romance, mas é fácil perceber que a ambientação é contemporânea à da vida do autor. Ora, se a história se passasse na mesma época em que foi escrita, Dorian Gray, que tem 20 anos no início do romance, teria nascido por volta de 1870, e, como estaria com 40 e poucos no desfecho da narrativa, isso coincidiria exatamente com os dias da guerra. Automóveis e telefones, coisas quase desconhecidas durante a vida de Wilde, mas que já começavam a se tornar corriqueiras na segunda década do século XX, também aparecem.

Num apanhado geral, considerei o filme bastante satisfatório e, até certa altura da história, muito fiel à narrativa original, com detalhes variando, mas a essência do enredo sendo mantida. No último terço, aproximadamente, é que o roteiro degringola, com lorde Wotton decidindo assumir o papel de investigador implacável para descobrir o segredo de Dorian – o Wotton da história original jamais teria energia para realizar tal empreitada, nem caráter para considerá-la necessária – e a relação artificial de Dorian com Emily, filha de Wotton (personagem que, como disse acima, foi inventada para o filme) sendo usada como pivô para o desejo de regeneração e redenção experimentado pelo protagonista, desejo esse, por sinal, que o filme exagera muito. As atuações, em sua maioria, são acima da média, e a recriação da Londres do século XIX é perfeita: uma cidade cinzenta, suja, poluída, com sua magnífica arquitetura manchada pela onipresente fuligem de milhares de chaminés – enfim, uma cidade que pagava o preço da Revolução Industrial que fizera da Inglaterra o país mais rico do mundo –, e onde cenários de riqueza e ostentação e outros da mais sórdida miséria coexistiam separados por poucos passos de distância. Os espectadores que vierem a ler o livro levarão, no mínimo, uma boa amostra do clima que devem imaginar ao imergirem em suas páginas para algumas horas de leitura fascinante.

segunda-feira, abril 11, 2011

O Chamado de Cthulhu

O poeta português Fernando Pessoa costumava dizer de si próprio que, sozinho, era uma inteira literatura, declaração imodesta, talvez, mas, sem dúvida, verdadeira. Há outros poucos autores (de diferentes lugares, épocas e gêneros) aos quais essa sentença também se aplica. São autores cujo conjunto da obra forma algo tão grandioso, impressionante e complexo, que acaba por influenciar gerações inteiras de outros escritores e, de certa forma, construir lendas.

Um desses autores foi o norte-americano Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), criador do ciclo de horror e fantasia que hoje milhares de fãs espalhados pelo mundo conhecem como "os Mitos de Cthulhu". Pouco dado ao convívio social e com a saúde sempre frágil, Lovecraft teve uma vida reclusa e uma história familiar bastante tumultuada, fato que se estendeu para seu casamento, que durou apenas dois anos. Ao separar-se, retornou a sua cidade natal, Providence, no estado americano de Rhode Island, e foi morar com duas velhas tias. Foi a partir dessa época (aproximadamente 1926) que Lovecraft começou a produzir as obras que lhe dariam fama – fama essa que chegou tarde demais para o escritor: ao morrer, embora tivesse tido muitos contos e artigos impressos em revistas, só tivera um único livro publicado (numa edição tosca e de tiragem minúscula) e alcançara pouca coisa em matéria de retorno financeiro ou fama. Em resumo, Lovecraft morreu achando-se um fracasso, sem ter ideia do grau de importância que sua obra chegaria a ter.

Este pequeno livro que acabo de ler é o primeiro volume da série Os Mitos de Cthulhu, publicada alguns anos atrás pela editora Campanário e dedicada exclusivamente a reunir os contos que fazem parte desse ciclo, deixando de fora outros trabalhos com focos diferentes. O curioso é que nem sempre é fácil separar, dentro da obra de Lovecraft, o que faz e o que não faz parte dos Mitos: o livro O Chamado de Cthulhu, por exemplo, traz o conto que lhe dá título e é considerado por estudiosos e fãs como a pedra angular dos Mitos de Cthulhu, e também A Cor que Veio do Espaço, que não parece ter qualquer ligação direta com o ciclo, pois fala da queda de um meteoro com propriedades estranhas numa pequena fazenda da Nova Inglaterra, trazendo pavorosas mutações às plantas e aos animais, e causando loucura nos seres humanos.

Os Mitos de Cthulhu estão baseados numa concepção profundamente pessimista do universo, que vê a espécie humana como uma criação insignificante, acidental e transitória, numa esfera de existência cuja vastidão e antiguidade são suficientes para destruir a sanidade de uma pessoa que delas tome conhecimento. Os Mitos são estruturados em torno dos assim chamados Grandes Antigos, gigantescos deuses-monstros alienígenas que teriam chegado à Terra, vindos de constelações distantes, milhões de anos atrás. Quando Lovecraft dizia que os Grandes Antigos eram gigantescos, queria dizer gigantescos mesmo, com quilômetros de altura, para não mencionar poderes de diversos tipos, que pareceriam mágicos  ou divinos – aos olhos humanos. O rei deles era o Grande Cthulhu, figura central de um culto sinistro que existiria secretamente há milhares de anos, e cujos integrantes acreditam que Cthulhu e seus súditos jazem adormecidos  de certa forma, mortos, mas não permanentemente  em suas fabulosas cidades de pedra, erigidas em eras desconhecidas pela humanidade e hoje ocultas nas profundezas da terra ou dos mares. A explicação disso é que, apesar de todo o seu poder, os Grandes Antigos também teriam seus limites e estariam submetidos a certas leis; por exemplo, só poderiam viver e mover-se quando a configuração das estrelas fosse propícia a isso. Quando assim não fosse, teriam de permanecer "mortos" durante eras inteiras, aguardando que os astros novamente se posicionassem da forma correta, para então ressurgirem. Toda a história da humanidade  aliás, quase toda a história da vida na Terra  estaria compreendida num desses períodos de latência dos Grandes Antigos. Período esse que estaria agora se aproximando do fim...



Apesar da dificuldade que tinha em se relacionar com as pessoas comuns à sua volta, Lovecraft tinha seus amigos, muitos dos quais nunca viu pessoalmente, mantendo contato somente por cartas. Amigos de peso, é bom que se diga: entre eles estavam escritores do calibre de Robert E. Howard (o criador de Conan), Clark Ashton Smith, August Derleth, Frank Belknap Long, entre outros. Como seria de se esperar, o assunto forte na extensa correspondência mantida entre esse grupo era a literatura, quase sempre a literatura fantástica da qual, cada um no seu estilo, todos se ocupavam. E, talvez por sugestão do próprio Lovecraft, vários deles passaram a incluir em suas histórias algumas sutis menções a elementos da obra dos outros, o que criava nos leitores uma sensação de realidade. Afinal, se vários autores falam de uma coisa, ela deve ter alguma base em fatos... não? O caso mais extremo disso foi o Necronomicon, o "Livro dos Nomes Mortos", um grimório fictício, inventado por Lovecraft e que, segundo ele, conteria a maior parte da informação conhecida sobre os Grandes Antigos, além de outros conhecimentos ocultos, rituais sinistros e por aí afora. O livro teria sido escrito na Idade Média por Abdul Al-Hazred, um poeta árabe louco, passando de mão em mão entre estudiosos de ocultismo durante os séculos seguintes; no século XX, restariam pouquíssimos exemplares. Mais de um dos amigos escritores de Lovecraft também mencionou o Necronomicon em seus contos, e escritores posteriores continuaram e continuam a fazê-lo como uma forma de homenagem ao autor (Stephen King cita-o no conto Sei do que Você Precisa, que pode ser lido na coletânea Sombras da Noite). A coisa alcançou tais proporções, que hoje em dia não é difícil encontrar quem acredite que o Necronomicon realmente exista!...


Em O Chamado de Cthulhu, Lovecraft escreveu que os Grandes Antigos comunicam-se com a humanidade através de emanações telepáticas e principalmente de sonhos, e dessa forma instituíram seu culto, fonte direta ou indireta de todo o conhecimento que temos sobre eles. E as pessoas mais sensíveis ao chamado de Cthulhu seriam os artistas e os loucos  não foi à toa que Al-Hazred, que era as duas coisas, acabou tornando-se o profeta involuntário desse culto grotesco. Por acaso ou não, também no mundo real parece que artistas de diferentes campos têm uma particular facilidade em "ouvir o chamado", pois sentem uma atração toda especial pelo universo bizarro e aterrador de Lovecraft, o que resulta na existência de uma atordoante fartura de interpretações visuais de sua obra. Tirem a prova: basta ir ao Google, selecionar Busca Avançada de Imagens, e digitar "Cthulhu". Tem de tudo, até (acreditem!) fotos de Cthulhus de pelúcia. Só da "estatueta obscena" reverenciada pelos cultistas e descrita em O Chamado de Cthulhu, existem cinco ou seis versões. Quando fui procurar ilustrações para este post, a dificuldade foi escolher, e tanto foi assim que acabei colocando três, sem contar a imagem da capa do livro  muito mais do que costumo.

Por enquanto, minha intimidade com o universo de Lovecraft não é grande: além deste livrinho, li apenas o volume de contos Nas Montanhas da Loucura, que faz parte da coleção das obras do autor publicada pela editora Iluminuras, bem mais fácil de achar em livrarias que as edições da Campanário, e com a vantagem de que cada livro traz uma quantidade bem maior de material. A história que dá nome a esse livro é uma das mais longas escritas por Lovecraft e trata da aventura de um grupo de cientistas que descobrem nos confins da Antártica uma cidade construída em priscas eras por seres não-humanos  estes são chamados apenas de "os Antigos", sem o "Grandes", e eram criaturas de um nível mais prosaico, o que, em se tratando de Lovecraft, significa apenas que não eram divindades monstruosas, pois, de resto, nada tinham de convencional, qualquer que seja o prisma por onde se olhe: eram seres indefiníveis, com características de animal e de vegetal ao mesmo tempo, que se reproduziam por meio de esporos e podiam viver tanto em terra firme como no fundo do mar. De qualquer forma, o personagem-narrador chega a ter um momento de simpatia para com eles ao admitir que, qualquer coisa que fossem, eram os seres sencientes que existiam na época, e, portanto, eram os "homens" de então. Esse conto, embora provoque lá os seus calafrios, tem como principal atrativo a descrição pormenorizada e incrivelmente imaginosa da civilização dos Antigos.

Quem já leu Lovecraft deve ter notado que, em que pese sua vasta erudição e consideráveis conhecimentos científicos, ele tinha certas ideias, para dizer o mínimo, "discutíveis", era misantropo e racista, mas é preciso dar um desconto lembrando a época e o lugar onde ele viveu, a educação que teve e as experiências amargas que pautaram a maior parte de sua vida. Não é preciso admirá-lo como pessoa para desfrutar a experiência única de mergulhar em seu espantoso universo, imaginado com fabulosa criatividade e descrito com um talento literário inegável.

Para terminar, acho uma boa ideia sublinhar que a coleção de Lovecraft publicada pela Iluminuras inclui, além de sua produção de ficção, uma caprichada edição do ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, obra de referência sobre a qual já falei mais de uma vez aqui no blog (confiram aqui e aqui).

quinta-feira, março 03, 2011

A Ilha do Dr. Moreau

Passei os últimos quatro meses lendo a série O Imperador e escrevendo sobre ela, o que é suficiente para me deixar farto da temática romana durante umas... 24 horas, talvez. Entretanto, como alguma variedade é saudável, e o mundo está cheio de assuntos interessantes, decidi comentar este livro, que comecei a reler numa decisão repentina ao acidentalmente bater o olho nele na minha estante.

Li pela primeira vez A Ilha do Dr. Moreau na pré-adolescência, talvez com uns 12 anos de idade, quando estava começando a prestar atenção aos nomes dos autores dos livros que lia (vocês se surpreenderiam com o número de livros que li na infância e adoraria reencontrar hoje, mas não tenho como procurá-los porque o Marcos garoto simplesmente não se preocupava com quem era o autor). Meus irmãos andavam comentando entusiasmados o livro O Homem Invisível - que, por algum capricho do destino, não li até hoje! - e, quando topei na biblioteca com outro livro do mesmo autor, decidi conferir. Não era a mesma edição do exemplar que tenho hoje, esse comprei num sebo anos depois: se não me engano, a edição que li primeiro tinha tradução de ninguém menos que Monteiro Lobato. Foi meu primeiro contato com a obra de Herbert George Wells (1866-1946).

Esse autor britânico, como vim a saber, divide com o francês Júlio Verne o mérito do pioneirismo no gênero que mais tarde ganharia o nome de ficção científica. Verne e Wells não foram realmente os primeiros a escrever coisas do tipo (o famosíssimo Frankenstein, de Mary W. Shelley, em tudo e por tudo uma história de ficção científica, é de 1817), mas foram os primeiros escritores que se dedicaram de forma consistente ao gênero e conquistaram para ele um público fiel. Suas semelhanças, porém, terminam aí, pois os dois tinham estilos muito diferentes. As obras de Verne costumam ser mais leves, com um sentido de aventura e descoberta que as torna atraentes tanto para o leitor adolescente quanto para o adulto, além de, não raro, terem um toque de humor (Da Terra à Lua tem trechos realmente hilários!). Ao mesmo tempo, Verne revelava uma preocupação maior com o aspecto "técnico" do que escrevia, procurava fornecer explicações plausíveis para a forma como as coisas de que falava eram ou viriam a ser possíveis. Wells, por sua vez, visava claramente um público mais maduro, e pensava mais no lado humano das situações. Para ele, não importava tanto como um homem pode ficar invisível ou qual a tecnologia usada pelos marcianos nas naves com que invadiram a Terra: interessava-lhe muito mais saber quais seriam as consequências disso tudo para a cultura e a sociedade.

A Ilha do Dr. Moreau, de 1896, ocupa um lugar à parte na obra de H.G. Wells. Mencionei há pouco o Frankenstein como sendo obra de ficção científica, e não há dúvida de que o é, embora seja lembrado com muito mais frequência como um clássico da literatura de terror. O fato é que o danado do livro pertence a ambos os gêneros, e A Ilha... também não está muito longe disso. Ao mesmo tempo em que levanta questões importantes sobre ciência e a ética dos cientistas, o livro está recheado de passagens sombrias e tensas, onde o horror ora é sutil, alimentado pela sensação indefinida de realidades desconhecidas e possivelmente hostis, ora explícito, por meio de presenças bizarras e assustadoras.

O livro trata das aventuras de um inglês do século XIX, Edward Prendick, que, após sobreviver a um naufrágio e penar miseravelmente durante dias num escaler à deriva no sul do Pacífico, acaba sendo resgatado por uma escuna que leva a bordo um sujeito misterioso de nome Montgomery, que diz viver numa pequena ilha sem nome, onde a embarcação o deixará antes de seguir para seu destino. Nos arredores da ilha, como o capitão bêbado e rabugento recusa-se a levar Prendick mais adiante, ele acaba sendo obrigado a desembarcar, e se vê jogado num pequeno mundo habitado apenas por Montgomery, por um velho cientista a quem ele parece servir de assistente, e por um grupo de homens de aparência estranha, parecendo fisicamente mal acabados, com inteligência subumana e certos inconfundíveis traços animais na fisionomia e no comportamento.

O nome do velho cientista, Moreau, não é estranho a Prendick, que acaba por se lembrar de onde o ouviu: Moreau foi em tempos um médico eminente na Inglaterra, famoso tanto por seu conhecimento quanto pelas ideias pouco ortodoxas e pela crença de que, em prol da ciência, os fins justificam quaisquer meios. Juntando as terríveis histórias que ouviu quando garoto com as coisas que vê na ilha, Prendick chega à horrenda conclusão de que os seres disformes que perambulam por ela já foram homens, ficando reduzidos àquela condição degradante como resultado de algum tipo de atroz experimento levado a cabo pelo médico ensandecido. Dou uma pista: as coisas não são como Prendick pensa - e mais que isso não digo, pois seria estragar o arrepiante mistério que serve de fio condutor à história.

Entre outras influências oriundas de sua sólida formação científica, H.G. Wells pautava suas ideias na teoria da evolução de Darwin, e, dessa forma, sua mente especulativa inevitavelmente levantaria a questão de em que momento o homem separou-se dos animais, e se a linha que os distingue é mesmo tão nítida quanto geralmente se acredita. Que diferença haveria entre um animal humanizado e um homem animalizado? Até onde é preciso ir para que o ser humano reverta à selvageria, que, afinal de contas, é seu estado natural? A Ilha... é também mais um exemplo do gosto de Wells por pequenos universos fechados utilizados como alegoria para a sociedade humana como um todo: em seu conto Em Terra de Cego, o vale isolado nos Andes, habitado apenas por cegos, é uma metáfora dos absurdos a que pode levar a construção do conhecimento por meio de uma filosofia materialista que não aceita a possibilidade de realidades fora do alcance dos sentidos físicos e da experiência direta; em A Ilha do Dr. Moreau, o comportamento por vezes insano dos habitantes da ilha é uma crítica aos dogmas religiosos e às convenções sociais - mas, paradoxalmente, a conclusão à qual a história leva é a de que, com os defeitos que possam ter, esses dogmas e convenções são indispensáveis para que a civilização seja viável.

Em tempo: sei da existência de três versões filmadas de A Ilha do Dr. Moreau. Nunca vi a mais antiga, de 1932, mas, pelo que pude descobrir sobre ela na internet, não deve ser grande coisa: o maior destaque parece ser uma sexy (para os padrões da época) "mulher-pantera", enxertada no roteiro para tentar aumentar a bilheteria. Os dois filmes mais recentes eu vi, e tudo o que posso dizer é que é difícil escolher qual o pior, se o de 1977, com Burt Lancaster, ou o de 1996, com Marlon Brando e Val Kilmer. Ambos jogaram fora a tensão e as ideias perturbadoras do livro em prol de cenas ordinárias de ação e de um horror canhestro que lembra aqueles filmes pastelão sobre lobisomens, mas sem a veia de humor autogozador que torna esses filmes divertidos. Num deles, os temores de Prendick (ou como quer que tenham rebatizado o personagem) se concretizam e o Dr. Moreau realmente tenta usá-lo como cobaia em suas experiências - coisa que o Moreau do livro jamais faria. Resumindo: 115 anos depois de sua publicação, uma das melhores obras do mestre H.G. Wells ainda está à espera de uma adaptação cinematográfica decente. Deixem o DVD desligado e leiam o livro.

sábado, fevereiro 12, 2011

O Imperador - Os Deuses da Guerra

E eis, finalmente, a conclusão da grandiosa série O Imperador! Mais uma vez, Conn Iggulden tomou certas liberdades em prol de seus objetivos literários, o que não tira o valor de sua obra como uma maneira envolvente e agradável de adquirir conhecimento histórico: bastará uma consulta a qualquer biografia resumida de Júlio César para que um leitor de habilidade mediana consiga acertar as coisas e ficar com uma noção muito boa de como foi a vida de um dos homens mais extraordinários que já pisaram neste planeta.

César, à frente de cinco legiões que o idolatram, acaba de transformar a rica e rebelde Gália na mais nova província romana, quando recebe a notícia de que o velho Crasso, que costumava ser o fiel da balança no delicado equilíbrio de poder entre ele e Pompeu, acaba de morrer. Pompeu, algum tempo antes, foi investido pelo Senado com o poder de ditador, a fim de que pudesse combater o crime organizado e salvar Roma do caos que ameaçava tragá-la - o que, é preciso reconhecer, fez com muita competência. Só que, passado o perigo, recusou-se a largar o osso, e é ainda na qualidade de ditador que ele envia a César a ordem de deixar suas legiões na Gália e retornar a Roma sozinho. E César, é claro, sabe que fazer isso significaria morte certa, de modo que decide desafiar a autoridade de Pompeu e marchar para o sul com a maior parte de seu exército, deixando na Gália apenas um número suficiente de homens para que a paz seja mantida. Há um episódio que Iggulden não narra, mas é um dos mais famosos da trajetória de César: ao chegar às margens do riacho conhecido como Rubicão, e ciente de que atravessá-lo levando o exército será considerado por Pompeu como um ato de guerra civil, César atravessou, declarando: "Alea jacta est" ('A sorte está lançada').

Guerra civil. Eis uma coisa que vai contra tudo o que fez Roma grande. Os gregos poderiam ter-se antecipado aos romanos e se tornado os senhores de um império que dominaria o mundo conhecido durante séculos (Alexandre, ao morrer, deixou tudo pronto para isso), se não fosse pelo fato de gostarem tanto de lutar uns contra os outros e por sua incapacidade de se unirem em torno de objetivos comuns. Os romanos levaram a melhor justamente porque se mostraram capazes disso - e, com o tempo, também estenderiam o mesmo sentimento aos não-romanos, fazendo de vários outros povos parte tão vital do Império quanto eles próprios. César sabia muito bem da primeira parte, e provavelmente era um dos poucos homens de sua época que também anteviam a segunda, e mesmo assim encarou a guerra civil; pode tê-lo feito por ambição pessoal ou por acreditar sinceramente que podia dar a Roma um futuro que Pompeu não podia, mas o mais provável é que tenha sido por um misto das duas coisas. De todo modo, voltando ao livro, ele marcha sobre Roma com suas legiões; Pompeu, inferiorizado em número de homens, foge para a Grécia, acompanhado pela maioria dos senadores, e assume o comando das legiões lá estacionadas, o que o coloca em vantagem numérica. Feito isso, espera pelo ataque de César, que, sem a menor dúvida, virá.

César toma posse de Roma sem derramar uma gota de sangue - o povo o recebe alegremente e o elege cônsul pela segunda vez, além de eleger um novo Senado, o que automaticamente coloca fora da lei a ditadura de Pompeu: para a maioria do povo da capital, César é seu governante legítimo. Mas ocorre algo desagradável: quando César indica Marco Antônio para o segundo posto de cônsul (eram sempre dois), Brutus fica indignado, considerando que Júlio deveria partilhar o poder com ele. Na verdade, como César explica a Marco Antônio (um tanto tarde demais: deveria ter explicado a Brutus, antes de fazer a indicação), não se trata de chutar ninguém para escanteio, mas simplesmente de distribuir as funções de acordo com os talentos de cada um. Marco Antônio é o homem certo para governar Roma enquanto César vai à Grécia haver-se com Pompeu - e Brutus, como o general formidável que é, será uma peça essencial para alcançar a vitória. Ou melhor, seria.

Brutus, cansado de dedicar a vida a serviço de um líder que ele acha que nunca vai reconhecer seu verdadeiro valor, decide ir para a Grécia e colocar-se sob as ordens de Pompeu - mas, naturalmente, é recebido com desconfiança, pois todos conhecem sua fama e sabem que sempre foi um dos partidários mais leais de César; por tudo o que Pompeu e seu lugar-tenente, Labieno, sabem, poderia ser um espião. E aqui está mais uma liberdade do autor: Brutus torna-se amante de Júlia, filha de César e esposa de Pompeu, que está na Grécia com ele, já tem um filho crescido e acaba engravidando do segundo - que pode muito bem ser de Brutus. Na verdade, nessa época Pompeu já estava casado com outra mulher, pois Júlia morreu no parto do primeiro filho, quando César ainda estava na Gália. É mera licença artística e, de certa forma, justiça poética, como se Brutus tivesse pensado: "Júlio 'pegou' minha mãe, então por que não posso 'pegar' a filha dele?"

O quanto Brutus era estimado por César fica evidente no fato de que sua deserção para o lado de Pompeu é histórica, como também o é o perdão oferecido por seu antigo comandante. Certo, César deu anistia a todos os que lutaram contra ele na guerra civil, mas uma coisa é perdoar soldados que estavam do outro lado desde o início, cumprindo seu dever para com seu comandante legítimo, e outra bem diferente perdoar um traidor. Nas legiões, a pena para a traição sempre foi a morte, e César não era o tipo de homem que tivesse por costume abrir exceções para favorecer amigos. O autor desenha a personalidade de Brutus de uma maneira bastante complexa e, pode-se dizer, humana, e, como tal, cheia de contradições. Ele é essencialmente um homem decente, mas não consegue esconder de si mesmo que as motivações que o levam a participar do assassinato de seu velho amigo não são somente patrióticas: ao zelo pela manutenção da República soma-se, sim, uma boa dose de inveja.

Iggulden vai empilhando gradualmente os motivos que levariam à vitória final de César na guerra civil, apesar de estar enfrentando um general quase tão astuto quanto ele próprio, mais velho e experiente, e com a vantagem dos números (Pompeu comandava onze legiões, cerca de 55 mil soldados, contra as sete de César, 35 mil; praticamente dois terços de todo o exército romano estavam envolvidos). O que acaba ditando o resultado parece ser o fato de que, enquanto Pompeu hesita, César toma decisões rápidas. Também pesa o uso ardiloso da propaganda: muitos dos legionários sob o comando de Pompeu são de opinião que César é mesmo o legítimo governante de Roma e de que Pompeu deveria submeter-se a ele. Deserções ocorrem e são punidas com brutalidade exemplar, o que vai minando mais e mais a confiança e a lealdade dos soldados de Pompeu, já insatisfeitos por estarem lutando contra compatriotas.

A guerra civil tem seu lance final quando, derrotado em Farsália (outras fontes dão Farsalos), Pompeu foge para o litoral, de onde embarca para o Egito - e é ao partir em sua perseguição que César, sem saber, está rumando para a última grande aventura de sua vida, aquela sobre a qual mais livros foram escritos e mais filmes rodados. Talvez tenha sido justamente por isso que Conn Iggulden optou por narrar essa parte da história de uma maneira tão resumida: fiquei surpreso ao perceber que já lera dois terços do livro sem que César houvesse posto os pés no Egito ainda. E dou-lhe razão: a vida de César foi de tal modo intensa e atarefada, que, a menos que o autor quisesse chegar a um quinto e, quiçá, a um sexto volume, era necessário ser enxuto em alguma parte. Melhor que fosse essa parte, já que não faltam opções a quem quiser conhecê-la em mais detalhes: basta ler uma biografia de Cleópatra - existem várias, algumas delas muito boas. Pela mesma razão, embora eu mesmo pudesse tecer diversos comentários sobre a relação do grande general e cônsul romano com a jovem rainha do Egito - relação que foi um retrato fiel do papel que suas respectivas civilizações representavam no mundo da época -, prefiro deixar isso para outra ocasião, pois trata-se de tema que merece mais do que umas poucas palavras. Em vez disso, meus dedos estavam coçando para escrever sobre as consequências dramáticas da traição de Brutus (o que já fiz) e sobre o perfil de Otaviano. Vamos a isso...

Como citei de passagem no comentário de A Morte dos Reis, Iggulden optou por criar uma proximidade maior entre Júlio César e Otaviano - que, aliás, só passaria a ser chamado assim depois de sua adoção por César: seu nome original era Caio Otávio Turino; com a adoção, passou a chamar-se Caio Júlio César Otaviano, ou seja, o nome igual ao do pai adotivo, acrescido do "Otaviano" para distinguir os dois e lembrar que, por nascimento, ele pertencera à família dos Otávios. Porém, por comodidade, continuarei a chamá-lo de Otaviano.

Historicamente, Otaviano era neto de uma das irmãs mais velhas de César, nasceu em 63 a.C., quando o próprio César estava com cerca de 37 anos de idade e começava a ficar famoso, e estava na adolescência - um jovem extremamente inteligente e promissor - quando o tio-avô, não tendo (até então) tido nenhum filho homem, decidiu adotá-lo. Estava com 18 anos quando César foi assassinado, empenhou-se ferozmente em caçar e punir seus assassinos, e foi um dos principais personagens no cenário político dos anos seguintes, acabando, em 27 a.C., por sagrar-se imperador, com o nome de César Augusto. Aliás, foi o primeiro imperador de Roma.

Conn Iggulden quis que Otaviano fosse um dos companheiros de César durante seus longos anos de campanhas militares, e, para tanto, começou por alterar o grau de parentesco e a diferença de idade: o sobrinho-neto transformou-se em um primo apenas alguns anos mais jovem. Além disso, o perfil do personagem também mudou: na série, Otaviano é um perfeito guerreiro romano, um espadachim excepcional, treinado por Rênio e Brutus. Comanda uma legião e, a partir da deserção de Brutus, também se torna o líder dos extraordinarii, a cavalaria de César. O verdadeiro Otaviano não era guerreiro de forma alguma: apenas tangenciou o serviço militar e talvez nunca tenha participado diretamente de uma batalha - eis um ponto em que não puxou a seu destemido tio-avô, que nunca deixou de lutar ao lado de seus soldados. O que não quer dizer que fosse um covarde: como diz Cômodo no filme Gladiador, existem diferentes formas de coragem. E de passagem, é sempre bom lembrar que Otaviano não se notabilizou entre os imperadores apenas por ter sido o primeiro: esteve entre os quatro ou cinco melhores durante os 500 anos nos quais Roma teve imperadores.

Tive a impressão de que os últimos dias de César foram narrados de uma maneira simplificada, como se o autor não quisesse se estender muito mais - o que é compreensível, ao fim de uma história de mais de 1600 páginas. Depois de ajudar Cleópatra a tomar o poder, César vive um caso de amor com ela; tudo indica que ela o tenha seduzido por interesse, mas depois acabado apaixonada de verdade. É Cleópatra quem dá a César o único filho homem que ele terá. É histórico que César levou-a a Roma ao voltar, talvez pretendendo divorciar-se de sua esposa, Calpúrnia, e oficializar o enlace, o que uniria os dois impérios, mas não viveu o suficiente para isso. O episódio em que Marco Antônio tenta colocar uma coroa na cabeça de César aparece aqui de modo muito diferente do que eu conhecia, e as motivações por trás dele, muito diferentes das que eu imaginava. Na narrativa de Iggulden, o próprio César pede a Antônio que venha com a coroa no momento de seu triunfo, e tira-a da cabeça desapontado quando percebe que o povo não gostou nem um pouco da ideia (sempre a velha prevenção contra reis e realezas, passada de pai para filho entre os romanos desde os tempos do domínio etrusco). Sempre acreditei, e ainda acho mais provável, que a ideia tivesse sido de Marco Antônio e outros, e que César houvesse se recusado a ser coroado justamente porque sabia que isso criaria antipatia entre a população e daria munição a seus opositores, que já adoravam compará-lo aos antigos e tirânicos reis etruscos, derrubados pela rebelião que instaurou a República.

Quanto ao assassinato, esse narra-se em poucas páginas, chegando a parecer estranho que seja uma passagem tão breve a pôr fim a uma história tão longa, o que imagino que esteja certo: quem ouviu a notícia deve ter experimentado uma sensação de absurdo. Como podia um homem que fizera tantas coisas grandiosas, durante tanto tempo, desaparecer assim, de uma hora para outra? Quando generais romanos eram homenageados com triunfos, um sacerdote os acompanhava na carruagem que os levava, com a tarefa de dizer-lhe a intervalos regulares: "Lembra-te de que és mortal". César foi lembrado desse fato da maneira mais implacável possível: apesar de tudo o que fora e fizera, não podia haver dúvida de que continuava a ser mortal, pois não escapou à ação do caos inerente que rege a existência humana - depois de sobreviver a tantas batalhas, foi morto por pessoas em quem confiava, num lugar que deveria ser seguro.

Sei que já disse ou dei a entender isso várias vezes durante os últimos meses, mas não é possível concluir sem dizê-lo de novo: O Imperador é uma grande e maravilhosa série, que recomendo sem restrições a quem, como eu, ama o mundo antigo greco-romano, ou simplesmente gosta de biografias bem escritas... além de não se intimidar com leituras extensas! Conn Iggulden finaliza a nota histórica deste último volume dizendo que "nos próximos anos posso ter de escrever uma história do que ocorreu depois do assassinato". E sem dúvida deveria fazê-lo: a vida de César deu início a um grande ciclo, que sua morte não encerrou. Personagens como Otaviano, Brutus, Marco Antônio, Cleópatra e muitos outros ainda realizariam muitos feitos dignos de serem narrados e teriam papéis fundamentais no nascimento do mais duradouro e influente império que o mundo ocidental já viu.

sábado, janeiro 22, 2011

O Imperador - Campo de Espadas

O terceiro volume da série O Imperador começa na Espanha, para onde Júlio César foi mandado após sua participação na campanha contra Espártaco, no final de A Morte dos Reis. O cônsul Pompeu o designou para esse posto justamente para tentar evitar que o jovem general, cuja extraordinária inteligência e coragem estavam se tornando notórias, ganhasse excessiva popularidade entre os habitantes de Roma, o que poderia acabar por catapultá-lo para uma arrasadora carreira política - e Pompeu viveria o suficiente para constatar que seus temores não eram infundados. Aliás, a natureza da relação entre Pompeu e César parece ser outra liberdade tomada por Conn Iggulden: segundo ele, os dois tratam-se com respeito mútuo, mas também com muita desconfiança, enquanto mais de uma fonte histórica afirma que eram verdadeiramente amigos, apesar das disputas políticas que acabariam por colocá-los em lados opostos de uma guerra civil. Sem esquecer que Pompeu, viúvo e de meia-idade, casou-se com a filha adolescente de César, que morreria de parto enquanto o pai ainda estava envolvido com a campanha na Gália.

De qualquer forma, já que teve que ir para a Espanha, Júlio faz do limão uma limonada e aproveita os quatro anos seguintes nas ensolaradas planícies desse país para aprender inúmeras coisas, treinar uma magnífica força montada, com os inigualáveis cavalos locais, para servir de apoio a sua nova legião, a Décima - sucessora da lendária Primogênita de seu tio Mário - e, como é um sujeito prático, também para amealhar uma considerável fortuna mediante a exploração das minas de ouro ibéricas. Tal riqueza, a rigor, pertence à República, mas vem a servir para tornar possíveis diversos projetos de César que, ao fim de tudo, visam o bem de Roma... De certa maneira. Ao seu lado estão todos os seus companheiros fiéis: seu primo adolescente, Otaviano; Brutus, o amigo de infância; Rênio, o mestre da espada; Cabera, o curandeiro; e Domício, um centurião da Décima. Mais importante que tudo, César mostra-se um governante consciente e visionário, que já sonha com o dia em que os povos conquistados cooperarão com Roma não por medo, mas por convicção.

Inesperadamente, Servília, a mãe de Brutus, aparece do nada, com algumas de suas "meninas" e o projeto de abrir em Valência uma filial de seu luxuoso lupanar em Roma, aproveitando o fato de que seu filho é um dos principais oficiais da legião local, o que garantirá que o estabelecimento possa operar em segurança (ela não é nada tola). O que não estava em seus planos era acabar envolvendo-se com Júlio, que, tendo ficado viúvo muito jovem e vivendo há anos numa espécie de celibato, acaba não resistindo aos encantos dela, apesar de ter a idade de seu filho - é bom lembrar que o autor tomou certas liberdades, como detalhei em minha resenha do primeiro volume, Os Portões de Roma: César e Servília realmente foram amantes, mas provavelmente sob condições bem diferentes.

Sabendo que, se ficasse na Espanha até o fim dos cinco anos designados, Pompeu simplesmente acharia outro fim de mundo para onde mandá-lo, César, numa das decisões ousadas que eram típicas dele, decide retornar a Roma um ano antes do previsto, mesmo arriscando uma severa punição. E ao retornar, com seus amigos, sua legião e a riqueza que juntou, candidata-se ao cargo de cônsul. Enquanto prepara sua campanha, acontece a tentativa de golpe de Estado capitaneada pelo senador Lúcio Sérgio Catilina (a célebre "Conjuração de Catilina"), que César ajuda a frustrar, utilizando a Décima e seus novos cavaleiros, que, após o longo treinamento na Espanha, mostram-se uma perfeita máquina de guerra - a descrição da batalha é magistral!

Eventualmente, César se elege cônsul, junto com um senador de nome Bíbilo, um perfeito banana, que só se candidatou por insistência de seu amigo, o antigo vizinho e desafeto de César, Suetônio (nada a ver com o famoso historiador: Iggulden apenas precisava de um nome romano para esse personagem fictício e, aparentemente, usou o primeiro que lhe ocorreu). Depois de garantir que Bíbilo não será um problema, César firma um acordo com Pompeu e Crasso, que, tendo deixado o cargo de cônsules, retornam a suas cadeiras no Senado: está fundado o Primeiro Triunvirato. Deixando seus dois aliados para cuidar da cidade, Júlio, já empossado como cônsul, parte para a Gália à frente de um exército, para sujeitar esse vasto e rico país bárbaro ao domínio romano.

E a narração da campanha gaulesa é uma das melhores coisas de toda a série. César sempre confiou na disciplina e na superioridade tática de suas legiões, que costumavam ser determinantes ao enfrentar inimigos geralmente pouco organizados, mas agora está diante dos gauleses, que, além de muito corajosos e fortes, não são totalmente ignorantes da arte da guerra, combatendo com um certo planejamento e, de acordo com Iggulden, adotando uma formação de combate semelhante à falange grega (que, se não tinha a mesma agilidade e capacidade de manobra da legião romana, ainda assim estava longe de ser um adversário desprezível), sem falar na enorme superioridade numérica. César explora com inteligência as rivalidades que separam as diferentes tribos gaulesas, conquistando a colaboração de algumas e enfrentando outras em batalha - e o maior empecilho que encontra pela frente é um certo Cingeto, filho do rei da tribo dos arvernos, que aparece no livro ainda como um jovem de cabeça quente que não vê com bons olhos a presença romana em seu país, e, mesmo não sendo o filho mais velho, acaba sucedendo ao pai, quando então tem seu nome mudado para Vercingetórix (o sufixo -rix acrescentado ao nome significa rei; não há como não notar que é quase igual ao latim rex, o que é apenas um entre os inúmeros indícios que apontam a provável origem comum de latinos e celtas). O gênio impetuoso não impede Cingeto de ser astuto o bastante para compreender que as divisões entre seu povo favorecem os conquistadores, e trabalha para unir as tribos contra o inimigo comum.


É em Campo de Espadas que o fiel Brutus, amigo mais antigo de Júlio, começa a questionar a própria lealdade ao ver a megalomania que parece ter-se apossado de seu chefe: Júlio parece obcecado por colocar seu nome na História ao lado do de Alexandre, levando suas legiões a terras cujos habitantes nunca ouviram falar de Roma (e a verdade é que, como conquistador, César superaria Alexandre, pois este, embora tenha conquistado uma extensão maior de terras, não foi capaz de impor aos povos dominados a marca de sua cultura: seu vasto império se desfez em poucas décadas após sua morte. Já César conquistou países que pertenceriam ao Império Romano durante séculos e mostram até hoje a influência romana em suas línguas, cultura e sociedade). Porém, para Brutus, que o conhece desde que eram meninos, o que parece é que César pensa apenas em engrandecer o próprio nome, forjar a própria lenda. Ao mesmo tempo, a amizade que parecia inabalável é sacudida por mágoas pessoais, principalmente o fato de Brutus nunca ter aceitado de fato a relação amorosa entre seu amigo e sua mãe, e a confiança que César passa a depositar em Marco Antônio, a quem conhece na Gália, o que leva Brutus a sentir-se posto de lado.

A fim de não alongar demais uma história já tão grande, o autor optou por não narrar a primeira e fracassada expedição de César à Bretanha - há um corte e ele já aparece dando início à segunda, a que seria bem-sucedida. Apenas as recordações de Júlio revelam alguns dos detalhes da primeira tentativa: esperando encontrar pouca resistência, ele invadiu a grande ilha sem levar sua cavalaria, que seria muito difícil de transportar. O mau tempo fez sua parte, tornando o desembarque dramático, e a isso vieram somar-se os ataques dos guerreiros bretões, usando uma arma que, embora já fosse considerada ultrapassada na época, provou ainda ser capaz de fazer sérios estragos: carruagens de guerra. A bordo delas, os nativos alvejavam os legionários com flechas e dardos e depois fugiam antes que eles pudessem chegar perto o suficiente para revidar, o que acabou por minar-lhes completamente o moral e forçou César a ordenar a retirada depois de apenas 16 dias. No ano seguinte, aproveitando as lições aprendidas, retornou e submeteu os bretões. Mesmo assim, essa invasão é um claro exemplo de uma campanha com fins "publicitários", já que demonstrou-se impossível para Roma, naquele momento, manter uma verdadeira estrutura de ocupação na Bretanha, e César sem dúvida sabia que assim seria. No fundo, o real objetivo dessas duas expedições era punir os bretões por haverem apoiado os gauleses contra Roma, além de impressionar estes últimos e desencorajá-los de resistir ao domínio romano, e também colher para o próprio César uma glória pessoal que mais tarde o favorecesse em suas ambições políticas. Mais uma coisa a pesar nos desgostos de Brutus para com seu amigo e comandante. Para constar, registro que a Bretanha só seria verdadeiramente conquistada sob o imperador Cláudio, cerca de um século depois.

É no retorno da Bretanha que César enfrenta a já citada rebelião de Vercingetórix, que chega a colher uma importante vitória na cidade de Gergóvia, que resiste ao ataque dos romanos, mas acaba derrotado na decisiva batalha de Alésia, apesar de ter conseguido pôr em campo tantos guerreiros de diferentes tribos, que se calculou que os romanos sob o comando de César estavam inferiorizados à razão de cinco para um, o que não impediu que vencessem mesmo assim (tudo isso é histórico). Esse golpe definitivo, que põe a Gália de joelhos de uma vez por todas e a converte de fato numa província romana, torna César tão grande que, a partir daí, a guerra civil passa a ser inevitável, pois Pompeu, agora ditador, vê nele uma força capaz de se equiparar à sua.

Campo de Espadas é uma continuação mais do que digna para a série O Imperador, uma teia fascinante de intriga, poder, superação, coragem, lealdade e traição. Mesmo com as adaptações feitas em prol do objetivo literário, ainda dá ao leitor uma compreensão muito precisa de como foi a edificação do Império Romano, uma das civilizações mais impressionantes e sem dúvida a mais influente de toda a História no mundo ocidental. E cria uma grande expectativa sobre Os Deuses da Guerra, parte final da série.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

O Imperador - A Morte dos Reis

Terminei de ler o segundo volume da série O Imperador e continuo sem saber o que o título A Morte dos Reis tem a ver com seu enredo. O primeiro, vá lá, chamava-se Os Portões de Roma porque foi nele que Júlio César entrou na cidade pela primeira vez. Agora, A Morte dos Reis?... Roma só teve quatro reis "legítimos": seu fundador Rômulo, Numa Pompílio, Tulo Hostílio e Anco Márcio, e isso foi nos séculos VIII e VII a.C.; depois, caiu sob domínio etrusco e passou a ser governada por reis provenientes desse povo, o último dos quais, Tarquínio, o Soberbo, foi derrubado em 509 a.C. Por causa do tempo vivido sob domínio estrangeiro, os romanos haviam criado uma antipatia instintiva por reis e realezas em geral, que, aos seus olhos, tinham-se tornado sinônimo de tirania; de modo que, por ocasião da queda de Tarquínio, juraram que nunca mais seriam governados por rei algum: estava fundada a República. Mais de quatro séculos antes de Júlio César nascer, como se vê.

Durante esse tempo, a República havia tentado conciliar os interesses dos diferentes setores da sociedade romana - o que, embora nunca tivesse sido fácil, era com certeza menos difícil enquanto Roma foi uma pequena nação de agricultores-guerreiros, tornando-se cada vez mais complicado à medida em que ela crescia em população, poder e riqueza. Na época em que se ambienta esta história, o sistema encontrava-se enfraquecido por disputas de poder, pelo tráfico de influências e pela corrupção - mas, mesmo assim, ainda conseguia assegurar aos romanos viver numa sociedade mais justa que 90% dos outros povos da época. Ou, pelo menos, mais próxima de ser justa.

"Sabe o que significa a palavra 'república'? (…) Poucos dos meus colegas senadores parecem entender. Vivemos uma ideia, um sistema de governo que permite a todos terem voz, até mesmo o homem comum. Percebe como isso é raro? Cada outro pequeno país que eu conheço tem um rei ou um chefe governando. Ele dá terras aos amigos e tira dinheiro dos que se desentendem com ele. É como ter uma criança à solta com uma espada. Em Roma temos o governo da lei. Ainda não é perfeito, e nem mesmo justo como eu gostaria, mas tenta ser, e é a isso que dedico minha vida. Vale minha vida; e a sua também, quando chegar a hora." Essas palavras, na verdade, estão no primeiro volume da série, e são ditas pelo senador Caio Júlio César ao filho ainda pequeno; coloco-as aqui porque é em A Morte dos Reis que tem início, propriamente, a complicada relação entre o Júlio César mais jovem e a República romana, instituição que ele começou servindo, mas à qual acabaria pondo um fim.

Os Portões de Roma termina com a tomada da capital por Cornélio Sila, arquirrival do tio e mentor de César, Mário. Este último é assassinado e todos os que o apoiavam são obrigados a fugir para evitar a vingança de Sila. O meio que o jovem Júlio encontra para escapar é alistando-se para dois anos de serviço militar no mar. É nessa situação que vamos encontrá-lo no início deste segundo volume, servindo a bordo de uma galera, com o posto de tesserário - um oficial de baixa patente, auxiliar de um centurião. Começa a destacar-se por sua coragem e capacidade de liderança por ocasião da tomada da fortaleza de Mitilene, numa ilha grega que se havia rebelado contra o domínio romano, mas mostra seu verdadeiro calibre mais tarde, quando a galera é afundada por piratas e os poucos sobreviventes são aprisionados à espera de resgate. Durante os duros e intermináveis meses de cativeiro, sua força de vontade e seu dom para inspirar coragem aos companheiros são reconhecidos por quase todos - inclusive o capitão Gadítico, antigo comandante da galera, que acaba cedendo o comando ao jovem. Quando o resgate finalmente chega, o escasso punhado de agora esquálidos e maltrapilhos oficiais navais é por fim libertado numa praia do norte da África, próximo de um povoado romano de onde, com alguma sorte, poderão tomar um navio para casa. Só que, ao invés de fazer isso, César decide tomar nas próprias mãos a tarefa de punir os piratas, tanto para restaurar seu orgulho abalado quanto para tentar reaver os vultosos resgates pagos pelas cabeças de todos eles e que, na maioria dos casos, deixaram suas famílias à beira da miséria. Para tanto, ele e seus companheiros começam a percorrer os povoados romanos da região, recrutando jovens que são na maioria filhos de legionários reformados, treinando-os por conta própria e equipando-os da melhor maneira possível.

Por mais disparatado que pareça o plano de César, de caçar um navio pirata entre as centenas que infestam o Mediterrâneo naqueles dias (sem esquecer que achar os piratas é a parte fácil, pois, uma vez isso feito, ainda será preciso derrotá-los), o fato é que consegue levá-lo a bom termo, e nem mesmo ele imagina que essa ainda está longe de ser a maior proeza que realizará durante esse tempo de exílio. Ao aportar na Grécia, César fica sabendo de duas coisas. Uma é boa: Sila morreu, de modo que, em teoria, ele poderia voltar a Roma; a outra, nem tanto: o rei grego Mitrídates do Ponto, que certa vez já se levantara contra Roma, sendo subjugado por Sila, está encabeçando uma nova e sangrenta rebelião que já custou as vidas de centenas de cidadãos romanos. Enquanto, em Roma, os senadores discutem interminavelmente e não conseguem determinar um curso de ação por causa de suas rivalidades e picuinhas, César e seus companheiros mais uma vez encaram o desafio. Juntando os jovens recrutados na África com algumas centenas de idosos soldados veteranos, que eles mesmos reconvocam pelas cidades gregas, formam uma curiosíssima unidade onde novatos e anciãos combatem lado a lado (essa reconvocação, por falar nisso, é verossímil: os veteranos das legiões, ao retornarem à vida civil, recebiam terras ou uma quantia em dinheiro suficiente para iniciar um negócio, e juravam apresentar-se novamente a qualquer momento, caso Roma necessitasse deles). Com cerca de mil homens - um quinto do efetivo normal de uma legião -, valendo-se de táticas de guerrilha, César enfrenta o exército de Mitrídates, dez vezes maior (para saber mais detalhes e qual o desfecho da campanha, leiam o livro - hehehe).

Um dos pontos mais fascinantes (pelo menos para mim) deste segundo volume da série, é a descrição fluente e convincente da vida nas legiões, que chega a permitir até mesmo a quem jamais vestiu uma farda (como eu, por exemplo) ter um vislumbre das coisas que um soldado deve sentir e viver - e de modo especial, não qualquer soldado, e sim os das incríveis legiões romanas, de longe o melhor exército que já existiu. A carreira de um legionário típico eram 20 longos anos de disciplina férrea, treinamento intenso, trabalho exaustivo, desconforto, risco de vida e, não raro, privações - e no entanto, os que se reformavam sentiam saudades da vida na caserna e diziam a todos que aqueles tinham sido os melhores anos de suas vidas. Talvez fosse porque a legião acabava tornando-se uma espécie de família para seus integrantes - e, para os romanos, família tinha real importância -, devido ao tipo sui generis de camaradagem que só enfrentar a morte lado a lado cria entre as pessoas. Ou por causa do sentimento de orgulho e poder que vinha de fazer parte de um exército cuja disciplina e habilidade, conquistadas mediante anos de treinamento duro, não podia ser igualada por nenhum outro exército do presente ou do passado - e, embora eles não pudessem sabê-lo, nem o seria no futuro. Devia ser uma coisa extraordinária sentir-se parte de uma unidade de combate acostumada a enfrentar inimigos duas, três vezes mais numerosos, no próprio território deles - e vencer.

A Morte dos Reis abrange um período de vários anos, e durante grande parte desse tempo César e seu melhor amigo, Brutus, permanecem separados: enquanto o primeiro está às voltas com os piratas e com a revolta de Mitrídates, o outro acaba de concluir um período de serviço militar na Macedônia e Grécia, e, tendo alcançado o posto de centurião, retorna a Roma, onde finalmente conhece sua mãe, Servília - que, na versão de Conn Iggulden, é uma prostituta de luxo; na verdade, quando o filho a encontra, ela praticamente já deixou de exercer a profissão, limitando-se agora a administrar um dos bordéis mais suntuosos de Roma, frequentado por muitos dos homens mais notáveis e poderosos da cidade, incluindo vários senadores. Graças à natureza de suas atividades, Servília tem mais e melhores contatos nas altas rodas de poder do que muitos de seus clientes, e é graças a ela que Brutus obtém do Senado permissão para reconstituir a Primogênita, a antiga legião de Mário, que foi praticamente exterminada quando Sila tomou o poder: como sua simples existência poderia suscitar a rebeldia dos cidadãos que eram leais a Mário, os poucos sobreviventes haviam sido obrigados a abandonar a vida militar, e o nome da legião fora removido das listas oficiais. Brutus, com a ajuda de seu antigo mestre Rênio, e contando com o apoio dos senadores Pompeu e Crasso, conquistados para sua causa por Servília, trata de reunir esses sobreviventes e de começar a recrutar novos soldados, prevendo que, quando Júlio voltar a Roma, precisará de uma força que lhe seja leal.

Outros personagens históricos vão pipocando na narrativa, adaptados aos objetivos ficcionais de Iggulden. Por exemplo, quem assistiu à série Roma terá dificuldade em reconhecer Atia (pronuncie Ácia), lá uma dama ambiciosa da alta sociedade, aqui uma mulher pobre mas orgulhosa, que não esqueceu suas origens nobres e trabalha duro para sustentar-se e ao filho, Otaviano. Os graus de parentesco foram mudados para que Otaviano ficasse mais próximo de César: historicamente, Atia era sobrinha de César, filha de uma irmã mais velha dele, e, portanto, Otaviano era seu sobrinho-neto; neste livro, Otaviano transforma-se em primo de Júlio, com a diferença de idade entre os dois enormemente reduzida. Mesmo assim, é engraçado ler sobre as peripécias do moleque magricela e de cara suja que vagabundeia pelos mercados de Roma praticando pequenos furtos - para desespero da mãe - e pensar que esse mesmo moleque será um dia o primeiro imperador (o próprio Júlio César nunca foi imperador, embora, na prática, tenha tido o poder de um).

O último feito de César e Brutus (novamente reunidos) neste volume, é sua participação na repressão à rebelião de Espártaco, que sobressai entre as muitas revoltas de escravos registradas na história romana, principalmente por suas dimensões, que foram tais que alguns historiadores referem-se ao episódio como a "Guerra Servil". O exército sob o comando de Espártaco chegou a ter 80 mil homens - o dobro do efetivo somado das oito legiões enviadas para enfrentá-lo -, sem contar mulheres, crianças e outros não-combatentes, e não era formado apenas por escravos fugidos ou libertados das propriedades invadidas, mas também por camponeses livres, descontentes com sua vida de trabalho duro e poucos ganhos, e por bandidos comuns, atraídos pela oportunidade de saquear o que encontrassem pelo caminho. Pior que o tamanho do exército era o fato de Espártaco já ter sido um legionário, de modo que conhecia o estilo de luta e as estratégias dos que agora enfrentava. É fato histórico (e está no romance) que faltou muito pouco para que alcançasse Roma e a arrasasse. Já a participação de César no combate ao exército rebelde não tem evidências documentais que a comprovem, embora seja muito possível, já que é sabido que ele era, na época, um jovem oficial nas legiões. A descrição que Iggulden faz das marchas exaustivas e das batalhas desesperadas dessa campanha é um dos (muitos) pontos fortes deste segundo livro.

A Morte dos Reis, independentemente de não casar muito bem com seu título, não frustra em momento algum as altas expectativas criadas por quem leu Os Portões de Roma. Prosa marcante, personagens vivos, sequências de ação de tirar o fôlego, descrições poderosas que evidenciam por parte do autor um sólido e vasto conhecimento sobre a civilização romana - está tudo aqui. Até o momento, não estou nem um pouco cansado da série, de modo que pretendo passar imediatamente ao terceiro volume. Me aguardem...

domingo, novembro 14, 2010

O Imperador - Os Portões de Roma

"- Os vitoriosos sempre serão odiados. É o preço que pagamos. Se eles o amarem, vão fazer o que você quer, mas quando quiserem. Se o temerem, farão sua vontade quando você quiser. Então, é melhor ser amado ou temido?
- Os dois - disse Caio, sério."

* * *

Existem figuras históricas para todos os gostos, e qualquer uma que tenha sido efetivamente importante é sempre alvo de polêmica. O mesmo homem pode ser considerado por alguns como um estadista brilhante e patriótico, e por outros um tirano desprezível; uns podem vê-lo como um herói destemido, outros como um carniceiro vulgar. Isso é particularmente verdadeiro quando se trata de alguém que já em vida era amado e odiado com intensidades quase iguais, e ainda mais quando, amando-o ou odiando-o, é impossível negar sua importância. Concluo que, resumindo tudo o que disse até aqui, talvez a nenhum outro personagem histórico esses fatos se apliquem tão bem quanto a Caio Júlio César.

Nascido por volta de 100 a.C., numa família da pequena nobreza romana, não havia diferença entre ele e centenas de jovens oriundos de outras famílias com a mesma projeção. Alguns de seus biógrafos registram que não teve irmãos, apenas irmãs muito mais velhas - o que, por significar que deve ter sido o último filho de seus pais, e o único do sexo masculino, pode, em parte, explicar a obsessão por grandes feitos que o acompanharia por toda a vida: é provável que se sentisse responsável por glorificar o nome da família. Isso, pelo menos, pode ter sido o impulso inicial, que o levou a enamorar-se da fama e do poder em si mesmos - e de fato, Júlio César, o jovem de origem modesta, viria a alcançar um poder que nenhum romano antes dele tivera, e que bem poucos depois teriam.

Por ser uma figura tão ímpar, César não é fácil de biografar. Muitas tentativas já foram feitas, sendo que aquela que continua a ser a mais célebre foi ainda na Antiguidade - trata-se de Alexandre e César, do grego Plutarco (século II d.C.), que, como o título já deixa óbvio, compara as vidas dos dois maiores generais surgidos até então. Ressalve-se que César era um admirador devotado de Alexandre, que o precedeu em dois séculos e meio, e não se considerava tão genial quanto ele em matéria militar, embora se achasse (e, sem dúvida, fosse) mais habilidoso quando o assunto era a política. O que direi agora é basicamente uma impressão pessoal de alguém que desde a infância leu compulsivamente sobre ambos os personagens e sonhou com suas glórias, mas parece-me que, enquanto Alexandre era um idealista, César era predominantemente um homem prático - o que não significa que não tivesse seu lado sonhador, sem o qual ninguém jamais consegue realizar grandes coisas. De qualquer forma, a idade de cada um deve ter tido seu peso nesse ponto: Alexandre realizou seus maiores feitos com vinte e poucos anos e morreu antes de completar 33; César, por sua vez, não foi nenhum menino-prodígio: só começou a se notabilizar quando já tinha 37, 38 anos, e viveu até seus maduros 56.

Ufa... Depois dessa longa introdução (não tenho culpa se o assunto me empolga...), acho que já é tempo de começar a falar do livro - na verdade, livros - em si. A série O Imperador, escrita pelo inglês Conn Iggulden, é uma leitura absolutamente deliciosa. Para quem possui um conhecimento ao menos básico da história e cultura romanas, ela flui com facilidade e se torna rapidamente um ato febril. Iggulden soube modelar seu herói incluindo todos os traços de personalidade que o homem de carne e osso indubitavelmente teve, e mais alguns que é bem possível que tenha tido, o que resulta num personagem literário (frise-se a distinção entre isso e o personagem histórico) fascinante. É preciso ter em mente que trata-se de uma obra de ficção, para a qual a História serviu apenas de inspiração: ao final de cada volume, o autor incluiu uma nota onde detalha quais foram as liberdades que tomou em prol de seu objetivo de entretenimento. A principal dessas liberdades - e que resulta num dos aspectos mais cativantes da história (sem H maiúsculo) - refere-se à relação entre César e Brutus. Acho que convém dedicar um parágrafo a isso, pegando o assunto pelo início.

Todo mundo sabe que Brutus foi um dos assassinos de César - o problema é que isso é a única coisa que a maioria das pessoas sabe sobre ele. Algumas fontes dão, erroneamente, que ele era filho adotivo do ditador; oficialmente, os dois não tinham qualquer parentesco, fosse sanguíneo ou legal. Oficialmente, eu disse. O que havia era que César manteve um caso de muitos anos com Servília, que vinha a ser a mãe de Brutus, de modo que algumas pessoas acreditavam que este último, embora assumido como filho pelo marido de Servília, tivesse, na verdade, César como pai natural. E, como naquele tempo não havia teste de DNA, a dúvida nunca pôde ser tirada a limpo... De todo modo, César teve algumas atitudes paternais para com Brutus, interessando-se por sua educação e depois pelo encaminhamento de sua carreira. Brutus serviu no exército sob as ordens de César, e, mais tarde, iniciou-se na política sob os seus auspícios. César, portanto, o considerava seu amigo e aliado, o que justifica a surpresa desiludida com que o reconheceu entre seus assassinos, soltando então a frase célebre: "Et tu, Brute?" ('Até tu, Brutus?') O caráter de Brutus é assunto polêmico: os amigos de César, sedentos por vingança, o rotularam como um traidor desprezível e ingrato, movido pela ambição; outros o viam como um patriota corajoso, defensor irredutível da República, que, embora com dor no coração, teria concluído que César precisava morrer justamente porque havia se tornado um ditador, uma ameaça aos ideais republicanos. Esse último ponto de vista é adotado por Shakespeare em sua peça Júlio César, onde, depois de consumado o crime, Brutus declara: "Não é que eu não amasse César, mas meu amor por Roma é bem maior".

Como se vê, portanto, Brutus era muito mais jovem que César, já que podia mesmo ser seu filho. Essa é a primeira e maior liberdade tomada por Iggulden na série de que estamos falando: seus César e Brutus (aliás, Caio e Marco, como chamam informalmente um ao outro quando garotos) têm a mesma idade e são criados juntos na pequena fazenda do pai de Caio, nos arredores de Roma, desenvolvendo entre si uma amizade sólida e fraterna. Não fica claro como foi que Marco veio a ficar sob a tutela do pai de Caio - este apenas diz, vagamente, que prometeu ao pai do menino, quando este estava morrendo, tomar conta dele. Durante poucos anos inocentes, nos intervalos entre uma e outra aula com seus tutores, Marco e Caio fazem todas as travessuras a que têm direito - mas, a partir dos dez anos, começam a ser treinados pelo implacável Rênio, por sinal outra figura fascinante, um velho legionário reformado e ex-gladiador, considerado um dos maiores lutadores de Roma, que faz muito mais do que ensiná-los a manejar o gládio - a mortífera espada curta com a qual as legiões romanas puseram de joelhos inúmeros exércitos bárbaros que empunhavam armas bem mais impressionantes: endurece-os por meio de um treinamento ainda mais rígido que o imposto aos legionários, além de calculadamente fazer com que o odeiem, o que quase termina em desastre numa das passagens mais dramáticas do primeiro volume, Os Portões de Roma. Como resultado, Caio e Marco convertem-se em dois jovens rijos, espertos e perigosos, capazes de enfrentar o destino grandioso e cheio de riscos que os espera.

Os dois amigos se veem subitamente jogados no mundo adulto quando estão com 14 para 15 anos: uma grande rebelião de escravos estoura em Roma, e não poupa as propriedades rurais das redondezas. A fazenda é atacada por uma multidão de escravos em fúria e, na mesma noite em que os dois jovens têm seu batismo de sangue, sua primeira batalha, o pai de Caio tomba lutando. O jovem César é obrigado a tomar a frente dos negócios da família e assumir a responsabilidade por sua mãe, que, se já era desequilibrada, enlouquece de uma vez após perder o marido. Caio vai então a Roma procurar por seu tio Mário - general e cônsul, personagem histórico real e extremamente importante: entre outras coisas, Mário reformulou a organização interna das legiões e aboliu a exigência que existia até então, de se possuir terras para se alistar nelas. Com isso, cada legionário passou a poder viver de seu soldo, o que, na prática, fez da carreira militar uma profissão propriamente dita. Isso viria a fazer uma diferença enorme na história futura de Roma, não só no aspecto militar, mas também no social.

Com Mário, Caio começa a aprender sobre a intrincada e por vezes traiçoeira estrutura política da capital, conhecimento que lhe será essencial para que possa ocupar o lugar do pai no Senado e honrar a tradição da família. Porém, ele chega num momento crítico, exatamente quando seu poderoso tio e o rival deste, o outro cônsul, Cornélio Sila, estão no meio de uma dificílima queda-de-braço pelo poder supremo em Roma. Enquanto Marco, que, embora sem berço, impressionou Mário por sua coragem e capacidade, recebe deste uma carta de recomendação e parte para começar sua carreira militar na Macedônia, Caio permanece junto do tio, aprendendo a ser um membro da nobilitas, conhecendo as forças e as fraquezas de Roma e dos romanos, a lei e os costumes, as artes da guerra e da política, e, principalmente, aprendendo sobre a natureza humana - tudo o que mais tarde faria dele um dos homens mais famosos e admirados que já viveram.

Costumo dizer que o problema em ler séries de livros é que, se você tenta ler todos de uma enfiada só, acaba cansando, e, por outro lado, se lê um, deixa passar algum tempo, lê outras coisas, para só então pegar o próximo volume, acaba esquecendo detalhes importantes e fica meio perdido. Desta vez vou correr o risco e experimentar ler a coisa toda de uma vez - e, pela primeira vez, tentarei comentar todos os volumes de uma série, pois acho que esta merece o esforço - e a diversão. Espero que as resenhas fiquem à altura dos livros em si! Desejem-me sorte.